
50 CONTOS BANTU DO SUDOESTE DE ANGOLA


Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola
Informações da publicação:: Estermann, Carlos.
TEXTO COMPLETO
Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola
MEMORIAS E TRABALHOS DO INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO
CIENTIFICA DE ANGOLA
7
CINQUENTA CONTOS BANTOS DO SUDOESTE DE ANGOLA
— TEXTO BILINGUE COM INTRODUÇÃO E COMENTARIOS —
Por Pe.
CARLOS ESTERMANN com
a colaboração do Pe.
ANTONIO JOAQUIM DA
SILVA
LUANDA
INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA DE ANGOLA
— 1971 —
Índice
PREFACIO 7
INTRODUÇÃO 11
A
CONTOS DE ANIMAIS
I
A HIENA E O CHACAL
(quatro narrações)
1 a 4
33
1. Ehunyu na Kavandye
A Hiena e o Chacal 35
2. Votyimbungu na Kavandye
A Hiena e o Chacal 49
3. Ehunyu na Kavandye
A Hiena e o Chacal 51
4. Ongalanga na Kavandye
A Hiena e o Chacal 55
II
OUTROS ANIMAIS
(cinco narrações)
5 a 9
59
5. Onkhulika n'Okavandye
O Leão e o Chacalzinho 61
6. Ovo Mbambi na Ndimba
O Antilope Bâmbi e a Lebre 67
7. Otyindimba na Kangwe
A Lebre e o Leopardo 71
8. Ovo Mbeu na Ndyamba na Ngeve
O Sapo-Concho, o Elefante e o Hipopótamo 75
9. Ohamba Yovinyama n'Omona wae Omuwa Omufikwena
O Rei dos Animais e sua Filha Linda e Jovem 79
B
CONTOS EM QUE INTERVÊM MONSTROS ANTROPÓFAGOS
(catorze narrações)
10 a 23
95
10. Ekihi n'Omunthu
Um Monstro e uma Pessoa
97
11. Ekuti n'Ekihi
Uma Rola e um Monstro 99
12. Ekihi lyatyituka Otyihingi
O Monstro transformado em Cepo 101
13. Ekihi n'Otyitumpwa
O Monstro e a Moça Casadoira 105
14. Ekihi n'Omukai
O Monstro e a Mulher 109
15. Ekihi na Nehova
O Monstro e Nehova (1) 113
16. Ina a Mundyongo n'Ekihi
A Mãe de Mundyongo e o Monstro 117
17. Omona wa Hautyali n'Omakihi
O Filho de Hautyali e os Monstros 123
18. Ekisi n'ovo Nehova
O Monstro e Nehova (2) 127
19. Ononkhumbinkhumbi
As “Cegonhas? 131
20. Omukai n'Ekisi watyituka Omunthu
Uma Mulher e um Monstro transformado em Pessoa 135
21. Ouye woMakihi
A Tirania dos Monstros 139
22. Omukwendye Wakalisa
Um Rapaz Pastor
145
23. Ekisi na Nehova
Um Monstro e Nehova (3) 149
C
“ESTÓRIAS? DA VIDA QUOTIDIANA
(três narrações)
24 a 26
153
24. Ovakai vahombolelwe Ombanda
Um Homem com duas Mulheres 155
25. Omukai Omulemi
Uma Mulher Grávida 157
26. Omulume n'Omukai
Um Homem e uma Mulher 159
D
CONTOS CONTENDO ELEMENTOS DE MAGIA
(vinte e uma narrações)
27 a 47
163
27. Ovakainthu vekwana n'Okamukulukai
As quatro Raparigas e a Velhinha 165
28. Omumati n'Ondila
O Rapaz e o Pássaro 169
29. Omukai n'Omuloi watyituka Omulume
A Mulher e o Bagre que se mudou em Homem 171
30. Omukai Epongo
Uma Mulher Pobre 175
31. Okalya-Makunde na Kalya-Vanthu
O Papa-Feijões-Frades e o Papa-Gente 181
32. Omulume Wotyimpulu n'Ovakai Vevali
O Homem Ladrão com duas Mulheres 185
33. Omukai Omulemi
Uma Mulher Grávida (2) 189
34. Omukai wamena Omulungu ukoka lo Pohi
A Mulher de Beiços Compridos a arrastar pelo Chão 191
35. Omulume Wahombola Ombanda
Um Homem com duas Mulheres 195
36. Omulume Wanepa Ombanda
Um Homem com duas Mulheres 199
37. Omulume Omukongo n'Omona wae
Um Caçador e seu Filho 203
33. Ombwale n'Omona Womukainthu Epongo
O Velho e a Menina Pobre 207
39. Omulume n'Omona wae n'Otyindondi
Um Homem, seu Filho e o Macaquinho 213
40. Omulume n'Omukai n'Eila
Um Homem, sua Mulher e um Pássaro 217
41. Omulume Wahombola Ombanda
Um Homem com duas Mulheres 219
42. Omulume n'Omukai wae p'Enima Lyondyala
Um Homem e sua Mulher num Ano de Fome 221
Prefácio
Alguém que andou, por dever de ofício, muito ligado à edição
dos três volumes da “Etnografia do Sudoeste de Angola?, perguntou-me, ao ter
conhecimento de mais este trabalho, se ele constituia o quarto volume da obra.
Respondi-lhe que sim.
No entanto esta afirmação necessita de ser justificada, por
este presente estudo apresentar apenas um desenvolvimento de um parágrafo do
plano geral que articula a obra completa. Estou a referir-me ao capítulo da literatura
oral de que cada volume oferece uma pequena antologia dos quatro géneros
literários: conto, adivinha, provérbio e canto. Entre eles convinha dar realce
ao conto popular, porque nele se reflectem melhor do que nos outros géneros, as
diversas fases da vida material e mental dos povos do Sudoeste de Angola.
Linguìsticamente, também tal espécie de literatura merece preferência, pois
apresenta o falar genuíno, a verdadeira prosa desta gente, enquanto que as
adivinhas e os provérbios se aproximam já muito da arte poética.
43. Omufiko n'ovaKwendye valiwa na Ina
Uma Moça Casadoira e seus Noivos acometidos pela Futura
Sogra 235
44. Nehova
Nehova 239
45. Omulume n'Omukai n'Endila
Um Homem, sua Mulher e um grande Pássaro 243
46. Omuhikwena wakatiava ononkhwi
Uma Rapariga que foi buscar Lenha 247
47. Kaniminimi, Ombumba Yomakihi, na Nangondwe Yok'
Omphanga Tyoulukuhu Yok'Eheva lyapaka
Kaniminimi, O Bando de Monstros e Nangondwe o da llha, o
das Cabacinhas de recolha no Mato de
Oxálidas cheias de Tubérculos
251
E
CONTOS QUE ENCERRAM ELEMENTOS MITOLÓGICOS
(três narrações)
48 a 50
257
48. Ekihi n'Omukai Omunthimba
O Monstro e a Mulher Grávida 259
49. Nambalisita
Nambalisita 267
50. Nambalisita (2)
O “A-Mim-Me-Gerei? 275
ÍNDICE ANALíTICO ALFABÉTICO 287
BIBLIOGRAFIA 295
Ainda a respeito da “parcelaridade? do trabalho é necessário
acrescentar que os cinquenta contos aqui publicados foram recolhidos ùnicamente
entre os Bantos da região. E mesmo entre estes, forçoso foi pôr certos limites.
Assim, ficou excluido o grupo étnico Herero e o grupo étnico dos Ambós figura
apenas com duas narrativas. No próprio grupo Nhaneca-Humbe não foram abrangidas
as etnias: Quipungo, Handa e Quilengues-Humbe.
O motivo principal destas restrições reside no modo da
recolha. Com efeito dois terços das narrativas foram registadas no gravador e
nesta tarefa a minha precária saúde não permitiu abraçar uma grande área e
prolongar os trabalhos de campo por muito tempo. Tendo em conta todas estas
limitações é perfeitamente aceitável considerar este volume como fazendo parte
da “Etnografia do Sudoeste de Angola?
De resto, a conexão entre as duas partes da obra campleta
torna-se mais que evidente à medida que se vai avançando na leitura deste
último volume. Com efeito, no decorrer da redacção vi-me obrigado a resumir ou
transcrever excertos de trechos dos dois primeiros volumes da “Etnografia? para
os inserir nos comentários apensos aos iextos das narrativas. Nestes mesmos
comentários, esbocei também um pequeno estudo comparativo com obras similares, referentes
a algumas-poucas etnias de Angola. Neste ponto também houve que pôr limites,
porque são raras as obras publicadas e destas só dispomos das da autoria de
três escritores: Héli Chatelain, A. Hauenstein e Óscar Ribas.
O primeiro editou o seu estudo, a todos os títulos notável,
há mais de três quartos de século e apesar de ser obra de pioneiro, não deixa
de ser actual, a que ainda hoje se recorre com muito proveito.
O segundo autor mencionado é conterrâneo do primeiro e
trabalha já há duas dezenas de anos numa missão fundada por aquele, podendo
hoje apresentar uma obra etnográfica de vulto. Utilizei dele dois estudos.
Infelizmente não consegui adquirir o livro de Óscar Ribas.
Foi-me cedido a título de empréstimo por um curto prazo.
Por isso não foi possível citar o autor com dados
bibliográficos completos
Como se vê, incidem num campo bastante restrito as minhas
reflexões sobre analogias fabulísticas em Angola e só uma ou outra vez
atrevi-me a ultrapassar as suas balizas e fazer alusão a temas universais.
Na elaboração da introdução redigida depois dos comentários,
inspirei-me, nas linhas gerais, na exposição magistral de dois coordenadores e
editores de contos africanos: Harold von Sicard e Manuel Viegas Guerreiro
Mas quem merece uma menção honrosa especial é o Pe. António
Joaquim da Silva, grande conhecedor do falar dos Nyanecas que, graças a um
subsídio do Instituto de Investigação Científica de Angola, acaba de editar um
volumoso dicionário deste idioma. Este meu colega nas lides missionárias,
aceitou benevolentemente o duro trabalho de transcrever do gravador, grande
parte das narrativas nele registadas, ao mesmo tempo que as vertia em
português.
Escusado será dizer que esta segunda tarefa não ofereceu
grandes dificuldades para ele. Em seguida, durante a composição do volume ele
continuou a servir dedicadamente como consultor linguístico, ianto na parte Nhaneca
como na Portuguesa. Não é pois mais que justiça, se o seu nome figura no
frontispício do livro.
Aos auxiliares nativos devo, num certo sentido, a parte
mais substancial da obra e por isso, os seus nomes não podiam ficar esquecidos.
Aos que mais se distinguiram fez-se uma referência especial.
Também estou em dívida de gratidão para com dois membros do
Instituto de Investigação de Angola, os Srs. Drs. A. A. da Rosa Pinto e J.
Crawford Cabral, pelas indicações que me deram quanto àclassificação científica
das espécies da fauna angolana, mencionadas no volume. Se apesar da sua
preciosa colaboração, saiu errado um ou outro termo, não é decerto a eles que
se deve atribuir tal inexactidão, mas sim ao signatário destas linhas.
Finalmente, manda a equidade mais elementar, expressar o
meu reconhecimento ao Director do Instituto de Investigação Científica de
Angola, Sr. Professor Virgílio Cannas Martins. Pois sem o subsidio mensal
concedido desde que se colheram os primeiros elementos para o estudo, não teria
sido possível levá-lo a cabo. Neste preito de gratidão é justo incluir o Dr.
Carlos Lopes Cardoso, que naquela altura chefiava a Divisão de Etnologia e
Etnografia do dito organismo.
Também não posso omitir a valiosa colaboração de quem
copiou o manuscrito à máquina e elaborou o índice alfabético-analítico. Foi uma
antiga aluna do Colégio Paula Frassinetti de Sá da Bandeira que, apesar de uma auséncia
prolongada da sua terra natal, não se esqueceu da língua materna.
A Pauta musical de duas estrofes de dois contos, deve-se à gentileza
e ao saber do Pe. Azevedo Moreira, reitor do Seminário do Jau.
Munhino (Sá da Bandeira), Janeiro de 1970.
Introducão
Para uma boa compreensão dos contos publicados neste volume
é indispensável fazer anteceder a sua leitura de alguns esclarecimentos e
reflexões. Neles abordaremos em duas partes, os seguintes pontos:
Iª parte —Divisão em cinco categorias, com um tentame de
interpretação para cada uma.
IIª parte: 1. Recolha. 2. Narradores. 3. Línguas e
Linguagem.
Começamos por afirmar que nos idiomas bantu do Sudoeste de
Angola há um termo único para designar o conto popular, seja ele fábula, conto
propriamente dito ou lenda. O radical deste vocábulo é Ñgano, modificando-se
pela prefixação, consoante as diversas línguas e dialectos. Narrar um conto
diz-se okuta olu —ou oñgano, o que literalmente traduzido significa: lançar
(proferir) um conto. É curioso notar que os povos vizinhos, Bundos (Ovimbundu)
e Ganguelas não usam este termo, que, no entanto aparece no Karanga da Rodésia.
Quanto ao Kimbundu os utentes deste idioma distinguem semanticamente as três
classes de contos, ora mencionadas, conforme já fez observar no século passado
H. Chatelain e em nossos dias Óscar Ribas.
Além desta classificação, baseada na diferenciação feita
por uma língua nativa, os recolectores e editores deste género literário têm
proposto divisões em várias categorias, conforme o critério adoptado. Assim
temos por exemplo:
H. Junod a apresentar-nos seis categorias entre os Thongas e
Viegas Guerreiro dezoito entre os Macondes, dos quais publicou nada menos que noventa
e três narrativas. Deve ser de longe, a colecção mais subdividida de todas até
hoje publicadas. O critério por ele seguido, se bem que não exclusivamente, é o
do conceito moral que forma o tema central da narração.
Para a coordenação do material por nós recolhido fomos
guiados por directrizes algo diferentes e mais simples. As mesmas que usamos em
publicações anteriores. Restringe-se ao número de cinco a nossa repartição.
Ei-la: 1º — o conto de animais ou fábula pròpriamente dita. 2º — o conto cujos
protagonistas são monstros ou papões. 3º — o conto cujo conteúdo se compõe de
elementos da vida cotidiana com episódios algo fantasiados. 4º — o conto que
contém elementos de magia. 5º — o conto que apresenta alguns aspectos de carácter
mitológico.
Como se vê, o critério adoptado não é uniforme, tendo-se em
vista mais a qualidade, digamos física, dos personagens, do que o papel que
desempenham, nas duas primeiras categorias. Nas duas seguintes; prevaleceu a
norma valorativa do conteúdo, usando-se para a quinta classe um critério
combinado. Damos agora o número respectivo para cada categoria: Nove narrações
para a primeira, quatorze para a segunda, três para a terceira, vinte e uma
para a quarta e três para a quinta.
Exceptuando a quinta classe, a qual como já tivemos a
ocasião de afirmar em escritos anteriores, é fracamente representada em toda a
África Austral, os números indicados não representam de forma nenhuma um valor
absoluto quanto à proporção. E isto é tanto mais verdade quando se tem em vista
que no volume ficaram excluídas todas as produções literárias do género das
etnias Handa, Quipungo e Quilengues-Humbe, como já foi dito. Mas ainda assim estamos
em crer que as fábulas não igualam numèricamente os contos de monstros e de
magia. Diga-se aqui de passagem que este género de narrativas —o das fábulas
—não existe no tesoiro da literatura oral dos Hereros. É talvez por causa desta
ausência que nos dois grupos étnicos considerados neste estudo, a representação
deste género é relativamente parca. Com efeito, nos dois primeiros volumes da Etnografia
ficou exposto que na composição étnica de todos os núcleos tribais do Sudoeste
de Angola entraram elementos deste grupo de negros votados à pastorícia. Mas
antes de prolongar e examinar de mais perto o porquê da desproporção ora
aludida, convém apresentar as feições características de cada classe:
1. As quatro primeiras fábulas da nossa série têm por
protagonistas o binómio inseparável da hiena e do chacal. O primeiro destes
mamíferos é conhecido por três nomes entre os Nhanecas: Otyimbungu, engalanga e
ehunyu. Em Cuanhama é sempre osimbungu. Segundo Monard, não existiria em Angola
senão uma única espécie deste carnivoro. Contudo Newton da Silva estabeleceu
prova verificada que no Sul da Provincia se encontram duas: a hyaena brunnea,
mais rara, ao lado da crocuta mais abundante.
Não sabemos bem se os Bantu da região distinguem com
exactidão as duas espécies. Quanto ao chacal há em toda a parte uma só
designação: Okavandye ou Otyimbandye, cujo nome científico parece ser: Canis mesomelas.
Mas muito mais que a classificação científica destas duas
espécies da fauna angolana, interessa-nos aqui a sua actuação no palco, segundo
a fabulação humana. E não há dúvida que estes dois comparsas a “contracenar? apresentam
as peças mais apreciadas, por novos e velhos, do repertório fabulístico desta
gente. A hiena, de aspecto repelente e desajeitada na sua marcha, desempenha
invariàvelmente o papel de um ser obtuso até à estupidez e o chacal, de porte
grácil, dá provas sem conta da sua argúcia que não recua em servir-se da
astúcia. —Seria forçar a nota o querer atribuir segundos sentidos aos
narradores dos diversos episódios que compõem as narrativas, i.e. que eles
teriam em vista querer ridicularizar uma ou outra pessoa entre os ouvintes,
tida por menos inteligente, identificando-se ele e os seus amigos com o animal
esperto. Pode afirmar-se que o contar histórias do “lobo e da raposa? É um
divertimento igualitário. Aliás, nem na linguagem corrente é costume empregar a
metáfora respectiva para designar uma pessoa esperta ou estúpida. O Pe. Silva
que viveu em contacto estreito com a gente dos Gambos durante 25 anos, só se lembra
ter ouvido dizer, uma vez a um rapaz que um outro era “raposa?.
No entanto convém aqui referir um caso em que a aludida
tendência se verificou, embora de uma maneira muito particular. Trata-se de um
núcleo de famílias Cuanhamas —uma centena —as quais pela força das
circunstâncias se viram na obrigação de emigrar da Missão da Mupa para a do
Cuchi, situada na terra dos Ganguelas, acontecimento que se deu em 1916. Ora
contou-nos o seu missionário, depois da Missão da Mupa ter sido reaberta em
1922, que os cristãos cuanhamas ao narrarem no “exílio? os episódios da Hiena e
do Chacal, atri-buiam-se o papel do segundo animal e aos Ganguelas o do
primeiro. É um exemplo de etnocentrismo exagerado, mas explicável pela
ambiência anormal em que esta gente vivia. Além disso, a sua mentalidade já
estava orientada neste sentido desde os tempos ainda muito próximos das
guerrilhas em que os seus conterrâneos mostravam uma incontestável
superioridade.
Na galeria dos bichos espertos, mas sem serem matreiros,
figuram também a lebre, o cágado ou Sapo-Concho das fábulas portuguesas.
Atribui-se-lhes este predicado porque ambos, no seu caminhar ou correr “sabem?
Fazer paragens para olhar e escutar, o que os leva a “reflectir?
O humilde sapo, com as suas intervenções altruísticas e
desinteressadas, é merecedor de todos os louvores. O incidente do corvo, a
superar a astúcia do chacal, referido no primeiro conto, pode-se considerar
caso excepcional.
O leopardo, apesar da sua agilidade, não goza de fama de
ser inteligente. O mesmo se pode dizer do bucorvo “perú do mato?. O elefante,
se bem que contado entre os maiorais na comunidade dos bichos, não deixa de se
apresentar um tanto ou quanto apalermado e até cobarde. A mesma característica
vale, pelo menos em parte, quanto ao hipopótamo.
O leão, ainda que passe por ser o rei dos animais da
floresta. o reconhecimento pelos súbditos de tal dignidade é mais teórico do
que real. De facto, nos contos do Sudoeste, tanto nos publicados, como nos
inéditos, ele, não raras vezes, desempenha papéis pouco conformes com o seu
alto cargo. No número cinco deste volume veremos que ele se deixa ludibriar
pelo chacal sem que tenha dado pela partida pregada. No caso de um casamento
com uma rapariga a quem tinha tatuado, fica sem ela por sonolência. Em duas
narrações cuanhamas já publicadas, o soberano da selva também não sai muito
prestigiado. Na do Leão e o Fogo, ele patenteia estupidez, ao mesmo tempo que
teimosia e na do Leão e o Chacal (história do bode e da cabra com dois cabritinhos),
que constitui talvez a pérola de toda a nossa colecção, ele dá provas de
flagrante injustiça, a ponto de perder o pleito na corte dos animais.
Ainda que o Bâmbi no único conto em que intervém
directamente com mais dois antílopes apareça algo obtuso, ele e os seus aparentados
dão melhor conta de si noutras narrações.
É de admirar que o macaco não figure no elenco dos animais
fabulísticos da nossa colecção, senão num único caso, como animal servidor de
um homem. Não se vê explicação fácil desta ausência, já que nas partes montanhosas
da região existem duas espécies de símios.
A classificação dos bichos em espertos, menos espertos e
estúpidos obedece mais ou menos aos mesmos cânones nos contos de outras etnias
angolanas. Para a dos “Ambundos? temos o testemunho de H. Chatelain que afirma:
“O elefante é notável tanto pela força física como pela sua grande sabedoria?.
Repare-se aqui uma excepção à regra ora indicada. Para as outras espécies da
fauna há porém plena concordância: “O leão é forte, mas sem nobreza moral. A
hiena é o tipo perfeito da força bruta combinada com uma abismal estupidez. No
leopardo aliam-se valentia física e falha de agudez de espírito. O chacal tem
fama de ser muito esperto... e a lebre distingue-se pela prudência e agilidade.
O bâmbi possui rapidez mas é isento de malícia e algo simplório?
A mesma escala de virtudes e defeitos se pode deduzir das
sete fábulas de animais publicadas por Óscar Ribas no seu volume “Missosso?.
Para os Bundos (Ovimbundu) podemos fazer a mesma observação, embora H.
Hauenstein não tenha formado um quadro de conjunto das qualidades e ruindades.
A finalizar estas considerações sobre a fábula animalesca,
surge naturalmente a pergunta: Como explicar a concordância em tantos
elementos, nesta classe de literatura oral cujos “autores? se encontram tão
dispersos e, até aos tempos modernos, falhos quase totalmente de qualquer
intercâmbio? Com esta pergunta anda de parelhas uma outra: Como explanar a
estreita afinidade linguística existente nos idiomas falados por toda esta
gente? Sem dúvida por uma origem comum. Mas onde fixá-la no tempo e no espaço?
Aqui entramos em pleno campo de hipóteses e não é agora o lugar de as
apresentar e interpreter; basta ter levantado os problemas.
2. Os protagonistas da segunda classe são em toda a região
designados com o mesmo vocábulo cuja raiz ou radical é Kisi (Kihi, Kishi). A
semântica dos termos derivados deste radical está longe de ser constante ou
uniforme nas diversas línguas e dialectos de Angola. Para elucidar o leitor
citaremos dois exemplos. Em quicongo o termo nkisi ou munkisi (estatueta,
“fétiche?) significa, segundo o Pe. van Wing: um objecto artificial considerado
habitado ou influenciado por um espírito.
Em quioco (tyokwe), segundo Baumann, mukishi tem o sentido
de máscara ou mascarado e pode também designar um defunto ou espírito de
antepassado. Levaria longe demais querer aprofundar este tema linguístico para
o que nos faltaria aliás a competência. Basta dizer que como Baumann, muitos
outros autores acharam o mesmo significado, entre eles Mesquitela Lima na sua grande
obra: Os Akixi (Mascarados do Nordeste de Angola), onde se pode ver uma lista
de muitos autores.
Porém nos contos apresentados neste volume existe um
sentido único para o vocábulo ekisi. O mesmo se pode afirmar para a grande
etnia dos Bundos, onde o termo se encontra na forma duplicativa de: ekisiki?si.
Também entre os “Ambundos? o significado da palavra dikishi
pouco ou nada difere. Não falamos nos Ganguelas, entre os quais não parece
fazerem parte do seu fabulário protagonistas semelhantes. É de observar ainda
que em língua Cuanhama o termo ekisi designa também um albino.
A grande dificuldade que se apresenta agora é definir
exactamente o tal sentido, ou noutras palavras, fixar os traços caracterizantes
destes seres pintados com as cores mais esquisitas pelos narradores de contos.
E a primeira pergunta que surge a este respeito é a seguinte: Os oma - Kisi
pertencem ou não àclasse dos seres humanos, são ou não são ovanthu? A resposta
a dar não deixa de ser embaraçosa e ambígua. De facto, o seu aspecto somático
não parece apresentar grande diferença com o humano: pigmentação abronzeada,
cabelos muito compridos, abundante pelugem a cobrir todas as partes do corpo.
Mas já não se podem considerar normais, particularidades como estas, referidas
por Óscar Ribas, em dois contos da sua colecção: alguns makishi têm mais de uma
cabeça! Com mais propriedade podiam ter dois ou três estômagos, porque a todos
eles é atribuída uma voracidade descomuna.
Devoram pessoas e animais inteiros.
Por outro lado algumas narrativas dão a impressão de serem
eles entes assexuais, enquanto noutras tomamos contacto com omakisi que
contraem matrimónio com raparigas bantu. Algumas destas uniões, até são
fecundas!
Num caso registado por H. Chatelain nascem três machos
desta miscegenação e noutro relatado por Óscar Ribas, uma mulher dá à luz
quatro filhos, sendo dois da raça do pai e os dois outros da raça da mãe!
Na nossa colecção há só um caso em que uma mulher bantu deu
à luz três descendentes dum monstro, ao lado de outras uniões que ficaram
estéreis. Não consta que um bantu tivesse desposado uma mulher kisi.
Depois destas explicações é perfeitamente compreensível o
embaraço que possa haver ao escolher, no vocabulário das línguas europeias, um
termo que corresponda ao significado do vocábulo bantu. Tem-se empregado
vários: monstro, papão, lobisomem, gigante. A locução monstro antropófago tem a
nossa preferência. H. Chatelain optou por deixar o termo intraduzido,
circunscrevendo-o em várias anotações apensas às narrativas.
A propósito destas anotações desejamos aqui lembrar que
discordamos em absoluto com uma equiparação de uma certa classe de makishi com
os vátua, conforme afirma este autor na nota à história. nº VIII, onde se lê: In this story the Ma-kishi
are simply Ba-tua, stripped of all fabulous addition.
“Dizemos lembrar, porque já manifestamos o nosso parecer em
outro escrito.
A nossa discordância é motivada pelo facto de não constar
por documento ou informação séria alguma, que os tais Bátua (ou Vátua) são ou
foram antropófagos. Esta classe de gente, assim chamada, divide-se em Pigmeus e
Negros pré-bantu. Destes últimos existem ainda representantes no Sul de Angola.
Mas apesar de os Bantu desta região os tratarem com grande desprezo, até irem
ao ponto de lhes negar a dignidade humana —exprimindo-se hiperbòlicamente, é claro
—nunca lhes assacam o labéu de comerem gente. De igual modo, especialistas na investigação
da vida dos Pigmeus, como Mgr. Le Roy, Gusinde, Schebesta, não fazem a mínima
alusão a que estes habitantes da floresta virgem, sejam dados ao canibalismo.
É pois lícito inferir que, por uma vez, H. Chatelain foi
induzido em erro por um informador que por sua parte estava provàvelmente
convencido de que falava verdade, quando não fazia senão repetir uma lenda
corrente.
Pouco resta a acrescentar para completar o retrato moral de
um ekisi: A sua voracidade denota falta de respeito absoluto pela vida humana.
Para conseguir os seus fins, só sabe recorrer à mentira e à coacção e à força
bruta, pois a sua inteligência é tão diminuta que pouco ou nada vale. Por isso
mesmo os seus intentos saem muitas vezes frustados, porquanto as vítimas
cobiçadas desfazem fàcilmente os planos facínoras, graças ao nobre dom do raciocínio.
Para rematar estas reflexões sobre a segunda classe de
contos, vamos tentar justificar a existência de um número relativamente grande
de narrações deste género. A fim de compreender tal fenómeno, é necessário não
esquecer que o contar de fábulas em reuniões familiares nocturnas tem sobretudo
em vista alegrar o espírito com histórias divertidas. Ora este jaez de
criaturas os tentando deformidades e excentridades físicas aliadas a um espírito
extremamente obtuso, oferece ampla e variada matéria para dar largas à veia
cómica e satírica, ao mesmo tempo que se presta admiràvelmente para enaltecer a
superioridade das faculdades humanas em seres normais.
3. Estão fracamente representadas na colecção as narrativas
que apelidamos de estórias. Nas outras publicações, figuram só duas e possuimos
ainda três ou quatro inéditas. Esta categoria conta relativamente um maior número
de narrações no grupo Herero, talvez para compensar a falta de fábulas pròpriamente
ditas. Por acaso as três estórias aqui reproduzidas relatam acontecimentos de
carácter trágico e até tétrico. Isto dá a entender que a nota cómica das
narrações contadas ao pé do fogo, admite intermitências menos amenas,
conseguindo desta maneira espelhar a vida humana com todas as suas luzes e
sombras. De resto, tal atitude está em conformidade com um grão de filosofia
contida numa adivinha Cuanhama que reza assim: —Pergunta: Um poço, cavado de um
lado em terreno arenoso e do outro em terra argilosa? —Resposta: A terra
habitada: num sítio há mortes, no outro festas de dança. —Entre os “Missossos?
de óscar Ribas há dez narrativas que se podem enquadrar nesta categoria. Nelas é
frequente verificar referências a atitudes e comportamentos motivados por
crenças e crendices.
4. Se agruparmos um certo número de narrativas numa
categoria especial debaixo do rótulo: contendo elementos de magia, não é que
nelas se verifique esta particularidade de uma maneira exclusiva. Pois a
presença de tal poder extranatural e misterioso se patenteia igualmente em
outras histórias. Nem isso é de admirar, porque a mentalidade desta gente
encontra-se como que impregnada de crenças e práticas que se convencionou, com
razão ou sem ela, classificar de mágicas. No entanto nas vinte e uma narrações
reunidas sob esta epígrafe afigura-se-nos preponderante o elemento mágico.
Não é tarefa fácil querer delimitar com rigor o âmbito do
campo da magia —repetimos este termo porque, para não se cair em confusões e
interpretações menos exactas, evitamos aqui como nos outros escritos o emprego
dos vocábulos feitiçaria e ocultismo. Particularmente nas crenças ditas
primitivas ou pré-científicas tornar-se dificultoso e até melindroso
estabelecer a linha divisória entre dados etnográficos que fazem parte da
religião e os que podem ser classificados como mágicos. Também não achamos
muito acertado o querer introduzir nesta matéria a divisão clássica de magia
branca e negra. Mas em vez de continuar a expandir-nos em considerações desta
ordem, mais vale recomendar a leitura meditada dos contos. Pois só ela nos
permite entrarmos em contacto com a realidade das diversas motivações e
práticas de carácter mágico. A fim de facilitar a penetração em matéria tão
complexa, fizemos os comentários anexos mais explícitos, ao mesmo tempo que se
aconselhou com maior insistência o recurso ao que está exposto sobre este
assunto na “Etnografia?.
Quanto ao número, proporcionalmente o mais elevado, de
narrativas desta categoria, estamos em frente do mesmo problema que na classe
anterior. Na impossibilidade de fazer uma resenha completa de todos os contos, temos
de admitir como provável que tal proporção corresponde, mais ou menos, à quantia
real existente no tesouro “literário? dos dois grupos étnicos. Mas neste caso
surge espontâneamente a pergunta: porque tanta insistência nos fenómenos
mágicos e tão pouca nos que constituem indiscutìvelmente a sua vida religiosa?
Reservamos a resposta a esta interrogação para o fim do exame em estudo.
O que é certo é que, se temos de conceder a existência de
uma zona intermediária entre o mágico e o religioso, não é menos verdade que,
fora desta faixa, se pode notar uma soma de dados pertencentes nìtidamente a um
ou outro dos dois campos. Isto leva-nos a outra constatação: nas ocupações e
preocupações do dia a dia destes povos é muitíssimo maior o número de
manifestações que fazem parte da vida religiosa do que da magia. Não é aqui o
lugar de especificar amiúde quais são os fenómenos que se devem considerar
religiosos e portanto cultuais. Basta lembrar o facto verificável em toda a
vasta área do bloco étnico dos Bantu e reconhecido unânimemente pelos
etnólogos: o culto dos espíritos e tudo quanto está, directa ou indirectamente
ligado a este culto, éque constitui a base principal da sua religião. Não
dizemos única base, porque está igualmente bem estabelecido que estes povos
professam ao
mesmo tempo, embora de uma maneira menos ostentativa e como
num segundo plano, o monoteismo. Quando tecermos algumas considerações à cerca
da quinta categoria, examinaremos de mais perto esta última modalidade cultual.
Por agora voltemos aos espíritos como eles vêem sendo
venerados entre os Nyaneka-Humbe. Deste exame preferimos excluir os Ambos, por
eles terem sofrido uma forte aculturação, no sentido de uma ocidentalização
mais intensa. Para ilustrar o que acabamos de dizer, não achamos nada tão
apropriado como citar um caso recente da nossa vida missionária. É um diálogo
entre nós e uma catecúmena, meia “civilizada? nos últimos anos. Tem ela 51 anos
de idade. Foi possível obter este dado biográfico com relativa precisão, porque
ela sabe que nasceu no “ano dos ratos?, ou seja na altura duma invasão
extraordinária destes roedores, que prejudicou grandemente a colheita em toda a
área do grupo étnico (1918). Antes de reproduzir sucintamente a nossa conversa,
convém esclarecer ainda que conhecemos esta mulher de vista há perto de trinta
anos e que estivemos em contacto de ministério missionário com alguns seus
próximos parentes.
À pergunta regulamentar: Tens espíritos? Responde
prontamente a candidata ao baptismo: Não tenho, mas tive.
—Quantos? E contando pelos dedos —costume inveterado
—declara: quatro. —Quais? Depois de um instante de reflexão: dois da “família?
e dois do “Nano? (terra dos Bundos). Estes da família eram tias defuntas ou avós
(incluindo irmãs de avós)? Um foi a “alma? da minha avó (mãe da mãe) e o outro
a “alma? da minha tia, irmã mais nova da mãe. —Que “comeram? eles? (isto é qual
é a rez que se lhes sacrificou)? O primeiro nada, porque sendo ainda pequena,
não cheguei a fazer a cerimónia de iniciação. O segundo: de início um cabrito e
mais tarde um boi. O terceiro, um cabrito e o quarto, ovos cms de galinha e
carne de cabrito cozida com arroz.
Em seguida vem uma detalhada explicação do ritual de
iniciação de cada classe, com os nomes, o sexo e a pertença étnica de todos os
Kimbandas que presidiram ao cerimonial espírita. Para não alongar demais o
diálogo, vamos às conclusões que interessam à exposição. A mulher em questão
esteve pois possessa por quatro espíritos, prestando assim a homenagem mais
perfeita, se bem que não desinteressada a cada um destes entes. Como ela há
tantas outras, talvez cinquenta por cento de toda a população feminina pagã —o
número de homens iniciados no espiritismo é muito mais reduzido —a render culto
igual ao descrito. É pois fácil compreender que num raio de dez kms de
território, mesmo pouco povoado, é raro o mês em que não se realizam uma ou
duas cerimónias de iniciação.
Elas são sempre presididas e orientadas por espiritas
“profissionais?, possessos por um ou mais espíritos, igual ou iguais ao ou aos
do inicando. Além destes, tomam parte na “festa? um grande número-de já
iniciados. Convém ainda evocar aqui as numerosas sessões de adivinhação que,
pelo menos indirectamente constituem outros tantos actos de homenagem a um
espirito. Já que ninguém pode ser adivinho, sem estar possesso por um
antepassado.
Pelo que acabamos de expor, nota-se com evidência que, a
vida cotidiana desta gente, está fortemente repassada de actos cultuais
espiritas, ao mesmo rítmo que de doenças e mortes, já que são estas, que os
levam a recorrer aos entes extra-terrestres. (Para mais pormenores: v. A Possessão
espirita entre os Bantos)
Sendo assim, forçoso é concluir que a nossa colecção de
contos e provàvelmente qualquer outra feita na mesma região, está longe de
representar um espelho fiel da vida do dia a dia. De facto, nas narrativas de
magia só três vezes se referem casos em que se recorre a uma “velha? em situações
embaraçosas. Mas não se especifica a especialidade destas mulheres e o contexto
sugere antes que se trata de indivíduos em possessão de poderes mágicos. Portanto
de uma sorte de “mulheres de virtude? e não de “Kimbandas? que são como os
ministros ou“sacerdotisas? do culto espirita. A única ocorrência bem clara da
intervenção de uma “alma?, vem relatada no n.° 24. De uma maneira não menos
inequívoca, estão relacionados com a religião tradicional os ferreiros, que intervêm
em dois episódios parecidos, nos contos de monstros. Não é que esta
particularidade se manifeste directamente em tais intervenções, mas pelo
simples facto de serem homens que trabalham o ferro. Com efeito, julgam ser
impossível exercer esta arte com proficiência, quando o artista não está em
contacto íntimo com um antepassado que durante a sua vida praticou o mesmo
ofício.
Concluindo estas considerações voltemos à pergunta feita no
início: porque fenómenos que marcam com tanta intensidade a vida cotidiana
desta gente, são tão parcamente utilizados na literatura fabulística? Émuito
provávelque haja um motivo de carácter psicanalítico para tal comportamento que
não somos capazes de detectar. Em vez dele indicamos um outro mais fàcilmente
atingível. Entre todos os povos ditos primitivos ou com resíduos de “primitivismo?,
são os espíritos maus que passam por ser os grandes e indispensáveis auxiliares
nas práticas mágicas. Ora, segundo a mesma crença, estes seres maldosos
“circulam? quase exclusivamente durante a noite.
Assim por exemplo, nas catequeses nocturnas dos arredores
de Sá da Bandeira ou de Vila Arriaga, acontecia às vezes haver muito pouca
frequência. O motivo alegado para a ausência de frequentadores habituais era
quase sempre o mesmo: andam pela terra “omatyituka?, indivíduos que, com a
ajuda de um espírito mau se transformam em feras.
Como os contos se proferem, de preferência depois da
refeição da noite, momento em que a terra e a atmosfera se povoam
periòdicamente, sobretudo quando não há luar, de espíritos inimigos, é natural
que temas de carácter mágico fecundem mais fàcilmente a fantasia criadora dos
narradores.
5. Para esta classe escrevemos um comentário bastante
extenso, colocado a seguir às três narrações impressas (n.°48, 49, 50). Nele
incluimos também uma versão que corre entre os Dongas, etnia ambó, situada ao
Sul do Cuanhama e Além-fronteira. Ficaram incorporadas igualmente duas
variantes de uma lenda dos Bundos que tem por protagonista um ser misterioso de
nome Kalitangi, publicada por Hauenstein. Embora seja de características bastante
diferentes, achamos interessante examinar algumas analogias que se podem
detectar numa história que faz parte do volume de H. Chatelain.
Posteriormente, ao que escrevemos no tal comentário,
foi-nos facultado o conhecimento, se bem que imperfeito, de uma variante da
lenda Kalitangi, tal como ela se conta e canta, pois o conto é mais cantado e
dançado do que narrado, na região do Bailundo. São consideráveis as
divergências entre esta versão e as duas que correm na região de Caluquembe. E
a mais notável é a que diz respeito à etimologia do nome do herói. O Kalitangi
de Caluquembe é um super-homem que “embaraça a Deus?, porque ele é dotado, desde
o nascimento, de poderes tão extraordinários que parecem igualáveis aos do
próprio Deus. No caso da versão bailunda o nome é derivado dum verbo homógrafo,
senão homónimo que no dicionário do Pe. Albino Alves não tem menos de treze
significados.
Porém todos traduzem uma mesma ideia fundamental, com um
sentido, ora mais concrete, ora mais figurativo. Na lenda o sentido indicado
pelo narrador, um homem bailundo de 35 anos, confirmado pela monitora escolar
Aldina Situkuli que a escreveu, sendo ela natural de Caconda —é tirado da forma
reflexiva do verbo que é própriamente: desprender-se. Kalitangi pretende ter-se
desprendido do Sol e este, por sua vez, desprendeu-se de Deus; (Kalitangi walitanga
l'ekumbi. Ekumbi lyalitanga la Suku). O herói declara-se pois descendente de
Deus por intermédio do Sol!
Contudo quando pela terra fora, ele proclama o seu nome,
não menciona Deus e salta o astro intermediário, afirmando: Eu gerei-me a mim
mesmo. (Ndalityita ame mwele).
Diante de tamanha jactância que lhes parece uma blasfémia,
os animais da floresta fazem várias conjuras para matar o insolente. Mas
Kalitangi sai sempre vencedor das competições, desarmando todas as ciladas.
Paradoxalmente, cada vez que alcança uma vitória, exclama em tom triunfante:
Não sucumbi, porque Deus me amparou! É de notar que na representação
coreográfica, o narrador que, entre outros desempenha o papel do protagonista,
Simula dar um passo em falso. endireitando-se num pronto, logo depois e
proclama: Não caí, porque Deus me amparou.
Outro pormenor, e esse algo chocante, no comportamento
moral de Kalitangi é o facto de ele ser polígamo. Porém o seu harém parece ser
constituido por animais, pois uma das “mulheres?, segundo reza a história,
entretem complacências amorosas com o espertalhão do cágado.
Seja como for desta miscelânea de feições constitutivas do
retrato do personagem —umas dignificantes, outras aviltantes —o protagonista do
conto bailundo, não desmerece de tomar lugar proeminente na galeria heróica dos
super-homens, ao mesmo título que os seus congéneres retratados nos três contos
do Sudoeste.
Além de dar testemunho da mentalidade mágica, ilustrada por
uma série de façanhas espantosas, os textos de carácter mitológico comprovam a
existência de uma crença monoteística. Já demos suficientes esclarecimentos a este
respeito no comentário. No entanto torna-se conveniente reunir aqui todos os
dados concernentes ao mesmo tema.
Nas duas narrativas cuanhamas —uma de origem e de língua
desta etnia, a outra de proveniência e linguagem mais sincretista —o herói que
declara ter-se gerado a si próprio é chamado para se apresentar diante de Deus.
E embora a confrontação do protagonista com o Ente Supremo esteja longe de concordar
com os nossos conceitos e fira a nossa sensibilidade, não deixa de ser
significativo o facto de Deus intervir directamente para pedir contas a quem se
arroga um poder igual ao Seu. No conto donga o próprio nome, Pamba-isita,
patenteia a soberania divina, pois pronunciando o seu nome, o herói gaba-se de
ter sido criado directamente por Deus, fora das leis habituais da natureza.
Coisa semelhante pode inferir-se do nome Kalitangi dado ao
ser misterioso nas três lendas bundas, embora o étimo das duas primeiras
divirja consideràvelmente do da terceira, conforme explicamos. Porém num e
noutro caso, o Ente Supremo é antes subentendido do que directamente incluido
no termo onomástico.
Na terceira versâo há ainda outros elementos de interesse,
por exemplo, o facto de Kalitangi evocar o Ente Supremo cada vez que, com a sua
ajuda, escapou de um perigo. Porém a particularidade mais curiosa é o herói
afirmar a sua conexão íntima com Deus e o Sol, como se tivesse havido antes do
desprendimento, uma espécie de trindade préexistente.
A presença do astro diurno neste contexto, lembra dados
semelhantes já mencionados, no primeiro e segundo volumes da “Etnografia?. Pode
ser útil reproduzi-los sucintamente neste lugar. No primeiro caso, trata-se de
uma cerimónia que tem por fim “diquidar? um suposto facínora e o pormenor mais
importante do ritual éo dar um tiro de espingarda, fazendo pontaria para o Sol.
O motivo dado para tal procedimento estranho éeste: todos nós moramos no Sol,
ou para empregar a terminologia do conto que estamos a analisar: todos nós nos
encontramos de alguma maneira “prendidos? ao Sol.
No segundo volume tecemos umas considerações acerca do
facto de os Nyaneka “colocarem muitas vezes, nas suas expressões:, o Sol em pé
de igualdade com Deus?. E continuamos as citações: e reflexões: “Já Nogueira (o
autor viveu entre os Humbe e Nyaneka de 1851-1862) tinha reparado em tal coisa
e notou-a desta maneira: Os Bankumbi e os Ba-nhaneca dizem indistintamente
quando alguém morre: foi o Sol que o chamou, ou foi Deus que o chamou. O Sol,
ekumbi... é como a manifestação visivel desse Deus?
Ainda a respeito do mesmo assunto lemos num caderno
redigido por alguns missionáries da Huila no princípio deste século: Kalunga
est celui qui a tout créé, est plus vieux que tout ce qui existe... On le
confond assez facilment avec le soleil.
Em suma: a história do Kalitangi bailundo acrescenta mais
uns dados a outros muito dispersos e de interpretação extremamente difícil, ao
tema das inter-relações entre Deus, o Sol e o Homem.
Já que estamos a considerar as referências ao monoteismo
contidas nas narrativas mitológicas, vamos enumerar ainda as poucas menções
relacionadas com o Ente Supremo, que ocorrem nas outras classes. Na fábula da
Hiena e do Chacal, temos a expressão: Kavandye avetesa onGalanga pohi ya Huku,
que éimpossível traduzir àletra, mas que tem o significado: o Chacal foi causa
de a Hiena ter sido batida sem motivo algum, ou mais conforme o original: sem motivo
que possa ser considerado como válido por Deus (n.° 4). Na história: O
Sapo-Concho, o Elefante e o Hipopótamo, respondeu este ao Sapoconcho que lhe
pedira água para beber, que este elemento era de Deus e por isso nem se vendia
nem se comprava, pois a água pertence a toda a gente (n.° 8). No conto a seguir
fala-se num caso de morte que dá sempre ocasião a consultas divinatórias para
determinar quem foi o causador do desastre, quem foi que “comeu a alma? (ou a
vida). A?;ui trata-se de uma morte acidental devida a uma imprudência. Ainda
assim a parentela do morto, que éo Sapo-Concho vem exigir a indemnização de
costume ao sogro, que éao mesmo tempo o rei dos animais. Mas este replica aos
queixosos: Este “homem? morreu dele mesmo, foi a morte que lhe calhou, aquela
que Deus lhe enviou. Finalmente no conto mágico n.° 41 relata-se a intervenção
divina para salvar uma criança das mãos da madrasta, que costuma transformar-se
em fera. Como se notou no pequeno comentário apenso, este facto está de acordo
com a mentalidade bantu.
II. Vamos agora à segunda parte das observaçães.
1 —Conforme vem marcado no fim da transcrição dos contos
publicados neste volume, a sua recolha operou-se por três modos diferentes. O
primeiro consiste em fixar por escrito o que um narrador. É claro, é necessário
fazer prèviamente uma escolha entre estes. Feita a selecção, convém não
proceder de chofre, mas fazer contra a história para ver se ela vale a pena ser
registada e também para fixar de memória os passos principals da mesma, a fim
de verificar se o narrante éfiel ou não. Completados estes preparativos pode-se
iniciar o ditado.
Éo método que estamos usando de preferência desde 1926 e
cremos com bons resultados. Ficamos muitas vezes admirados de que homens e
mulheres —e entre eles gente relativamente nova —quase todos analfabetos, foram
capazes, depois de um pequeno ensaio, de se desempenharem cabalmente do papel
que se lhes solicitou.
A nossa admiração provém do facto de esta maneira de contar
se processar completamente fora da normal, a qual, se admite interrupções,
essas, são ocasionadas pelos auditores e participantes e não por um homem a
fazer riscos num papel, o que leva muito mais tempo do que as palavras a sairem
pela boca fora. Escusado édizer que a transcrição fonética e a pontuação ficam
por conta de quem fixa palavras e frases por letras.
Dissemos há pouco que este modo de recolha se nos afigura
muito avantajoso e preferível. Aliás nos tempos antigos era quase o único
praticável. Fazemos esta afirmação porque énossa opinião que ninguém será capaz
de transcrever o texto de uma fábula conforme ela écontada na sua ambiência
normal com as intervenções quase sempre ruidosas dos assistentes. E isso mesmo
se porventura tivesse sido inventado um sistema estenográfico para as línguas
bantu.
São só quatro os contos ditados, incorporados neste volume,
pelos motivos já expostos.
O segundo método o de se servir de textos escritos por
nativos. Éevidente que só se pode recorrer a este meio em terras em que uma ou
mais línguas bantas fazem ou faziam parte do programa escolar. Na introdução ao
seu volume von Sicard dá conta deste método com as seguintes declarações: Pedi
a alunos das classes superiores do ensino primário, mas também a envangelistas,
professores e professoras e seminaristas que escrevessem contos, tal e qual eles
os tinham ouvido narrar às suas avós. Recomendei que dessem maior cuidado àtranscrição
das partes cantadas.
É muito natural que manuscritos obtidos por esta forma
precisassem de ser revistos e corrigidos. Quanto a nós é a primeira vez que
publicamos narrações escritas por um auxiliary banto, o professor de posto,
Carlos Mário, já mencionado. São nove as histórias que se ficam a dever ao seu
saber e à sua boa vontade. Para sermos exactos
convém aqui notar esta particularidade: as narratives
exaradas foram ditadas por sua mulher e por alguns vizinhos, enquanto que os
contos do seu repertório, foram registados no gravador.
O emprego deste instrumento na recolha de textos falados
veio abrir ao investigador da literatura oral, perspectivas maravilhosas:
Graças a este sistema torna-se possível reproduzir narração com todas as
tonallidades e inflexões de voz, captar e fazer ouvir um falar cheio de
onomatopeias e de interjeições de uma gama variadíssima e fixar as melodias das
partes musicadas.
Mas infelizmente o sistema não oferece só vantagens. Além
de não ser um meio cómodo, mesmo quando se utilizam mini-rolos, para comunicar
os textos ao público interessado, caso ele se encontre muito disperso, a
própria gravação não está isenta de espinhos. Um que desejamos aqui apontar é resultado
da nossa própria experiência.
Para recolha pela “fita magnética? escolhemos em geral
pessoas conhecidas ou por elas trazidas ànossa presença.
Ora deu-se o caso, que narradoras dos arredores de Sá da
Bandeira, com as quais mantinhamos contacto de ordem missionária havia uma
série de anos, nos deram neste particular uma não pequena decepção. Como para a
narração ditada, fazíamos reproduzir a
história antes de a gravar. Mas logo que a “máquina? começou a trabalhar, a
atitude das narrantes já não era a mesma. Sem manifestarem sinais perceptíveis
de nervosismo, deulhes para omitir ou interverter expressões ou episódios
inteiros! E isto, para o declarar novamente, não obstante a nossa serenidade e bom
humor. Pequena experiência que talvez possa servir a outros no sentido de
andarem prevenidos. Rematando, dizemos que são trinta e sete os contos do nosso
florilégio que foram recolhidos por este meio meeânico.
2 —Sâo dezoito os narradores que se prestaram a dar a sua
colaboração neste volume, repartindo-se por sexo em seis homens e doze
mulheres. Tal disproporção não éde estranhar, pois, admitindo o princípio que
os contos são sabidos pelos representantes de ambos os sexos em números mais ou
menos iguais, nos tempos que correm, as mulheres estão muito mais fàcilmente
disponíveis do que os homens. Não era assim há cinquenta ou quarenta anos e,
por exemplo, o reduzido número de narrativas cuanhamas que fomos recolhendo
entre 1926 e 1932, deve-se inteiramente a representantes do sexo forte.
Voltando à presente colecção diremos que os contribuintes
com maior quantidade de narrações são: Cristina e Rosália ambas com seis
(faltando uma não utilizada), Carlos Mário, Maria Luísa e Josefina Tembo com
cinco cada. No entanto todos os cinco contos somados da Cristina, atingem aproximadamente
o número de páginas de um só dos de António Constantino Tyikwa. É a ele que
cabe, de pleno direito o primeiro prémio. Não étanto pela extensão dos seus
“nacos de prosa?, mas antes pela verdadeira mestria, graças a uma calma
imperturbável, aliada a uma memória prodigiosa com que profere as histórias.
Acresce ainda uma dicção perfeita do idioma. Foi uma sorte tê-lo encontrado,
quase uma descoberta!
Ao lado deste contista insigne, desejamos lembrar aqui uma
outra figura com grandes talentos, uma aleijadinha de nome Beatriz Tyilombo.
Conheciamo-la em Vila Arriaga, onde entre 1942-1952, ela frequentava a
catequese e foi baptizada. Devemos-lhe oito exemplares deste género literário,
os quais ela ditou —intervindo grandes espaços de tempo neste trabalho —muito
pausadamente, fazendo as interrupções necessárias, sem nunca perder o fio da
narração. Infelizmente, quando procedemos ao recolhimento destes elementos por
meio de gravação, não foi possível estabelecer contacto com ela. No entanto
fazemos alusão a duas narrativas suas neste volume nos comentários aos n.°s 21
e 30. Duas outras, foram publicadas no 2.° volume da “Etnografia? e outras
ficaram inditas.
Se esta mulher nos gratificou com oito contos, número
máximo contribuido por uma só pessoa, esta totalidade parece muito modesta ao
lado daquela obtida por H. Chatelain. Com efeito este autor não hesita em
afirmar que “um rapaz, dos mais obtusos entre os indígenas? foi capaz de nos
ditar, sem ser auxiliado, do livro da sua memória, mais de sessenta contos e
fábulas, um “material? igual à da mais ampla colecção de contos africanos,
publicados até agora.
É verdade que, por nossa parte, nunca tentámos “esgotar? o
tesoiro fabulístico possuido por um indivíduo. A nossa pergunta. se sabiam
muitas histórias, respondiam às vezes, como fez a Maria Luísa, supracitada:
Sim, muitas, nunca mais acabam. Mas tínhamos aprendido, desde os primeiros anos
de permanência em África, como se devem interpretar tais expressões hiperbólicas,
porquanto, feita a verificação, a proclamada quantidade incontável não passava,
às vezes, a dezena. Por outro lado, não fazemos ideia nenhuma dos números
máximos atingidos por contistas populares da Europa. Seja como for, o rapaz de
H. Chatelain, se foi pouco esperto, não deixou de ter uma excelente memória que
registava e “gravava? com grande fidelidade. Haverá muitos como ele?
3. Nos dados com que se conclui o texto de cada narração
vem indicada a língua ou o dialecto em que foi contada e fixada por escrito.
Vê-se ali que só admitimos duas línguas: Nhaneca e Cuanhama, passando o Humbe a
ser classificado como dialecto. Não ésem uma certa arbitrariedade que estabelecemos
tal classificação, porque entre o falar dos Nyaneka e o dos Humbe existe uma
diferença maior do que a divergência que interfere, por exemplo, entre o
Português e o Espanhol —fazendo abstração da fonética. O motivo que nos levou a
relegar o humbe para a categoria algo desprestigiada dos dialectos, obedece
mais a considerações de ordem histórica e prática do que linguística. Histórica
porque os missionários que iam estudar os idiomas nativos, publicando mais
tarde gramática e dicionários, com o fito de editarem impressos de propaganda
religiosa, estabeleceram a sua Missão principal na terra dos Nyaneka, na Huila.
Poucos anos depois da fundação deste importante centro de evangelização,
instalara uma tipografia, a fim de pôr em prática os seus intentos. Bastou este
facto para dar ao falar dos Nyaneka uma preponderância sobre os outros. Por outro
lado não convinha, por motivos práticos, multiplicar edições em diferentes
idiomas numa região fracamente povoada. Assim o falar dos Humbe, como o dos
Handa e Quipungu, muito afim do daqueles, não foi achado digno de merecer as
honras e benefícios da invenção de Gutenberg.
Com maior razão podia chamar-se dialecto à língua
sincretista falada nos arredores de Sá da Bandeira e outros centros urbanos do
planalto, onde predomina o humbe, mas tendo agregado bastantes elementos do
vocabulário e da gramática dos Nyaneka.
Além Cunene a situação é muito mais simples, com a primazia
incontestada do cuanhama, do qual o falar dos Cuamátuis é um dialeeto. Diga-se
de passagem que este último não figura nos contos aqui reunidos. Há muito que o
antigo falar dos Vales e Cafimas foi absorvido pelo cuanhama.
Quanto à distribuição linguística das narrativas, pode-se
dar o seguinte quadro: 32 em Nyaneka puro, 14 em Nyaneka alterado, 2 em Humbe
puro e 2 em Cuanhama.
Não é de agora que se tem realçado a grande aptidão das
línguas bantu, a sua expressividade perfeita para, por meio delas, reproduzir
toda a gama da literatura oral. Quanto aos idiomas do Sudoeste de Angola merece
ainda distinção especial a sua sonoridade e beleza eufónica.
No que diz respeito àriqueza do vocabulário e da larga
potencialidade gramatical destes idiomas, permitimo-nos transcrever o que
afirmamos há anos numa palestra: Depois de termos acentuado a eufonia,
continuamos com estas
palavras: “O segundo elemento a considerar numa linguagem
éo vocabulário. Este, está claro, éo espelho do grau de cultura de um povo. O
que caracteriza as línguas do nosso grupo, como aliás as de outras regiões, é
uma grande abundência e precisão de termos concretos e uma pobreza relativa de
vocábulos abstractos. Assim, todos os movimentos do corpo ou partes de corpo possuem
um termo próprio que dispensa qualquer complemento. Um simples verbo significa,
por exemplo, abrir ou fechar os olhos, abanar a cabeça, estender as pernas,
etc. Quanto a vocábulos abstractos há-os em número suficiente para exprimir
todas as ideias básicas. Por exemplo os termos dos pecados capitais
encontram-se todos convenientemente traduzidos, assim como os conceitos que
exprimem a ideia de: beleza, bondade, malícia. esperteza, astúcia, curiosidade,
familaridade, civilidade, preocupação, confusão, palermice, gabarolice, etc.
Mas onde os idiomas bantos superem de uma certa maneira, muitas línguas, é na gramática;
especialmente no que diz respeito às modalidades do verbo. Com efeito
encontramos nele não só todos os tempos e modos existentes nas línguas
clássicas, mas ainda um tempo narrativo que corresponde mais ou menos ao
aoristo do grego. Acresce a isto uma surpreendente variedade de formas verbais.
Exemplifiquemos e tomemos como paradigma a raiz verbal linga do falar dos
Nhanecas que quer dizer: fazer. Temos as seguintes formas: causativa: lingisa,
mandar fazer; reflexa: lilinga, fazer-se ou fazer mùtuamente; a intensiva ou
repetitiva: lingaila, esforçar-se por fazer; a aplicativa: lingila, fazer por
alguém, a favor de alguém; e finalmente a inversiva: lingulula, desfazer?
Querendo formular uma apreciação comparativa da riqueza das
duas línguas, temos de concordar que o Nyaneka leva a palma ao Cuanhama. Esta
afirmação pode estranhar e de facto parece algo paradoxal. Um povo progressista
de índole aberta usar uma linguagem mais simplista do que um outro que se conserva
tenazmente estacionário nos seus hábitos tradicionais! Mas um exame linguístico
comparativo não deixa chegar a outra conclusão. O que escrevemos no primeiro
volume da “Etnografia? a respeito dos diversos componentes originais daquele agregado
étnico dá talvez a chave para a explicação do paradoxo.
Não há quem tenha publicado antologias de contos africanos
sem ter insistido na violência que se pratica para com este produto quase
espontâneo da literatura oral, quando se lhe coloca as algemas da língua
escrita. Lembremos em poucas palavras o ambiente natural do conto que afinal se
destina a ser contado. “Para narrar um conto destaca-se um individuo que, em
geral fala em pé.
Pcuco a pouco ele vai-se animando, modula a voz segundo os
vários actores que intervêm na recitação, intercala interjeições, ora
lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula não só com os braços, mas
conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo. O auditório toma parte
viva, estando às vezes como que electrizado.
Manifesta de onde a onde ruidosamente aprovação ou
desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage
entendidamente às frases sarcásticas?. Semelhantes e quiçã mais expressivas
reflexões sobre o mesmo tema lemos na obra de Viegas Guerreiro.
O que acabamos de dizer do género declamatório da narração
sofre às vezes excepções nas partes cantadas.
Podem-se distinguir nelas duas modalidades: canto melopáico
que acompanha num tom monocórdico toda a recitação e trechos verdadeiramente
cantados com melodias mais variadas. Estes últimos revestem sempre um carácter poético.
Para ambas as formas melodiadas, damos indicações, quer dentro do texto, quer
nas anotações finais.
Para o canto ocupam o primeiro lugar os Humbe, seguidos dos
Nyaneka e depois vêm, muito distantes, os Cuanhamas. Por sinal são de mulheres
de origem humbe, os dois cantos anotados musicalmente, publicados no fim do
volume. (Nºs 20 e 39).
Para concluir este parágrafo resta-nos dizer alguma coisa
sobre os títulos, a introdução ou abertura e a conclusão dos contos.
Todos os narradores intitulam as suas histórias. Mas não se
pode declarar que tais dizeres fornecem elementos esclarecedores sobre o
conteúdo, o “enredo?, pois muitas vezes eles não são outra coisa, senão as
primeiras palavras da narração, correspondendo aos nomes ou àcategoria dos
protagonistas. Foi concerteza por este motivo que von Sicard declara ter
rejeitado todos os títulos originais, substituindo-os por outros mais
apropriados.
Quanto a nós, preferimos manter as epígrafes tradicionais,
permitindo-nos contudo, em poucos casos, aerescentar mais uma palavra. Por
exemplo no n.° 39 introduzimos o vocábulo: Otyindondi, macaco, porque éeste bicho
que desempenha o papel principal em toda a história.
Já vimos que a introdução coincide muitas vezes com o
título, o que a torna dispensável. Porém alguns narradores da área nhaneca
empregam a fórmula estereotipada: Opopo lumwe ou opopo umwe, que corresponde
mais ou menos àlocução introdutória das fábulas europeias: Era uma vez. De
facto a locução Opopo tem um sentido local ou temporal. No entanto o Pe. Silva
prefere traduzi-la por esta forma: É destes mesmos que se trata. Porque;
explica ele, tanto o contista como os ouvintes imaginam que os personagens
enunciados no título e citados na narrativa, estão ali presentes. Épois uma
tradução interpretative que se pode permitir quem conhece profundamente a
mentalidade desta gente.
Se a introdução éfrequentes vezes inexistente ou quando
figura, uniforme, as conclusões são bastante variadas. As mais engraçadas são
estas: Sambulikiti mu ove ou mu onwe, o que vertido em português significa:
açaimo em bicho voraz para ti ou para vós! É uma forma muito original para
convidar alguém a tomar a substituição como narrador!
Mas é o único meio de se libertar do cabrestilho incómodo.
Uma outra expressão é mais branda e reza assim:
Oluñgano lwange... helengete... lwapwa. O meu conto... escapuliu-se...
acabou —ou na forma negativa: não se escapuliu o meu contozinho? Não éagora a
tua, ou a vossa vez? Proferindo estas últimas palavras o narrador fita um
assistente ou um grupo deles. —Os Humbe contentam-se com concluir: Acabou o meu
conto, e os Cuanhamas abstêm-se de qualquer introdução ou conclusão. E assim
escapuliu-se também a nossa já longa introdução, mas não sem tomarmos a
liberdade de enfiar o açaimo a um e outro leitor mais interessado,
especialmente entre os Africanos.
Main text
A: Contos De Animais
1: Ehunyu na
Kavandye
Aveliholo oupanga, Ati:
—Hunyu, tukale-kale atuho, tunyange - nyange atuho
m'ohlka. Etyi twamavasa tyokulya atull atuho. Ou nga akanyanga, ou
tyina hamwe ahanyangele atuli vala tyou wanyanga. Ou tylna hamwe ahanyangele
atuli vala tyou wanyanga. “Masi? pen'ou un'onongombe ononyingi, uhanda
ovanthita. Katupolo nkhele tyounthita? Tyetyi tyokunyanga m'ohika ... pamwe
katuvasa-mo m'ohika. Hunyu wailnga omunthita; Kavandye walinga omunthita. Tyino
vakalisa vakahonyena k'omalyo. Otyo valisa aveho. Etyi litaka tyiti: ou usinga
mbae, ou usinga mbae, vakayevela. Apeho otyo valisa, apeho otyo valisa. Mu ou
hono, otyivandye watyitisa ongombe. Etyi yatylta alipolo oluva lwongombe yatyo.
Onthane atyinde atwala k'otyunda. Muhuka, etyl ahonyena na Hunyu. Hunyu
wemupula ati: —Tava, iya, ove un'onohonde? Un'onohonde... walile-tyi? Ati
—Tava - hó - ove
k'ounthita utupu vali etyi ulya? Ati:
—Ame ndyilya-tyi pahe? Ame, okulia kwange oko
k'ounthita okuvasa eka andyill... Etyi nakapula okandimba andyill... Hatyo vala
tyok'ounthita otyo? Okevandye ati:
—Wó! Undamba. Ame ndyiti mbange, nga yatyita
imwe, ame ndyili-ko tyok'onyima. Hunyu otyo atehela, otyo apaka
m'omutima; otyo alisa, otyo alisa, otyo alisa. Hunyu hono walisa, lise, lise,
lise... Tyino mbuenda n'ok'eumbo, pen'otyitane tyimwe otyipunde tyokusala-sala
k'onyima. Hunyu ati:
—Wó! Otyitane etyi
tyokusa-sala k'onyima, etyi hatyotyo tyak'onyima etyi? Kavandye watile:
“Omunthita ulya tyok'onyima...? Ame n'ame mandyili-po tyok'onyima. Hunyu walia-po
otyitane etyi tyokusala-sala k'onyima. Lyé... lyé ohitu oyo, ei imwe etyi
aponwa atulika k'omuti. Asingi onongombe mbae ombo. Akanyingiya. Etyi aeta
onongombe, ava vono hambo avati:
—Kamuavela omavele
omunthita wekehimanene k'onongombe? Okumuavela omavele, Hunyu una hono kahande.
Wekuta. Okuti p'okukakanda onongombe, p'okuyongola onongombe... okanthane kamwe
okapunde kokusalasala k'onyima kake-po. Muhekulu wonongombe wati:
—Hó! Hunyu munthita! Iya, onthane imwe yokusala-sala
k'onyima ilipi? Hunyu wati: —Iya ame halile? Iya, yokusala-sala k'onyima?
Omunthita kali tyok'onyima?
—Hó! Ontwe twekupopila okutiwa kalise ine twatile
kalialye-po tyok'onyima? Olye wekutolela-tyo?
—Ati: Ame ókavandye wati: “Omunthita tyino ulisa,
tyok'onyima, tyina tyisala-sala k'onyima, ove utyilia-po?. Muhekulu wonongombe
watuma ku kavandye. —Mulhanei! Kavandye weya.
—Ove oñgeli,
Kavandye?!
—Ati:
—Aú! Onthwe ankho tuli vala k'ohambo yetu oko. Pahe
tweiva-ko ku onwe mwalaveleya. Pahe tweya vala okutavela, ei mwetuihanena.
—Ati: Hayoyo, iya, Hunyu? Kamulipulei na Kavandye?
—Kavandye, iya, have watile “tyiliwa tyok'onyima??
—Iya, pahe ove walile
tyok'onyima?
—Ya, ame nalile
otyinthane tyok'onyima!... Kavandye ati:
—Ha-ha!... Ame
nekutolele okutiwa “omunthita ulya tyok' onyima?... Tyino ongombe yamatyita,
ove ulya-po oluva lwatyo. Nanyo ove ulya-po onthane yok' onyima ya mwene?!
Onthwe tuvanthita vala. Otyo mwene otyove. Vahekulu vonongombe vakwata Hunyu,
vemuveta. Vati:
—“Pita?! Kumalisa-lisa onongombe mbetu! Hunyu wapita.
—Y'ove, Kavandye, waile na pi? Ati:
—Ame naile n'oko nakavahile oumphela wa Hunyu walya onthane
ya mwene yokusala-sala k'onyima. Pahe oyoyo nakatehelele. Ovo tupu vom'ohambo,
omu, vahekulu vonongombe, avati:
—Hé!... Hunyu
wakalya onthane yok'onyima? Ngwe epanga lyove... Hamwe inwalia amuho “m'okonta?
muhimama amuho k'ounthita. N'onthwe katukuhande vali. Enda. Kelitaindyilei
mwene, oko mukataindya mwene kumwe vali. Onthwe katumuhande vali! Tyiti umwe:
na tyivandye na Hunyu aveho vesala-po vala. Vetupu vali ounthita. Avelipulu
mwene p'ouvali wavo:
—Ove Hunyu tulinga
ngeli? Hunyu:
—Pahe otyo ha ku ove?
Kavandye ati: “Bom?! Otyipuka etyi tulinga vala tyokunyanganyanga m'ohika. Pahe
atyiti umwe: ou ukanyanga m'ohika, ou ukanyanga m'ohika. Otyo tuhonyena pano
p'omanthia etu. Veliyapuka. Ou ukanyanga, ou ukanyanga. Kavandye waya n'oko k'omatapalo.
Tyino ati figa... etemba lyaya n'oko lienda na ko. Wasoka-po imwe. Wakahateka,
wapita k'omutwe wetemba. Waalangata m'eheke, m'eheke, atwele n'op'omaiho atyiho
n'om'omulungu. Alangala-po m'etapalo. Etemba olyo liya. Umwe
uli k'“ofrente? yonongombe, n'“no-caleiro? yatyo uombola. Ou wok' “ofrente?
yonongombe wati:
—Onwe-onwe, talamekei onongombe! Kun'etyi tyili kuno!
Wokuombola ati:
—Otyityi?
—Otyipuka tyankhila pano. Endywei mutyitale. Wokuombola
weya ati:
—Otyinyama patyi etyi? He he! Okavandye?! Tyankya... tyalinga-tyi? Ati:
Tyankya. Pahe tyilingwa ngeli? Tyisei-po vala, tyihen' okuti tyiliwa...
Mamutyitwala-pi? Ou wati:
—Ehe! Tyihaliwa hahitu?
Ove, ombandwa yatyo, hamwe kaikalandehiwa? Otyivandye vetyipola-po opo,
vetyitulika k'etemba k'onyima. Ou wokuombola uombola. Ekumbi ngwe pahe
linyingila m'okawiwi. Etyi pahe linyingila kwanthlkovela, otyivandye otyo aenda
n'okukumuna “onosaku? mbòvilya okumbutahela p'ohi; n' “ombosuka?, otyo atahela
p'ohi. Etyi
ati opo, otyivandye walomboka-po. Ava vaombola kavetyii vali. Vati vala:
—Otyivandye, twemutulika k'etemba. Otyivandye, etyi
atuluka-po, wapola “onosaku? mbae ombu, otyo wakaholaika “mbosuka? m'omaleva.
Okuya vali okuwana mbovilya, kembuvili, m' “okonta? aike. Wakahateka waya
k'omanthia. Okuya, Hunyu oyou welinyongamena.
—Iya õngeli tava? Ati:
—Aú! M'ongongo mutupu.
—Iya, tulinga ñgeli? Ati:
—Katuivo vali hono. Iya, katuilala vala?
—Endyu tuende, iya,
ame ndyin'oku nanyanga, “masi? naponwa. Tukatyinde atuho. Aveya, avatetekela
k'onosaku mbosuka?, avali. Lye, lye, etyi vekuta, aveya, avawanena onosaku
mbovilya, avatutaila k'omaleva oko. Otyo vakala na tyo otyo. Avakoudoka
k'omanthia avo oko. Valya lumwe ovilya. Valya. Valya Valya. Etyi vamana
avahimbika:
—Ove Hunyu kunyange!
—Ame, mandyikanyanga. Tyino
vati-ko figa k'etango, etemba olyeli; lyakondoka. Tyivandye ati:
—Etemba olyolyo oku napolele ovipuka. Utyii etyi ndyilinga?
Ualangata m'eheke. Etyi ualangata m'eheke, etemba liya, avekuvasa, avekulondeka
k'etemba. Ove k'etemba, otyo uenda n'okukumuna ovipuka p'ohi. Ove haulombokako.
Pahe kalangale-po k'omeho yetemba. Nga vekuveta ngo, uhaplnduke-po. Hunyu weya,
wahatekela k'omeho yetemba, walangala-po. Etemba etyi lyeya, wok' omeho:
—Pano pankhila ehunyu!...
—Ehunyu ñgo tupu nkhele?! Veya n'ocaleiro yatyo.
—Etei okalavasa! Avelivete, avelivete, avelivete...
ali-hamapinduka-po. Otyo ñgo lilangi. “Ocaleiro? yatyo aiti:
—Ndyetei omutunga! Hono tuhelityindei vali ng'otyivandye.
Hono litomwe n'omutunga. Avaeta omutunga. Tyino vahimbika okueta omutunga,
Hunyu wapindusuka-po umwe, akahateka, aende nkolo. Okuya k'otyivandye.
—Wanyanga? Ati:
—Ehe; Kuna vahanda okunthoma n'omutunga... Elipulu na
tyivandye:
—Oundamba patyi wove ou? Upondola ñgeno wavetwa, wavetwa,
“masi? otyo uhatundu-po. Pahe ove uenda nkholo omutunga? Opo vakala opo, na
tyivandye. Velihindila oumphuki, avati:
—Tuendei tukavake ononkhombo? Ehunyu ati:
—Ehe; Ame oko ankho ndyilihila,
kun'ondywo in' onombambelo mbomulela. Tyivandye ati:
—Iya, kuhongola tuende? Avaende. Okuya m'ondywo omu,
ava-yeulula-po, avapolo-mo onombambelo ombu, mbuli p'eulu, opo mbakutilwe.
Hunyu umbutulula-po; otyivandye otyo atambula, otyo akaholeka oko. Otyo
atambula, otyo akaholeka oko. Ou hunyu om'okutulula. Ati:
—Iya ove, tyivandye,
iya ulinga-tyi-ale?
—Iya, mulume,
hikaholaika? N'oku-tala-tala kuna! Ove ulinyongamena? Uvaka ulinyongamena?
Hunyu hatyo litulula vala? Onombambelo ononthano. Ombu onombali, tyivandye
waholeka tyae, pamwe vali. Ombu ononthatu waholeka pamwe. Etyi hunyu alupuka
vavyuka vaia pu mbu onontnatu. Ononkwavo otyivandye mbumwe waholeka p'onthele.
Avantyindi-po ombu ononthatu aveya avaeta k'omanthia avo, oku vakala vali. Avahimblka
okulya. Valya-po ombambelo ike. Otyivandye walya-mo vala katutu, ou hunyu
omulela uunguiula vala unwa. Otyivandye ati:
—Ove, etyi uungulula ñgo omulela okunwa, ankho tyitiwa
hamwe tuhupulwa, hamwe vamwene vetulandula, ove kumavahiwa unia omulela? Omulume
ulya katutu... Ove ulya unene ñga? Kumehimama n'okuungauluka omulela? Hunyu
walya omulela ó. Kaveimamene k'omuhaho, vamwene vana vonombambelo veya. Tyina
veya vati:
—Tulipole ekondyo! Avelitala, na Hunyu na Tyivandye...
—!!!... Olyatyi?! Avati: —Tulipolei vala ekondyo!
—Mutupula ekondyo onthwe twali ovanthita venyi,
mwetutele-tele? Pahe twelikalela m'ohika yetu muno, mutulandula ñgo? Ekondyo
olyatyi? Avati:
—Onombambelo mbetu mwavaka. Hunyu alomboka:
—Onongapi? Otyivandye:
—Etyi uti onongapi... ove wavaka onongapi? Pulei naina
hunyu, mwene wati “onongapi? Ngoendela un' apa amwene ombambelo yavakwa. Ame
havakele! Avati:
—Tuendei vala! Mwakwatwa. Tuendei! Avevesingi, avevesingi,
avevesingi.. Etyi, vati p'okati, Avati:
—Hamankhanya a hunyu eli? Eli halyatyivandye? Otyivandye
ati:
—Wó! Onwe, etyi mupula omankhanya... Katuenda-enda vali?
Katuyeve vali? Okupulwa omankhanya etu... Enkhanya mwelivahile m'okati kondywo?
Avati:
—Matuende n'onwe, mamukakala m'ondywo. Muhuka tutale oku
mukanina, tutale ou wania omulela. Mwene ou wania omulela kemwimb'ale. Vohunyu
na kavandye vakwatwa avayeililwa m'ondywo. M'ondywo yatyo omu valala. Etyi vati
k'ounthiki, Tyivandye wapinduka-po, ahohiya-po p'otupya. Hunyu ulele. Tyivandye
pahe ulisoka m'omutima, ati:
—Pahe, apa tukania, ngwe twalya omulela, Kamatuimbukwa,
atuhovwa? Ou hunyu wañgañgauka vala. Tyivandye okutala m'ondywo yatyo omu
vapakwa. pen'onyaa yomulela. Amoneka okupola onyaa yomulela, akapolo n'okuwoko
okuwaveka m'omavango a hunyu... tomphe, tomphe, tomphe, tomphe. Otyivandye
“elilimpalela? m'onguwo, alangala-po. Kwatya ñgo k'omuhuka, vamwene veumbo
avati:
—Pindukei-po tutale! Muenda mukatalwe! Tyivandye
walupusuka-po ati vala:
—Lupusuku! Etyi eya p'ondye, aungama, ati:
—Talei! Ame natyike nalya! Hunyu okulupuka... wati vala
okupinduka-po... tyino elifikulula onguwo... m'omavango amuho omulela. Ati:
—Vakwe! Etyi tyandyenda ñgeli vali, onwe?! Nalele umwe
n'okuunguluka, etyi apopile otyivandye!... Hunyu walupuka. Tyino wali p'ombundi
vala, vemumon' ale.
—Ehe! Wavaka omulela ohunyu! Kamuvetei?! Hunyu venae,
avavete... vete, vete, vete, vete, vete... Otyivandye avemuyeke aende. Hunyu
avavete umwe, avakutu. Otyivandye wakakala oko. Wasoka-ko vali:
—Pahe mandyikala andyike? Una pahe ? Tyivandye wakaeta vali
ononmbambelo onombali aholekele n'onombali vali ombu vahile-po. Wembutyinda,
wembeeta. Ati:
—Naeta onombambelo ombu. Neya okuyovola Hunyu. Muyekei.
Mbambelo imwe twalile tyili na e. Pahe naeta ononkhwavo ombu. Ei onkhwavo
tukeinyangaile . Oyo, etyi vamona onombambelo.
—Hé! onombambelo
mbeya!. Kwakamba ike? E!
Tuveyekei vakanyange-nyangee. Tyinyingi etyi tyeya-ko-ale. Ehunyu vemuyeka vakaya na tyivandye. Tyino vakati
oko:
—Kutale etyi nati: “Ame
ndyimulume?? Pahe heile okukukutulula-ko?
—Ati: Aú! Walinga tava, panga lyange! Avaende p'omanthia
avo opo. Oku-himbika vali avati: Tukavake ononkhombo! Vaya m'eumbo lin'
ononkhombo. Avaholama k'ondye. K'ondye oko, Tyivandye wemuhindila umwe: Tyiti:
—Ove uheya ondyimbo
yove, ame ndyiheya ondyimbo yange, tukausukile m'otyinyongo tyononkhombo. Hunyu
uheya yae. Ou uheya yae. Avausukila m'otyinyongo tyononkhombo. Kavandye
watotovekela hunyu:
—Tyino tweya
p'okulupuka, tyino twakawata ononkhombo, ove ulupukila k'oyange, ame
ndyilupukila k'oyove. Otyipuka otyo ong' ombindyi, okuvevindika. Naina
otyivandye walunguka. O “para? apitile k'ondyimbo yae onene, etyivile
okukwata-ko n'ononkhombo. Ou hunyu, etyi veye p'okukwata ononkhombo, wakaya
k'ondyimbo ya Tyivandye. Ou Tyivandye walupukila k'ondyimbo ya hunyu n'onkhombo
yae akahateka. Ou hunyu p'ondyimbo ya Tyivandye kamahupu. Opo vala aika omutwe.
Vamwene vononkhombo avapmduka-po. Umwe manyingila m'ononkhombo... okuti ñgo
ñga... hunyu oyou.
—Etei vakwe! Etei eonga!... Okueta eonga, avatomo. Aú!
Hunyu eliyavele... Aú! Avaosolola. OkuIhana ovakai:
—Endywei mutale, vakwe, wokuhena omwenyo, hunyu! Endywei
hono mulitale! Ovakai avalupuka umwe:
—Alilililililililili!... Mwalinga hono, tatekulu,
mwetupola otyinkhapya; Alilililililililili!... Ckuihana n'ovok'omaumbo:
—Endywei, endywei
mutale ehunyu! Ou uya uveta-mo, ngwe lyankhy'ale. Ou uya uveta-mo. Olyo
lyetumanena ononkhombo mbetu eli!... Ou otyivandye k'ondye oko otyo atehela.
Okutehela... Hunyu vaipaa umwe. Tyivandye akaya. Hunyu avaipaa umwe.
avakafifila. Tyivandye wakakala-kala aike.
—Aveliholo vali oupanga na Kwaila
—Kwaila, katunyanga-nyanga atuho Kwaila ati:
—E! Apeho vanyanga na Kwaila. Ou Kwaila ukavaka onohitu
n'omayiyi, otyo aeta. Tyino aeta omayiyi, otyivandye ati:
—Omayiyi, tyino aliwa, atyatyulilwa k'ombanda yonkhanda.
Otyivandye atyatyaulila k'ombanda yonkhanda. P'okulya ñgo na Kwaila, ou
tyivandye ulasa vala ñgo n'elatka, ou kwaila, ou n'omulungu wae utiatia ñga
okutyoka. Katyiavela okulya. Ou Kwaila wanumanà.
—Mandyipanga-panga ñga n'ondyala? Omayiyi apakwa
k'onkhanda, ame otyo ndyietyoka vala ndyihekuta?
Ou ulasa ukuta? Hono ou Kwaila wanumana, aende umwe, nkhele aile tya muhuka.
Etyi eya, weya umwe n'onohitu ononene-nene. Wavasa ava vanyaneka onohitu
mbafilulwa atyindi. Etyi eya ku Tyivandye, ati:
—Tava, naile oku, naile oku;.. p'eulu apa. Kun' onomphange mbange. Umwe waya m'otyivo. Wapakwa
m'otyivo. Waipaelwa onongombe onombali. Pahe twaihanwa-ko. Tyatiwa: “Tukalye
otyipito?. Tyati vala tyokulya oko tyikahi, tyokunwa oko tyikahi. Pahe oko
matuende. Kavandye, okuiva otyipuka otyo, ati: —Ehe! Matukalya ohitu
n'okunwa!... Iya pahe matulingi ñgeli, ame ndyihena omavava?!
—Kwatela vala m'ovikalo vyange. (Ou Kwaila upopya.) Kwatela
vala m'ovikalo vyange... ame ndyikatuke n'ove, ndyikutwale-ko tukalye,
atukondoka. Kavandye wakwatela m'ovikalo vya Kwaila wakatuka... Katuke, katuke,
katuke.. Etyi ati umwe p'eulu. p'ohi n'eulu, Kwaila ahimbika okusanaina...
okusanaina...
—Tava Kwaila,
uhasanaine, mandyitoko! Otyo asanaina.
—Tava Kwaila uhasanaine, mandyitoko! Aú!... Wakwatele-ko... Kuwoko kwike vala... Aú!...
Asoponoka-ko... ati umwe: Kulungutu... Kulungutu... Kulungutu!... Tyatu! Kwaila alikaavelà vala okuliseta aliya,
alitala otyivandye. Otyivandye... wakukuta-mo kohale. Aú! Kwaila esala-po umwe
aike, n'okutiyanga aike. Ohande ya Hunyu oyo aipaehile k'ovikombo, oyo yeile
okukola otyivandye. Aú! Kwaila wesala umwe aike. Oluñgano lwange...
luhelengete!... lwapwa!
1: A
Hiena e o Chacal
Pactuaram amlzade. E dlz o Chacal:
—Hiena, fiquemos juntos, vamos caçando juntos por esse
mato. Quando tivermos encontrado de comer, comemos juntos. Se um for à caça e
acontecer que o outro não foi, comemos ambos daquele que caçou. Se acontecer
que o primeiro não foi, comemos ambos daquele que caçou. “Mas?, há alguém que
tem muitos bois e que quer pastores. Não tomamos nós por enquanto o partido da
pastoricia? Porque isto de procurar no mato ... nada nele encontramos às vezes.
A Hiena fez-se de pastor; o chacal fez-se igualmente pastor. Quando saem com o
gado vão-se juntar nos pastos. Assim vão pastoreando juntos. Ao cair da tarde
volta um com os seus bois, e volta outro com os seus, vão metê-los no curral. É
esse o seu pastoreio, ésempre esse o seu pastorelo. Certo dia uma vaca das do
chacal deu a sua cria. Assim que ela pariu, o chacal tirou para si as páreas. O
vitelo carregou com ele e levou-o para o curral. No dia seguinte, ao
encontrar-se com a Hiena, pergunta-lhe esta:
—Então ó companheiro, tu tens sinais de sangue? Tens sinais
de sangue... que é que comeste? Resposta:
—Ora, companheiro, durante a pastorícia tu não apanhas
nada? Diz a Hiena: —Que hei-de eu comer? Eu, a minha comida durante o
pastoreio, é encontrar um pedaçco de goma resinosa, e eu como... se acerto uma
porrinhada numa lebrezita, eu como... Arranjo eu alguma coisa mais durante o
pasto? Replica o Chacal:
—Oh! És tolo. Eu quanto aos meus, se uma vaca deu cria, eu
como “aquilo que vem atrás?. A Hiena foi ouvindo e foi guardando no coraçao;
entretanto continuava a pastoricia, dia após dia. Pois um dia, a Hiena foi para
o pasto e passou-o a guardar o gado. Quando as reses iam para casa, notava-se o
fracalhote de um bezerro que ia sempre a ficar para trás. E diz a Hiena:
—Oh! Este bezerro que vai a ficar para trás, nao éele
“aquilo que vem atrás?? O chacal afirmou: O pastor come “aquilo que vem
atrás?... Pois também eu vou comer o que fica para trás. A hiena comeu o
bezerro que se deixava ficar para trás. Comeu... comeu aquela carne... e quando
se sentiu farta dependurou uma parte dela numa árvore. Depois tocou para casa
os seus bois e meteu-os no curral. Vindo ela com os bois, alguém da gente dos
sambos exclamou:
—Então nao dais um pouco de leite desnatado ao pastor que
foi passar o dia com os bois? Ao dar-lhe o leite, afinal a hiena nao quer
comer. Tem a barriga cheia. Assim que se apresentaram para a ordenha e enquanto
deitam os olhos para os bois... não se encontra ali um bezerro mais fraco que
costumava deixar-se ficar para trás. Pergunta então o dono do gado:
—Oh! O hiena meu pastor! Então o bezerro que costumava
ficar para trás, onde está? Responde a hiena:
—Pois então eu não comi? Então não era o que ficava para
trás? Não pertence ao pastor o que fica para trás?
—Oh! Nós dissemos-te que levasses o gado ao pasto ou
dissemos nós, vai comer o que fica para trás? Quem éque te disse tal coisa?
—Responde: A mim foi o chacal que disse: O pastor quando
anda com o gado, aquilo que vai atrás, aquilo que vai ficando para trás, tu
come-lo. O dono do gado mandou chamar o chacal.
—Inde chamá-lo! O chacal apresentou-se.
—Entao como é isso chacal?! —Resposta:
—Nao há nada! Nós estamos ali nos nossos sambos. E ouvimos
o vosso recado a chamar. Limitamo-nos a vir atender àquilo para que nos
chamastes. Diz o dono:
—Nao ouviste, Hiena?! Entao nao o interrogas o chacal?
—Ó Chacal, entao tu nao disseste. “Come-se o que vem
atrás??
—E tu comeste “o que vem atrás??
—Sim, eu comi o bezerrito da rectaguarda!...
—Haha... Eu disse-te que o pastor come aquilo que vem,
atrás... Tendo parido alguma vaca, tu, comes as páreas. Afinal, tu vais comer o
bezerro da rectaguarda, que te nao pertence?! NÓs só somos pastores! A questao
é da tua responsabilidade. Os donos do gado agarraram a Hiene a bateram-lhe.
—Vai-te embora! Nao mais pastorearás o nosso gado! A Hiena
foi-se embora. —O chacal, tu onde éque foste? Diz ele:
—Eu fui ali e deparei com umas questõezitas por causa da
Hiena que comeu um vitelo alheio, que costumava ficar para trás. Foi só isso a
que fui atender. Ora, tambéem os daquele “sambo?, os próprios donos do gado
exclamaram:
—Ora esta!... A hiena foi comer o bezerro da rectaguarda?
Todavia étua amiga... se calhar comestes ambos, pois passais o dia juntos, na
pastorícia. Nós também nao te queremos mais. Vai embora! Ides ambos procurar
onde entenderdes, noutra parte qualquer. Nós nao vos queremos mais! E acontece
isto: Quer o Chacal, quer a Hiena, ficaram sem nada. Já nao sao mais pastores.
E pegaram ambos a conversar:
—Que vamos fazer nós, ó hiena? E a Hiena:
—Pois, nao serás tu quem sabe? Responde o Chacal:
—Bom! Vamos ocupar-nos de ir apanhando qualquer coisa por
esse mato. E será assim: Um sai por esse mato à procura e o outro sai também à procura.
De volta, juntar-nos-emos ao pé da nossa lareira. Separaram-se. Um foi àcaça e
outro foi à caça. O chacal foi para os lados das estradas carreteiras. Quando
relanceava os olhos... eis um carro de bois que segue sua viagem. E ele pensou
uma das suas. Deitou a correr e ultrapassou o carro. Rebolou-se e tornou-se a
rebolar na terra, todo empoeirado até aos olhos, tudo até mesmo na boca. E
deitouse na estrada carreteira. Lá vem agora o carro. Via-se um à frente dos
bois, e o carreiro respectivo que os tocava. Exclama o da frente:
—Olá, ó companheiros, fazei parar os bois! Há aqui qualquer
coisa! Quem ia a tocar os bois respondeu:
—O que há? —Há aqui uma “coisa? morta. Vinde vê-la. Veio o
carreiro e disse: —Que bicho é este? Ah! E um chacal nao?! Morreu... —Que é que
lhe deu? E diz mais: Morreu. Agora que é que se vai fazer? Deixai-o para ai, não
é animal que se coma... Que ides fazer com ele? Diz um do lado:
—Oh, o que nao se come é a carne, não? Olha lá e a pele nao
se vai talvez vender? Tiraram dali o chacal e dependuraram-no no carro, nas
traseiras. O carreiro vai tocando o gado. Põe-se o sol e começa o escurecer.
Posto deveras o sol... sobrevindo a escuridao, principia o chacal a empurrar os
sacos de mantimento, fazendo-os cair; e os do açúcar lá os foi deitando abaixo.
Feito isto, o chacal saltou do carro. Os que conduzem de nada sabem. Pensam
simplesmente:
—O chacal, dependuramo-lo no carro. O chacal, descido do
carro, tomou aqueles seus sacos e foi escondendo os do açúcar nas cavernas.
Voltou outra vez pelos do mantimento e nao pode com eles pois está sòzinho. A
correr, tomou a direcçao da lareira. Ao chegar, depara com a hiena cabisbaixa.
—Então como vai isso, companheira. Resposta:
—Nada! Para os lados da colina não há nada.
—E então como vamos fazer? Resposta:
—Sei lá o que vai ser hoje. Vamo-nos deitar com ela, não? E
o chacal: Olha, vem dai comigo. Há algo que eu arranjei para ali, mas émuito
para as minhas forças. Vamos carregar os dois. Chegaram ao local, começaram
pelos sacos do açúcar e comeram. Come que come, come que come, e uma vez
fartos, vêin deitar-se aos sacos de mantimentos e vão-nos transportando para as
cavernas. De tal serviço se foram ocupando. Por fim retornaram ao fogo do seu
lar. Comeram cereal a valer. Comeram deveras. Deveras. Deveras. Acabada a
provisao tornaram eles outra vez:
—Tu, ó Hiena, vai ver se arranjas!
—Eu também vou. A certa altura, pela tardinha, eis o carro
de bois. Volta do lugar para onde se dirigira. E o Chacal toma a palavra:
—O carro éo tal de onde tirei as coisas! Sabes como eu
faço? Vais-te espojar na terra. Depois de te teres espojado, vem o carro,
deparam contigo e deitam-te para cima dele. Tu, lá no carro, vais empurrando as
coisas para o chao. Depois saltarás. Agora vai deitar-te no chao lá para diante
do carro. Ainda que te batam, nao te levantes. Vai a hiena, corre para a frente
do carro e deita-se. O carro vem e grita o da frente:
—Morreu aqui uma hiena!... —Ainda mais uma hiena?!
Aproximaram-se e entre eles o carreiro.
—Trazei o chicote grosso! Deram-lhe, deram-lhe,
deram-lhe... e o animal sem se levantar.
Continua deitado. Exclama entao o carreiro:
—Trazei cá o facalhao! Nao carreguemos desta vez com o
bicho como fizemos com o chacal. Seja espetado com o facalhao. E trouxeram o
facalhao. Quando vinham de lá com ele, a hiena levanta-se num pronto e deita a
correr, fugindo. Até que chegou junto do chacal... —Arranjaste alguma coisa?
Responde: Safa! Eles queriam-me espetar com urn facalhão... Vem a interpelaçao
do chacal: Mas que parvoice a tua?! Tu podias apanhar e tornar a apanhar, mas
sem sair do sítio. Agora tu pões-te a fugir dum facalhao? Por ali ficaram mais
o chacal. Até que recomeçaram a combinaçao de partidas:
—Vamos roubar cabritos? Diz a hiena:
—Isso nao! Lá onde eu era pastor, há um aposento com
recipientes de manteiga. E vem o chacal:
—Entao, põe-te a mostrar o caminho, nao? Lá vao eles.
Chegados àtal cubata abriram-na e tiraram as vasilhas com manteiga,
dependuradas e amarradas em cima. A hiena descia-as e o chacal recebia-as. O
chacal vai-as recebendo e afasta-se a escondê-las. Vai-as recebendo e lá vai
indo a escondê-las. A hiena essa ocupa-se a tirá-las. E pergunta:
—Entao tu, óchacal, que fazes tu afinal?
—O homem, pois eu nao vou esconder? E ir deitando os olhos!
Tu olhas só para o chao? Quem rouba, deita os oihos só para o chao? E assim a
hiena continua a tirar. Sao cinco vasilhas de manteiga. Duas delas, foi o
chacal escondê-las de sua conta, em sítio àparte. As outras três, escondeu-as
noutro iugar. Saida a hiena cá para fora, vao direitos às tais três. As outras
escondeu-as o chacal mais para o lado. Carregaram com as três e trouxeram-nas
para casa e lareira onde vivem então. Deitam-se a comer. Acabaram com uma
vasilha de manteiga. O Chacal comeu pouco, mas a hiena, essa, derrete a
manteiga e limita-se a bebê-la. Diz entao o chacal:
—Tu, que te pões a derreter a manteiga e a bebê-la, e se
acontece de sermos apanhados, ou se os donos seguem o rasto, nao vais tu ser
encontrada a esvasiar manteiga pelo ânus? Quem tem tino come pouco... Tu
atiras-te a comer desta maneira? Nao vais passar o dia a desfazer-te em
manteiga? A hiena comeu aquela manteiga. Mal tinham acabado a conversa, os
donos das cabaças, ei-los que surgem. Chegados a eles, exclamam:
—Observemos o rasto! E olharam um para o outro. Hiena e
Chacal... O rasto de quê? E eles insistem: sigamos só o rasto!
—Interrogais-nos acerca do rasto, a nós, que fomos vossos
pastores e nos expulsastes? Agora que vivemos longe de vós, neste nosso mato,
ainda vindes atrás de nós. Para que éo rasto? Responderam:
—As nossas cabaças de manteiga que roubastes. E a hiena
sobressaltada:
—Quantas? Replica o chacal: E tu dizes “quantas?... quantas
roubaste tu? Afinal interrogal a própria hiena que pergunta “quantas?! Se
calhar viu algures qualquer cabaça roubada. Eu éque nao roubei! Ripostam eles:
—Vamos, vamos!
Estais presos. Vamos! E foram-nos tocando, tocando... Chegados a meio caminho,
disseram: Estas patas nao sao desta Hiena? Esta aqui nao édo chacal? Objecta o
chacal:
—Oh, vós que vos pondes a interrogar acerca de patas...
afinal nós deixamos de andar? Deixamos de caçar? A interrogarem-nos por causa
das nossas patas... Essa patada encontraste-la dentro de casa? Dizem eles:
—Vamos levar-vos, ides ficar fechados de noite num
aposento. Amanhã observaremos onde fordes defecar, a ver quem deita manteiga
para fora. Aquele que defeca manteiga nao custa a reconhecer. A hiena e o
chacal são presos e fechados num aposento. Nesse aposento passam a noite. Alta
noite, o chacal levantase e põe-se a atiçar o fogo. A hiena dorme. O chacal
põe-se a pensar consigo e diz:
—Agora, onde formos defecar, pois que comemos manteiga, nao
vamos nós ser descobertos e desancados? Ora a hiena dorme a sono solto. O
chacal, olhando à roda, no aposento onde estão metidos, dá com uma corna de
manteiga. E ei-lo que toma a corna de manteiga, tira manteiga com a mão e vai
besuntando as faces anteriores das coxas da hiena... besunta, besunta, besunta,
besunta... O chacal limpou-se à manta e deitou-se. No dia seguinte de manha vêm
os donos da casa e dizem:
—Levantai-vos a ver! Para irdes ao mato e serdes
observados! O chacal saiu num pronto, no gesto de:
—Catrapus! Chegado cá fora, põs-se de traseiro para o ar e
disse:
—Olhai! Eu nada comi! A hiena ao sair... apenas ao
levantar-se... ao começar a descobrir-se... toda a parte entre-coxas émanteiga.
E exclama:
—Ora esta! Vede lá como é que isto me aconteceu?! Passei a
noite a derreter deveras, assim como o chacal afirmou!... Saiu fora a hiena.
Mal chegou àporta, logo repararam nela.
—Olha, olha! Quem roubou a manteiga foi a hiena?! Não lhe
saltais em cima?! A hiena têm-na segura e cascam-lhe. Cascam, cascam, cascam,
cascam, cascam: O chacal deixaram-no ir embora. A hiena bateram-lhe a valer e
amarraram-na. O chacal lá foi passar a noite. Pôs-se a pensar e disse:
—Agora vou ficar sòzinho? Eles nao a vao iargar mais, nao
éassim? O chacal foi buscar as duas cabaças que escondera e mais duas que
haviam deixado ainda. Carregou com elas e apresentou-as. Disse assim:
—Eu vim trazer estas cabaças... Vim libertar a hiena.
Deixai-a. Uma cabaça éverdade que a comemos. Agora vim trazer estas. Aquela que
falta, nós iremos apanhando com que a pagar. Eles, uma vez que tinham ali as
cabaças.
—Ora! As cabaças
vieram! Falta uma? Está bem! Deixemo-los que vao a agarrar coisas pelo mato. O
mais importante já veio. Deixaram a hiena e ela foi-se mais o chacal. A certa
altura, diz o chacal:
—Vês como eu tenho dito: Eu cá sou urn homem?! Não vim eu
soltar-te?
—Diz a hiena: Ah! Companheiro e amigo, fizeste bom
trabalho! E foram até a sua morada. Um dia voltam a dizer entre si: Vamos
roubar cabritos! Foram-se a uma casa onde havia cabritos. Esconderam-se cá
fora. Ali fora, o chacal aconselhou-lhe uma das suas. Diz ele:
—Tu cavas o teu túnel de entrada e eu cavo o meu, de modo a
irmos dar lá dentro do curral dos cabritos. A hiena escava o seu, o outro
escava o seu. E foram dar lá dentro no curral dos cabritos. Põe-se o chacal a
cochichar para a hiena:
—Quando formos para sair, quando tivermos agarrado os
cabritos, tu sais pelo meu e eu saio pelo teu. Isto écomo um obstáculo de
feitiçaria que lhes pomos a eles. Afinal o chacal usa de esperteza. E para ele
passar pelo buraco maior do companheiro e poder assim levar os cabritos. De seu
lado, a hiena, quando se deitaram aos cabritos, dirigiu-se para o buraco do
chacal. Enquanto que o chacal saiu pelo buraco de hiena com o seu cabrito e
fugiu a correr. Quanto à hiena, não consegue entrar pelo buraco do chacal. Só
ai consegue meter a cabeça. Os donos dos cabritos levantaram-se. Ia um a entrar
no curral dos cabritos... relanceou o olhar... ei-la, a hiena.
—Trazei cá, companheiros! Trazei a azagaia!... Trazida a
azagaia, cravaram-na. Pronto! A hiena gritou... Pronto! Acabaram com a hiena.
Puseram-se então a chamar o mulherio da casa.
—Vinde vós cá ver, aqui sem vida, a hiena! Vinde vé-la
desta feita. Sairam as mulheres de seus aposentos.
—Alililililililili!... Bom trabalho hoje, sim senhores,
desembaracastes-nos de uma fera! Alilililililililili!... Chamaram entao as das
outras casas:
—Vinde cá! Vinde ver a hiena! Vem esta e bate-lhe —que
afinal já está morta. —Vem outra e bate-lhe. Foi esta, foi ela que deu cabo dos
nossos cabritos!... Quanto ao chacal, cá de fora, vai escutando. E pelo que ouve...
A hiena deram cabo dela. Foi-se embora o chacal. A hiena mataram-na sem mais e
foram enterrá-la. O chacal passou a viver sòzinho.
—Ligou-se depois de amizades com o Corvo.
—O Corvo, vamos ambos àcaça de alguma coisa! Diz o Corvo:
—Está bem! Caçam sempre ambos, ele e o Corvo. Vai o corvo e
rouba carne e ovos e vem trazer. Quando chega de trazer ovos, diz-lhe o Chacal:
—Os ovos, para se comerem, esborracham-se em cima de uma
pedra. E o chacal esborracha-os em cima de uma pedra. Ao comerem-nos mais o
Corvo, para o chacal aquilo ésó lamber com a lingua, enquanto o corvo com o seu
bico limita-se a dar picadelas. Comer é que natilde;o pode. O corvo fica
zangado.
—Vou entao continuar assim esfomeado. Vão os ovos para cima
da pedra e eu limito-me a dar picadelas sem me fartar? Quem lambe, esse, enche
a barriga, nao? Um dia, o Corvo sai zangado. e vai-se para longe, sem aparecer
desde pela manha. Uma vez de volta, traz grandes pedaços de carne. E que
encontrou gente que estendera carne encalada e earregou com ela. Dirigindo-se
ao Chacal. diz-lhe:
—Companheiro, eu fui ali a um sitio. ali... nesse
firmamento. Ali moram minhas irmãs. Uma delas tem a sua festa. Fizeram-lhe a
festa da puberdade. Mataram-lhe dois bois. Agora estamos convidados. Dizem que
“Vamos lá comer a festa?. E assim: quanto a comida, lá a temos; quanto a
bebida, lá a temos tambem. Vamos entao. O chacal, ao ouvir uma coisa assim.
diz:
—Essa agora! Vamos comer carne e vamos heber!... Então.
como vamos nos proceder, não tendo eu asas?!
—Tu apenas te seguras nas minhas pernas... (E o Corvo quem
fala...). Apenas te seguras nas minhas pernas ...e eu pego a voar contigo.
levo-te para comermos e depois voltamos. Agarrou-se o chacal às pernas do
Corvo. E o Corvo levantou voo... a subir, a subir, a subir... Chegado a grande
altura, “entre o céu e a terra?, começa o Corvo a sacudir as pernas... a
sacudir... a sacudir... —O Corvo camarada. não sacudas as pernas, que eu calo!
Mas ele continua a sacudi-las. —O Corvo camarada, não sacudas as pernas, que eu
calo! Nada feito! Agarrou-se... depois com uma só pata... Nada!...
Escapou-se... e lá vai ele:
—Uma volta no ar!... Outra volta no ar!... Outra volta no
ar!... Pumba! O Corvo fez uma manobra a ensaiar
uma volta e pôs-se a olhar para o chacal. O chacal... já há muito que esticou.
Pronto! E o Corvo ficou mesmo sem companheiro, governando-se sòzinho. A “alma?
da Hiena a quem tinha feito morrer lá nos cabritos, foi essa que veio ser
nociva ao Chacal. E pronto! O Corvo ficou mesmo sem companheiro.
O meu conto... escapuliu-se!... acabou!
Narrador:
António Constantino Tyikwa, casado de 33 anos de idade, descendente de pai
ngambwe (Gambos). Gravaçao: Missao da Quihita, Julho de 1963. Lingua: Nyaneka.
Esta fábula com cinco episódios, é a narraçao mais bem estruturada, se é permitido
empregar este termo, quando de conto popular se trata, da nossa coleção. A sua
exposição segue perfeitamente os cânones tradicionais da narraçao fabulistica.
Nao lhe falta como remate a respectiva liçao moral, em forma de uma sanção,
motivada. bem caracterìsticamente, pela crença espirita e mágica.
2:
Votyimbungu Na Kavandye
Vo Kavandye na Tyimbungu avaenda-enda. Etyi avati k'onthele
k'enyana, avakoyo ongandu. Kavandye wati:
—Mekulu, tyinda otyikokwa-kokwa tyetu. Ongandu yatyo,
yelikukutisa. Naina kavandye utyii okuti. ongandu in'omwenyo. Pahe Kavandye
aende n'okuimba: Me tyimbungu watyinda ombandwa. Iende k'enyana ikemukwate.
—Wati-wi? Emupulu.
—Ame nati: Otyikokwa-kokwa tyetu... na yaye... tyiende
k'enyana tyikaneñgene, Nga tyaneñgena, ha yomutete? Etyi vehika k'enyana,
Kavandye atyipumphama p'ekomo. atyiti:
—Mekulu, enda, kayaveke! Ovanthu maveya... Tyimbungu etyi
aya m'omeva, atiwa m'onongolo, Kavandye ati:
—Opo hapo-ko! Enda vali apa pena omeva omanyingi. Ati lumwe
—fwaa ... m'eimo. Ati vali:
—Fwena p'eiva. Etyi aya p'eiva, ongandu aimulwisa. Ongandu
ai k'hohi, tyimbungu ai k'ombanda; tyimbungu atyii k'ohi, ongandu aii
k'ombanda. Kavandye etyi atala vepwilla, apolo omoko, ateta omutyila
wotyimbungu, atete vali wongandu. Etyi veiva tyaihahia aveliyeke. Tyimbungu
tyino atala omutyila wac, ati:
—Okavandye wateta ñga... Ati: Nkhwali katulimono!...
Ongandu tyina ati ñgana... omutyila kutupu! ati:
—Okavandye, kalinga ñga!... Nkhwali katulimono!...
Tyimbungu aya m'omukekete, alye ononkhekete. Tyina ati ñgana... Kavandye oyou!
Ati:
—Uheye!... Kavandye, otyo apaka omutyila wotyimbungu
k'onyima, apake omutyila wongandu k'omeho. Atyiti: —Wateta omutyila wange,
Kavandye!!
—Nateta wongandu, kutale? Ati: Lya ononkhetete mukulukai!
Akali. Aende kenyana okukanwa. Avasa ongandu yemukevela. Aiti:
—Ove wanthetela omutyila!! Ati: —Ahau! Ahololola omutyila
wotyimbungu, ati: —Kutale? Nateta omutyila wotyimbungu ekuyeke. Ongandu aiti:
—Nwa ñgo omeva.
2: A
Hiena E O Chacal
O Chacal e a Hiena andavam de passeio. Tendo vindo dar ao
pé do rio, depararam com um crocodilo. Exclama o chacal:
—O avó, carrega com esse nosso bicho rastejador. Ora o
crocodilo tinha-se fingidamente inteiriçado. Pelos vistos o Chacal percebera
que o crocodilo estava vivo. O Chacal segue então caminho cantando: A mãe hiena
leva um couro as costas. Pois que vá para o rio, para que ele lá a agarre.
—Que disseste? Pergunta-lhe.
—Eu disse: O nosso bicho rastejador... que vá indo... que
vá para o rio, a fim de amolecer. Uma vez amolecido, não será então pertença do
primeiro? Assim que chegaram ao rio, o chacal sentou-se na riba e exclama:
—O avó, anda, vai pôr de molho! Ainda aparece gente...
Tendo-se metido a hiena na água. com ela pelos joelhos, diz o chacal:
—Aí nao! Vai para onde houver muita água. E a hiena, a
direito pela água!... até àbarriga. Torna o chacal:
—Chega-te para o pego do rio! Assim que chegou à água
funda, virou-se a ela o crocodilo. Ora o crocodilo por debaixo e a hiena por de
cima; ora a hiena por baixo e o crocodilo pelo lado de cima. O chacal, logo que
os viu cansados, sacou duma faca e cortou a cauda da hiena e a seguir cortou a
do crocodile. Quando começaram a sentir dores, separaram-se. A hiena, olhando
para a sua Cauda, exclamou:
—Foi o chacal que assim cortou... E acrescentou: Se calhar
não nos encontramos mais!... O crocodilo, ao reparar de certo jeito... a cauda
já não existe! —e diz:
—Isto foi obra do Chacal!... Se calhar não nos vemos
mais!... A Hiena foi-se a um arbusto “Zizyphus jujuba? À procura de fruta para
comer. Ao relancear os olhos... cá está o Chacal!
—E diz ela: Tu não venhas para mim!... E o chacal ia
colocando escondida a cauda da hiena por de trás de si, enquanto apresentava
por diante a do crocodilo. —E continua a hiena:
—Cortaste a minha cauda, Chacal!!
—Eu cortei a do crocodilo; Nao vês? E vai então a Hiena:
Come da fruta minha velha. E ele foi comer. Dirigiu-se depois ao rio a beber.
Ali encontra o crocodilo àsua espera e diz este:
—Tu cortaste-me a cauda!! Responde o chacal: Não, não! E
mostrou a cauda da hiena, dizendo: —Nao vês? Eu cortei a cauda da hiena, para
que ela te largasse. Responde o crocodilo: Continua então a beber água.
Narradora:
Maria Rosa, viúva de 49 anos de idade, descendente de pais ngambwe (gambos).
Gravaçao: Missao da Quihita Julho de 1963. Lingua: Nyaneka
3:
Ehunyu No Kavandye
Opopo umwe. Otyimbungu na Kavandye. Ou Tyimbungu wavasa
Tyivandye wavaleka ina omihoti. Ati:
—Olye wahika,
mutekula? Ati: Ame, mekulu. nahika! Ati (vali):
—Uhika ng'ou utiwa o Senenge. Ankho uhanda, kateleke ofufwa
n'otyihima, oete emphuku lyatyo tutwale ku Senenge. Iya, Hunyu wakaeta emphuku
lya ina, n'otyihima, n'otyifufwa, avatwala ku Senenge, k'omuti wofela. Tyino
veya, Senenge wati:
—Sêe! Ou Kavandye ati: Vaketu! Twaeta omihoti vyoina a
Tyimbungu, vyeya okuhikwa. Ng'oyo okuvandya!.. Senenge ati: Sêe! Atyiti:
—Vaketu! —Sêe! —Vaketu!... Hó! Hayoyo, mekulu, Hunyu?
Katyatilwe: “Kakale ononthiki etyinana, iya, uye, uvipole?? Ou Kavandye wapita
na Tyimbungu. Ngwe Kavandye kondoka okuya okulya-po ovihima ovyo n'otyifufwa
tyatyo. Iya, Hunyu wakakala ononthiki etyinana. Weya k'omihoti vya ina. Ou
Kavandye ati: —Aha! Enda-ko ove mwene ku Senege. Mokavasa vyahikw'ale,
vyapw'ale. Hunyu, okuya ku Senenge, Senenge wahimbika: —Sêe! Tyimbungu ati:
—Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Hé? E! Tweya
okupola omihoti vyo me: ng'oyo okuvandya. —Sêe! —Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Ho!
Senenge mphe omihoti vya me. —Sêe! —Mandyiende! —Sêe! —K'onongombe mbange
petupu ou mekembulupula. —Sêe! —Senenge, waseta! Mphe omihoti vya me! —Sêe!
Sêe! Sêe! —Ho! Senenge, ulingila-tyi ñgana? Iya, Hunyu apolo onkhunye akapula
mu Senenge, m'omuti. Iya, onkhunye, etyi yatunda m'omuti, aitila umwe:
—Topa! —m'omphomo ya Tyimbungu Tyimbungu ati:
—Aye, tava! Tuhalwe
m'ononkhunye. Tulwe m'onohoka! Ou Hunyu, tyino akwatela m'omumphapa ngetyi, mu
Senenge, omu mwelihonyalna omakete akwanye k'omakutwi. Ati:
—Ehe! Tuhalwe n'onohoka! Ndyeke! Akahateka. Ati:
—Nkhwali ou matiwa otyivandye, himekemuvasa. Okuenda ku
Tyivandye, una walinga vali, wavinda ina: —Ho!... (Olunuma olu womihoti
welulimbwa ko, wateketa n'otylvlndo tya ina a Tyivandye). Ina a Tyivandye
wefiwa!... Olye wavinda? Ati:
—Ame. —Iya, tyivindwa ñgeli? Ati:
—Taindya omakete omanene, otaindya ovityuma vyatyo, otyo
upapela, otyo upapela n'omapango. Ng'ellyavela ñgo, ove papela vala, papela
vala... okemutwala k'ondywo ill kokule. Iya, Tyimbungu wakwata-ko ina...
papele, papele, papele... emutwala k'ondywo eli kokule. Wemulaa ononthiki
epandu ati: “Omona wove, Tyimbungu, emutwaile-twaile okulya?. Otyimbungu watuma
omona wae okutiwa: “Twaila nyokokulu okulya?. Omona, okutwala-ko, ati:
—Una, mekulu, kamali... Ou Tyimbungu, ati: —Hé! Wefiwa!...
Hatyo ahamalila? Hatyetyi efiwa? Muhuka tyé, Tyimbungu ateleka. Omona atwala
okulya. Ati:
—Mekulu kamali! Ati:
—Mukwe, wefiwa! Tyikahi n'okuvova pahe. Tyikahi pahe nawa.
Wefiwa!... Aú! Ononthlki mbekeya-po epandu. M'oyapandu-vali, Tyimbungu
okukatala ku ina... Tyimbungu, ina kemuvahile wavola, ondywo lywile omativa?
Hakaluñgano kange? Helengete! Ha mu ove?
3: A
Hiena E O Chacal
E desses mesmo que se trata: A Hiena e o Chacal. Esta, a
hiena, deparou com o chacal que vestira a mãe com peles amaciadas. E exclamou:
—Quem preparou as peles, meu neto? Resposta: O avó, fui eu
que as arranjei! E acrescentou:
—Quem assim as prepara chama-se o Range-Range. Se queres,
vai cozinhar uma galinha e pirão e trazes a pele a preparar para a levarmos ao
“Range-Range?. Foi então a Hiena buscar a pele pertença da mãe, e pirão, e uma galinha,
tendo levado tudo ao “Range-Range?, a uma árvore que se friccionava sob a acção
do vento. Ao chegarem, ouve-se o “Range-Range?:
—Chiê! E o chacal responde: Obrigado! Trouxemos-te os
vestidos de peles da mãe da Hiena que são para preparar. Eis o que nos traz e
nada mais!... “Range-Range? continua: Chiê! E o chacal: Obrigado! —Chiê!
—Obrigado!... Ah! Ora, não é, ó avó, Hiena? Não disse ele: “Vais passar oito
dias e oito noites e vireis depois buscar as peles? E o Chacal lá se foi mais a
Hiena. Mas o Chacal voltou e veio comer aquele pirão e a galinha que o
acompanhava. Pois a hiena foi passar oito dias e oito noites. E veio ao depois
em busca das peles para a mãe. Mas o chacal objectou:
—Não, isso não! Vais
lá tu mesma ao “Range-Range?. Vais encontrá-las preparadas e prontas. Vem a
hiena ter com o “Range-Range? e logo começa este: —Chiê! A hiena responde:
—Obrigado. —Chiê! —Obrigado! —Chiê! —Obrigado! —Entao?!... Pois bem. Vim buscar
as peles para a minha mae: eis o que me traz.
—Chiê! —Obrigado! —Chiê! —Obrigado! —Oh! O Range-Range,
dá-me as peles para a minha mãe. —Chiê! —Tenho de me ir embora! —Chiê! —Olha
que não tenho ninguém para tirar os bois do curral. —Chiê! —Range-Range, estás
a demorar. Dá-me as peles para a minha mãe! —Chiê! Chiê! Chiê! —Oh!
Range-Range, porque procedes assim? A Hiena saca então de um porrinho, e joga-o
ao Range-Range. E o porrinho ao fazer ricochete na árvore, veio de lá mesmo:
—Pumba! —a bater na testa da hiena. Exclama esta:
—Assim não, companheiro! Não vamos ámocada! Peguemo-nos com
as unhas! Esta, a hiena, ao querer agarrar-se à árvore em questão, a deivar-se
ao Range-Range, onde se emaranhavam espinheiros, estes arranharam-na nas
orelhas. Gritou esta:
—Nada! Não lutemos com as unhas! Larga-me! E largou dali a
correr, dizendo: —Aquele que se chama Chacal, se calhar não vou apanhá-lo. Uma
vez Junto do Chacal, já ele arranjou outra, enfeitou a cabeleira da mae.
—Oh!... (Já esquecera a zanga das peles e prendeu-se logo
pela cabeleira da mae do Chacal). A mãe do chacal está bonita!... Quem lhe fez
a cabeleira? Diz o chacal: Fui eu.
—Entao como é que se faz? E diz ele: Tu procuras uns
espinhos que sejam grandes e arranjas os devidos pertences e vais pregando
tudo, vais martelando com paus grossos. Mesmo que grite, tu martela sempre,
martela sempre... e leva-la para um aposento afastado. Então a Hiena agarrou a
mãe... toca a martelar, a martelar, a martelar... e levou-a para um aposento
afastado. O Chacal havia-lhe marcado seis dias, dizendo: Olha, Hiena, “o teu
filho que lhe vá levando de corner?... A Hiena mandou seu filho: Leva de comer
à tua avó. O miúdo leva e vem dizer;
—A avó não quer comer... A hiena, essa, exclama:
—Ah! Está bonita!...
E por isso que não come, não? Nao é porque está bonita? No outro dia a hiena
cozinhou. A criança leva o comer e vem dizer:
—A avó não come! E a Hiena: Olha, é que está bonita! Está
agora a cabeleira a amaciar. Agora é que está bem. Ficou bonita. Pois sim!
Chegou o prazo dos seis dias. No sétimo dia vai a hiena visitar sua mãe... E não
aconteceu que a hiena foi encontrar sua mãe podre, num aposento cheio de
vermes? A minha històriazinha, não? Ela escapuliu-se! Nao é agora a tua vez?
Narradora: Celina,
casada, de 31 anos de idade, descendente de pais ngambwe(Gambos). Gravaçao:
Missaao da quihita Julho de 1963. Lingua: Nyaneka. Os dois episóodios deste
conto figuram também, o primeiro num conto cuanhama e o segundo numa narração
humbe (nkumbi). Ambas são inéditas. A historieta macabra do penteado faz
igualmente parte de uma narrativa Bunda (Mbundu), publicada por Hauenstein, mas
nela o papel do Chacal édesemenhado pela Lebre. “Bolettm do Institute de Angola
N.o 21/33 —Luanda 1965
4: Ongalanga Na Kavandye
Ovongalanga na Kavandye kumbi limwe, velihindila vakavake
ononkhombo m'omaumbo. Etyi ongulohi yeya-po avelipake m'ondyila. Vehike vavasa
otyinyongo tyononkhombo. Okutala, atyiho tyilele, Kavandye ati ku Ngalanga:
—Nyingila-mo, ove mukulu una vali ononkhono ku ame, ukwate-mo onkhombo
mandyikulekesa yokwanina vali. Ame pano pondye simbu ndyilava vahekulu, ankho
vapahuka-po. Engalanga m' okwahanoñgonokele okuti Kavandye umulavisa okuhanda
okumuipaesa, watavela okunyingila m'otyinyongo. Ngalanga akwate onkhombo onene
yom'otylnyongo. Ou Kavandye n'okuywela ati:
—Oyo hayo! Kwata ina onene vali! Ngalanga eikwata. Kavandye
ati vali p'eulu:
—Oyo hayo! Vahekulu
etyi vetyiiva avapahuka-po, avahateke n'ononkhunye okutala otyityi tyili
k'otyinyongo. Kavandye, okwavahiwa kondye, ai nkholo. Ngalanga, ongo omo
avahiwa. Vahekulu vononkhombo avakwate Engalanga; vete, vete onombolo omutwe
auho. Ngalanga okuti opo ahupe, elinkhisa okamwenya-mwenya. Etyi esala-po aeke,
ava m'okuti vaipaa, ou akahateka okukataindya Kavandye. Kavandye
m'o-kuhinangela etyi avetesa mukwavo pohi ya Huku, okuti hamwe kumbi
vekelimona, p'okuti opo vahalinge oundyale, Kavandye okumona Ngalanga uya,
elilangalesa-po, k'omaiho ahininika ng'ou wankhia. Ngalanga afwene-ko ati:
—Uh! Ndenge yange! Wekuipaela! Hono ndyienda n'api?
Pahuka-po ndyikutwale k'epata. Kavandye apahuke-po ati:
—Mukulu wange, hityivili okuenda, nkhwali monthindi
p'otyipepe tyove. Ngalanga okuti ulavisiwa na Kavandye, ketyinoñgonokele,
wapola kavandye okumutyinda k'otyipepe tyae. Etyi vati m'ondyila Kavandye uenda
n'okuvalula onombolo mba Ngalanga avetelwe. Ngalanga eya m'okuti:
—Otyityi uvalula? Kavandye ati:
—Ndyivalula onongombe mba tate mbumonekela k'ehimba kuna.
Iya. otyo vaenda otyo, ló vehika k'epata. Etyi vehika, Kavandye watila
ovahikwena vavasa m'eumbo okuti:
—Ngalanga utupu etyi asovola, vehemutambaule vali p'omaumbo
avo, etyi atopa unene. Ankho vahanda vatale k'omutwe wae onombolo ena mbo.
Ovahikwena okutyimona, Ngalanga atewa-tewa p'okati k'“ovanthu?.Tya Ngalanga
tyilipake m'ondyila yo k'ovavo.
4: A
Hiena E O Chacal
Em certo tempo, a Hiena e o Chacal, combinaram um dia ir
roubar cabritos numas casas. Ao cair da noite puseram-ae a caminho. Tendo
chegado a uma habitação deram com o curral cheio de cabritos. Repararam que
toda a gente estava a dormir. O chacal disse à Hiena:
—Salta para dentro! Tu és mais velha e tens mais força do
que eu. Apanha o cabrito que eu te indicar, um dos gordos. Quanto a mim, fico
cá fora a observar se os donos acordam ou não. A Hiena —não compreendendo que o
Chacal estava a enganá-la, porque na verdade ele desejava que a matassem
—prontificou-se a entrar no curral. Nele agarrou um grande cabrito. O Chacal
gritou então em alta voz:
—Esse não mas o outro além que é maior! A hiena agarrou-o.
Berrou o Chacal novamente:
—Esse não! Os donos ao ouvirem o barulho acordaram do sono,
pegam em mocas e correm para o curral, a fim de ver o que havia. O Chacal
estando fora do cercado, põe-se ao fresco. A Hiena, essa, encontram-na dentro
do curral. Os donos das cabras agarram a hiena e dão-lhe uma valente tareia, cobrindo-lhe
a cabeça de contusões. A Hiena não vê outro meio de escapar do que fingir-se
morta. Depois de ter ficado só —porque os que lhe bateram julgam-na morta —vai
à procura do Chacal. Este ao lembrar-se que, sem motivo causara pancadaria à companheira,
com o propósito de evitar que se tornassem inimigos, deitou-se no chão com os
olhos fechados a fazer de morto. No entretanto a hiena aproxima-se e exclama:
—Coitado, meu priminho! Deram cabo de ti! Para onde hei-de
ir hoje? Acorda para eu te levar para casa. O Chacal acorda e diz:
—Minha boa prima, não posso andar, só se me levares aos
ombros. A Hiena não repara que o Chacal estava a iludi-la. Assim pega no Chacal
para o transportar aos ombros. Ao caminhar desta maneira, o Chacal põe-se a
contar os inchaços que a hiena ostentava na cabeça. Pergunta esta:
—O que estás aí a contar? O chacal responde: —Conto os bois
do meu pai que estão a aperecer além na outra banda. Assim vão andando até
chegarem a casa. Ao entrar pelo cercado, o Chacal diz às raparigas que estavam
em casa:
—A Hiena não presta para nada: Diz isto para elas não a
receberem em casa, por ser tão estúpida. Elas só queriam contemplar as
contusões que trazia na cabeça. Após o que, a escorraçaram do meio dos
“homens?. A Hiena tomou o caminho para onde estavam os seus familiares.
Narrador:
Carlos Mário, casado, de 35 anos de idade, descendente de pais Cuanhamas,
professor. Escrito pelo mesmo, Missão do Munhino, 1968. Língua: Nyaneka, com vocábulos do dialecto
humbe (nkumbi). Os episódios deste conto são muito semelhantes à quarta
historieta do conto no . 1. O último lembra o final da narrativa cuanhama, sob a
mesma epigrafe, já publicada. Esta quarta variante do mesmo tema, ora
transcrita, tornase algo arreliadora pela insistência.
A
CONTOS DE ANIMAIS II
Outros
animais (cinco narraçoes) 5 a 9 5:
5. Onkhulika
N'okavandye
Otyimbandye ankho tyikala, n'onkhulika. Etyi onkhulika hono
yankhya ondyala, aihande okukwata otyimbandye. Otyimbandye atyiti:
—Mekulu, otyityi tyina ulinga? Ati:
—Nankhya ondyala!... Ati: —Ankho wankhya ondyala, uhaminye,
ame ndyikuihanene ovinyama ovinyingi. Otyimbandye atyilipilika n'okutunga
otyunda otyinene, tyin'ovipandyi ovinene, atyipopila onkhulika atyiti:
—Pahe ove langala-po olinkhisa okamwenya-mwenya, otale
m'eiho like, eli limwe ohininika. Onkhulika ailangala-po. Okambandye akaende
p'omuti ng'oko kalonda akahimbika okuimba: “Ula-ule, mundanda! U! ula-ule,
mundanda! U! Endywei mutale ondumbu yankhila pano. U! Yankhya okaiho keke. U!
Yankhya okaiho keke. U! Okamwe katala ovawa. U! Okamwe katala ovawa. U!
Kavendamena omalenga. U! Ula-ule, mundanda. U! Ula-ule, mundanda. U! Akuya
otyunda tyovipundya 109 . Etyi vyeya, avitalama, aviti:
—Otyityi? Ati:
—Omukulukai wankhya. Onwe ka'elei opo. Onwe kamutyivili-ale
okumutyinda. Ame ndyihanda ovinyama ovinene. Iya, aimbi vali: “Ula-ule!...
etc., etc. Watala-ko ngo, ovihine 110 vyeya, omutanda wovihine, aviho
vyelifwila-po. Ati:
—Onwe hanwe-ko. Onwe kalelei vala apa. Onwe muvokulila.
Onwe, okukwata omukulukai?!... onwe kamumuvili-ale. Aviti:
—E! Apaleka vali
okuimba: “Ula-ule... etc., etc. Watala-ko ñgo, vyeya ovinyama aviho:
n'onongrolo, n'onongunga 111 , n'onongelenge... 112 atyiho. tyeya atyiho;
n'onondyamba mbeya. Atuluka, amoneka okuya, ati:
—Lyepei-ko! Avetavela. Ondyamba aiti:
—Otyityi? —Nekuihana
ove, mukulu wotyilongo. Omukulukai wateka... Ati: Wateka?!... Ati: E! —Uli-pi?
—Endywei ndyimutwale. Ulangi pana. Ati:
—Tate!... Pahe
matyilingwa ñgeli?
—Ati: Haihanene umwe
ove, mukulu? Evi, ovipuka evi, kavyatile, vati okulikemba okuti: “Matutyindi?. Andyiti:
“Omukulukai kamamumuvili? Pahe hatile: Omukulu mwene etyiye? Ati:
—Omu! Okuenda-ko k'onkhulika okuitala. Tyino lhanda
okuminya, Kavandye eiteyela —k'elho —okuti: Uhaminye, vafwenaine pu ove...
eiteyela k'eiho. Avafwene aveho. Aveongo otyikundyi ngetyi, aviho avilisete.
Aveya avahonyena-po ngetyi. Okwati:
—Amuho, umbililei-ko! Endywei! Evi, ovina vyatyo... onwe,
kalelei vala ng'oko. (Tyetyi utyii-ale. Okuti apa ovakulu vaya nkholo apa, evi
ovipundya mavilyatwa vala k'omakondyo). Hakumoneka okuya? Tyina ngo ondyamba
yatile ngo ndyikwata ñgo ngetyi, onkhulika yanyunguluka-po-ale. Aviteke...
Okututumuka ovipundya vyalyatwa, ovihine vyalyatwa, onongolo mbumwe mbaliwa...
Kwate-kwate... onkhulika... kwate-kwate... Onondyamba mbakaulula umwe,
mbakapita umwe. Evi, ovitutu vyatyo vyankhya umwe k'okulyatwa. Ha vihakapita
umwe? Kavandye ati: Iya, kutehela Mekulu etyi napopile? Ohitu kayakakele ei?
Iya, pahe etyi “mauli? ame, figeno pahe wekuta-tyi? Onkhulika aiti:
—Walinga, mona wange!... Aiti: —Tuyuve. Pola onkhiki
tuyuve. Kavandye avati 113 : Yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve...
Omala atyo, otyo, vapakela umwe opo. Omala aeho aveeongo onthunthu... Omala
aeho aveeongo onthunthu... Omala aeho aveengo onthunthu. Omala aeho apakelwa
umwe opo. Ohitu ityayo, omala etyao. Etyi vamana okuyuva, onkhulika aiti:
—Kavandye! Ati: E! —Utyii? Ati: E?... —Tyove omala; etyi. Ohitu hayove-ko. —Ohitu hayange?... Ati:
E! —Ame naihanene ovinyama... Ove, ohitu aihamalingi
yange?!... —Ya. Ati:
Otyili. Otyo atala.
Kavandye otyo epumphi. Etyi ekumbi lyetaka, kavandye ati:
—Mekulu! Ati: E? Ati: Mandyiende k'eumbo. Ati: —Moende
k'eumbo? Ati:
—Ya. —Iya, moende k'eumbo... omala... ove uheese-po. Ati:
—Ewa! Kavandye apolo-ko okamuti apake-ko ela like. Atyindi p'otyipepe.
Onkhulika aiti:
—Ove kavandye! Ati: —E?—Otyo motyindi nga tyina? Uhatie
umwe mandyikupe ohitu. Omala oove umwe o! Ati:
—Vaketu! Ndyikaihana omukai wange eye tutyinde. Kavandye
wakapita oko. Wakapopila omukai wae. —Tehela etyi tyalinga omukulukai ...
Nemuihanena ovinyama ovinyingi-nyingi-nyingi... Waipaa, waipaa, waipaa... Pahe
pano wampha omala. Tyatiwa óoange... Ohitu kamphele. Omukai ati:
—E?!... Ati:
—Ya. Ati vali: —Kevela... Ati:
—Uhalinge. Hamwe
muhuka... hamwe mekupe... Ati:
—Asele! Lityitake umwe
ekumbi, mandyikemuhongela-ko p'ohitu yae opo. Etyi ekumbi lyetaka, lyanyingila,
kavandye wavala... n'omakumbi, n'onohanyl, n'ononthungululu, n'omikonkho,
n'onongendyo... aviho! Wavala aviho. Oku atundilila, kuti vala: Lyai!
Kuti vala: Mbolooo!... Ndeleee!... Mbolooo!... K'ounthiki kwanthikovela onkhulika
wanthiakana ehunga limwe enene lyotupya. Welipulukwa n'okulya. Ketyii vali. Ou,
etyi ehika popepi n'onkhulika, onongendyo wembukwata ñga “pala? mbahaywele.
Otyo ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila... Etyi
eya umwe popepi, eviyeke, aviti umwe: Mbwalaa!... Onkhulika, etyi yelityinda
apa aikelimbutula umwe kuna... Ekeikwamena-po vali: Mbwaalaa!... Aikelimbutula.
[Page 66] Ekeitaate, ekeitaate, ekeitaate... “te? umwe onkhulika yakapita lumwe
kokule. Kavandye akawana omukai wae. Ati:
—Endyu tuende tukatyinde ohitu! Okuya okutyinda-po ohitu,
onkhulika opo yakapita, yakalaveleya, ati:
—Kavandye, mphopile!
Kavandye mphopile! Mona wange mphopile! Mphopile, naliwa! Ohitu veya
okuityinda-po vokavandye, vapita. Aiho yapwa-po umwe. Tyino muhuka kutya, vati
ñgo ngetyi... onkhulika oyei!... Aiti:
—Mona wange, Kavandye! Ati:
—E? Ati: M'ongulo,
ankho mandyipwila n'okukuihana!... Pen' otyinyama tyeile okunthyongela p'ohitu
yange apa. Pahe, nakatalele-po ñgo... Petupu ñgo, n'o'koholo-ale! Ati: N'ame
otyinyama tyatyo oku tyatundilila ku ame. Ame pahe, n'ame ankho ndyiivala:
“Vakwe, pahe otyinyama etyi.... Omukulukai matyikemulinga ñgeli? Uli
p'ohitu yae. Naina tyeile okukuhonga?
—Tyeile okunthyonga!
Ohitu yange hepwilile-ale n'okuyuva?! Ankho nekupele-ale, ñgeno
hahe, mona wange. Pahe tyitiwa: Ku ame kai-ko, ku ove kai-ko... Nanuminine...
N'omala atyo... atyiho!... Enyama lyaly'ale, eli lumwe lyeile okunthyonga.
Okaluñgano kange oko!
5. O
Leao E O Chacalzinho
O Chacal morava junto com o Leão. Como certo dia o Leão
tivesse fome, queria deitar-se ao Chacal. Diz-lhe o Chacal:
—Ó avó, que é que
vais tu fazer? Respondeu:
—Estou com fome!... Replica o Chacal: Se estás com fome,
fica aí quieto, que eu te chamarei muita bicharia. E o Chacal atarefou-se a
construir uma grande sebe, com enormes forqui-lhas e falou ao Leão dizendo-lhe:
—Agora tu deitas-te e finges-te morto, vais olhando por um
olho e fechas o outro. O Leao deitou-se por terra. O Chacal dirigiu-se a uma
árvore que ali havia perto, subiu a ela e começou a cantar: “A chamar, a
chamar, ó multidão! A chamar, a chamar, ó multidao! Ai! Vinde ver o leão que
morreu neste lugar! Ai! Morreu de um só olho! Ai! Morreu de um só olho! Ai! O
outro olha os apetitosos. Ai! O outro olha os apetitosos. Ai! Está a espreitar
os anafados! Ai! A chamar, a chamar, ó multidão! Ai! A chamar, a chamar,
ómultidão! Ai! Apareceu um bando de “Punjas?. Chegaram, pararam e disseram:
—Que há? Respondeu:
—Morreu a velhota. Ficai ai vós. Vós não podeis carregar
com ela. Eu quero animais corpulentos. Então recomeçou a cantar: “A chamar, a
chamar... etc. Ao deitar os olhos, eis que chegam as “hines?, um bando delas,
todas ali estão. E diz o chacal:
—Vós também não. Limitai-vos a ficar aí. Vós sereis
carpideiras. Transportardes vós a velhota?!... Vós não podeis com ela. Elas
responderam: Está bem! E recomeçou a cantiga: “A chamar, a chamar... etc. Volta
ele a olhar e ei-los, toda a espécie de animais: as zebras, os pofos. os
guelengues... tudo, tudo veio; até os elefantes vieram. Ele desce, dirige-se a
eles e diz:
—Sede benvindos! Todos responderam. E pergunta o Elefante:
—Que há?
—A ti é quem eu chamei, o maioral da terra. A velhota
morreu... Exclama ele: Morreu?!... Responde o chacal: Sim!
—Onde está?
—Vinde que eu acompanho-vos. Jaz acolá por terra. E o
elefante:
—Ena pai! Como há-de proceder-se agora?
—Resposta do chacal: Para isso te chamei eu a ti, o
maioral! Estes aqui. “estas coisas?, não vieram com a deles. a iludir-se a si
mesmos, afirmando: “Nós vamos transportar?. E disse eu: —Vós não podeis com a
velhota. Não entendi eu pois: Esperemos que chegue o maioral?
—Observa o Elefante: E isso! Lá vão até ao Leão a
observá-lo. Ele a querer mexer e o Chacal pisca-lhe um olho —quer dizer: Não te
mexas, deixa-os chegar ao pé de ti... e pisca-lhe um olho. Aproximaram-se
todos. Reuniu-os a ficaram todos de pé, fazendo roda. E eles vieram e assim se
juntaram. Então exclamou:
—Assim, todos vós àr oda! Vinde! Estes, miúdos como são...
bem, vós ficais aí e mais nada. (E que ele já sabe. Quando os grandalhões
fugirem por aqui, estas punjas serão simplesmente calcadas pelas patas dos
outros). Não começaram os tais a aproximar-se? Logo que o elefante armou, assim,
o gesto de agarrar, o leão levantou-se num rompante. E aleijaram-se... (a
fugir). Na fuga precipitada, foram calcadas as punjas, foram calcadas as
“hines?, algumas zebras mortas a dente... agarra-que-agarra o tal leão...
agarra-que-agarra... Os elefantes foram-se aos berros, foram-se decididamente
para longe. Os animais pequenos, esses, morreram calcados pelos outros. Não é dizer
que os grandalhões se rasparam? Comenta então o chacal: Pois, ouve cá, ó Avó,
não aconteceu como eu disse? Não é abundante esta carne aqui? E tu então que me
querias comer, que fartura terias tu alcançado? Responde o Leão:
—Fizeste bom trabalho, meu filho!... E acrescenta:
—“Vamos esfolar. Pega na faca para esfolarmos?. Ei-los,
Chacal e companhetro, esfola-que-esfola... esfola-que-esfola...
esfola-que-esfola... As tripas, vão-nas pondo ali à parte. Juntaram as tripas
todas em monte... Juntaram as tripas todas em monte... Juntaram as tripas todas
em monte... Puseram pois todas as tripas à parte. A carne a um lado e as tripas
a outro. Assim que acabaram de esfolar, diz o Leão:
—Ó chacal! Responde este: —Que é? —Sabes uma coisa?
Responde ele:
—O quê?... —Tuas são
as tripas; isto aqui. A carne não é tua.
—A carne nao é minha?!... E o Leão: Sim.
—Eu que atraí os animais... Olha lá tu, e a carne agora não
vai ser minha?!... —Sim. Diz o chacal: E verdade. O leão fica a olhar. E o
chacal continua assentado. Ao cair da tarde diz o chacal:
—O avó! Resposta:
—Que é? E o chacal:
—Eu vou para casa. Diz o leão: Vais para casa? Responde o
chacal: Sim.
—Pois então, tu vais para casa... e as tripas... não as
deixes ficar. Resposta:
—Está bem! Pegou o
chacal num pauzito e dependurou-lhe uma tripa. A seguir carregou ao ombro.
Diz-lhe o leão:
—Olha cá, ó chacal! Diz este: Que é? —É dessa maneira que
vais carregar? Não penses de modo algum que eu te dê carne. Essas tripas é que
são para ti! Resposta: Obrigado! Eu vou chamar a minha mulher para fazermos o
transporte. O chacal foi-se em determinada direcção. Foi conversar com sua
mulher. —Ouve cá o que me fez a velhota. —Juntei-lhe muitos animais, muitos,
muitos... E ela matou, matou e tornou a matar... Pois agora deu-me as tripas. E
a dizer que essas éque sao minhas... Carne não me deu. Diz a mulher:
—O quê?!... E o
chacal: Sim. E acrescenta: Mas espera... Observa a mulher: Não faças nada.
Talvez amanhã... Talvez te dê... Resposta: Isso nao. Deixa que o sol se ponha,
que eu vou pregar-lhe um susto láa ao pé da sua carne. O sol foi-se inclinando
e desapareceu, e o chacal vestiu-se... de sois, de luas, de estrelas, de
chocalhos, de campainhas... tudo! Vestiu-se de
tudo. De qualquer lugar que venha, o efeito é só: Luz brilhante! E só:
—Dlão!... Dlim!... Dlão!... De noite, pela escuridão, o
Leão acendeu um lumarao de fogueira. Está a comer descansadamente. Esqueceu
tudo. O chacal ao aproximar-se do leão, apanhou as sinetas nas mãos, para não
fazerem barulho. E lá foi pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, pé
ante pé, pé ante pé... Chegado muito perto, largou-as e elas fizeram mesmo
assim: Badalão! O leão, saindo aqui deste lado vai esbarrar-se acolá do
outro... E o chacal tornou a segui-lo: Badala!... E vai outra vez esbarrar-se.
E o chacal persegue-o, persegue-o, persegue-o... até que o leão foi deveras
para bem longe. O chacal foi ter com a mulher E diz-lhe:
—Vem daí para levarmos a carne! Vindos a carregar a carne,
o Leão largou a chamar, lá do lugar para onde fora, dizendo:
—O chacal, socorro!
O chacal, socorro! Socorro “meu filho’! Socorro, que sou devorado! A carne, os
chacais levaram-na e foram-se embora. Não ficou mesmo nada. No outro dia ao
amanhecer, ao deitarem os seus olhares... ei-lo, o Leão... E diz ele: —O “meu
fillho?, óChacal! Responde:
—Que é? E diz ele: Ontem, estava cansado de chamar por
ti!... Veio uma fera meter-me medo ali Junto à minha carne. Agora, ainda lá fui
ver... E é que não há, nem um bocadinho! Diz o chacal: E eu também... a tal
fera começou por vir pelos meus lados. E eu então comecei a dizer cá comigo:
“Ora vejam, uma fera destas... que é que irá fazer à velhota? Está lá ao pé da
carne. Afinal veio assustar-te?
—Veio assustar-me! A minha carne, não me cansei eu
inùtilmente a esfolá-la?! Se eu tivesse dado, teria sido melhor, meu filho.
Agora é assim: —eu estou sem ela, e tu sem ela estás... Eu recusei-a... Até as
tripas... tudo!... Aquela grande fera devorou tudo, essa mesma que me veio
amedrontar. Ei-la, a minha historiazinha!
6: Ovo
Mbambi Na Ndimba
Opopo umwe. Ovo Mbambi na Ndimba velivasa m'ohika. Ndimba
ati:
—Tava tukeliholamene. Mbambi ati: Tyikahi naua. Iya Ndimba
ati: Tetekela-ko ove! Iya, Mbambi avunduluka-po. Ati: hombwa; wavasa okafo
ng'opo avunda. Iya ati:
—Pahe endyu, upupule! Ndimba eya okuovola, waenda-po vala
katutu, apononoka, ati: —Iya, have ou tava? Iya, Mbambi avunduluka-po. Ati:
—Pahe kuende, kaholame-ko ove!
—Ndimba ati: Etyo! Hombwa, hombwa, hombwa, wavasa
okambumba. M'okambumba ng'omo welinyingilika. Iya omatwi ... k'okutwi kumwe
apake-ko ombinga; okumwe ekuyeka vala ngotyo. Iya pahe ati:
—Endyu, utaindye! Iya Mbambi eya n'okuya okuovola,
okuovola. Etyi ati-ko ngetyi welihaka k'okambumba ken'okutwi nthele imwe;
k'okutwi kumwe kun'ombinga. Mbambi ati:
—Etyi hono ovipo namona! otyipuka patyi etyi namona? Ouye
wange hono wahula! Iya, otyo vala Ndimba amwena-po. Iya Mbambi pahe ahimbika
okuihena ovabichos kulu. Ovinyama aviho viye, vitale otyipuka etyi amona. Ati
(n'okuimba): Onwe vonkhulika, endywei mutale. Kambandi kamena ombinga kutwi
kumwe! Kamena ombinga kutwi kumwe! Onwe vongolo, endywei mutale! Kambandi
kamena ombinga kutwi kumwe! Iya, ngotyo alhena ovinyama aviho, otyo viya, otyo
viya. Otyinyama tyiya-ko, tyiti Vala:
—Etyi-katwetyimwene
ale. Etyi hono otyipo tyove, etyi. Mbambi okutehela ovinyama ovinene,
ovonkhulika, n'ovondyamba, vati vala: Otyipuka etyi katwetyimwene-ale, otyipo
tyove. Ahau! Atyimuavela owoma omunene, ati:
—Hono mandyinkhi! Iya
Mbeu ulwa n'okuya: Kalakaha! Kalakaha! Ndyamba ati: —Etyi pane tyienda n'api,
etyi? Ndyamba ati: Onthwe vakulu katwetyimwene-ale, ove pahe motyimono etyi?
Asi! Atokela-ko ku Mbeu n'okumulyata. Iya mané okumulyata, ahimbika okulitunga
vali ngetyi ali ale. Ng'apa Ndyamba ati: Ndyikemulyata vali! Nkhulika ati:
—Muyeka vala! Iya
onthwe pahe tuvakulu katwetyimwene ale; mwene eye vala hekulu, elitalele-ko
k'otyipuka etyi tyamonwa, tyahamonekele ale, tyilinge tyovanthu aveho! Iya Mbeu
hakwayekwa, afwenaina-po. Etyi eya-po akwata m'okutwi kwa Ndimba okukuyelulila
p'eulu ati:
—Ove ulingwa Mbambi, watopa; ha Ndimba ou mweliholamena na
e? Iya emuyelula-po; okumona. tyili Ondimba. Ovakulu vohika, ondyamba no
vonkhulika avati: Ha! Naina Mbambi walinga omapita! Ove utyi okuti
mweliholamenene na mukwenyi. Ove, otyo tyekuenda vali ñgeli?
—Onwe mulinga ovinyama ovikwavo, ovo Mphala na Mphulu, onwe
mukwatei, mukutei! Tyino twati m'ondyila, tumulingei onkhuta yetu, tumulye-po.
Iya avemukwate, avemupake m'omutengi. Ovinyama pahe vilwa n'okukondoka
k'ovilongo vyavyo. Etyi vyati pokati, avati mukutululei, muetei kuno,
natumulye! Ongo Mbambi ati:
—Votava yange, tehelelei, tyatiwa nkhutululei-mo! Iya vana
n'okwaponwa, tyina vemukutulula, Mbambi akahateka n'om'ohika Iya tyina veya
p'omphangu yovakulu apa vepumphi, maveya okulila Mbambi okupula:
—Iya onwe vokwatyindile “omunthu? una, ulipi? Ou twatile
okuti mutyindei? Hamwe mwati okuti mukutululei? Avati: Onthwe katwetyitolele.
Iya pahe? Onwe mamupingi-po. Avakwata ovo Mphulu na Mphala, ng'ovo valiwa-po
p'omphangu ya Mbambi ou vayeka wakahateka-po. Iya pahe ng'ovo valiwa-po... Iya
pahe oluñgano yovo Ndimba na Mbambi yapwa. Sambulikiti mu ove!
6: O
Antilope Mbambi E A Lebre
O Bâmbi e a Lebre encontraram-se na floreata. A Lebre diz
—Compadre, vamos brincar às escondidas. Responde o Bâmbi:
Está bem. Diz a Lebre: Começa tu! O Bâmbi dá uns saltos até encontrar uns arbustos.
Nele se ocultou. Diz então:
—Vem agora descobrir-me. A Lebre segue o rasto, andando
muito devagar, abaixa-se e exclama:
—Não és tu, compadre? O Bâmbi sai do esconderijo e diz:
—Vai agora tu esconder-te!
—Está bem, diz a Lebre. A Lebre dá uns saltos até encontrar
um pequeno morro de salalé. Ali se meteu. Põe as orelhas desta maneira: Numa
coloca um chifre; a outra fica sem acréscimo e diz:
—Vem então procurar-me! O Bâmbi põe-se a seguir o rasto.
Andando assim dá contra o morro de salalé. Neste sobressaem; dum lado uma
orelha simples e do outro uma orelha acrescentada de um chifre. Exclama o
Bâmbi: Hoje eu vi coisa espantosa. Que coisa que eu vi! Hoje a minha vida
chegou ao fim! A Lebre, essa, ficou sossegadinha. O Bâmbi lembra-se então de
chamar os bichos mais velhos. Que todos os animais venham ver o que presenciou.
Canta então e diz: Vós, os Leões vinde e vede! Ao pequeno morro cresceu um
chifre numa das orelhas. Vós, Zebras vinde e vede! Ao pequeno morro cresceu um
chifre numa das orelhas! Nasceu um chifre numa das orelhas! Assim foi chamando todos
os animais. E todos vieram e verificaram. Cada bicho ao chegar e notar a coisa
disse:
—Ainda nao vi tal. Isto é caso para te inspirar medo. A tua
vida chegou ao fim. O Bâmbi ao ouvir os animais grandes, os leões e os
elefantes a afirmar:
—Nunca vimos coisa
semelhante. E caso desastroso para ti, ficou repassado de medo e disse:
—Vou morrer hoje! Ouve-se então o Sapo-Concho que se
aproxima, num passo arrastado: Raspa-que-raspa... exclama o elefante:
—Onde vai agora, este animalejo? Nós os velhos nunca vimos
tal coisa, e tu agora vais observar melhor? Ora esta! Lança-se sobre o
Sapo-Concho e esmaga-o. Mas este depois de ser calcado, retoma a sua forma
habitual. Diz o elefante: Vou metê-lo novamente debaixo de minha pata. O Leão
diz:
—Deixa-o em paz! Pois se nós os velhos ainda não vimos
coisa semelhante, que venha ele pessoalmente e verifique! Que esta coisa que
nos apareceu seja conhecida por toda a gente! O Sapo-Concho, sem ser mais
molestado aproxima-se do morro. Ao chegar, puxa pela orelha da Lebre, levanta-a
e diz: —Tu, Bâmbi, és muito estúpido. Não é a Lebre, com a qual jogavas às
escondidas? Mostrou-a e todos viram que era a Lebre. Os antigos da floresta, o
Elefante e o Leão disseram:
—E demais! Tu Bâmbi, fizeste muito mal. Tu sabias que
jogavas às escondidas com a tua companheira, como é que arranjaste esta
história?
—Vós animais amigos, “Impala? e “Guelengue? agarrai-o e
amarrai-o. Que ele nos sirva de repasto na nossa caminhada! Vamos comê-lo!
Agarraram-no e o ataram a uma vara colocada aos ombros. Os animais
apressaram-se então a ir para as suas terras. Chegados a meio caminho disseram:
Desamarrai-o e trazei-o cá para o comermos! Porém, o Bâmbi observou: Estais a
ouvir companheiros; a ordem é de desamarrar! Estes, achando-se cansados, o desamarraram.
O Bâmbi escapuliu-se para a floresta. Os que vinham com o Bâmbi, ao chegarem ao
lugar onde estavam os grandes que queriam comê-lo, estes perguntaram então:
—Vós que recebestes ordens de transportar aquele
“individuo?, onde o deixastes? Aquele que nós vos ordenamos para o transportar!
Ou talvez julgastes que era para o desamarrar? Não demos tal ordem. E agora?
Ficais vós a substituí-lo! Atiraram-se assim à“Impala? e ao “Guelengue? em
substituição. Agarraram pois, o “Guelengue? e a “Impala?. Estes serviram de
comida em vez do Bâmbi que tinha ficado livre e havia fugido. Aqueles é que
foram devorados. Agora o meu conto da Lebre e do Bâmbi acabou. Açaime para si!
Dados
biográficos e outros, como no no. 4. Gravação: Missão do Munhino, Outubro de
1963. Língua: Nyaneka. Um conto semelhante existe entre os Humbe. Porém o
protagonista éo chacal que se esconde na terra, deixando apenas aparecer os
dentes. O primeiro animal a pela maravilha de a terra ter “germinado dentes?, é
a hiena. Esta, foi chamando os outros e ninguém sabe explicar o prodígio senão
o Sapo-Concho. Esta narrativa foi publicada no segundo volume da “Etnografia?
40 . Ver também o conto muito semelhante no volume de H. Chatelain: “Jackal and
Hare?
7:
Otyindimba Na Kangwe
Opopo umwe. Ovotyindimba na Kangwe, vena ovoina ovakulukai.
Ou Tyindimba ahimbika okuti:
—Tava, omakulukai a etupwilisa okunyanga. Pahe ankho
tweeipaele aehena vali ovilinga n'onthwe. Okuveipaa lumwe. Tyingwe okupola-po
ina n'okukemuipaa. Ina ya Tyindimba, ekemuholeka k'ondyimbo, avakala umwe opo.
Tyindimba waipaa vala ohitu, ou tyingwe aipaa ina. Avateleka. Etyi vekuta,
avati:
—Pahe tulile, ovomê. Eta olufwo olo. Alutetekela ku
Tyingwe. Ati:
—Tulye otyovotyovo. Omutima ndukutu-ndukutu. Mutima!
Ndiivale ku meyo! Mutitma! Ndiivale ku meyo! Olufwo aluyulu auvu-hi. Aluya ku
Tyindimba.
—Tyindimba kulili?
—Tulye otyovotyovo. Omutima ndukutu-ndukutu. Mutima!
Ndiivale ku meyo! Mutima! Ndiivale ku meyo! Olufwo, “ni? vala
katokehilile-mo-ale. Ou ati: Kulili umwe nyoko? Ou ati: Mulume, okulila-lila
otyovakai, hatyetu-ko ovalume. Pakela vala oko. Avati: Tuendei tukayeve.
Okuyeva, okuyeva... aveya vali k'ongulohi. Okuhimbika vali, avali. Ou Tyindimba
apaleka tupu:
—Tulile ovomê, tava. Aluya-ko ku Tyingwe. Ati:
—Tulye otyovotyovo (ut supra). Aluya ku
Tyindimba tupu. Ku Tyindimba oko, kalilile-ale. Atyiimbi: (ut supra).
Asele! Ove tava kulili? Ati:
—Okulila okwovakai.
Hatyetu-ale onthwe valume. N'etyi tulila okwalinga vala. Muhuka etyi vati
vakayeva, Tyingwe ati:
—Ndyihula oku. Etyi avasa umwe ina ya Tyindimba, ati umwe
onkhunye: Topa! Omwalikai aikatandavela k'ondy mbo oko. Etyi vahimbika okuyeva,
atundilila oko, ati akataindyile ina okakulya, ati:
—Ame ndyikwata oku, ndyikataindya ovahikwena vange. Okuya
ku ina... Meyé, ina a Kandimba! Meyé ina a Kandimba! Asele! Uhole okumutavela,
hono —Aú! —m“okonda? wankhya. Meyé, ina a Kandimba! Meyé ina a Kandimba! Aú!
Omwalikai... filu vala! Tyino eya, ina yatandavela. Okuya k'omukwavo oko. Hono
weya waunga-unga. Iy'ove? Katuli? Avalyalya.
—Tulile pahe. Uma olufwo. Alutetekela ku Tyingwe oku
lutetaikil'ale. Tyingwe ati:
—Tulye otyovotyovo (ulila... ut supra). Tyingwe alili umwe,
ng'omo alilail'ale. Okuya ku Tyindimba. Ati:
—Tulye otyovotyovo (ut supra). Olufwo aluyulu. Ou ati.
Mulume, pwaina ukembela ame. Watile tuipaei omalikai etupwilisa. Ove nyoko
wekemuholeka? N'ame hono nemuipaa-vo. Iya pahe hono kwalilile? Kavaitile,
avalti umwe, atyiti umwe: Ou uenda tyae, ou uenda tyae. M'olutongo... Omwove!
7: A
Lebre E O Leopardo
Pois são os tais: Lebre e Leopardo têm suas mães já velhas.
Vai a Lebre e diz: —O companheiro, estas
nossas velhas fatigam-nos a procurar-lhes de comer. E se nós as matássemos, a
elas que nenhum serviço nos prestam já! Decidiram matá-las: O Leopardo tomou
sua mãe e matou-a. A mãe da Lebre, foi ela escondê-la numa toca de
papa-formigas e continuaram sua vida. A Lebre mata só um animal qualquer,
enquanto que o Leopardo matara a sua própria mae. Fizeram o cozinhado. Uma vez
satisfeitos, exclamaram:
—Pranteemos agora nossas mães. Chega cá esse copo. E ele
foi primeiro para o Leopardo. Diz este: Comamos carninhas boas! Com o coração a
bater, a bater. Ai coração! Que a minha mãe me ouça! Ai coração! Que a minha
mãe me ouça! O copo encheu-se de lágrimas e ele despejou-o. Chega a vez da
Lebre.
—Tu, ó Lebre, não choras? Começa esta então: Comamos
carninhas boas! Com o coração bater, a bater. Ai coração! Que a minha mãe me
ouça! Ai coração! Que a minha mãe me ouça! Mas o copo... nada, nem sinais de
lágrimas lá deitou. Diz o outro: Não choras por tua mae? Resposta: O homem,
isso de chorar é das mulheres, nao é connosco que somos homens. Põe-no para aí.
Resolvem depois e dizem: Vamos caçar. Por lá andaram, por lá andaram na caça,
voltando à noitinha. Atiraram-se outra vez a comer. Vai então a Lebre e diz
outra vez:
—O companheiro, pranteemos nossas mães. Veio o copo para o
Leopardo. Este começa dizendo:
—Comamos carninhas boas. (Ut supra). Tocou depois a vez à Lebre.
Quanto à Lebre, nada de lágrimas. Canto: (Ut supra). Pois sim! O companheiro,
tu não choras? Resposta: Chorar é para as mulheres. Não nos pertence a nós
homens. Nisto de prantear, fazemos como toda a gente. No outro dia, enquanto
iam à caça, diz o Leopardo:
—Eu fico por aqui. Tendo descoberto a mãe da Lebre
jogou-lhe uma mocada: Pumba! E a velha foi-se estender ali para dentro da toca.
Recomeçando a caça, vem à Lebre a lembrança de buscar de comer à mãe e exclama:
—Eu vou por aqui, vou dar uma volta à procura de moças. Até
que chega junto à mae... Minha mae, ó Mae-da-Lebre! Minha mãe, ó Mae-da-Lebre!
Nada! Costuma responder-lhe, mas desta feita —Silêncio! —porque está morta.
Minha mãe, ó Mãe-da-Lebre! Minha mãe, ó Mãe-da-Lebre! Nada! A velhota... guarda
silêncio. Aproxima-se mais a Lebre e a mãe está estendida. Dirige-se então para
o companheiro. Mas hoje vem triste. Então olha lá! Não comemos? Comeram.
—Pranteemos agora. Toma o copo. Este vai primeiro para o Leopardo por onde
costuma começar. Pranteia o Leopardo:
—Comamos carninhas boas. (Chora... ut supra). E o Leopardo
chorou a valer, como era seu hábito. Toca a vez à Lebre. Começa esta:
—Comamos carninhas boas (ut supra). Mas o copo encheu-se de
lágrimas.
—Vai então o Leopardo: O homem, então tu intrujas-me.
Disseste tu: Matemos as nossas velhotas que nos fatigam. Tu afinal vais
esconder tua mãe? Pois eu hoje também a matei. E hoje então não choraste? E
arrumaram a questão, de modo que: Foi um para um lado e outro para outro.
Açaimo em bicho voraz... é para ti!
Narradora:
Rosália, de 40 anos de idade, da etnia Muíla. Gravação: Missão do Munhino,
Outubro de 1963. Língua: Nyaneka. O motivo de dois parceiros combinarem matar
as mães e um deles faltar ao compromisso, ocorre também num conto bundo
(Umbundu). O episódio transcrito por Hauenstein, no qual o cão desempenha o
papel de animal astuto, parece algo truncado
8: Ovo
Mbeu - Na Ndyamba - Na Ngeve
Opopo lumwe. Mbeu wayamena m'omuti. Muna m'omuti watyo,
naina mun' elonga, ngwe keliete. Ndyamba, okuya, ati:
—Iya, ove wayamena omu, utala otyipuka etyi?
—Ati: —E. Mbeu atale p'eulu. Tyino akati ñga... elonga!
Ati: Ehe! Mekulu, himetyivili okutyipola-mo. Ndyikevelela ou mandingila-ko,
manthandulila-ko omuti watyo ou, ame ndyimufete. Ndyamba ati:
—Wo!... Pahe umpheta-tyi, ove Mbeu, apa ulifwe apa, okana
okapii-pii. Ame mukulu. Pahe umpheta-tyi? Ati: —Mekulu, ame ndyikufeta otyipuka
otyinene. —Kuti vala: “Ndingile-ko otyali?. Ove uti: “Ndyikufeta?... Mopolo-pi?
Ati: Ame ndyikufeta otyipuka uhevili-ale. Iya, Ndyamba, okweiva-ko otyipuka
otyo, wakwata vala omuti watyo eutandula p'okati. Mbeu, eye p'enyi... lase,
lase, lase, lase... ouiki. Etyi alasa unene ouiki, n'ohunga. Atundu opo, aye ku
Ngeve, m'enyana. —Iya, mekulu... Etavela, ati: —Lyepe-ko! Atyiti:
—Vaketu! —Uhanda-tyi? Ati:
—Ndyihanda omeva...
Ndyihanda omeva ndyikufete.
—A! Iya pahe omeva a Huku... alandwa vali? Omeva oovanthu
aveho! Ati:
—Namphile oa Huku ñgo. M'“okonta? ove ukala-mo oove mwene.
Mandyikufete!
—Pahe momphete-tyi
tupu, Mbeu?
—Mandyikufete, otyipuka
otyinene—nene-nene. N'ove kutyivili-ale. Ou Mbeu hakunwa omeva ó?
Hakulondeka? Hakukapoha epanda? akutu m'otyikalo tya Ngeve, Ampholo vali epanda
akakuta vali mu Ndyamba. Apopila umwe Ngeve, ati:
—Taa! Kwatesa! Nekukuta tupu apa m'otyikalo... ó“pala?
mandyikakuta na muna nekufeta ongele yove. Akavasa Ndyamba, akutu m'otyikalo
tya Ndyamba ati:
—Mekulu, nekukuta! Pahe nana ondyambi yove mandyikufete.
Iya, Mbeu, hakukapita? Asele! Pahe, Ndyamba ainane... Katyitavela! Katyiya! Ou
matiwa óNgeve anane... Naka-tutu-tutu-tutu-tutu-tutu... Ondyamba yepwila:
Ongeve wepwila. Hawokulinana, okulinana, oklli-nana? Tyino atale-ko-ngo
ñgana... (Ombeu utalela p'onthele...) Aú! Matiwa óNgeve uhanda umwe okupwa;
oNdyamba omukulu, watutumba. Aú! Mbeu ahateka, atila lumwe: Nontho! —Epanda.
Ahateka umwe ku Ngeve:
—Iya, Mekulu, ondyambi yove kweimwene? Ati: Tatiê! Mutekula
wange umwe, wafeta umwe unene-ale umwe! Ina ñgeno heivilile-ale. Wayovoka umwe!
Wayovoka umwe! Otyipuka wamphele otyinene. Iya, Mbeu akakalakaha vali,
akahateka ku Ndyamba.
—Mekulu, iya, ofeto
yove yeya. Ati:
—Ehe! Wafetele umwe,
mutekula. N'ame okuityinda heivilile. Napandula lumwe. Nkhele etyi
ankho wafeta otyinene vali: Hakaluñgano kange?... Helengete! Ha mu ove?..
8: O
Sapo-Concho - O Elefante E O Hipopotamo
E desses mesmos que se trata. Encostara-se o Sapo-Concho a
uma árvore. Ora nessa árvore havia afinal mel silvestre, e ele nao tinha visto
isso. Chega o Elefante e diz:
—Então tu assim encostado à árvore estás a olhar para isto?
—Resposta: Sim.
Sapo-Concho lança para cima o olhar. Ao reparar em algo... é mel silvestre! E
diz:
—Não há meio! Avô eu não consigo tirar isto. Estou à espera
de quem me faça este serviço, de quem me rache esta árvore, que é para eu lhe
pagar.
—Exclama o Elefante: —Oh! Que me vais pagar tu, ó Sapo-Concho,
deste tamanho que tens, assim um catraio tão miúdo. A mim que sou grande... Que
me vais tu pagar? Diz ele: Avô, eu pago-te com coisa grande. —Limita-te a
dizer: “Fazes-me o favor?. Vens agora com essa: “Eu pago-te?. Onde o vais
arranjar? Diz o Sapo-Concho: Eu pago-te coisa com que tu não podes. Então o
Elefante, ao ouvir uma coisa dessas, pegou simplesmente na árvore e rachou-a ao
meio. O Sapo-Concho, tendo-se metido por debaixo, lambeu, lambeu, lambeu,
lambeu... beu... aquele mel. Como tinha lambido muito mel, ficou cheio de sede.
Afastou-se dali e dirigiu-se ao Hipopótamo, ao rio.
—Com licença, avô... E o hipopótamo respondeu:
Boas—vindas. E o Sapo-Concho: Obrigado! Que queres tu? Diz
ele:
—Quero água... Quero
água, que eu pago-te. —Ora! Então esta água que é de Deus... ainda se compra? A
água é de toda a gente! Resposta: Embora seja de Deus. Visto que nela habitas
ela é tua. E eu vou te pagar!
—Ora agora, que é que me vais tu pagar, Sapo-Concho?
—Vou te dar em pagamento uma coisa muito grande. Nem tu podes
com ela. Foi o Sapo-Concho à água e bebeu. Seguiu depois seu caminho. Pôs-se
então a torcer uma corda. E amarrou-a numa perna do Hipopótamo, o tal habitante
da água. Pega na corda e vai amarrá-la depois ao Elefante Ao Hipopótamo disse
assim:
—Olha! Segura bem! O ter-te eu amarrado aqui na tua perna é
para eu a ir amarrar também àquilo com que te vou pagar a dívida. Encontra-se
depois com o Elefante e amarra-o na sua perna dizendo:
—Avô, eu amarrei-te! Puxa agora a retribuição com que vou
pagar-te. Entretanto pôs-se a andar o Sapo- -Concho, ora não? Não há meio! Pega
o Elefante a puxar... Não é possivel! A coisa não vem! O outro, o tal
Hipopótamo puxa. Sem resultado nenhum, nenhum, nenhum... O Elefante está
cansado. O Hipopótamo também. Não estão eles ocupados no esforço de se puxarem
um ao outro? E quando ele estava assim a olhar (é o Sapo-Concho que olha ali um
pouco ao lado...). Pois sim! O tal Hipopótamo está mesmo a acabar de forças;
enquanto que o Elefante forceja, ele que é“grande?. Pois sim! E ele corre e
vai-se à corda: Zás! Cortando-a. Deita logo a correr para o Hipopótamo:
—Então, Avô, não viste a retribuição que te dei? Diz ele:
—Ena, pai! Sabes meu neto, que pagaste à grande! Uma coisa
assim, não poderia eu com ela. Estás quite da dívida! Completamente pago! O que
tu me deste era coisa grande! Vai-se então o Sapo-Concho, raspa—que-raspa, em
corrida até ao Elefante.
—O avô, então, a tua retribuiçâo sempre chegou? Responde
ele:
—Safa! Tu deste deveras um pagamento, meu neto. Nem fui
capaz de carregar com ele. Estou-te realmente agradecido. O que tu me deste em
pagamento era maior do que a divida. E não ée sta a minha històriazinha?
Sumiu-se! Não é agora a tua a ocasião de falar?...
Narradora: Celina,
casada, de 31 anos de idade, descendente de pais Ngambwe (Gambos). Gravação:
Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka.
9:
Ohamba Yovinyama n'Omona wae Omuwa Omufikwena
Akuya ovalume vevali: Ou utiwa Okungungu, ou utiwa omBeu.
Veya okumuhanda vemunepe. Watetekelele Mbeu.
—Iya... Ohamba aitavela:
—Lyepe-ko Mbeu!
—Uti; Mbe!
—Mweya na kuno?
—Tweya na kuno. Pahe tyino tweya vala okutaindya ovakainthu
venyi valinge onomphunga mbetu. Okuvandya. Ohamba aitavela;
—Mbe! Onthwe tuvahiwa ngetyi mweya okutaindya onomphunga.
Ovovo m'ovityivo. Okuvandya. Ohamba aimoneka okuihana ina.
—Iya, ove kuya pano? Ina aimoneka okuya, aiya
okupum-phamena p'onthele p'ohamba!
—Omulume ou —Mbeu —weya okutaindya omona wetu. Iya ove ina
yomona kupulu omona wove okutiwa wetavela? Ati:
—Iya, ove, etyi tyipopiwa, wetavela ine kwetavelele? Ati:
—Netavela. Mbeu: —Vaketu-ketu Mbeu walupuka, wapita,
walekela. Tyino walekela, papinga vali Kungungu.
—Iya... Veumbo avetavela:
—Mbe! Mweya na kuno? Kungungu ati:
—Neya na kuno. Pahe tyino omu tukalela vala. Okusokavo
kwatyo ovava vokutukunkhila. Pahe okuti tuendei k'ohamba. Twaendela vala ovana
venyi vonoharaba. Okuvandya. Ohamba aitavela:
—E! Mba-mba! oyou mwemuvasa. Pahe matutehela etyi atola
ina, n'omona watyo; Pahe ahimbika vali okukondola omulungu k'onyima:
—Mukai, iya, hayou
tupu omuenda omukwavo? Keile?
Ina kalupukile vali p'ondye. Watolela vala m'otyivo.
—Iya, pahe, kupulu omona watyo okuti wetavela?
Ovoina
weliomena p'okuti: “Apa ankho peile-ale omukwavo... Twetavela... Iya, pahe ou
uya tupu!... Otyo ñgo tulonga... manepwa na vevali? Ovohe uungulula k'omona
m'otyivo:
—Iya, pahe wetavela? Haywoyo? Omona ati:
—Tyu, netavela! —Haywoyo mukwe, Kungungu? Wetavelwa!
Kungungu ati:
—Mbe! Kungungu vatomphaula na he yatyo opo. Omuniango
vanianga 114 omphal, naina otyokweile-ale umwe wotete. Kungungu way'ale wapita. Iya, pahe ovohe n'ovoina
velipula:
—Ove, ove! Ovalume
vokweile vevali tupunga-po upi pahe? Ati:
—Kupulu omona? —Iya,
ove mona, endyu utale pano, ndyikupule. Omona weya wapumphamena p'onthele yae,
yohamba.
—Iya, hayo napopya,
mukulukai? Hatile monepwa n'ovalume vevali? Kupungu-po ou wahanda? Ati:
—Ame pahe, otyo
ndyityivilapi? Ame ovakwendye aveho nevehanda. “Masi? onwe ovotate na
me, onwe mamumphopila-mo okuti: “Pola-po ou?. He eiangulula 115 vali ku ina:
—Kutehela etyi apopya omona? “Ame aveho ndyivehole?. Pahe
onwe ovotate na me, onwe mamupungu-po ou mwahanda?. Ina ati:
—Pahe ukondola ku ame? Utumina omona ha he mwene? Ame vali
mukai? Ove-vo mopungu-po ou mwahanda. Ekumbi alinyingila avalyalya. Ou he
avakalangala-po na ina. Omona, wakalangala-po. Etyi valangala-po velipilulula,
he wapinduka-po, ohamba, apolopo ombutesa yae k'omitwe, ahimbika okufenya. Wapuñginya
ina:
—Ove, mukwe, kupahuka-po ndyikutolele?
—Untholela-tyi tupu k'omatumphoki kuno?
—Hayou, ankho twatompholele k'etango... yomona...
Katuiungulula? Muhuka vana kamaveya? Matuveyumbaila kumwe omitwe? Muhuka etyi
vekelivasa k'omeho, avakalwa. Tuitete, tupole-po etyi tupola-po n'etyi tusa-po.
Ina wapinduka-po. Wapula vali ohamba: Iya, pati ñgeli p'ombutesa yove? Ati:
—Opapa. N'ame ankho nakwatela-po katutu. “Masi? omakaya
atyo alinga ng'oti atunthile-po katutu, eli k'ohi. Pola otyiseko, utie-po vali:
Tu! Tu! Ou apinduka-po, apolo otyiseko. Wahoka p'ombutesa afenye —omukai watyo
ó. Omulume wahimbika okulikolomona apoplla omukai, ati:
—Utyii? K'omuhuka mandyitumu omona akaihane vomBeu na
Kungungu, ndyivetume k'omakolo-kolo vakaete otyihambo tyange. Ou wetyieta liva
kuno, oé manepe omona wange! Ina ati:
—E!... Otyo pahe, mwene
oku ove. He walala na yo m'onthulo. K'omuhuka etyi kwatya, watuma okamphange
komufikwena ó:
—Enda-ko k'okungungu,
uti: Tate wati veye vetavele. “Masi? valale, veye k'omuhuka, k'omuhuka-huka.
Kana kaya. Eya mu Kungungu.
—Iya... Kungungu
lyalyepesa, ati:
—Mbe! Lyepe-ko ombwale!
Iya, otyityi mweya onongulohi mbuno? Akati:
—Ame natuminwa na tate.
Tyatiwa kapole... 116 Kaihane Kungungu. K'omuhuka elimeneke. Ati:
—E! Okulimeneka k'omuhuka? Ati:
—Ya! Kana oko kakondoka. Keya vali mu Mbeu:
—Iya... Natumwa na Tate... —Wó!... Otyityi, mukwe, uhikila
okupopya, tuhenekutolese? Kun'atyi k'ohamba?
—Au! Tyatiwa: Kaihane Mbeu, velimeneke k'omuhuka, aveho na
Kungungu, veye, nkhele kalinetunde-ale. Ati:
—E! Tweliva. Enda, ombwale. Okana akati:
—Mbe! Tulalei-po. Mbeu wetavela:
—Vaketu. Okana keya, kehikila oko k'otyunda okukayovaila
ovipuka vyavo. Keya ku he. He
wati:
—Wó! Wevevasa-po,
ombwale? Okana akati:
—Ya, nevevasa-po. —Aveho? Ati:
—Ya! —Vati-wi. —Vati:
—Matuya. Okana kakanda - kanda, avalyalya ononkhange
avakalangala-po. Ovohe valangala-po. Hono kaveitolele vali. K'omuhuka
mavey'ale. K'omuhuka tyina kutya, veliuluka vey'ale k'omuhuka-huka. Ohamba
veipindula-po. ati:
—Ame nemuihana. Mandyimutumu. Etyi mandyimutumu, ou waeta
liwa kuno, otyipuka mandyimutumu, oe manepe omona wange. M'“okonta? mwalinga
vevali, mandyilingi ng'ou wokumuhongaiya. Vetavela, avati:
—Hamba, kututumu, iya, tuende? Ohamba yati:
—Endei k'oMakolo-kolo, kapolei otyihambo tyange
tyokuhakula, “masi? tyityindwa m'“osaku?, katyifikululwa. Uti hamwe muti
p'okati amuti tutyitale. Tyityindwa vala ngotyo! Avati: E! Avahimbika okulongaila
ovimuti vyavo. Vaya k'oMakolo-kolo, Valupuka. Tyina vati k'ondye yeumbo, ou
Kungungu, wati:
—Ndyikahi n'okuihama p'eimo: mandyiyapuka. Mbeu esala po
opo p'osaku yokukatyinda otyihambo. Kungungu opo walangalala. Mbeu wasoka yae
m'omutima:
—Pahe matuende na Kungungu n'omavava ae okukatuka? Ame,
n'ame ndyiendela p'ohi, okuvandauka... Mandyivasamo? Ou omukai... mandyimupewa
ou? Mbeu wasoka-ko yae. Wanyingila m'“osaku? yokukatyinda otyihambo. Kungungu
okutunda oko aile, k'ohika, tyino eya p'“osakus?... Mbeu ke-po!... —Hó! Mbeu
wanthya-po, vakwe? Tyondumbano Kungungu wehikila okufwaula-po “osaku?. Ahimbika
okukatuka kwae: Katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke... Tyokulipilika
umwe, tyokuti umwe Mbeu hono mandyikemuvasa p'okati. Naina, Mbeu, wemutyinda.
Tyino ati umwe k'oMakolo-kolo atyo, pahe eumbo limoneka, oKungungu okukatula
“osaku?.
—Ah! Otyipuka etyi nahateka apa, wati hatyinene? N'ame
ndyin'omavava, na Mbeu uenda okuvandauka, tulivasa okuenda? M'ondyila omo,
hamwe netyiponya, hamwe ankho tyayapuka okukania-ko, hamwe tyili k'onyima.
Nkhele n'ame ndyityipululukwe-vo. Nkhele natundile, kuna, okukatuka vala,
nahakaufwile-ko, nahakanine-ko! Okuyapuka vala nawa-nawa, Kungungu ayapuka
okukania-ko p'eimo lyae otyo... Tyino aya n'ok'ohika, Mbeu, muna m'“osaku?,
hakulupuka? Ngwe Mbeu kaende n'ok'oMakolo-kolo m'eumbo? Vok'oMakolo-kolo avati:
—Lyepe-ko, Mbeu! —Mbe! —Iya tuhelimono na Mbeu!... Iya, hono tunkhya ine tupuluka? Ati:
—Au, mupuluka.
Apumphama p'otyoto opo. Muhekulu weumbo weya. Avelitolesa.
—Mbeu, mweya na kuno?
—Iya, tweya na kuno. Pahe twatumwa vala n'onohamba.
Tyatiwa: “Veye vetupole-mo ovihambo k'oMakolo-kolo?. Otyo tuvevali. Tun'endamba
limwe. Lina nkhwali lyavela p'eimo, lienda vala n'okuyapauka.
—Hó!... Iya, ulipi?
—Uli k'ondye oko. —Wo! Kaveimanene-ale k'omuhaho, Kungungu
oyo uya. Otyo ñgo, vahimbika okumutolesa:
—Kungungu, weya na kuno?
—A! Tweya na kuno. Twatumwa n'ovomBeu ava. Twatumwa
ovihambo kuno n'onohamba. Pahe okuti m'omakati, vomBeu vetusa-po. Naina, vana
veya vatetekela kuno. (Mbeu m'omutima, atyiti: Hun! Katui!...). Vamwene
vokwelongela otyihambo otyo, vetyipakela m'“osaku? omu. Avatyindi aveho,
avalupukila kumwe “te? k'ombundi yeumbo. Vohekulu veumbo avevehindikila
k'ombundi yeumbo. Avati:
—Endei! “Masi?, tyino mwatyinda otyipuka otyo, muhakatiei,
nga mwati p'okati, amufilaulula-mo. Mutyinda vala ngotyo “te? mutyitwala ku
muhekulu. Mbeu ati:
—Nonthwe otyo twalawa.Tyatiwa muhetyifikululei. (Okupopila
ondamba vatyo yokusala-sala...). Nga vati k'ombundi yeumbo, k'ondye, ou
wahimbika ñgo n'okuti:
—Nkhele ndyityiende k'ohika!... (P'eimo lyae opo;) Ou,
Mbeu, ham' okunyingila m'osaku, ng'omo vakakala aveho kumwe n'otyihambo?
Kungungu, okutunda oko, etyi eya p'“osaku... Mbeu una wanyingila. Kungungu
welipula:
—Wo! “Omunthu? ulinga ñgo ng'op 'onthiki yatyo pana? Wapita
ñgo? Kungungu kapulile vali. Wahimbika okukwata “osaku? yotyihambo. Hakukatuka?
Katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke... “Ni? vali
okupululukwa vali m'eulu omo. Okukatuka vala. Tyokwalumbana lumwe. Tyokuti
umwe: makanthetekela k'omukai. Tyino eya, ati p'onthele p'eumbo, ati:
—Ah! Otyipuka etyi nakatuka otyinene! Mbeu okuenda?
M'onkhela, nakatukile, otyo ndyienda n'okutala-tala. Hono nakuluminya vala.
Mbeu yatyo, otyo ñgo ekehika? Watula ñgo p'ombundi yeumbo (yohambo oyo) pahe;
Tyino ati: Ndyiyapuke, ndyiende, n'ok'ohika yange oko... Mbeu m'“osaku?,
katundu-mo? Ngwe kaende n'om'eumbo? Okuti ñga, ohamba!... Mbeu oyo p'ombundi!
—Lyepei! Hó! Mweya? Iya, mukwenyi?
—A-ha! Uli ñgo k'onyima oko. Ei hamdamb'ale?! Nkhele
naendele n'okukevela vala umwe. P'okuenda otyo ñgo ale. Nkhele nakatetekelele
kuna. Pahe kuno, otyo tupu. Wesala tupu... p'eimo lyatyo ñgo... —Wo! Uvel'ale
p'eimo?! Ati: Uvela p'eimo... —Oh! Omunthu katolehiw' ale (ohamba mwene itola).
Ndyikevele mukwenyl ndyitehelele oulongo wenyi mwaeta-ko k'oMakolo-kolo.
Waihana omona wae.
—Iya, kuetela ovaenda ombulunga? Kungungu, na e kuna
n'okuya. Emulyepesa ati:
—Lyepe-ko, Kungungu!
—Mbe!
—Iya, om'okuya omu?! Ati:
—Om'okuya omu. Iya, omBeu wandyenda ñgeli tupu ñga?... Mbeu opo watile:
—E-he!... Ame ndyienda kumwe n'ove? Helihulila
vala ousupi? kwange... “p'ousupi wange, ha-po p'oule wange?? Wanthombela
ousupi? Ove un'omavava okwatop'ale unene-nene! Tyino wakanina-ko utenga
ovilisombo avikalinga vikwana. Otyounongo wove otyo. Vanwa ombulunga vapewa
n'omufikwena watyo. O ohamba ahimbika okuvetolesa:
—Mwanyanga-ko
k'oMakolo-kolo?
—Twanyanga-ko. Pahe,
tyino twakaya. Etyi twakati p'omakati apa, twayapuka k'onohika, vomBeu nanyo
vana vapita. Twahatekele umwe, twahatekele umwe... Okwehika nanyo vana vekehika
umwe k'oMakolo-kolo. Vana vetullilla k'omilungu k'oMakolo-kolo. Avetupe evi twaendela
“masi? “kavifikululwa p'omakati?. Pahe twatunda-ko ñgo tupu.
Etyi twati ñgo tulupuka m'omaumbo... p'omaimo ñgo, atyo ale apa. Okuyapukila
ñgo k'onohika. Ava, vomBeu, na mbwandye, vana vahova-mo tupu veya ñgo. Pahe
twahateka vala, twemuetela vala ovipuka vyenyi. Okuvandya. Ohamba:
—E! Mba-mba! Iya, ongotyo, mwaeta otyipuka tyange,
Tatekulu, napandula. Pahe mandyimutolela ondaka yange. Okumuvetaila kumwe
omitwe, tyihanga nga tyina nemuhongaiya. Pahe ame napandula-po omBeu
wekwehikile liva k'oMakolo-kolo, wokwehika liwa tupu kuno. Hae manepe omona
wange? Ove, Kungungu, kwesalelepo vala?... Kungungu, lina lyakumbulile? Omutwe
kauli m'ovikalo? Lyahimbika okuenda kalekelele vali. Lyanyunguluka. OmBeu
walala lumwe. Waipaelwa otyifufwa alangala-po. Avamoneka okusapela n'omphunga
yae. K'omuhuka tyina kutya, welimeneka m'ondywo, m'ohamba, avelitolesa:
—Onthwe tukaundapa, ovilinga vyetu. K'onongulohi hamwe
atuya vali. Oh:
—Mbe! “Bom?. Endei! Ovanthu katwalalele-ale ovilinga? Mbeu
wapita k'ovilinga vyae oko. Undape, undape, undape, undape, undape... Etyi
lyapeta weya vali. Wehikila ñgo p'otyoto pu Heivi. Opo apumphama. Vasapaila,
vasapaila, vapumphama, vapumphama, vapumphama, otyo vatola, otyo vatola.
Omphunga waeta otyihima, alyalya, avakalangala-po. K'omuhuka velimeneka
m'ohamba.
—Ame... omukai nahanda okuilula. Ovilinga kuno vyandinga
ovinyingi; tyokuenda-enda omaulu ñgana, ame netyisapo vali. Ohamba ati:
—“mBo?! Omukai wove hayó? Hangombe ndyihanda?! MBeu wapita,
walekela, wekeiita ongombe yeya. Avalangala-po. K'omuhuka tyiuo kutya, omukai
walongaila ovipuka "yae, vapita k'eumbo lya MBeu. Oko vakakala. Avakala
umwe na e enima. Avalimi na e ovilya. Omukai hono wankhindika ohingo yae.
Ankhindula, anyaneka. Akunkha-kunkha, anyungu. Ombiya yotete watil'ale p'otyitoto!
Ombiya onkhwavo yok' onyima... omeva “para“ okutila vali m' ombiya kaehi.
—Mulume wange, sala-vo n'okukulunga m'ombiya yange omu,
ndyihateke k'omeva, ombiya mailiongolola. Mbeu wati:
—Enda vala! Tyokukulung'ale tyina vali tyimwe? Omphuka
kakwata omuyo... oti, op'ovanthu ovanyingi vekumona? N'apa tuli vali muno,
om'ovanthu vevali, otyo hin'okukulungila —mo? Hateka k'omeva, onkhela
mailifiti. Tembo a Mbeu wapita k'omeva. Tyino atunda-po, omulume Mbeu, uhimbika
okukulunga m'ombiya. Tyino ayelula okuwoko “para? akulunge, m'ombiya
kamavasa-mo. Ombiya onene. Ahimbika okulonda k'enthia. Tyino ayelula okuwoko,
akwate oluvale, m'ombiya kamavasa-mo. Alonda k'ombanda yonthele yombiya...
Wakulunga-mo vala tuvali... Mbeu wawila m'ombiya yonkhela. Omu aalangatela omu,
m'omeva atokota... Omukai kuna watunda-ko. Tyino eya m'omulume... —Ove, iya,
kunthulu-ko? Omulume wati vala: filu! Omukai watula ononthenda. Walumbanena
m'ombiya yae omu, okuti mailiongolola. Tyino ati: ndyikulunge... Mbeu oyou
m'onkhela!!... Walungwain'ale kohale. Ahimbika n'okutelaula-po eiyululila p'ohi.
Ahateka okuenda n'ok'ovavo ya MBeu. Wevevasa, ati: —Endywei mukatale. Etyi
namona oko, ame hinetyimone. Vavo aveho velikongaulula, vakwama omukai ou,
okuya okutala. Okumuvasa, MBeu... ai! Ovikalo vili m'eulu!... —Iya, ove,
omukai, etyi... omulume wove waenda ñgeli ñgana?! Ati:
—Omulume wange, ame
nemusa apa, andyiti: “Nkhulaungile m'ombiya. Ame nakatapa omeva?. Ati: “E?!
Tyino ndyitunda vala k'omeva... omulume uli m'ombiya! Tyino ndyiti: ndyikulungepo...
omo ekahi!... —Iya, pahe, vakwe tutyiteta p'ohitu patyi? Iya, naina, waipaa
omulume have?! Wati: “Kulunga m'ombiya?!... Omukai aimulingi vali navi.
Avalilalila, avakapaka Mbeu. Omukai, okusokolola, okuenda okukapopya k'ohamba
ku he.
—Kuno ame veinkhila, okuti: “ove waipaa omulume wove, m'
“okonta? wemukulungihila m'ombiya?. He ati:
—Veye kuno, ndyitehelele. Aveho velikongolola, veye
k'ohamba.
—Popyei utale! Avati:
—Onthwe... omukwetu waipawa n'omona wove!... —Tyaenda
ñgeli? Avati:
—Omukai wati: “Kulunga m'ombiya?! “Ame ndyikatape omeva?. Omukai
tyino eya, omBeu m'ombiya kamavasa-mo, walonda k'ombiya, wawila m'ombiya!
Ohamba yati:
—Otyo mwene ha Mbeu weliipaa? Iya, wakakulungila-tyi
m'ombiya, omulume? Omukai wati:
—Iya, kuna otyo napopya okuti: “Onthwe tukala vevali
m'ohika. Iya, “pala? okuti ame k'omeva, ame “pala? okukulunga m'ombiya... iya
tyimwe tyapeseka! Iya, omulume mwene na e weliungulula okuti: mandyikulunga
m'ombiya! Oyoyo —atile kamuitehelelei? Vavo vati: —“Bom?. Mamupopi onwe; onthwe
matuitehela m'ohamba! Ohamba ati:
—Ame naimbuka omona wange mwaeta kuno. Ndyitupu vali etyi
ndyipopya. Muno ame nemuimbuka. Oe mwene wankhya... mwene ononkhya mbae... ombu
mbemueta Huku. Otyo tyekemutis'ale akakulunge m'ombiya. Ankho wetyipola pi? Ame
naimbuka vala omona wange. Akale n'ouhepe. Mupondola okuenda. Ame oyoyo yange!
Oyoyo! Okuvandya.
9: O
Rei Dos Animais E Sua Filha Linda E Jovem
Apresentaram-se dois homens: Um de nome Bu corvo 43 , o
outro Sapo-Concho. Vieram pretendê-la em casaniento. Em primeiro lugar chegou
Sapo-Concho.
—Com licença... Responde o rei:
—Sê benvindo, Sapo-Concho!
—Obrigado! Diz este.
—Então vieste até cá?
—Vim até aqui, é verdade. O assunto que me trouxe é procurar
tua filha para ser minha escolhida. Eis o que tenho a expor. Resposta do rei:
Obrigado! E o assunto que se nos depara: o de vires procurar tua escolhida.
Está ali nos aposentos. Por mim nada mais. E o rei põe-se a chamar a mãe dela:
—Então não vens até aqui? A mãe aparece e aproxima-se,
vindo sentar-se junto do rei.
—Este homem —Sapo-Concho —vem pretender a nossa filha.
Portanto não é a ti, mãe da pequena, a quem pertence ir perguntar-lhe se ela
aceita? Exclama ela: (dirigindo-se para dentro):
—Então tu, isto que aqui se está a dizer, aceita-lo ou não
o aceitas? Resposta:
—Aceito. Exclamação de Sapo-Concho: Obrigado, muito
obrigado! Sapo-Concho saiu e foi-se embora, tendo-se despedido. Depois de se
haver despedido, apresenta-se outro, o Bucorvo.
—Com licença...
Respondem os de casa:
—Obrigados! Vieste visitar-nos? Responde o Bucorvo:
—Vim visi-tar-vos. Nós por aí vamos vivendo. O nosso
pensamento são “estas que nos moam a farinha?. Resolvi assim vir a casa do rei.
E a vossa real filha que aqui me traz. Eis o meu assunto. Resposta do rei:
—Pois bem! Obrigado! Ela ai está, encontraste-a. Vamos
ouvir agora o que diz a mãe e o que diz a filha. E ele recomeça então a deitar
falas lá para dentro:
—Mulher, não temos nós aqui mais esta visita? Ei-lo, não o
vês? A mãe não voltou a sair cá fora. Limitou-se a falar lá de dentro.
—Então não perguntas àtua filha se aceita? A mãe está
embaraçada, pensando: “Ainda mesmo agora veio outro...? Nós dissemos que sim...
E agora aparece mais este!... E nós a darmos-lhe conselhos... vai ela casar com
dois? Fala então o pai àfilha lá para dentro:
—Então tu aceitas? Não é esta a questão? Responde
a rapariga:
—Obrigado, aceito!
—Não ouves a resposta, Bucorvo? Tu foste aceite! Responde o
Bucorvo:
—Obrigado! Bucorvo
mete-se em conversa com o pai ali mesmo. A indelicadeza de trato a quem se
apresenta éafinal por ter vindo já um em primeiro lugar. Bucorvo retirou-se, e
foi-se embora. Põem-se agora, pai e mãe, a interrogar-se:
—Ouve cá, ótu! Dos dois homens que vieram, quem vamos nós
escolher? Diz ela:
—Porque não interrogas a pequena?
—Pois bem, filha, vem cá a ver. que preciso de te
interrogar. Velo a rapariga e sentou-se ao pé dele, do rei.
—Olha, minha velhinha, não étal como eu disse? Vais tu
então casar-te com dois homens? Ou não escolhes tu aquele de quem gostas. Ela
responde: Ora agora, como posso eu fazer tal coisa? Quanto a mim, de ambos os
rapazes gosto. Mas vós, meu pai e minha mãe, éque me ides dizer assim: “Escolhe
este?. O pai devolve à mãe a questão dizendo:
—Não ouves o que diz a nossa filha? “Eu por mim gosto de
amboss?. Sereis vós portanto, pai e mãe, que me direis aquele que vós mesmos
preferis?. Replica a mãe:
—Então tu devolves-me a questão? Quem manda na rapariga não
éo pai? Eu, mulher, é quem manda? Tu é que tens de escolher a quem queres.
Pôs-se o sol e eles comeram. O pai, foi deitar-se mais a sua mulher. Foi-se
também deitar a rapariga. Depois de se deitado e virado para o outro lado, levantou-se
o pai, o rei, tomou da cabeceira a sua caixa de rapé e pôs-se a sorver um
pouco. Abanou a seguir a mãe:
—Olha cá, não acordas tu um pouco para eu te dizer uma
coisa?
—Que é que me vais ainda dizer, agora no meio do sono?
—Então não é a conversa que tivemos à tarde... a respeito
da rapariga... Não vamos combinar? Amanhã não aparecerão por ai? Havemos de
pô-los às turras, um com o outro? Acabam Um dia por encontrar-se e pegar-se.
Decidamos o assunto, tomando o que entendemos e rejeitando o que há a rejeitar.
A mãe levantou-se. Dirigindo-se ao rei, perguntou-lhe:
—Como é que está ai essa tua tabaqueira? Diz ele: Está
aqui. Eu também lhe peguei um bocadito. Mas o tabaco parece que endureceu um
tanto, ficou lá no fundo. Toma o triturador e dá-lhe umas moedelas. Ela
levantou-se e pegou no triturador. Escarafunchou a tabaqueira para cheirar
—quer dizer a mulher em questão. O homem começou por se
despigarrear e falou à sua mulher, nestes termos:
—Sabes? Amanhã vou mandar o rapaz a chamar Sapo-Concho e Bucorvo
para enviá-los ali ao Makolo-kolo a que me tragam a minha caixa de curandeiro.
Quem a trouxer mais depressa équem casa com a minha filha! Replica a mãe:
Sim!... Isso agora é lá contigo. O pai, passou a noite com a sua ferrada. No
outro dia pela manhã, mandou o irmãozito da tal rapariga.
—Vai ao Bucorvo e dizes: O meu pai manda-me dizer que
venham atender. Mas que passem esta noite e venham pela manhã, muito cedo. A
criança foi. Chega ela a casa do Bucorvo.
—Com licença... Bucorvo deu as boas vindas:
—Obrigado! Sê benvindo, pequeno! Então porque vindes ainda
noite escura? Diz o miúdo:
—Fui mandado por meu pai. Foi-me dito: Vai buscar... não...
vai chamar Bucorvo. Que venha amanhã de manhã cedo. Resposta:
—Oh! Ir cedo amanhã de manhã? Diz o pequeno:
—Sim! E eis o miúdo de volta. Passou ainda por Sapo-Concho:
—Com licença... Fui mandado por meu Pai...
—Oh!... Porque é que entras no assunto sem mais, nem sequer
nos cumprimentamos? Que é que vai por casa do rei?
—Nada! Só me foi dito: Vai chamar Sapo-Concho, para que
amanhã de manhã cedo, venha ele mais o Bucorvo, mas que seja antes do sol
nascer. Resposta: Está bem! Entendido. Podes ir, pequeno. E o miúdo responde:
Obrigado! Até amanhá. Sapo-Concho respondeu:
—Obrigado! Volta o pequeno e fica-se pelo curral a arrumar
uns apetrechos. Vem depois ter com o pai:
—Oh! Encontraste-os, moço?
—Responde o miúdo: Sim, encontrei-os.
—A ambos?
—Diz ele: Sim!
—E que disseram?
—Disseram: —Lá estaremos. O rapazito ocupou-se da ordenha,
comeram uma porção de milho torrado e foram para a cama. Os pais também se
deitaram. Desta feita, não falaram mais do caso. Virão amanhã —entenderam. No
dia seguinte pela manhã, foram surpreendidos por eles que vieram cedo, muito
cedo. Vieram tirar o rei da cama. E diz este:
—Eu chamei-vos. Vou-vos mandar algures. Aquilo que eu vos
encomendar, quem mo trouxer mais depressa, aquele objecto que eu mandar, será
esse mesmo quem casará com a minha filha. E porque sois dois pretendentes, é como
se estivesse eu a incitar-vos à bulha. Responderam dizendo:
—Não nos mandas então, ó rei, que é para seguirmos viagem?
Diz o rei:
—Ide a Makolo-kolo, trazei-me de lá a minha caixa de
curandeiro, mas a coisa carrega-se no saco e não se descobre. Nõ aconteça que a
meio caminho vos venha a ideia de ver aquilo. Transporta-se assim como está.
Responderam eles: Está bem! E ei-los que carregam os seus pertences de viagem.
E para Makolo-kolo. Saem de casa. Chegados cá fora, fala Bucorvo, dizendo:
—Eu estou mal da
barriga: tenho de afastar-me. Ficou Sapo-Concho ao pé do saco em que devia
trazer-se a caixa da medicina. Bucorvo continuava aninhado. SapoConcho ruminou
a sua ideia:
—Ora agora vou-me eu daqui mais o Bucorvo, ele com as suas
asas que dão para voar? E é comigo que só ando a pé, arrasta-que-arrasta...
Posso competir com ele? E a mulher... irei assim apanhá-la? Sapo-Concho ruminou
a sua. Meteuse dentro do saco destinado à caixa da medicina. Bucorvo, vindo do
sítio para onde se afastara, ao chegar ao pé do saco... Sapo-Concho não está
lá!
—Ora esta! Sapo-Concho deixou-me ficar? Com a pressa,
Bucorvo pegou sem mais, no saco num rompante. E levantou voo no seu jeito.
Ei-lo a voar, a voar, a voar, a voar, a voar... Como quem se deitou à tarefa,
como quem diz a sério: Aquele Sapo-Concho, vou encontrá-lo a meio do caminho.
Afinal, ele transporta Sapo-Concho consigo. Chegado precisamente ao tal
Makolo-kolo, já a casa se divisava, foi Bucorvo a pousar o saco.
—Ah! O que eu corri nesta tirada, ainda julgas que não é muito?
Entre mim que tenho asas e Sapo-Concho que anda aos arrastões, haverá parecença
na caminhada? Ai pelo caminho, ou não dei por ele, ou talvez se tenha afastado
a defecar, ou então estará ai para trás. E agora a minha altura de descansar.
Desde tão longe que lhe peguei, sempre a voar, sem ter ido a urinar ou a
defecar. Toca a afastar-se muito a preceito. Bucorvo afasta-se por causa
daquela soltura que o apoquenta... Embrenhado ele no mato, não éagora a vez de
Sapo-Concho sair do saco? E logo depois não vai o mesmo a Makolokolo, à casa
indicada? Os de Makolokolo saudam-no:
—Sê benvindo, Sapo-Concho! —Obrigado! Ora, há tanto que não
nos vemos, Sapo-Concho... Isto hoje é coisa má ou é coisa boa? Diz ele: Não
temais; é coisa boa. Sentou-se junto à lareira. Aproxima-se o dono da casa e
entabulam conversa.
—Vieste até cá, Sapo-Concho?
—Sim, vim até cá. e
que fomos mandados pelo rei. Foi-nos dito assim: “Eles que venham e que vão
buscar a caixa da medicina a Makolo-kolo. Somos dois. Tenho comigo urn palerma.
Pelos vistos anda mal da barriga e está sempre a afastar-se para o mato.
—Oh!... E então onde está?
—Está ali para fora.
—Oh! Mal tinham acabado de assim falar, ei-lo o Bucorvo que
chega. E recomeçaram a conversa de saudações:
—Bucorvo, vieste até cá?
—E verdade! Viemos, fomos enviados eu e Sapo-Concho. Fomos
mandados pelo rei a buscar a caixa da medicina. Mas sucedeu que a meio caminho,
SapoConcho deixou-me para trás. Afinal ele veio e antecedeu-me aqui em casa.
(Sapo-Concho, lá por dentro, resmunga: Pois sim! Quero cá saber!...). Os donos
da casa carregam-lhes a caixa, metendo-a dentro do saco. Transportam-na ambos e
saem juntos, até àentrada da casa. A gente da casa, acompanha-os até àabertura
da sebe, dizendo-lhes:
—Ide! Mas, com este objecto que levais, não vos passe pela
cabeça, a meio caminho, de vos pordes a mexer dentro. Haveis de levá-lo como
está, até o entregardes ao dono. Responde Sapo-Concho: A nós também nos
recomendaram o mesmo. Disseram-nos: Nãn descubrais isso. (Fala assim ao companheiro
palerma que se vai atrasando...). Chegados à abertura do cercado, já cá fora,
recomeça o outro a dizer:
—Vou entretanto ai ao mato!... (E a tal soltura...). Então
aproveita imediatamente, Sapo-Concho para se introduzir no saco, onde se
instala junto com a caixa da medicina? Bucorvo, de volta e ao chegar ao pé do
saco... Sapo-Concho enfiou-se dentro. Bucorvo interrogou-se a si próprio:
—Oh! O “individuo? torna a proceder como da outra vez?
Raspou-se novamente? Bucorvo não procurou saber de mais! Deita-se ao saco da
caixa de curandeiro. E põe-se a voar, não é assim? A voar, a voar, a voar, a
voar, a voar, a voar, a voar, a voar... Sem urn descanso sequer naquela viagem
aérea. Só a voar sem mais. Como quem tem pressa a valer. Como quem pensa: ele vai-me
chegar primeiro àmulher. No fim da viagem, já mesmo ao pé da casa, diz consigo:
—Ah! Este meu voo foi coisa de respeito! Sapo-Concho a
andar? O outro dia, eu voei e ao mesmo tempo fui deitando os olhares por aqui e
por ali. Hoje corri a toda a brida; Sapo-Concho também desta feita lá chegou?
(Isso sim!) Novamente pousou a carga à entrada da casa (do curral de gado). Mal
entendeu ele: Deixa-me afastar e ir para aí ao mato a minhas necessidades...
Sapo-Concho não se escapa de dentro do saco? E não se dirige logo de caminho
para dentro de casa? Ia para entrar e eis o rei!... Sapoconcho já está na
abertura do cercado!
—Boas vindas! Oh! Já viestes?! E o teu companheiro? —Nada
de novo!
Está ainda aí para trás. E ele afinal não é um lorpa?! Todo
o caminho outra coisa não fiz senão esperar. A ida foi também a mesma coisa.
Fui eu ainda quem primeiro lá chegou. Agora aqui a mesma coisa. Lá ficou outra
vez... com a tal soltura de ventre...
—Oh! Ele tem soltura de ventre?!
—Resposta: Tem soltura de ventre.
—Oh! Não se atende a
razões de um só (é o rei quem assim fala). Vou esperar pelo teu companheiro
para saber dos remediozitos que de Makolo-kolo me trouxestes. E chamou pela sua
filha.
—Então não trazes
cerveja às visitas? Bucorvo aparece por sua vez. O rei cumprimenta-o:
—Benvindo, Bucorvo!
—Obrigado!
—Então só agora?! Responde: Sim, só agora. E tu,
SapoConcho, como éque por mim passaste outra vez?!... Replicou então
Sapo-Concho:
—Ora essa!... Eu
tenho andar parecido com o teu? De pequeno não tenho eu apenas a fama? No meu
arrastar... mas minhas curtas dimensões, não reside o meu comprimento? Tens-me
em pouca conta por minha pequenez? Tu, senhor de umas asas e seres um tão
grande palerma! Quando vais a defecar, armaste com paus de limpeza até número
de quatro. E o que te pede a tua esperteza?! Bebem a cerveja que lhes oferece a
rapariga em questão. O rei começou então os cumprimentos do estilo:
—Arranjastes vossas coisas no Makolo-kolo? Toma Bucorvo a
palavra: Arranjamos. Bem, nós fomos. Chegados a meio caminho, afastamo-nos ai
para o mato. Sapo-Concho afinal foi-se embora. Corremos a valer, corremos
deveras... Vindos ao local, ele já estava lá mesmo em Makolo-kolo. Havia-se-nos
antecipado, dando o recado em Makolo-kolo. E entregaram-nos aquilo a que iamos,
mas, “que são coisas que não se descobrem no caminho?. Recomeçamos a nossa
viagem de voita. Quando estavamos a sair do meio do casario... veio outra vez a
costumada diarreia. Novamente nos afastamos para o mato. Aqui o Sapo-Concho,
digo-o com juramento, tornou-se a raspar e veio àfrente. Quanto a nós
limitamo-nos a correr, trouxemos-vos apenas os vossos pertences. Nada mais a
acerscentar E o rei:
—Sim! Obrigado! Pois já que me trouxestes o que émeu, eu
agradeço, eu estou agradecido. Mas tenho a dizervos o meu parecer. Pôr-vos um
contra o outro, isso era como se vos acirrassemos. Por isso inclino-me a favor
de Sapo-Concho que chegou mais depressa a Makolo-kolo e aqui também chegou. Não
éele pois quem casa com a minha filha? Tu, Bucorvo não éverdade que ficaste de
lado?... Bucorvo, teve ele alguma resposta a dar? Não lhe ficou antes a cabeça
caída? Pôs-se a andar e nem se despediu. Virou as costas como num arremesso. Sapo-Concho
ficou para dormir. Mataram-lhe uma galinha e deitou-se. E puseram-se a
conversar, ele mais a noiva. De manhã, ao raiar do dia, madrugou a dirigir-se
aos aposentos do rei, onde se cumprimentaram:
—Vamos ocupar-nos de nossos trabalhos. Pela tarde, nós por
ai apareceremos outra vez. E o rei:
—Obrigado! Ide pois! Nós afinal não épor causa do trabalho
que nos deitamos? Sapo-Concho saiu a seus trabalhos.
—Trabalhou, trabalhou, trabalhou, trabalhou, trabalhou...
Ao declinar do sol, voltou a casa. Foi direito à lareira, junto ao sogro. Ali
ficou assentado. Conversaram detidamente, passando o sen tempo sentados, dando
e recebendo as informações do dia, um ao outro. A noiva trouxe o pirão, ele
comeu, e foram-se deitar. Pela manhã, madrugaram a ir ter com o rei.
—Eu... queria pedir a mulher para levar. Os trabalhos,
connosco aqui, multiplicam-se: isto assim de caminhadas a pé é coisa que quero
pôr de parte. Diz o rei:
—Bom! Não tens tu aí a mulher?! O que eu quero não é receber
o meu boi?! Sapo-Concho foi-se, tendo-se despedido, tratou de pedir o boi e
apresentou-o. Deitaram-se. Ao raiar do dia seguinte, a mulher carregou com os
seus pertences e seguiu para casa de SapoConcho. Ali ficaram a morar. Viveu com
ela um ano inteiro. Com ela cultivou seus cereais. Um dia a mulher abafou uma
porção de mantimentos para grelar e fermentar. Descobriu-o depois e estendeu-o.
Após isso, moeu-o e aplicou-se a fazer cerveja. Já ela deitara a primeira
panela no coador. A outra panela a seguir... ao tomar água para lhe deitar
dentro. vê que é pouca.
—Ó homem, ficas-me tu por favor a mexer aí na minha panela
enquanto eu corro por água, que a panela esturra-se. Sapo-Concho exclama:
—Vai à vontade! Então o mexer tem alguma importãncia? Não é
infracção aos costumes... ou é coisa que se passe aos olhares de muita gente?
Até aqui onde estamos, só entre duas pessoas e eu não hei-de mexer? Corre à buscar
água que a cerveja estraga-se. A mulher de Sapo-Concho foi-se à água. Assim que
se afastou, Sapo-Concho, o homem, deu-se ao trabalho de mexer na panela.
Experimenta levantar um braço para mexer, mas não chega até acima da panela. A
panela é grande. Subiu então ao calço da panela. Levanta um braço para pegar no
pau de remexer, mas não chega acima da panela. Vai ele então para cima do bordo
da panela... Apenas deu duas mexedelas... e SapoConcho cai dentro da panela da
cerveja. Ali se virou e revirou, dentro daquela água quente... Ali se volteou
ele, dentro da água quente. Surge a mulher que está de volta. Toma a direcção
de onde estava o homem... —Então tu não me ajudas a pousar? Mas do homem não
sai nem pio. A mulher pousou as cabaças. Foi depressa ver a sua panela, na
ideia de que se queimava. Ao fazer o gesto de mexer... Sapo-Concho, ei-lo a ele
dentro da cerveja!!... Já há muito que ele ali esturrou. Pega ela da panela a
tirá-la do fogo e despeja-a no chão. Deita depois a correr a casa da familia de
SapoConcho. Encontrou-os e disse-lhes:
—Vinde dai ver. Nunca os meus olhos toparam numa coisa
assim. Todos os da familia se reunem e seguem atrás da mulher, para ver. Ao
deparar com ele, com Sapo-Concho... ai! As pernas estão viradas para o ar!...
—Então tu mulher, isto aqui... o teu homem como é que ele se encontra assim?
Diz ela:
—O meu homem, eu deixei-o aqui, e disse: “Vai-me tu mexendo
na panela. Eu vou buscar água?. Resposta dele: “Está bem?! Ao voltar eu da
água... o meu homem está dentro da panela! Eu a começar a mexer... lá está
ele!... —Então, companheiros, a quem havemos de deitar as culpas? Afinal não
foste tu que mataste o homem?... Tu que disseste: “Mexe na panela!?... Aqueles
dizeres mais apoquentaram a mulher. Celebraram os choros fúnebres e foram
enterrar Sapo-Concho. A mulher, remoendo no caso, pôs pés a caminho a falar ao
rei, seu pal.
—Cá por casa, baralharam as coisas contra mim, dizendo: “tu
mataste o teu homem, porque o mandaste mexer na panela?. Diz o pai:
—Eles que venham cá para eu ouvir o pleito. Toda a gente se
reuniu em casa do rei. —Exponde as vossas razões! E eles disseram:
—Quanto a nós... o nosso parente foi morto pela tua
filha!... —Como se passou isso? E explicaram:
—A mulher disse: “mexe na panela?! “Entretanto vou à água?.
Quando voltou a mulher, SapoConcho não chegara à panela, trepara para cima dela
e caira dentro da panela! Responde o rei:
—Isso aí, não foi Sapo-Concho quem se matou? Pois para que
é que ele foi mexer na panela, sendo homem? Observa a mulher:
—Pois eu lá em casa também disse que: Vivemos dois sòzinhos
no meio do mato. Assim, para que seja eu a ir àágua, e eu também a mexer na
panela... veio a estragar-se uma das coisas. Por isso o meu próprio homem deu
cabo de si, ao resolver: “eu vou mexer na panela?. E o que eu digo —acrescentou
—vós não ouvis? Os da família replicaram:
—Bom. Isso éo que tu dizes; nós vamos ouvir a decisão do
rei! Diz então o rei: —Eu reconheço a minha filha que aqui trouxestes. Nada
tenho mais a dizer. Aqui em minha casa, eu reconheço-a. Esse homem... morreu
dele mesmo... foi a morte que lhe calhou... aquela que Deus lhe enviou. Foi
isso o que o levou a ir mexer na panela. Donde lhe veio tal ideia? Eu limito-me
a reconhecer a minha filha. Que ela fique com a sua viuvez. Vós podeis
retirar-vos. Eis o meu dizer! E a minha narração também! Acabei.
Dados
biográficos e outros como no nº 1. Nesta narração também, A. Constantino Tyikwa
dá provas da sua grande mestria, focando diversos aspectos da vida familiar e
social, conforme ela se desenrola no próprio ambiente. E caracteristico por
exemplo, como ele sabe notar com realismo pitoresco as faltas contra a etiqueta
em vigor nas visitas, cometidas pelo pequeno mensageiro do rei, por causa da
sua inexperiência. —O “negócio? do casamento da filha está um tanto ou quanto
idealizado. No entanto a liberdade na escolha, por parte da rapariga, ficou bem
evidenciada. E curioso notar que Constantino não especifica a natureza
animalesca deste rei monogámico e que não dispõe sequer de ministros. Esta
imprecisão tem talvez por fim tornar mais humana a figura do rei dos animais. O
desafio de corrida que constitui urn dos episódios do conto —um acidente em que
um animal naturalmente veloz é vencido por um outro de passo lento, graças à sua
manha ardilosa —ocorre também noutras narrações. Confinando-nos à área
linguística especialmente considerada neste estudo, convém mencionar as
seguintes: A Tartaruga e o Chacal —recolhida por Pettinen 45 . Duas registadas
por Hauenstein: uma existente entre os Bundos e a outra entre os Hanyas. Nesta
os protagonistas são os mesmos que no conto Nyaneka 46 . Aliás, não foi difícil
a V. Guerreiro, que procedeu a estudos comparativos da literatura fabulística,
não só de etnias africanas, mas também de povos dos outros continentes. provar,
que o tema versado nestas narrativas é de ordem universal.
B Contos Em Que Intervem Monstros Antropófagos
10:
Ekihi N'omunthu
Ou wati: Mandyikull. Wati:
—Au! Ame hiliwa.
Mandyi-kuavela ekuti. Ati:
—Ekuti himali. Himekuta. —Mandyikuavela ondyandya. Ati:
—Ondyandya himali. Himekuta.
—Mandyikuavela ondyundyu. Ati:
—Ondyundyu himali. Himekuta.
—Mandyikuavela otyitena. Ati:
—Otyitena himali. Himekuta. Mandyikuavela ombambi. Ati:
—Ombambi himali. Himekuta.
—Mandyikuavela otyihine. Ati:
—Otyihine himali.
Himekuta.
—Mandyikupe ondyamba. Ati:
Ondyamba himali. Himekuta. Ame ndyihanda ove, omunthu
watyo. —Au! Ame mandyikekuavela umwe ongombe. Oyo mandyiya okukufetela.
10: Um
Monstro E Uma Pessoa
Diz ele: Vou-te comer. E ela:
—Não! Eu não sou de comer.
Dar-te-ei uma rola. Ele:
Não comerei a rola. Não me fartarei.
—Vou dar-te um pardal. Ele:
Não comerei o pardal. Não me fartarei.
—Vou dar-te um “melro verde?. Ele:
Não comerei o “melro verde?. Não me fartarei.
—Dar-te-ei um passarinho das sebes. Ele:
Passarinho das sebas não como. Não me fartarei.
—Dar-te-ei um antílope “bambi?. Ele:
Não comerei “bambi?. Não fico farto.
—Vou te dar um
antilope “tyihine?. Ele:
Não tocarei em “tyihine?. Não fico satisfeito.
—Dar-te-el um elefante. Ele:
Eu não vou comer elefante. Não ficarei saciado. Eu quero-te
a ti que és gente. —Não! Eu vou-te mesmo dar um boi. E com esse que virei pagar-te.
11:
Ekuti N'Ekihi
Ekuti lya mwene lya Mukumbekumbe lya Kaundanganga. Oviila
aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou
mundile. —Ondyandya... —Ondyandya ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga.
Oviila aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou mundile. Ondyundyu... —Ondyundyu ya mwene
ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga. Oviila aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou
mundile. —Ombambi... —Ombambi ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga.
Ovinyama aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou
mundile. —Otyihine... —Otyihine tya mwene tya Mukum-be-kumbe tya Kaundanganga. Ovinyama
aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou
mundile. —Otyipundya... —Otyipundya tya mwene tya Mu-kumbe-kumbe ya
Kaundanganga. Ovi-nyama aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou mundile. —Ondyamba... —Ondyamba ya mwene ya
Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga, Ovinyama aviho andyitange andyimane.
—Nthumbulile ou mundile. —Iya!... Andyikupe ongombe!...
—En!
11:
Uma Rola E Um Monstro
Rola alheia de Mukumbe-kumbe, de Kaundanganga. Todas as
aves eu nomeio até acabar.
—Diz-me quem me
arranjas para eu comer. —Um pardal... —Pardal alheio de Mukumbe-kumbe, de
Kaundanganga. Todas as aves eu nomeio até acabar.
—Diz-me quem me arranjas para eu comer.
—Um melro verde... —Melro verde que tem seu dono, de
Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Toda as aves eu nomeio até acabar.
—Diz-me quem me arranjas para eu comer. —Um “Bambi?.
—“Bambi? com seu dono, de Mu-kumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animais
nomeio eu até acabar.
—Diz-me quem me arranjas para comer. —Uma “Tyihine?.
—“Tyihine? que tem seu dono, de Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animals
nomeio eu até acabar.
—Diz-me que me dás a
comer. —Uma “Punja?.... —“Punja? de seu dono de Mukumbekumbe de Kaundanganga.
Todos os animais nomeio até acabar.
—Diz-me quem me dás tu a comer. —Um elefante... —Elefante
de seu próprio dono, de Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animais eu
nomeio até acabá-los todos. —Diz-me tu quem éque arranjas para eu comer.
—Pois bem!... Dar-te-ei um boi!
—Está bem!
Narradoras:
Teresinha Silvina e Josefina Tyimbaya, des-cendentes de pais Ngambwe (Gambos), da
Quihita. Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Estes
dois pequenos contos, são quase inteiramente cantados, isto é, a parte que
contém as exigências do papão. As respostas, que se reduzem à enumeração de uma
série de animais, propostos à sua voracidade, são simplesmente nomeadas. Nesta
lembrança de animais, podem tomar parte todos os ouvintes que o queiram fazer.
E fácil de ver que desta forma, a narrativa pode durar uma hora e mais e
constituir um bom exercicio mnemotécnico de história natural. —(Hauenstein
menciona um exercício similar entre Bundos) 52 . O facto de o boi ser colocado
no grau mais alto na escala de valores animals e vir a ser devorado pelo
monstro em substituição de um ser humano, mostra bem a grande estima que merece
a esta gente o gado bovino.
12:
Ekihi Lyatyituka Otyihingi
Ovo vaya k'onombe. Avavasa otyi-hingi m'ondyila.
Avapunduka. Mutatu wapunduka. Mukwana wapunduka. Mutano, wok'onyima,
p'okwapunduka, ati: —Tyimphundukila - tyi, valakana! K'onombe vakondoka. Ekihi
velivasa lyatyituka omphunda. Pahe avaimbi: Epund'eli, epund'eli lya Naulumbu;
linthyile ndyipite. Lya Naulumbu!... Aliti:
—Tu! Pita! Wanthukile keya, wandimbikila kandiate. Avaimbi:
—Epund'eli, epund'eli lya Naulumbu, linthyile ndyipite! Lya Naulumbu! Aliti:
Tu! Pita! Wanthukile
keya, wandim-bikila kandiate. Akuya wokwelitukanene. Omphunda yeliilkula
ombundi. Tyino omona wati ndyilupuke, omphunda aiiki-po. Omphunda yatyituka
Ekihi. Ovakwavo vaya lumwe. Pahe Ekihi lyemupula okuti: —Upola-tyi: okuliwa
n'okunepwa? —Ati:
Hahe ndyinepwe.
Alimunepe umwe. Avatyiti um we ovana vetatu. Etyi vekula, Ekihi alikayeva.
Otyimboto atyiya k'eumbo. Atyipula okuti:
—Nehova, kweliivalukile
k'ovonyoko? Ati:
—Neivaluka... Alinyini ovimbala vyae, alinyini
ombiya n'ombwe, alinyini ovana vae. Pahe alimunyini mwene. Tyina otyimboto
tyalupuka m'eumbo, Ekihi wahonyena na lyo. Alimupula okuti:
—Wekuta-tyi? Ati:
—Onongonge. Atyihimbika
okuimba. Ndyitwala Nehova ku ina! Nehova malili ku ina! Etyi Ekihi lyetyiiva,
alikondoka okumupula:
—Wekuta-tyi-ale? Atyiti:
—Oumphuku m'omilola n'oungongololo m'omivanda.
Ati:
—Ho-ho! Oyó otyimboto.
Talei- -ko otyimboto tyok'omeva. Atyihimbika vali okuimba: Ndyitwala Nehova ku
ina! Nehova malili ku ina! Etyi tyehika k'ovoina atyilinkhilimi-kila
p'otyimbala. Ina atumu omona ati:
—Kapole otyimbala tuteleke-po. Tyin'omona etyikwata atyiti:
—Nkhilumuna nawa; pena Nehova. Alupuka umwe omonà, ati:
—Ove, Me, pana p'otyimbala pen'ou uivala: Nkhliumuna nawa;
pena Nehova!!! Atumu vali umwe, omukulu watyo. Etyi akwata otyimbala, otyimboto
atyiti:
—Nkhilumuna nawa: pena Nehova. Aende ku ina, ati:
—Me, p'otyimbala peivala: “Nkhilumuna nawa: pena Nehova?!!
—Uhatumbule ou Nehova wankhia. Pahe ina mwene akatuka. Tyina etyikwata, atyiti
ngo:
—Nkhilumuna nawa;
pena Nehova! Ina yatyo, etyi ankhilumuna-po, ati: Otyimboto tyilinga-tyi
p'otyimbala tyange? Otyimboto atyiti: Muhandingei. Kom-belei-po. Etyi vakomba-po,
atyihimbika okuhomboka, atyihandya ombwe; atyihomboka vali, atyihandya ongalo,
atyihomboka vali atyihandya otyimbala, atyihomboka vali, atyihandya ombiya.
Atyihandya omona, atyihandya omukwave, atyihandya omukwavo, atyihandya ina
yatyo, pahe. Ina alolola. He ati:
—Pahe mofetwa-tyi? Atyiti:
—Nthwalei k'enyana k'ovana vange. Etyi vetyitwala-ko, pahe
atyiti:
—Yalelei, ovana va tylmboto. Pahe aveho vayalela: Hã-hã!
Hãhã!..
12: O
Monstro transformado Em Cepo
Elas vão aos frutos da berquémia. E encontraram um cepo no
meio do caminho. E tropeçaram nele. Tropeçou a terceira. Tropeçou a quarta. A
quinta, que ia atrás, ao tropeçar exclama:
—Porque me fazes tropeçar, ó ferido “in pudendis?. E à fruta
já não foram mais. Mas vieram encontrar o monstro transformado em monte. Então
põem-se a cantar: Este monte, este monte de Naulumbu, que me deixe caminho para
eu passar. O de Naulumbu! E ele responde: Apre! Vai-te! Querm me insultou não
chega. Quern me disse insolências não me calca. E elas cantam:
—Este monte, este monte de Nau-lumbu, que me deixe caminho
para eu passar. O de Naulumbu! E ele responde: Apre! Vai-te! Quem me insultou
não se chega, quem me disse insolência não me calca. Chega então a que o havia
injuriado. O monte abriu-se formando entrada. Na altura em que a rapariga ia
para sair, o monte fechou-se. E o monte transformado em monstro. As outras
foram-se embora. Pergunta-lhe então o mostrengo:
—Que escolhes: ser devorada ou casar. E ela diz:
—E melhor casar. E tomou-a mesmo por mulher. Até que chegaram
a ter três filhos. Já crescidos estes, o mostrengo vai àc aça. Um dia vem um
sapo e entra em casa. E interroga assim àrapariga:
—Nehova, tu não tens saudades da tua mãe? Diz ela: Tenho
saudades... E o Sapo engole as suas cestas, e engole a panela e o cesto, e
engole os seus filhos. Por último, engole-a a ela também. Uma vez fora de casa,
o Sapo encontrou-se com o monstro. E este per-guntou-lhe:
—Porque tens tu a barriga tão cheia? Responde o Sapo:
—São caracóis. E o Sapo, pega a cantar: Eu levo Nehova a
sua mãe! Nehova está a chorar por sua mãe! Tendo o monstro ouvido isto, voltou
atrás e pergunta-lhe:
—Afinal porque tens tu a barriga tão cheia? E ele responde:
—Uns ratinhos nos córregos e, umas centopeias nos caminhos
do gado. E o monstro: Há-ha! É isso sapo: Vinde ver o sapo da água. Este
recomeça o seu cantar: Eu levo Nehova a sua mãe! Nehova está a chorar por sua
mãe. Chegado ele à familia da rapariga, foi-se meter debaixo de uma cesta
em-borcada. A mãe mandou uma das filhas dizendo
—Vai buscar a cesta para cozinharmos. —Pega a pequena na
cesta e o Sapo exclama:
—Descobre com jeito: está aqui Nehova. E a rapariga fugiu
cá para fora bradando:
—Ó Mãe, ali para o pé da cesta há alguém que está a dizer
assim: “Descobre com jeito: está aqui Nehova!!! A mãe mandou uma outra, a mais
velha. Logo que esta pegou na cesta diz o Sapo: —Descobre com jeito: está aqui
Nehova. Vai ela ter com a mãe e diz:
—Ó Mãe, ao pé da cesta ouve-se dizer assim: “Descobre com
jeito: está aqui Nehova?!!!
—Não a nomeies, a Nehova que faleceu. Levanta-se então a
própria mãe. Assim que lhe pegou, volta o Sapo:
—Descobre com jeito: está aqui Nehova! A mãe, ao virar a
cesta, exclamou: Que faz aqui o Sapo junto àminha cesta? Responde o Sapo: Não
me façais mal. Varrei-me um largozinho de terreiro. Acabaram de varrer e ele
começou a saltitar, vomitando o cesto, Voltou aos seus pulos e vomitou a
peneira; tornou a pinchar e vomitou a cesta, deu mais salto e vomitou a panela.
Vomitou depois uma criança, a seguir foi outra e ainda mais outra, vomitando
por a pró-pria mãe. A mãe de Nehova prorrompeu em gritos de alegria. Exclama o
pai:
—Que é que vais receber agora em pagamento? E o Sapo
respondeu:
—Levai-me para ório, para os meus filhos. Uma vez que o
levaram, exclama então: —Gritai de alegria, filhos do Sapo. E todos pegaram
então a goelar:
—Hã-hã Hã-hã!...
Narradora:
Maria Rosa, casada, de 49 anos de idade, filha de pais Ngambwe (Gambo).
Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Ocorre nesta
narrativa pela primeira vez o apelido de Nehova. E o nome feminino mais comum
em todas as tribos, tanto no grupo étnico Nhyneka-Humbe como nas do Ambo.
Etimològicamente o vocábulo deriva da raiz verbal —hova —com o significado:
castrar. O sentido exacto deste antropónimo é pois: a (fulana) do boi castrado.
Mas é bem de ver que o que evoca tal nome no espírito desta gente não é a
operação, mas o seu resultado ou seja um nédio exemplar deste animal doméstico.
E frequente nestas narrativas um monstro dar a escolher a uma rapariga entre
ser devorada ou casar com ele. Aqui temos um exemplo dum destes matrimónios
forçados. Muito mais raro éos contos referirem o facto de terem nascido filhos
de tal miscegenação. Mas mesmo neste caso, que supõe anos de coabitação, a
mulher consegue sempre libertar-se e levar os filhos para a sua parentela
humana. (Ver caso semelhante: Héli Chatelain)
13:
Ekihi N'Oty:tumpwa
Ekihi ankho lienda-enda, elivasa n'otyitumpwa, m'ofika.
Aliti okuti:
—N'okunepwa
n'okuliwa upolapo-tyi? Ati:
—Ndyipola-po okunepwa. Aliti: En! Nekunepa. Ati:
—Tyu! Avapumphama
p'ohi 1. Aliti:
—Nthwinye-po-vo
onona. Alilangala-po p'ovikalo vyae. Otyi-tumphwa otyo atwinya. Atyiti:
—Ankho nania entholo
etutu —tu! —Oti, upahi; Ankho nania entholo enene —tou! —oti ulele.
Ekihi alini enthoio
aliti: tu! Otyi-tumphwa atyiti:
Upahi. Alini vali pahe entholo enene, aliti: tou!
Otyitumphwa ati:
Walala... Emuyombolola k'ovikalo vyae. Onohuki mbekihi
ankho ononde, embupandapanda, embupanda-panda, okupandapanda ovipanda, embuitaikila
m'ovifwo p'onthele n'apa vekahi. Elilangeka p'ohi. Lina Ekihi ankho
lin'okañgoma. Otyitumphwa apola-po okañgoma, aende na ko. Ekihi otyo lilele.
Alilala... Alilala... Alilala... Etyi lyapahuka, aliti:
—Mukwendye, nthyile!
Mukwendye ndyeke! En?... Ndyikulya... Etyi lyatumphuluka n'ononyengo, onohuki
ambukakuka n'otyikova k'omutwe. Alipapana ohonde. Alikafimbula m'ondyila omphai
yotyitumphwa. Aliimbi: Mukwe, hotwala okañgoma! Mukwe, hotwala okañgoma!
Komaklhi... okañgoma. Otyitumphwa otyo aya, na e aimbi: Hono ndyitwala! Hono
ndyitwala, k'okamona kange keli m'onongongo! Ekihi aliimbi ñgo: Mukwe, hotwala
okangoma! etc., etc., etc. Otyitumphwa na e aimbi: Hono ndyitwala, etc., etc.
Ekihi otyo lienda, lilandula-ko. Otyo liimba ñgo. Otyitumphwa avasa otyimboto.
Otyimboto atyiti:
—Otyityi? Ati: Ekihi lihanda okundia! Otyimboto atyiti:
—Eta . Atyimunyini,
atyinyini vali okañgoma. Ekihi lyeya. Otyo liimba ñgo: Mukwe, hotwala okañgoma,
etc., etc., etc. Otyitumphwa kaimbi vali. Uli m'eimo lyotyimboto. Ekihi etyi
lyeya umwe aliti:
—Tyimboto wekuta-tyi? Otyimboto atyiimbi: Nakalile - lile
oungonge m'omilola, n'oungongolo m'omataka. Aliti:
—Hó-o! Talei otyimboto! Waimba mona womphange!. Otyimboto,
atyiende n'ok'eumbo lyotyitumphwa. Etyi tyati “p'otyinthali?; omukai Oyou.
(Omukai wavahiwa p'ondye). Omukai ati:
—Tala Otyimboto. Omulume ati: —tyili peli? Omukai ati:
otyotyo; Mandyityiipaa! Omulume ati:
—Uhetyiipae! Ngwe
atyiti:
—Kombei-po.
Atyihandye okañgoma, atyihandye vali otyitumphwa tyatyo. Pahe ovoina avati:
—E! Oyou omona wetu wokwavombele! ... Lyepei, mona wange!
Lyepei! Ovohe vatyo avati:
—Pahe Otyimboto etyi
matyipewa-tyi? Tutyiavele onongombe. Otyimboto atyiti:
—Ame onongombe ndyitupu
oku ndyitwala. Mphei vala omeva p'otyikola ndyiyoe, andyiende.
Avekeavela omeva p'otyikola... yoe... yoe... yoe... atyiende.
13: O
Monstro E A Moca casadoira
Andava um monstro em seu passeio e encontrou no mato uma
moça casadoira. Disse ele assim:
—Entre casar e seres devorada que escolhes tu? E ela:
—Escolho casar. E
ele então: Está bem! És minha mulher. E ela:
—Obrigada! E constituiram lar. Diz-lhe ela assim:
—Cata-me os piolhos. E deitou-se-lhe sobre as pernas
(estando ela sentada). A moça ia catando. Ele fala-lhe dizendo:
—Se eu der uma ventosidade pequena, —traque! —Sabes que
estou acordado. Se der uma ventosidade grande —pum! —sabes que estou a dormir.
E o monstro largou uma ventosidade: traque: Vai a moça e diz: Ele está
acordado. E largou depois outra ventosidade grande, fazendo: pum! Então diz a
moça:
—Ele pegou no
sono!... E afastou-o com jeito de suas pernas. Os cabelos do monstro eram
compridos e ela torceu os e retorceu-os, torceuos e retorceu-os, fazendo deles
tranviliças, e amarou-os na ramagem do lugar onde se encontravam. E a ele
deixou no chão. O tal monstro possuía uma pequena caixa de batuque. A moça
tirou esse pequeno batuque e foi-se embora com ele. O
monstro continuava a dormir. E dormiu... e dormiu... e dormiu... Quando por fim
acordou, começa ele:
—Ó rapaz, deixa-me!
Ó rapaz, larga-me! Ai, ele é isso? Eu como-te!... Como se tivesse levantado com
raiva, os cabelos despegaram-se da cabeça junto com a pele. O sangue começou a
correr. Foi de seguida a farejar pelo caminho o rasto da moça. Cantava assim:
Olá, ó tu, não leves o batuquezinho! Olá, ó tu, não leves o batuquezinho!...
que édos monstros... o batuquezinho. Mas a moça andava sempre e cantava também:
Desta feita eu levo... desta feita eu levo... para o meu filhinho, que está
além nos outeiros! O monstro continua a cantar: Olá, ó tu, não leves o
batuquezinho!... E a rapariga prossegue também na sua cantiga: Desta feita eu
levo... Mas o monstro não pára, não deixa de persegui-la. E continua a cantar.
Entretanto a moça encontra um Sapo. E diz o Sapo:
—Que há? Responde ela: E um monstro que me quer comer!
Replica o Sapo:
—Anda cá que eu engulo-te. E engoliu-a e engoliu ao depois
o pequeno batuque. Surge então o monstro, que continua com a sua cantiga: Olá,
tu, não leves o batuquezinho... A moça deixou de cantar. Está metida na barriga
do Sapo. Assim que o monstro chegou mesmo ao pé, observa:
—Ó Sapo, com que tens tu a barriga cheia? E o Sapo
respondeu cantando: Fui comer caracoizinhos aos córregos e pequenas centopeias
às baixas marginais. Exclama o monstro:
—Há-há! Vede este Sapo!... Cantaste muito bem, meu
sobrinho!... E o Sapo lá se foi até casa da moça. Tendo chegado ao “quintal?
surge-lhe uma mulher. (Uma mulher que foi encontrada cá fora). Diz a mulher
assim:
—Olha um Sapo. Replica o homem:
—onde está ele? Torna a mulher:
—Está acolá. Vou matá-lo. E o homem, por sua vez:
—Não o mates! Fala
entã o Sapo e diz:
—Varrei-me um terreiro. E vomitou o pequeno batuque, para
bolçar a seguir a própria moça. Grita então a mãe:
—Ah! Cá está ela, a nossa filha que se perdera!... Benvinda
sejas, minha filha. Benvinda sejas! Ajunta então o pai:
—E o Sapo? Que é que ele vai receber? Dêmos-lhe bois.
Resposta do Sapo: Eu, bois, nada vou fazer com eles. Dai-me só água num pedaço
de cabaça para eu nadar e ir-me embora. Deram-lhe então água num pedaço de
cabaça... e ele nadou... nadou... nadou ... e foi-se embora.
Narradora:
Justina, casada, de 37 anos de idade, filha de pais Ngambwe (Gambos). Gravação:
Missão da Quihita, Julho de 1963.
14:
Ekihi N'omukai
Veli m'otyilongo, aveho vevali vala. Otyilongo atyiho
tyapwa okuliwa. Pahe muhuka okuti n'omukai watyo n'ekihi lyatyo, n'onongombe
mbomukai watyo ó. Pahe ekihi etyi lyaliwa n'ondyala, aliya k'omukai aliti:
—Mukai, yumbaila ondila! yumbaila ondila! Ati:
—Ame nahatiwa: yumbaila ondila, yumbaila ondila! Ovimbisi
ndyinavyo ovya Tyikomba-tya- -Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata!
Nayumbaila ondila! We! Aliende. Muhuka etyi kwatya aliya vali.
—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila!
—Ame nahatiwa:
yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ovifufwa ndyinavyo ovya Tyokomba-tya-Ngonga.
Kwata! Nayumbaila ondila! We! Muhuka, tye, allya
vali, aliti:
—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila!
—Ame, nahatiwa:
Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ononkhombo ndyinambo omba
Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila!
We! Ekihi aliende. Muhuka, etyi kwa-tya, aliya vali. Aliti:
—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila andila! Ati:
—Ame, nahatiwa yumbaila ondila, yumbaila ondila! Onongi
ndyinambo omba Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata!
Nayumbaila ondila! We! Alikalala. Muhuka aliya vali, aliti:
—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ati:
—Ame nahatiwa: Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onongombe
ndyinambo omba Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata!
Nayumbaila ondila! We! Ekihi aliende. Pahe pahupa vala onthwei ike n'omukai.
Etyi lyeya aliti:
—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ati:
—Ame nahatiwa yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onthwei ei
ndyinayo oya Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata!
Nayumbaila ondila! We! Ekihi “para? likwate onthwei yatyo oyo, kamalivete - ko,
m'“okonta? etyi onthwei in'onombinga, ihanda okulitoma. Pahe lihanda okulya
omukai watyo ó. Omukai ati:
—Ame nahatiwa: Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onthwei ei
ndyinayo oya Tyikombatya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata!
Nayumbaila ondila! We! Tyina Ekihi liti ñgo: ndyiutukile onthwei —onthwei
alitomo, Ekihi alinkhi. Omukai óavakwata pahe okuyuva Ekihi olyo. Omulume
watyo, ankho utiwa Tyikomba tya Ngonga, wavahiwa m'eyo lyok'onthele-nthele oko.
Iya, ovanthu aveho, etyi valupuka-mo m'elmo lyeklhi olyo, n'onongombe mbatyo,
n'ovanthu vatyo aveho avalupukamo. Omukai watyo alingi umwe Onkhaihamba. Kwapwa.
14: O
Monstro E A Mulher
São eles que habitam certa terra, só eles os dois. Toda a
gente acabou por ser devorada. Um dia pela manhã só há a tal mulher e o monstro
em questão, mais o gado dessa mulher. Ora, o monstro como estivesse cheio de
fome, vem ter com a mulher e diz-lhe (cantando):
—Mulher, paga passagem! Paga passagem! E ela: A mim não se
diz: Paga passagem! Paga passagem! Os gatos que eu possuo são de
Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei
passagem! Olé! E foi-se. No outro dia pela manhã, voltou.
—Mulher paga passagem, paga passagem!
—A mim não se diz: Paga passagem! Paga passagem! As
galinhas que tenho são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé!
Agarra! Já paguei passagem! Olé! No dia seguinte de manhã vem outra vez e diz:
—Mulher, paga passagem! Paga passagem!
—A mim não se diz: Paga passagem! Paga passagem! Os
cabritos que te-tya-Ononkhombo não são
de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé Agarra! Já paguei
passagem! Olé E o monstro afastou-se. No outro dia, pela manhã lá está ele
outra vez. E diz:
—Mulher, paga passagem! Paga passagem! Responde ela: Não se
me diz: a mim: Paga passagem! Paga passagem! As ovelhas que possuo, são de
Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei
passagem! Olé! E o monstro foi dormir. Volta ele no dia seguinte e diz:
—Mulher paga
pasagem! paga passagem! E ela: Não se me diz: Paga passagem! Paga passagem! Os
bois que tenho, são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Agarra!
Já paguei passagem! E o monstro foi embora. Só restam, agora, um único touro e
a mulher. E o monstro volta e diz: —Mulher, paga passagem! Paga passagem!
Replica ela: Não se me diz: Paga passagem! Paga passagem! O touro, que tenho é de
Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei
passagem! Olé! O monstro para agarrar esse dito touro não consegue, pela razão
de que o touro tem chifres e quer escorná-lo. Ele quer então devorar a mulher
em questão. Mas diz a mulher.
—A mim não se diz paga passagem! Paga passagem! Este touro
que possuo é de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra!
Já paguei passagem! Olé! Ao vir outra vez o monstro; com o gesto de vamos ao
touro! —Este cravou-lhe os chifres e o monstro morreu. E a mulher deita-se
então a esfolar aquele monstro. O homem dela, que se chamava Tyikomba tya
Ngonga, foi encontrado num dos últimos dentes da queixada. Pois toda aquela
gente, ao sair do ventre do referido monstro, com os bois que lá havia... e
sairam todas as pessoas que lá estavam. Pois a mulher da história foi quem se
tornou mesmo a rainha. Acabou!
Narradora:
Rufina Susana; casada, de 19 anos de idade, neta de Ngambwe (Gambos). Gravação:
Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Nesta série de narrativas,
temos aqui o primeiro exemplo do facto de as vitimas devoradas por um monstro,
ficarem libertadas, graças a uma intervenção cirúrgica que se apresenta como a
coisa mais simples e natural deste mundo. Não parece poder falar-se em
ressurreição destes seres, pois a narrativa dá a entender que mesmo aqueles que
foram tragados há dias ou meses, não perderam a vida. Por outro lado há casos
em que o papão se queixa de uma digestão dificil depois de uma refeição
canibalesca. Seja como for da falta de lógica nestes acidentes fortemente
fantasiados, a recuperação de uma vida normal das vítimas por meio de uma
operação, constitui o “Happy end? da maioria das narrativas de monstros
publicadas neste volume.
15:
Ekihi Na Nehova
Opopo umwe. Omakihi aavasa omukai un'omona. Aemuvake omona
wae. Avahamali. Avemupaka vala opo. Okamboto okuya, akavasa omona ulila. Akati:
—Ulila-tyi? Ati:
—Ndyihanda k'oMe. Omakihi ahanda okundia-po. Okamboto
akati;
—Endyu kuno ndyikunyine-po, ndyikutwala k'onyoko. Okamboto
akanyini omona. Akaimbila p'onthele yomakihi. Ati: Ndyitwala Nehova k'ovoina,
Nehova malili otyiivaluko P'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá!
Tililililá! —Okamboto kati-wi, aka? Akati:
—Natyike naimba. —Hé! Ine wavaka-po omona wetu? —Au!
(Okamboto akakwata ñgo k'okuimba). Ndyitwala Nehova k'ovoina, Nehova malili
okaivaluko P'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! Au!
Ekihi alikwata Okamboto. Aliti: —Mandyikuipaa. Wavaka-po omona wange! Ati:
—He!... Ngetyi mamundyipaa... nkhwatei umwe, amunthyindi,
amundyumbu umwe k'ombanda yomeva. Ankho mwandyumba andyitikuka umwe ongali...
ñga... m'eimo... Opo nankhya umwe. Ankho mundyumba apa, p'onthan-thalahi apa,
himankhi, k'enyana lyeyula umwe! Ekihi alityindi otyimboto okumu-twala
k'enyana. Etyi Ekihi avasa umwe enyana, alilitila umwe: —Too... pa umwe!
—otyimboto atyitlkuka umwe. Ekihi aliutuka umwe likakwate. Una Otyimboto
apinunuka umwe, akayoa, akayauka. I'Ekihi alii n'omeva. Ekwavo alilandula-ko.
Kalityivili okuyoa. Una Tyimboto, ayauka umwe himba lina, Tyimboto, etyi ehika
kuna, wehi-kila ñgo okuimba: Naeta Nehova k'ovoina. Nehova malili otyiivaluko.
K'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! Omukai watyo,
ina a Nehova, apolo okatemo, ati:
—Okamboto kandalula aka! A! Man-dyiketyoko! Katumbula omona
wange wankhya? Akahomboka-po okamboto pu ou uhanda okuketyoka n'etemo, Ina a
Nenova. Naeta Nehova k'ovoina Nehova malili okaivaluko k'onthele k'omapya,
k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! —Ho! Mandyikaihana ovanthu!...
—Onwe, endywei mukanthehelese otyimboto tyikahi n'okundalula!... Tyi-tumbaula
omona wange wokwankhy'ale, wokuhamoneka. Ava aveho umwe om'okuya. Naeta Nehova
k'ovoina Nehova malili okaivaluko Nehova malili okaivaluko Tililililá!
Tililililá! Tililililá! —Ehe! Mukwe! Okamboto uhekei-pae. Kana ekemutila
umwe... tiaku! Tyina vati ñgo ñgana... Hamona wae umwe? Nehova? Havahapakulila
Tyimboto onongombe ononyingi-nyingi okumufeta? Una ati
—Aha! Ame ndyitupu-ale oku ndy-imbutwala. N'okulya ame
ndyitupu-ale eimo enene. Mandyiende. Nemuetela vala omona wenyi... Hakaluñgano
Kange? Helengete!... Ha mu ove?
15: O
Monstro E Nehova
E desses mesmos que se trata. São monstros e encontraram
uma mulher e sua filha. E roubaram-lhe a criança. Mas não a comem. Guardam-na
simplesmente. Vem um Sapo e encontra a criança a chorar. Pergunta:
—Porque choras?
Responde ela: Quero ir para minha mãe. Os monstros querem comer-me. Diz então o
Sapo:
—Anda cá, que eu engulo-te e levo-te a casa de tua mãe. E o
Sapo engoliu a criança. E foi-se a cantar passando pelos monstros. Levo Nehova
para casa de sua mãe. Nehova que chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às
casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá!
—Que é que diz este sapozito? Responde ele:
—Não, eu não cantei nada. —Oh! Não terás tu roubado a nossa
miúda? —Não! (E o Sapo pega outra vez a cantar). Levo Nehova para casa de sua
mãe. Nehova que chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às casas.
Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! Pois sim! Pegou um monstro no sapo e disse:
—Vou-te matar. Roubaste a minha miúda! Diz ele:
—Ai sim?... Já que me ides matar... agarrai-me bem e
levaime e ide atirar-me à água. Se me atirardes e eu me virar de costas...
assim... a mostrar a barriga... Se for assim, então eu morri. Se me atirardes
aqui, num largo desguarnecido, não morro... Tem de ser em rio bem cheio!... E o
monstro carregou com o Sapo e levou-o até ao rio. Assim que o monstro chegou
mesmo ao rio, jogou o Sapo com força —Cachapum! —o Sapo virou-se realmente. E o
monstro lançou-se à água a agarrá-lo. O Sapo, esse, virou- - se do outro lado,
nadou e atravessou o rio. Então o monstro afogou-se. Seguiu-se mais um mas não
sabia nadar. O Sapo, esse, atravessou o rio para o outro lado. Ao chegar o Sapo
onde ia, apareceu ainda a cantar: Trago Nehova a casa de sua mãe. Nehova que
chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé!
Olarilolá! A mulher que ouvia, a mãe de Nehova, pegou numa pequena enxada e
disse: Este sapozito magoa-me com o que diz! Está a pronunciar a minha filha
defunta?!... E o sapozito saltou de ao pé daquela que o queria cortar à enxada,
a mãe de Nehova. Trago Nehova a casa de sua mãe. Nehova que chora com uma
“saudade-zinha?. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé!
Olarilolá! —Oh! Eu vou chamar gente!... —Vinde cá vós “vinde-me ouvir? um sapo
a dizer-me palavras que me magoam!... Está a pronunciar a minha filha que
morreu, aquela que desapa-receu! E toda aquela gente se aproximou. Trago Nehova
a casa de sua mãe. Nehova que chora com saudades. Ao pé dos campos e junto às
casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! —Não, não! Olha cá! Não mates o
sapozito. E ele abriu-se mesmo... Zás! Ao deitaram os olhos, a ver... não é afinal
a filha dela que está ali? Não é ela a Nehova? E não ofereceram logo eles ao
Sapo muitas cabeças de gado para lhe pagar? Mas ele disse:
—Não, não! Eu nada vou fazer com esses bois. E quanto a
comer, eu não tenho grande barriga para tal. Vou-me embora. Eu só vos trouxe a
vossa filha... E não é esta a minha historiazinha? Escapuliu-se!... Tens tu a
palavra, não é assim?
Dados
biogrãficos e outros como no n° 3. Este conto é uma variante do nº 13.
16:
Ina a Mundyongo N'Ekihi
Kumbi limwe, ondyala
yeya. Ai k'Ekihi ati:
—Ndise-po ongele, p'ovana vove apa, limwe ndyilye. Apa
otyihipo tyiti tiaku oya ondi. Ekihi aliti:
—E?... Otyili? Ati: —E! — Otyili? — E! — Otyili? — E! Otyo
emupula tutatu, ati:
—Koya-po! Akoyo-po limwe enene lyatyo p'oma-kwavo. Aende.
Akaipaa. Ohitu yatyo ati umwe: ei imwe ulya, ei unyungula. Apange-mo umwe
n'okulya ohitu oyo yononyungu “te? m'ohanyi ya Pepo Linene. Etyi ovilya vyapya
eiyumbu-hi, ati: —Mpho! Aneheili vali ohitu yenthu ng'ame-vo! Ateya - teya
ovilya vyae, atyopa-tyopa. Pahe ati:
—Ndyilinge liwa ovilya
vyange, ndyiende. Kun'ongele yekihi. Hamwe liya lindia. Keimanene-ale k'omuhabo... Ekihi uliiva.
Liivala okuimba, aliti: Ame ndandaula Ina a Mundyongo. Nkhele alile omona wange
p'ondyala. Ati: “Otyhipo nga tyati tiaku, oya ondi, oya ondi. Ati:
—Hee! Lyeya! Ndyilinga ñgeli pahe? Ndyiliwa ine ndyienda
nkholo? Ati:
—Ndyienda nkholo! Omwenyo kaulipolwa. Hamwe Ndyikahupa.
Akahateka, akahateka, akahateka... anyingila m'enkhondo. Tyifa ati ñgana...
olyeli, lyeya. Alupuka-mo. Akahateka, akahateka... Avasa —ovakai veli
p'otyipale, vatwa ovilya, ati: —Vakai vakwetu, mphopilei-vo! Avati: —Otyityi?
Ati:
—Ekihi lihanda okundia. Ngwe liya. Aliti: Ndyilandaula
Ina-a-Mundyongo, Walile omona wange p'ondyala. Ati: “Apa otyihipo tyiti tiaku
oya ondi?; Ovakai avati:
—Ehe! Tukatukile
m'eumbo! Akahateka, akahateka... anyingila vali m'eumbo limwe. Avemupulu:
—Mukai utila-tyi? Ati:
—Ekihi lihanda okundia! Ekihi, ngwe liya, aliti:
Ndyilandaula Ina-a-Mundyongo. Walile omona wange p'ondyala. Ati. “Apa otyihipo
tyiti tiaku oya ondi?. —Ondaka oyove, mukai! Ati: He!... Mu ndyala...
k'enyama?... Akalinguluka okukahateka tupu. Akahateka, akahateka... Akanyingila
m'eumbo lyonkhulungu. Etyi eya, onkhulungu ati:
—Otyityi? Ati: Ndyipopilwa-vo! Enyama lihanda okundia!...
Ati: Mukai, pumphama p'ohi, tutul'ale. Muno weya om'eumbo lya himi yenyi. Ngwe
kuna Ekihi lyatyo, kuna liya umwe. Onkhulungu ati:
—Lyepei! Aliti: Tyu! Ati:
—Tangei-mo! Ati:
—Aha! Ndyilandula
Ina-a-Mundyongo. Walile omona wange p'ondyala, ati: “Apa otyihipo tyiti tiaku,
oya ondi?. Ati:
—Otyili wemuvasa. Pahe ulya omukai, utulila kumwe n'ame na
e. Pahe pano, oumbulunga pano kwavahile-po; okambulunga katyo omlyeveyo. Ekihi
aliti:
—E! Onkhulungu apolo omakala okwanyima elipe, elipe.
elipe... Alinyini. Alipake apa lipakaila. Apolo omakala okun'otupya, eliavela.
Alinyini. Alipake apa lipakaila. Eliavela ondyundo anthila nayo. Alinyini.
Alipake apa lipakaila. Eliavela okamuyeveyo katyo. Alinyini. Alipake apa
lipakaila. Pahe Onkhulungu elipopila, ati:
—Pahe, tyina walya omukai ou, ovandeka ku ame, uhatalame
vali. Enda umwe. Otyo uenda n'okupopya okuti; “Hono nevelya! Hono nevelyai!?. Ekihi
aliti:
—E! Etyi lyamana okuvenyina, alimoneka umwe okuenda, otyo
lienda n'okupopya okuti:
—Hono nevelya! Hono nevelya! Tyino litehela m'eimo
mamuihama. Naina ovanthu ovo anyina-nyina vataindya onomphangu. Pahe aliti:
—Hum-hum!... Otyityi etyi nalya matyindyiihama m'eimo?
Ovanthu ava nalya vataindya onmphangu? Alinkhi ohunga, aliti:
—Ndyienda n'ok'onthene —ngongo namwene-mwene omeva.
Aliende, aliende... Etyi lyeya, onyombo in'omeva; aliti:
—Omukulu katatame nyombo. Ndyikataindya okakola. Tyina akataindya
okakola p'ononienge, tyino eya okutala m'onyombo... onyombo yakukuta.
Atundu-po, ati:
—Ndyiende vali k'onthenangongo yok'onGandi namwenemwene
omeva. Aende, aende, aende... Tyino eya wavasa omeva omu ekahi. Ataindya
okakola, apolo-mo omeva, ati:
—Omukulu kanu vala eheliputyile m'omulungu. Aliti umwe:
putyu, putyu, putyu... m'omulungu. Tyino alinthila kuna, tyino ñgo atala
m'onyombo... omeva akukuta. Ati:
—Ndyiende k'onthena-ngongo imwe namwene tupu omeva. Alyende.
Ou Onkhulungu uli m'eimo, otyo ayeveya. Una wapaka-paka nawa ovipuka vyae,
uhimbika okuyeveya. Iya pahe, etyi ati p'okati p'okuenda k'onthena-ngongo
onkhwavo, omuhi upitila m'omayulu... n'omutemo... n'om'omulungu. Au! Etyi lyati
umwe p'okati, kalyehikile-ko vali. Alinkhi. Ou Onkhulungu, m'eimo, amoneka
okupola omutunga, ati lumwe: Laaa!... k'omuongo! Avalupuka umwe otyikumba
tyimwe otyinene. Ongombe: —Mbooo!... Otyikombo: —Meee!... Ongi: —Beee!...
Ofufwa: —Kirikiki!... Omunthimba: —Mondiate p'onkhopa!... Omwali (olukembe):
—Hiñgaaa!... Avatungu umwe epunda-umbo lyavo, opo umwe, limwe enene.
Ina-a-Mundyongo alingi umwe Tembo yotyilongo. Ou Onkhulungu alingi Mwene
wotyilongo. Otyo vati: Tyino wakatantha ongele yove, kuende, awike. Muenda
vevali, hamwe vetatu. Kuna vekihi na Ina-a Mundyongo. Avemuvandeka ena lyae.
Kwapwa!
16: A
Mae De Mundyongo E O Monstro
Aconteceu uma vez que grassava a fome. Foi uma mulher ter
com um monstro e disse:
—Concede-me a crédito, de entre estes teus filhos, um
deles, para eu comer. Quando a fartura chegar, tu vens e comes-me. Diz o
monstro:
—O qué? E verdade? Diz ela: Sim! — E verdade? — Sim! — E
verdade? — Sim! Assim a interrogou por três vezes e acrescentou:
—Tira láa um. E ela tirou um, o maior de entre todos. E
foi-se embora. Foi matar. Com a carne procedeu assim: uma parte comeu-a e da
restante fez tiras. Ficou-se assim a comer aquela carne de tiras suas, atá à lua
de Pepo Linene (Abril). Amadurecido o cereal deitou fora a carne, dizendo:
—Catixa! Eu não como mais carne de um pedaço de gente como
eu! Foi colhendo o seu cereal e foi-o debulhando. Disse então consigo:
—Deixa-me fazer depressa a co-lheita, para me ir embora. Há
aquela divida ao monstro. E capaz de vir comer-me. Palavras não eram ditas... e
ela ouve o monstro. Ouve-se a cantar assim: Eu vou atràs de Ina-a-Munryongo. Já
lá vai tempo que comeu o meu filho pela fome. E disse: Quando a fartura se
espalhar na terra, tu vens e comes-me. E ela: Oh! Lá está ele! Como vou fazer
eu agora? Vou ser comida ou vou fugir? E conclui:
—Vou fugir! A vida não se entrega. Talvez venha a escapar.
E pega a correr, a correr, a correr... e mete-se num silvado. Ao lançar o olhar
de certo jeito... ei-lo que veio. E ela sai dali. A correr, a correr...
Encontra umas mulheres na eira, na moagem do cereal, e diz-lhes:
—O mulheres companheiras, ajudai-me! E responderam elas:
—Que há? Diz ela: E um monstro que quer devorar-me. Mas o
monstro chega e diz: Eu vou atrás de Ina-a-Mundyongo, que comeu o meu filho
pela fome. E disse: “Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e
comes-me?. Objectam as mulheres:
—Nada. nada!
“Sai-nos daqui de casa?. E ela pegou a correr, a correr... e foi meter-se numa
outra casa. Ali lhe perguntam:
—O mulher, de que
tens tu medo? Diz ela:
—E um monstro que quer devorar-me! E o monstro chega e diz:
Eu vou atrás de Ina-a-Mundyongo. Que comeu o meu filho pela fome. E disse:
“Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e comes-me?.
—O mulher, isso élá contigo! E ela: Ora!... Perdida na
fome... entregue agora a uma fera?... Vira-se num repelão e pega outra vez a
correr. A correr, a correr... indo entrar na casa de um ferreiro. Chegada ali,
diz o ferreiro.
—O que há? Resposta
dela:
—Preciso de ajuda! Uma fera que me quer devorar!... E ele:
—O mulher, senta-te aí, fica connosco. Aqui onde entraste
éem casa de teu tio materno. E o monstro lá vem, ele mesmo acolá. Diz-lhe o
ferreiro:
—Sê benvindo! E o
monstro: Obrigado! E o ferreiro:
—Diz ao que vens! Começa ele: —Não é nada! Ando atrás de
Ina-a-Mundyongo. Devorou-me o filho pela fome, dizendo: “Quando a fartura se
espalhar na terra, tu vens e comes-me?. E o ferreiro:
—E verdade que a encontraste. Agora comes esta mulher e
come-nos a nós junto com ela. Nesta altura em que vieste, não encontraste
cervejinha; a cervejinha éesta: os foles. Responde o monstro:
—Está bem! Pega o ferreiro em carvões apaga dos e deu-lhe,
deu-lhe, deu-lhe... E o monstro engoliu. E lá os meteu onde costumava. E tomou
brasas acesas e deu-lhas. E engoliu-as. E meteu-as onde costumava. E deu-lhe o
martelo com que batia o ferro. E ele engoliu. O monstro carregou onde
costumava. E deu-lhe o folezito da forja. E engoliu. E meter tudo onde
costumava meter. Fala-lhe então o ferreiro e diz-lhe —Agora, tendo comido esta
mulher assim que me comeres, não permaneças aqui. Tu segues viagem. Entretanto
vais prociamando: “Sempre os comi! Sempre consegui devorá-los!? E o monstro
responde:
—Está bem! Assim que acabou de engoli-los e começou a
afastar-se, ia ele dizendo: —Sempre os comi! Sempre consegui devorá-los!
Principia a sentir dores na barriga. Afinal (no seu pensar) as pessoas que
esteve a engolir estão a acomodar-se. A certa altura diz:
—Ess'agora!... Que comi eu e me está a dar dores de
barriga? As pessoas que comi estão lá dentro a acomodar-se? Sentiu sede e
disse:
—Vou atá aquele outeiro onde várias vezes vi água.
Caminhou, caminhou... Chega, olha e... a cacimba tem água; e diz consigo: —Uma
pessoa crescida não aplica a boca directamente àágua. Vou buscar um pedaço de
cabaça. Entretanto vai buscar a cabacita ao pé duns caniços e, de volta, ao
olhar para a cacimba... a cacimba está seca. Sai dali e diz:
—É melhor ir para o outeiro “de tal parte?, onde várias
vezes vi água. Caminhou, caminhou, caminhou... Chega lá e vê que há água
dentro. Procura um pedaço de cabaça e tira água, mas diz:
—Uma pessoa crescida não bebe sem ter bochechado. E assim
precede: Bochacro, bochacro, bochacro... lá dentro da boca. Ao cuspir para acolá
e ao volver novamente os olhos para a cacimba... a água desapareceu. E vai ele:
—É melhor num tal outeiro onde também vi água. E pôs-se a caminho. O ferreiro
que está dentro da barriga, dá entretanto aos foles. Ele foi dispondo a
preceito os seus apetrechos e agora dá aos foles. Pois então o monstro, a meio
caminho, na ida para o outro outeira, sai-lhe fumo pelas narinas... e a
labareda... até pela boca. Nada! Chegou mesmo a meio da viagem, não a levou ao
fim. E morreu. O ferreiro lá dentro da barriga. vê-se a puxar por um punhal e
dá o golpe: Zás!... pelo lado das costas. E saiu de dentro uma multidão deveras
grande. O boi —Mu!... O cabrito —Mé!... A ovelha —Bé-é-bé!... A galinha
—Cá-cá-rá-cá!... A grávida: —Olha que me calcas no umbigo!... A lactante (o seu
filho): —Num-há!... E deitaram-se logo a construir a sua terra, ali mesmo, uma
grande terra. Ina-a-Mundyongo foi a esposa do dono da terra. E o ferreiro équem
foi o dono da terra. E por isso que dizem: Quando vais cobrar uma dívida, não
vais sòzinho. Ides dois, ou então três. Há-os (parecidos como caso do monstro e
da Ina-a-Mundyongo. E acrescentam-vos “o filho dele?). “E como no caso da
história: acrescentam-vos partida àdívida que não pagam?. Acabou!
Dados
biográficos e outros como no n.° 13. A primeira vista parece haver nesta
narrativa um caso de antropofagia, perpetrada pela prótagonista. Isto na
hipótese de considerar os monstros como pertencentes de pleno direito à raça
humana. Mas como a mentalidade da nossa aceita tal equiparação —pelo menos
quanto à totalidade dos predicados corporais e espirituais do ser humano —não
se pode falar aqui em canibalismo pròpriamente dito. No entanto a mulher não
ficou completamente livre de escrúpulos e passada a fome daixou de comer
daquelas tiras de carne seca proveniente dum filho do monstro. E sumamente
interessante a maneira como ela apresenta o motivo desta resoluç ão. “Não como
mais carne de um pedaço de gente como eu?. (Traduç ão do P.e Silva). No texto
bantu o modo de dizer é ainda mais expressivo: ohitu yenthu ng'ame-vo. Toda a
diferença de sentido reside na prefixação. Omu-nthu épessoa humana.
Substituindo este omu por e, quer-se exprimir uma coisa enorme ou espantosa,
fora da categoria a que devia pertencer. O facto de alguém perseguido por um
monstro se refugiar na casa de um ferreiro, éocorrência frequente nestas
narrativas. Ainda que nos pareça que no episódio transcrito se exagere bastante
o lado cómico, ébom não esquecer que tais artistas ocupam um lugar àparte,
entre os profissionais destas etnias. Com efeito o exercício desta arte exige
uma íntima colaboração com um antepassado que em vida praticava o mesmo ofício.
Impõe portanto uma iniciação espirita, conforme se explicou nos volumes da
“Etnografia?. Este conto,é um dos raros da nossa colecção a apresentar uma
conclusão em forma axiomática.
17:
Omona Wa Hautyali N'omakihi
Omukongo utiwa Hautyali avai n'omona wae okukayeva.
Okukayeva oko, okuenda vala n'ohunga m'ohika. Okunwapo p'etala lyovinyama. Nwe,
nwe... omukulu ou eimo lyafula umwe aliho. P'okukatuka, katyitavela vali. Omona
ati:
—Tate, ove etyi
wanwa ngetyi, okutatamena-po, ongo, k'eumbo lyetu, unwina vala p'olufwo
apeho. —Pahe matutyilingi ñgeli? Ati:
—Mona wange,
Katyisiliviya 119 . Tyilingwa ok'eumbo. Muno om'ohika, mutupu vali ovila. Tyino
vati vatala - ko ovinyama vyeya-ko: Onombambi, omona atyilika. Akuya
onomphundya, omona atyilika. Akuya onohoiongo 120 , omona atyilika. Akuya
onongunga, omona atyilika. Etyi kweya ondyamba, kayapulile vali, okumulyata
umwe m'eimo. Etala aliho aliyulu. Omona okumutyinda-po. Tyino ati-ko ngetyi,
omunthu ukahi n'okuya, walemana okuwoko. Ati:
—He-he! Mukwe, otyityi tupu watyinda? Ati:
—Natyinda Tate Hautyali; Ati: Hum-hum; Hautyali mukwetu!
... Hum-hum; Hautyali mukwetu! ... K'ononkhombo... Hautyali muâwetu!
K'onongombe... Hautyali mukwetu! Hum-hum! —Mukwe, omahonyi omukulu elieta
kaelitwala. —Mpholele-ko vala omahuli. Omona okupola omahuli okumupa. Ati:
Tyino waya opo, wahatie: Nahonyena n'owokuwoko kwike. Oyo kuenda! Tyino ati-ko
ñga, owotyikalo tyike.
—Mukwe, nkhele etyi watyinda tupu otyityi? Ati: Natyinda
Tate Hautyali. Ati:
Hum-hum! Hautyali
mukwetu! (ut supra). —Mpholele-ko vala okakuwoko oko. Omona okupayula. Ati:
Ankho uhonyena oko n'omunthu, wahatie nahonyena n'owotyikalo tyike. Omona
oyou... topa, topa... tyino ati ñga, oyou ulwa n'okuhomboka n'emphangoti lyae:
—Mukwe, nkhele tupu otyityi watyinda m'okati kouye? Ati:
Natyinda Tate Hautyali. Hum-hum! Hautyali mukwetu! Hum-hum! Hautyali mukwetu! K'ononkhombo...
Hautyali mukwetu! K'onongombe... Hautyali mukwetu! Hum-hum! —Mpholele-ko vala
okwoko nthele imwe. Pahe ngetyi, otyityi? Omona okumupa vali. Ati: Ankho
wakahonyena oko n'ovanthu, wahatie ame nahenyene n'owotyikalo tyike. Okuenda!
Tyino ati m'otyiteta, weiho like oyou. Ati:
—Mukwe, otyityi etyi
watyinda? Ati: Natyinda Tate Hautyali. —Humhuh... (ut supra). —Mpholele-ko
otyikalo. Omona okutyoka tupu otyikalo otyo. Ati:
Tyino wahonyena n'ovanthu, wahatie twahonyene n'oweiho
like. Omona ati:
E! Okuenda. Pahe okuhonyena n'omukwendye wavala nawa-nawa.
—Mukwe, etyi watyinda otyityi? —Natyinda Tate Hautyali.
—Hum-hum!... (ut supra). —Mpholele-ko katutu k'onthete oyo. Omona okutyoka
onthete, okupola-pola-ko vala. Pahe ekihi limutalamena, okuhanda okumulya.
Ohitu wamana. Okuyumba-hi omutwe o. Olyokukahateka. —Oku Tate... wankhya lumwe,
natyindile umwe. Ame, omakihi anthyakana. Pahe naeta vala otyimbu. Sambwilikiti
m'olutongo! Omwove.
17: O Filho Do Hautyali E Os Monstros
Um caçador chamado Hautyali que vai à caça com seu filho.
Enquanto caçam vão aguentando sede por aquele mato. Chegam a um charco em que
bebem os bichos. Beberam... e o pai sente a barriga toda a fermentar. Quer
levantar-se da sua posição curvada e não há meio. Diz o rapaz:
—O pai, porque bebeste tu assim? aplicando a boca ao
charco. quando lá em casa, só bebes sempre por um copo! —Como vamos fazer
agora? Resposta: —Meu filho, isto não tem importância. Isso era se fosse em
casa. Aqui no mato, não há mais regras proibitivas. Ao olhar em volta, eis que
a bicharada se aproxima: Vêm “bambis? e o rapaz espanta-os. Vêm “punjas? e o
rapaz corre com elas. Vêm cudos e o rapaz afugenta-os. Vêm “gungas? e o rapaz
interpõe-se. Vem então um elefante e sem mais aquela, calcou-o precisamente na
barriga. O charco encheu-se. O rapaz pegou no pai. A certa altura, surge alguém
a aproximar-se e é aleijado de um braço. Chega e diz:
—Ora esta! Ouve cá, que levas tu aí? Diz ele:
—Levo meu Pai Hautyali!... Oh! o camarada Hautyali!... No
pastoreio dos cabritos... lado a lado Hautyali! No dos bois... o companheiro
Houtyali! Oh! —Olha rapaz, lágrimas de gente crescida vêm e não vão por si
mesmas. —Dá-me daí o fígado. Ó rapaz tira o fígado e dá-Iho. E o monstro
recomenda: Indo aí por diante, não digas: Encontrei-me com um maneta. E toca a
andar. Ao relancear a vista, eis mais um de uma só perna.
—Ó moço, afinal que levas tu contigo? Resposta: Levo meu
Pai Hautyali. Diz ele: Oh! O camarada Hautyali!... (ut supra).
—Dá-me só um
braçozito. O rapaz arranjou-Iho. E então o monstro: Se encontrares alguém para
aí, não digas que estiveste com quem tem uma só perna. O moço prossegue
viagem... topa, topa... e de repente, ei-lo mais um que manqueja com o seu
bordão.
—Ouve cá, com que carregas tu por estes matos? Resposta:
Levo meu Pai Hautyali. Oh! O camarada Hautyali!... Oh! O camarada Hautyali!...
No pastoreio dos cabritos... lado a lado com Hautyali! No dos bois... o
companheiro Hautyali! Oh!
—Tira-me daí o braço do outro lado. Uma coisa assim, para
que serve? E o rapaz deu-Iho. Acrescenta o monstro: Se deparares com alguém aí
para diante, não digas: eu estive com o de uma perna só! Toca a andar! Tendo
entrado na mata fechada, aparece-Ihe um zarolho. E diz este:
—Rapaz, que levas tu? Diz ele: Levo meu Pai Hautyali.
—Oh!... (ut supra).
—Tira-me daí uma perna. E o rapaz corta-a e dá-lhe a perna
pretendida. Recomenda-lhe depols: Cruzando com alguém, não digas que esteve
contigo um zarolho. E o rapaz! Está bem! Prossegue viagem. E agora a vez de
deparar com um janota muito bem vestido.
—Olha cá, que trazes tu aí?
—Tenho comigo meu Pai Hautyali. —Oh!... (ut supra).
—Dá-me um pouco aí do peito. Pega o rapaz a cortar-lhe o
peito e a dar-lho sem mais. Mas éque o monstro põe-se-lhe diante, quer
devorá-lo. Carne já não há mais. Atira então ao chão com a cabeça. E toca a
raspar-se.—Quanto a meu Pai —diz —ele morreu realmente e com ele carreguei eu. O
caso é que os monstros mo tiraram àforça. Agora tenho só o aviso mortuário a
fazer. Açaimo em bicho voraz! É para ti.
Dados
biográficos e outros como no n° 7 Este remate de narração que vimos já no
número ora mencionado, é pouco usual. Mas a metáfora não deixa de ser muito
engraç ãda. O narrador ao terminar o recital, coloca-se na posiç ão de quem
aplica um aç ãimo ao focinho de um animal. Este; sempre na linguagem
figurativa, érepresentado por um dos ouvintes a quem élanç ãdo o repto de se
livrar da mordaçã, declamando uma narrativa do seu reportório. Da primeira
parte deste conto, existe uma narraç ão muito semelhante entre os Cuanhamas. A
tradução portuguesa foi publicada no primeiro volume da “Etno-grafia?
18:
Ekisi N'ovo Nehova
Ovana vononkhulu vakanyanga onon-kheketwa. Etyi vakanyanga
ononkheke-twa, vahanga omuyo watelwa p'onthele yondila. Muna ohandyi yakwatwamo
m'o-muyo watyo. Oyekisi. Umwe weiupa-mo, weipaka kofi yotyimbala oko takanyanga
ononkheke-twa. Okuhuma-ko-lia oko, ekisi lyatyo olyo, lyatalama m'ondila
okuvekevela. Okuya ekisi lyati:
—Ove wavaka-mo ohandyi
ei, hekula ononkheketwa! Wahekula-ko, tandimbi tati:
Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Mukwavo vali, teya
vali, tahekula:
Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Wokomima teya, ye
wafalaila, oe ukwete-ko-ila ohandyi yatyo oyo. Uti:
Hekulu! Hekulu! Taheke okatutu: Heku! Ononkheketwa! Heku!
Ononkheketwa! Uti:
Hekululu! Hekululu! Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa!
Uti vali:
Hekulu! Hekululu! Vakweni tavai! Talili tandimbi: Heku!
Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Ekisi okukati nâ... ohandyi oyei! Aliti:
Etyi wavaka-mo ohandyl ei, n'okuhombolwa n'okukal a
tovandya-tyi? Hati:
Hikahombolwa, ae
hikaliwa. Ame anikavondoka, k'eumbo. Nga navondoka, onthwe tulihange p'otyiswa
apa. Ove uye undyenge naua!
Etyi nili nâ, nahoka. Hati:
Eh! Enda. Okumupa
ohandyi yae. Okuya kuna watankhama. Ina wa-tongonona hati:
—Weya? Hati:
—Neya. Nati n'okuti,
opo anikavondoka. Opo pakala. Omunyama watimbuka. Ekisi okuya p'otyilswa-ila
opo. Neho-va kamoneka. Ekisi talindimbi, haliti:
Nehova ê! Nehova!
Nehova ê! Pana twaambele ê! Nehova, p'okaitokwe ê! Nehova, okamunyama timbwe ê!
Nehova, Nehova, Nehova ê Nehova kamoneka. Otyo talindimbi vali okuifana Nehova.
Nehova
kamoneka opo p'otyiswa apa vaambele. Talandula-ila m'ondila omu vaendele. Otyo
talitopoka, talitopoka-ila okuvan-dya mokati k'otyilongo. Alindimbi vali etyi
iyandimbile ale. Okupulukana-ko Nehova ulivite-ila ekisi, hati:
—Meme, ekisi olyolyo lyeya. Una ina okumupaka m'otyihete.
Lyeya. Talindimbi vali n'okuifana Nehova. Lyali-ko okumuvandya, okumuvandya.
Nehova kamoneka. Lyatankhama-ila akalimumwene vali. Lwo lwapwa olungano lwange
olo.
18: O
Monstro E Nehova
Umas raparigas foram colher frutos da “Ziziphus?. Ao
dirigir-se para a recolha dos , toparam com uma armadilha perto do caminho.
Nela tinha sido apanhada uma perdiz. A armadilha pertencia a um monstro. Uma
das raparigas tirou a ave e meteu-a no fundo do cesto em que ia deitar os
frutos. Ao virem da recolha, apareceulhes o monstro. Estava de pé no caminho
àespera delas. Aproximan-do-se, ele disse à primeira:
—Tu que furtaste a perdiz, faze saltar os frutos! Ela
põe-se a sacudir os frutos e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! Chega-se
agora uma outra, sacode e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! Finalmente vem
a que estava por trás, aquela que levava a perdiz. O monstro:
Faze saltar! Faze saltar! Ela porém sacode só levemente e
canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! O monstro insiste agora: Faze saltar!
dize: Saltai. frutos! Saltai, frutos! Torna a insistir:
Faze saltar com foroa: Dize, saltai frutos, Saltai frutos!
As tuas companheiras vão-se embora! Ela põe-se a chorar e canta: Saltai,
frutos! Saltai, frutos! Nesta altura o monstro faz um gesto para o fundo do
cesto e a perdiz lá se encontra. Pergunta então o monstro: Tu agora, como
roubaste a perdiz, o que escolhes, entre casar comigo e ser devorada? Responde
a moça:
Eu não casarei nem serei devorada. Vou primeiro a casa
engordar um pouco. Quando estiver gordinha, nós havemos de nos encontrar
novamente ao pé deste arbusto. Virás então para me comer. Conforme me encontro
agora, estou magra. Diz ele: Bem! Podes ir. E deu-Ihe a perdiz. Depois de ter
ido para casa, a rapa-riga fica por lá. A mãe pergunta-lhe:
—Afinal vieste? —Sim, vim, porque eu lhe disse:
—Ainda vou engordar. Passou-se bastante tempo, decorreu um
ano. O monstro apresenta-se ao pé do arbusto. Nehova porém não aparece. O papão
põe-se a chamar e a cantar: Nehova ê! Nehova! Nehova ê! Neste lugar que
prometemos nos encontrar. Nehova, encontrar-nos secretamente! Nehova, passou-se
um ano! Nehova, Nehova, Nehova ê! Mas Nehova não aparece para se apresentar ao
pé do arbusto, conforme tinham combinado. Ele segue agora pelo caminho, onde
andaram as raparigas. O monstro põe-se a correr e a procurar no meio da terra
habitada. Canta novamente a chamar por Nehova! Ela escutando, reconhece a voz
do papão. Diz:
—Mãe, vem aí o monstro. A mãe enfia a filha dentro dum
grande cesto-celeiro. Aproxima-se agora o monstro. Torna a cantar chamando por
Nehova. Procura-a e torna a procurá-la por toda a parte. Nehova não aparece.
Ele fica-se por ali sem nunca mais ter enxergado Nehova.
Este meu conto terminou.
Narradora:
Cristina, casada de 31 anos de idade, de origem Humbe, vivendo nos arredores de
Sá da Bandeira. Gravação: Sá da Bandeira, Janeiro de 1964. Língua: Dialecto
Humbe (Nkumbi) de mistura com Nhaneca.
19:
Ononkhumbinkhumbi
Ovana vononkhulu vetatu vahuma—ila m'eumbo, avakaenda-enda
kondye. Avakanyanga omaomi. Ina tati:
—Etyi amwi m'ofika
omo, nga mwahanga omaomi apya, kamukalye, omaomi amwe aelityitula omakisi.
Okuya-ko vahanga omuomi waku-suka tyili. Vanyanga-ko. Ononkhulu ndatyo ndekula
ovo vanyanga-ko. Ou olyae ou olyae. Okana okatutu aka kakanyangele-ko. Ou
tatende, ou tatende. Mwandyaleka ovamati, omo hinga avatende; vese vevali
ovawapele. Aveli-popaifa-ila. Ava havati:
—Atwi k'eumbo lyetu. Vasapaila-po manga. Okana koka-tutu
hati:
—K'eumbo olyo kamukaya-ko, kuli navi. Omona umwe wonkhulu
ati:
—Ame anii noho. Okulandula-ko, okulandula-ko. Hati:
—Tala, kondokeleni, mpha tulihanga lumwe, apa twelihangele.
Ae! Ovana vanya tyili ovo. Vefika-ko. Okuya-ko oko, okana kokatutu
kaken'okulala. Ye ovakwendye ovo ka-ven'okulala. Vahanda-ila okulya-ila ovana
ava, ononkhulu ndavo. Tyapu okana-ila oko, etyi takeya okusapelefwa
k'omukwendye womukulu wae:
—No nâ noho totala? Hati: Dueni, anitala.
— Kuno kulalwa! Hati: E! anilala. Weya vali. Etyi teya
hati:
— Tusapele! Hati: Ndu. — No nâ noho totala? Hati: Aye,
anilala. — Kuno akulalwa. —Temukandana. Ongula kwatya, okuya-ila
okukaen-da-enda n'ovakulu vae kondye oko. Hati: Tala, hono ovakwendye veni ava,
hono kavalele, ovifitu. Hamulala nâ, lumwe, hatulika. Onkhulu oyo okuhuma akoko
nô, okuya k'omona ou nô, okumuti: mwata, mvata; Omankhole m'omutwe wae.
—Otyityi totupopila nô ovakwendye vetu, onthwe tuvehole. Hatie, omona ou okuya
m'ofika, okukapangela omainya ononkhumbi—nkhumbi okuninga omavava. Omukulu wae
wopokati wemupaka omavava aese ononkhumbi-nkhumbi. Mukwavo ou we-muvetele,
omavava otyilumbamba nthele . Ye vyae omavava ononkhumbin-khumbi noho Okuya
okulala-po ila. Veindite ila okuti: K'omatiti, k'omatiti. Okuvanana
k'ominwe-ila, okukatuka—po okuti: (tandimbi). Nkhumbinkhumbi yange, yelela
tuende! Kakele tyilumbamba usalasala pofi. (bis). Tyilumbamba etyi tati noho,
oku wila pofi, ye temukwata, ye nkhumbinkhumbi taiyelula. Etyi tavavandye noho
emukwate nô nã, ye nkhumbinkhumbi taiyelula. (Tandimbi vali): Nkhuinbinkhumbi
yange, yelela tuende. Kakele tyilumbamba
usalasala pofi. (bis). Okukatalama-ila m'eulu lyomukwa. Ye omakisi
elikondoka-ila, epwila. Okuya m'omukwa omo nô omo, omona wati: M'omukwa
kamuninwa. Omukulu hati: Ame aninina-mo. Ou hati: Kukanine-mo. Aupata! Otyo
anina-mo. Etyi anina noho uti ntholo: Tu! Ye omukwa welipata. Etyi wapata-ila,
ye okakulukandi tahumako keuya-ila okutiava. Etyi keya okakulukandi oko,
kefikila okupuma. Etyi vemutia, avahimbika okundimba: Ove kakulukandi ove, pu,
pu! Nkhele wapumain'ale, pu, pu! Ketupopie k'otyilongo, pu, pu! Toti omukwa
walya ovawa, pu, pu! Walya Nehova ya Nyange, pu, pu! Na Kamia ka
Ndyolondyondyo, Omuingona. Omukulukandi wapulukana. Okuya-ila m'eumbo omo,
hati:
—Vakwe! Natia-ko okoku onondaka andipopi, ondovana ava vaya
ale kohale Opo vahuma-ila opopo, okumuhuku-lila otylmphwena tyatokota k'omutwe.
Taende talili-ila. Okuya-ko, havati:
—Puma-ila tupulukane! —Pu! Pu! (Ovana mokati vatavela
n'okuimba). Ove kakulukandi ove, etc., etc. Okueta-ila ongombe ondaule,
okuto-ma-ila. oluvinga m'omukwa omo. Omu-kwa waikuka. Ovana valupuka-mo, vaya—ila
k'eumbo. Oiuñgano lwange olo lwapwa.
19: As
“Cegonhas?
Três raparigas sairam de casa e andavam a passear. Procuravam
“maboques? A mãe recomendara-lhes:
—Se encontrardes maboques maduros não os comais! Pois
alguns maboques transformam-se em monstros. Ao chegarem a uma árvore, havia
nela frutos muito maduros. As raparigas crescidas colheram cada uma o seu fruto.
A mais pequena não colheu nenhum. (As outras), cada uma pôs-se a partir a
casca. Dos frutos cujas cascas estavam a partir, saltaram rapazes. Um de cada
fruto. Dois rapazes muito bonitos. Cumprimentaram-se. Os rapazes disseram:
—Vamos até nossa casa! Ficaram ainda a conversar e disse a
pequenina:
—E melhor não irmos porque em vossa casa não se está bem!
Uma das outras porém retorquiu:
—Eu vou com eles sem mais.
—Vão seguindo. A mais nova insiste ainda:
—E melhor regressardes para nos encontrarmos onde
estávamos. Mas não! As duas outras não quiseram saber. Chegaram à tal casa.
Porém de noite a rapariga pequena não quis dormir. Os rapazes também não
dormiram. Pretendiam comer as suas noivas. Ora a pequena foi interpelada pelo
rapaz de uma das suas irmãs:
—Ainda estás com os olhos abertos? Respondeu: —Ainda estou.
— Aqui dorme-se! — Está bem, vou dormir. Veio novamente o rapaz e disse:
— Vamos conversar! E a rapariga: Está bem!
— Continuas ainda acordada?
— Não! Estou a dormir.
—Aqui deve-se dormir. Ralhou com ela. De manhã, cedo, ao
sair para fora com suas irmãs a pequena disse:
—Quereis saber? Aqueles vossos rapazes, esta noite não
dormiram. São bichos. Não passeis mais a noite assim. Podemos ser devoradas.
Uma das irmãs aproximou-se da pequena e deu-lhe umas pancadas na cabeça.
croque! croque! E disse:
—Porque estás a
falar mal dos nossos rapazes? Nós gostamos deles. Depois disso a irmã mais nova
foi àfloresta. Ali pôs-se a arranjar asas com penas de cegonha. A irmã, a
seguir àmais velha colocou dessas asas que eram exclusivamente de penas de
cegonha. Aquela que lhe bateu, a pequena pôs asas de noitibó de um lado,
enquanto que as dela eram inteiramente feitas de penas de “cegonha?. Quando as
raparigas foram deitar-se novamente, ouviram coehichar aos rapazes: Vamos aos
pratos! Vamos aos pratos! (Cheios de carne). Neste momento, a pequena
puxou-lhes (às irmãs) pelos pés. E a ocasiãao de todas se levantarem. E a
pequena entoou o seu canto: O minha “cegonha?, levanta voo, vamos! Mas o
noitibó, esse, fica ai pelo chão. (bis) A do noitibó, ao levantar voo, cai ao
chão. Um dos rapazes quer apanhá-la. Porém a pequena das asas de “cegonha? pega
nela e levanta para cima. (Repete o canto): O minha “cegonha?, levanta voo,
vamos! Mas o noitibó, esse, fica ai pelo chão. (bis) Finalmente todas poisaram
cm cima de um embondeiro. Quanto aos rapazes, voltaram para trás, consados como
estavam. A mais nova das raparigas avisou:
—Neste embondeiro não se pode defecar! A mais velha
respondeu:
—Eu hei-de defecar na mesma. A outra: Não faças tal. senão
a árvore fecha-se sobre nós. Depois de ela ter feito as suas necessidades, o
embondeiro fechou-se. Sentiu-se uma velha que tinha vindo àlenha. Aproximou-se
e começou a cortar ramos. Ao ouvir as pancadas, as raparigas puseram-se a
cantar: O velhinha, traz, traz! Já há mementos que bates, traz, traz! Leva a
noticia a casa, traz, traz! Diz que o embondeiiro engoliu gente boa, traz, traz!
Engoliu Nehova de Nyange, traz, traz! E
Kamia de Ndyolondyondyo, filha predilecta. A velha escutou com atenção. Dirigiu-se
a casa e disse:
—Amigos, lá onde fui à lenha, ouvi vozes. Vozes daquelas
vossas filhas que se ausentaram há dias. Os da casa sairam e jogaram à cabeça
da velha, papas a escaldar. Ela pegou a chorar. Quando chegaram à árvore,
disse-ram-lhe os outros:
—Bate, para escutarmos.
—Ela bate e as raparigas puse-ram-se a cantar: Ó velhinha,
traz, traz! etc., etc. Trouxeram então um boi preto que deu uma chifrada no
embondeiro. E este abriu-se. As raparigas sairam para fora e foram para sua
casa. O meu conto acabou. Dados biográficos e outros como no n.° anterior. A
feição extremamente sincopada deste conto —ainda mais que nos outros —da mesma
narradora, obriga a intercalar no texto português, locuções complementores para
o tornar inteligivel. O tema de raparigas, amigas de monstros, terem sido salvas
por uma irma mais nova e indesejável, também faz parte de um conto “Quimbundu?,
publicado por H. Chatelain: The Girls and the Makishi. O mesmo papel éatribuido
a um rapazito na narrativa em “Umbundu?: “Conto de raparigas que foram à pesca?,
inserta na colecção de Hauenstein. No mesmo conto figura igualmente o episódio
das asas de cegonha e de noitibó. Seja dito de passagem, não me parece que H.
tenha acertado na identificaç ão da espécie ornitológica de uma das aves em
causa. O terceiro episódio, o do embondeiro que encarcera no seu tronco gente
malcriada, não podia dar-se na terra dos Bundos, por esta espécie botãnica
(Adansonia digitata) não existir na parte mais elevada do planalto. —Em
compensação, é acidente —o encarceramento e a libertação —que encontramos em
outras narrativas deste nosso florilégio.
20:
Omukai N'Ekisi Watyiluka
Omukai waya k'epia, wakalima. Oko wakahokela n'ekisi olyo,
lili lumwe omunthu, munthu. Hati:
—Uh! Ov'olye wafa toti
ove nawa yange Ndyundyu? Hati:
—Ame yatyo. Hati:
—E! —Eta nkhele
omona, nikekulele-ko! Hati: E! —Omukai ou uli-ila n'oku-lima. Etyi apetuka,
hataifana-ila nawa yae (tandimbi): Nawa Ndyundyu, nawa Ndyundyu Ngetele omona
wange! Ekumbi olyolyo lienda Ndyundyu. (bis). Omona wemueta. Tyapu wapita
k'eumbo. Vakalala. Omumbai etyi lyatya, teya vali n'ekisi lyatyo. Haliti:
—Eta omona nikemulele! Hati: E!. —Uli n'okulima, uli
n'oku-lima. Etyi apetuka, taifana tupu nawa; (tandimbl vali). Nawa Ndyundyu
etc., etc. Wemueta. —Tyapu wapita k'eumbo. Omumbai tyé, weya vali lwatatu.
Ekisi na lyo lyeya. Haliti:
—Eta omona nikemulele! Ati:
E! —Watyinda omona ou. Omukai otyo talimi, otyo talimi.
Etyi apetuka, taifana nawa wae, (tandimbi): Nawa Ndyundyu, nawa Ndyundyu, etc.,
etc. Okuti endu! Ondyundyu yatyo hono, okamona wekelya-po. Etyi ekelya, omakipa
atyo k'ongondi, hongolole, hongolole. Tyapu weandala. Ye tandimbi ati: Omona
twalilelile, Ndyundyu! Vikipa twayukaila, Ndyundyu! Waya, Ndyundyu, waya,
Ndyundyu. Ye omukai ou nae tandimbi: Nawa Ndyundyu, ngetele omona wange! etc.,
etc. Ekisi na lyo tandimbi vali: Omona twalilelile, Ndyundyu! etc., etc., etc.
Omukai ati: Otyo otyityi hono anitie? —Okuya k'eumbo. Hati:
—Vakwe! Otyo nihole okukalima k'epia lyange oko.
Nihokaikila-ko n'ekisi. Nemundimbukilila, nati hamwe onawa yange tatiwa
Ndyundyu. Twalinga ononyuku onombali, otyo takalele omona. Etyi nemuifana
takaeta. Hono etyi nati: Eta omona! Ye tandimbi “Omona twalilelile, ovikipa
twayukaila, waya, Ndyundyu, waya Ndyundyu?. Ovanthu okukongolola n'omauta.
Havati:
—Ove kala m'ondila, onthwe tukale m'ofika, tumulavekela!
Hati:
E! —Otyo tandimbi; “Nawa Ndyundyu etc. ?. Ekisi na lyo
talindimbi: “Omona twalilelile? etc. Ye kuna taliuya lyahimaina-ila omulikandi
ou, na e limulye-po. Omukai talili-ila. Tandimbi n'okulila. Ekisi na lyo
talindimbi n'okulila. Ye etyi alifiki-ila p'omukai ou, limulye, ovanthu
okuliloya. Efitu olyo, lyekisi olyo lyankhla. Omukai ou tyapu wavonga-ila
k'omona wae. Tyapu okuya-ila k'eumbo, okukaonga omutambo. Tyapu lwapwa!
MELODIA
DE DUAS ESTROFES DO CONTO N.° 20 NAWA NDYUNDYU
20:
Uma Mulher E Um Monstro Transfomado Em Pessoa
Uma mulher foi ao campo cultivar. Ali topou com um monstro
que em tudo, tinha aparências de uma pessoa. Diz a mulher: —Quem é esta pessoa
tão parecida com a minha cunhada Ndyundyu? Responde a outra:
—Sou eu mesma. Está bem! —Oferece-se então o monstro
dizendo: —Entrega-me o teu filhinho para o guardar! —Está bem. —A mulher põe-se
a sachar. No fim do trabalho chama pela cunhada e canta: Cunhada Ndyundyu,
cunhada Ndyundyu! Traz-me o filhinho. O sol está a inclinar-se Ndyundyu. (bis)
Trouxe a criança e a mulher foi para casa. De manhã cedo a mulher torna a ir ao
campo para o cultivo. Lá encontra novamente o papão. Diz este:
—Entrega-me o teu filhinho para que eu o guarde!
—Está bem!
—A mulher passa o dia a sachar. Acabado o trabalho ela
chama novamente pela cunhada e canta: Cunhada Ndyundyu etc., etc. Entregou-o e
a mulher foi para casa. Ao tercelro dia ao vir novamente para o campo, o
monstro também apareceu e torna a dizer:
—Entrega-me o teu filho, para o guardar.
—Está bem! —Levou a criança. A mulher passou o dia a cavar.
Largado o trabalho, pela cunhada a cantar: Cunhada Ndyundyu, cunhada Ndyundyu,
etc., etc. Fez assim para que lhe trouxesse o filhinho. Porém quem parecia ser
Ndyundyu tinha devorado a criança. Depois de a comer ela enfiou os ossinhos num
cordel, enfia-que-enfia. Em seguida colocou aquele cordel ao pescoço. Canta
então a suposta cunhada: A criança devorámo-la, Ndyundyu! Os ossos pusemo-los
direitinhos, Ndyundyu! A criança desapareceu, Ndyundyu! A mulher canta também:
Cunhada Ndyundyu, traze-me o meu filhinho! etc., etc. Por sua vez o monstro
repete a cantilena: A criança devoramo-la, Ndyundyu! etc., etc., etc. A mulher
disse: Ora esta! Que hei-de fazer agora? Chegou a casa e disse:
—Ó amigos! Eu costumava ir trabalhar no campo. Todas as
vezes encontrava lá um monstro. Ao vê-lo parecia-me ser a minha cunhada, de
nome Ndyundyu. Passamos dois dias e ela (depois de me ter ficado com a criança
durante o trabalho) trazia-ma sempre. Mas hoje quando lhe disse: Traze o meu
filho, ela respondeu-me a cantar: “A criança comemo-la, os ossinhos
endireitamo-los. Ela desapareceu, ela desapareceu?. Os homens então juntaram-se
armados. Disseram à mulher:
—Tu ficas no caminho e nós na floresta à espreita! E ela:
Está bem! —Vai cantando: “Cunhada Ndyundyu, etc.?. O monstro canta também: “A
criança devoramo-la? etc. Ei-lo o monstro que apareceu. Aproxima-se da mulher
para a comer. A mulher porém põe-se a cantar como dantes e o monstro responde
ao canto também. Ambos choram. Mas quando ele se quer atirar à mulher para a
devorar, os homens descarregam as suas armas sobre ele. Aquela fera, aquele
monstro morreu. A mulher ficou desolada por causa do seu filho. Foi para casa e
reuniu os parentes para as cerimónias fúnebres. Acabou o conto.
Narradora:
Maria Luísa, de anos de idade, natural de Sá da Bandeira, de origem Humbe.
Gravação: Sá da Bandeira, Janeiro de 1964. Lingua: Dialecto humbe (Nkhumbi), de
mistura com Nyaneka.
MELODIA
DE DUAS ESTROFES DO CONTO N.° 20 NAWA NDYUNDYU
21:
Ouye w’oMakihi
Opopo umwe. P'ehimbwe lyatyo opo, omakihi amanene ovanthu
m'otyilongo. Andipo mwesala vala omukai wike omulemi. Ankho utupu ombunga.
M'okwavela ouoma, nokuti hamwe omakihi eya n' okumulya, akaholama m'ondyimbo.
Etyi ehimbwe lyae lyeya-po lyokupululukwa, apululukwa okana kokamukwendye.
Omukai omo apangela m'ondyimbo omo. Otyo okana kalwa n'okukula. Kumbi limwe
okana etyi kanoñgonoka, akalupuka-mo m'ondyimbo, okuyotela omutenya pondye,
n'okutalukilwa ouwa wouye. Mueli ina atila omona:
—Mona wange,
uhalupauke vali kondye, tyetyi kumbi uvasa-ko ovinyama “omakihi?, oliwa. Otyo
twaholamena m'ondyimbo omu tukahi. Hatyauina twakalela muno! Okana kaketavelele
ondaka ya ina. Otyo keyaya ñgo apeho kondye. Iya m'okweya pahe onondunge, kumbi
limwe kapolesa-po okandyila konomphuku, ló kavasa ondyila imwe. Kalandula ló
keya m'epata lyomakihi atyo ankho apopia ina. M'epata omu ankho mukala okana
tupu velifwe nako. M'okwelivasa, ovipuka vyouna, vahimbika n'okunyana. Etyi
etango lyapepela. okana akakondoka k'epata n'ohambu, tyetyi velivasa na
mukwavo. Etyi okana kapita, ekihi aliti omona:
—Tyina mukweni muhuka eya, mukokela m'ondywo, omo
munyanena. Tyino mwanyingila, ove uenda m'otyimbundu, okayoya-mo ondombe, otyo
ulya. Ankho ati: —mphe!, ove uti:
—mwene kapole-mo. Iya tyino apetamena-mo okuyoya ondombe,
ove umutahulila mo, otungu-ko k'otyimbundu. Tyina ame neya, tumuipae,
atumuli-po p'ondalelo. Etyi kwatya, okana m'okuhetyii, akeya k'omukwavo
vanyane, ngetyi valinga apeho. Okana hikê m'epata, mukwavo ati:
—Mukwetu, tuende m'ondywo, tukalye ondombe. Etyi vanyingila
okana kekihi kaya m'otyimbundu akapole-mo ondombe yatyo. Okana okakwavo akati:
—Mukwetu, mphe! —Oko akati:
—Mwene kuende ukapole-mo. Okana
aka m'okuhanda okukapola-mo, okakwavo akeketahulilamo, akatungu-ko ngetyi
tyapopia ina. Okana kokwatungilwa m'otyimbundu, kavasiwa n'okankhiki,
akelitete-mo m'o tyimbundu, akai nkholo. Ekihi etyi lyeya, alipuiu omona ankho
alinga etyi tyatuminwe. Omona ati:
—Netyilinga, ongo
una walupuka-mo, wapita. Ina alila omona:
—Muhuka mandyiholama m'otyivo konyima yomihingi. Andyitele
eyo lyange p'ombundi. Tyino eya, ankho alyata-ko, katundu-ko vali. Etyi kwatya,
okana keya vali okunyana ku mukwavo; katyinda ondyokolo p'omake. Etyi kehika,
okana kekihi akatila mukwavo:
—Tukanyane m'otyivo! Okana kaanya-mo, tyetyi kelwete eyo
p'ombundi. Etyi kafwena-ko, kapolo onkhunkho, kavete na yo k'eyo lyekihi. Eli
alipindusuka-po n'okuliyavela. Okana kekihi akahande kakwate mukwavo. Ou akahateka
k'ondyimbo yae. Ekihi aliti omona:
—Muhuka mandyipake-po ombila onene, opo ehetyivili okuenda
k'eumbo. Tyina iloka, ove molihungilisa. Ombila m'okuloka, okana kekihi
kahimbika okulinga ngetyi ina apopia. Ina apolo omona wae, emutolo etwe
m'ombamba. Omona womunthu okutala nawa ku mukwavo, nae wahimbika
okulihungilisa. Ekihi alipolo okana oko, okukelangeka-po, aliketolo omakala
m'ombamba, opo ekihi lityivile okunoñgonoka omona walyo. Ovana m'okulele, ekihi
alipake-po ombiya yomeva. Etyi ahiluka, alipolo omona wokwatolwa omakala
m'ombamba. Ongo naina omona walyo mwene wapaka m'ombiya, tyetyi okana komunthu
kana ankho kelisekuna omakala, akelipake etwe. Ongo okana kekihi akemupake
omakala. Avapingahana omphangu. Ina etyi eya, katalele vali, wapola vala ou una
omakala. Omona ati: —Mê, wamphisa! Ina ati:
—Nekutyitile-pi? Veye k'ongulohi, ina ati: —Tulye omona!
Ati:
—Hipondola okutala k'otyitei, handyilya muhuka. Ekihi
alili, alilaleka katutu kwomona. Kumuhuka okukalima, Ekihi aliti omona:
—Okamuhole kove okaka. Tyina wapahuka-po, tokotesa, naulye!
Omona etyi apahuka-po, atale nawa ohitu yamukwavo, alupuka kondye aliti ekihi:
—Tyikihi, ove walya
omona wove! Ekihi m'okwehetyivile nawa, ongapana tyatiwa: lima vali
unene, alihandula ombundu onene vali. Aka okana nkhele apaleka otyivali:
—Tyilukihi, walya omona wove! Etyi ekihi lyetyiiva nawa,
alii m'okuhatekesa okana aka. Akai nkholo, okukelipiana k'ondyimbo. Okana hikê
ati ku ina:
—Mê, tuende, tuli m'otyinyama. Ina ati:
—Mona wange, hatyo
napopile okuti nthiki imwe mondetela ovinyama?! Ina p'ehimbwe apa,
n'okwakwatwa n'ouoma. ahatendela, atavela ondaka yomona. Avalupuka-mo nkholo
m'ondyimbo. Etyi vati p'okati vavasa-po omunthili wovivela. Iya ina ati:
—Katunyingaila-mo m'omuyeveyo wove? Ou ati:
—Ankho muna etyi tyimukwai, nyingilei liwa! Kapakalele
ekihi lyeya n'okwanumana aliti: —Kwamwene ovanthu vakwata apa? Ou ati:
—Ndati. Ekihi aliti:
—Ankho uveholeka,
mandyili-po ove. Ou ati:
—Ankho ame uhanda okulya, tetekela iya “ekina? lyange.
Ekihi kalyelikwataile, lyapola omuyeveyo, alitahela mokati. Pahe alipolo
hekulu, na e alitwala mokati. Omulume womuyeveyo, muna m'eimo lyekihi,
wakatwala-ko k'ovilinga vyae. Etyi omutokoto walinga omunyinginyingi, alikwatwa
n'ohunga onene. Ekihi n'ohunga ina, lyamonena kokulle etala lyomeva.
Alihatekela-ko okukanwa. Liyê po p'omeva, etala alikukuta. Otyo lyakala-ñgo
ngotyo otyitenya atyiho. Alimanuhuka okunkhia n'ohunga. Omulume ou apolo
onkhiki, atande pokati eimo lyekihi. Alupuka-mo n'ava aveho ankho valilwe. Ongotyo
ouye womakihi wapwile, otyilongo atyitungu otyivali.
21: A
Tirania Dos Monstros
E destes mesmos que se trata. Naquele tempo aconteceu que
os monstros dessem cabo dos habitantes de uma terra. Escapou sòmente uma mulher
grávida. Não tinha parentes. Como receasse que os monstros viessem devorá-la.
ela foi esconder-se na toca de um papa-formigas. Quando chegou a hora do parto,
deu à luz um rapaz. Assim a mulher continuava a habitar na toca até o filho ter
chegado à adolescência. Um dia o rapaz resolveu sair do buraco do formigueiro
para ir aquecer-se ao sol e distrair-se olhando para as maravilhas do mundo. No
entanto a mãe foi dizendo ao filho:
—Meu filho, não saias mais daqui, porque se um dia
encontrares os bichos chamados “omakihi?, vais ser comido por eles. E por isso
que vivemos aqui escondidos neste buraco. Não é por gosto que ficamos a viver
assim. O rapaz porém não fez caso da advertência da mãe. saindo constantemente
para fora.Tendo já adquirido mais conhecimentos, um dia deu-lhe para seguir umas
pegadas de ratos. Encontrou depois um carreiro pelo qual foi andando até chegar
àaldeia dos monstros de que tinha ouvido falar à mãe. Nesta aldeia havia também
um rapaz da mesma idade. Ao encontrarem-se, como é natural entre crianças,
puseram—se a brincar. Assim que entardeceu, o rapaz vultou a “casa?, muito
satisfeito por ter achado um companheiro. Depois do “filho de gente? se ter
afastado, a mãe do mostrengozito disse ao miúdo:
—Quando amanhã o teu camarada voltar, puxa-o para o
interior da cubata, para brincardes lá dentro. Logo que ele tiver entrado, tu
vais ao cesto celeiro, tiras dali amendoim e pões-te a comer. Quando o outro
disser dá-me também, tu respondes:
—vai tu tirá-lo do cesto. Então logo que ele se debruçar
sobre o cesto para tomar amendoim, tu empurras o rapaz para dentro e coses bem
cosida a abertura. Logo que eu chegue, matámo-lo, para com ele nos
satisfazermos ao jantar. Na manhã seguinte. o rapaz sem saber da combinação,
veio novamente para se divertir com o outro, como na véspera. Depois de ter
entrado no recinto o outro disse:
—Amigo, vamos ao quarto para comer-mos amendoim. Depois de
entrado, o pequeno monstro foi ao celeiro e tirou amendoim. O outro rapaz pede:
—Dá-me também, amigo. —Respondeu este:
—vai tu mesmo tirar. O moço ao querer tirar a ginguba, o
outro empurrou-o para dentro e coseu a abertura do cesto, conforme a ordem da
mãe. O rapaz tendo ficado preso no cesto, puxou por uma navalha que trazia
consigo e cortou a cosedura. Feito isso, pôs-se em fuga. Quando a velha veio,
perguntou ao rapaz se havia feito o que ordenara. Ele respondeu:
—Fiz tudo, mas o
outro conseguiu sair e fugir. A mãe disse ao filho:
—Amanhã vou esconder-me na cubata, atrás dos paus da porta.
Na entrada vou preparar uma armadilha com um dente meu. Se ele pisar em cima,
não escapa mais. Depois do sol nascido, o rapaz “filho de gente? veio novamente
para brincar com o outro. Trazia nas mãos uma pedra de picar as mós. Vindo como
de costume, o filho do monstro disse ao companheiro:
—Vamo-nos divertir na cubata! O rapaz não quis entrar,
porque viu o dente na entrada. Aproximou-se depois com a pedra de picar e bateu
no dente do monstro. Este deu um salto e desatou a gritar. O filho do monstro
quis agarrar o visitante, mas este correu para o seu buraco. O monstro tornou a
recomendar ao filho:
—Amanhã vou fazer cair uma chuva forte, para que ele não
possa correr para “casa?. Assim, quando estiver a chover, tu finges dormitar.
Enquanto chovia o pequeno monstro procedeu como a mãe lhe tinha dito. Nessa
altura a mãe pegou no filho e lhe a cara com cinza. O filho de gente, vendo
como tinha ficado o outro, fingiu também que estava a dormir. O monstro pegou
nele e marcou—lhe a testa com carvão, a fim de poder reconhecer o seu filho,
sem o confundir com o outro. Quando os dois rapazes estavam a dormir, o monstro
pôs uma panela de água ao lume. Logo que ferveu ele pegou no rapaz que tinha
carvão na cara —e assim a própria mãe meteu o filho na panela, pois o filho de
gente tinha limpado o carvão para pôr cinza. E ao filho do monstro aplicou
carvão. E inverteu os lugares. A mãe ao vir à cubata não examinou as caras de
perto, pegou só naquele que tinha carvão. O rapaz (ao ser metido na panela)
gritou:
—Mãe, estás a queimar-me! Respondeu esta:
—Onde é que eu te gerei? A noite a mãe disse (para o
suposto filho):
—Comamos o hóspede! Este retorquiu:
—Eu não posso olhar para a luz (do fogo), dói-me a vista.
Vou comer amanhã. O monstro comeu e guardou o resto para o filho. De manhã, a
mãe ao sair para o campo disse:
—Aqui está o teu
molho, filho. Assim que te levantares, aquece-o e come. O rapaz. depois de
acordar, olhou bem para a carne do outro, saiu para fora e gritou para a velha:
—Estúpida, tu comeste o teu filho! Esta porém não entendeu.
Parecia-lhe que alguém dissera: cava com força; e assim pôs-se a revolver a
terra com ardor. O rapaz repetiu o mesmo grito:
—Monstro estúpido, tu comeste o teu filho. Ao perceber bem
o que se disse, a velha correu em perseguição do rapaz. Mas este escapuliu-se e
foi se esconder no buraco. Ao chegar disse à mãe:
—Mãe vamos embora, lá vem uma fera. Respondeu a mãe: Filho
não to disse há muito, um belo dia havemos de cair nas garras das feras?! —Ela
não contestou ao que dissera o rapaz. Ambos sairam apressadamente da toca do
papa-formigas. Tendo corrido durante algum tempo, toparam com um ferreiro.
Perguntou—lhe a mulher:
—Não podemos entrar
no teu fole? Este respondeu: Se estais perseguidos por alguém, entrai depressa!
Pouco depois chegou o monstro. Cheio de fúria indagou: —Não viste ningném
passar por aqui? Resposta do ferreiro:
—Não. Insiste o monstro:
—Se mentes, de-voro-te a ti.
—Se queres devorar-me a mim, começa por engolir este meu
aparelho! O papão não se fez rogado, pegou no fole e empurrou-o para dentro da
boca. Em seguida agarra também o dono e meteu-o para dentro. O homem do fole,
lá dentro da barriga, continuou o seu trabalho. Quando o calor começou a
apertar, o monstro ficou com uma sede enorme. Assim sequioso, o monstro reparou
que ao longe havia uma lagoa. Correu para ela a fim de se dessedentar. Tendo
chegado àbeira da água, a lagoa secou. Neste estado, ele passou o dia todo, até
acabar por morrer de sede. O homem (dentro do monstro) pegou numa nava-lha,
abriu o ventre do monstro e ele, mais os outros que tinham sido devorados.
vieram para fora. Desta forma acabou o domínio dos monstros e aquela terra
ficou novamente habitada.
Dados biográficos e outros como no Nº 4 O tema de seres
humanos se abrigarem, às vezes durante muito tempo, na toca de um Papa-formigas
(Orycteropus afer) ocorre igualmente na narrativa: “A Mulher e dois filhos? já
publicada. Mas nesta trata-se de crianças expostas e abandonadas, por “não
haver ninguém na família? que as pudesse amamentar, sendo ali “criadas pelo
próprio Deus? . Mas, nem sempre tal buraco serve únicamente de resguardo de
intempéries e perigos. Entre os Cuvales por exemplo, esta cavidade era ou é ainda
destinada à sepultura de crianças recém-nascidas, tidas por anormais e de mau
agoiro para gente e para o gado, conforme se expôs no III.° Vol. da
“Etnografia? . Convém notar ainda, que é necessário dispor de fantasia
fabulística, para fazer habitar uma mulher com um filho quase adulto na toca de
um animal cujo tamanho não excede as dimensões de um suino meio crescido.
Alguns episódios deste conto, inclusivamente o da troca dos filhos na refeição
pretensamente canibalesca, se assemelham a acidentes relatados na narração:
“The young Leopard and the young Goat?, publicada por H. Chatelain . Confusão
idêntica, mas desta vez como no conto acima transcrito, entre filho de gente e
filho de monstro, se apresenta em uma narrativa Humbe estampada no II.° Vol. da
“Etnografia?
22:
Omukwendye Wakalisa
Opopo umwe. P'okulisa omukwendye weya mei lyom ukuyu, omo
avasa okaila kalya omakuyu. Omunthita okukemona wapola onkhondyi yae naekeyahe.
P'okukeyaha otyo ekeponya-ponya. Etyi tyaenda n'ok'omutwe ati, (m'okuimba):
Otyili tate watile: M'omufitufitu kamutelwa, Muna okaila kakola, K'oundyengele
k'etako, K'oulungu k'outati. Apaleka omuhongo wavali, aponyo ñgo otyivali. Otyo
aimba otyiimbo tyae. Etyi apaleka mutatu, pahe ekeyahe, ati: Mandyikekayoka
pana pamoneka tyina okutwima. Etyi ati-po p'otupya, wavasa-po ekihi. Pana nanyo
op'eumbo lyatyo. Ekihi aliti omunthita
—Mutekula, eta okaila kove, ndyikuyokele-ko! —Omunthita
ati:
Maikulu, mphe okahumba
kove, ndyihikeko! Ekihi alipolo otyihumba, alityiavela omunthita.
Ou ati (m'okuimba): Mbwilindi, mbwilindi! kaila kange lungwina! Lungwina,
tulonge ekihi! Etyi ekihi lyelihaika, alipulu omona:
—Otyityi otyo uimba? Omunthita ati:
—Ndyiimba ondyongo twalongehilwe n'ovotate. Apaleka
otyivali, otyo ahika vala otyihumba tyae. Etyi omunthita ehungi k'okuenda ati:
—Maikulu, mphe pahe okaila kange, ame nahanda okuenda. Ekihi
aliti:
—Mutekula, kulwete ekala eli? Hakaila kove kalungwina?
—Pwaina, ekihi likemba, okaila p'otupya kakeilepo ale, lyekelya-po, omona
m'okwatalukwa n'okuhika otyihumba. Ekihi ankho apake-po ombiya onene yohitu.
n'omakwavo akayeva eye alye. Omunthita n'onyengo yokaila kae kaliwa, apoio
otyikunknuiu ati:
—m'ombiya omu! EKihi ati: Mutekula, wahayumbe—mo!
—Katyapwile ale k'omuhaho, omunthita apake ekihi oluhimo k'omulungu
n'ok'ombunda. Eli alinkhi. Nkhie. omunthita ayaula ohitu m'ombiya yomakihi, ai.
Etyi omakihi omakwavo eya, aenda n'okuimba okuti: K'ononkhwi tyelityava!
K'ononthe tyeliwangula! Mowangala, mbwangala! Ahike p'eumbo, okutala mukwavo
vasile-po okuteleka, wankhia, iya m'okwehetyii, limwe aliti:
—Wakolwa n'ohitu; Omakwavo ati: Ndati, hahe vala
twailukile, atuende vali otyilombo tyimwe. Omakihi ailuka, okukahula vali
matunda amwe.
22: Um
Rapaz Pastor
E do mesmo que se trata. Um rapaz foi ao pasto. Ao
pastorear, passou por baixo de uma figueira brava. Encontrou aí uma ave que
estava a comer figos. Depois de a ter visto, o pastor pega no arco para a
frechar. Ao atirar para ela, errou-a várias vezes. Continuando assim a atirar,
o rapaz põs-se a cantar: Na verdade, o meu pai costumava dizer: No meio das
moitas não se armam laços, há lá um passarinho muito especial, traz um
farrapinho na cauda e tiras de pano no bico. Atirou mais duas flechas errando
novamente. Passou a cantar mais uma vez a sua cantilena. Tornando a
experimentar, sempre picou a ave. Disse então: Vou assá-la ali onde está a
levantar-se uma coisa cinzenta. Ao chegar perto de uma fogueira deu com um
monstro. Afinal era ali a casa dele. O monstro disse ao pastor:
—Meu netinho, dá-me
o teu pássaro para o assar! O pastor respondeu: Avôzinho, entrega-me a tua
viola para eu tocar um pouco. O monstro pegou na viola e entre-gou-a ao pastor.
Este pôs-se a cantar: Terlim, terlim, terlim Passarinho meu esturra! Esturra,
para dar uma lição ao monstro! Quando este deu pela alusão, perguntou ao rapaz:
—O que estás ai a cantar? Respondeu o rapaz:
—Canto uma cantiga que os meus pais me ensinaram. E ele
continuou a tocar a viola. Querendo ir-se embora, o rapaz disse:
—Avôzinho, entrega - me agora o meu pássaro, eu quero ir
para casa. Resposta do monstro: Não vês este pedaço de carvão? E a tua ave que
ficou queimada. —Mas na verdade o monstro mentiu. Pois a ave não fci posta ao
fogo e o papão a tinha devorado, quando ao tocar a viola, o rapaz se distraira.
Entretanto o monstro pôs ao lume uma grande panela de carne, para ele e os
outros que andavam à caça, virem comer. O pastor cheio de ira por o seu pássaro
ter sido devorado, agarrou uma lagartixa e disse:
—Vou lançá la àtua panela' O Monstro protestou: Não faças
isso! —Mal tinha acabado de falar, o rapaz colocou ao monstro uma ventosa na
boca e outra no ánus. Este morreu. Morto o papão, o moço tirou carne da panela
dos monstros e foi se. Os outros, ao regressar da caça, vinham a cantar assim:
Trouxemos lenha abundante! Lenha seca e partida! Mbwangala, mbwangala! Uma vez
juntos à casa, quando viram o companheiro morto, aquele que tinha ficado em
casa para cozinhar, e sem saber o que se tinha passado, um deles exclamou:
—Faleceu por ter
comido carne em excesso; Os outros contestaram: Não é isso. Mas é melhor nós
deixarmos esta terra e irmos construir outro acampamento. Sairam dali e
embrenharam-se noutras florestas.
Narrador:
Francisco, de 22 anos de idade, filho de pais Muilas. Escrito por Carlos Mário.
Missão do Munhino, Janeiro de 1968. Língua: Nyaneka
23:
Ekisi No Nehova
Ekisi lalya omukulukadi; omunyeumbo waye Hengobe, okana
kavo Nehova. Ekisi esi lalya-po ina, lo leuya vali talipula:
—Hengobe okwaya peni? Okakadona takati:
—Akahambula omakuva n'omaonga. Talipula:
—Omakuva n'omaonga taaningi sike? Ko: Otaatu ekisi lalya
meme. —Ekisi lalya nyoko opei lili? —Ame kandisi nganga ove lie omukweni eli
m'osana. Taliti: —Nehova yeulule-nge, tuye tulipopife! —Oñu yovañu itaiyeululwa
nena. Lapanuna oñu, lo taliti:
—Pe-nge osikuvila! Ko: —Ahauwe! —Sapu handikuli-po!
Talipewa eheke adise, talidili-po. Taliti:
—Tuye m'eumbo! —Vo tavai m'eumbo. Takateleke ombelela. Lo
taliti: Ombiya yovañu itaitulwa? Lo taliitula, lo talili-po ombelela aise. Laya m'okatala
lakaomba. Taliti:
—Nehova, ila utale-nge ena dange, oikoko n'onyengele.
Kakufa po imwe! Lo: —Kokota; —Takakokota, tali nde takakungu. Hengobe esi ea,
wahanga okana inakauhala-po nawa. Tati: —Oike waninga? —Ondalifwa oikoko
k'ekisi lali omu. Omumati, edina laye Neñhete, omumwaina waye mongula esi kwasa
tati:
—Ame haifyalamo, ndidipae ekisi hulimonifa oihuna ondenge
yange. Ye taupike eonga laye k'emanya, atale-ko konima okutilyana se-se.
Talondo m'okahavava omu hamukala ekisi. Ekisi leuya p'oñu. Talipula Hengobe
nganga omu eli, taliti:
—Hengobe openi aya?
Ko takati: Nditwile oulia va tate ñe vakakonga. Taliti: Nehova yeulule-nge!
Nehova tamwena. nde elituka. Taliti: Nehova, ame totuku? Takayolo ongadya. Lo
lapanuna ombwidi yoñu. Ko takatale omukulu atila, alonda k'okahavava. Esi
katala nokutia omukulu okwatila, takati:
—Ombelela omo ili m'ombiya-mo. Lo tali ombelela aise
yali-mo. Laya m'okatala omu lakala sito. Neñhete elihuhwaela. —Taliti:
—Osike tasiningile-nge omeva? Ko: Okangwa, twatulikile
k'omeva ehuhwa. Ekisi esi lafinwa ena, tali engobe. Hengobe esi euya vali
okwahanga okana keli ngasi oñhela. Ye tati: —Meñ'ove Neñhete, oike waefa okana
takalifwa ena? —Eima eli laile apa olinene, italidulika nande okudipa! Hengobe
tati:
—Nena ame
handifyala-mo. —Lo leuya talipula: —Hengobe omo eli? Ko takelituku —Ahala
okulia okana, tekatata m'omukala. Lo lasakena na Hengobe. Taliyolo, taliti:
—Hengobe, kaume kange, wauhala? —Ye takufa eonga, telikutula
omunino, telitwala k'oluvanda. Neñhete esi taende m'oluvanda, okuliwete lili
m'oluvanda, tafaduka-po; okusi lo lina omwenyo. Okakadona takatu, ko takai
k'ekisi takelidenge k'omayo. Lo lapenduka, lo talikali-po. Hengobe esi euya,
kwahanga okana m'eumbo kake-mo. Ye tasikula omadi oku yayuka, atale apa kwali
ekisi. Kalipo vali. Telikala m'omadi. Okwahanga omakisi eli avali tasasele
eñangu. Ye tapuia: —Inamumona ekisi laenda apa lina ombaba k'omusila? —Omakisi
taemupwilikine. Ye tati:
—Handimudipa! Tongeni apa paya ekisi. —Opo layuka-ko! Ye
telisikula. Okwahanga omakisi mahapu. Tatale-mo... omo eli. Ye tati:
—Makisi ileni muñuke omani, ndi- ou ena embaba k'omusila.
Omakisi aese taañuka, taati: —Ame hina ombaba k'omusila! Lo lahuninwa lakuta
unene, sasi lalya okana. Taliti: —Itaidulu okuñuka omani, sasi ndimufimba.
Hengobe tati:
——Lo lañuka, lo lesipun- dula-ko (k'omani). Ye Hengobe
telidipa vali, tatande- -mo okana kaye.
23: Um
Monsiro E Nehova
Um monstro devorou uma velha; o seu marido chamava se
Hengobe e a filha deles Nehova. O monstro depois de ter comido a mãe,
apresentou-se novamente e perguntou: —Para onde foi Hengobe? —A filha
respondeu:
Foi forjar machadinhos e zagaias. —Para que servem esses
machadinhos e zagaias? Ela: Para matar o monstro, aquele que devorou a minha
mãe.
—Para onde foi o monstro que comeu a tua mãe?
—Não sei se és tu ou outro que se encontra na savana. Ele:
Nehova abre-me a entrada da cerca para eu conversar um pouco contigo!
—A entrada de gente não se abie hoje. O monstro então abre
a entrada à força e diz:
—Dá-me farinha molhada! Ela: —Não dou.. —Sendo assim vou
devorar-te a ti! Recebe então uma grande porção de areia. Come-a toda e diz:
—Vamos para dentro
da cerca! A rapariga põe-se a cozinhar carne O monstro pergunta: Não se destapa
esta panela de gente? Ele tira a tampa e come a carne toda. Feito isto vai
des-cansar debaixo do estrado e diz:
—Nehova vem catar-me as pulgas e os lagartos grandes e
pequenos. Tira um para ti e trinca-o! A rapariga trinca e come mas, logo depois,
vomita. Hengobe ao chegar à casa, nota que a filha está incomodada. Pergunta:
—que aconteceu? —Um monstro que entrou aqui dentro
obrigou-me a engolir um lagarto. rio. No dia seguinte o irmão de Nehova chamado
Neñhete diz:
—Eu hoje não saio daqui para ver se mato o monstro que fez
diabruras àminha irmã. Vai afiar a zagaia na pedra. Ao levantar a cara vê uma
coisa avermelhada diante de si. Sobe para cima de uma velha cubata, ao pé da
qual, o monstro costuma descansar. Este apresenta-se então à entrada do cerco e
pergunta se Hengobe está ou encontrando se ausente, para onde foi. Nehova
respondeu: Estou a pisar o grão de meu pai que foi à caç.a. Diz o monstro:
—Abre-me a entrada! A rapariga fica na mesma e profere um
insulto obsceno dirigido ao monstro. Este:
—E a mim que insultas? A rapariga dá uma gargalhada. O
monstro força então a entrada. Nehova procura o irmão e repara que ele se tinha
refugiado em cima de uma cubata velha. Tendo assim verificado que o irmão se
esquivara, ela disse ao monstro:
—Há carne nessa panela. Ele come-a toda e retira-se para
debaixo do estrado onde costumava descansar. Neñhete cheio de medo, larga
urina.
—O monstro exclama:
—Que é isto que está a pingar água? Responde Nehova: E água
para as galinhas que pusemos ali num caco. O monstro depois de tor exigido que
Nehova lhe catasse novamente as puìgas, foi devorar bois. Quando Hengobe
regressa a casa encontra a filha no mesmo estado que no dia anterior; Pergunta então:
—Ó rapaz, porque toleraste que a pequena fosse obrigada a
comer pulgas? —Aquilo que esteve cá em casa, pai, é um monstrengo muito grande
que não se pode matar assim tão fàcilmente. Hengobe responde:
—Hoje sou eu quem
vai ficar de guarda. —O monstro torna a apresen-tar-se e a perguntar:
—Hengobe está? A rapariga insulta-o novamente. O monstro
quer então devorá-la e perse-gue-a pelo corredor no meio da paliçada. Nesta
altura dá com Hengobe. Mas o monstro põe-se a rir e cumprimenta-o:
—Amigo Hengobe, passaste bem a tarde? —Este toma a zagaia e
trespassa-lhe a garganta. Depois pega nele e leva-o para o caminho da entrada
do cerco. Neñhete ao passar por lá e julgando que o monstro estava vivo, foge
pressuroso. No entretanto Nehova que estava ocupada a pilar, larga o trabalho
pain ir dar umas pancadas nos dentes do monstro. Mas este ressuscita e a rapa
riga é devorada. Quando Hengobe volta, dá pela falta da filha. Segue então as
pègadas do monstro. Finalmente encontra dois deles na “chana? que estavam a
apanhar “sardinhas? com as mãos. Pergunta-lhes:
—Não vistes um monstro que traz uma concha na cauda? —Estes
limitaram-se a escutar. Diz ele:
—Falai, senão eu mato-vos! Dizei para onde foi o tal
monstro! —Foi para aquela banda. O homem vai seguindo e encontra um grupo
deles. Olhando de perto, repara que o tal estava no meio deles. Acrescenta
então:
—Monstros vinde cá e saltai sobre este pau com galhos (uma
espécie de escada) para ver quern de vós traz conchinhas na cauda. Todos os
monstros saltam e dizem:
—Eu não tenho concha na cauda! Aproxima-se então o tal (ou
a tal) em último lugar. Está muito cheia, porque devorou a pequena; Diz ela: Eu
não posso saltar porque estou grávida. Hengobe insiste:
—Faze um esforço! —Saltou. Hengobe atira com ele ou ela ao
chão e mata-o pela segunda vez. Finalmente abre-lhe a barriga e liberta a filha.
Narrador:
Pedro, casado, natural do Cuanhama. Ditado algures no Cuanhama em 1927. Língua:
Cuanhama. Este conto é tipicamente Cuanhama, não tanto nas linhas gerais, mas
na caracterização dos personagens que manifestam valentia verdadeira ou
presunçosa, ao mesmo tempo que ironia, ora fina ora mais cáustica. O tema de
afiar zagaias e uma interrogação sobre o motivo desta acção faz parte de um
diálogo, entre um rapaz e um monstro, mas com maior desenvolvimento, dum conto
publicado por Hauenstein: “Le petit Garçon et le Géant?
C Estorias Da Vida Quotidiana
24. Ovakai
vahombolelwe ombanda
Ovakai ava vahombolelwe ombanda. Tyapu umwe wakana,
wafila-po omona. Etyi afila-po omona, wafala n'omumbanda watyo. Se walupula
onongombe, waya wakanthita. Etyi akanthita, ye ina yatyo tateleka, okulya;
teleke, teleke, ye tape omona, ati:
—Tambula okulya, ulye! —Omona etyi takwata m'okulya, alye,
ye wapita k'okalundu, wakapola omutwe wa ina. Otyo tandimbi tati: Tala omutwe,
tala omutwe! Tala omutwe wanyoko, kauvindwa! (bis) Tyapu okulya, kena okulya
vail. Ye teutwala omutwe ou, ye tali-po okulya oko. Namumbai, namumbai haityo
nô. Hono mualolu se hayongola omona wae okuti: Omona wange ou tahoko nâ,
otyityi? —Ati:
Ai, walye. Okulya tali tupu. Etyi atyimuhokefa nâ, ame
hityindi. Okupula omona tupu, ati: Ungwe, etyi tyikuhokefa tupu otyityi? Ati:
Tate, ngotyo walupula
onongombe okukanthita, meme hateleka okulya. Ye tyapu tamphe.
Takapola omutwe wa meme k'okalundu hati: “Tala omutwe wanyoko, kauvindwa! “Ame
okutala k'omutwe wa meme, tyapu hin'okulya vali. Hati:
Nohono nô, ngotyo walupula onongombe, holamena nô okutala.
Hakulupula onongombe ondo? Ye kuna hatakondoka-ko, hataholama m'ongumbu? —Etyi
aholama m'ongumbu, ye tateleka okulya omukai ou, tape omona. Te tai k'okalundu,
takapola omutwe. Hati n'okundimba:
Tala omutwe, tala omutwe! Tala omutwe wanyoko, kauvindwa!
(bis) —Omona m'okulya tupu, wayeka-mo, ye tandimbi: Tala omutwe, tala omutwe!
Tala omutwe wa meme, kauvindwa! (bis) Se hakuya? Ye etyi atia omukolo wa se, ye
tatopoka vali atwale omutwe ou k'okalundu. —Ondele ya ina nkhwali yakwatefa.
Hati:
—Namumbai, namumbai okuninga omona wange okumuhonga-honga!
Se kuna hateuya? Hawahangwa, wakakatelwa n'okuvoko k'omutwe wae? Ha kumuveta,
nkhwali hakumuveta p'omuenyo? Tyapu haankhia? Hakumutwala k'okalundu? Tyapu
wafifilwa. Lwapwa!
24: Um
Homem com duas Mulheres
Duas mulheres eram casadas com um homem. Uma morreu e
deixou um filho. Este filho ficou a viver com a segunda mulher. O pai fez sair
o gado e foi pastorear. Enquanto o pai está nos pastos, a mulher faz comida.
Depois dá-a à criança e diz:
—Toma lá e come! —Quando o miúdo se dispõe a comer, a
mulher vai à campa da outra, tira a cabeça da mãe do rapazito e diz cantando:
Olha, cá está a cabeça da tua mãe, com o penteado desfeito,
desfeito! (bis) O miúdo já não come. A mulher leva a cabeça para a campa e depois
vem comer. Assim procede esta mulher dias seguidos. Em certa altura, o pai
repara que o filho está a ficar magro e diz:
Porque é que o meu filho está a emagrecer tanto? Resposta
da mulher: Não sei. Comer come; ignoro o que o faz emagrecer. O pai pergunta
também ao filho: o filho, porque estás a ficar tão magro? Ele responde:
Pai, assim que sais com o gado para o pasto, a madrasta faz
comida e dá-me de comer. Mas, no mesmo instante vai ao cemitério buscar a
cabeça da mãe e diz: “Olha para a cabeça da tua mãe! E claro que, depois de ter
visto a cabeça da mãe, já não me apetece comer. E acrescentou: Hoje depois do
gado ter saído esconde-te a espreitar. O pai fez sair o gado. Logo a seguir
volta do pasto e esconde-se atrás do cercado. Estando assim escondido, a mulher
faz comida e dá-a ao miúdo. Vai ao cemitério, tira a cabeça e diz, cantando:
Olha, cá está a cabeça da tua mãe, com o penteado desfeito,
desfeito! (bis) A criança deixa a comida e põe-se a cantar também: Cá está a
cabeça da minha mãe, com o penteado desfeito, desfeito! (bis) O pai
aproxima-se. Ela, ao ouvir a tosse do homem, põe-se a correr para levar a
cabeça à campa. Parece que a alma da mãe vem agora em auxílio. O homem fala:
—Todos os dias estás a meter medo ao meu filho! O pai
chega-se então e ela é apanhada em flagrante. Uma vez presa pela cabeça, toca a
bater-lhe, a bater-lhe em sítio vital. Ela morreu. Levaram-na para o cemitério
e deitaram-lhe terra por cima do corpo. Acabou o conto!
Dados
biográficos e outros como no N°20.
25:
Omukai omulemi
Omukai omulemi weya k'ovoina ivi okupila. Omukai ou ankho
una omona uhetavela etyi ina apopia. Kumbi limwe ina wakalima, n'omona ai nae.
P'okulima omona weya m'etemo lya ina. Omona utiwa Masangu. Ina nokuti:
—Masangu kala okoko! —Omona waanya. Iya ina m'okuenda
okulima, m'otyiponyo atyoko omona p'omunyino n'etemo. Iya pane ina, etyi ankhia
ouoma, apolo otyimuti, atopekenya natyo ovinthoka vivali vyomona wae. Emupolo
okuveleka m'omuongo. Etyi atalatalako, omona katutila vali. Elipake m'ondyila
yo k'eumbo. Etyi ehika k'eumbo, wavasa ina ivi. Ou ati: Masangu, ama-ko! —Ina
ati: Una uvela omutwe. Uvela otyindongo tyo k'omuenyo wovava. Ina ivi emuyeke.
Etyi se eya na e apaleka okukukwinya omona okuti:
—Masangu, ama-ko! Ina ati ñgo nkhele: —Masangu uvela
omutwe. Kavele ekolokolo lya luvanda, otyindongo tyo k'omuenyo wovava? Ina ivi
etyi ankhia onyengo, omona p'okumupola m'omuongo waina, omutwe wahomboka-ko
k'omapepe. Omulume okutala omona wankhia. Ina aihena wavo. Omukai ou avemuloya.
Ankhi, ngetyi aipa omona wae. Lwapwa.
25:
Uma mulher gravida
Uma mulher grávida vem visitar a sogra. Esta mulher tern
uma filha muito desobediente. Um dia a mãe foi trabalhar no campo. A filha
também foi. Quando a mãe começou a sachar a rapariga foi-se colocar perto dela.
Esta filha chamava-se Massango. A mãe disse: Massango vai ficar mais além! Mas
a filha não quis obedecer. Assim aconteceu que a mãe, continuando o seu
trabalho de enxada feriu, inadvertidamente a filha no pescoço. Neste momento, a
mãe cheia de medo, pegou numa estaca para fixar a cabeça ao tronco. Embrulhou o
corpo num pano, a fim de o transportar às costas. Ao olhar de mais perto, viu
que a pequena estava sem vida. Pôs-se a caminho para casa. Tenho chegado a
casa, encontrou lá a sogra. Disse esta: Massango, vem cá! Respondeu a nora:
—Ela tem dores de
cabeça. O seu mal foi um barranco no caminho da entrada da cerca; por causa dos
bredos pôs a vida em perigo. A sogra (não entendendo bem) ficou calada. Quando
chegou o pai, quis igualmente saudar a filha, chamando por ela: Massango, vem
cá! A mãe respondeu novamente:
Massango tem dores
de cabeça; o mal dela foi um barranco no caminho da entrada da casa; por causa
dos bredos “levou a vida para a água?. A sogra irritada, tirou a criança das
costas da mãe. Ao fazer assim, a cabeça separou-se dos ombros e caiu ao chão. O
homem, vendo que a filha estava morta e sabendo que a mulher não tinha parentes
próximos, deu-lhe um tiro. Assim morreu, por ter sido a causa do falecimento da
filha. Terminou o conto!
Narradora:
Matilde Kalefandu de 55 anos de idade, de origem Muila. Escrito por Carlos
Mário, Missão do Munhino, Janeiro de 1968. Língua: Nyaneka com três vocábulos
em “Umbundu?. A segunda parte da resposta enigmática que a nora dá à sogra,
depois de regressada do campo com a filha às costas, levou-nos a inquirir se as
palavras proferidas de facto não tinham sentido, como parecia e afirmava quem
fixou a narrativa por escrito. Mas, já que nessa frase ocorre o vocábulo ovava,
(água), muito conhecido e pertencente à língua Bunda (Umbundu), fomos
naturalmente induzidos a interrogar a Monitora escolar desta missão à qual já
nos referimos. Afinal, o mesmo conto existe igualmente naquela etnia e o
acontecimento trágico nele contido é narrado com muito maior precisão. Uma
pequena rapariga que acompanha a mãe ao campo, é muito gulosa de uma erva
chamada Ondongo ou Otyindongo, com que se faz um esparregado de excelente
qualidade. Por isso, ela está a apanhar o tal legume espontâneo com grande
ardor, sem se afastar de ao pé da mãe. Esta, entretida a sachar, repreende-a
várias vezes, mas em vão. A filha “mete-se mesmo entre as pernas da mãe? e
dá-se então a fatalidade, tanto mais fàcilmente que a mulher não pode reparar
na filha nesta posição. A locução “deitar a vida na água? É proverbial para
dizer: “não ligar importância à vida?. A pena capital, executada de uma maneira
instantânea, parece-nos suplício muito cruel e injusto, mas é bom não esquecer
que o que se considera nestes casos entre os bantu, não é tanto a culpabilidade
do “criminoso?, mas o facto material da perda de uma vida, atribuída a quem
esteve relacionado com esta circunstância. Também é estranho ser o pai a atribuir-se
o papel de carrasco justiceiro, pois se a ordem legal matrilinear estava ainda
em vigor nestas etnias, tal função competia ao tio materno, isto é, ao irmão
uterino mais velho da mãe. Proceder diferente, deve-se com certeza imputar à infiltração
de elementos de cultura portuguesa, ocidental. O mesmo fenómeno é também
referido no conto que se transcreve a seguir. Mas nele a interpretação é diferente.
Como esta narração é de origem Cuvale, isto é, de uma etnia do grupo herero,
entra naturalmente em jogo a preponderância do poder do pai, sobre o do tio
materno, que se verifica neste grupo. Temos aqui dois casos que são um exemplo
do intrincado problema da complementariedade entre o poder destes dois
representantes dos clãs familiares.
26:
Omulume n'Omukai
Opopo umwe. Omulume wali n'omukai, ou ateke. Ou ankho wali
n'omona omuhikwena, esala na he, ina m'okwakana. Omulume etyi apanga
m'oumbumba, ati k'omona:
—Mona wange, mandyitaindya vali omukai umwe! Omona ati:
—Otyili tate, taindya vali omukai umwe; iya ankho
wemutaindya, tuhakale nae m'eumbo lyetu, onthwe matukakala m'eumbo lyae.
Omulume etyi amona omukai ahandele, atila pahe k'omona n'omukai:
—Ame mandyii k'ovilongo kokule. Ove mona musala pano
p'eumbo n'omutekwa-ho. Omona n'omutekwa-he kavelivilile no m'okulitumina
m'eumbo, tyetyi omona ulwete vala okuti ou ha ina wokwemutyitile. Omutekwa-he
etyi atala okuti omona wahanda okupomba unene, asoko okutyinda ovihemba
vyokuipaa omona. Omona m'okwalunga, m'eumbo ailuka-mo akakala m'eumbo
lyavakwavo. Omona m'okwailuka, omutekwa-he katyemupele vali ehimbwe tyokulinga
etyi ahandele. Iya omukai ou ahinangela okuheya onyombo, emuyondye
naekemuhihile-mo. Kumbi limwe omukai ai k'eumbo lyovomonthele yae oku ankho
kukala omona. Etyi emuvasa ati:
—Kalundungu, endyu unthyindikile k'onyombo tukatape omeva!
Omona okutehela, wetyinoñgonoka ati:
—Ame himaende vali. Omukai ou okukuluminya omona ou, ló
atavela, aval. Vehike k'onyombo, ou akwate omona emuyumbe-mo m'onyombo aheya,
ahihi-la-ko, ai k'epata lyae. Etyi pakala okahimbwe, he yomona eya. Etyi ehika.
apulu okuti:
—Kalundungu uli-pi? Omukai ati:
- Katwi... Umphula-mphula omona wove m'“ekonda? lyatyi?
Hamwe uhanda okunepa omona wove?!
- Omulume okutehela etyi tyipopia omukai, atyimupe
okulunga, aí m'okupulapula m'omaumbo ku vakwavo. P'okukondoka k'eumbo,
m'ondyila, weiva okaila kati (okuimba): He ya Kalundungu, lila, lila! Ombunda
veipaka m'eungl, Otyipanda k'evongelo lyondyila. He ya Kalundungu otyo alandula
okaila aka kemutolela. Akemuete apa papakwa omona wae. Ehike p'elangalo lyomona
wae, ou m'elangalo ati ku he:
—Ame Kalundungu. —Okutumbula enyina lyae lyonohande, opo he
etyivile okumunoñgonoka. Pahe ati:
—Tate, tate weya? Ame Namunyonga, ndyili m'ovivelevele, Namunyonga
wokuenda ku tate! Tate, tate nkhele ndyili m'ovipatipati, Namunyonga wokuenda
ku tate! Etyi aputika, ankhindumuka-po pohi n'okuhumbakana he. Etyi vehika
k'eumbo, omulume apolo outa, aipaa omukai. Akala vala n'omona wae.
26: Um
Homem e uma Mulher
Um homem vivia com uma mulher. Morreu esta. Havia tido uma
filha que ficou com o pai, depois da morte da mãe. O homem, passado algum tempo
de viuvez, disse à filha:
—Vou procurar outra mulher! A filha respondeu:
—Está bem, pai, procura outra mulher. Mas, quando a tiveres
encontrado, não vamos viver com ela em nossa casa, ficaremos antes em casa
dela. O homem depois de ter casado com a mulher a seu gosto, disse à filha e à mulher:
—Eu vou ausentar-me para terras longinquas. Tu filha, ficas
em casa com a tua madrasta. A filha e a madrasta não se davam e não se
entendiam nas lidas da casa, pois a rapariga estava sempre a recordar-se que a
outra não era a mulher a quem devia a vida. A madrasta, como sentiu que a
enteada estava a querer impor-se a ela, pensou em procurar drogas para a matar.
Esta, como era esperta, decidiu mudar para a casa de uns parentes. Saída a
rapariga de casa, a madrasta não teve mais ocasião de conseguir o seu intento.
Lembrou-se então de abrir um poço para ver se podia, ardilosamente, fazê-la
cair nele e cobri-la com terra. Um dia, esta mulher foi a casa de gente vizinha
onde morava a rapariga. Ao dar com ela disse:
—Kalundungu, vem acompanhar-me até ao poço, vamos à água! A
rapariga ao ouvir isso desconfiou e disse:
—Não vou. Mas a madrasta insistiu tanto, que a enteada
acabou por concordar. Chegadas ao poço, a mulher pegou na rapariga e empurrou-a
para dentro dele. Em seguida cavou terra, cobriu-a e foi para casa. Passado
algum tempo, o pai da rapariga regressou da viagem. Chegado a casa, ele
perguntou: —Onde está Kalundungu?
A mulher respondeu: Sei lá eu? Por que me perguntas por tua
filha, por acaso queres casar com tua filha?
O homem depois de ter ouvido a resposta da mulher, ficou desconfiado
e foi inquirindo nas casas dos vizinhos. Ao voltar a casa, ouviu a voz de um
passarinho que cantou: Pai de Kalundungu, chora, chora! O corpo da filha
repousa num buraco. O cinto enterraram-no à beira do caminho. O pai de
Kalundungu seguiu o passarinho que lhe tinha falado. Este levou-o até ao sítio
onde estava enterrada a filha. Chegado à campa da filha, ela que estava no
túmulo, dirigiu a fala ao seu pai: Eu sou Kalundungu. E disse mesmo o seu nome
para que o pai a pudesse reconhecer. Acrescentou:
—Pai, vieste? Eu sou Namunyonga estou enterrada até altura
dos peitos! Namunyonga quer chegar até ao pai! Ainda estou presa pelas
costelas, Namunyonga quer chegar até ao pai! Depois de ter acabado de falar com
o pai, ela saiu do fundo do poço e abraçou o pai. Chegados a casa, o homem
pegou na espingarda e matou a tal mulher. Ficou então a viver sòmente com a
filha.
Narradora:
Balbina, de 24 anos de idade, de origem Humbe, vivendo maritalmente com um
homem Cuvale. Escrito por Carlos Mário. Missão do Munhino. Janeiro de 1968.
Lingua: Nyaneka com vocábulos humbe (Nkhumbi). Segundo informaçções de quem
escreveu a narrativa, esta é de origem Cuvale e foi o homem quem a contou à sua
mulher. Há nela dois factos insólitos que, mesmo entre os membros da referida
etnia não deixam de o ser. São os seguintes:
1.°
O homem aceitar ir habitar em casa da mulher que acaba de procurar. Ora em
todos os povos bantu do sudoeste de Angola, o matrimónio é sempre “virilocal?.
2.° A afirmação de, após ter dado cabo da
mulher criminosa, o homem querer viver sozinho com a filha. Aceitando a
resolução como válida para poucos meses é possivel. De outra forma não.
A explicação deste proceder, contrário a todas
as regras tradicionais, é que, nos contos acontecem muitas vezes coisas extraordinárias.
D: Contos Contendo Elementos De Magia
27. Ovakainthu
Vekwana N'okamukulukai
Ovakainthu vekwana vakatiava ononkhwi. Umwe avombo.
Akatumbukila k'eumbo lyomukulukai. Akala-ko omanima etatu. Ati:
—Ndyeivaluka, ndyihanda okwenda k'eumbo. Omukulukal apopya
omona wae utiwa Tyimuku, ati:
—Mutwala k'eumbo lyavo. Ati: E! Ankho vena olunthwi
k'onyima yondywo, ankho lwauvuka. Aende - po, aimbi, ati: Olunthwi lwekula
outeke, Tyisandyi wekula ondila. Lutwala ku Mbombo, Ku Mbombo kulele ise;
Lutwala ku Mbombo, Ku Mbombo kulele ina; Lutwala ku Mbombo. Wepwila okuivaluka.
Olutanga aluyovo, alutandavela. Avaende k'omafo atyo. Ou ull k'efo, omukainthu
uli k'efo. Aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.; Alukatuka na vo m'eulu,
omukainthu na Tyimuku. Aluenda na vo. Etyi vati p'omutwe-kati avatulu.
Avapululukwa m'okahi. Aluuvuka. Etyi vati k'omapeto, ekumbi lyapeuka, aende,
aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.; Aluyovo, alutandavela, alutalala.
Avaende-ko k'omafo. Alukatuka na vo m'eulu. Aluhiki p'eumbo lyomukainthu.
Ovoina avalyepesa:
—Lyepei. lyepel! Mona wange wavombele! Avapolo onongombe
ekwí avemupe, avapaleka vali onongombe ekwí avemupe. Mbulinga omakwi evali.
Aende p'olunthwi aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.. Olutanga
lwatandavela, ng'opo apaka onongombe mbae: K'efo like onongombe onombali, k'efo
like onongombe ononthatu, aeho omafo atyo onombali —ononthatu. Na e mwene
avelama k'efo, aimbi; Olunthwi lwekula outeke, etc., etc., etc., etc.. Etyi ati
p'omutwe-kati apululukwa ñgo apa vapululukilwa p'omuti, oko vatalamene
p'okuenda. Akalisa onongombe, embunwisa omeva. Olunthwi aluuvuka. Etyi eya
aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc., etc., etc.. Olunthwi alutandavela,
onongombe ambuvelama k'omafo, na e mwene. Alukatuka umwe aluhiki k'eumbo. Omukulukai alyepesa,
ati:
—Otyo wapewa etyi? Omukwendye ati: Ya! Nafetwa umwe omakwi
a onongombe, etyi nemutwaila k'ovoina.
27: As
quatro Raparigas e a Velhinha
Quatro meninas foram à lenha. Uma delas perdeu-se. E foi
dar a casa de uma velha. Ali permaneceu três anos. Disse por fim: —Tenho
saudades, quero ir para casa. A velha fala a seu filho de nome Tyimuku, nestes
termos:
—Leva-a a casa da família. Resposta dele: Está bem! Tinham
uma aboboreira por detrás da casa e encontrava-se murcha. Foi ao pé dela e
cantou assim: A aboboreira cresceu de noite, A perdiz cresceu a caminhar. A
aboboreira transporta até Mbombo, até Mbombo onde dorme o pai. Ela leva até
Mbombo, até Mbombo onde dorme a mãe. Ela leva até Mbombo. A filha deles está morta
de saudades. A aboboreira deu rebentos e esten-deu-se. Eles montaram em cima de
suas folhas. Ele em cima de uma folha; a rapariga em cima de outra. Então ele
pôs-se a cantar: A aboboreira cresceu de noite A aboboreira levantou voo com
ambos pelos ares: a rapariga e mais o Tyimuku. E seguiu com eles. Por altura do
melo-dia pousaram. Descansaram a uma sombra. E a aboboreira murchou. Chegados à
tarde, com o sol já inclinado vai ele e canta: A aboboreira cresceu de noite. E
deu rebentos, estendeu-se e en-cheu-se de verdura. Subiram então para as
folhas. Ela levou-os pelos ares. Chegou por fim a casa da rapariga. A mãe faz
ouvir as suas boas vindas: —Benvinda, benvinda! Minha filha que te havias
perdido! —Pegaram lá em casa numa dezena de bois, deram- -nos ao rapaz, e
repetiram nova dezena de bois, tornando a dar-lha. Todos juntos eram duas
dezenas. Ele dirigiu-se à aboboreira e cantou então: A aboboreira cresceu de
noite. A aboboreira estendeu suas hastes, de modo que ele coloca nela os seus
bois: Numa folha dois bois, noutra folha três bois e assim em todas as folhas,
ora dois ora três. Ele próprio se pôs também a cavalo numa folha e cantou: A
aboboreira cresceu de noite. Com o sol a pino, ao meio-dia, descansou outra vez
junto da árvore em que haviam descansado, onde haviam parado à ida. Levou os
seus bois ao pasto e conduziu-os a beber. Murchara entretanto a aboboreira.
Vindo ao pé dela, cantou: A aboboreira cresceu de noite, A aboboreira estendeu
as suas hastes e os bois instalaram-se em cima de suas folhas, assim como ele
próprio. Ele-vou-se pelos ares até que chegou a casa. A velha deu as
boas-vindas, exclamando: —Foi isto o que recebeste? E diz o rapaz: Sim!
Pagaram-me precisamente estas dezenas de bois, por a ter levado a casa da sua
mãe.
Dados
biográficos e outros como no N° 13.
28:
Omumati n'ondila
Omumati wahepulilwa na ina: Ho-tela-ko omuyo! Tyapu ye
katavelele. Wakatela-ko; wakwata endila. Endila etyi lyemumona, taliti:
Ovoso vali n'okupopia, ovonyoko vali n'okulonga vati:
K'okatunda ka Mbangula, Ondila yokuya k'otyiko, Kakutelwatelwa muyo,
Kakundikilwa vinkhisi, Kuna omandila manene Kuna omakusuka omaiso, Kuna omayela
omipolo. Ngupe-mo, kalume! —Tyapu weliupa-mo, welitula p'ofi. Endila lyapaleka
okupopia: vali; taliti: K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. Aliti:
Tyindenge-aila, kalume! Omumati welityinda, okulitwala
k'eumbo. Etyi elitwala k'eumbo, elitula pofi. Alipaleka okupopia aliti
K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. —Tandenge-aila, kalume! Etyi elitanda
aliti vali: K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. —Mphake-po-aila,
kalume! —Fingenge-aila, kalume! —Ngupe-po, lyenge-aila, kalume! Etyi lyapwa
okumulia, yelitunga vali m'eimo. Tyapu m'okuhuma-mo, lyemutandula pokati.
28: O
Rapaz e o Pássaro
Um rapaz foi muitas vezes admoestado pela mãe desta forma:
Não armes laços! Ele porém não quis saber, foi armar e apanhou um grande
pássaro. Ao ver o rapaz, este disse (cantando): O teu pai costumava dizer, A
tua mãe dava-te avisos neste sentido: Na pequena floresta de Mbangula, No
caminho que leva aos barrancos Não se devem armar laços, Nem espetar pausitos,
Há lá grandes aves, Aves de olhos encarnados, E de bicos amarelos. Tira-me do
laço, rapagão! Tirou-o e pô-lo no chão. O passarão tornou a falar: Na pequena
floresta de Mbangula, E acrescentou: Leva-me para casa, rapazola! O rapaz
carregou com ele, levou-o para casa e pô-lo no chão. Voltou a falar o pássaro:
Na pequena floresta de Mbangula, —Abre-me a barriga, moço! Depois de o ter
feito a ave cantou novamente: Na pequena floresta de Mbangula, —Põe-me a assar,
rapaz! —Deita-me sal, rapagão! —Tira-me do lume e come-me, moço! Depois de o
ter comido, a ave tomou novamente forma de pássaro vivo e ao sair para fora,
rebentou o corpo ao rapaz.
Narradora:
Uma de três raparigas Humbes, de 16-18 anos de idade. Ditado: Na Missão do
Chiulu, Junho de 1944. Língua: Dialecto Nkhumbi.
29:
Omukai n'omuloi watyituka Omulume
Ovo umwe. Efwa umwe enene. Pahe vefwa vatyo aveho umwe
vafwa. Omukulukai ou kafwile. Etyi eya p'okuyauka, kwapwa, akwata omuloi umwe
omunene. Omuloi watyo eutyindi eutwala k'eumbo. Tyino ati ndyipole onkhiki,
ndyiutandule, auti:
—Uhanthandule! Mphake-po ombandwa, omphikila m'“onomanta?,
ove k'ombundi oiki-po, “masi? ulupuka-mo. Omukulukai óm'ondywo alupukamo,
p'ombundi aiki-po. Tyino eya, omuloi ówatyituka omulume. Omulume óapopila
omukulukai ati:
—Tyino wanwa wapyaluka, wahatie: “etyi naile k'onohi,
nakwatele omuloi, omuloi watyo watyituka omulume?. Omukulukai ati:
E! Pahe k'omuhuka etyi kwatya, omukulukai watyo wakatyinga.
wanwa unene, apyaluka, ati:
—Omuloi ónakwatele
watyituka omulume! Omulume ou (nthaina, etyi apopya-popya ngotyo k'ovakwavo,
vana avemulingi omukwele okutiwa: wanepwa n'omuioi!), omulume etyi etyiiva,
anumana. K'ounthiki etyi lyetaka, omukai etyi ulele, omulume watyo apinduka-po,
apumphama p'ohi, ahimbika okuimba ovipuka vyae. Watetekela ovifufwa, ati:
Vifufwa aviho vya Tyongolola Viende ongali! Omutenya
utwala! Vimbisi aviho vya Tyongolola, viende ongali! Omutenya utwala! Ovimbwa
aviho vya Tyongolola viende ongali! Omutenya utwala! Nonkhombo ambuho mba
Tyongolola, mbeende ongali! Omutenya utwala! Onongi ambuho mba Tyongolola
mbeende ongali! Omutenya utwala! Onongombe ambuho mba Tyongolola mbeende
ongali! Omutenya utwala! Ovanthita aveho va Tyongolola vaende ongali! Omutenya
utwala! Name mwene, na Tyongolola, ndyiende ongali! Omutenya utwala! Aviho
avikawila m'omeva. Na Tyongolola yatyo na e atyikawila m'omeva. Pahe k'omuhuka,
etyi kwatya, okamukulukai katyo, okupinduka-po, akeho kaliwa n'onona. Okakulukai
oko... Avati:
—Etyi waliwa n'onona ngetyi, otyityi, iya?!... Y'omulume
wove? Ati:
—Omulume wange... ankho nafwile omuloi; pahe omuloi
autyituka omulume. Pahe, etyi netyipopya m'ovanthu, una wapita vali, wakondoka
umwe m'omeva. Kwapwa!
29: A
Mulher E O Bagre Que Se Mudou Em Homem
Pois eram esses mesmos. Uma pesca grande a valer. E todos
os dessa pesca. apanharam peixe. Mas a nossa velha não pescou. Quando estava
para sair da água, pronto! —agarrou um enorme bagre. Ela carregou com esse
bagre e levou-o para casa. Quando se dispunha a pegar na faca e abri-lo, o
bagre falou, dizendo:
—Não me abras! Estende-me um leito de pele seca e cobres-me
com mantas, entretanto fechas a porta, mas tu vais lá para fora. Aquela velha
saiu do aposento e fechou a porta. Ao voltar, vê que o bagre se transformou em
homem. Esse homem dirigiu-se à velha dizendo:
—Quando beberes e te embebedares não digas: “Daquela vez
que fui à pesca, agarrei um bagre e esse bagre mudou-se em homem?. Responde a
velha: Está bem! Ora no outro dia pela manhã, a velha foi dar voltas à cata de
bebida, bebeu muito e embebedou-se, dizendo:
—Aquele bagre que eu agarrei, transformou-se em homem! O
dito homem (pois ao falar deste modo com as outras, elas punham-se a troçar
dela, dizendo-lhe: Casaste-te com um bagrè!), o homem, sabendo disso,
zangou-se. De noite, a horas avançadas, quando dormia a mulher, o homem em
questão levantou-se, sentou-se no chão e começou a cantar nomeando os seus
pertences. Em primeiro lugar as galinhas: Vós, ó galinhas todas de Tyongolola
Voltai para trás! A penúria os leva. Vós, os gatos todos de Tyongolola, voltai
para trás! A penúria os leva! Vós todos, ó cães de Tyongolola, voltai para
trás! A penúria os leva! Vós todos, ó cabritos de Tyongolola, voltai para trás!
A penúria os leva! Que todas as ovelhas de Tyongolola, voltem para trás! A
penúria as leva! Que todos os bois de Tyongolola, voltem para trás! A penúria
as leva! Que todos os pastores de Tyongolola, voltem para trás! A penúria os
leva! E que eu próprio, que eu Tyongolola, volte para trás! A penúria é quem me
leva! E tudo aquilo se foi sumir na água. E o próprio Tyongolola ele também foi
desaparecer na água. No outro dia, pela manhã, a dita velhota, ao levantar-se,
estava toda mordida de piolhos. A velhota em questão... E disseram-lhe:
—Tu que estás assim mordida de piolhos, que te sucedeu,
então?!... E o teu homem? Resposta dela:
—O meu homem... eu pesquei um bagre; e esse bagre mudou-se
em homem. Mas, como eu revelei o facto, ele foi-se outra vez, voltou outra vez
para a água. Acabou!
Dados
biográficos e outros como no N.° 7.
30:
Omukai Epongo
Opopo umwe. Omukai epongo wehena eumbo apa akala, ankho
ukala mei lyomuti. Omukai ou m'oluhepo luna olunene, kumbi limwe weya
m'okukambelwa n'ovilungo. Iya nthiki imwe ahinangela okutunga otyongo. Etyi
amana okutunga otyongo otyo, ai m'ondongi okukafwa onohi. a na alinge ondalelo
yae yok'ongulohi. Iya, etyi ehika m'ondongi, ahimbika okufwa. Efwa olyo lyakala
ehimbwe ngesa otyitenya atyiho; otyo nkhele n'okahi na kamwe ehenekwate. Etyi
eya m'okuhanda okuliyengwa, ngapa ati uyindya otyindyalala m'omeva, aye k'eumbo,
utehela k'ondindi otyindyalala kuivala okupuma. Ati: Iya! Ohi yange. Ohi oyo
ankho omuloi umwe omunene weya-mo. Iya p'okuipola-mo m'otyindyalala, auti:
—Nkhwate nawa! Omukai weupola-mo nawa, ngetyi mwene uhanda.
Ehike p'okapata kae, pei lyomuti wae, p'okuhanda okutula, ohi aipaleka okuti:
Nthule nawa!
—Omukai ngotyo ñgo alinga p'okutetekela. Eya
p'okuitetela-po na apake-po ongolovia yae. ohi aiti otyivali: —Nthete nawa! P'okuya
okuilya haityo ñgo aiti: —Ndye nawa! Iya, p'ehimbwe opo, ohi ailityitula
omunthu, aitila omukai:
—Pahe ove molingi omukai wange, mandyikunepe-po!
Wehetyipopile munthu. Iya tyina nekunepa, mandyikutwala m'epata lyange, epata
limwe enene. Omu ndyina olumono olunene: K'onongombe, k'onongi, k'onofufwa na
vimwe vali. Natyimwe tyakamba-mo. Ongo ndyikutolela nokuti: Kumbi ndyikutuma
tyimwe, wahandalule okuti: “Otyihi napolele m'omeva, pahe tyinthumaina unene!?
Ankho otyo upopia ngotyo, oluhepo lwove malukukondokela, okala ngetyi wall ale.
Iya omukai ou atavela okunepwa n'ohl oyo akwatele m'omeva, elityitula pahe
omnthu. Etyi otyinepo tyalingwa, omukai ou watala-ko vala etyi omuti wae apa
ankho akala wanyima-po. Pena pahe epata enene, ngetyi tyapopile ohi. Omukai
ankho wokwahepa, pahe walinga omunañgana; olumono lwemulingila olunyingi. Nava
ankho vehemuhanda, pahe vahimbika okuya k'epata lyae. Omukai ou wakala himbwe
n'okwa-nepwa n'ohi afwile m'omeva. Kumbi limwe omulume atumu tyimwe omukai. Ou
m'okwehetyiliyile okutumwa ati n'efeno:
—Tyinthuma unene,
ngoti hatyihi nakwatele m'omeva! Ankho walimbwa ondaka yemupopile omulume. Iya
olumono luna alumutundu liwa, ngetyi tyapopile ohi. Omulume etyi eya
m'okunumanena ngetyi apenywa n'omukai, atila omukai:
—Pahe otyo mokala ngotyo, tyetyi natile okuti: “Kumbi
ndyikutuma wahañgoñge?! Ove pahe wetyilingila wina. —Ame pahe mandyi oku
wampholele. Haipo opo omulume atyitukilila ohi ngetyi yali ale potyalutete.
Ati:
—Pahe sala-po
n'oluhepo lwove, ame napita! Ohi aihimbika okukulunguta pohi nokuti
(m'okuimba): Aviho, aviho vya Tyongolola, Viende ongali! Omutenya utwa! Iya
k'otyilie, etyi atyihimblka okukulunguta, okumulandula: k'onongombe,
k'onofufwa, atyiho tyae. Omukai ou m'okulivela vali etyi alinga, no m'okutala
oluhepo lwemukondokela otyivali; otyo alandula-mo m'ohl nokuti hamwe imulingile
onkhenda. Ngwe ohi aiti:
—Pita! Ohi oyo otyo ikulunguta n'ovyayo aviho ló m'eiva omu
yamakwatelwe. Etyi kaimoneka vali, omukai ou akondoka pei lyomuti wae, apa
ankho akala ale. Omukai ou wakala omanima omanyingi; otyo ñgo ahinangela k'ohi
yae yemupeie eputuko enene. Etyi tyeya okumulinga navi k'omutima, apaleka
okutunga otyindyalala otyikwavo nakahetekele-mo tyivali m'eiva lyatyo, atale
ankho nkhele ulihaka-ko k'ohi yae. Omo ehimama otyitenya atyiho m'omeva
n'okukuakua. Ongo atyiho welipwillsa vala. Ohi yae keikwataile vali. Atyimupe
okukondoka p'okamuti kae, n'okwelivelavela unene, etyi ehetavelele ondaka yohi.
Ngopo akala n'oluhepo lwae n'ondyala yae Ió pahe tyemutwala k'ononkhia.
30:
Uma Mulher Pobre
É desta que se trata. Havia uma mulher pobre que não tinha
onde morar. Por isso vivia por baixo de uma árvore. Sofrendo assim de grande
pobreza aconteceu faltar-lhe o conduto. Um dia resolveu fazer uma nassa.
Acabada a nassa vai ao rio para apanhar peixes, a fim de os preparar para o
jantar. Depois de ter chegado ao rio, pôs-se a pescar. Esta pesca foi muito
demorada e, apesar de ter passado o dia todo nesta faina, não conseguiu obter
um só peixe. Quando já estava para desanimar e levantar a nassa para voltar à árvore,
notou que no fundo da nassa estava alguma coisa a agitar-se. Óptimo, disse ela.
Cá está um peixe. Ora este peixe era um grande bagre. Quando estava a sacar o
peixe da nassa, este falou e disse:
—Pega com jeito! Tirou-o para fora com cuidado, conforme a
recomendação. Chegada à cubatazita, debaixo da árvore, ao querer colocar o
peixe no chão, este repetiu:
—Trata-me com jeito! —Assim fez a mulher como da primeira
vez. Ao dispor-se a cortá-lo para o meter na panela em vista da refeição, o
peixe falou novamente:
—Corta-me com precaução! Quando chegou o momento de comer,
ele tornou a recomendar:
—Come-me com cuidado! No mesmo instante o peixe
transformou-se em homem que disse à mulher:
—Tu agora passas a ser minha esposa, vou casar contigo. Não
o digas a ninguém! Uma vez casados vou-te levar para os meus aposentos que são
muito espaçosos. Ali guardo os meus bens, muito numerosos: bois, cabritos,
galinhas e outros. Não há falta de coisa alguma. Agora vou recomendar-te uma
coisa: Quando eu te mandar fazer algum trabalho, não me vás repreender e dizer:
“O peixe que tirei da água, revelou-se um grande mandão?! Se falares desta
forma, toda a tua miséria cairá novamente sobre ti. Ficarás como dantes. A
mulher consentiu no casamento com este peixe que apanhou dentro da água, o qual
se transformou agora num homem. Depois da cerimónia do casamento, a mulher
observou que a árvore debaixo da qual morava foi desaparecendo e no mesmo lugar
surgiu então um conjunto de muitas cubatas, conforme o peixe tinha predito. A
mulher, de pobre que era, passou a ser uma grande senhora que possuia muitos
bens. E aquela gente que não gostava dela, começou a vir visitá-la a sua casa.
Assim viveu a mulher durante muito tempo em companhia do peixe que pescara. Um
dia o homem deu uma ordem à mulher. Esta, como não estava acostumada a receber
ordens, disse com desprezo:
—Este diabo dá muitas ordens e não se lembra ser o peixe
que eu apanhei na água! Tinha-se esquecido da recomendação feita pelo homem.
Nesse momento toda a riqueza desapareceu, conforme tinha declarado o peixe.
Pois o homem irou-se, por ter sido aviltado pela mulher e veio a dizer-lhe:
—Agora passas a viver assim! Eu bem te tinha prevenido que
não resmungasses, quando eu te desse uma ordem. Tu agora procedeste assim,
sabendo o que fazias.
—Eu neste momento, volto para o lugar donde me tiraste.
Neste instante o homem transformou-se num peixe, como tinha sido anteriormente.
Disse à mulher:
—Fica-te por aqui, com a tua miséria, eu vou-me embora! O
peixe pôs-se a mexer e a cantar: Tudo quanto pertence a Tyongolola que retroceda!
A penúria fica a apertar! De facto assim que o peixe começou a agitar-se. todos
os bens: bois, ove-lhas, galinhas, casas, tudo se sumiu. A mulher ficou muito
arrependida do que fez, quando viu que as misérias de outrora surgiam
novamente. Por isso ela foi atrás do peixe para ver se se amerceava dela. Foi
em vão. O peixe exclamou:
—Vai-te embora! Ele continuou a movimentar-se e levou os
seus haveres para o fundo da água, donde tinha sido tirado. Como o peixe nunca
mais apareceu, a mulher voltou para baixo da árvore onde vivera anteriormente.
Passou esta mulher assim, muitos anos, a lembrar-se do peixe que lhe tinha
trazido grande fortuna. Esta coisa acabou por lhe fazer mal ao coração. Por
isso fez novamente uma nassa, para experimentar mais uma vez no pego a ver se
encontrava o seu peixe. Passou um dia inteiro na água a tentar e a lamentar-se.
Porém nada conseguiu, senão apanhar uma grande estafadela. Não foi capaz de
caçar o peixe. Assim resolveu voltar para a árvore, estando sempre muito
arrependida por ter desobedecido ao peixe. E ali viveu na sua penúria até
encontrar a morte.
Narradora:
Josefina Tembo, casada de 30 anos de idade, de origem Humbe. Escrito pelo
marido, Carlos Mário, na Missão do Munhino, em Janeiro de 1968. Lingua: Nyaneka.
Das duas narrações ora transcritas existem mais duas versões de que temos
conhecimento; uma já publicada no III Vol. da “Etnografia? 69 . Foi-nos contada
por uma mulher da etnia Cuvale. Nela porém, o personagem principal não é um
peixe transformado, mas um osso, um ser desanimado portanto, exigindo por isso
uma força mágica maior para se transformar num ser humano. Não se diz de que
animal provém o osso achado pela mulher, mas com toda a certeza, ele deve ser
de um boi, dada a estima extraordinária de que gozam estes seres entre os
Cuvales. A outra variante conservou-se inédita, apesar de ser a mais bem
articulada das quatro. Facto que não é para admirar porque a “contista? possui
um talento extraordinário para reproduzir as narrativas constantes do
reportório de sua mãe. Aliás algumas já foram publicadas. A rapariga que foi
aluna de catequese em Vila Arriaga, onde foi baptizada. chama-se Beatriz
Tyilombo e é filha de pais Gambos (Ngambwe). Indicamos agora as principais
divergêncies com as outras versões. A mulher que pesca o bagre é sarnenta e as
companheiras não querem que ela as acompanhe à pesca. Porém, as outras nada
apanharam depois de um dia inteiro de trabalho fatigante e ela levou para casa
um bagre de dimensões fora do vulgar. Ao virem para casa aquelas expulsaram a
sarnenta do conjunto das habitações, não sem terem construído, muito à pressa,
uma pequena choça para ela. Foi nesta, que o bagre se transformou em homem e
contraiu matrimónio com a mulher. O homem porém, não dormiu durante a primeira
noite, mas mandou vir um “quissânji? e se pôs a cantar, chamando pelos seus
numerosos bens. Estes são os mesmos que nas outras versões, aparecem
acrescentados de escravos e de peças de vestuário feminino para a mulher. Em
seguida é notado que o marido mandou amanhar um grande campo “pelos rapazes?,
não querendo que a mulher tocasse na enxada. Também é dado relevo, ao facto de
os criados fabricarem manteiga. Este produto, como se sabe, quase não faz parte
da culinária destas etnias mas constitui elemento precioso na cosmética
feminina. Em todo o caso, na versão de Beatriz encontra-se bem vincada a dupla
base da vida económica desta gente: a agricultura e a criação de gado. A
leviandade e culpabilidade da mulher em revelar o segredo do casamento mágico e
o castigo imediato —tema universal —também são postos em destaque de forma
muito mais expressiva do que nas outras versões. O respectivo canto de
execração e retrocessão de todas as riquezas, corresponde harmoniosamente à bênção
e ao chamamento das mesmas na primeira fase da narração. E de notar que o nome
do peixe-homem Tyongolola, o mesmo em três versões, parece fazer alusão a este
último acto do personagem mágico. Com efeito, o termo significa “ajuntador?. O
homem, desapontado, corta com a mulher, juntando toda a sua riqueza e abalando
com ela. Por causa deste antropónimo e doutros motivos que seria longo demais
expor aqui, temos a convicção de que o conto é de origem Gambos (Ngambwe).
31:
Okalya-Makunde Na Kalya-Vanthu
Kalya-makunde waenda, waenda, wavasa p'ofika ñgana. Wati:
—Mandyitungila apa. Wapita. Tyino Kalya-vanthu eya apa
pahava mukwavo, opo eya na e okuhava. Etyi avasa-po, ati:
—Mandyitungila apa. Tyina muhuka kutya Kalya-makunde eya,
anthindi-po omunthinda, ati:
—Ndyinthinde-po. Kalya-vanthu tyino eya, ati:
—Ofika inthyole ngatyi! M'ongulo napopile vala okuti
“mandyitungu apa? ... hono paheywa omunthinda? —Amoneka okuheya, heye, heye,
heye, heye, heye, heye... omunthinda aupu. Tyino Kalya-makunde liya, ati:
—Hó! Vakwe! M'ongulo nahaheyele... m'ongulo nanthindile...
hono omunthinda wapwa?!... Kalya-makunde
ahimbika okupakamo ovimuti okutunga, tunge, tunge, tunge' tunge, tunge...
Ahonyeka. Kalya-vanthu tyino eya, ati:
—M'ongulo, vakwe!
naheyele vala omunthinda... Hono omomu muna ovimuti?!... Ofika inthyole ngatyi!
Ahimbika okuvetela, ataleka, ati: —Muhuka ndyiyambela. Kalya-makunde tyino eya,
ati:
—Ofika inthyole ngatyi!
—Akaeta eholi, ayambeka. Kalya-vanthu, tyino eya, ati:
—Hó! Talei; M'ongulo
natile “mandyiya oku-yambela!... Ofika inthyole ei, yandyambelela-po. Pahe
tate! mandyitungu umwe okamutala. —Kalya-vanthu atungu omu-tala, tunge, tunge,
tunge, tunge... omutala ó!... amane. Tyino atunda —ko, Kalya —makunde
upinga-po, ati:
—Muhuka mandyiiluka. Naina ofika yanthungila-ko okamutala.
Aende. Kalya-vanthu, tyino eya, ati:
——Mandyiiluka. Naya! Pahe ombila yaloka. Kalya-makunde
watetekela-mo m'ondywo. Tyino eya ngetyi, weya n'okatupya kae, n'embumba lyae
lyomakunde, n'okambiya, n'onthenda yae yomeva. Watula! Wanthiakana otupya. Otyo
yakwakwata... otyo yakwakwata... otyo yakwakwata... Otyo epumphi. Ombila iloka.
Tyino atehela... ou uivala... tyapi, tyapi, tyapi, tyapi, tyapi, tyapi...
Kalya-vanthu uya, watyinda otyivimbi tyae potyipepe tyomunthu wankhya. Uya
m'ondywo yae. Tyino Kalya-makunde atalela m'omamphana ngetyi... Kalya-vanthu
weya n'otyivimbi tyae p'otyipepe! Ati:
—Ehe! Akati lumwe, m'embumba lyae lyomakunde... tyoya!
N'okambiya kae p'otupya eketelula-po, akapump-hama na ko m'embumba lyae
lyomakunde, ng'omo akapumphama. Kalya-vanthu etyi eya, ati:
—Ehe! Ofika inthyole ngatyi! Vakwe! Ofika yanthiakanena-mo
otupya!... Wapola otyivimbi tyae otyo. Watentheka k'ombanda yomakunde oko, omu
muna omukwavo. Ati:
—Me, iya... Tyino ati kalya-makunde, m'“ekonta? m'embumba
kafwile-mo, ngwe p'ekolo lyae pena okambiya komakunde makakwakwata, wapya
p'onthete... wati ñga okuminya k'omapepe. Ou Kalya-vanthu utema p'otupya. Wati
ngetyi okuminya... Kalya-vanthu ati ñga okuleuka, ati:
—Wo! Hono ndyiti otyivimbi tyitutila, ine ndyiti-wi?!...
Otyo atema, otyo atema... Omukwavo wom'okati wapya n'omuku wokambiya, ati vali
ñga okutuvyuka. Kalya-vanthu ati:
—Mphu; Ovoho nevelile-lile n'ovonyoko; ove hono... ove
motutila?! Kalya-makunde muna m'okati wapya umwe. Atumphuluka, ati umwe...
tu... mphuluku! —Otyivimbi eya etyiyumbu omukwavo p'omateketela. Atyiti pahe na
Kalya-makunde, atyiti na Kalya-vanthu, aveho valupusuka. Kalya —vanthu, tyino
Kalyamakunde umukwai, ati:
—Otyivimbi tyatutila! Akahateka, akahateka, akahateka,
akahateka... Kalya-vanthu kelle-ile umwe vali, ati:
—Otyivimbi tyange tyatutila, ankho otyo tyindandula. Ondywo
ailikala. Tyiti lumwe: Kalya- -makuhde keile vali, embumba lyae lye-salamo;
Kalya-vanthu keile vali, otyivimbi tyae tyesala-mo. Aveho, tyati lumwe:
Kalya-makunde waya nkholo Kalya-vanthu; ou Kalya —vanthu yatyo asoko okuti
otyivimbi tyange tyatutila. Ondywo yatyo ailikala, ei vatungile.
31: O
Papa-Feijões-Frades E O Papa-gente
Papa-Feijões-Frades passeou e encontrou na mata um lugar
jeitoso. Diz ele:
—Vou construir casa neste lugar. Afastou-se. Chegado o
Papa-Gente aonde o outro escolheu, também ele veio a procurar lugar. Chegando
ali, disse:
—Vou construir casa neste lugar. No outro dia pela manhã,
Papa-Feijões-Frades veio, riscou no chão o sulco e disse:
—Deixa-me marcar! Quando volta Papa-Gente, diz:
—Como o sítio gosta de mim! Eu ontem apenas disse “vou
construir aqui?... e hoje está marcado o sulco? —E ei-lo que escava,
escava-que-escava, escava-que-escava, escava-que-escava... até que o sulco
acabou. Vindo ali o Papa-Feijões-Frades, exclama: Oh! Ora esta! Ontem não
escavei... eu ontem só risquei... e hoje todo o sulco está pronto?!... E o
Papa-Feijões-Frades começou a espetar os paus da estacaria da casa, espeta um,
espeta outro, mais estes, mais aqueles... Até que deu a volta. Papa-gente
chegado ao locai, diz:
—Ontem, ora esta! Eu só escavei o sulco... hoje está lá
cravada a estacaria!?... Como este mato gosta de mim! —E ei-lo que ata as
estacas umas as outras e põe a armação do tecto, dizendo: Amanhã vou cobrir com
capim. Vem o Papa-Feijões-Frades e diz:
—Como este sítio do mato gosta de mim! E vai buscar o capim
e põe por cima. Chega o Papa-Gente e exclama: Oh! Ora vede! Eu ontem disse
“virei cobrir com capim?!... Este sitio do mato gosta de mim. Ele mesmo me
cobriu a casa. Ena! Agora vou mesmo construir uma estante de arrumação.
Papa-Gente construiu a estante de arrumação, pau sobre pau, pau sobre pau...
ei-la a estante!... acabou-a. Sai ele do local e sucede-lhe o
Papa-Feijões-Frades que diz:
—Amanhã vou mudar. Afinal este sitio do mato construiu-me
por si uma estante de arrumação. Vai-se este embora. Volta ai Papa-Gente e
exclama: Vou mudar. Vamos a isto! Está agora a chover. O Papa-Feijões-Frades é o
primeiro a entrar no aposento. Aparece ele, traz o seu lumezito, o seu
“celeiro? de feijões-frades, a panelinha e sua cabaça de água. Descarregou
tudo. Acendeu o fogo. Vai fervendo panela... vai fervendo... vai fervendo... E
ele sentado. A chuva cai. Ouve qualquer coisa... alguém que se sente...
chapinha-que-chapinha, chapinha-que-chapinha. E Papa-Gente quem vem,
transportando ao seu ombro um cadáver de um qualquer que morreu. Vem para sua
casa. Espreitando o Papa-Feijões-Frades pelas frinchas... ei-lo o Papa-Gente
com o seu cadáver ao ombro! E diz ele:
—Safa! E vai-se mesmo para o seu celeiro de feijões-frades...
escapa-te! Até a sua panelita, tirou-a do fogo e foi sentar-se com ela dentro
do celeiro dos feijões-frades e aí ficou sentado. O Papa-Gente chega e diz:
—Ora esta! Como este sitio do mato gosta de mim; Olhai para
isto! Este sitio do mato preparou-me fogo!... Tirou do ombro aquele seu
cadáver. Pô-lo ali em cima dos feijões-frades, onde o outro se encontra
escondido. E depois diz:
—Pois, “minha mãe? Ora o Papa-Feijões-Frades ao agitar-se,
porque não está à vontade no celeiro, e ainda tem junto ao peito a panelita dos
feijões-frades que está a ferver, começou a queimar-se... e fez assim a mexer
para cima os ombros. Entretanto o Papa-Gente está a activar o fogo. O outro a
mexer de certa maneira... Papa-Gente vira-se para trás e exclama:
—Oh! Vou desta vez dizer que o cadáver ressuscita, ou quê?!
E atiça o fogo e torna a atiçar... O outro lá de dentro está a queimar-se com
os vapores da panelinha, e fez assim um jeito a endireitar-se. Exclama o
Papa-Gente:
—Some-te! Comi-os, os da família de teu pai e da tua mãe; e
tu hoje... tu vais ressuscitar?! Papa-Feijões-Frades, lá dentro está queimado
deveras. E endireitou-se com violência fazendo (com os ombros)... pumba...
catrapuz! Vindo a atirar com o cadáver por sobre as espáduas do comparsa. Pois
sucede então que quer o Papa-Feijões-Frades, quer o Papa-Gente, saem ambos de
rompante. O Papa-Gente, ao ver o Papa-Feijões-Frades que o segue, pensa: —E o
cadáver ressuscitado! E corre-que-corre, corre-que-corre... O Papa-Gente não
apareceu ali mais pensando: —O “meu cadáver ressuscitou, era ele que me
seguia?. E a casa ficou abandonada. De modo que: O Papa-Feijões-Frades não
voltou e ficou o seu celeiro abandonado; o Papa-Gente não apareceu mais e o
cadáver lá ficou. E que ambos, afinal: O Papa-Feijões-Frades fugiu do
Papa-Gente; e o tal Papa-Gente pensou que o “meu? cadáver ressuscitou. E a casa
em questão ficou abandonada, a que eles tinham construído.
Dados
biográficos e outros como no N.° 2. Este conto não passa de uma farsa,
dando-nos a entender que mesmo no dominio da magia é permitido dar largas à veia
cómica. Na ordem de cultura material, ele apresenta as fases principais da
construção de uma cubata. Hauenstein refere uma historieta semelhante, mas com
muito menos episódios. “A Cabana Isolada?
32:
Omulume Wotyimpulu N'ova-Kai Vevali
Opopo lumwe. Omulume utiwa Nai-lenge wanepa ovakai vevali.
Pahe uhanda-po vala onthawa yatyo. Ou tembo yeumbo kemuhole vali. Ongo oe vena
na e otupya. Oyou okukavaka onongombe mbavo k'ehimba oko m'“okonta? otyimphulu
“pala? ovakai vae, okueta. Ovanthu vokumuhatekesa: taate, taate, taate. Omukai
ówa Nailenge, omulume okuimba okuti: Nailenge ê. Nailenge ê! Handikane, handikane, omukai wange! Veta okalafa
k'omeva! Handikane. handikane! Omukai wange! N'ononkhombo tyipite, handikane,
omukai wange! N'onongombe tyihalavele! Handikane, omukai wange! Omukai ou etyi
elipola omuhoti, wa Nailenge, tembo yeumbo, okuveta k'o-ndongi: tiapa. Omulume
okupita-po liwa, ondongi okuyula. Vahekulu vonongombe, ovanthu ovo, apa
vapitila okulandula onongombe petupu vali. Okukondoka. Okuya okuipaa ongombe
oyo, upa-ko unene onthawa yatyo, ou tembo yeumbo o uhape n'ountheva vala.
Muhuka, muhuka, muhuka, muhuka ... Mueli tupu ohaityo, okukapola ono-ngombe.
Tya-tya-tya-tya-tya... haityo —okuhatekeswa, okuhatekeswa. —Nailenge ê!
Nailenge ê! Handikane! Handikane, omukai wange! Veta okalafa k'omeva.
Handikane. handikane omukai wange! N'ononkhombo tyipite. Handikane, omukai
wange! N'onongombe tyihalavele, handikane omukai wange. Omukai ó, etyi hono
anumana, tyino omulume ahatekeswa, oko k'onongombe mbae ombo. ati: Ame hono
hikalyalya vali omala ó, uti un'ale etyi ampha? Omulume watyo, okuhimbika vali
okuimba: Nailenge ê! Nailenge ê! Omukai watyo wati:
—Onwe mulyale
ononthumba n'omalenga. tavelei-vo k'evelo! Tavelei-vo k'evelo, ku mwambo! Otyo lumwe
aya, ahaleuka-ko. N'o-nkhenda... otyo vala aya. Nailenge ê!
Nailenge ê! etc. etc. etc. Omukai ati: Onwe mulyale... Okuya umwe ovanthu ovo ina
yakukuta, itupu omeva, m', “okonda? omukai hono kavetela-ko omuhoti. Muna
onkhunye! Muna ombonde! Muna eonga! Omulume okunkhya lumwe. Omukai wa Nailenge,
okupola onombiya mbae. Omukwavo okukaihana ombunga veye vatyinde ononyungu ombo
mbuli m'ovimbundu n'om' ondywo yae omo m' “okonda? kahandwa vali. Sambwillkiti!
M'olutongo omule. Omuove
32: O
Homem Ladrao Com Duas Mulheres
E desses que se trata. Um homem que se chama Nailenge e era
casado com duas mulheres. Ora ele inclina-se só para a concubina. A primeira
mulher já não gosta dela. Afinal é entre si e ela que existe pacto de poder
mágico. Lá vai ele pois à ladroeira dos bois, para o outro lado do rio, porque
é ladrão, e quer trazê-los a suas mulheres. Surge gente que o persegue: cerca
daqui, cerca dali. A dita mulher, de Nailenge, ouve o homem que clama dizendo:
Sou o Nailenge! Sou o Nailenge! Estou perdido! Estou perdido! Ó minha esposa!
Bate na água com a pele com que te cobres por de trás. Estou perdido! Estou
perdido, minha esposa. Que passem os cabritos, estou perdido, minha esposa! Que
os bois se despachem! Estou perdido, ó minha esposa! A mulher, sacando de si a
pele trazeira, a tal do Nailenge, a dona de casa, bate com ela no rio: Zás! O
homem atravessa ràpidamente e o rio enche-se. Os donos do gado, os
perseguidores, já não encontram passagem para a perseguição do gado. Voltou a
casa. Ao matar um dos bois, dá o melhor à concubina; à dona de casa só umas
dobradazitas e uns miúdos. Assim vai acontecendo por vezes seguidas... Um certo
dia, vai como de costume roubar bois. Alaridos e mais alaridos... e a habitual
corrida em perseguição. O homem grita por socorro: Sou o Nailenge! Sou o
Nailenge! Estou perdido! Estou perdido, minha mulher! Bate na água com a tua
pele de trás. Estou perdido! Estou perdido, minha mulher! Que passem os
cabritos. Estou perdido, minha mulher. Que os bois se despachem, estou perdido,
minha mulher! Mas a mulher, que desta vez está zangada, enquanto o homem é
perseguido, lá no meio dos “seus? bois exclama:
—Não, desta vez não comerei mais essas miudezas. Ele afinal
dá-me alguma coisa? E o homem recomeça o seu chamamento: Sou o Nailenge! Sou o
Nailenge! Por sua vez a mulher replica: —Vós que comeis os bons pedaços e
gorduras, acudi à passagem! Acudi à passagem, valei à encrenca! E segue seu
caminho, sem olhar para trás. Nada de apiedar-se... anda para diante. (E o
homem canta novamente, mas desta vez a chorar...) Sou o Nailenge! Sou o
Nailenge! etc. etc. etc. etc. etc. E a mulher: Vós, que comeis... etc. Chegados
os persseguldores ao rio, este encontra-se seco, sem água, porque desta feita a
mulher não bateu com a pele. Mocada daqui! Outra dacolá! Azagaia que se crava!
E o homem morreu. A mulher de Nailenge, sai de casa com as suas panelas. E a
outra vai chamar os parentes para carregarem as tiras de carne seca que está
nos cestões e no aposento dela, pois não tem mais marido. Enfio-te o açaimo!
Como em bicho voraz. É a tua vez agora.
Dados
biográficos e outros como no N.° 7. Seria necessárto uma longa exposição para
dar uma ideia, muito imperfeita que seja, do que se entende por pacto de poder
mágico. Tentamos explanar esta matéria algo misteriosa no capítulo das crenças
e práticas religiosas dos três volumes da “Etnografia?, dando maior
desenvolvimento ao tema no segundo tomo. Aqui, basta repetir que tais poderes
implicam sempre uma aliança com um espírito de um antepassado, de parentesco mais
ou menos afastado. Também pode ser o espírito de um descendente, de parentesco
muito próximo —e parece ser este o caso mais frequente —cuja morte foi
provocada por quem ambicionou adquirir tal potência. E claro, falando assim,
exprimimo-nos segundo a crença dos Bantu, não querendo emitir uma opinião sobre
a realidade dos factos. E bem caracteristica a expressão: Vena nae otupya que à
letra significa: Tem com ela fogo, vive com ela em comunhão de fogo. Fogo, é o
termo que melhor lhes parece substanciar este poder extranatural. Tal locução
emprega-se sobretudo entre Nyanekas e Cuvales. Convém ainda observar que
geralmente é só com a primeira mulher que um homem se liga por um pacto mágico.
33:
Omukai Omulemi
Opopo umwe. Omukai omulemi, weya okupila k'ovoina ivi.
Omukai ou ehike m'ondaatembo yae, wavasa-mo ovonawa yae. Ava kumbi limwe avati:
—Tuende, tukanyange omahipwa! Etyi vati k'omuti watyo,
ovonawa yae avalondo okunyanga omahipwa ana. omaua atyo. Ongo mukwavo
avemutila:
—Ove tyetyi umulemi uhalonde, hamwe kumbi ukutula, ueta
omona uhena ovikalo! Omukai ou, etyi kapondola ngotyo okulonda, atila vonawa
yae:
—Ndyumbilei! Ava avati:
—Ankho uhanda, n'ove londa! Ovonawa yae otyo-ñgo vakoya
oma-kuyu avo vahanda. Omukai apaleka okuti:
—Ndyumbilei! Avati-ñgo: Twati ale nokuti, n'ove ankho
uhanda, londa! Omukai okutala vakwavo valya otyiwa, nae alonda akakoye omakuyu
ae ahanda. Vamane okunyanga, aveho avahe-mbuluka-ko, avai aveho k'eumbo. Omukai
ou ehimbwe lyae liye-po, apululukwa omona, tyili wehena ovikalo. Okuti opo
tyihemulingise ohonyi, okana ekekeyumba p'otyinkhondo. Etyi pakala ononthiki,
okana akatundu-mo m'enkhondo, okuenda k'ombala, kakapewe ovikalo. M'ondyila
okana kaenda n'okukulunguta, otyo, takati: Kulunguta, etako ndyivela!
Kulunguta, omaulu ndyiteka. Okana otyo kaenda ngotyo, lo keya okuhika m'ombala
yohamba. Ohamba imone okana oko, aitumu omululikwa, aye akawane okana kana,
kehena vikalo; kaetesa okankhenda mokati k'ombala. Etyi omululikwa akawana
okana, ou okuketala, watoya. Ekeyumbe otyivali pohi. Ohamba n'okankhenda
okanene aiti:
—Wahaipae! Linga okankhenda, mundetele vala kuno! Etyi
ekeeta, ohamba ekepake ovikalo. Ati:
—Pahe enda ku nyoko! Okana akelivande m'ondyila yeumbo.
Kehike akati ku ina: —Mphe omeva, ndyinwe-po! Ina amoneka okupola otyitalameno,
aavela omona. Ou etyi apaka k'omulungu, okutehela tyanika, ati ku ina:
—Wanthyitile ndyihena ovikalo, okuti ndyikukundisa,
wandyumbile m'enkhondo, ngo omo wanthya. Pahe namona ou wampha ovikalo, neya ku
ove, umpha ndyinwe omahu?! Ina okutala tyili omona wae mwene, atyimupe okulila.
Apolo ongombe yokukoha omona, yotyilivetelo tyavo kumwe. Avaende-ko nkhele
ehimbwe.
33:
Uma Mnlher Gravida
Uma vez, uma mulher grávida foi de visita à casa da sogra.
Depois de chegada, encontrou lá a sogra e também as cunhadas. Um dia, estas
disseram:
—Vamos apanhar figos bravos! Chegadas ao pé da árvore, as
cunhadas subiram até àponta para colher os figos melhores. Ao fazerem assim,
disseram à visitante:
—Tu como estás grávida, é melhor não subires, senão, quando
deres à luz. nasce uma criança sem pernas. Como esta mulher não subiu, ela
disse às cunhadas:
—Deitai-me figos para baixo! Estas rseponderam:
—Se queres figos sobe também! As cunhadas continuavam a
apanhar os figos de que mais gostavam. A outra mulher repetiu o pedido:
—Deitai-me também figos! As outras responderam: Já te
dissemos, se quiseres figos, sobe igualmente. Como esta mulher estava a ver que
as outras comlam frutos saborosos, ela também subiu, para escolher os figos que
preferia. Depois de acabar, todas desceram para baixo e foram para casa. Chegou
então o tempo para a dita mulher dar à luz um filho, que de facto não tinha
pernas. Não querendo passar por vergonhas, resolveu lançar a criança numa moita
de espinhos. Passados muitos dias, a criança saiu das espinheiras, para ir à residência
do régulo a fim de receber pernas. Movia-se rolando e cantava: Rolando assim,
dói-me o trazeiro! Girando desta maneira, partem-se-me as pernas. A criança foi
avançando desta forma até chegar à residência do soba. Este ao ver a criança,
mandou chamar um oficial para ir ao encontro dessa criança sem pernas, que
estava a inspirar dó aos habitantes da casa do Soba. O oficial ao encontrar a
criança, ao vê-la, deitou-a duas vezes ao chão. O régulo, encheu-se de
misericór-dia e disse:
—Não a mates! Tem piedade e traz-ma cá. Depois de a ter
trazido, o Soba colocou-lhe pernas e disse:
—Vai agora para a tua mão O rapaz pôs-se a caminhar até
chegar a casa. Ao chegar a casa, ele disse à mãe:
—Dá-me água para beber! A mãe pegou num penico e deu-o ao
filho. Este ao querer levar à boca, sentiu que aquilo cheirava mal. Disse à mãe:
—Tu geraste-me sem pernas e julgaste que era uma vergonha
para ti e por isso lançaste-me nos espinheiros, onde me abandonaste. Agora
encontrei quem me desse pernas, cheguei ao pé de ti e tu me deste urina?! A mãe
quando reparou que era o próprio filho, desatou a chorar. Matou um boi para
lavar (purificar) o filho e também para ambos ficarem màgicamente associados.
Assim viveram ainda muitos anos.
Dados
biográficos e outros como no N.° 4.
34: Omukai
Womena Omulungu Ukoka Pohi
Opopo umwe. Ovahikwena vaya m'okunyanga ovinyango m'ohika.
Omo vavasiwa n'ombila. Etyi vehena apa vayama, avanyingila m'etoto lyomukwa
vavasa. Nyingile, ou umwe atila vakwavo:
—M'omuti omo tukahi kamuninwa ntholo. Ankho pu onwe umwe
utyilinga, tupeseka, tyetyi omuti mauliiki, atuhetyivili okulupuka-mo otyivali.
P'ovahikwena apa umwe utiwa Nehova, etyi ayembwa unene, anina-mo m'omuti omu.
Iya kapakalele ale, omukwa auliiki. Mueli apapiti ongendi. Etyi omutenya
watokota unene, ongendi oyo ai mei lyomuti ou okukapululukwa. N'eponwa lina ongendi
ei ailiyake m'ehina lyomukwa. Etyi pakala vala katutu, m'omukwa mwejvala okuti:
—Nga waya k'eumbo ukati: Navasa omukwa uti Nehova n'ava
aveho ankho ven'ae, valiwa n'omukwa. Ongendi etyi yapopia etyi yamona
m'ondyila, ovohe yovana avakongoloka. Okuya p'omukwa ou, vatehele etyi
tyitunda-mo, navetyivile okupola-rno ovana ava. Vahetekela atyiho, ongo naina
veli-pwilisa vala. Etyi tyihena vali ounongo, vaihena ekuti, aveliti, lipole-mo
ovana ava. Kuti ati: —Ame otyo hityivili! Avaihena otyivali Ekwele. Kwele ati:
—Ame hame muita, tyetyi ame ndyii vala okulya ovinyango
vyohika n'okulava onondyale mbetu. Ankho muhanda, ihanei pahe tyimbangula,
mutala vala etyi malingi. Etyi MBangula eya, aiti:
- MBangula, Mbangula p'onombela, p'okulya kamuti Mbangula!
Pahe Ombangula aimoneka okutontha n'omulungu omukwa, ló ou wapatuka. Ovana
avamoneka okupatusuka-mo, aveya kondye. Valupuke-mo m'omukwa, omuhikwena
wokwaanyene etyi tyapopile vakwavo, walupuka-mo n'omulungu wahongoloka, ukoka
ló pohi. Etyi ovoina vemunona, avemutela m'ohika m'ekandu lyelungu eli ena.
Omona ou etyi etupu-vo ou ñgeno umutambula m'epata lyae, ai vala n'onohika
okuliendesa, okuti hamwe uvasa omunankhenda umupole omulungu ou. Omona
m'okuenda n'omapata aeho, ankho uimba okuti: Olye ulya Nailungu yakolela? Olye
ulya Nailungu yakolela? Aveho vetyiiva vaya nkholo n'okutia: Onthwe katuli
Nailungu yakolela! Omona otyo apanga na tyo. Mueli etyi ehika k'epata limwe,
wahetekela okuimba ngetyi alinga ale apeho: Olye ulya Nailungu yakolela?
M'epata omu mwavasiwa omulume ekihi atavela okuti: (okuimba): Ame ndyilya
Nailungu yakolela! Omuhikwena ou afwene-ko. Etyi eya, omulume ou emupulu oñgeli
tyaenda. Ou amoneka okupopia atyiho. Omulume ou etyi aeta onkhenda, ati:
—Ame pahe
mandyikupolo omulungu ou. Andipo molingi omukai wange. Ankho wanya, elungu eli
malikukondokela otyivali. Omukai ou okuti opo elungu eli limutunde. atavela
okunepwa n'ekihi eli. Etyi pakala ehimbwe, omukai alingi otyiivaluko tyombunga,
asoko okukapila. Okuti ekihi lyalunga na e, ongo kapondola okuenda tyetyi
wapewa onkhano yelungu eli limukondokele. Ai k'omukwavo okukapula etyi malingi,
opo etyivile okutunda p'ekihi eli. Omukai ou emupopile okuti:
—Opo okuti omulungu on uhekuko- moti ngetyi: Tyina wamona okuti wove
watunda-mo, ove upola omulungu watyo, outeleka nawa, k'ongulohi omuavela okulya
ondalelo. Omukai ou otyo alinga ngotyo. K'ongu'ohi etyi omulume eya, omukai
emuavela okulya. Omulume akwate-ko okulya. Okutala etyi tyapepa, ati:
—Omwai hono wapepa nawa. Etyi amana okulya, ai m'oula alangala-po.
Etyi kwatya, omulume ai okukatala ovipako vyeumbo omu vyalele. Etyi kamoneka.
omukai om'okuhi-nangela, okupola atyiho tyae, ahene k'ombunga. Omulume eya,
omukai umonekela kokule ale, ati:
—Mukai, kondoka, nkhele uhaye! Endyu upole elungu lyove!
n'okuhateka ati:
—Hiya vali. Elungu halyo walile mongulo m'omwai! Omulume
walwile-ko, ongo ulipwilisa vala. Omulume ou akakala umwe n'elungu eli. Ou
omukai ai k'ovavo. Etyi ehika-ko. avemulingi otyipito otyinene.
34: A
Mulher Dos Beicos Compridos A Arrastar Pelo Chao
E desta mesma que se trata. Umas raparigas foram colher
frutos na floresta. Sobreveio chuva. Como não tinham onde se abrigar, entraram
na cavidade de um embondeiro que ali estava. Tendo entrado, uma delas disse
para as outras: —Dentro desta árvore, não se pode soltar ventosidades. Se uma
assim fizer. estamos perdidas, porque a árvore fecha-se sobre si mesma e não
podemos sair mais para fora. Uma destas raparigas, de nome Nehova, como estava
muito apertada, largou um estrépito. Logo a seguir o embondeiro fechou-se.
Nesta altura, passou por ali um viajante. Como havia muito calor, o vian-dante
veio parar debaixo da árvore a repousar um pouco. Estando muito cansado ele
encostou-se ao tronco do embondeiro. Passados poucos momentos ouvi-ram-se de
dentro do embondeiro estas palavras:
—Quando chegares a casa, vai lá dizer: Fiquei ao pé de um
embondeirc que falou assim: Nehova e todas as suas companheiras foram engolidas
por um embondeiro. O caminhante foi relatar o que lhe acontecera na viagem, os
pais das raparigas juntaram-se para irem todos ao embondeiro a fim de escutar a
voz que de dentro se fazia ouvir e ver se era possivel libertar as filhas.
Tentáram tudo para o conseguir, mas todos os esforços foram baldados. Como não
viram mais que fazer, chamaram uma rola e disseram-lhe: Tira as nossas filhas
da árvore! A rola respondeu:
—Eu não posso! Foram também chamar a ave zombadora. Esta
disse:
—Não peçais a mim, porque eu só sei comer frutos silvestres
e espiar os gaviões, os nossos inimigos. Se quiserdes, ide chamar o Pica-pau,
para ver o que ele vai fazer. Foram chamar o Pica-pau. Tendo chegado o
Pica-pau, disse: Pica-pau, Pica-pau! Mas só nas desgraças. Para comer não
chamais, Pica-pau!
Então o Pica-pau, pôs-se a partir aos bocados, com o bico,
o tronco do embondeiro até ele se abrir novamente. As raparigas apareceram;
sairam para fora pela abertura. Saidas da árvore, a rapariga que não tinha
feito caso da recomendação das outras, surgiu com os lábios deformados a
arrastar pelo chão. A mãe e a família ao vê-la neste estado, afugentaram-na
para o mato por causa do beiço que trazia. A rapariga, pois que não tinha quem
a queria recebei em casa, meteu-se pelo mato fora a ver se talvez encontrava
quem lhe cortasse o tal beiço. Ao passar
perto das habitações, ela punha-se a cantar: Quem pode curar a do mau beiço?
Quem pode curar a do mau beiço? Todos os que ouviram a cantilena fugiram
dizendo: Nós não sabemos curar a do beiço deformado! A rapariga foi ficando com
a sua excrescência. Entretanto ao chegar um dia, ao pé de uma habitação. pôs-se
a cantar como costumava fazê-lo: Quem pode curar a do beiço? Naquela casa
habitava um papão que responded: Eu éque posso curar a do mau beiço! A rapariga
aproximou-se. Depois chegou ao pé dele; este perguntou-lhe como tinha acontecido
aquilo. A moça contou tudo conforme se passara. O homem moveu-se de
misericórdia e disse:
—Eu vou agora cortar-te este beiço. Mas tu, por tua parte,
vais ser minha mulher. Porém se fugires. este enorme beiço há-de aparecer
novamente. A rapariga para se ver livre da beiçana consentiu no casamento com o
monstro. Passado algum tempo, a mulher teve saudades das pessoas de familia e
pensou em ir visitá-las. No entanto, o monstro na sua esperteza, estava
convicto de que a mulher não podia ausentar-se por causa da praga a respeito do
grande beiço que ia nascer novamente. Por isso a mulher foi primeiro consultar
sobre como havia de proceder para se separar do monstro. Uma mulher disse-lhe o
seguinte Para que o beiço não apareça mais fazes assim: Quando vires que o teu
homem se ausentou, tu cortas o beiço para o cozinhar bem, e de noite lho serves
para conduto do jantar. Assim a mulher procedeu. A noite quando o homem chegou,
ela serviu-lhe a refeição. E ele pôs-se a comer. Ao reparar que a comida era
saborosa disse:
—O conduto hoje está gostosissimo. Depois da refeição ele
foi deitar-se. De manhã cedo, o homem saiu para ir ver o gado no curral onde
ficam fechados durante a noite. Como ele se demorou muito, a mulher resolveu
carregar com todos os seus pertences e fugir para casa dos seus parentes.
Quando o homem regressou. a mulher já ia muito longe. E o homem chama por ela:
—Mulher não te vás
embora, volta primeiro para levares o teu beiço! A mulher continuando a correr
responde:
—Não regresso. Qtianto ao beiço, tu comeste-lo ontem ao
jantar. O homem foi insistindo, mas em vão. Ficou com ele o beiço e a mulher
chegou a casa dos parentes onde lhe fizeram uma grande festa.
Dados
biográficos e outros como no Nº 20. O tema de recorrer a aves para valorem aos
homens nos apertos da vida, seja como mensageiros, seja intervindo mais
directamente, é relativamente frequente. Num conto Cuanhama, já publicado,
também é o Pica-pau quem liberta uma rapariga —mais uma Nehova desobediente
—que a terra tinha tragado. Antes de “deitar bico à obra?, a ave apostrofa os
pedintes com a mesma chalaça: —Quando estais a comer não pronunciais o nome de
Pica-pau, nos trabalhos é que vos lembrais de chamar pelo Pica-pau! Na mesma
narrativa se alude também a chagas repugnantes de que Nehova ficou coberta
depois de sair da terra. Para se ver livre delas, ela dirige-se igualmente a um
monstro. Este porém, recusa-se a curá-la.
35:
Omulume Wahombola Ombanda
Omulume etyi ahombola ombanda, una omona womumati
n'omutembo watyo. Omumbanda watyo kena tya. Tyapu omulume tai m'ofika okukayeva
ononkhanga. Taeta k'eumbo. Tembo yeumbo una imwe, ou omumbanda una imwe. Ou
omumbanda okupewa ken'okuteleka. Tembo yeumbo tateleka. Tyapu omulume
okuikwata, teiteleka, ye teltuvikila m'okahumbi. Tyapu etyi omumbai kwatya,
omulume tal vali m'ofika takayeva vali. Ou waanyene okuteleka onkhanga
yomulume, omumbanda watyo, ha okuya n'okuilyamo? Etyi eilya-mo, omulume kuna ha
teya! Etyi eya ha kukatala m'okambiya kae aka atelekele! Hati:
—Ungwe, olye walya-mo onkhanga yange? Omukai hati:
—Nopo nkhwali omona ou womukai wove! Nopo nkhwali ae
weilya-mo. Omulume ha okukwata omona, takule. takule. Otyo ukayeva ngotyo. Hono
mwalolu hakuti: Otyipuka etyi luse, luse aniveta omona wange, hono ani
k'omukulukandi umwe, niketyipulukane nawa vali. Okuya k'omukulukandi ou, hati:
—Ungwe otyityi tyekueta? Omulume hati:
—Etyi tyangeta kuno, tyetyi omumbai naveta omona wange,
omumbai naveta omona wange. Ame anitele ononkhanga. Tyapu anipe vange.
Omumbanda watyo kahande okuteleka, omutembo watyo una uteleka. Omumbanda watyo
teindili-mo. Ame aniuya okukwata omona okumutakula. Omukulukandi hati:
—Utyindi ale?
Tambula onkhondyi ei, okalumbile-ko olufipa. Tyapu amui k'omulonga. K'omulonga
omunene oko, totetekela okupaka kombanda yomeva omona wove. Nga wemupaka-ko
ngotyo e eilya, tai ale n'omeva; ngotyo keilile, kena okuya n'omeva. Hati:
—É! Hakuhuma-ko! Ha okuya k'eumbo! Etyi eya hati:
—Vakwe! Hono tuendeni k'omulonga! Ha kuya k'omulonga. Omona
ha e watetekela okulonda-ko k'onkhondyi oko! Tandimbi tati: Ame nalya onkhanga
ya tate! Kalunga watunga ovingelengele! Ove lufipa timbuka! Tyalala, niende
n'omeva! Otyo tai, ye tandimbi vali... Tyapu omona wayauka. O'ufipa olo
alukondoka vali komima, lweya okuwana ina yatyo, ou watyita omona ou. Ina yatyo tyapu oko alonda, otyo tandimbi: Ame nalya
onkhanga yomulume wange! Kalunga watunga ovingelengele! Ove lufipa timbuka!
Tyalala niende n'omeva. Otyo tai, ye tandimbi... Tyapu wayauka. Olufipa
alukondoka vali. Okuya okuwana oyou walya onkhanga yatyo, takapaulifa omona
luse, luse! Hono mwalolu hakulonda k'onkhondyi yatyo oko! Hatyo taende
tandimbi: Ame nalya onkhanga yomulume wange!... ... ... ... ... ... ... ...
Otyo tai. Omeva ati m'omipindi (otyo tandimbi). Etyi tati-ila pokati, okuti
komeso kahanga-ko, komima kahanga-ko, wanyingila-ila onthwitwi. Tyapu
wankhya. Omulume hati:
—Tala! Salavandi! Tyetyi omumbai naveta omona wange!
Kukaete ohasa ku ame. Otyo netyiningile no. Tyapu lwapwa.
35: Um
Homem Com Duas Mulheres
Um homem depois de casar com duas mulheres, tem um filho da
primeira. Da segunda não teve. O homem vai para a floresta caçar capotas Traz para casa. A primeira mulher recebe uma,
a segunda mulher também. A segunda ao receber, não a cozinha. A primeira
cozinha a dela. Por isso o homem pega nela, cozinha-a e guarda-a numa
panelinha. No dia seguinte ao amanhecer o homem vai novamente à floresta para
caçar. A segunda mulher, que tinha recusado cozinhar a galinha, vem agora para
a tirar da panela e a comer. Quando tinha acabado de comer surge o homem. Olha
para dentro da panela da galinha cozida. E diz:
—Quem é que tirou daqui a minha capota para a comer? A
mulher responde: —Não terá sido o filho da tua mulher? Com certeza foi ele quem
a comeu. O homem pega no filho e castiga-o duramente. Assim o homem ia caçando.
Mas um dia ele diz: Esta coisa de bater constantemente ao meu filho não está
bem. Hoje vou consultar uma velha para ficar elucidado. Ao chegar ao pé da
velha, pergunta-lhe esta:
—Amigo! Que é que te traz por cá? O homem responde:
—O que me traz cá é o seguinte: Eu todos os dias castigo o
meu filho, castigo o meu filho. Costumo apanhar galinhas na armadilha. Depois
dou às minhas mulheres. A segunda mulher não quer cozinhá-la. A primeira mulher
é que a cozinha. Mas a segunda mulher come-a e eu venho, pego no filho para lhe
bater. A velhinha diz:
—Sabes o que vais fazer? Toma este arco e põe-lhe uma
corda, depois ides ao rio grande (Cunene). Chegados ao rio grande, começas por
colocar em cima do arco, o teu filho. Se for ele a ter comido a galinha,
morrerá afogado Se não a tiver comido, não morre. Ele diz:
—Está bem! Sai dali e vem para casa. Depois de ter chegado
diz:
—Amigos, hoje vamos
todos ao rio! E foram. Junto ao rio, o filho é quem monta primeiro naquele
arco, ele canta o seguinte: Fui eu quem comeu a galinha do pai! Deus é quem fez
a massa das águas! O corda rebenta! E zás! Que a água me leve! Desliza então e
é levado até àoutra margem. A corda volta atrás, vem para buscar a mãe; aquela
que gerou o rapaz. Ela coloca-se em cima do arco e canta: Fui eu quem comeu a
galinha do meu marido! Deus fez grandes águas! Tu corda, rompe, Zás! Que a água
me leve! Assim vai indo e cantando... E atravessou o rio. A corda voltou atrás,
para vir buscar aquela que tinha comido a galinha e sido a causa dos maus
tratos. dados à criança. E então ela também se coloca em cima da corda e ao ser
levada, canta: Fui eu quem comeu a galinha do meu homem! ... ... ... ... ... Assim
foi. A água chega-lhe agora aos joelhos. —Ela canta sempre. Mas ao ver-se no
meio do rio, não sabe mais como fazer. Para a frente não pode ir, para trás
também não. Assim, mergulha na água e morre. O homem diz:
—Olha! Bern feito! Porque constantemente eu castigava o meu
filho. Esta mulher foi a minha desgraça. Pois eu procedia por ignorância.
Acabou.
Dados
biográficos e outros como no Nº 20. E característico nesta narrativa o recurso,
para prova de culpabilidade, a uma espécie de ordálio, ordálio todo ele mágico,
como se vê. A propósito deste acidente, convém lembrar, que em todas as etnias
do Sudoeste de Angola não se emprega um meio mais realístico, a chamada prova
de veneno, mencionada pelos etnólogos como existente em numerosos povos do
bloco étnico Bantu. Como é sabido, na sua aplicação, administra-se ao réu uma
dose de veneno. extraido de uma planta tóxica. Se vomitar a droga, há prova
evidente da inocência do incriminado.
36:
Omulume Wanepa Ombanda
Opopo umwe. Omulume wanepa ombanda. Omulume ou ankho wakula
otyimbundu tyomalondo. Omalondo a etyi eya m'okupya, onthawa yatyo eya
okuepola-mo m'otyimbundu, okukalila m'ohika. Ovipeta vyatyo otyo evikondola,
okuviyumba otylvali m'otyimbundu. Mweli omulume wakatala-mo m'otyimbundu, okuti
hamwe uvasa-mo limwe lyaunduvala. Ou ukeliti-ko, otyimbundu tyiti: Etelela!
Omalondo apwa-mo! Omulume eya okupula ovakai:
—Omalondo navimbikile m'otyimbundu aya-pi? Ovakai. tyiti ou
uti, ame hame nalya, ou uti ame hame nalya. Omunthawa watyo m'okwavela ouoma
okuti weya okuvetwa, alundila omutembo watyo okuti oe walya omalondo
m'otyimbundu. Omulume n'onyengo ina akwata-ko okukapula ló aipâ. Etyi ankhya,
emulingila elangalo popepi n'ovitunge vyae. P'okuti omulume opo atale nawa
ankho tyili una wokwankhya, oe ankho alya omalondo, aholeka vali amwe, pamwe
vali. Onthawa etyi eya m'okunoñgonokapo, ai otyivali okukevaka. Otyo ekelila
k'elargalo lyomukwavo. Tyina eya p'elangalo, uya n'okatemo, emuheyulula-po.
Apolo ekolutwe wae elipake k'omutwe wae. Ahimbika pahe n'okutyatyula omaiondo
atyo; alya n'okututulila k'elangalo. Otyo apahula-po omuye nokuti: Vitititi
vyetu, Namuntholingo! Vinwanwa n'omeva etu, Namuntholingo! Otyo ati vali:
—Mukwetu, pindukapo, tulye omalondo! Tyina pahe amana
okulya, elihukulula otyipeta tyomutwe wamukwavo, etyipake k'omutwe wae, ai
k'eumbo. Apeho, apeho otyo alinga. Mweli otyipeta otyo apakapaka k'o mutwe wae
atyimuanyena. Etyi ehika k'eumbo, p'okuti opo omulume ehemumone n'atyo
k'omutwe, wapola otyinkhwani tyae, ngotyo ahika k'omutwe. Iya otyipeta otyo
wakala natyo ononthiki. Tyina otyo tyikula. Etyi pahe katyitavela vali
okuholeka. Tyina tyeya okumukama. Etyi tyemuihamena, aulula. Omulume okuya,
omukai una ekola lyenkhipa lyomutwe womunthu. Omulume n'okwapalala unene, apulu
omukai:
—Iya otyipuka etyi wetyienda ñgeli? Ine ove ankho ulya
omalondo m'otyimbundu, pahe otendeleya mukwenyi? M'okuenda k'onkhanga n'ongoi,
omulume okutala-ko, otyipeta tyina pahe tyikula n'otyipala atyiho, lo tyeya
okumuhitika k'omulungu, atyimupe ononkhya. Omulume anoñgonoka nawa okuti, naina
omukai aipâ, ankho utupu tyituli natyimwe. Walaviswa vala n'omukai una
ongangala. Ai m'okulivela, akala omanima omanyingi n'okulila omukai wae.
36: Um
Homem Com Duas Mulheres
E destes mesmos que se trata. Um homem casara com duas
mulheres. Este homem tinha enchido um cesto-celeiro de “maboques? meio maduros.
Depois de amadurecidos, a segunda mulher veio tirá-los do cesto para os comer
no mato. As cascas meteu-as novamente no cesto. Um dia, o homem foi ver se por
acaso já havia no cesto um fruto amadurecido. Ao olhar para dentro do cesto,
este parecia dizer-lhe: Não há mais! Traze outros. O homem veio perguntar as
mulheres:
—Os maboques que guardei no cesto foram levados para onde?
Uma respondeu: —
Não fui eti quem os comeu, a outra também afirmou: Não fui
eu quem os comeu. A segunda, com medo de ser castigada, caluniou a primeira,
dizendo:
- Foi ela quem comeu os “maboques? que estavam no cesto. O
homem, cheio de raiva, deitou-se àmulher e acabou por matá-la. Depois de morta,
arranjou-lhe uma campa perto das cubatas dela. Passado algum tempo, o homem
queria certificar-se melhor, se de facto fora a falecida quem tinha comido os
“maboques?. Para tal guardou novamente alguns frutos. A segunda mulher, depois
de o ter observado, foi novamente furtá-los, para ir comê-los sobre a campa da
outra. Chegada ao túmulo, ela pegou numa enxada para desenterrar parte do cadá
ver e arrancar o osso frontal que colocou sobre a sua cabeça. Em seguida
começou a partir as cascas dos “maboques? e foi comendo. Ao mesmo tempo deu-lhe
para dançar sobre a campa saudando a falecida com estas palavras: (canta) Os
nossos restos Namuntholingo! Esses que bebíamos com a nossa água,
Namuntholingo! Disse ainda: Companheira, levantate, vamos comer os “maboques?!
Depois de lhes fazer boca, ela tira o pedaço do crâneo da outra, que trazia
enfiado na própria cabeça. Feito isto vai para casa. Dias seguldos assim
procedeu. Uma vez, porém, ela não conseguiu tirar o fragmento que costumava colocar
na sua cabeça. Quando chegou a casa, para evitar que o homem visse o pedaço de
crâneo, serviu-se do pano trazeiro e cobriu com ele a cabeça. Aquela caveira,
assim a trouxe durante muitos dias. Mas o osso la crescendo e já não foi
possível escondê-lo. Com o tempo acabou quase por sufocá-la. Como lhe doía
muito, ela desatou a gemer com força. Quando o homem chegou, reparou que a
mulher tinha na cabeça um pedaço dum crâneo humano. Ficou muito admirado e
perguntou à mulher:
—Como arranjaste isto? Ou foste tu quem comeu os “maboques?
que estavam no cesto e caluniaste a outra? Depois de ambos terem altercado
durante muito tempo, o homem reparou que aquele caco Já estava muito grande
cobrindo-lhe toda a cara, até à boca, causando-lhe a morte. O homem veio então
a perceber que finalmente, a mulher que matara, nâo tinha culpa nenhuma. Foi
enganado por aquela malandra. Ficou muito arrependido e passou anos a chorar a
sua primeira mulher.
Dados
biográficos e outros como no Nº 30. Observação: Okuenda k'onkhanga n'ongoi é uma
locução proverbial. A proposição completa seria: A galinha presa no laço,
quanto mais força faz para se libertar, mais fortemente aperta o laço.
—Sentido: Teimar sem resultado.
37:
Omulume Omukongo N'omona Wae
Omulume n'omona vahanga omuti. Omuti una otyiyala. Omulume
hati:
—Anikalonda-ko, nikatale-ko! Okuya —ko, wahanga —ko omayaki
onkhombe. Okuhuma-ko katyitavela vali. Onkhombe yetyitia, haiti: (m'okuimba):
Ove-lye wapulungundya, Ove-lye wapulungundya, K'omai onkhongolo yange? Pulu!
Ove-lye wapulungundya, Ove-lye wapulungundya. K'omai onkhongolo yange? Ou
omulume watyo hati: (m'okuimba): Ame nipulungundya k'omai onkhongolo yove! Ame nipulungundya k'omai onkhongolo yove! Hati:
—Mona wange, onkhombe
oyo ill popepi. Topoka uende k'eumbo, ukaete ohala yonomi n'omuti wondyendye!
Omona okutopoka, tandimbi: Tate wanthuma ohala yonomi. Tate wanthuma ohala
yonomi, N'omuti wondyendye. (bis) Onkhombe ili popepi, haiti: Ove-lye
wapulungundya! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Ou omulume hati: Ame
nipulungundya k'omai ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Etyi yeya,
yemuhanga, okumuupa omaiso. Wakunkhunukila pofi, wawa. Omona tatopoka-ila,
hati: Tate wanthuma ohala ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Wefika
k'eumbo. Weviupa-ko, taaluka-ila, tati: Tate wanthuma ohala ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... Okufika ku se, wemuhanga wawa, wankhya. Okumuveleka. Etyi
tati noho lwapopo, ye ekisi tahokeka nalyo. —Epyo-ko tate! —Tyetu! —Olye
waveleka? Tati:
—Otate Hautyali. —Ekisi
haliti: (m'okuimba) K'onongi Hautyali mukwetu! K'ononkhombo Hautyali mukwetu!
K'onongi Hautyali mukwetu! K'onongombe, mhe! Hautyali mukwetu! Mhe! Hautyali
mukwetu! Mhe Hautyali mukwetu! Omahondi omukulu elieta, kaelitwaia!
Ngupile-po-vo okakuvoko kamwe. Wemutetela-ko. Lyamim'ale nkholonkholo. Pakale,
otyotyo elietela vali. Tandimbi vali:
—Epyo-ko tate! Hati:
—Tyetu!
— Olye waveleka? Hati:
Otate Hautyali! Mhe; Hautyali mukwetu! ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... Omahondi omukulu elieta kaelitwala. Ngupile-po
okakulu kamwe! —Wemutetelako. Otyo elieta vali.
—Epyo-ko tate; Hati:
- Tyetu!
— Olye waveleka? Hati:
Otate Hautyali
—Nthetele ombunda oyo! —Nkholonkholo lyamima. Otyo elietela vali.
—Epyo-ko tate!
— Olye waveleka? Hati:
—Tate Hautyali!
Talindimbi vali haliti: Mhe! Hautyali mukwetu! ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... —Omahondi omukulu elieta kaelitwala. Ngupile —po —vo onthulo yatyo!
Hinati ale opo, lyawa-ko vali. Wemuupila-ko-ila omutwe watyo. Ekisi
pahe lyekuta. Ou wapita-ila, otyo talili. Wefika k'eumbo omutambo vala
waongwa-ila ou. Oluñgano olo lwapwa!
37: Um
Cacador e Seu Filho
Um homem e seu filho. chegaram ao pé de uma árvore. Nela
havia um ninho. O homem disse:
—Vou subir para ver o que há! Tendo alcançado o ninho viu
que nele havia ovos de Aguia-de-cauda-curta. Ao tentar descer, não o conseguiu.
A águia observou a cena e pôs-se a cantar: Quem és tu que estás a fazer
entrechocar os meus ovos da cor do arco-íris? Choque! Quem és tu que estás a
fazer entrechocar os meus ovos da cor do arco-íris? O homem cantou por sua vez:
Sou eu quem está a fazer entrechocar os teus ovos da cor do arco-íris! Sou eu
quem está a fazer entrechocar os teus ovos da cor do arco-íris! E acrescentou:
Meu filho! A águia está perto. Corre depressa a casa, a fim de trazeres um
penacho de asas de mosca e um pauzito curativo de Ondyendye! E o rapaz desata a
correr cantando: O meu pai mandou-me por um penacho de asas de mosca! O pai
mandou-me buscar um penacho de mosca e um pauzito de ondyendye! A águia já vem
muito perto a cantar: Quem és tu que estás a fazer entrechocar ... ... ... ...
... ... ... O homem diz: Sou eu quem está a fazer entrechocar, ... ... ... ...
... ... ... A águia ao topar com ele, arranca-lhe os olhos. O homem deu um trambolhão
e caiu da árvore. Entretanto o filho estava ainda a correr e a cantar: O meu
pai mandou-me por um penacho ... ... ... ... ... ... ... Chega a casa, toma as
coisas e regressa sempre a cantar: O meu pai mandou-me por um penacho ... ...
... ... ... ... ... Ao chegar ao pé do pai, encontrou-o prostrado e sem vida.
Carregou com ele às costas. Mal tinha caminhado, dá com um papa-gente:
—Bom dia amigo!
—Obrigado!
—Quem levas às costas?
—Levo meu pai
Hautyali!
—O monstro diz:
Hautyali é verdade? Põe-se a chorar e a cantar: Humhum!
Hautyali meu amigo! Humhum! Ao pastorear os cabritos sempre ao lado do amigo
Hautyali! As ovelhas sempre ao seu lado! Humhum! Os bois sempre em sua
companhia! Humhum! Hautyali meu amigo! Humhum! Hautyali meu amigo! As lágrimas
de uma pessoa de respeito não se choram de graça! Tira-me um dos braços.
Engole-o com sofreguidão. Passados minutos o papa-gente aproxima-se novamente:
—Bom dia amigo!
— Obrigado!
— Quem levas às costas?
— Meu pai Hautyali! Humhum! Hautyali meu amigo! ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... As lágrimas somam aos olhos e não voltam sem mais
nada. Corta-me uma das pernas! —Cortou-lha. Pouco depois apresenta-se outra
vez. —Bom dia! —Obrigado! —Quem levas às costas? —Meu pai Hautyali! —Corta-me a
parte traseira! —Engole - a num pronto. Aparece novamente.
— Bom dia amigo!
— Quem levas às costas?
— Meu pai Hautyali! O monstro canta novamente: Humhum
Hautyali. meu amigo! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... As lágrimas de um
velho, não vão por si mesmas. Tira-me dali aquele peito! Mal o rapaz dá uns
passos, ei-lo outra vez. Deu-lhe também a cabeça. O monstro fica agora farto. O
rapaz segue caminho e chora. Finalmente chega a casa onde se realizam as
cerimónias fúnebres. Este meu conto terminou.
Dados
biográficos e outros como no Nº 19. Etnogràficamente é muito instrutiva a
intervenção da águia-de-cauda curta no singelo entrecho deste conto. E ave de
má catadura que se vinga cruelmente do atrevimento de um homem que invadiu os
seus dominios. O nome científico desta espécie ornitológica éTerathopius
ecaudatus. O primeiro destes dois termos é grego e significa “prestigioso?. Não
sabemos o que levou o cientista classificador a escolher esta designação. O que
é certo, é que, concernente aos povos do Sudoeste de Angola, tal prestígio
étido por nefasto, significando um verdadeiro terror, sobretudo para mulheres
com crianças pequenas. De facto, como tivemos ocasião de expor na “Etnografia?,
em toda a vasta área desta região, atribui-se a esta ave o poder maléfico de,
pelo menos indirectamente, ser causadora de certas doenças que afligem as
crianças. Do Cuanhama e da Oncócua até as terras dos Cuvales e dos Quipungos
ouvia-se e ouve-se ainda hoje, falar muitas vezes na “doença do pássaro?, no
“mal da ave do céu?. A cura da enfermidade exige uma complicada terapêutica
mágica. No entanto, para que não se diga que a regra geral não sofre nenhuma
excepção, na narrativa seguinte, temos um episódio em que a tal águia é a única
mensageira a transmitir uma comunicação que permite salvar um homem. E de notar
que os ovos desta ave, que atingem quase o tamanho dos de uma galinha,
apresentam um colorido levemente variegado, o que permite chamar-lhes, sem
grande exagero, ovos da cor do arco-iris. A segunda parte do conto é quase
idêntica ao episódio final da narrativa nº 17. Mas, nesta a sequência macabra
do drama é exposta com ordenamento mais cuidado. Nos escritos anteriores
traduzimos o termo bant “onkhombe? inexactamente por...
38: Ombwale
N'omona Womukainthu Epongo
Ombwale... opopo lumwe, oluñgano lwondyimbilile... omona
un' “opapai? yae yombwale yepongo. Otyo vakaka onombi. Onombi ombo mbutupu etyi
mbuvelinga. N'oumukoko, n'outyinthiki, n'ovi “porcaria? aviho vala. vakala
n'okukoya-koya, m'“okonta? omapongo. Pahe avapake opo, Eila alinina-ko.
Okunina-ko ngotyo. Etyi anina-ko, omona o wasukula-ko... Katyitavela. Apaleka
vali, muhuka tye. “Papai? yae ati:
—Mwalikai. onombi ombu umbuka-ka-pi ngetyi mbupepa? Ati:
—Tate, eila linina-nina-ko! Ati:
—Ehe, mona wange, hahe ndyikelikwate na liheye okuninanina
vali popepi. Etyi omona akaka, otyo aenda onkhunde —ongombe n'okatana kae,
ombwale oyo. Eila aliti: mphululutyutyu!... Unalyo okulikwata m'otyikalo. Eila
linae p'eulu. Omona ou okulila —Tate, tate, liyeka likutwala k'o-vai-vai.
Mukwe. liliyeke! Mukwe, liliyeke! Linia-nie ongundi omulela. Omona okuhateka
vali, otyo aya. Otyimbala tyonombi etyiyumbu-hi pahe umwe. Wanumana. Okutala he
uenda n'eila. —Tate, tate, liyeka likutwala k'o-vai-vai! Mukwe, liliyeke!
Mukwe, liliyeke! Linina-nie ongundi omulela! Eila olyo olyokunana umwe ombwale,
alikeitila m'eiva umwe... huta umwe! —m'okati keiva liivala m'okati k'ekongola.
Omona pahe otyo eliseta-seta vala. Utala-ko ñgo... okakulukai! Okakulukai akati:
—Mukwe, iya, otyityi k'onthele yomeva tupu? Ine un'etyi
unthyandela? Ati:
Au, “vavó?. Otate
watyindwa n'eila, lyeya okumuyumba m'omeva omu. Ati: Uma okakola aka kelondo
ufole-fole-mo vala m'eiva omu. Ati:
—Ehe! Pahe “vavó? okakola aka kamana eongwe-eiva eli
lyomeva aliho?! Ati: Hetekela-ko vala! Omona. okutila-tila oku, okutila-tila
oku, utala-ko ñgo... omutwe wa “papai?... wa, he... Omona owokuti:
—Ehe! Tate oyou! He okulupuka-mo, okuti:
—Mona wange, una-vo umwe omphuka n'ame umwe k'omutima wove
vala, kupondola okukondoka-ko vala. Pahe ngetyi weile okuhulila kuno, pwaina
otyill lumwe! Tyino akati ñgana... n'ohamba ankho watokehilwa-mo. Ohamba oyo
aiti: —Ame ndyinepa umwe omona ou, tyetyi petupu ou wandandulile wok'otyilongo
tyetu. Okunepa umwe. Nepé omona ó, na heivi ou, avakala-kala, avakala-kala,
avakala-kala. Ohamba oyo aikapopisa nthele imwe onondaka k'otyilongo tyimwe.
Avai n'omunthu wae utiwa oKalei. Etyi vati ende-ende, valiwa n'ondyala. Okuhika
m'ohika omu, vavasa omumbe. Ati:
—Kalei, londa k'omumbe na upole-ko onombe! —Au! Onombe
ombu... (Kalei ati) Ehe! Omiti vya kuno vilonda onohamba, kavilondo
ovinkhungulu. Ohamba okulonda-ko, Kalei okukondoka k'eumbo. Okuhika k'eumbo,
Kalei okuenda umwe oko... Ati:
—Ohamba wati: “Ove, kapopise-ko onomphela. Ame nesala
kuno?. Pwaina ukemba vala; uhanda omukai, otembo yohamba. Hakukala umwe oko?
Tyino vatala-ko ñgo, ohamba hakuihana ondyundyu?—Ndyundyu, ankho ndyikutuma
k'eumbo ukati-wi? —Ndyikati vala: “Ehe-ehe-ehe-ehe...? Okuihana ekwele.
—Nkhwele, ankho ndyikutuma-vo k'eumbo, uti-wi? —Ndyikati vala: “Kweee!...
Kweee!...... —Ai! “Não vale a pena!? Asele! Okuenda umwe oko. Okuihana
onkhombe. —Ankho, onkhombe, ndyikutuma-vo k'eumbo, ukati-wi? —Ndyikati:
—Kó-kó-kó-kó! Enda tú! — Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Kalei watyaela-tyi elombe? Enda
tú! Hamba yenyi k'eulu lyomumbe! Enda tú! — Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Ati:
Iya!... Hateka lumwe, Tatekulu! Okuhateka umwe, onkhombe
oyo umwe, yavasa umwe ovanthu aveho m'eumbo vetai, vapopisa onomphela ku Kalei.
Tyino yeya, avati umwe:
—Tehelei otylila etyi tylimba! Tyino tyeya p'eumbo atyiti:
—Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Kalei watyaela-tyi elombe! Enda tú!
Hamba yenyi k'eulu lyomumbe! Enda tú!... Ovanthu ovo aveho ankho vapopisa
onondaka okuhomboka okuti:
—Otyiila patyi ipopya ngotyo?.... Tyino yeya okuliseta
n'eumbo... Okuilandula... Okuilandula... Vavasa ohamba alho yaninwa k'ombanda
yomumbe n'omatwi oviila. Okuipola-po... kaveile umwe okuipaa?
38: O
Velho e a Menina Pobre
Um velho... pois é isso mesmo, um conto com partes
cantadas... uma menina que tem seu pai velho e pobre. A menina vai colhendo
bredos. E os bredos não lhes fazem mal. Umas folhinhas destas, outras daquelas,
todas as reles folhinhas que encontravam, as vai ela apanhando, pois são
pobres. Põem-nas depois em certo lugar. Vem uma ave defecar por cima. A deitar
excrementos para ali. Tendo a ave defecado, vai a menina e lava... Não há meio.
E tornou a repetir a lavagem no dia seguinte pela mannã. Exclama o seu pai:
— Ó minha mulherzinha, onde é que andas tu a apanhar estes bredos
saborosos? Diz ela: Ô pai, é uma ave que lhes larga excrementos! —Ele:
—Não, minha filha, é melhor eu ir agarrá-la para que não
venha mais excrementar perto de nós. Indo a pequena aos bredos, ele seguiu por
detrás e aos lados à socapa. armado de sua catana, o tal velho. Eis que a ave
se debate. (O velho) agarrou segurando-a numa perna. A ave toma-o pelos ares. A
pequena a chorar. —O pai, ó pai, larga-a que ela leva-te à Ventura! Vê lá,
deixa-a! Vê lá, deixa-a! Que ela defeque seus excrementos de gordura. A menina
a esforçar-se mais na corrida, mas ele vai. Pega ela na cesta dos bredos e
joga-a ao chão. Está irada. Ao ver seu pai levado pela ave. —O pai, ó pai,
larga-a que ela leva-te à Ventura! Vê lá, deixa-a! Vê lá, deixa-a! Que ela
defeque seus excrementos de gordura. Mas aquela ave arrebata consigo o velho e
vai largá-lo com violência numa lagoa... Cachapum! no meio da lagoa de que se
fala, em sítio ermo. A menina põe-se por ali a andar àroda. E ao deitar os
olhos... surge-lhe uma velhinha. Começa a dizer a velhinha:
—Olha cá, que fazes mais tu aqui ao pé da água? Ou
procuras-me tu para alguma coisa? Diz a criança: Não é nada, minha avó. E o meu
pai que foi levado por uma ave e ela veio lançá-lo ai na água. Diz a velhinha:
Pega só nesta casca de “maboque? para ires tirando água de dentro dessa lagoa.
E a menina: Ora essa! Minha avó, então esta casquinha pode esgotar uma enorme
lagoa como esta?! Resposta: Experimenta só! E a menina a deitar água para ali,
a deitar água para ali, até que lançando o olhar... eis a cabeça do pai... do
seu pai... Exclama a criança:
—Ah! O pai, cá está ele. E o pai saiu dizendo:
—Minha filha, tens um crédito grande para comigu, por causa
de teu bom coração, não podes voltar sem nada. Pois que me seguiste até aqui,
deste verdadeiras provas disso! Ao relancear o olhar... aparece também um rei
que all havia sido lançado. E esse rei declara:
—Eu vou-me mesmo casar com esta menina, porque ninguém da
minha terra veio atrás de mim. E casaram-se de facto. Tendo casado com aquela
menina, ele mais seu sogro, foram vivendo, vivendo, por longo tempo. Esse rei
saiu de casa a julgar umas questões em determinada terra. Fez-se acompanhar por
um seu ministro de nome Kalei. Depois de muito terem andado, sentiram fome.
Metendo-se por aquele mato, encontraram uma berquémia. Diz o rei: O Kalei, sobe
à berquémia e colhe de seus frutos! Não! Estes frutos de berquémia... (é Kalei
quem fala). Não, não! às árvores desta terra só a elas trepam os reis, não sobe
a elas gente miserável. Tendo subido o rei, o Kalei voltou para casa. Chegado a
casa, Kalei dirige-se a determinado lugar. E afirma:
—O rei disse assim: Vai tu resolver os julgamentos. Eu
fico-me por aqui. Afinal é pura intrujice; o que ele quer é a mulher do rei. O
rei teve de ficar ali retido. Num momento em que relanceava o olhar, põs-se o
rei a chamar o passarinho verde. —Passarinho verde, se eu te mandar a casa, que
vais tu lá dizer? —Eu vou só fazer assim: Ehe-ehe- -ehe-ehe...? Chama então a
ave zombadora. Ave zombadora, se eu te mandar a ti a casa, que dizes? —Eu vou
só fazer assim: Coé... Coé —Não! Não vale a pena! Pois sim! Toma outro partido.
Chama ele a águia-de-cauda curta. —E se eu, óáguia, te mandar a ti a casa, que
vais tu dizer? —Eu vou dizer assim: Có-có-có-có! Vai por diante! Có-có-có- Vai
por diante! Porque é que Kalel tem o rei sequestrado? Vai por diante! O vosso
rei está em cima da berquémia! Vai por diante! Có-có-có-có! Vai por diante!
Responde o rei: Pois bem!... Corre a valer. Obrigado! E ela a correr deveras,
essa mesma águia, indo precisamente encontrar em casa muita gente em pé, a
pedir a Kalei o julgamento de suas questões. Chegado à ave, exclamam então:
—Ouvi o que está a cantar esta ave! Chegada a ave, exclamam entwo: Có-có-có-có!
Vai por diante! Porque é que Kalei tem o rei sequestrado! Vai por diante! O
vosso rei está em cima da berquémia! Vai por diante! Toda aquela gente que
expunha suas questões prorrompeu na exclamação: —Que ave é esta que assim
fala?!... E quando ela veio dar a volta à casa... trataram de segui-la... de
segui-la ... Encontraram o rei em cima da berquémia todo ele cheio de sujidades
das aves. Desceram-no... e vieram executar Kalei, o criminoso.
Dados
biográficos e outros como no N.° 7. Apesar da narradora ser Mwila e viver na
área da sua etnia, a origem do conto deve ser diferente. De facto a “berquémia?
(Berchemia discolor) não se dá na parte mais elevada do planalto. A partir dos
Gambos, mais que se avança para o Sul, com maior frequência se encontra esta
bela árvore frutífera. Abunda também na região chamada “Serra-abaixo?, na terra
dos Quilengues e Cuvales. O nome Kalei não é antropónimo, mas designa um dos dignitários
dos sobas entre os Nyaneka-Humbe. Segundo o P.°" Lang, na corte do régulo
da Huila, ele ocupava o terceiro lugar na escala hierárquica dos ministros. Diz
este autor: “Le Kalei est le gardien du roi; il l'accompagne partout, ne doit jamais
l'abandonner et, comme le premier conseiller, est autorisé à lui faire des
remontrances? 76 . Por isso, no caso do nosso conto, maior é o crime de
infidelidade e usurpação, cometido por quem devia ser o confidente do seu amo.
39:
Omulume - N'omona Wae - N'Otyindondi
Omulume ou una omona womulume. Omulume ou wapulila
m'otyindondi. Otyindondi otyo tyaika okupelwa p'elonga. Omulume watongona
nokuti: Tala, otyindondi otyo hamutyipela-pela pofi; nga nina apa naya.
tyipeleni noho p'elonga. Omulume ou waya ouenda. Etyi aya ouenda, omona wae
ati:
—Nendukwa-ila okupela-pela otyindondi etyi p'elonga.
Otyipuka otyifitu! Ame hono anityipela pofi. Ina hati: Ai! Kuketyipele pofi!
Omona wapatana. Otyindondi otyo haetyipela pofi. Otyindondi etyi nke tyalya,
tyapu tyahena. Otyindondi katylmoneka. Se okuya, hati: Otyindondi tyayapi? Ina
hati: Omona nkhwall wekapela pofi. Hati: Hatyo napopile ale? Katukeni! Muende!
Omona hati:
—Meme, katupondola okuya atuse okutankhama m'ofika, ye
anikekulikife m'ofika; ame netyipele-pele pofi. Fala noho n'omulume wove, ame
hekulu nikelikupule m'ofika. Wapita omupeto. Okuya m'ofika, omona ou wahonga
omuti, wapangela okañgoma. Weya okuvaka okambandwa m'eumbo. Wekapangela
k'okañgoma oko. Tahikila-ila omupeto. Ina undite okañgoma akati:
—Tiki, tiki, tiki, tiki, tikilingindi! —Tiki, tiki, tiki,
tiki, tikilingindi! Wapita-ila. wahanga-ila ovindondi. Tahiki ongoma tandimbi:
Sando, okandondi katate, kena omityila vivali! Sando, okandondi katate, kena
omityila vivali! Ovindondi haviti: Tala oku; Kuli omutyila wike, Kakuli mityila
vivali! Tala oku; Kuli omutyila wike, Kakuli mityila vivali! Avitiapula-ila,
avilikaifa-ila omona okuti:
—Tala oku, kull omutyila wike, kakuli mityila vivali!
Okandondi katyo oko, hinga kena omityila vivali. Wapita, otyo noho taende.
Wakaoyela ngok'oTyipungu oko. Wevihanga ovimphunda. Otyo tahiki okangoma kae:
Sando, Okandondi katate, ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Viatiapula... Tahimaina-ko
noho n'ovilongo vyatyu vise. Wevihanga tupu. Tahiki okangoma kae: Tiki,
tiki,... Wevifila-po wapita. Kake-po okandondi katyo. Kaya noho n'ovilongo.
Wapita, wakoya-ila Otyipungu, wapita- -ila k'Onano oko. Wevihanga ovimphunda!
Tyimwe tyinene otyunda tyatyo. Tiki, tiki, tikilingindi... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... Otyo viatiapula, vyasukwa-ila. Oko yatyo oko wekehanga!
Katankhama omityila kevifatela. Okutiapula kelihaika okuti pamwe anikwatwa.
Vikwavo evi, ovyo avitiapula noho. Ye tahiki okangoma kae. Tiki, tiki,
tikilingindi... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Nkhele ahika okangoma
oko, nkhele kandyaleka oko. Nthiê noho nâ ukakwete! Ye tahuma-ko-ila.
Talala-ila taende, Otyo noho taende. Weya-ila, wahanga ovose na ina. Komapeto
veundite okangoma: Tiki, tiki, tikilingindi... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... Ina hati: Hum! Okangoma aka nekatiele ale, papa pailile omona wange.
Pahapa okoko nô tupu. Otyityi ale etyi? Ulihauka noho, okapuka akati:
—Keu, keu, keu, keu! Okandondi kandimbuka-ila m'eumbo
lyavo. Okuya-ila hati: —Tate, tambula okandondi kove. Papwa, hikapapa vali
pofi. Ina watongonona hati: —Ame name, omona wange, ngeno waliwa n'ovifitu, ame
name hin'okukala vali m'eumbo muno. Pahapa ame anii n'omona wange. Velihenga-ila
n'omulume wae. Lwapwa-ila oluñgano iwange olo
[Page
[NA]] MELODIN DE DUAS ESTROFES DO CONTO Nº 39 SANDU OKANDONDI KATATE
39: Um
Homem - Seu Filho e o Macaquinho
Um homem tem um filho. Este homem está associado a um
macaco, por via de um poder mágico. Tal macaco habituou-se a receber a comida
num prato. O homem disse aos da casa: Ao macaco não se serve comida no chão. Se
eu me ausentar, é preciso dar-lhe sempre de comer num prato. Depois do homem
ter ido de viagem, o seu filho disse:
—Estou farto de dar comida ao macaco num prato. Afinal esta
“coisa? não passa de um bicho! Hoje vou pôr-lha no chão. A mãe disse: Não!- Não
lhe deites a comida no chão! O rapaz teimou e lançou a comida ao chão. O
macaco, depois de ter comido, fugiu. O macaco desapareceu. O pai regressou. Não
encontrou o macaquinho. Perguntou:
—Para onde foi o macaquinho? A mulher respondeu: O filho
deu-lhe comida no chão. —Ai sim! Não foi isso que eu disse? Ponde-vos a mexer e
ide-vos daqui para fora! O filho porém observou:
—Mãe, não podemos ir os dois viver no mato, não devo
expor-te a seres devorada na selva. Tanto mais que fui eu quem lhe deitou
comida no chão. Fica cá com teu marido, enquanto eu vou embrenhar-me no mato, a
procurar o animal. Saiu de casa pela noite. Já dentro da selva, o rapaz fez uma
pequena caixa de batuque com um bloco de madeira. Voltou a casa para surripiar
uma pequena pele curtida que aplicou à caixa. Durante a noite pôs-se a tocar o
batuquezinho: A mãe ouviu o som do batuque que fazia assim: Tique, tique,
tique, tique, tiquelinguinde! Tique, tique, tique, tique, tiquelinguinde! O
rapaz prosseguiu viagem e encontrou um bando de macacos. Pôs-se a tocar o
tambor e canta: O meu xará, macaquinho do meu pai! Tu que tens duas caudas! O
meu xará, macaquinho do meu pai! Tu que tens duas caudas! Os macacos respondem:
Olha para cá, aqui há só uma cauda! Não há duas caudas, não! Olha para cá, aqui
há só uma cauda! Não há duas caudas, não! Eles puseram-se a dançar e mostraram
ao rapaz as caudas dizendo: Olha para cá, aqui há só uma cauda! Não há duas
caudas, não! E que o tal macaquinho tinha duas caudas. Dali o rapaz foi para
mais longe, sempre andando. Percorreu a terra do Quipungo e encontrou ali
grandes bandos. Assim foi tocando o seu batuquezinho a cantar: O meu xará,
macaquinho do meu pai! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... E todos dançaram
ao som do batuque. Foi atravessando muitas terras, tendo encontrado grandes
bandos destes animais. E sempre lhes tocava o batuque: Tique, tique...
Separou-se deles para ir mais longe ainda. O macaquito não se encontrou. Deve
ter ido para outras terras. O rapaz, tendo procurado em toda a região do
Quipungo, meteu-se a caminho até atingir a terra dos Bundos. Deu ali com uma
enorme macacaria. Foi-lhes tocando o batuque: Tique, tique, tiquelinguinde...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Todos se puseram a dançar e encheram-se
de alegria. Finalmente o desejado macaquinho estava ali! Tinha-se sentado com
as caudas metidas por baixo do trazeiro. Desconfiou e não quis dançar com medo
de ser agarrado. Os outros é que estavam a saltitar e o rapaz a fazer ressoar o
seu batuque. Tique, tique, tiquelinguinde... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... Num momento dado, o macaquinho deu um salto. O rapaz deitou-lhe a mão e
agarrou-o. O rapaz retirou-se depois daquela terra. Pernoitou e andou uns dias.
Chegou enfim a casa e encontrou o pai e a mãe. Antes, ao cair da noite, ele
tinha tocado o pequeno batuque que eles ouviram: Tique, tique,
tiquelinguinde... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... A mãe dissera: Hum!
Este pequeno tambor eu já o ouvi, quando o meu filho partiu. Que novidades
trará? De repente o bichinho começou a berrar: Queo! Queo! Queo! —O macaquito
reconheceu a casa. O rapaz apresentou-se então e disse:
—Pai, aqui tens o teu macaquito. Acabou a questão. Não lhe
darei mais comida no chão. Mas a mãe declarou:
—Eu assim... faltou pouco para o meu filho ter sido
devorado pelas feras, não continuarei a ficar nesta casa. Eu agora vou-me
embora com o meu filho. Ela e o homem separaram-se.
Terminou o meu conto.
Dados
biográficos e outros como no Nº 19. Esta narradora, tem o costume de empregar a
torto e a direito, a forma intensiva do verbo, constituida pela partícula “ila?
acrescentada aos tempos normais do verbo. A locução: okupula m'otyindondi, que
traduzimos —estar associado a um macaco por virtude de um poder mágico,
necessita umas palavras de explicação. Quem detém o poder mágico é evidentemente
um ser humano, que o adquiriu por meio de uma espécie de sacrifício ritual,
tirando a vida a um próximo parente, recorrendo para tal, não a processos de
ordem física, mas mágica. Feito isto. “a alma? do “sacrificado? se transforma
em tyilulu —termo que se pode traduzir mais ou menos exactamente, por espírito
mau, o qual fica agora ao serviço de quem se submeteu às exigências do dito
ritual, por uma espécie de possessão. Por sua vez, o tal espírito poderá dispor
de um ou mais animais seus servidores. Proceder a esta “operação? É que os
Humbes, Ambos e outros povos do Sul chamam oku-pula (com u longo). Os Nyaneka,
ao mesmo tempo que os Dimbas e Cuvales, empregam o termo oku-tambula etambu,
podendo-se verter esta última expressão por receber um poder mágico. São vários
os animais que passam por terem sido escolhidos para auxiliares de “Tchilulos?:
uma ave crepuscular, de nome ekowe, a lebre, o varano, uma cobra muito venenosa
(entre os Donguenas) e nos Cuvales o próprio leão. Nas nossas investigações
nunca tínhamos ouvido mencionar o macaco, como entrando nesta categoria. Mas
não admira ele figurar no elenco. Ê quase certo que ele é tido por desempenhar
um papel semelhante ao da lebre, para quem detém o “poder da abundância de
mantimento? e que é ir roubar, sem ser visto, cereais nos campos dos vizinhos.
Nesta matéria —e mais que em outras —permitimo-nos indicar ao interessado o que
escrévemos a este respeito na “Etnografia?. [Page [NA]] MELODIN DE DUAS ESTROFES
DO CONTO Nº 39 SANDU OKANDONDI KATATE
40:
Omulume N'Omukai N'eila
Opopo umwe. Omulume n'omukai ankho vatekula eila m'eumbo
lyavo. Apeho, apeho eila eli veliavela okulya p'elonga, tyetyi kalihande okulila
p'ovilindo. Tyino tyamana okulya p'elonga lyatyo, otyiila tyiinina-po omulela.
Kumbi limwe ovohe vaya vakapila. P'eumbo vasa-po vala ovana. Ovohe etyi
vakapila, ovana n'avo aveya okupilwa na vakwavo. Etyi veya p'okulya, omalonga
kaatuukile mu vo aveho. Avapolo elonga lyeila, ongo avelipakela p'otyilindo.
Etyi eila leya m'okunumana, alihali, ongo lyahimbika n'okulila. Etyi ovohe
vehika k'eumbo eila okuvemona aliti: Omphungu muekela p'ohi. Omutyokolo
om'ombiya itokota! Hekulu akwate eila, alondo ku lyo. Omona ati: Tate liyeka!
Ongo oe ati:
Hiliyeke liniania
ongundi omulela. Alikatuka nae. Omona ati ñgo:
—Tate liyeka!
Likutwala k'Onkhumbi, k'ovaye! Ongo ati: Hiliyeke liniania ongundi omulela!
Eila atila hekulu:
—Tuende, ukatale k'omaila omanene, omanthendepuku! Alii
umwe nae ló k'eiva limwe enene, omu mukala omaila atyo omanyingi. Eila
alimutula kombanda yonkhanda onene ili m'elva lyatyo. Onkhanda oyo aihimbika
okusenguluka, lo hekulu yeila anyingfila k'ohi yomeva, ngo-ko ankhila.
Ahamoneka vali k'ombunga yae.
40: Um
Homem Sua Mulher E Um Passaro
E destes mesmos que se trata. Um homem e sua mulher
domesticaram um pássaro. Desde sempre davam ao pássaro de comer num prato,
porque ele não gostava de comer numa panelinha. Depois de comer no prato, o
pássaro largava manteiga. Um dia o marido e a mulher foram dar um passeio,
deixando os filhos em casa. Nesta ocasião os filhos receberam a visita de
hóspedes. Quando chegou a altura da refeição, os pratos não eram suficientes
para toda a gente. Por isso serviram-se também do prato do pássaro e
deitaram-lhe a comida numa panelinha. Ao chegar à panelinha, o pássaro ficou
zangado, não comeu e pôs-se a chorar. Quando os pais voltaram a casa, o pássaro
ao vê-los disse: Os bredos deitaste-los no chão, e a comida para os bicos
compridos, numa panela escaldante! O dono do pássaro pega então na ave e monta
nela. Um dos filhos disse: Pai, deixa-a! Mas este replicou: Não a largo, porque
ela nos fornece boa manteiga. O pássaro levantou voo com ele. O filho insistiu:
—Pai, larga-o! Ele
vai levar-te para o Humbe, para o meio dos mortos. Respondeu este: Não o largo,
ele costuma defécar boa manteiga! O pássaro por sua vez animou o seu dono:
—Vamos, verás aves enormes, caçadoras de ratazanas! Levou-o
assim, até um extenso lago, onde se encontravam aquelas aves, em grandes
bandos. Poisou-o sobre um grande rochedo que havia naquele lago. Mas o rochedo
começou a derreter-se, até o dono do pássaro ficar tragado pela água. Nela
faleceu e nurica mais foi visto pelos seus familiares.
Dados
biográficos e outros como no Nº 30. Como é fácil notar, este conto compõe-se,
em grande parte, de elementos contidos em duas narrações já transcritas.
41: Omulume Wahombola
Ombanda
Omulume wahombola ombanda; tyapu tembo yeumbo wakana-po.
Etyi akana-po pafala omumbanda watyo. Omumbanda watyo oe wafala n'omona wa
mukwavo ou wokwakana-po. Ose yatyo, ngotyo kwatya, takanthita onongombe. Etyi
takanthita, ou omumbanda watyo tatyitukila omona okumulya. Kalunga nkhwali
lyemuyelula, okumulondeka k'omuti, k'eulu. Etyi ahuma-ko oko otyo tandimbi
okuti: Naulula ê! Naulula ê! Lume lyange lyakayeva! Tate wamona ondumbu, Wati
ukai! Etyi alitoko ye se kuna teuya. Hono mwalolu se walupula onongombe. Etyi
alupula onongombe, wendihingila nô lwakoko, ye taholama m'ongumbu. Ye omukai
hatyituka —ila, n' okutyitukila omona. Kalunga nkhwali ha lyayelula omona,
okumutwala k'omuti. Ye hatyo tandimbi-ila okuti: Naulula ê! Naulula ê! Lume lyange
lyakayeva! Tate wamona ondumbu, wati ukai! Omulume hakutala nawa omukai! Hakupola outa.
hakumuloya! Tyapwa. Ha lwapwa?
41: Um
Homem Casou Com Duas Mulheres
Um homem casou com duas mulheres. A primeira morreu. A
segunda ficou com o filho da falecida. O pai, ao romper do dia costuma levar o
gado ao pasto. Uma vez o homem no pasto, a mulher transforma-se em fera para
“comer? a criança. No entanto, Deus arrebata-o e coloca-o em cima de uma
árvore. Tendo descido da árvore, o rapazito entoa esta canção: Clamo por
socorro! Clamo por socorro! “Meu homem? foi à caça. Meu pai juntou-se a um
leão. Julgando que era mulher. Ao entardecer o pai volta a casa, e no outro dia
ele dá novamente saida ao gado. Depois de o deixar sair, ele vai esconder-se
atrás do cercado. A mulher transforma-se outra vez em fera para dar cabo da
criança. Mas Deus com certeza pega nela e coloca-a em cima de uma árvore. O
filinho repete o seu canto: Clamo por socorro! Clamo por socorro! “Meu homem?
foi àcaça! Meu pai juntou-se a um leão, Julgando que era mulher. O homem
observa entâo a mulher. Pega na espingarda e dá-lhe um tiro. Acabou-se! Não
terminou o contozito?
Dados
biográficos e outros como no Nº 20. Nesta narrativa fazemos conhecimentos com
mais um fenómeno mágico, os “Omatyituka?, palavra que não se pode traduzir,
senão por: seres humanos transformados em feras. Não é que este termo não se
empregue também em linguagem profana para significar um objecto que mudou
completamente de aspecto ou de natureza. Mas quando se fala em Omatyituka (subst.
plur. de Etyituka, derivado do verbo oku-tyituka que por sua vez é a forma
intransitiva e intensiva de oku-tyita gerar, criar) já se sabe que se quer
infligir este labeu a um ser humano. São considerados possuir tal poder homens
ligados a um “Tyilulu? e os que se supõe possuir a faculdade nefasta de ouanga.
O facto de a criança ser salva da fera humana pelo próprio Deus, não tem nada
de estranho para a mentalidade banta. Portanto não seria acertado querer ver
neste pormenor qualquer influência do cristianismo. Era e é ainda muito
frequente velhos gentios daclararem, depois de esgotados todos os meios da
terapêutica espírita e natural: “Agora é só Deus que nos pode valer?, maneira
de falar que se condensa às vezes num provérbio. Quanto à forma da narrativa
convém observar que a contadora usa fàcilmente uma dicção “sincopada?, o que a
torna obscura. Também se permite empregar vocábulos de outras línguas e
dispensar-se das regras gramaticais.
42:
Omulume N'omukai Wae P'enima Lyondyala
P'enima lyondyala vetupu etyi valya. Natyike... natyike. Aveho m'otyilongo vapwa okunkhya. Naumwe
vali ukahi-mo. Vahupa-mo vala vevali: ou un'omukai wae, ou un'omukai wae.
Vatungila pamwe. Omukwavo muhuka tyé, ovana valele n'ondyala, vetupu etyi
mavali. Omukai ati:
—Matunkhi-ale k'ondyala!... Omulume walele n'okulisoka.
Etyi kwatya wamaneka, “masi? kakatukile k'omuhuka, wakatukile k'etango, aende.
Etyi ati p'okati ekumbi lyanyingila, alangala-po. Etyi elinyinga, ahimbika
okuteleka okakulya kae. Etyi tyikahi pahe ng'op'okati kovinthiki. Tyino atalele
apa akatapelele omeva patundilila omatemba ehen'etyi atyinda. Ahimbika
okulipula-pula m'omutima wae:
—Omatemba a. atundilila oko nakatapelele omeva, aenda
ñgeli? Etyi omatemba apita, tyondyala, ahimbika okutala apa patundilila
omatemba. Tyino eya okutala-po... om'ondywo vala, muna vala ovikulya. Tyati:
ohinde omo ikahi, ovikulya vyovindele omo vikahi... n'“omaloso?, n'“onomasa?,
n'onombolo?... aviho vyanyanekwa vala. Omulume ou ahimbika okulipula:
—Ndyilinga ñgeli? Ndyinyingile?... Omutima wankhya ondyala
auti:
—Nyingila! Anyingila. Ahimbika okutaindya ono “saku?
m'ondywo yatyo omu. Muna vala “onosaku? mbuhena tyimwe. Ahimbika okupola
“onosaku? ombu. Alongela ohinde, alongela “omaloso?, apake-mo “onomasa?, apake-mo
“onombolo?. Akutu osaku yae, alupuka. Etyi alupuka, aende p'otupya twae. Oko
asa-po vala ombululu ngetyi pali-ale. Ak'apumphama p'otupya twae opo. Pakala
katutu, omatemba oko aile ó, akondoka vali, anyingila. Otyo atala. Ahamaende
nkholo tyondyala. Otyo atala vala, Omatemba óanyingila m'okati apeliyeila. Otyo
atala. Etyi kuhungi k'okutya, onofufwa ambupopya, omulume elihindaika n'osaku
yae, okukondoka k'eumbo, k'ovakai. Etyi eya k'ovakai, ati: —Vakai, yakulei! —
Mulume wange, waeta-tyi? Ati:
- Nakataindyile tyokulya. Iya, have wetakelelwe pano
n'okuti ovana valele n'ondyala? Wetyilimbwa? Omukai wayakula. — Tatekulu Osaku
watwala m'otyivo. K'omuhuka etyi kwatya vahimbika okueta ovikulya avateleka.
Okukataindya omupika umwe vail. Watundilila vala m'onohika omu.
—Ove uenda-pi? Ati:
- Ame ndyitupu oku ndyienda na ko. Ndyitaindya vala
omaumbo. Naliwa vala n'ondyala n'ohunga. —Iya, endyu muno! Omu muna etyi
tyokunwa n'etyi tyokulya. “Masi? molingi omuundapi wetu wovilinga. Ovilinga
vyatyo vyove ovyokutelekela tyokulya. Omulume wanyingila, wapewa okulya
—tyatiwa:
—Kateleke! —Ali; ahimbika ohutelekela vali ovana vom'eumbo,
n'omulume n'omukai. Omulume omukwavo, ou vakala nae m'otyilongo, vatungila
kumwe na e... pen'ovana vae ovatutu veya okunyana k'ovakwavo. M'okunyana vatala
ovikulya maviliwa. Vana vakahateka,
vaya ku he na ina. —Tate!... Twaile m'eumbo omu Mun'ovikulya!... Ina wati:
- Ovikulya patyi,
mukwe. m'ouye muno muhamoneka ovikulya?!... —Ovikulya twavasa: Ohinde itai...
muna vimwe viliwa vali ovingonga ñgana... muna ovikwavo vali vilinga
ng'onombolo... Ina ati:
—Wó!... (Oina utola) “Bom?! Vana vange, kalei p'ohi
ndyipopile ho nga eya. He weya. Ati: —Mulume wange, kukatala-ko m'eumbo omu? Matiwa
mun'ovikulya; onthwe twalala ñgana n'ondyala... Omulume ou walupuka, waya
m'eumbo omu. ati: —Iya... Veumbo avetavela, avati:
—Lyepe-ko! Ati: —Mbe! — Muluvailila? Ati: Tuluvailila. Pahe
okuluvailila vala. Okuvandya. Muna m'eumbo avetavela: —Vaketu! Muna tupumphi
vala. Pahe ngetyi mweile okuluvailila. Okuvandya. Etavela:
—Mbe! —Muhekulu weumbo, kwavela omulume wokweya apa?
Kumuavela okulya? Avemuavela okulya. Ali.... lye, lye, lye, lye, lye.... Kasoko
vali tyokutyindila omukai. Walya vala tyom'eimo lyae. Ahimbika:
—“mBo?! Onthwe tuenda vala. Ôyotulalel-po! Veumbo
avetavela:
—Mbe! Lalei-po! Muhelipundaukei. Akaya k'omukai wae:
—Mukai, etyi namona m'eumbo omu... Aú! Hinetyimone-ale. Muna tulala n'ondyala;
m'eumbo omu muna okulya. Tyati vala: Ohinde onosaku... onombolo onosaku...
“oloso? onosaku... “omasa? onosaku... Omukai ati: Huum! Iya, hatyo otyo
tupopy'ale? Pahe ovalume ovakwenyi kavaenda-enda m'otyilongo okutaindya
tyokulya? Ove ulihimama vala, uliyeka vala m'ongolo! Avahimbika okulangala-po.
Etyi vati k'ounthiki, omukai wati:
—Ove utyii. mulume wange? Muhuka, limeneka kuna waile
k'eumbo. Kapule-vo tava yove. Uti: “Oko wakapolele ovipuka evi vyokulya,
m'otyilongo muno omu muhena tyokulya... opi?? Utehelela ouye, ekuungulule.
N'ove opo upola-po ounongo. Uhapange n'oundamba. Onofufwa mbapopya. Tyino
kwaandyuluka, omulume welimeneka ombimba. Waya m'eumbo omu.
—Okameniei, tava!
—Mbe! Lyepe-ko, tava! Ati:
—Vaketu! —Mwelimeneka?! Ati:
—Twelimeneka. Ove nkhele tweile apa okuluvelela
k'onongulohi, omitima vyakalele vala maviñgwala-ñgwala. Tweya okupula vali omapunga.
Hamwe onwe mutunoñgonokesa-vo onondunge. M'eumbo lyetu, onthwe pahe tuenda
umwe, n'ovana vetu. Tupula-vo ku ove: oku wakapolele etyi tyokulya? Ati: Mulume
mukwetu, lipulukwa. Ame ndyili p'onthele yove. Tyino ndyin'apa nakapolele
tyokulya, hikuholeka. Pahe, kalale ononthiki onombali. Mu tatu, ove endyu kuno,
n'omukai wove, ndyikutwale oku navahile tyokulya. Omulume wakalala ononthiki
onombali. Mu tatu, welimeneka, n'ovana vae, n'omukal. Iya... Mbe! Lyepe-ko!
—Vaketu!
— Ati: Tweya! Opopo vala opo twapopile, opopo vala
twaendele. Okuvandya. —Mbe! Au! Iya, hakulongaila vala? Hakuvandya?
—Mbe! Omukai ati:
—Tyu! Avahimbika okulongela ousaku wavo. Avaende. Etyi vati
m'ohika, ati:
—Mulume omukwetu. Kuna nati vala tuende; “para? tulupuke
m'ovakai. Kuno matuhlmama pano “té ? p'etango, onongombe mbuya k'oviunda,
ndyikutwale apa pena tyokulya. Uhalumbane! Etyi etango lyeya p'okunyingiya
onongombe, ati:
—Tava, katuenda? Avaende: ende, ende, ende, ende, ende,
ende... Etyi veya apa p'ohika yatyo, avapumphama p'ohi. —Tava, iya,
matupumphama pano?... Kamatuende? Wati: Tava! Pano twapumphama pano, opo tuvasa
tyokulya. Uhalumbane. Avahimbika okukala p'ohi. Ekumbi n'okunyingila. Okawiwi
tyina kawila p'ohi, omatemba ahimbika okulupuka p'ondywo yatyo opo. Ou wokweya
vali k'onyima wahimbika okutila vali ouoma, okuhanda okuenda nkholo. Omukwavo
un'ae m'onongundwa. —Tava!... Iya, ove uenda vali nkholo?! Etyi twaendela, ove
uenda vali nkholo?! Ati: Iya, omatemba a maeya kamaetuipa? —Ove waenda vala
tyokulya, ove utila vali ouoma okuipawa? Wahandele okuipawa n'ondyala... Etyi
tyokulya, otyo watila ouoma? —Emukwata umwe m'onongundwa. Omatemba óaaende.
K'onyima yatyo pahe, ahimbika vali okumupopila:
—Tava, ove uhakale-kale ñga n'ouoma. Utyii? Opo patunda
omatemba opo, opo pena tyokulya. Pahe, endyu tuende. “Masi? nga tweya m'ondywo
yatyo, okulongela n'okukuluminya. Tyitei etyi wavasa-mo, otyo ulongela, m'osaku
yove. Atulupuka. Tuhapange n'okulongela, té vahekulu vetuvasa-mo atuipawa. Ati:
En! Vanyingila —mo. Tyino vanyingila, omukwavo ahimbika vala okulongela ohinde
n'ovipuka vyae alongelele p'otete, m'osaku yae, aiyula. Ou wokweya k'onyima.
tyiti vala; Alongela ohinde apakela opo, alongela onombolo aongiyila opo, “ni?
okupaka-vo m'onosaku: ulongela vala ononthunthu, ahamalongel'ale m'onosaku.
Omukwavo walongela m'osaku yae, akutu, alupuka. Una, m'“ohora? weya
m'okukongaulula ovipuka vyae ovyo... Wakaeta-tyi... Wakaeta-tyi...
nakaetele-tyi... akaetele-tyi ...“para? okupaka m'onosaku... Ana omatemba
kaeile? Tyino ati ndyihimbike okulupuka, omatemba ana eya. Avemuhupulila —mo,
vamwene voainda [Page 228] ndywo yatyo oyo. Ovilulu. Avihimbika okumukwata:
—Omunthu watundila
pi, wok'ouye omukulu? —Omunthu ou, ha wok'ouye omukulu ou? —Omunthu ou,
owok'ouye omukulu! Tuipaei! Vaeta omitunga, vaipaa. Au!... Omukwavo, ou
wok'ondye watalaile n'okutxwi, watalaile n'okutiwi... Kakumoneka. Ati:
—Ehe! Etyi omatemba anyingila, omukwetu waipawa. A me
ndyienda k'eumbo. Atyinda osaku yae. Ha: mbandaula- -mbandaula, mbandaula -
mbandaula, mbandaula-mbandaula? Eya k'eumbo, k'omukai wae. —Lyepe-ko. mulume
wange! Ati: Vaketu! (Una wasoya vala). —Iya, ove wasoya vala? Iya, mukwenyi
ulipi? —Mukwetu, mukwe, katyipopiw'ale. Mukwetu wamona navi. N'okuya kuno
kahande vali. Pahe wati:
—ondaka andaa —wati: “Kaihane omukai wange, veye vakale-mo
aveho kumwe. Otyo uvetekulila, otyo uveavela okulya. Tyino ven'etyi vasuka na
tyo, vatume kuno, otyo ndyivetuma-tuma. Ame kuno olumono lwalinga olunyingi.
Ame himatundu vali. Tyino nakala andyiveihana?. Vapopya n'omukai wae mwene.
Avalangala-po. K'omuhuka, tyino kutya, vatuma omupika wavo:
—Kaihane vom'eumbo omu. Wekeveihana; n'omukai watyo,
n'ovana vatyo. Aveya.
—Iya...
—Mbe! Lyepei!
—Tyu! —Mwalangalele?
—Twalangalele. Pahe twatala-po vala k'onongulohi... Tyatiwa
k'omuhuka veye vetavele. Pahe tweya okutavela. Ng'oyo okuvandya! Avetavela:
—Mbe! Mweya okutavela... Ovalume twaile na-vo okukataindya
tyokulya... Kuna, ovikulya vyatyo twevivahile umwe. Una wakalinga vali ng'oti
omulume. Una waundapa vali unene. Una etyi amona katyihungamwa, katyihu ku
mbundi. Wanthuma ovipuka evi, n'onohinde, n'onombolo, n'onoloso. Wati: “Twaila
omukai wange. “Masi? k'eumbo ahakale-ko. N'ovana aveho vailuke-ko (Veye m'eumbo
lyange, ndyitekule ame. Iya, mun'etyi mwahanda tyokulya, otyo munthuma otyo
ndyikapola). Kuno ndyili vala m'emono?. Omukai, tyondyala, ou weutiapa-po, ati:
—E! Omulume waya k'otyokulya, kametutumaisa tyokulya?
Omukai ou, kwapwa, avanyingila m'ondywo omu mun'omukwavo. Vahateleka vali...
Omupika opo ekahi wokuteleka! Ha tapitalala?! Kavaninine vala? N'ovana aveho
tyanina vala. Vetupu vali etyi vasuka na tyo. Ku vo kavasukile vali. Palale
ononthiki onombali, ou wokwaipaelwe, omulume wokwesalele, kuna wapopila vali,
watyituka vali ovilulu ovikwavo vyom'ondywo-yatyo muna. —Iya, ove wankhile
ñgeli-ale? Ati: Ame nankhile...
Ankho omukwetu watile: “Endyu tukavake?. Pahe andyiti: tuende. Tyondyala,
andyiti: tuende, tukavake. Iya, okuya muno okuvaka, ame nalinga eimo evi,
nesaililwe vali. Omukwetu una wapita, ame nesalele muno. Mukwetu
wapita ame nesala. Etyi nesala, hatyo mwambasa muno amundyipaa? Ovilulu vati:
—Wó! Pahe molingi ñgeli? —Ndyilinga ñgeli?!... Ame pahe
nalinga wok'ouye omupe. Ndyiwamuno umwe. Evi ovilulu vyemutolela, vyati:
—Walinga umwe wok'ouye omupe; Iya, “masi?, etyi waendele
muno, utupu oku watundililile? Ati:
—Ndyin'oku natundililile. Etyi un'oku watundililile, pahe
wanyingila muno, matuhimbika ovilinga vyetu, onthwe ovilulu? N'onthwe twankhile
ñgo, ngetyi ove wankhya. “Masi? pahe katuli vali k'ouye omukulu. Tuli k'ouye
omupe wetu wovilulu. “Masi? tuundapa ovilinga vyetu. Pahe matuhimbika omalinga
etu n'ove. Walinga umwe omukwetu. Avahimbika okulongela omatemba avo.
Avalongela avaende, okukatuta vali kumwe, oku vaundap'ale. Etyi vakondoka oko,
aveya vali m'ondywo yavo omu. Avahimbika okumupula; —Iya, kamatuende oko
watundilile, uhongole-ko? Avahimbika: Tuende! Omatemba alongelwa, avapandeka,
avaende. Ende, ende, ende, ende, ende, ende, ende... vehika p'eumbo lyatyo opo
patundilile omulume watyo ó, Ati:
—Opapa. —Opapa —E!
—Iya, tulinga ñgeli? —Iya hapo matupandulila-mo? Kamatukevela ñgeno k'etango,
“té ? k'ounthiki, atuipaa k'ounthiki? Avafwenaina k'eumbo. Veya umwe etango
lihungi k'okunyingila. Avevelyepesa —ovoyatyo ovilulu. —Lyepei vomatemba!
Avetavela. —Oko muenda na ko oko? —Oko tuenda na ko oko. Pahe tuenda
n'ok'onKhumbi oko. Okuti ovanthu valalela p'onthele p'ovanthu. Pahe óowetu.
Okuvandya. Vom'eumbo, avetavela:
—Mbe! Avapandaulula onongombe mbavo. Vahekulu vom'eumbo
otyo vatala. Avati:
—Katulaleka mu onwe onongombe mbetu omu? Avati: —Oviunda
ovyevi. Onyingi yeya... Onongombe ambunyingila. Avaende p'omatemba avo opo.
Avalyalya. Etyi vamana okulya:
—Twende, tukelitakelese na muhekulu wom'eumbo. Peya vevali
okulitakelesa na muhekulu weumbo. Vemuvasa p'otyoto upumphi. —Okuluvelela!
Muhekulu weumbo etavela:
—Mbe! Mwatundilila k'otupya? Avetavela:
—Mbe! Pahe ankho twatundilila k'otupya okuti vala
tulitakelese na muhekulu wom'eumbo. Muhuka hamwe tulimeneka okupandeka
onongombe mbetu... tulimeneka atuende. Muhekulu weumbo:
—Mbe! Muhekulu weumbo uhetyii vali okutiwa p'ovipuka apa
pen'ou twakahile kuna. M'omutima wae ketyii. Naina k'ounthiki mavemuipaa. Etyi
vati k'ounthiki avalangala-po. M'okati k'ovinthiki, aveho vali m'omatemba,
aveho, vaundumuka n'okuipaela ovanthu vom'eumbo. Na muhekulu weumbo, n'ovakai
vatyo, n'ovana, atyiho avaipaa. Avakalangala-po. K'omuhuka etyi kwatya,
okutala-mo pahe m'onondywo. Okuikaula m'onondywo, okumbuhanyauna, okutala etyi
tyikahi-mo, atyiho. Aviho vyali-mo vevimana-mo okuvipola-mo. Otyo valongela
k'omatemba avo. Avahimbika okuenda, okukondoka oku vatundililile. Opo vahulilile
vala opo. Aluho vaveta omatutu, okuti tuenda k'onKhumbi, ankho omatutu vala
okuvekembela-po. Avahimbika okupandeka onongombe mbavo tyikondoke k'ondywo yavo
oko vatundililile. N'ovipuka aviho vyavakailwe m'ondywo yavo, aviho vevivasa m'onondywo
mbatyo omu, avevikondaula k'ondywo yavo oku vatunda. Ongotyo vala oluñgano
lwange. Okuvandya!
42: Um
Homem e Sua Mulher Num Ano De Fome
Era em ano de fome e não tinham que comer. Nada... mesmo
nada. Toda a gente naquela terra acabara morrendo. Não há ali mais ninguém.
Escaparam só dois: um homem mais a sua mulher e um outro também com sua mulher.
Eram vizinhos. Um deles, um dia pela manhã, tendo-se seus filhos deitado sem
comer e não tendo nada que provar, disse-lhe a mulher:
—Vamos certamente morrer de fome! O homem passou a noite a
matutar. Ao amanhecer preparou-se, mas não partiu pela manhã, partiu àtarde e
foi-se. Chegado a meio do caminho, pôs-se o sol e ele deitou-se. Depois de se
ter mexido na cama, começou a cozinhar a sua comidita. Era então por volta da
mela-noite. Ao relancear os olhos para o sítio onde havia ido à água, vê que de
lá saem carros de bois, vazios. Começa ele a interrogar-se a si próprio no seu
íntimo: “Estes carros de bois, que surgem de onde fui buscar água, como é que
vieram dar all?? Mal os carros se foram, ele, com as preocupações da fome,
foi-se também a observar donde tinham saído tais carros. Assim que chegou e
deitou os olhos... é tudo um armazém onde só há comidas. Quer dizer: a farinha
ai se encontra, ai estão as comidas dos brancos... até o arroz e as massas e os
pães... tudo ali está espalhado. Principia o homem a interrogar-se:
—Como é que eu vou fazer? Devo entrar?... O estômago
esfomeado respondeu:
—Entra! E entrou. E começou a procurar sacos ali naquele
armazém. São muitos por ali, os sacos vazios. Pega primeiro nesses sacos.
Depois carrega farinha, e carrega arroz, e deita lá dentro massas, assim como
pães. Amarrou o seu saco e saiu. Uma vez cá fora, foi para ao pé da sua
fogueira. Entretanto deixara lá a porta aberta como estava antes. Foi-se pois
sentar junto à sua fogueira. Passado pouco tempo, regressaram os carros de onde
tinham ido e entraram. E ele a ver. Mas não fugiu, devido à fome que tinha.
Ficou só a ver. Aqueles carros entraram para dentro e tudo se fechou. E ele a
olhar. Ao aproximar-se o alvorecer, cantaram os galos. O homem lá se foi
encaminhando com seu saco, de volta para casa, para sua mulher. Chegou ao pé
dela e diz:
—Toma lá mulher!
—Ó meu marido, que é que trouxeste? Responde ele:
- Fui buscar de comer. Então não estiveste tu a dizer aqui
ao serão que os filhos passaram a noite com fome? Já te esqueceste disso? A
mulher agradeceu: Obrigada! Levou o saco para a arrecadação da casa. No dia
seguinte pela manhã, começaram a trazer de comer e a cozinhar. Puseram-se em
busca e depararam com um escravo que vinha de qualquer sítio, desses matos.
—Onde vais tu? E diz ele: Não vou para parte nenhuma. Ando só àprocura de onde
ficar. Estou chelo de fome e de sede. —Então anda cá! Há aqui de beber e de
comer. Mas ficas como nosso homem de serviço. O teu serviço écozinhar-nos as
refeições. O homem entrou, recebeu a ração —pois foi-lhe dito: Vai cozinhar —e
comeu; depois recomeçou a cozinhar para as crianças da casa, para o homem e
para a mulher. O outro individuo, seu companheiro naquela terra, seu vizinho de
habitação... tem em casa filhos pequenos que vieram brincar com as outras
crianças. Enquanto brincam, olham e vêem o que se come. Largam de corrida e vão
até casa de seus pais. —Olha!... Nós fomos ali àquela casa. Há lá de comer!...
Replica a mãe: De comer o quê, pequeno, nesta terra onde não aparece de
comer?!... —Encontramos comida: Há lá farinha... há lá umas coisas que também
se comem, assim brancas... e ainda há umas outras que parecem pães... Diz a
mãe: Oh!... (E a mãe quem fala). Bom! Meus filhos, ficai quietos que eu falarei
ao vosso pai quando chegar. Vem o pai. E ela diz-lhe:
—O homem, não vais tu ver ali na quela casa? Diz-se que há
lá de comer: nós vamos assim para a cama c om fome... Sai o homem, foi-se até
àoutra casa e cumprimentou: —Com licença... Responderam os de dentro: Sê
benvindo! E ele: Obrigado!
— Vens saudar-nos pela noitinha? E ele: Venho saudar-vos. E
é isso o que fazemos. Nada mais. Os da casa responderam. Obrigado! Nós para
aqui estamos e nada mais. Temos agora a novidade da tua visita. Nada mais de
novidades. E ele responde: Obrigado!
—O homem tu não dás nada a este visitante que chegou? Não
lhe dás de comer? Deram-lhe de comer. E ele... comeu, comeu, comeu... Já não
pensa mais em levar àmulher. Comeu ocupado só de sua barriga. Diz ele a certa
altura:
—Bom! Nós vamos indo. Boa noite! E os da casa correspondem:
—Obrigados! Boa
noite! Cautela, não tropeces. Lá foi ele para sua mulher.
—mulher, aquilo que eu vi naquela casa... Não! Ainda não vi
coisa assim. Deitamo-nos aqui com fome e naquela casa há de comer. E só isto:
Farinha aos sacos... pães aos sacos... arroz aos sacos... massa aos sacos!...
Replica a mulher: Pois é! Então não é isso que tenho dito? Não vão os outros
homens por essa terra fora à procura de comer? Tu passas o dia metido contigo,
ficas para aí encolhido!... E foram-se deitando. Alta noite, diz a mulher:
—Sabes uma coisa, homem? Amanhã, madruga e vai à quela casa
onde foste. Vai perguntar ao teu companheiro. Dizlhe assim: “Onde foste tu
buscar estes víveres, aqui nesta terra, onde não há de comer??
—Escutas o que vai pelo mundo. Que ele te explique. Também
tu ficarás a saber que fazer. Não te fiques na tua palermice. Ouviram-se os
galos. Tendo aclarado um pouco, o homem levantou-se, ainda pela aurora.
Dirigiu-se àtal casa.
—Bom dia companheiro!
—Obrigado! Benvindo, camarada! E diz ele:
—Obrigado! —Então tão cedo?! Responde: Assim cedo, é verdade.
Desde que cá vim àcata de comer ànoitinha, o coração passou a noite a cismar.
Venho novamente, em busca de informações. Talvez nos possais ensinar como
proceder. Em nossa casa, nós estamos agora às portas da morte, assim como
nossos filhos. Por isso te vimos perguntar: Onde éque arranjaste de comer? E o
outro: Olha, companheiro, tem calma. Eu moro ao pé de ti. Se me aconteceu
arranjar onde buscar de comer, eu não to oculto. Agora, tu vais deixar passar
duas noites. Ao terceiro dia, tu vens cá, mais a tua mulher, para eu te levar
onde encontrei de comer. Foi-se o homem e deixou passar duas noites. Ao
terceiro dia, madrugou ele, mais os seus filhos e a mulher. Com licença...
—Obrigado! Sê benvindo!
—Obrigado!
—Então cá estais? Diz ele: Cá estamos! Ê so o que
combinámos, é só isso a que viemos. E tudo o que tenho a dizer.
—Obrigado! Nada a objectar! Não temos nós apenas a preparar
viagem? Nada mais. não é assim?
—Obrigado! E acrescenta a mulher: Obrigada! Começaram eles
a preparar os seus saquinhos. Por fim partiram. Quando já em plena mata, diz o
condutor:
—Olha cá, homem. Eu
acclá disse só: Vamos! —era para sairmos de ao pé das mulheres. Agora aqui
vamos passar o dia até o sol se inclinar. lá pela hora do reentrar do gadc, eu
te levarei aonde há comida. Deixa-te de pressas! Chegada a hora do reentrar do
gado, diz então:
—A caminho, camarada, não? E foram. Andaram, andaram,
andaram... Chegados ao local devido, acocoraram-se no chão. —O camarada, então
nós vamo-nos sentar aqui?... Não seguimos? E o outro: Ô companheiro! Aqui onde
nos sentamos, éaqui que encontramos de comer. Não estejas com pressas. Eis que
se acomodam sentando-se. Entretanto pôs-se o sol. Quando o escurecer cobriu o
local, começaram a sair carros de bois de qualquer arrecadação daquele sítio. O
mais novato de entre os dois pegou a ter medo, a ponto de querer fugir. O outro
segurao pela cinta. —Companheiro!... Pois então tu foges?! Daquilo que nós
buscamos é que tu foges?! Resposta: E estes carros que surgem, não nos vão
matar?
—Tu vieste só por causa de comida e agora tens medo de ser
morto? Faltou pouco para seres morto pela fome... E de comer que tu ainda tens
medo?
—E segurou-o bem preso pela cinta. Os tais carros passaram.
Passado aquilo, começou então a falar-lhe assim:
—Companheiro, não te atemorizes dessa maneira. Sabes? Ali
donde saíram aqueles carros. É lá mesmo que há comida. Agora vcm daí. vamos.
Mas, quando chegarmos lá dentro, é carregarmos depressa. Conforme o que
encontrares, assim carregas no teu saco. E saímos. Não nos arrastemos a
carregar, até que os donos nos encontrem e nos matem. Diz o outro: Está bem!
Entraram. Havendo entrado, começou o primeiro a carregar a farinha e as suas
coisas que já carregara da primeira vez, metendo-as no saco e este encheu-se. O
outro, novato, fica-se só nisto: Carrega a farinha e vai pousá-la; carrega os pães
e vai juntá-los mais ali; nem ao menos mete aquilo em sacos: limita-se a juntar
as coisas em montes, em vez de as carregar nos sacos. O primeiro carregou no
seu saco, amarrou-o e saiu. O outro, chegada a altura de reunir aquelas suas
coisas, foi por isto... foi por aquilo... foi buscar mais isto... lá vai mais
em busca daquilo... A fim de carregar nos sacos... Ora não aconteceu que os
carros vieram? Quando ele se dispunha a sair, os carros chegaram. Apanharam-no
lá dentro os donos daquele armazém. Seres maldosos! E eis que se deitam a ele:
—De onde veio este indivíduo, pertencente ao “mundo
antigo?? —Este indivíduo, então não é ele do “mundo antigo?? —Este individuo
édo “mundo antigo?! Matemo-lo! Trouxeram punhais, mataram-no. Nada!... o outro,
o de cá de fora, olhou a ver o que vinha, olhou a ver o que vinha... Nada
aparece. E diz com ele:
—Não há dúvida! Visto que os carros entraram, o companheiro
foi morto. Eu vou para casa. Carregou com o seu saco. E não vai ele, caminho
fora: torce-que-torce, torce-que-torce, torce-que-torce? Até que chegou a casa,
junto da sua mulher. —Ó meu homem, sê benvindo! E ele responde: Obrigado!
(Mostra-se abatido).
—Então tu estás assim abatido? E que é do teu companheiro?
—O meu companheiro,
isso nem se conta. O meu companheiro está muito rico. Ele nem quer voltar mais
aqui. Ele disse —é o recado que me encomendou —disse:
“Vai chamar a minha mulher para que venham e fiquem todos
juntos em tua casa e tu vais tratando deles, tu vais-lhes dando de comer.
Quando precisarem de alguma coisa, que mandem cá buscar, eu lhes irei
remetendo. Eu aqui, tornou-se-me muito grande a riqueza. Não abandonarei mais o
lugar. Depois de ter ficado, chamá-los-ei?. Conversou assim com a sua própria
mulher. E deitaram-se. Na manhã do dia seguinte, mandaram o escravo:
—Vai chamar a gente daquela casa. Foi chamá-los, tanto à mulher
como às crianças. E eles vieram.
—Com licença...
—Obrigado! Sêde benvindos!
—Obrigada!
—Passaste bem a noite?
—Sim, passamos. Estivemos à espera ontem à noitinha... E
diz-se agora de manhã que viéssemos atender. Viemos pois atender àchamada. Eis
o que temos a expor!
—Obrigados! Viestes atender à chamada... O homem com quem
fui em busca de comida... nós lá encontrámos comida a valer. Ora ele parece que
ainda foi mais homem do que eu. Aquele homem produziu muito mais. O que ele por
lá encontrou não é coisa a que se chegue, nem que caiba por porta de entrada.
Confiou-me estas coisas: farinha, pães e arroz. Disse: “Leva à minha mulher,
mas que não fique em casa dela. Que se mude mais os filhos. (Que venham para
minha casa, para eu tratar de vós. Se desejardes então algo de comer,
mandais-me a mim e eu vou trazendo de lá). Eu por cá estou em posse de grande
riqueza?. A mulher, devido à fome, acedeu pressurosa, dizendo:
—Sim! O homem foi-se para onde há comida. Não nos vai ele
então mandar de comer? Sem mais considerações, foi a mulher viver para a casa
onde já vivia a outra. E sem ter mais de cozinhar!... Lá está o escravo para a
cozinha! Não éa tranquilidade perfeita?! Não épura engorda? E os seus filhos
todos engordam. Não têm mais precisão de nada. Para eles nada mais necessitam.
Volvidas duas noites, o que havia sido morto, o homem que por lá havia ficado,
passou a ajudá-los, transformou- -se num dos espíritos maus daquela habitação.
—Então como é que tu morreste? Diz ele:
—Eu morri... Foi o companheiro que disse: “Vamos roubar?! E
eu respondi: Vamos. Devido àfome éque eu disse, vamos roubar. Ora, vindo eu
aqui dentro a roubar, armei em ventre difícil de contentar, fiquei para trás.
companheiro foi-se e eu fiquei cá dentro. Foi-se o companheiro e fiquei eu.
Porque fiquei é que me encontrastes aqui dentro e me matastes. Exclamam os
espíritos maus:
—Oh! E agora como vais fazer tu?
—Como vou fazer?!... Eu pertenço agora a um mundo
diferente. Sou mesmo cá de dentro. Os espíritos maus, vão-se para ele e dizem:
—Tu pertences mesmo a um mundo novo. Mas éque, vindo tu ter
aqui dentro, não vieste de lugar nenhum? Diz ele:
—De alguma parte vim eu! Pois se de alguma parte vieste,
agora entraste aqui e vamos começar a nossa função, nós, seres maldosos. Nós
também morremos, como tu morreste. Mas agora já não pertencemos à vida de
outrora. Temos a nossa vida nova de seres malígnos. Ocupamo-nos da nossa
função. Vamos começar contigo as nossas operações. Agora és um dos nossos. E
ei-los que carregam os seus carros. Carregaram e foram a fazer transporte para
certo lugar, onde andavam ocupados. Tendo voltado dali, vieram uma vez mais aonde
éo seu aposento. Pegam pois a perguntar-lhe:
—Então não vamos nós agora àterra donde vieste, para tu nos
servires de guia? E tomaram a iniciativa: Vamos! São carregados os carros,
jungido o gado, e partem. Andam, andam, andam, andam, andam, andam... e chegam
finalmente àtal casa donde havia saído aquele mesmo indivíduo. Exclama ele: —E
aqui. —E aqui?
—Sim!
—Então como vamos nós proceder?
—Ora, não vamos nós descansar o nosso gado? E não vamos
esperar que o sol se ponha e se faça noite, e assim matarmos durante a noite? E
foram-se aproximando de casa. Chegaram exactamente quando o sol estava para se
pôr. Deram-lhes as boas vindas —aos tais seres maldosos.
—Sede benvindos, gente dos carros. E eles responderam.
—Ides para esses lados?
—Vamos para estes lados. Estamos em viagem para o Humbe.
Êclaro que gente deve dormir ao pé de gente. E esta a nossa resposta. Nada
mais. Os da casa agradeceram: Obrigados! Tiraram entretanto os bois de seus
jugos. A gente da casa vai observando. Dizem os viajantes:
—Não podemos meter os nossos bois no vosso curral?
Respondem (de casa): Ei-los os currais. O número dos nossos bois está
completo...O gado entrou. Eles dirigiram-se para os seus carros. Tomaram as
suas refeições. Assim que acabaram de comer (disseram):
—Vamos lá dar as boas noites ao dono da casa. Apareceram
dois deles a dar as boas noites ao dono da casa. Encontraram-no sentado à lareira.
—Boas noites! O dono da casa respondeu:
—Obrigado! Saistes de ao pé do vosso fogo? Eles
responderam: Obrigados! Viemos agora de ao pé do nosso fogo, apenas para darmos
as boas noites ao dono da casa. Amanhã talvez madruguemos a cangar os nossos
bois... madruguemos e nos vamos embora. Diz o dono da casa: Obrigado! O dono da
casa não sabe que entre aqueles individuos se encontra o que lá foi deixar. No
seu intimo ele ignora. Afinal eles vão matá-lo durante a noite. Assim que se
fez noite, deitaram-se. Pelo meio da noite, todos os que estavam nos carros,
todos saíram à uma e foram matar a gente daquela casa. Quer o dono da casa,
quer aquelas mulheres, quer as crianças, mataram tudo. E foram-se deitar. No
outro dia pela manhã, foram revistar as dependências. Abriram-nas,
desfizeram-nas, a ver tudo o que nelas se achava. Tudo o que lá havia, tudo
tiraram. E iam carregando em seus carros. E começaram a viagem de regresso,
voltando para o lugar donde vieram. Não seguiram para mais parte nenhuma.
Enquanto mentiam a dizer: Vamos para o Humbe —era só mentira a intrujá—los.
Começam pois a jungir o seu gado de volta àhabitação de onde haviam partido. E
todas aquelas coisas que tinham sido furtadas em casa deles, tudo ali
encontraram e fizeram-nas voltar para a morada de onde eles tinham vindo. E só
assim a minha história. Acabei!
Dados
biográficòs e outros como no Nº 1. Esta magnifica narrativa dava para uma longa
série de reflexões. Aqui ficam algumas que nos parecem ser de maior interesse
para uma boa compreensão do conto. Não ésem motivo especial, que o narrador
relaciona uma grande fome —terrível flagelo outrora periódico, no Sul de Angola
—com os carros “boers? e um armazém de géneros alimentícios. De facto estes
transportes de tracção animal, se não conseguiram eliminar as consequências
desastrosas de colheitas falhadas, sempre contribuiram para diminuir o número
dos casos fatais. Mas foi com a introdução dos transportes motorizados que a
fome deixou pràticamente de existir, transformando-se ùnicamente numa carestia
de víveres. Porém a es'a, é hoje fácil fazer face, graças a muitas
oportunidades de angariar meios de vida. Já tomamos contacto com os “Chilulos?,
mas aqui nos é apresentado um número não especificado destes seres ou espiritos
maldosos, ao mesmo tempo que se nos descreve a transformação de um ser humano
normal num destes inimigos do bem. Até este ponto estamos dentro das normas das
crenças desta gente. Agora quanto à posse de um sem número de mercadorias e
meios de transportes adequados à época, são elementos que pertencem ao domínio
da imaginação fabulística. Foi muito curiosa a reacção de António Tyikwa,
quando, passado bastante tempo depois da gravação dos contos, se lhe perguntou,
se foi ele quem neles introduziu os elementos de cultura europeia. Protestou
vivamente; que nada tinha alterado nas narrativas que ouvira contar ao seu avô.
Não possuimos dados suficientes para confirmar ou infirmar tal asserção. Porém
uma coisa é certa, os carros “boers? foram introduzidos no Sul de Angola por um
grupo de “Afrikanders? que, fugidos dos ingleses vieram, depois de longas
migrações por terras inóspitas, instalar-se no saudável planalto da Humpata, em
1880. Serão necessários mais dois ou três anos até este meio de locomoção se
generalizar. Mas por outro lado, é verdade, que os habitantes da região da
Quihita foram dos primeiros a contemplar este então assombroso espectáculo.
visto a sua terra se encontrar no percurso do Cunene à Humpata. Convém aqui
lembrar, que a odisseia dos “boers? foi evocada com cores vivas por J. M. Eça
de Queirós no seu livro recente: “A Seara dos Tempos 79 ?.
43:
Omufiko N'ovakwendye Valiwa Ina
Omufikwena wavandywa n'ovakwendye vevali. Umwe etyi aya-ko
katavelele, omukwao vali etyi aya-ko, e atavelwako. Ina yomufiko ou hinga ulya
ovanthu. Otyo omufiko apopila omukwndye okuti: Meme ulya ovanthu. Omukwendye
wati:
—N'ame ani-ko, ninde-ko, nikahetekele-ko! Etyi aya-ko
watavelwa. Etyi atavelwa, hati:
—Etyi nekutavela nâ, meme tamana ovanthu. M'okukanda
onongombe, omo tatyokele ovakwendye vange k'omahinga. Okuya-ko, omukwendye
kwatiwa nokuti:
—Endu ukande! Hati:
—Nga tokanda onongombe ndanyoko ivi toti (m'okundimba):
Toti nanthele, nanthele! Toti nambinga, nambinga! Tatyukauka opo ina hemutyoko.
Ongombe yapwa. Akuya vali onkhwavo. Omufiko hati:
—Nga tokanda ongombe yanyoko ivi, Toti nanthele, nanthele!
Toti nambinga, nambinga! Ononthane ndapwa ondo. Hati:
—Tala, hono etyi ahahetekela-ko k'onongombe oko,
kekundipaele, hono katulala vali, tuende! Okuya-ila. Etyi vati noho pokati, ye
omumati watyo ou, wapula-vo, wapulila m'onombwa ndofika. Etyi vati nô pokati
opo, ye omphepo yaina uindi, hati:
—Vandya omuti, londa, meme oyo teya. Hati: Piô, piô nombwa
ndange! Piô, piô nombwa ndange! Endweni mutale okanyama kandya! Endweni, mutale
okanyama kandya! (bis) Onombwa ndofika ondo ndeya. Okakulukandi oko hakati:
—Eyô lyange eli lyanyena omuti wakukuta! Kaimbwe ou
utalala! Hweu! Omuti wawa-po. Onombwa ondo ndakawila k'okakulukandi oko.
Sinyaune, sinyaune, sinyaune, sinyaune! Ye vapita. Etyi avati vali pokati
akoko, okamphepo keya. Omona hati:
—Meme weya, vandya omuti! Okulonda keulu lyomuti hati: Piô
piô nombwa ndange! Onombwa ndeya-po, ndemusinyau-na —po. Onombwa ndeya
okusinyauna-po okakulukandi ok o. Sinyaune, sinyaune. sinyaune! Ye tavai
m'eumbo. Vakahanga-mo ina yomukwendye. —Mona wange weya! Hati:
Neya. Etyi tyili komima oku tyatokota.
—Onwe muende m'elimba, nimuikile-mo. Okuvaikila-mo. Ye
okakulukandi n'ako kawa-po-ila. Keya k'omuali mukwavo watyita omukwendye.
Vakahokekela kokulike. Ye muali mukwavo, ou watyita omukwendye wapaka-po ombiya
yomeva. Okuvahanga-ila. Okulwa-ila, ou uli kofi, ou uli kombanda, ou uli kofi
ou uli kombanda. Okumukupula m'omulungu, okumumima-po; Wamima mukwavo oyou ina
yomukwendye. Okumima, ye tatuvika k'ombumbo otyituviko tyotyimphumphu. Mphiê!
Okumuhandyela m'ohumbi yomeva afuluka. Oulu nthenene! Lwapwa.
43:
Uma Moca Casadoira E Seus Noivos Acometidos Pela Fatura Sogra
Uma moça é pretendida por dois rapazes. Um deles depois de
feito o pedido, não foi aceite. O outro tendo-se apresentado, agradou à rapariga.
Ora a mãe da rapariga “comia gente?. A moça avisou o rapaz e disse:
—Minha mãe come gente. O rapaz respondeu:
—Apesar disso vou ter com ela para tentar a sorte. Tendo
comparecido foi aceite. A rapariga tornou a dizer:
—Aceitei-te, mas pensa bem, a mãe matou já muita gente. É no
momento da ordenha das vacas que ela fere os meus rapazes na nuca. Ao chegar a
casa, foi dito ao rapaz:
—Vem cá e ordenha! A rapariga recomendou:
—Quando ordenhares as vacas da sogra fazes assim,
(cantando): Vais (ràpidamente) de um lado e doutro! De uma banda e doutra! Ao
mesmo tempo o rapaz olhava também, desconfiadamente, para trás, para a sogra
não o ferir. Uma vaca ficou pronta. Chegou a vez de outra. A noiva cantou
novamente: Ao ordenhar a vaca da sogra: Vais (ràpidamente) de um lado ao outro!
De uma banda àoutra! As vacas estão todas prontas. A rapariga declarou:
—Como ela hoje não tentou ferir-te no curral, não
pernoitamos mais em casa, antes vamo-nos embora. Partiram. Chegados a meio
caminho. —(E preciso notar) que o rapaz também possuia poder mágico. Graças a
ele, tinha às suas ordens os “cães do mato? (leões). Chegados pois a meio
caminho, a rapariga sentiu o “vento? da mãe e disse ao noivo:
—Procura uma árvore e sobe, a mãe está a vir: O rapaz
pôs-se a cantar: Pió, pió, meus cães! Pió, pió, meus cães! Vinde e vede a fera
que me atacou! Vinde e vede a fera que me atacou! (bis) Os cães chegaram. Mas a
velha falou assim: —O meu dente morde numa árvore seca, quanto mais numa verde!
Catrapuz! A árvore caiu. Então os cães atiraram-se à velha. Dilaceraram aqui,
dilaceraram ali, dilaceraram acolá. Os dois namorados seguem viagem. Tendo
andado um pedaço, o tal vento fez-se sentir novamente. A rapariga avisou:
—A mãe está a vir, procura uma árvore! Depois de ter
subido, o rapaz chamou pelos cães: Pió, piómeus cães! Os cães vieram.
Dilaceraram e tornaram a dilacerar. Os cães vieram dilacerar a velha.
Dilaceraram aqui, dilaceraram ali, dilaceraram acolá! A seguir os noivos
entraram em casa e encontraram a mãe do rapaz.
—Meu filho, chegaste?
—Sim, cheguei. Mas atrás de mim vem um grande perigo. A mãe
respondeu.
- Ide para a cubata—armazém, na qual vou fechar-vos. E ali
os encerrou. Apareceu então a velha e chegou-se ao pé da outra, daquela que
gerou o rapaz. Juntaram-se as duas. A mãe do noivo põs ao fogo uma panela com
água. Investiram-se uma à outra. Bateram-se com força e rolaram pelo chão. qual
de cima, qual de baixo. A mãe do rapaz lançou a outra para sua boca e
engoliu-a. Depois de a ter engolido, tapou o ânus com um carolo. Um arranque! E
vomitou-a para dentro da panela com água a ferver. As pernas esqueléticas da
velha deram um esticão e ela morreu.
Terminou o conto.
Dados
biográficos e outros como no Nº . 19.
44:
Nehova
Omukulukandi wali nomona wae omulike omualikandi, emima
lyae Nehova.
Tyapu omona watyo waya
m'otyilongro. Tyapu wamona-ko omulume wae. Tyapu omulume watyo wati:
—Tuende tukatale nyoko!
Tyapu omualikandi watyo
wati:
—Meme otyifitu, nga
hatui-ko, tekekulya.
Tyapu omulume wati:
—Tuende noho!
Tyapu omualikandi wati:
—Tuende, mukwe, tuende,
ye tekekulya!
Tyapu vefika. Ina tyapu
waasukwa unene. Ye ina wahangwa ovisa. Etyi kwatya, ina wati okuti:
—Telekeni, mulyeni! Ame
opo hanikavindwa!
Tyapu vaya m'“ombalaka?
valye. Ina wapopile onyiki okuti:
—ONehova nga waya, endu
utyihepule-nge.
Tyapu ina wakavindwa,
n'omona wapita tupu n'omulume wae.
Tyapu onyiki m'otylkola
yahunda-mo yemumumata p'otyikofi. Tyapu ku ou wahangwa temuvindi
wati
kuti: —Ndyeke!
Ati: —mukwetu toi-pi?
—Hanikatala Nehova k'eumbo.
Tyapu watopoka. Etyi
waya m'eumbo, wahanga Nehova ke-po.
Walipika okankhava kae.
Tyapu wati kuti: —Kankhava kange mutende-mamanya, kaimbila muti utalala!
Nehova wati: Omphepo ya
meme oyo, tulonde!
Tyapu valonda. Ye ina uli pepi. Ina etyi eya watikuti:
—Kankhava kange mutende-mamanya, kaimbila muti utalala!
—Tahimbika okuka omuti apa valondele. Tyapu wawa.
Vo vaifana ovimbwa. Ovimbwa vyemulya. Tyapu ovana vapita
k'onthele k'eumbo. Okakulukandi takati:
—Nilimangamanga n'oukipa wange; nipinduka vali n'ounyai
wange n'okamutwe kange!
Ovana vefika p'onthele yeumbo. Tyapu ina watopokela-mo.
Tyapu wahanga ina yomulume. Tyapu wemumima.
Tyapu m'eimo wahunda-mo vail; tyapu wemumima vali, Ina ya
Nehova.
Omulume ati: —Katiaveni ovikumi!
Vevitiava, vapaka-po otupya. Tyapu omo emuhanene m'otupya.
Tyapu m'otupya omu mwahunda
onkhangaluvi onene. Tyapu yapita k'evanda.
Omualikandi wati kuti:
—Meme inanthia!
Omulume wati: —Wanthia.
Omualikandi wati kuti:
—Onkhangaluvi yae
kweimwene? Ati vali: Hokayeulula-ko!
Tyapu omulume oko apita. Tyapu wamona epuka alikulunguta, taliuya
ku e. Tyapu lyamyanga otyimbwa tyae.
Tyanthia. Otyo ati kuti:
—Tyalia ombwa, pamwe tyipaka-ko omukongo.
Tyapu waifana ina. Tyapu ina wati:
—Opo anikaeta ohiva yange.
Tyapu wati kuti:
Katyikeya, katyikeya!
Tyapu epuka lyaningila
pofi. Nehova wati:
—Meme wanthia-ila.
44:
Nehova
Uma velha tinha uma filha única, essa menina chamava-se
Nehova. Esta filha foi para outra terra onde casou com um rapaz. Um dia este
disse:
—Vamos fazer uma visita à tua mãe! Mas a mulher respondeu:
—A minha mãe éuma fera. Se formos vê-la, ela vai comer-te
(matar). Porém o homem retorquiu:
—Vamos lá! A mulher respondeu:
—Vamos então filho! No entanto ela há-de devorar-te.
Chegaram à casa da mãe. Esta ficou muito satisfeita. Deu-se o caso de ela estar
com o penteado desfeito. Ao outro dia a mãe disse:
—Cozinhai e comei, eaquanto eu vou àcabeleireira. Assim
foram para a cubata grande e comeram. Entretanto a mãe disse a uma abelha:
—Logo que a minha
filha se puser a caminho, tu vens avisar-me. Enquanto a mãe foi arranjar o
penteado a filha partiu com o marido. Então a abelha saiu de uma cabaça e mordeu
a velha na nuca. Ela disse à cabeleireira:
—Pára com isso! Esta disse: —Amiga, para onde queres tu, ir? —Vou ver se Nehova
está em casa. Pôs-se a correr. Ao entrar na casa reparou que Nehova já não
estava. Então pôs-se a afiar o seu machadinho e cantou: —O meu machadinho até
corta pedras, quanto mais um pau verde! Nehova, na fuga exclamou: Estou a
sentir o cheiro da minha mãe! Subamos a esta árvore! Subiram. A mãe estava a
chegar. Estando já ao pé, pô-se novamente a cantar: —O meu machadinho até corta
pedras, quanto mais um pau verde! Começou então a cortar a árvore à qual os
dois tinham subido. Esta caiu. Neste transe a filha e o genro chamaram os cães.
Estes dilaceraram a velha e os dois chegaram ilesos perto de sua casa. A velha
disse para si mesma: —Vou consertar os meus ossinhos, a fim de me pôr novamente
em condições de andar com os meus farrapinhos e a minha cabecinha. A filha e o
genro chegaram ao pé da casa. Mas a mãe correndo entrou antes. Encontrou-se all
com a mãe do rapaz. Esta devorou a outra. No entanto a devorada saiu novamente
da barriga. Tornou a engoli-la, à mãe de Nehova. O homem disse às suas
mulheres, isto é; à mãe e à mulher: Ide apanhar lenha! Foram e fizeram fogo.
Nele a mãe do rapaz lançou a outra pelo orificio anal. Do fogo saiu então uma
grande borboleta. Esta tomou rumo da baixa, de ao pé do rio (Cunene). A mulher
disse: —A mãe ainda não morreu! O marido contestou: —Morreu. A mulher
respondeu: —Não viste a sua borboleta? E acrescentou: —Não vás abrir a porta
(que conduz ao interior da cerca). Mas o homem lá foi abri-la. Reparou então
que estava ali um monstro que, rolando avançava para ele. Esmagou—lhe o cão que
morreu. Disse então o homem: —Esta coisa deu cabo do cão e com certeza não
há-de poupar o caçador. Chamou agora a mãe. Esta respondeu: —Deixa-me ir buscar
o meu amuleto. Então ela ameaçou o monstro: —Tu não avanças mais, tu não
avanças mais. Neste instante o monstro desapareceu por debaixo da terra.
Exclamou então Nehova: —Agora é que a mãe morreu deveras.
Dados
biográficos e outros como no Nº 28. E manifesta a semelhança entre as duas
narrações transcritas. Afigura-se-nos que elas fazem parte do tesouro
fabulístico dos Humbes, de que a segunda versão representa a original, não
passando a primeira de uma nova edição, contendo no entanto alguns trechos
originais. Quanto ao tema versado, encontramo-nos ainda em plena ambiência
mágica e por isso à margem do comportamento moral que éregra observar em
circunstâncias normais.
45:
Omulume N'Omukai N'Endila
Omulume una omukai wae k'eumbo. Kumbi limwe wati:
—Anikatela omiyo vyange m'ofika! Etyi aya-ko, wahanga-mo
ohandyi. oyo yatanga okutiwa:
—Mphulule-vo onkhali yohlka, ame nikupulule onkhali
yotyilongo. Tyapu weiyeka. Tyapu waya k'eumbo. Etyi efika-ko wetyisipulila
omukai okuti nahanga ohandyi yati okuti: Mphulule-vo onkhali yohika, ame
nikupulule onkhali yotyilongo. Omukai wanyumana. Etyi anyumana, tyapu valala.
Etyi valala tyapu kwatya. Ongula omulume wakatala k'omiyo vyae oku akatelatela.
Tyapu etyi aaluka, wahanga omukai waya k'ovoina. Vese n'ovana, n'ovityuma vyae
waya n'avyo. Etyi ati m'ondila, wahanga-mo endila. Endila nkhe lyemumona haliti:
—Umbila, umbila! Ye omukai tandimbi:
—Kambala kami koka, ndiendelela-ko! Kakwavo vali koka,
ndiendelela-ko!
—Umbila, umbila!
—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila!
—Kakwavo vali koka, ndiendelela-ko!
—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila!
—Kamona kami koka, ndiendele-la-ko!
—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila! Mukwavo vali yu, ndiendelela-ko! Ove
hatyinyama mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila! Ame “ondonu?
yu, ndiendelela-ko!
Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila! Tyapu otyindila tyemulya. Omulume etyi eya
k'eumbo, hati:
—Uh! Omukai wange
un'ononyengo onombi. Pahe wapita n'ovana. Walongela ononkhondyi, n'oviti vyae
vise. Tyapu okulandula omukai. Etyi ati apa pefikilile ale omukai, wahanga nô
endila olyo lyatandavela. N'okufika nô, ye endila aliti:
—Umbila, umbila!
Omulume tandimbi: Kahondyi kami koka, ndiendelela-ko! Ove hatyinyama, mitise,
naumbila etandandila!
—Umbila, umbila! Katana kami koka, ndiendelelela-ko! Ove
hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!
—Umbila, umbila! Kahunya kami koka, ndiendelela-ko! Ove
hatyinyama, mitise, naumbila etandandila! Etyi amana, tyapu walonda k'omuti.
Etyi alonda k'omuti ye taifana ohandye:
—Handyi, handyi! Otyipuka wampholile otyotyino! Ye handyi
kuna wetyitia ye tatopoka hati:
—Tweya, onthwe ovohandyi vokamupindi okakusu, twalile
omakisi ombanda, pahapa twapilukila omboloka. Tyapu vetikwete. Papulule,
papulule omaiso otyindila otyo tyokuti: Umbila, ye omulume ou tapolo omwele,
okulitanda okupola-mo omuki wae. N'ovana vanyungulukila na ina. Tyapwa!
45: Um
Homem Sua Mulher E Um Grande Passaro
Um homem vivia em casa com a sua mulher. Um dia ele disse:
—Vou armar as minhas armadilhas no mato! Indo depois vê-las
encontrou presa uma perdiz. Esta falou:
—Ajuda-me a sair desta vida desgraçada a que estamos
sujeitas no mato e eu vou ajudar te nos infortúnios da terra (habitada).
Deixou-a livre e foi para casa. Tendo chegado a casa, contou o sucedido à mulher:
Apanhei uma perdiz que me disse: Livra-me das desgraças da floresta e eu te
valerei nas desventuras da terra (habitada). A mulher ficou zangada. Ambos
foram deitar-se. Passada a noite, amanheceu. Então o homem foi novamente
examinar as armadilhas. Regressado a casa reparou que a mulher tinha ido para a
mãe, levando os filhos e todos os seus pertences. Ao caminhar ela encontrou um
pássaro-monstro. O pássaro, ao vê-la disse:
—Deita para cá (a paga da passagem). A mulher pôs-se a
cantar:
—Este meu cestinho leva-o, que eu possa passar! Este outro
também toma-o, que me abra a passagem!
—Deita para cá, deita para cá! O besta deixa-me ir, já
paguei passagem!
—Deita para cá, deita para cá! Toma mais esta, que sirva de
passagem! O besta deixa-me passar, pois já paguei a passagem!
—Deita para cá, deita para cá! Toma agora o meu filhinho,
que dê passagem! O besta, deixa-me passar! Já paguei passagem!
—Deita para cá, deita para cá! Agarra também mais este, que
me abra o caminho! Maldita besta deixa-me passar, já dei pela passagem!
—Deita para cá, deita para cá! Agora entrego me a mim
mesma! Maldita besta, deixa-me passar! Já paguei passagem!
—Deita para cá, deita para cá! Assim o monstro devorou-a.
Quando o homem chegou a casa disse:
—Hum! A minha mulher tem maus figados, para ir-se embora e
mais os filhos. O homem carregou com os arcos e todos os cacetes e foi atrás da
mulher. Quando chegou ao lugar onde tinha parado a mulher, deu sòmente com
aquele pássaro. Estava a atravancar o caminho. Ao aproximar-se disse-lhe o
pássaro:
—Deita para cá, deita para cá! O homem pôs-se a cantar: O
meu arquinho que seja o pagamento! Maldita besta, deixa-me passar, Já entraguei
a passagem!
—Deita para cá, deita para cá! A minha catana seja outro
pagamento! Maldita besta já paguei, deixa-me passar!
—Deita para cá, deita para cá! O meu cacete pequeno, sirva
então ele de pagamento! Maldita besta, deixa-me passar, éque já paguei! Depois
de ter entregado tudo, subiu a uma árvore. Chegado ao cimo chamou pela perdiz:
—Perdiz, perdiz! Aquela coisa de que me falaste, aconteceu
agora! Ao longe a perdiz ouviu os gritos. Correu então e declarou:
—Cá chegamos, nó as perdizes das perninhas vermelhas. Já
demos cabo dos monstrous de lado de cima. Agora virámo-nos para os de baixo.
Nesta altura as perdizes as perdizes atiraram-se ao passarão e picaram-no com
força. Vazaram os olhos àquela passarão que dizia: Deita para cá, deita para
cá! E ele acabou por morrer. Depois de morto o homem pegou numa faca, abriu-lhe
a barriga e tirou para fora sua mulher e os filhos que tinham abandonado a casa
com a mãe.
Acabou!
Dados
biográficos e outros como no Nº. 20. Esta narração podia ter sido englobada na
série dos Monstros. Preferimos porém inseri-la nesta. por casua do curioso
mágico entre o caçador e a perdiz. Tanto mais que num conto registado por
Hauenstein entre os Bundos, ocorre um motivo análogo. Uma perdiz apanhada no
laço faz ideêntica declaração ao caçador: “Não me mates. mas libertame
deixando-me ir para o mato!... Eu, um dia, sal-ver-te-ei na aldeia?. No entanto
existe uma pequena variante na narrativa bunda. Quem foi libertada pela perdiz
das garras do leão, não foi o cacçador, mas sua mulher, a qual até essa data,
tinha tornado ao pobre marido a vida muito negra. Entre os bundos de Caconda,
corre ainda outra variante do mesmo tema. Nela o pomo de discórdia entre o
homem, agricultor e caçador e sua mulher, encarregada de um campo de trigo, é a
negligência desta. Não culdava da seara do marido, como era o seu dever. Apesar
de ter sido admoestada e ameaçada de castigo, recaía na mesma falta e um dia
deixou a um pássaro comer uma grande porção do precioso cereal. Procedeu assim
porque a ave pedira com insistência, acrescentando esta promessa: “Se tu me
valeres nesta aflição da fome, também te hei-de valer em qualquer desgraça?. O
marido porém passou das palavras aos factos e puniu duramente a desobediente.
Em seguida ela aproveitou a saida do homem para a caça e abandonou a casa,
levando também os cinco filhos. Porém no caminho deparou-se-lhe uma grande
cobra que impedia a passagem. A partir desta altura, estabelece-se um
verdadeiro paralelismo entre esta narração e o conto por nós gravado: nas
exigências da cobra —que afinal éo marido transformado em réptil —na maneira de
as satisfazer para obter a passagem livre. O próprio vocabulário e a melodia do
canto oferece grandes semelhanças. Finalmente a mulher, tendo trepado a uma
árvore, antes de entregar o último filho, lembrou-se de chamar pela ave que,
dando valentes picadelas na cabeça do monstro, a salva de ser devorada. Em
seguida o filho pegou na navalha que trazia consigo para abrir a barriga da
cobra morta. Sairam dela todos os seres tragados pelo monstro. Termina o conto
com esta curiosa nota de aculturação: “Todos os Entes humanos, ao aparecer
novamente à luz do sol, transformaram-se em Brancos. (Resmno do conto escrito
por Aldina Situkuli). A observação feita, concernente à linguagem usada por
esta narradora (V. No . 41), vale aqui ainda com maior pertinência. De facto
podem discernir-se neste conto vocábulos de, pelo menos, quatro linguas ou
dialectos diferentes. E nas formas gramaticais reina o mesmo sincretismo.
Aliás, o extraordinário linguista que foi H. Chatelain já tinha notado um
fenómeno semelhante nos contos em quimbundo. Neles os monstros falam, às vezes,
uma língua mal conhecida pelos narradores, ou. como o autor se exprime: usam um
dialecto de uma tribo afastada, de cuja fala têm algum conhecimento, não
deixando o citado autor de indicar alguns exemplos do curioso fenómeno
inguístico.
46:
Omnhikwena Wakatiava Ononkhwi
Opopo umwe. Omuhikwena wakatiava ononkhwi. Omuhikwena hikê
m'ohika, ahimbika n'okunyingailila Omankhondo, okutaindya ovikwi. Etyi ati-ko
ngana, welihaka k'okamuti kavyuka nawa nawa, kanyolwa. Omuhikwena atyimupe
okuketalamena nawa, okuketala. Atyimupe okupula okuti:
—Pahe omunthu watyo wokwanyola okapuk'aka olye ou? Naina
omunthu watyo wokwanyola onkhulika. Naina una waholamena ng'-opo, okutala olye
uya-po. Omuhikwena etyi akala-po himbwe, himbwe, muhekulu yokamuti aka
kamoneka. Omuhikwena ati (m'okuimba): Olye wanyolanyola okamuti aka? Naunyole.
Ng'ove nkhofi! Nkhofi, nkhofi ndumbu naunyole! Ng'okafitu kaly'ovanthu
naunyole! Iya Nkhulika eya ati:
—Ove otyityi weya okulinga apa? Omuhikwena ati: Ame namona
okamuti aka kanyolwa. Mba mba-vo! Ndekese-vo, olye wekanyola. Nkhulika ati:
Ame. Iya pahe ove uhanda-tyi?
—Ame ndyihanda ndyinyolwe ng'-okamuti aka, n'ame ndyinge-vo
ng'oka-muti aka! Nkhulika ati: Pahe mandyikulingi, mandyikunyolo. Tyino moende
k'ombunga yove, nawike utyitolela, wehelilekese ku munthu nawike! Iya Nkhulika
akwate omuhikwena. Lase, lase m'olutu, emunyolo umwe naua, naua. Etyi apwa ati:
—Kuende? Omuhikwena akondoka k'eumbo. Etyi aveluka, ai
k'otyipito, oku aihenenwa na vakwavo. Iya vakwavo etyi vemumona etyi ehiwa,
avati:
—Iya mukwetu, wekulinga ngetyi olye? Omuhikwena ati:
—Ame pena ou
wanyola. Ongo wati, ame ankho ndyityipopia, mandyipâ. Hipondola okumupopia.
Vakwavo ha kumukuluminya? Omuhikwena ha kutyitola, ati:
—Nanyolwa na Nkhulika. Iya vakwavo avati:
—Tuhindikilevo, n'onthwe tukanyolwe!. Omuhikwena ha
kuvehindikila, ha okuya-po, okutalama p'okamuti katyo, ha kuhimbika n'okuimba?
Naina Nkhulika eli vala opo n'okutala nawa, nawa etyi tyikahi-po. Omuhikwena
apaleka okulmba: Olye wanyolanyola okamuti aka?... Nkhulika eya ati:
—Ame nekutolela-tyi? Omuhikwena ati: Ame ovakwetu ava
vamona k'otyipito oku tweile. Ovo pahe vati: N'onthwe tutwale-ko! Tukalingwevo,
ngatyi n'ove walingwa! Iya Nkhulika ati: Ewa, mandyimunyolo, ongo
muhetyitolelei munthu nawike! Ove, vakwenyi ava tyino vapwa okunyolwa, anthipo
ove wokwevehongolela kuno, ongo natile wehetyitolele nawike, ove kumaende!
Molingi omukai wange, mandyikunepe. Iya Nkhulika ati: Onwe kuendei! Ovahikwena
ava ha kutunda-ko n'okuhateka, vavela vali ouoma n'otyipuka etyi valinga,
tyetyi katyivehambukisilwe vali, tyetyi mukwavo wesala-ko. Iya Nkhulika
okutyinda-ko omuhikwena ou wahongolele vakwavo. Ha kumueta apa vakala? Okumueta
p'epata lyae. Ha muhikwena ou wakala na Nkhulika, wanepwa umwe na Nkhulika.
Mueli, Nkhulika walala, iya ati:
—Mukai wange, nthunye po onona! Iya pahe Nkhulika alala
umwe k'ovikalo vyomukai ou. Ahimbika okutunya onona m'omutwe womulume. Ou naina
otumphoki twemuendela, alala otumphoki. M'okwalala omuhikwena emuyomboloka,
emuhene aí k'eumbo lyavo. Nkhulika etyi apahuka-po, okuliti-ko, omukai ankho
umutunya onona kepo vali. wapita, wakahateka k'eumbo. Iya Nkhulika wesala-po,
ahalandula vali omukai. Ou omukai ayovoka umwe ngotyo, okutunda p'omankhanya a
Nkhulika. Ai k'ombunga. Nkhulika esala m'ohika yae. Sambwuilikiti. Oluñgano
lwomuhlkwena wononkhwi.
46:
Uma Rapariga Que Foi Buscar Lenha
E desta mesma que se fala. Uma rapariga foi busear lenha.
Tendo chegado ao meio da floresta, ela embrenhou-se numa moita à procura de
lenha. Ali deu com uma pequena árvore muito direitinha que ostentava desenhos
na casca. A rapariga ficou com vontade de examinar a árvore de perto, ao mesmo
tempo teve a curiosidade de perguntar:
—Quem foi que gravou estes desenhos na árvore? Afinal este
“alguém? era o leão. Ele porém tinha-se escondido lá perto, para ver quem por
ali aparecia. Depois da rapariga ter ficado ao pé da árvore muito tempo, surgiu
então o “dono? desta. A rapariga pôs-se a cantar: Quem éque gravou riscos nesta
arvorezinha? O desenhador és tu Leão! Tu Leão, animal fulvo és quem gravaste
desta forma! Fera devoradora de gente a fazer riscos deste jeito! O Leão
aproximou-se e disse:
—Que vieste aqui fazer? Respondeu a moça: Deparei com esta
arvorezinha gravada. Por favor indica-me quem fez os desenhos! Resposta do
Leão: Fui eu. Que queres tu afinal? Disse a rapariga: Eu também gostava de ter
desenhos (no meu corpo) como esta arvorezinha, que se me faça como a esta
arvorezinha! Resposta do Leão: Vou te fazer o mesmo. Vou ornar o teu corpo com
desenhos. No entanto, quando fores para tua família, não podes mostrar-te a
ninguém, não podes revelar o que se faz! Então o Leão pega na rapariga e pôs-se
a lamber, a lamber-lhe o corpo. Depois de acabado, perguntou-lhe:
—Não te vais embora? A moça voltou para casa. Quando a
tatuagem tinha cicatrizado, a rapariga foi a uma festa para a qual tinha sido
convidada pelas outras. Estas ao verem-na tão bonita, perguntaram:
—Amiga, quem te fez assim? Ela respondeu: Foi alguém que me
fez riscos. Ele ameaçou-me dizendo, se eu o declarar, mata-me. Por isso não
posso dizer quem foi. Mas as companheiras insistiram tanto que ela acabou por
confessar:
—Foi o Leã o que me
fez a tatuagem. As outras disseram então: Leva-nos também para lá, a fim de
ficarmos tatuadas como tu. A rapariga levou-as. Chegaram e quedaram-se diante
da arvorezinha e puseram-se a cantar: Ora o Leão encontrava-se lá perto a
observar a cena. A rapariga repetiu então o canto: Quem éque gravou desenhos
nesta arvorezinha?... O Leão chegou-se e disse:
—Que te recomendei eu? A rapariga declarou: Estas minhas
companheiras viram-me numa festa onde tinhamos ido. Disseram: Leva-nos a nós
também, que se nos faça, como a ti! O Leão respondeu: Estã bem! Vou pôr-vos
risquinhos, mas não o digais a ninguém! Porém tu, logo que as outras estiverem
prontas, tu que as conduziste até cá, apesar de eu ter dito de não declarares
nada, tu não voltas com elas! Ficas a ser minha mulher; vou casar contigo.
Disse ainda o Leão: Vós outras ide! As raparigas foram a correr, pois encheram-se
agora de medo por causa do que tinha acontecido. Ficaram desde então sem
alegria, por a outra ter sido detida. Então o Leão levou a moça, aquela que
tinha trazido as restantes. Conduziu-a para as suas moradas e instalou-a no seu
lar. E a rapariga coabitou com o Leão, foi mesmo desposada por ele. Uma vez o
Leão, estando deitado disse para a mulher:
—Vem catar-me os piolhos! Assim, o Leão estendeu-se sobre
as pernas da mulher que se pôs a apanhar os piolhos nos cabelos do marido. Este
pegou no sono. Quando ele estava assim a dormir, a moça afastou-se
cautelosamente. Fugiu e foi para casa. O Leão depois de acordar, reparou que a
mulher que estava a catar-lhe os piolhos desaparecera, tinha—se ido embora para
casa a correr. O Leão ficou sõzinho e não foi atrás da mulher. Desta forma a
rapariga viu-se livre das garras do Leão. Foi para sua familia. E o Leão
continuou a viver na sua floresta. Açalmo para ti!
Terminou o conto da rapariga da lenha.
Dados
biográficos e outros como no Nº 30. Para compreensão do motivo central desta
narração, importa saber que são poucas as etnias do Sudoeste de Angola que
praticam a tatuagem feminina, a saber: as Quilengues-Humbes, Handas e Quipungas
do grupo étnico NhanecaHumbe. Como a narradora passou a sua infância e adolescência
em Vila Arriaga, équase certo que o conto é de origem quilengues, embora ela já
não se lembre a quem o tinha ouvido narrar. De facto os arredores desta vila
são uma verdadeira encruzilhada de povos. No fim do século passado aquela terra
constituia o ponto de junção entre Nhanecas e Cuvales, sendo muito pouco
povoada, dadas as relações nada amistosas que entre eles existiam. Confinava
pelo Norte com os Quilengues-Humbes. Mais tarde vieram ali flxar-se Mbális
(Quimbares) e emigrados do Sul, particularmente por altura da grande fome de
1915: Cuamátuis, Donguenas, Humbes e Dimbas. Quanto à forma dos desenhos
escarificados, parece-nos não poder fazer melhor do que transcrever o que
notamos a este respeito no segundo volume da “Etnografia?. O desenho básico é um
quadrilátero mais ou menos regular, de uns 10 cm de lado em média e tendo por
centro o umbigo. Cada um dos lados é formado por duas linhas de cicatrizes em
relevo. Termlnada a figura base, marcam uma vertical a nascer ao meio do lado
superior do quadrilátero, a não ser que prefiram sobrepor ao quadrado um
pequeno triângulo de cuja ponta sairá depois o braço vertical. Este é mais ou
menos largo, conforme for formado por duas ou por três fiadas de cicatrizes e
encontra-se invariàvelmente encimado por um desenho triangular que lembra a
forma do machadinho ritual dito Ekuva. Daí o nome por que designam esta parte
da tatuagem. Ao dizermos que o fecho terminal do braço é invariàvelmente de
forma triangular, precisemos que algumas mulheres ostentam uma ekuva dupla. A
altura total do desenho, desde a base do quadrilátero até à ponta de ekuva,
atinge entre os 20 e 25 cm.
47:
Kaniminimi - Ombumba Yomakihi - Na Nangondwe Yok'Omphanga Tyoulukahu Yok'Eheva
Lyapaka
Vetatu vatyo velihole oupanga. Okaniminimi avasa ombumba
yomakihi ahika onthanango. Kaniminimi uhika onthanango yomalohi. Mbumba
yomakihi ati:
—Tukumane!
Kaniminimi etavela. Avakumana. Kaniminimi wesala n'onthanango yonthane. Mbumba
yomakihi yesala n'onthanango yomalohi. Kaniminimi ati:
—Nga naya kokule, mbasei: Mbumba yomakihi aapumphamena
k'onkhanda, onthanango aiunguluka. Aati:
—Otyityi etulingile omaeñgeñge? Aanumana. “Matumulandula?.
Okumuvasa, uli k'ombanda yonkhanda; m'ombwelo mun'ononkhapi. Avemupulu:
—Otyityi wetukembela? Ati: Nalumbanena ovimbwa vyange evi.
A ati:
—Tukumane ñgo.
Avakumana. Kaniminimi esala n'ononiuwa mbokutekulwa n'ovanthu. Kaniminimi ati:
—Ovimbwa vyange evi vipolei-po, ame napita. Viyandyane,
atyiti: ou upola-po vyae; ou upola-po vyae. Avivekwata okuvenyaa: nyaa-nyaa,
nyaa-nyaa, nyaa-nyaa... Avai-po nkholo, olunuma alulingi olunyingi.
Avemulandula ñgo. Avemuvasa m'etaka. Avati:
—Otyityi wetulingile? Ati:
—Hanongombe mbange ombu cnongolo?
—Tukumanei ñgo! Tyolunuma avetyiyeka-po. Kavetyiyeka-po?
Kaniminimi asinga onongombe. Mbumba yomakihi esala n'onongolo. Kaniminimi ati:
—Nga naya kokule, mbusingei-po: ou upola-po ongombe, ou
upola-po on-gombe. Wevekemba ñgo. Mbumba yomakihi okuenda, n'onongolo ambui
nkholo. Olunuma aluyawisa - ko. Avemulandula. Vemuvasa, avemukutu. Vemuvetele
omphango vemuipae. K'omuhuka etyi kwatya wakutwa. Nangondwe yok'Omphanga weya. Ati:
—Lyepe-ko, tava! —Otyityi-ale otyo tava? Walinga-tyi? Ati:
—Tyatiwa nakemba... Avati: —Katwekukwatele?!... Nangondwe
watundilila-pi? Ati:
—Nakalile omakihi k'ombanda, ndyienda ñgo n'ok'ombwelo.
—Napopaila pano... otyityi mwakuhukila omipindi? Ombumba
yomakihi okutyiiva, aaenda nkholo. Kaniminimi wahupa. Nangondwe ati:
—Kutale otyipuka nekuhukulula, wetyimona?
—Aha! Hetyimwene. —Hatyetyi naetele nkhwali onkhali ya
ngoi, kumbi ndyikupole onkhali ya fika. Pahe hekukutulile k'onkhali wakwatelwe?
Usoka ñgeli, pahe? —Au, ndyitupu etyi ndyipopya. Ati:
—Ehe! N'ame mBeu n'ove Kaniminimi, tuendei k'Ongandu
k'enyana, tukalinge otyipito tukalye. Hakuya? Ngandu ati: Tukataindye
omunankhono wokukwata onohi. Tuholovonei.
—Iya, m'eanda lyetu, onkhwalukuwo. Oe m'eimo lyetu wokukwata
onohi. Onkhwalukuwo ahimbika okunyingila ononthwitwi. Ndwi... omuloi! Ndwi...
omuloi! Ndwi... omuloi! Avalingi umwe otyipito tyokulya n'ononkhela mbanyungwa.
Otyipito umwe tyombunga ike, eimo lyavo umwe. Avamane okulya, avanyane.
—Pahe tumbunga!... Tyapwa aveliyandyana. Aveya ovanthu
pahe. Ekwandambolo weya. Opo ckahi. Utunda-ko k'eumbo, k'ovanthu. —Iya, ove?
—Eh! Ame opo, ndyikahi pano. Amuipula-pula ovo, vok'etunda.
Pahe, heile okulinga otyipito?
—Kwapwa! Pahe twahonya! Atuho tumbunga: Ou uhanda akalalela
k'omukwavo; ou uhanda akalalela k'omukwavo; ou uhanda akalalela k'omukwavo.
Wati:
—Mba! Pahe kaveile okutapa omeva? Ovaenda kaveile? —Ngetyi
mweya apa... Ovokaniminimi vapita aveho na Nangondwe yok'omphanga. Ati: —Twaya
lumwe. Otyipito tyenyi. Avati:
—En... Onthwe... omphuka twemutelekelele ovaenda. E...
kwandambolo ... —Mwemutelekelele ovaenda?!... Avati:
—En... Ati:
—Wo! Otyityl mwalingile ngotyo? (Upulwa ngotyo, ovana va
Tyiwana). Ati:
—Hetyiivile. Kaihanei Tyiwana! Muhuka etyi kwatya,
m'onthiki ya vali, Tyiwana weya. (Upula Ongandu):
—Ove Nkhwandambolo... oñgeli? —Ekwandambolo... iya, vana
kavetyipopile okuti ekwandambolo... vemutelekela ovaenda? Ati:
—Onwe ekwandambolo mulya? (Upulwa óTyiwana na Ngandu). Ati:
—En, twemulya. —Mwalinga omapita. P'okati ketu ankho
ombunga. Onthwe etyi mutekula Ekwandambolo, atuti umwe: Tatekulu! Ongetyi
mutapa muno omeva. Atyiti, vatwaile Ekwandambolo, vakalye na Nkhwandambolo
omeva, vevetapela. Vemutwaile m'“okonta? katyindi nthenda k'omutwe. Onwe, etyi
mwemulya ngetyi, mwalinga omapita. (He! Kutiwa nae... hepunda? Hakumukwata?).
P'okati ketu matulilya-lya umwe. Matuliti umwe:
—Onwe mulyalya ono-fufwa ombuto ya Nkhwandambolo. Onthwe
matulyalya umwe ovanthu. M'“okonta: Katulii vali. Tyilingwe umwe p'ehanyikilo
Iyetu; katulimona-mona umwe vali!... Waile umwe n'omeva omunthu, Ongandu,
n'ovana vange va Ngandu, mavakwata. Tyati lumwe n'onyoka, tyati umwe n'oluhenge
okumona-mo ovanthu, mavakwata. Onwe onofufwa kalyei-lyei umwe. Ohasa yenyi
tweliavela umwe, twelitetulila. Twamana!
47:
Kaniminimi - O Bando De Monstros E Nangondwe O Da Ilha - O Das Cabacinhas De
Recolha No Mato De OxaLias Cheias De Tuberculos
Estes três personagens pactuaram amizade. O Kaniminimi
encontrou um bando de monstros que preparavam uma veste de pele macia.
Kaniminimi estava a amolaxar uma lmitação feita de cera de abelhas silvestres.
Disseram os do bando de monstros:
—Vamos trocar! Kaniminimi aceitou. E trocaram. Ficou
Kaniminimi com a pele amaciada de bezerro. O bando de monstros tomou a imitação
de cera de abelhas silvestres. —Observa Kaniminimi:
—Quando eu for longe, vinde ter comigo! Os monstros do
bando foram —se sentar sobre a rocha (ao sol) e a lmitação de cera derreteu.
Exclamaram então:
—Porque éque ele nos prega partidas destas? E ficaram
fulos. “Vamos atrás dele?. Ao depararem com ele, está em cima de uma rocha
tendo por debaixo umas panteras. Perguntaram-lhe pois:
—Por que é que nos
mentistes? E ele: E que eu estava com pressa de vir a estes meus cães. E eles
responderam por seu turno:
—Façamos nova troca. Fizeram a troca. Kaniminimi ficou com
verdadeiros cães domésticos. Observa Kaniminimi:
—Estes meus cães, tomai-os convosco, depois de eu ter
partido. Que eles se espalhem e depois: Vem um e toma os dele e vem outro e
toma os dele. E as panteras agarraram-nos e esgadanharam-nos:
esgadanha-que-esgadanha, esgadanha-que-esgadanha... Os monstros puseram-se em
fuga. E a sua cólera tornou se enorme. Continuaram pois a persegui-lo.
Encontraram-no nos terrenos de ao pé do rio. E disseram:
—Que é que tu nos fizeste? Resposta dele: Então não foi por
causa destes meus bois listrados?
—Façamos troca outra vez. A zanga deixaram-na de parte.
Pois não a deixaram eles? Kaniminimi vai a tocar os bois. O bando de monstros
ficou com as zebras. Dissera-lhes Kaniminimi
—Quando eu já estiver longe, tocai-os. Toma cada um o seu
boi, cada um o seu boi. Tornou a intrujá-los. Aproximandose o bando dos
monstros, sucede também que as zebras deitam a fugir. A sua cólera aumenta
ainda mais. Põem-se no seu encalço. Encontram-no e amarram-no. Resolveram
aplicar-lhe pena de morte. No dia seguinte pela manhã estava ele amarrado. Chega
Nangondwe-da-Ilha. Diz-lhe o preso:
—Benvindo, ó companheiro!
—Ó camarada, mas que vem a ser isso? Que fizeste tu? Diz
ele:
—Entendem que menti... E os do bando:
—Pois não te prendemos?! ... Nangondwe, donde vens tu?
Resposta:
—Fui comer monstros ali para cima, agora continuo ali para
baixo.
—Eu já aqui tinha dito... porque tendes as pernas
vermelhas? (fala Kaniminimi a meter medo aos monstros). Os monstros do bando,
ouvindo tal, desataram a fugir. Kaniminimi escapou. Observa-lhe Nangondwe:
—Não vês como eu te salvei? Percebeste isto?
—Não, não! Não percebi.
—Então não éporque eu “me havia metido talvez em pecado de
armadilha para um dia te tirar a ti de “pecado (de andanças pelo) mato? E não
te livrei eu agora do crime por que tinhas sido preso? Que pensas a este
respeito?
—Não, eu não tenho nada a dizer. —Continua Nangondwe:
—Pois bem! Eu Sapo-Concho e tu Kaniminimi, vamos ter com o
Crocodilo ao rio, vamos fazer uma festa com banquete. E vieram. Fala o
crocodilo:
—Vamos procurar um
valente que nos agarre peixes. Escolhamos. —Pois no nosso clã é a águia
pescadora. E ela na nossa parentela, quem agarra peixes. E a águia gritadeira
84 começa a dar mergulhos. Um mergulho... e um bagre! Um mergulho... e um
bagre! Um mergulho... e um bagre E fizeram realmente um banquete festivo, sem
que faltasse a cerveja. Realmente uma festa de uma só família, da sua própria
parentela. Levaram ao fim a comedoria e puseram-se a dançar.
—Agora somos família!... Por fim separaram-se. Começou
então a afluir gente. Veio o galo. Lá está ele. Vem de uma casa onde vive com
seus donos.
—Então o que há contigo?
—Nada! Eu por mim cá estou. Interrogai esses que moram lá
em cima na floresta. Então eu não vim tomar parte na festa?
—Acabou-se. Presentemente estamos ligados! Todos uma só
família: Um que o deseja vai pernoitar a casa de um outro; cada um que pretenda
vai a casa de um outro; qualquer um que o deseje vai a casa de um outro.
Responde o galo:
—Obrigado! Junta-se
então gente que vem àágua. Trata-se de hóspedes que surgiram algures lá em
casa.
—Uma vez que viestes visitar-nos 86 ... Entretanto
Kaniminimi e Nangondwe da-Ilha vão-se embora. Dizem àdespedida:
—Nós retiramo-nos. A festa agora évossa. (Surgem novamente
os donos da casa visitada). Falam os outros para as visitas:
—Bem... Nós cá... foi isto que cozinhamos para as visitas.
Foi... um galo ...—Vós cozinhaste-lo para as visitas? E eles:
—Sim. Diz então (o Crocodilo) —Oh! Porque é que procedeste
de tal sorte? (Quem assim éincrepado édos filhos de Tyiwana). E acrescenta (o
crocodilo): Não entendo isto. Ide chamar Tyiwana. Na manhã do dia seguinte, no
segundo dia portanto, Tyiwana aparece. (Quem pergunta é o Crocodilo):
—Ouve cá, essa questão do galo... como foi? —O galo... pois
então eles não disseram já que o galo... fizeram dele um cozinhado para as
visitas? —Vós comeis galo? (O Tyiwana é que é interrogado pelo crocodilo). E
diz o Tyiwana: Sim, comemo-lo.
—Vós procedeste mal. Entre nós havia laços de família. Do
mesmo modo que em vossa casa cuidais do galo, dissemos realmente connosco:
Obrigados! Seja-vos permitido vir aqui à água... E portanto: já que levam água
para o galo... pois que aproveitem também com o galo da água que vêm buscar.
Levamlhe a água, porque ele não pode carregar cabaças à cabeça. Agora porém que
o comestes, cometestes uma acção criminosa. (Ai! Deitam-se a ele todos a fazer
monte. Claro que o agarram). Continua o crocodilo:
—Doravante vamo-nos comer uns aos outros. Entre nós e vós,
será pois assim: Vós comereis as galinhas, que são a origem do galo: nós, pela
nossa parte, devoraremos os homens. E porque não mais nos conhecemos. Seja
assim tal e qual, a partir desta nossa deterioração de relações. Não nos
poderemos ver mais!... Levada que seja pela água uma pessoa, o Crocodilo e os
meus filhos, os do Crocodilo, hão-de agarrá-la. Até mesmo a serpente, e ainda o
lagarto aquático apanhando gente, agarrá-la-ão. Quanto a vós, ide saciar-vos
com as galinhas. Assim decidimos entre nós o castigo que à vossa falta se
segue, assim estabelecemos a sentença.
Acabamos! (o conto).
Narrador:
Fernando Ndalu, casado de 35 anos de idade, da etnia Gambos (Ngambwe) Gravação:
Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Esta narração devia ter sido
inserida na série das dos animals, apesar de nela intervirem também monstros e
se fazer alusão a um pacto mágico. De facto, por mais fabuloso que possa
parecer o protagonista, ele não é outro, senão o Sapo-Concho, animal esperto e
manhoso, muito do nosso conhecimento. Os seus dois comparsas Nangondwe yo
K'Omphanga e Tyoulukuhu yo K'Eheva, são a Perdiz e o Leão. Quanto à“forma
literária? a narrativa émuito elíptica e por isso pertence àquelas que
pressupõem muitos conhecimentos nos ouvintes, sem os quais elas se tornam quase
ininteligíveis. Daí a necessidade de intercalar notas explicativas, tanto no
texto banto, como na tradução portuguesa. E nesta, como énatural, em número
muito maior. (Todas essas anotações são da autoria do P.e Silva). Também épermitido
ver nesta maneira de falar, como um embrião de uma lingua secreta, uma espécie
de criptolalia.
E:
Contos Que Encerram Elementos Mitologicos (três narrações)
48. Ekihi
N'omukai Omunthimba
Omukai wankhya ondyala. (Op'ondyala). Akapola “olata?
yotyipoke, ike k'ekihi. Omukai ati:
—Tyino namakutula oyo ondyambi yove! (k'ekihi). Ekihi
lyati:
—E! Etyi omukai eya p'okukutula, omona wati:
—Me, nthambule-ko! Onkhondyi yange... Ina emutambula-ko.
Ati:
—Me, nthambule-ko! (Ohihipo yae yotyihambo...) Ina emutambula-ko.
Ati:
—Me, nthambule-ko! Ame... kala nawa... neya! Ame
Mphang'Olutyito. Nelityita. Hatyitilwe. Omona eya. Ekihi lyeya aliti:
—Neya k'otyipuka tyetu napopile. Omukai wati:
—Otyipuka napopile... Ame, omona wange naeta, etyi
tyityatyo vali. Kwelikalela. Naeta omona ou upopya.
—Matulingi ñgeli? Omukai wati:
—“Bom?! Pahe tyino ame mandyiende k'epya. Mandyikasa-ko omphumba
yange. Ove omu ulifika m'omphumba yatyo. Ame mandyimutumu okuti: “keipole?!
Ekihi alilifika m'omphumba. Omona weya watumwa na ina watyinda onkhondyi yae.
Ati:
—Ehe! Tate! M'ovihingi... kun'onomphumba... muyahailwa.
Hamwe pen'evi vyekuholamena-mo. Omona apolo onkhondyi yae. Tyino ahanda
okuyaha, ekihi lyati:
—He! Mukwe,
mondyahe! Ame ndyikahi-mo, mutekula, Ati:
—Ove ulinga-tyi
m'omphumba ya me? Aliti:
—Aha! Ankho nelifika-mo vala omutenya. Omona wapola-po
omphumba atwala ku ina. Ekihi lyeya. Lyeya ku ina aliti:
—Omona kamatuvili ou. Matumulingi ñgeli-ale? Ati:
—“Bom?! Pahe tyino mandyimutumu k'omeva, akatape omeva. Ove
ukemuholamena k'okanyombo oko tutapa omeva. Ina watuma omona okutapa omeva.
Tyino eya k'okanyombo, ati:
—Ehe! M'omaholi muyahailwa. Hamwe pen'evi vyekuholamena-mo!
Tyino omona ahanda okuyaha, ekihi aliti:
—Mukwe, mondyahe! Ame
ndyikahi-mo, mutekula! Ati:
—Ame nekuvahile-ale
k'epya, k'onguwo ya me... Ove pahe kuno uhanda-tyi tupu? Aliti:
—Aha! Mutekula, ankho naombela-po vala omutenya! —E! Omona
watundilila-ko. Tyino akaya k'eumbo ekihi lyekemupinga p'eumbo. —Omona
kamatumuvili ou. Lyakaya pu ina. Ina lyemulya-po —ekihi. Okulya-po ina, tyino
omona eya, ina ke-po; waliwa-ko. Omona wati ñgana:
—Epuka lina linthyupaula kuna, ngoendela olyo lyalya-po me.
Omona waihanwa k'ohamba imwe, atyitiwa: “Eye kuno, ndyin' oyo neivila—ko kuno
okutiwa weya n'ovipuka vyae?. Tyino omona aya k'ohamba, ohamba aiti:
—Oveyatyo Mphang'Olutyito, weya n'ovipuka vyove? Ati:
—Ya. Ame Mphang'Olutyito. Nelityita. Hatyitilwe.
—Endyu tuende, tuka “pasiale? apa nkhele, tukaenda-ende
k'onyima oku. Tyino akaenda-enda, ohamba yatyituka otyipembe tyondombe. Omona
ahamaheye-po p'ondombe opo. Ati:
—Ove ulinga n'oukulu? Otyityi? Omona apinunuka okutyituka
omumbyu wokwapya, ohamba tyino ahanda okutokola... Waikila po kuno omuti wokwapya?
Omona wati:
—Uhandye! Ame, etyi walingile pana, hekulile! Watundila-po.
Waya m'eumbo. Ohamba yati:
—“Bom?! Pahe tyino mandyiipaela omuenda. Yemuipaela
ongombe, aiti:
—Nahanda ongombe ei... tyino muhuka kutya... pena vala
omankhipa, ohitu aiho walya. Omona wati:
—E! Okutala, m'eimo lyomona, kapondola okulya ongombe aiho
ya mundindi. Omona waikula onkhuku yondyimbo. Yati: heye, heye, heye, heye,
heye, heye... —Omona wapola-ko onomphati ononkhwana, alya-ko. Ohitu yatyo, ei
yapwila m'ondyimbo, m'elungi. Afifila-po, anthiakana-ko otupya k'ombanda
yondyimbo yatyo. Tyino kutya, ohamba iya, pena vala omankhipa apopile, ohitu
petupu vali. Ati:
—“Bom?! Nthaina himemuvili-ale. Mandyimulingi ñgeli?
Ongulohi tyino litaka, aiti: —“Bom?! Utyii? Mandyipolo-ko otyimbundu tyange,
etyi tyohulo k'onomphandyi... etyihonyaika n'oluheke, ati: —K'omuhuka tyino
kutya, nahanda vala muna vala ohuwe, oluheke mutupu... tyakoywa umwe ngetyi
ankho tyikahi. Omona ati:
—E! K'ongulohi tyino litaka, waikula onkhuku yonohinyinyiki.
Ombu mbalala n'okukoya, n'okukoya, n'okukoya... Tyino kutya, otyimbundu atyiho
tyeyula ohuwe, ngetyi tyakalele-ale. Muhuka tyino ohamba iya aiti:
—Ongetyi?! E! Naina himemuviliale. “Bom!? Pahe tyino,
mandyikuavela otyipuka tyimwe. Ankho wetyilinga, mandyikuavela nyoko. Tyino
wetyimana umwe, nyoko ndyikupae. Ati:
—E! Tyino litaka aiti:
—Omukwa ou, k'omuhuka tyino kutya, moutyoko vala like
n'onkhava, omukwa autokela p'ohi. Ngwe omukwa omunene. Omona waikula etiko-tiko
lyokutika omiti. Olyo lyalala n'okutika omuti ó: tike, tike, tike, tike...
Tyino k'omuhuka kutya, atyoka like n'onkhava, omuti waalangata. Ngwe omukwa
omunene!... Ohamba ati:
—Hó! Etyi walinga netyimona. Nthaina ove ove
Mphang'Olutyito, Kwatyitilw'ale. Ove mwene welityita. Kwatyitilw'ale. K'omuhuka
tyino kutya, wapopya okuti:
—Enda k'onyima oko! Kapole-ko onthenda ina nyoko. Omona
wakapola onthenda ina. Weityatula p'ohi... Ina oyou apa!... Emupungila
ononthane omakunyi evali onondema, n'onthwei yambo, n'ononthane omakunyi evali
onondume. Akalinga omakunyi ekwana, tyihupe tya kwana onthwei yambo. Omona
wapita. Pen'omukwavo wati:
—Ehe! Mukwetu wakaetele-ko ina... ame ndyihekemupola-ko?
N'ame mandyikapola-ko me yange! Wapita. Tyino eya ati:
—Neya okupola me!...
Ngetyi alingile mukwetu. Ohamba yemutavela aiti:
—Iya, ankho weya okupola nyoko, iya, kuende k'ononthenda
omu muna nyoko? Weya okupola-po onthenda. Okuityatyula p'ohi, mwatundilila
onyoka imwe ondande, onene. Aihimbika okumutaata. Avelite, avelite, avelite...
Avasa otyindimba. —Mphopile! Ati:
—Pumphama p'ohi. Wankhile, kunkhi vali —Otyindimba otyo.
Tyino atala-ko yeya, ati:
—Ehe! Etyi kamatutyivili. Enda. Atyiti: Otyindimba tyienda,
ou omunthu uenda. Tyimuta ñgo. Avasa otyimbambi. —Wankhile, kunkhi vali! Tyina
atala yeya, aiti:
—Kamatutyivili.
Enda! Avasa oholongo. —Wankhile, kunkhi vali! —Etyi naina kamatutyivili. Tyina
ñgo ahakavasa ondyamba, ati:
—Pumphama p'ohi. Onthwe tuvakulu va tyilongo. Okutala-ko
oyo iya tupu. Ondyamba aiti:
—Enda, enda. Naina kamatutyivili. Wavasa mBeu, ati:
—Wankhile, kunkhi vali. MBeu wapola omakala, awavaika
m'otyipala, ati:
—Tyina ñgo emeya, atyiti: n'omuti ou, na una, na una, na
una —Tyina ñgo emeya —uliseta n'omuti watyo. Tyino weliseta n'omuti, nga wavasa
enthika lyatyo oilomboka. Oliseta n'omukwavo, nga wavasa enthika oilomboka.
Oliseta n'omukwavo; nga wavasa enthika oilomboka. Otyo alinga okuliseta
n'omiti, otyo eilomboka, otyo eilomboka, otyo eilomboka... “te? ilikutila
m'omiti aviho, aipuko. Tyino elipwa-ko aiho, okuliwingaila m'omiti, pahe mBeu
wapopya okuti:
—Enda n'oko uenda na ko! Etyi akaya oko aya na ko, etyi
yawinguluka m'omiti omu, kayemumwene vali. Wapita umwe. Pahe ótyati vala:
K'otyilongo atundile kekui vali. Kwapwa!
48: O
Monstro E A Mulher Gravida
E uma mulher que está com fome. (Estamos em tempo de fome).
Foi ela buscar uma lata de feijões, uma só, a casa do monstro. Afirmação da
mulher:
—Quando eu tiver dado à luz, será essa a tua recompensa
(falando ao monstro). Responde o monstro:
—Está bem! Vinda a altura do parto da mulher, exclama a
criança (no ventre):
—O mãe, toma! E o meu arco... A mãe segurou. Ele
acrescenta:
—O mãe, toma! (Era o saco dele de quimbanda)... A mãe
recebeu. Ele continua:
—O mãe, toma! Eu... põe-te a jeito... eu vim! Eu sou o
Autor da geração. Gerei-me eu mesmo. Não fui gerado. E a criança saiu. Vem o
monstro e diz:
—Eu venho àquilo de que falei. Diz a mulher:
—Aquilo que eu disse... Eu afinal, o filho que dei à luz, é
coisa diferente do costume. E coisa àparte. Eu dei àluz um filho que fala.
—E que éque lhe vamos fazer? Responde a mulher:
—Bom! Eu agora vou até ao campo. Vou lá deixar o meu
cobertor. Tu vais te cobrir com esse cobertor. Eu vou mandá-lo lá, dizendo-lhe:
“vai buscá-lo?! Cobriu-se o monstro com o cobertor. Veio o rapaz mandado por
sua mãe e traz consigo o seu arco. E exclama:
—Nada! Pai da vida! Nos tocos... há cobertores...
atiram-se-lhes flechas. Se calhar há por lá coisas que te esperam em
esconderijo. O rapaz põe em posição o seu arco. Ao querer lançar a seta,
exclama o monstro:
—Atenção! O rapaz, tu frechas-me! Sou eu quem aqui está
dentro, meu netinho! Diz o rapaz: —Que é que fazes tu no cobertor da minha mãe?
Resposta:
—Nada! Tinha-me coberto apenas, por causa do sol. Pegou o
rapaz no cobertor e levou-o àmãe. Volta o monstro. Veio ter com a mulher e
diz-lhe:
—Nós não podemos com o rapaz. Que é que lhe havemos de
fazer? Diz ela:
—Bom! Eu vou agora mandá-lo àágua, digo-lhe que vá buscar
água. Tu fazes-lhe uma espera junto à cacimbazita de que tiramos água. A mãe
mandou que o filho fosse buscar água. Ao chegar à cacimbazita, diz ele:
—Nada! Dão-se frechadas na erva. Há talvez por aí coisas
que te armam esconderijo! Quando o rapaz se dispunha a desferir a seta, exclama
o monstro:
—O rapaz, tu
frechas-me? Sou eu quem aqui está metido, meu netinho! Diz o rapaz: Eu já te
encontrei no campo, no cobertor de minha mãe... Que queres tu agora aqui
também? Responde o monstro:
—Nada! Meu netinho! Eu apenas me defendia do calor do sol!
—Está bem! Saiu dali o rapaz. Enquanto ia para casa, tomou-lhe o monstro a
dianteira. —Este rapaz, não o conseguimos vencer. Foi ter com a mãe. E comeu-a
—o tal monstro. Tendo comido a mãe, ao chegar o rapaz, a mãe não aparece. Foi
devorada. O rapaz disse assim:
—Aquele mostrengo que acolá me perseguiu, foi ele se calhar
que comeu minha mãe. Foi o rapaz chamado a casa de um rei, nestes termos: “Que
venha cá, ouvi dizer que ele nasceu com certos instrumentos seus?. Assim que o
rapaz se apresentou ao rei, este perguntou-lhe:
—Es tu o “Autor da tua geração?, que nasceste com teus
próprios instrumentos? Responde o rapaz:
—Sim. Sou eu o “Autor da minha geração?. Gerei-me a mim
mesmo. Não fui gerado.
—Vem daí comigo, vamos dar um passeio, aqui ao lado, vamos
aqui para a rectaguarda da casa. Enquanto ia a passear, transformou se o rei
numa plantação de amendoim. Mas o rapaz não colheu daquele amendoim. Diz o rei:
—Tu procedes como gente crescida? Que vem a ser isto? E lá
vem ele. Afastou-se do lugar. Vai o rapaz e transforma-se num arbusto de fruta
madura e quando o rei se preparava para colher fruta... —Tu plantaste aqui um
arbusto de fruta madura? Replica o rapaz:
—Não me comas! Eu não te comi, quando tu “fizeste ali
aquilo?. Sai dali o rapaz e vem para casa. Diz então o rei:
—Bom! Agora vou matar qualquer coisa para a visita.
Matou-lhe um boi e disse:
—Eu quero que este boi... amanhã de manhã... haja dele só
ossos e toda a carne a tenhas comido. Responde o rapaz:
—Está bem! Vê (o rei) que em sua barriga de criança não
pode meter um boi inteiro. O rapaz abriu a cabacinha mágica do papaformigas 93.
E começa o bicho: a cavar, a cavar, a cavar... O rapaz tirou quatro costelas e
comeu-as. A carne foi toda para dentro do buraco escavado. Tapou com terra e
acendeu um fogo por cima do buraco. Raiou o dia e vem o rei, mas só há osso
como ele disse, carne não há nenhuma. Pensa então o rei:
—Bom! Afinal eu não posso vencê-lo. Que éque lhe vou fazer?
Assim que se fez tarde, diz o rei:
—Bom! Sabes uma coisa? Vou tomar o meu cestão de celeiro, o
da ponta firmada em forquilihas... e ele misturou o conteúdo com areia,
dizendo:
—Amanhã pela manhã, eu quero que aqui haja só massango,
nada de areia... tudo escolhido exactamente como dantes. Diz o rapaz:
—Está bem! A noitinha, abriu ele a cabacinha mágica das
formigas pretas pequenas. Estas passaram a noite a apanhar, a apanhar, a
apanhar... Manhã feita, está o cestão inteiramente cheio de massango, como
dantes se encontrava. Veio pela manhã o rei e disse:
—Afinal éassim?! Está boa! Portanto eu não posso com ele.
Bom! Eu agora vou te marcar certa coisa. Se a fizeres, eu dar-te-ei tua mãe. Se
realmente a acabares, eu dou-te tua mãe. Resposta do rapaz:
—Está bem! Ao entardecer, diz o rei:
—Este embondeiro, amanhã pela manhã, vais cortá-lo com um
só golpe de machado e o embondeiro cai por terra. O embondeiro todavia era
enorme. O rapaz abriu a cabacinha mágica do caruncho que corroi as árvores. E
ele passou toda a noite a furar aquela árvore: fura-que-fura, fura-que-fura...
Ao chegar pela manhã deu o rapaz um golpe de machado e a árvore rolou pelo
chão. E o embondeiro era grande... Exclama o rei:
—Oh! O que tu fazes já eu vi. Afinal és mesmo o Autor da
tua geração. Não foste gerado. Tu mesmo éque te geraste. Tu não foste gerado.
No outro dia pela manhã, falou o rei dizendo:
—Vai ali atrás. Vai buscar a cabaça que contém tua mãe. Foi
o rapaz buscar a cabaça onde, estava a mãe. Jogou-a ao chão rebentando-a... E a
mãe, ei-la!... Distribuiu-lhe o rei, vinte vitelas, com o seu touro e mais
vinte bezerros. Eram quatro dezenas de reses, tendo por cima da quarta dezena,
o touro respectivo. Foi-se embora o rapaz. Mas há um outro rapaz, que diz
consigo:
—Nada! Então aquele foi buscar a mãe... e eu não vou
buscá-la? Eu também vou buscar a minha mãe! Partiu e ao chegar, disse:
—Vim buscar minha mãe!... Assim como também fez o outro.
Respondelhe o rei, dizendo:
—Pois, se vieste buscar tua mãe, não vais então ali às
cabaças onde tua mãe se encontra? Veio ele tirar a eabaça. Ao rebentála no
chão, saiu-lhe de dentro uma cobra muito comprida, uma grande cobra. E começou
ela a persegui-lo. Um atrás do outro, um atrás do outro, um atrás do outro...
Até que encontraram uma lebre.
—Ajuda-me! Diz a lebre: Senta-te aí no chão. Morreste, já
não morres mais! (Falava assim a lebre). Mas ao relancear os olhos, ei-la a
serpente, e a lebre exclama:
—Não, não! Com isto não podemos. Vai te! E então vai-se a
lebre e vai-se o rapaz. Mas ela continua a persegui-lo. Encontra o rapaz uma
cabra do mato.
—Morreste, já não morres mais! Mas ao vê-la que se aproxima,
exclama:
—Não podemos com isto. Vai-te! O rapaz encontrou um cudo.
—Morreste, já não morres mais! —Afinal com isto, não
podemos. Ao vir a deparar com um elefante, diz este:
—Senta-te aí no chão. Nós somos os senhores da terra. Mas
ao deitar os olhos, ei-la ainda que vem. Exclama o elefante:
—Vai-te, vai-te. Afinal não podemos com isto. Encontrou o
Sapo-Concho que lhe diz:
—Morreste, já não morres mais! O Sapo-Concho pegou em
carvões e enfarruscou a cara, dizendo depois: Quando ela por aí aparecer, faz-se
assim. entre esta árvore e aquela e aquela e mais aquela —quando ela por aí
aparecer —tu dás uma volta à árvore. Dás a volta à árvore e ao encontrares-lhe
o corpo saltas por cima dela. E vais dar a volta à outra árvore, mas ao
encontrares-lhe o corpo, saltas por cima dela. E assim à outra árvore, mas ao
encontrares-lhe o corpo saltas por cima dela. E ele assim fez volteando a
árvore e saltando por cima da cobra, por cima da cobra, por cima da cobra...
até que ela se enrodilhou nessas árvores todas, a todo o seu comprimento.
Quando em todo o seu comprimento se havia ela enrodilhado nas árvores. então
falou o Sapo-Concho dizendo:
—Vai para onde queres ir! Seguiu ele em determinada
direcção e quando a serpente se acabou de desenrodilhar, já não lhe pôs mais a
vista em cima. Ele tinha desaparecido. Agora o que lhe sucedeu foi isto: ele
esqueceu-se da terra donde tinha vindo. Acabou.
Narrador:
Valentim, casado, de 28 anos de idade da etnia dos Gambos (Ngamboe). Gravação:
Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka
49:
Nambalisita
Se ya ina ya Nambalisita okwali hatele omiyo. Efiku limwe
takwata edila, telitwala k'eumbo, telipe omwalikadi, nde teliduda, telipake po.
Talombwele ounona tati:
—Inamutula-ko nande, osesi nganga mwatula-ko, otalidi-mo,
k'efimbo inalipia. Ovakuluñu tavakanwa omalodu, ounona vo tavatula-ko, tavati:
- Tutale nganga talidi-mo sili m'omeva mapiu. Esi
vatula-ko, lo lañuka-mo. Ndele vo tavelitata omutenya ause. Esi etango latoka
tavafe elamuo vanangale-mo. Lo edila talidi-ko, taliti:
—Tukasikinina ounona va mbangu tavafi outalala!... Nde
okalume takahale okulikwata, esi levatuvika, nde taliñukapo. Ndele esi kwasa vo
veliwete vali, nde tavelitata. Esi etango lafika pokati k'omutwe, tavamono
eumbo. Edila tali m'eumbo. Omweneumbo taufana ounona ava tati:
—Ileni, okakadona aka takaningi omualikadi wange, omuaina
handimudipa, oso ehemusunife k'osilongo. Esi emudipa, emupaka m'osihuhwilo.
Okakadona kaninga omufimba, ko kadala ei, takelidipa. Takadala vali likwao,
kelidipa vali. Efiku limwe telikwayula k'osifidi, nde tati:
—Osifidi esi sakwayula-nge ame ndina omutima mui! Osifidi
tasiti: Haikulombwele: Ngenge wadala vali ei inolidipa, lipaka k'osimato
sokaanda. Ye esi adala vali ei okwaninga ngasi alombwelwa. Ei esi laninga-ko
omafiku, ye eudite latopa, taliti:
—Ndadia-mo, ame Nambalisita, hisitilwe k'omuñu, ame mwene
ndelisita... Esi adia po tai ku ina tati:
—Ove auke weile-ko oku? Ye tati:
—Tweile na sokulu, nde okwadipawa. Nambalisita takalifa,
esi adia-ko talili. Ye se temupula:
—Oike tolili? —Ye tati:
- Vakwetu tavayolo-nge: Omona wasike wohamba ehena engobe!
Engobe edipewa. Nde takalifa vali. Okwadia-ko talili vali tati:
—Ovakwetu tavayolo-nge, esi ndihena eñhambe. Eñhambe
edipewa-yo. Ndele talili vali epewe-yo ovapika. Nde takalifa, tamono osipeke
satilyana, talombwele ina tati:
—Tuye k'osipeke 148
tukatole emeke. Ina tati:
—Ame hitola emeke,
ndimualikadi wohamba!... Ye tati:
—Tuye ngaho! Vaya,
nde inaveuya vali. Nambalisita tatumu osikondobolo tati: —Ngenge ndekutuma ku
tate tokatia ngahelipi? Osikondobolo tasiti:
—Haikatia: Kukulusu!
Ye tati
—Ulaí-ne kusi okutonga. Ye tatumu omupia waye, temupula
tati:
—Ngenge ndekutuma ku tate, tokatia ngali? Ye tati:
—Haikatia; Fimbo tamunu omalodu, Nambalisita unya aya na
ina. Ye tadi-ko-ne n'ovañu vahapu. Nde se tevahange m'ondyila. Nambalisita
tati:
—Tate suna! Inaihala okukudipa. Nde ye inaitavela. Nde
tati-ne: Tsoke! (taimbi): “Ndaumba oita ya tate Nangolo?. Okwevadipa avese. Se
tahupu-po aeke. Nde tati vali:
—Inaihala okukudipa! Ye inaitavela. Nde temudipa. Vo tavai
na ina. Tavahange endyila mbali. Nambalisita tapula ina tati:
—Otoi m'ondyila ei ina omatudi “tyanu, tyanu?! Ile otoi mu
ai ina omadi “tyololo, tyololo?? Ye tati: Handi mu ai yomadi, ndimwalikadi
wohamba! Nambalisita okwaya mu ai ina omatudi. Ina takahanga ekisi, taliti:
—Kakulukadi yambela ondyila! Ye tati: Hina esi ndiyambela
ondyila! Engobe dange dayambela ondyila. Nde taliti: Okakulukadi yambela ondyila!
Tati:
—Eñhambe dange dayambela ondyila. Lo taliti vali: Yambela
ondyila! Ye tati:
- Ndayambela ondyila ovapika vange. Lo taliti vali: Yambela
ondyila! —Ame mwene ndayambela ondyila. Nde avese valika-po. Tapadi odi
yakalombwele Nambalisita n'okutia: Kunya onyoko valika-po. Nambalisita tadi-ko,
aaluka. Ye okwakufa osipeta seuni, ye tesikupula m'edimo lekisi. Nde ovañu
avese vadiamo vali. Vo tavai fiyololo tavakafika k'osilongo oko kwadile ina ya
Nambalisita. Ndele okwahanga-po omufitu unene. Sekulu ou ahangwa-po tati:
—Omufitu ou ihaukewa. Nambalisita tati: Ame haikeuka! Nde
take omufitu, teumane-po. Mongula esi kwasa, vahanga omufitu wafita vali. Nde
teuke-po, nde takahondama, okuudite enima taliti:
—Kokolo, kahwa
enda-po apa wakelwe! Nambalisita telikwata nde tasakala omundilo nde teliyofa.
Ongula okwahanga vali omufitu wafita, ye teuke vali, okwelihondamena vali,
teliyofa vali. Omufitu wapwa-po nde tai k'eumbo. Ye taufanwa ku Kalunga tati:
Omuñu wasike eli oku tati ye mwene elisita, ovañu avese ame ndevasita. Nde
Nambalisita tati:
—Ame mwene ndelisita. Nde takongo omanda, n'ondyaba,
takongo vali eñwi, n'eñhuyu, n'omaluviluvi. Ye tafikama tai ku Kalunga —Tuye
m'osunda sengobe dange! Oñwedi ya Kalunga taldi-mo, yo taitua k'omanda. Kalunga
tati: Tuye m'epia lange! Katale apa lifike, tati londa k'okamutala aka!
Nambalisita takufa okamuia kaye ekapa Kalunga, kadyale m'ofingo. Kalunga tati:
Kamutala kange twala kombada! Ye Nambalisita tati: Okamuia kange lisilila! Nde
Kalunga tapondwa. Kalunga tati:
—Okamutala kange kaaluka-ne! Vo tavadi-ko-ne. Kalunga
atelekela Nambalisita osifima. Takudi odi yokapuka talombwele Nambalisita
taiti: Osifima esi sitoka inosilia, lia esi silaula! Kalunga emupaka m'onduda
ihena osivelo. Nambalisita tapula ovamati vaye:
—Olyelye esimona nale esi? Oñhuyu taiti: Ame ndesimona
nale! Nde taihupu omututu wakambaduka m'epia. Vo tavatutile m'onduda
omatanga... Kalunga onduda teihwike. Omatanga tatopa-ne. Nde Kalunga tati:
—Nambalisita apia! Ye tati: Ame inohwika - nge; wahwika-ngo
omatanga. Vo tavai. Tavahange omufitu. Ye tapula ovamati vaye:
—Olyelye esimona nale esi? —Ondyaba taiti:
—Ame ndesimona omukwanangangala! —Nde hwanu! hwanu!
Tavai-ne. Tavahange ehenene liadi esosolo 149 . Ye tapula ovamati:
—Olyelye esimona nale esi? Oñwi taiti:
—Ame ndesimona! —Nde tune! Tune! Tavaende k'omatutumbo. Vo
tavai, tavahange omulonga. Nambalisita tapula ovamati:
—Olyelye esimona nale esi? Eluviluvi taliti:
—Ame ndesimona nale, omukwanangangala tesiningi. —Nde
tunge! Tunge! Vo tavaende kombada yomulonga, tavai k'osilongo savo.
49:
Nambalisita
O pai da mãe de Nambalisita costumava armar laços. Um dia
apanha um grande pássaro. Leva-o para casa e entrega-o àmulher. Esta tendo-o
depenado, mete-o numa panela para o cozer. Recomenda aos filhos:
—Não tireis a panela do fogo, porque se a tirardes, a ave,
enquanto não estiver cozida, sai do pote. Ora os pais foram beber cerveja em
casa duns vizinhos. Os filhos tiram então a panela do lume dizendo:
—Vamos a ver se a ave sai deveras da água a ferver! Assim
que levantaram a tampa, a ave saltou fora. As crianças correm então atrás dela
todo o dia. Ao entardecer, puseram-se a cavar uma cova para nela passarem a
noite. Neste instante aparece a ave e diz:
—Vou cobrir os miúdos para que não sofram de frio!... O
rapaz, nessa altura tenta apanhá-la, mas ela dá um pulo e foge. Ao romper do
dia ela aparece de novo e os pequenos tornam a persegui-la. Quando o sol se pôs
a prumo, encontraram uma habitação. A ave entra nela. O dono da casa chama os
dois jovens e diz:
—Vinde cá. A rapariga vai ser minha mulher. Quanto ao rapaz
vou matálo para que não fuja com a irmã para a terra! Depois de o ter morto,
enterra-o no urinol. A rapariga fica grávida e dá àluz um ovo. Mas ela parte o.
Pare novamente um ovo e despedaça-o igualmente. Passado algum tempo, ela dá com
a perna contra um toco e exclama zangada:
—Este toco magoou-me, a mim que tenho maus fígados. Mas o
toco põe-se a falar para ela: Quero dizer-te uma coisa: Se tornas a parir um
ovo, não o partas mais, mas coloca o antes em cima do tampo do cesto-celeiro!
Ela, depois de ter posto novamente um ovo, procede conforme a recomendação
feita. Passados dias o ovo estalou e uma voz se faz ouvir: —Eu saí do ovo, eu
sou Nambalisita: O A-mim-me-gerei; não fui gerado por ninguém, eu mesmo me
gerei... Pouco depois ele chega-se ao pé da mãe e pergunta:
—Tu vieste sozinha para esta terra? —Não! Vim com teu tio,
mas mataram-no. O rapaz vai apascentar o gado. Ao regressar a casa ele pôe-se a
chorar. O pai pergunta-lhe:
—Porque estás a chorar? Responde o filho: Os meus
companheiros fazem pouco de mim, dizendo: Que filho de soba éeste, que não tem
bóis? Dão-se lhe bois. Ele torna a ir ao, pasto. Ao voltar a casa, chora como
dantes e diz:
—Os companheiros mofam de mim por não possuir cavalos.
Entregam-se-lhe cavalos. Chora ainda para que lhe entreguem escravos.
Recebe-os. Vai agora novamente ao pastoreio. Ali encontra uma ximénia com
frutos maduros; avisa a mãe e diz:
—Vamos apanhar frutos! Esta replica:
—Eu não vou a esses frutos, eu sou mulher de soba.
Nambalisita insiste: Vamos mãe! Foram e não voltaram mais a casa. Nambalisita
chama agora um galo e pergunta-lhe:
—Se eu te mandar a casa o que vais lá dizer? O galo
responde: Direi: Cocorocó. O rapaz diz: Es tolo, não sabes falar. Chama então
um servente e pergunta-lhe:
—Se eu te enviar a dar um recado ao pai, o que vais dizer?
Eu direi: enquanto fostes beber cerveja, Nambalisita e a mãe foram-se embora
para outra terra. O rapaz vai caminhando seguido de muita gente. O pai por sua
vez tendo-os (mulher e filho) perseguido, alcança-os finalmente. Nambalisita
diz-lhe:
—Pai, regressa, eu não quero matar te! Este porém recusa.
Nambalisita dá então um grito e canta: “Declaro guerra a meu pai Nangolo?
Investe contra eles e mata-os todos excepto o pai. O rapaz torna a dizer-lhe:
—Não quero matar-te! Este, não faz caso e o filho mata-o.
Prossegue então caminho com sua mãe. Chegam a um cruzamento de carreiros. O
rapaz pergunta à mãe:
—Queres ir pelo caminho dos excrementos: esmaga aqui,
esmaga acolá; ou queres ir pelo que desliza como manteiga; sempre a direito,
sempre a direito. A mãe responde: Vou pelo da manteiga, sou mulher de soba!
Nambalisita toma o dos excrementos. Poueo depois a mãe dá com um monstro. Este
interpela-a: —Velhinha, paga passagem! Responde ela: Não tenho com que pagar
senão os bois. O monstro (não se contentando) insiste ainda:
—Paga passagem!
—Os meus cavalos pagam passagem. O monstro torna a exigir:
—Paga passagem!
—Os meus serventes sirvam de pagamento. O monstro continua
a teimar:
—Paga passagem!
—A minha pessoa seja oferecida em pagamento. Todos foram
devorados. Dali sai então uma mosca que vai avisar Nambalisita: Lá no outro
caminho, a tua mãe foi devorada por um monstro. Vai ele imediatamente ao lugar
do desastre. Pega num pedaço de casca de maboque e lança-o com força contra a
barriga do monstro. Todos os seres devorados saem da prisão da barriga. Em
seguida põem-se a caminho até chegarem à terra donde tinha vindo a mãe de
Nambalisita. Nesta viagem encontram uma floresta muito densa. O guarda que lá
estava diz:
—E proibido derrubar esta floresta. Nambalisita responde:
Mas eu vou derrubá-la! E põe-se a derrubar as árvores até acabar com todas. De
manhã cedo, olhando para a floresta, vê que toda ela estava reconstituida.
Torna a cortar as árvores. Acabada a tarefa, esconde-se para observar o que
sucederia: Passados momentos ouve um fantasma que diz: Lalará! Arbustozinho
põe-te novamente no sítio donde foste cortado! Nambalisita agarra-o, e acende
fogo para o queimar. De manhã o mato apresenta-se de novo cheio de árvores. Ele
torna a cortá-las e põe-se novamente a observar e em seguida destroi totalmente
pelo fogo o tai fantasma. Removido definitivamente o obstáculo da floresta,
Nambalisita chega finalmente a casa. Passado algum tempo, éNambalisita intimado
para se apresentar a Deus que pergunta: Quem éesse homem que anda por aí a
dizer que se gerou a si mesmo? Pois se todos os homens fui eu quem os criou!
Nambalisita respondeu:
—Eu gereime a mim mesmo. Vai ele então à procura de um
rinoceronte 95 , de um elefante, convoca também toupeiras, lebres saltadoras e
aranhas. Assim acompanhado parte para o encontro com Deus. Este começa por
dizer:
—Vamos ver os meus
bois! O touro sai do curral e o
rinoceronte mata-o com uma chifrada. Deus convida-o em seguida:
—Vamos àminha lavra, para veres a sua extensão. Diz ainda:
Sobe a este estrado! Nambalisita tira do pescoço o pequeno colar-amuleto e
passa-o para o pescoço de Deus. Deus exclama:
—Estradozinho leva-o para cima! (Para o matar). Nambalisita
por sua vez brada:
—Amuleto meu esgana-o! E Deus está a ficar estrangulado.
Por isso ordena agora:
—Estradozinho desce para baixo! Ambos saem então deste
sítio. Entretanto Deus tinha mandado preparar pirão. Aparece uma mosca a avisar
Nambalisita:
—Não comas do pirão
branco, mas sòmente do escuro! Em seguida Deus fecha Nambalisita numa cubata
sem porta. Pergunta ele agora aos seus rapazes:
—Quem é que viu já, coisa semelhante? —A lebre saltadora
reaponde:
—Eu já me vi nestes apuros. Cava então um túnel que dá
saída pelo lado do campo. Lembram-se depois de encher a cubata de abóboras...
Mas Deus deita fogo à cubata. As abóboras rebentam com estrondo e Deus exclama:
—Desta vez Nambalisita morre Queimado! Este porém responde:
—Não queimaste a mim, queimaste mas é as tuas abóboras!
Nambalisita e deus separam-se então. No caminho Nambalisita e o seu séquito
encontram um mato muito fechado. Pergunta ele aos “rapazes?:
—Quem é que já viu coisa semelhante? Responde o elefante:
Eu jé vi esta coisa, sou pessoa de grande experiência.
—E derruba-que-deriuba até o mato desaparecer. Vã andando e
a certa altura vêemse metidos num terreno cheio de abrolhos. Nambalisita
pergunta:
—Quem de vós já vin coisa semelhante? A touperia responde:
Eu. E vai fazendo monticulos sobre os quais todos passam. Surge então na sua
frente um grande rio. Pergunta Nambalisita:
—Quem é que já viu coisa semelhante? Responde a aranha: Eu,
que sou pessoa de recursos.
—E vai pondo teias aqui, teias acolá, até todos passarem e
irem para a sua terra.
Dados
biográficos e outros como no Nº 23. E a
primeira vez que esta lenda por nós colhida. se publica na integra.
Anteriormente tínhamos inserido um resumo da mesma e alguns excertos em dois
estudos: Manifestação tardia do Monoteismo na Evolução da Humanidade? 99 e
Etnografia do Sudoeste de Angola 100 . Uma versão com alguns episódios bastante
diferentes, para não dizer estranhos, foi recolhida entre os Cuanhamas de
além-fronteiras em 1948 e publicada pelo etnólogo norte-americano, E. M. Loeb.
Nela o adversário principal de Nambalisita é designado por Omupangeli Wounyuni
que Loeb, equipara e com razão a Kalunga, o “deus supremo? dos Cuanhamas?. No
entanto, no decorrer da narração este substantivo determinante éomitido,
ficando sí o determinado Omupangeli, que em si não significa cutra coisa senão
governante, chefe. Desta forma fica algo equivocada e paradoxal a conclusão da
história em que Nambalisita, mediante um “ar impestado?, que fez surgir. dá
cabo do seu adversário, instalando-se ele no seu trono'.
50:
Nambalisia [II]
Opopo lumwe. Omukai wakutula eyiyi. Kutule eyiyi olyo
akatolela ina, ati:
—Elo, nakutula eyiyi! Ina ati:
—Eyiyi olyo kelipake k'omutwe wokambundu. Iya, omukai ou
okupo'a eyiyi clipake k'omutwe wokambundu. Etyi lyakala-po ononthiki, eyiyi
olyo alitutana, aliti umwe: Tuta! Amutundu omona, ati: Ame Nambalisita!
Nelityita, anahatyitilwe na munthu. Anehena mukulu, anehena ndenge. Iya,
okupula ina:
—Omphange yange
ulipi? Ati: Una waya k'omulonga, vena Namatako na vakwavo vali, vakafwa onohi.
Ati: n'ame oko mandyiende. Iya okumutala omona ou omunthu un'ononkhono
ononyingi. Ovimbwa vyae ovinyama aviho vyohika. Iya, okulipaka m'ondyila. Etyi
ati k'ondongi, wevevasa ovahikwena vafwa onohi. Iya evekukwinya ati:
Okunyangei! Ava vamwe avetavela. Iya omupika ou Namatako, ati:
—Pahe havilulu vala ovyo vikahi n'okutukukwinya? Iya okuya
n'okaluhonge okuhimbika okuveta m'omona. Iya vakwavo avati:
—Muhemuvetei vali. Tyipondola hamwe omphange yetu. Iya
ongontyo vemuyeka. Ati: Pahe tuendei, ame neya okumu landula. Matuende k'eumbo
Oku mwaihenwa. Yauke m'omeva, ovahikwena aveya avateleka okulya. Teleke okulya,
avati:
—Tuendei pahe. Okuliyumba m'ondyila, avati: Tukwata
k'ondyila ya matwi —miankhu, miankhu; ine tukwata k'ondyila ya mulela
—ndyololo-ndyololo? Iya Namatako etyi omupik'ale uhamono omulela nga vakwavo,
ati:
—Tukwatei oku kun'omulela. Iya okuya k'ondyila yomulela,
naina oko aveya vavasa ombala yomakihi. Iy'o makihi aati:
—Lalelei apa, muheliyumbei vali m'ondyila k'ounthiki.
Lalei! Aeveavela ondywo omu vakalala. Iy'omona ati:
—Ndati! Ame hilala m'ondywo, ame mandyilala vala pano
p'ondye. Iya, ovinyama vyae okuviihena. Aviya avikala p'onthele yae. Ovahikwena
avanyingila m'ondywo. Iy'omakihi k'ounthiki m'okwatala okuti ovana velele
avahande okuliyomba na veye okuveipaela-mo na valye. Iy'omona ati:
—Ndati! Tyina otyityi muhanda okulinga? Omakihi
om'okumoneka okukondoka. Iya, lale ngotyo ló kwatya. K'omuhuka omakihi ati:
—Ove ulinga Nambalisita. Enda na mukwenyi. endei mukalise
onongombe. Iya, omona om'okulupula onongombe avai na vakwavo k,onongombe.
Ovahikwena atyitiwa:
—Salei apa n'okutwa, mulinge ohinde na mupole-ko onkhuta
yenyi yokuenda. Naina ohinde oyo, itwa ovahikwena, omakihi vahandele na vatwe
ohinde oyo ilinge onkhuta yavo yokuvelya. Iya kuna k'onongombe, omona kakalele.
Otyo akoya omainya, okukoya omainya, okukoya omainya oviila. Iya otyo eepaka nawa.
Ava velí p'otyini n'okutwa. Iya, omona kuna, k'onongombe elivake-ko. Eya wavasa
onomphange veli k'otyini n'okutwa. Iya, omuhikwena wike okumupaka einya
yonkhumbinkhumbi, k'omutwe. Omuhikwena einya: omuhikwena einya... Iya una
Namatako, na emuhitise etyi emuvetaile, emupake einya lyolumbamba m'omutwe. Iya
ati: Tuendei!
—Ahimbika okuimba, ati: Nonkhumbi-nkhumbi mbange, yelela,
tuendei! Kakele kolumbamba. sala sala p'ohi! Iya. aveho naina avakatuka,
avahimbika okukatuka n'okuenda n'op'eulu. Omakihi avati:
—Ngeno twevelile-ale: Ngeno twe velile-ale! Ou Namatako tyetyi ena einya lyolumbamba, uti
vala akatuka atokela p'ohi. Omakihi aveya-po. Tyino vahandele okumukwata,
akatuka vali. Ongotyo ló omona emulingila okankhenda, eya vali emupake einya
lyonkhumbi-nkhumbi m'omutwe. Otyo pahe akatuka nawa. Otyo ñgo vaenda n'okuimba:
Nonkhumbi-nkhumbi... (ut supra). Iya, avaende m'ondyila. Omukwendye ati:
—Namatako walya tupu unene ngotyo onohi: Iya, m'omuti
matukalapela kamunininwa! Iya Namatako una ketyitele ondila. Hike m'omukwa, omu
valapela. Namatako una okuyeka-ko. Iya, omukwa auikuka, auveikila-mo m'okati.
Iya, mavalingi-tyi vali? Omukwa wevelya; veli m'okati komukwa. Omona ati:
—Namatako, haityo nekutolele? Muna m'omuti kamunininwa.
Pahe oñgeli ngetyi? Iya, omona natyimwe va'i apondola okulinga. Pakala
ononthiki n'ononthiki, peya okamwalikai, keya okutiava ononkhwí. Omwalikai weya
m'ombwelo yomukwa watyo omu, n'onkhava: Pú! Pú! Iya ovana ovo m'okati
avahimbika n'okuimba: Ove kakulukai ove! Pú! Pú! Nkhele wapumaine-ale! Pú! Pú!
Uketuhepule k'eumbo! Pú! Pú! Uti: Omukwa walya ovawa. Pú! Pú! Walùa Nehova ya
Nyange Omuin gona. Omwalikai ati: Hum; Pahe otyityi tyiimbila vali m'omukwa
omu? Ati: Ndati! Mandyivete-mo vali. Omwalikai okuveta-mo vali m'omuti. Ungwe
ovana vahimbika vali n'okuimba: Ove kakulukai ove! Pú! Pú! Nkhele
wapumainc-ale! Pú! Pú! Uketuhepule k'eumbo! Pú! Pú! Uti: Omukwa walya ovawa.
Pú! Pú! Walya Nehova ya Nyange Omuingona! Omwalikai ati: Nanyo m'omukwa omu
mun'ovanthu. Okutunda opo n'okukahateka, okuenda k'eumbo, okukapoya k'ovoina a
Nambalisita. Okutehela. Ame nakatiavele ononkhwi m'omukwa. M'omukwa okupuma-mo,
muna mamupopi okuti: Ng'ove, kakulukai, nkhele wapumaine-ale, Kahepule k'eumbo.
Uti: Omukwa walya ovawa. Walya Nehova ya Nyange na Kamya ka Ndyolondyondyo
omuingona. Tyetyi avahiwa vekahi n'okunyunga ononkhela. Ina yatyo ya
Nambalisita hakupola otyimphwena? Hakutyiyululila omwalikai m'otyipala.
Omwalikai okukelipukumuna. Ati:
—Tuendei vala. N'onwe mwene vahekulu mukelitehelelei-ko.
Ovanthu avemukwame. Omwalikai eya n'onkhava yae apumu m'omuti. M'omukwa
amuhimbika okuimba: Ove kakulukai... Avati: Naina otyili. Pahe omwalikai wati:
—Endei k'eumbo,
kapolei ongombe yombulu onthikovei. Oyo muenda mukase pola, na iye kuno,
ivehitululile-mo m'omuti omu vekahi. Iya, avakaeta ongombe oyo. Ongombe etyi
yeya ailisete n'omukwa. Etyi yavandala lwike vala —mboo!... —omukwa auliikula,
avatundu-mo. Vehike nawa k'eumbo, omona okutyihipulula okuti:
—Ove oñgeli mwaenda-enda ngetyi? Ati: Onthwe ongotyo
twaenda enda. Nevevasa k'ondongi, avanthelekela okulya. Andyiti: hihande. Pahe
andyiti:
—Tuendei k'eumbo. Okuya k'eumbo, avati: Tuenda k'ondyila yo
matwi ine ya ndyololo-ndyololo. Kuna naina oko twavasa otyipundo tyomakihi. Iya
vana omakihi aevepaka m'ondywo na tulangale-po. Vana naina vahanda okuveipaa.
Pahe ame okuvekoyaila omainya, andyivepake m'omitwe. Pahe ongetyi twakatuka.
Okuya okutolela ou Namatako okuti: M'omuti kamuninwa, una walingila wina. Omuti
hakutuyeilila-mo. Pahe ngetyi mweya okutupola-mo, ngetyi tweya ñgana. Ewa! Ina
wati:
—Ove ulinga Nambalisita, kuende. Tava yove Huku, wekuihena.
Oko uende. Na muende mukelikukwinye na e. Ati: Etyo! Okutyinda ovinyama n'oviti
vyae elipake m'ondyila. Iya, Huku una okumulavisa. Apake-ko elunga lyomeva na
atale oñgeli meya okuyauka. Iya, etyi ehika p'elunga opo, ati:
—Pahe onwe mulinga ovinyama vyange, onombwa mbange, olye
upondola okutuyaula m'omeva omu, na tuende? Ove Ndyamba, utyivila otyo? Ndyamba
ati:
—Ahau! — Ove Nkhulika, utyivila otyo? Nkhulika ati:
—Ahau! —Olye utyivila? Euvi ati:
—Ame ndyityivila. Ati: Nanyo amuho londei k'omwongo wEuvi,
Euvi na lituyaule. Iy'aveho avalondo k'omwongo wEuvi. Euvi n'ekuti:
—Tanthu-tanthu... avayauka omulonga. avekehulila himba
lina. Iya Huku apake-ko vali tyimwe otyinene, apake-ko ohika yomiti vimwe
ominene-nene. Omukwendye Nambalisita apulu ati:
—Kauvi, utyivila etyi? Ati:
—Ahaú! Ame hityivili. —Iy'ove Ndyamba? Ondyamba ati:
—Ame ndyityivila. —Amuho londei ku Ndyamba na tuendei.
Avalondo aveho k'Ondyamba. Londé, Ndyamba ahimbika okuteya-teya omiti ovyo?
Avai. Iya, vehike kuna, velivasa, avelikukwinya, velikwatesa ko. Ati:
—Weya, tava? Ati: —Neya. Ati:
-Tuende ukatale okamuti kange keli pana. Ong'oko uenda kuna
ukeketale. Nambalisita ati:
—Tuende. Hiké p'okamuti opo, ukwata.
—Ove pahe londa k'okamuti kange aka. Ou ati: Ndati, Tyina
ndyilonda k'okamuti kove aka. Ove n'Ove usala n'ohiva yange ei p'omunyino. Iya,
omukwendye ou alondo k'oka muti oko. Huku ati: Kamuti kange, twala! Ou na e
ati: Hiva yange, leka-ko! Tyina ou wati: Kamuti kange, twala, okanmti kekula,
kaya vali n'op'eulu. Ou na e ati: N'ove hiva yange, leka-ko, ohiva na yo
aileke. Ina etyi yaleka, Ou ati:
—Leta. Ou na e ati: Muyeka. Ou na e ng'opo atuluka, ohiva
yae eipolo-ko. Ati:
—Tuende tukatale
ongombe yange ili kuna, onkhambe yange. Ati: E! Okuya okuhika k'ongombe, ati:
—Hetekela vala okulonda na utale! Ati: Tyino ame ndyilonda
k'ongombe yove oku, ohiva yange p'omunyino wove kaikamba-po-ale! Opo lumwe una
yokuipaka. Ou ati: Ngombe yange, twala! Ou ati:
- Hiva yange, leka-ko! —Ngombe yange, twala! —Hiva yange,
leka-ko! Otyili tyino ohiva yaleka, ou akondoka. Iya pahe, mané ngotyo,
okutuluka k'ongombe oko, avelikukwinya. Ati: Naina n'ove un'ononkhono, tulit'we
nawa atuho. Iya, ngotyo okaluñgano ka Nambalisita kapwa. Ou okukondoka k'eumbo
lyae.
Sambwllikiti pahe omwonwe.
50:
“A-mim-me-gerei?
Pois é ele mesmo. Uma mulher deu à luz um ovo. Posto cá
fora o ovo, foi falar dele à sua mãe e disse-lhe: Olha que eu dei à luz um ovo.
E a mãe: Esse ovo. vai pô-lo em cima do cocuruto de um cestão. Pois aquela
mulher pegou no ovo e põ-lo no cocuruto do cestão do mantimento. Passados dias,
o ovo rebentou fazendo assim: Bum! Saiu de dentro um rapaz que exclamou: Eu sou
o “A-mim-me-gerei?! Gerei me eu, não fui gerado por ninguém. Nem tenho irmão
mais velho, nem mais novo. Pôs-se então a interrogar a mãe:
—Onde está a minha irmã? E esta:
—Ela foi ao rio, está com ela Namatako e mais umas outras.
foram à pesca. Diz ele: Eu também lá vou. E é que a vê-lo, um rapaz assim é pessoa
de muito poder. Como seus cães, traz consigo toda a bicharia do mato. Ei-lo a
caminho. Chegado ao rio. encontrou as raparigas na pesca. Cumprimenta-as
dizendo:
—Boas tardes! Algumas responderam. Mas uma escrava de nome
Namatako, declarou:
—Ora isto não são cumprimentos de gente reles? E ei-la que
se aproxima com uma vergasta e bate no rapaz. Observam as outras:
—Não lhe batas mais. Quem sabe se não será nosso irmão. Por
isso o deixou ela. Diz o rapaz:
—Vamos lá, eu vim procurar-vos. Vamos para casa, pois lá
vos chamam. Tendo saído da água vêem as raparigas fazer seu cozinhado.
Terminada a cozinha disseram:
—Vamos agora. Ao tomar seu caminho, exclamam:
—Vamos pelo caminho dos excrementos, esmaga aqui, esmaga
acolá; ou tomamos o que desliza como manteiga a direito, sempre a direito?
Namatako que era escrava e não lobrigava manteiga como as outras, adiantou:
—Vamos pelo caminho que tem manteiga. Vieram pois pelo tal
“caminho de manteiga? onde afinal deparam com uma grande aldeia de
monstros-papões. Dizem então estes:
—Passai aqui a noite, não vos metais mais por esses
caminhos pela noite. Dormi! E ofereceram-lhes aposento onde fossem dormir. Ora
o rapaz observou:
—Não! Eu não durmo
em quarto, eu durmo só aqui fora. Chamou então a sua matilha de bichos. Estes
vieram e dispuseram-se ao pé dele. As raparigas foram-se para dentro do quarto.
Ora os papões de noite, notando que as raparigas já dormem, querem vir
àsorrelfa, para matá-las e comêlas. Mas diz o rapaz:
—Não! Que é isso que pretendeis fazer? E ei-los os monstros
que retrocedem. Assim dormiram até pela manhã Pela manhã, dizem os papões:
—Tu que és Nambalisita. Vai com outro pastor e ide levar os
bois ao pasto. O rapaz tira então os bois do cur ral e vai com mais companheiros
para a pastoricia. As raparigas dizem-lhes assim:
—Ficai por aqui a pisar grão para fazerdes farinha e terdes
assim vosso farnel de viagem. Mas afinal aquela farinha que elas moem, querem
os monstros que elas a moam, mas para ser acompanhamento deles mesmos para as
comerem. Mas é que lã entre os bois, o rapaz não ficou inactivo. Ia colhendo
penas, colhendo penas, colhendo penas de aves. E guardava-as. Elas vão pisando
no almofariz. Entretanto o rapaz esgueirou-se de ao pé dos bois. Deparam-se-lhe
as irmãs ocupadas no almofariz. Dirige-se ele a uma rapariga e põe-lhe uma pena
de cegonha em cima da cabeça. A esta rapariga uma pena; àquela uma pena...
Quanto àNamatako por questão de castigá-la por lhe ter batido, põs-lhe uma pena
de noitibó, em cima da cabeça. E gritou:
—Vamos!
—Pega então ele a cantar assim: Ó minhas cegonhas, é levantar
voo, vamos! Quanto à do noitibó, vai ficando ai no chão! Todas pois levantaram
voo, começando a voar e a elevar-se nos ares. Exclamam os monstros:
—Deviamos tê-las comido! Deviamos tê-las comido! A
Namatako, visto que tem uma pena de noitibó, esvoaça a levantar e pousa outra
vez. Os papões acorrem. Ao pretenderem agarrá-ia, ela torna a levantar voo. E
assim foi acontecendo até que o rapaz teve dó dela e retrocedeu a impor-lhe uma
pena de cegonha na cabeça. Foi então que voou a valer. O rapaz continua a
entoar seu cãntico. O minhas cegonhas... (ut supra). Prosseguem caminho.
Observa o rapaz: A Namatako comeu também muito peixe. Ora na árvore em que
vamos pousar, não se defeca! Mas Namatako não lhe deu ouvidos. Chegados a um
embondeiro ali pousaram. O Namatako, essa, não suportou, largou a evacuaço.
Então o embondeiro abriu se e fechou-os lá dentro. Que é que eles vão fazer
agora? O embondeiro engoliu-os, encontram-se lá dentro. Observa o rapaz:
—O Namatako, não to disse eu? Aqui nesta árvore não se
defeca. Que éisto agora? Ora o rapaz nada mais pode fazer. Passaram-se dias e
dias e, aproxima-se uma velha que anda à lenha. A velha chega até debaixo do
embondeiro referido, com seu machado: Pa! Pa! Os jovens lá dentro começam a
cantar: Ó velhinha, ó velhinha! Pá! Pá! Desde que para ai bates! Pá! Pá! Vai dar
a notícia a ! Pá! Pá! Dize: O embondeiro comeu gente preciosa! Pá! Pá! Devorou
Nehova de Nhangue, a propria filha. Resmunga a velha: Oh! Que é que canta ali
dentro do embondeiro? E acrescenta: Não! Vou bater uma vez mais. E a velha
voltou a bater na árvore. Ora, os jovens recomeçam o seu cãntico: Ó velhinha, ó
velhinha! Pá! Pá! Desde que para ai bates! Pá! Pá! Vai dar a noticia a casa!
Pá! Pá! Dize: O embondeiro comeu gente preciosa. Pá! Pá! Devorou Nehova de
Nhangue, a própria filha. Conclui a velha: Afinal aqui dentro do embondeiro há
gente. Sai dali a correr e vai para casa anunciar à mãe de Nambalisita. Eis o
que ouvem: —Fui por aí à lenha até a um embondeiro. Ao bater neste, ouve-se
falar lá dentro assim: Então tu, velhinha, há tanto aí a bater, vai levar a
notícia a casa. Dize: O embondeiro comeu gente preciosa. Comeu Nehova de
Nhangue e Câmia de Ndjolondjondjo, a própria filha. Ora, a mãe estava a
preparar . Por isso, a mãe de Nambalisita, pegou nas papas que tinha em mãos e
despejou-as na cara da velha. Esta afastou-se a limpar a cara. E diz:
—Vamos. Vós próprias ide lá escutar. Assim foi seguida
daquela gente. Aproxima-se a velha com seu machado e bate na árvore. E o
cântico recomeça dentro do embondeiro: Ó velhinha, ... ... ... ... ... ...
Exclamam: Afinal éverdade. Ensina então a velhinha:
—Ide a casa, ide buscar um boi mocho de cor preta. Ide
buscá-lo que é para ele vir cá e libertá-los da árvore em que se encontram.
Pois foram então buscar o boi. Vem de lá o boi e começa por dar uma volta ao
embondeiro. Soltou um único mugido —mú!... e o embondeiro abre-se saindo de lá
os jovens. Tendo chegado a casa a salvamento, conta o rapaz o sucedido, pois
lhe perguntam:
—Como é que tu seguiste um caminho destes? Responde: Nós
andamos desta maneira: Encontrei-as junto ao rio e cozinharam-me de comer. E eu
para elas: Não quero. E acrescentei: Vamos para casa. A querer vir para casa,
elas interrogaram-se:
—Vamos pelo caminho dos excrementos ou pelo que corta a
direito? Ora viemos nós afinal a encontrar uma aldeia de monstros. Ora esses
papões puseram-nas mini quarto que passássemos a noite, Mas o que eles querem é
matá-las. Pus-me eu a colher-lhes penas de ave e coloquei-lhas nas cabeças. Foi
assim que levantamos voo. Ora a dizer à Namatako: naquela árvore não se defeca
e ela fez de propósito. Assim a árvore nos engoliu. E sucedeu então que viestes
tirar-nos de lá e assim aqui chegamos. Bem! Diz a mãe:
—Tu que és Nambalisita, vai, pois tou companheiro, Deus,
chamou te. Diz que vás? E para vos cumprimentardes. Resposta:
—Está bem! Carregou então com sua. matilha e seus paus e
pôs-se a caminho. Ora Deus arma-lhe uma cilada. Interpôs um mar de água para
ver como poderia atravessá-lo. Assim que chegou àquela massa líquida exclamou:
—Então vós que sois a minha matilha de animais, vós os meus
cães, qual de vós pode fazer-nos atravessar esta água, para seguirmo. s viagem?
Tu, Elefante podes fazê-lo? E o Elefante respondeu:
—Eu não! —Tu, ó Leão, tu és capaz de tal? Responde o Leão,
dizendo:
—Eu. não! —Quem é então capaz? Diz a aranha:
—Sou eu capaz disso. E o rapaz: Então subi todos para as
costas da Aranha, para ela nos atravessar. Pois todos se puseram às costas da
Aranha. E lá vai a Aranha. Aguentaaguenta... e atravessaram aquela massa de
água até à outra margem. Surgiu então outra coisa enorme posta por Deus e foi
ela uma mata de árvores grandes, muito grandes. Pergunta o rapaz, Nambalisita
assim:
—Aranha, podes veneer isto? Diz ela:
—Não, eu não posso. —E tu, Elefante? Responde este:
—Sim, eu posso.
—Trepai todos para o Elefante e vamos. Todos foram para
cima do Elefante. Postos em cima dele, começa o Elefante a partir todas aquclas
árvores. Assim prosseguiram caminho. Chegados do outro lado. encontra-ram-se,
cumprimentaram-se e apertaram as mãos. Diz Deus:
—Vicste. companheiro? Responde:
—Vim. E Deus:
—Vem dai a ver uma àrvorezita que tenho acolá. Vai até lá
vê-la. Diz Nambalisita:
—Vamos. Chega ao pé da árvore e toca-lhe.—Sobe agora a essa
minha àrvorezita. E o outro: Não. Subindo eu à tua à rvorezita, também tu ficas
com este meu amuleto ao pescoço. Subiu então o rapaz àquela pequena árvore. E
“Deus? exclama: O àrvorezita, vai com ele (mata o)! E o rapaz:
—Amuleto meu, esgana-o! Enquanto um diz: Minha árvore, vai
com ele, a àrvorezita cresce e vai subindo no ar. Mas o rapaz também diz: Tu
também, amuleto meu, esgana-o, e o amuleto vai esganando. E como esganasse, diz
Deus:
—Volta com ele. E o rapaz: Larga-o. O rapaz desceu ali da
árvore. E foi retirar o seu amuleto. Diz então “Deus?: Vamos ali ver um meu
boi, que me serve de cavalo. Resposta: Está bem! Chegados ao pé do boi,
observa:
—Experimenta montar nele a ver! Mas disse: Enquanto eu
monto no teu boi, o meu amuleto não sai do teu pescoço!
—E imediatamente o colocou. Diz “Deus?: Vai com ele, meu
boi! Resposta do rapaz: Amuleto meu, esgana-o! —Vai com ele, meu boi! —Amuleto
meu, esgana-o! E assim, pois que o amuleto esganava, o rapaz voltou. Acabado
isto, desceu do tal boi e cumprimentaram-se. Exclama “Deus?: Também tu tens
realmente força, nós equivalemo-nos. Desta maneira acabou o meu conto do
Nambalisita. O rapaz voltou para sua casa. E o açaimo agora enfia-se em vós (em
um de vós).
Dados
biográficos e outros como no Nº 4. Podia tecer se uma longa série de
considerações sobre estas três lendas que fundamentalmente versam o mesmo tema.
Nas três é apresentado o mesmo protagonista, uma espécie de Super-homem (não no
sentido Nietzscheano, é claro) que teve um nascimento fora das lcis naturais.
No primeiro caso o ser estranho é dotado de linguagem humana, mesmo antes de
nascer, nos dois outros, ele põe-se a falar, logo depois de ter saido dum ovo.
E as primeiras palavras são para declarar o seu nome que manifesta alto e bom
som, pelo seu significado, a maneira extra-naturai do nascimento. Vale a pena
examinar de mais perto os dois vocábulos. Segundo o P.e Silva, de acordo com o
sentido actual dos seus componentes o termo composto Mphang'Olutyito significa
pròpriamente: geração permanente 101 . Porém pelo contexto vê-se que o sentido
deste nome não pode ser outro senão o indicado. Nambalisita em lingua Cuanhama significa
à letra: “Fulano gerou-se a si mesmo?. Como na segunda versão do conto em
epigrafe figuram muitos elementos de uma narrativa simllar que corre entre os
Dongas —etnia Ambó ao Sul da fronteira —convém aqui acrescentar o nome que nela
se dá o herói a si mesmo. Isto é tanto mais importante que o último se
apresenta bastante diferente dos dois analisados. O termo é: MpambaIsita. Ora o
primeiro dos dois vocábulos significa Deus, o Ente Supremo, não só em língua
Donga, mas também no falar das restantes etnias Ambós. E verdade, este nome é mais
empregado em poesia do que em prosa, conforme se explica na Etnografia 102 . O
termo Isita é o mesmo que nas outras línguas e provém do radical s ita ou tyita
com o sentido geral de criar, gerar. Por conseguinte Mpamba-Isita quer dizer:
Deus criou ou gerou directamente, sem que fosse necessário uma gestação normal.
Na lenda Nhaneca, o tal Ente émuitas vezes chamado Omona e embora este termo
Banto não especifique o sexo, não há. dúvida nenhuma de que se trata de um rapaz.
Se fosse necessária uma prova desta asserção, bastaria o gesto da entrega de um
arco frecheiro àmãe antes de nascer. Por isso não éde admirar que na segunda
versão de Nambalisita se use correntemente o termo Omukwendye, rapaz. No
entanto as variantes Cuanhama e Donga preferem empregar o nome próprio, com que
o rapaz se crismou a si mesmo. E de observar ainda que parece inferir-se das
quatro narrativas 103 que nenhum dos protagonistas passou pela fase de infância
da vida, tendo chegado instantâneamente àadolescência. Também não consta que um
deles tenha em segulda contraído matrimónio. Por outro lado, dos “rapazes? da
primeira e segunda lenda não se afirma que tenham tido irmâos ou irmãs, enquanto
se declara expressamente que os da terceira e quarta viviam com irmãs, com uma
só o Nambalisita e com três o Mpamba-Isita. O facto de os primeiros serem
filhos únicos é com certeza mais consentâneo com a sua categoria de Seres
extraordinários. No que diz respeito às grandes aventuras em que os quatro
heróis dão mostras da sua superioridade, há umas que são comuns a todos eles:
aquelas em que têm de enfrentar monstros. E de esperar de antemão eles sairem
vitoriosos das contendas, visto os simples mortais conseguirem igual resultado,
mesmo sem disfrutarem dos grandes poderes mágicos, com que os outros nasceram.
Nesta série de feitos aventurosos é curioso encontrarem-se episódios que
figuram noutros contos como o de pedir passagem a um monstro, inserto na lenda
de Nambalisita (cuanhama) igual à ocorrência relatada no conto nº 44 e o
incidente das penas de cegonha e de noitibó. em que fica no mesmo pé o herói
Nambalisita e a pequena rapariga da narração nº. 19. No entanto a parte mais
original e cheia de interesse para o investigador das ideias mitológicas e
religiosas éaquela em que se relata que o herói é chamado a apresentar-se ao
Deus Supremo. E de notar que é só nas duas lendas de Nambalisita "se narra
tal ocorrência. Em ambas o motivo desta ordem ou convite —não se vê bem como se
há de definir —é o tal ser ter ido espalhar pela terra fora que ele próprio se
gerou, não devendo a ninguém a sua presença no mundo. Mas o epiteto que se lhe
atribui na segunda versão caracteriza bem o ambiente moral em que se realizará
o encontro. Este não éoutro senão: tava, companheiro; termo que não deixa de
implicar um certo grau de igualdade e até fami'iaridade, embora não exclua,
nes'e caso, atitude de rivalidade agressiva. Na verdade, no conto cuanhama
trata-se a Deus com mais respeito, mas a sequência dos episódios mostra que
isto não passa de uma pura conveniência oral. Nos vários episódios da luta
contenciosa com Deus, os dois adversários mantêm-se quase em pé de igualdade,
pois Nambalisita, além dos seus dotes pessoais de valentia e astúcia, dispõe
também de grandes poderes mágicos. Seja como for do desfecho desta singular
confrontação, de Nambalisita diz-se que ele, abandonando a luta regressou para
a sua terra ou sua casa e nada mais consia do resto da sua vida. Contudo, Deus,
esse continua a estar presente, senão tanto por manifestações culturais, mas no
fundo da consciência de todos os antigos Bantos do Sudoeste de Angola. Resta
dizer uma palavra sobre a introdução algo enigmática e misteriosa da lenda
cuanhama. Por mais voltas que se queira dar, não se consegue achar-lhe um sentido
razoáve, a-não ser talvez o de nos apresentar a mãe do herói... e indicar o
motivo por que ela e mais o irmâo abandonaram a casa paterna. Este não éoutro
senão o comportamento estranho e cheio de manigãncias mágicas do passarão que o
pai tinha apanhado numa armadilha. Indirectamente, pelo menos, a mesma ave
ocasiona a perdição do rapaz e favorece o matrimónio da irmã com um dos
maiorais da terra. Neste trecho do conto há ainda outro facto insólito e que se
relata sem comentário: o enterro do desgraçado rapaz no urinol da cerca. Para
se poder avaliar melhor toda a indecência que encerra tal procedimento, convém
lembrar aqui que entre os Cuanhamas —os quais não possuem cemitérios —cada
habitante das cubatas, divididas em várias secções de um “eumbo? tem o seu de
sepultura destinado polo costume tradicional. O do “dono da casa?, éno curral
dos bois do rapaz solteiro, no dos vitelos, uma mulher dentro da pequena
divisão onde se situam as suas cubatas, uma rapariga, no lugar dos almofarizes
de farinação. Por aqui se pode ver que o tio materno e chefe do c ãfamiliar de
Nambalisita sofreu, depois da morte a maior das injúrias. Porquê? Não há
explicação a dar, pois estamos em plena atmosfera misteriosa. Consideremos
agora lendas que apresentam analogias em duas etnias de Angola —os Vimbundos e
os Ambundos —Não é que as não haja também noutros povos, mas dessas não temos
conhecimento e mesmo se isto fosse o caso. não as poderiamos inserir nestas
considerações por excederem o âmbito deste nosso trabalho. Entre os Vimbundos
corre a fama de um ser fabuloso, extraordinário de nome Kalitangi. Hauenstein
que publicou duas pequenas narrativas sobre este herói, não indica o
significado do apelido por julgá-lo evidente para quem conheça o falar desta
gente ou então ele acha suficiente a explicação que o herói dá do seu nome e da
sua actividade: Eu sou Kalitangi que embaraça a “Deus?. De facto no seu
Dicionário etimológico, Bundo-Português o P.° Albino Alves refere estes
significados para o verbo tanga —oku —embaraçar, enlear, atrapalhar. Aqui temos
pois o nome relacionado, não com o nascimento, mas com um poder tão
extraordinário que parece igualável ao de Deus. Quanto ao nascimento, Kalitangi
emparceira-se com o herói da lenda Nhaneca. Com efeito, segundo uma das
variantes da narrativa, Kalitangi aparece neste mundo em forma de um caçador
armado e na outra ele despacha o armamento antes de sair ele próprio do ventre
da mãe. Onde porém há uma diferença enorme entre os dois heróis, é no indivíduo
de quem surgiram para a vida terrestre. O Mpang'Olutyito nasce de uma mãe
humana, enquanto que Kalitangi é parido por uma cabra! E verdade que se declara
que este animal estava relacionado com um “bode emissário possuindo uma alma do
mundo dos mortos?. Hauenstein tem que confessar que “não conseguimos receber
uma explicação inteiramente satisfatória desta lenda?. Mais tarde voltou ele ao
assunto num trabalho que infelizmente não possuimos e no qual ele põe o
comportamento deste Ser fabuloso em relação com o culto dos antepassados. Para
terminar esta nótula sobre Kalitangi diremos que ele também não entra em
confrontações directas com Deus contentando-se com operar alguns prodigios para
desarmar as ciladas que seus adversários lhe armaram 104 Embora de um caráeter
bastante diferente, não deixa de pertencer a esta mesma categoria de narrativas
a terceira das publicadas por Héli Chatelain. Apelida-se o herói: Na Nzuá dia
Kimanaueze, que o editor contràriamence ao seu costume, não traduz. Mas, aqui
interessa-nos sobretudo conhecer, ainda que de uma maneira bastante sucinta as
aventuras deveras anormais deste filho de soba que teve nascimento natural. O
pior é que a mãe durante a gravidez, so se podia alimentar de peixe que o
marido mandava pescar no rio Lucala. Daí resulta um conflito com o “génio do
rio?, que pretende ter direitos sobre o futuro filho. Este, depois de ter
chegado àadolescência, de acordo com o pai, recusa tornar-se amigo do “génio?,
entregandose-lhe. Resolve empreender uma grande viagem na qual não atravessava
nenhum rio. Para isso o pai eutrega-lhe dois escravos, dois bois-cavalos, duas
cabras e duas porcas. Na Nzuá põe-se a caminho. Um dia, no meio de uma grande
clareira os animais do mato pedem-lhe uma coisa impossivel de satisfazer. Para
se vingarem vão-lhe comer os escravos, os bois, as cabras e as porcas. Em
seguida vários bichos, a começar pelos mais ferozes, se aproximam dele,
conferindo-lhe grandes poderes mágicos, mais especialmente o de se poder
transformar em cada um deles, quando isso lhe aprouver. Assim vai vencendo todos
os obstáculos que se lhe opõem na caminhada. Finalmente resolve ir a Luanda. Na
fase última dessa viagem pelo ar, ele toma as aparências de um passarinho muito
bonito e poisa no pátio do Governador-Geral. A filha do Governador apanha o
passarinho e mete-o numa gaiola. Lá o nosso Na Nzuá toma várias vezes a forma
de uma formiga e de um rapaz, conforme as conveniências do momento. Ao fim e ao
cabo a filha do governador reconhece-o e apaixona-se por ele. Passado pouco
tempo contraem matrimónio. Para lhe conferir um alto cargo, o Governador-Geral
pede-lhe que vá a Portugal e lhe traga uma filha que andava por lá perdida. Na
Nzuá aceita. Transformando-se num falcão e numa águia, ele lá chega, encontra a
filha, agarra nela e apresenta-a ao pai. Este entrega-Ihe o governo da
Provincia 105 ! Não será fácil encontrar narrativa popular angolana em que se
deparem contrastes tão pronunciados como nesta. A magia ligada à vida
particular do primeiro Magistrado da Província! Um grau de aculturação quase
inconcebivel. Por mais fantasiado que nos possa parecer o irmanar de tais
elementos, lá no fundo jaz a ideia de que um poder extranatural, fora do comum,
pode ser equiparado ádignidade do mais alto cargo administrativo. Para avaliar
melhor esta ordem de conceitos, lembremo-nos que a história foi contada ao
douto liingxiista há mais de setenta anos por Jeremias Alvares da Costa,
sobrinho dum grande soba da região de Malanje. Para rematar este comentário que
já vai longo, acrescentaremos umas reflexões sobre narrativas com elementos
análogos existentes fora de Angola. Na verdade este trabalho já está feito e
bem feito como se pode ver numa comunicação apresentada pelo sábio etnólogo
sueco von Sicard, no Congresso Internacional de Etnografia de Santo Tirso
(1963). O seu titulo é: La Naissance miraculeuse dans les contes Bantu.
Comparando um grande número de etnias, o autor chegou a conclusões como
estas:...; Le futur héros parle déjà dans le sein de sa mére, ou bien
immédiatement après la naissance... et il est né avec des armes dans la main et
quelquefois accompagné d'un chien... Peu de jours après (la naissance) le
garçon est adulte et il va combattre le dragon... Il tue le monstre et délivre
tous les êtres avalés, ou bien, englouti lui-même il éventre le monstre du
dedans... Il y a un nombre de variantes rapprochant le conte du mythe...
Back
matter
Bibliografia
ALVES, ALBINO —Dicionário Etimológico Bundo-Por?ugués,
Lisboa, 1952.
ANDERSSON, V. E.
—Messianlc Movements in the Lower Congo-Uppsala, 1958.
BAUMANN, H. —Lunda, ed. Wurfel. Berlim, 1935.
CHATELAIN, H.
—Folk-Tales of Angola —Fifty Tales with Kimbundu Text, literal english
Translation, Introdution and
Notes —Boston e Nova lorque, 1894.
ESTERMANN, P.e
CARLOS.
—Manifestação Tardia do Monoteismo na Evolução da Humanidade? Portugal em
Africa,
Lisboa, 1946.
—Os “Vátua?. Mensário Administrativo —Luanda, 1951 n.o
49/50.
—Etnografia do Sudoeste de Angola.
I. Vol. —Os povos Não-Bantos e o Grupo Etnico dos Ambós
—Lisboa, Junta de Investlgações do Ultramar, 1956 —2.a
edição, 1960.
II. Vol. —Grupo Étnico Nhaneca-Humbe —idem ibidem. 1957
—2.a
edição, 1960.
III. Vol. —O Grupo Étnico dos Hereros —idem lbidem, 1961.
—O Sentido da Justiça como Reflexo de alguns Contos
colhidos entre os Bantos do Sudoeste de Angola —Boletim do Instituto de Angola,
Luanda, 1961.
—Caracteristicas da Literatura oral dos Bantos do Sudoeste
de Angola —Primeiro Encontro de Escritores de Angola
—Sá da Bandeira. 1963.
—A Mulher e dois Filhos —Instituto de Investigação
Científica de Angola —Luanda, 1964.
—Les Bantous du
Sud-Ouest de I'Angola —Anthropos —St. Augustin, 1964, Vol. 59.
—A Possessão Esplrita entre os Bantos (Factos e Reflexões)
—Estudos Gerals Universitários de Angola —Sá da
Bandeira —1968.
GUERREIRO, M. VIEGAS —Os Macondes de Moçambique, IV vol.
Sabedoria, Língua, Literature: e Jogos —Junta de
Investigações do Ultramar, 1966.
HAUENSTEIN, A. —Mitos, Contos, Provérbios e Fábulas dos
Vimbundus e dos Quiocos de Angola, (in: Boletim do Instituio de Angola N.o
2l/23, 1965).
—Les Hanyas
—Description d'un groupe ethnique bantou de l'Angola —Wiesbaden, 1967.
JUNOD, H. Ph. —Moeurs
et Coutumes des Bantous. 2 Vols. Paris, 1937.
LANG et TASTEVIN —La Tribu des Va-Nyaneka —Corbeil. 1937.
LIMA, MESQUITELA —Os Akixi (Mascarados do Nordeste de
Angola), Lisboa, 1967.
LOEB, E. M. —Kuanyama Ambo Folklore in: Anthropological
Records; Berkeley e Los Angeles, 1951.
MONABD, A. —Contribution àla Mammologie d'Angola, etc.
—Arquivo do Museu Bocage —Lisboa, 1935.
NOGUEIRA, A. F. —A Raça Negra —Lisboa, 1880.
PETTINEN, A. —Gebete
und Marchen usw. der Aandonga —Zeitschrift fur Eingeborenen Sprachen, Berlim,
1925-1927.
QUEIROZ, J. M. EÇA de —A Seara dos Tempos —Edição do Autor
—Praia da Granja —Portugal —1968.
RIBAS, ÓSCAR —“Missosso? —Luanda, 1962.
V. SICARD, H. —La Naissance miraculeuse dans les Contes
bantu —Congresso Internacional de Etnografla de Santo
Tirso —Lisboa, 1965.
—Ngano dze Cikaranga —Karanga Marchen —Uppsala, 1965.
SILVA. NEWTON da —A Caça e a Protecção da Fauna em Angola
—Lisboa, 1968.
PDF GERADO POR PROQUEST.COM Page 305 of 311
SILVA Pe. ANTÓNIO JOAQUIM —Diclonário Português —Nhaneca
—Lisboa, 1966.
NOTES
1 1 “Etnografia do Sudoeste de Angola? I Vol. Os Povos Não
Bantos e o Grupo Étnico dos Ambós, Lisboa 1956. 2.a edição 1960. II Vol., Grupo
Étnico Nhaneca-Humbe. Lisboa 1957. 2.a edição 1960. III Vol. O Grupo Étnico
Herere. Lisboa 1961. No curso deste volume citaremos a obra pela sigla E 1, E 2
e E 3 , referente ao I, II e III volumes. Não havendo indicação em contrário, a
paginação é a da I edição.
2 1 Folk-Tales of
Angola —Fifty Tales with Ki-mbundu text, literal english translation,
Introduction and Notes —Boston e Nova-Iorque 1894.
3 2 Mitos, Contos, Provérbios e Fábulas dos Vimbundus e dos
Quiocos de Angola (in: Bol. do Inst. de Angola, n.° 21/23 1965; pp. 13-56) e
“Las Hanyas? —Description d'un groupe etnique bantou de l'Angola. —Wiesbaden,
1957. pp. 187 a 198.
4 3 “Missosso? —Luanda, 1962.
5 4 Ngano dze Cikaranga —Karangamarchen —Uppsala 1965.
6 5 Os Macondes de Moçambique, IV Vol. —Sabedoria, Língua,
Literatura e Jogos. —Lisboa 1966.
Observação: Como so pode verificar, não éuniforme a grafia
de alguns fonemas. Assim. breve escreve-se às vezes com y e a semi-voga! w com
u.
7 1 Op. cit. p. 20 e segs.
8 2 Moeurs et coutumes des Bantous —Paris, 1936. II Vol.
pg. 189.
9 1 A bert Monard —Contribution àla Mammologie d'Angola,
etc. —Arquivo do Museu Bocage —Lisboa. 1936 p. 229.
10 2 S. Newton da Silva —A Caça e a Protecção da Fauna em
Angola —Lisboa, 1958.
11 1 Lepus saxatilis.
12 2 Testudo —?
13 1 Corvus scapulatus.
14 2 Bacorvus caffer.
15 3 E 1 p. 203 e 206-208.
16 4 Sylvicapra grimmia.
17 1 Op. cit. p. 22.
18 2 Op. cit. 1956 p. 21-47 e 1967 p. 188 e seg.
19 3 V. E. Anderson
—Messianic Movements in the Lower Congo —Uppsala, 1958 —p. 20.
20 4 Lunda —Berllm, 1935 p. 108.
21 5 Lisboa, 1967 p. 18 e sg.
22 1 Op. cit. p. 99.
23 1 Op. cit. p. 281.
24 2 O Sentido de Justiça, etc., in Bol. do Instituto de
Angola —1961 —pág. 10
25 3 (Cf.) o nosso pequeno trabalho: Os “Vatwa? (Mensário
administrativo —N.o 49-50 —Lunada. 1951. V. cap. 2, 3, 4, 5 da l.a parte de E 1
2.a edição.
26 1 A Possessão Espírita Entre Os Bantos (Factos e
Reflexões) —Sá da Bandeira, 1968.
27 1 E 1 p. 230.
28 2 Raça Negra —Lisboa. 1880 —pág. 291.
29 1 E 2 p. 235.
30 1 Op. cit. p. XIII.
31 1 Op. cit. p. 18.
32 1 Primeiro encontro de Eseritores de Angola —Sá da
Bandeira, 1963 p. 297.
33 2 Nos povos aquém-Cunene émais frequente ficarem os
narradores sentades.
34 3 Op. cit. p. 59 e seg.
35 1 Op. cit. p. XIV.
36 1 Porque se nos virmos ajustaremos contas.
37 1 Estermann, 1963, pp. 298 ss.
38 1 Aegoceros melampus.
39 2 Connochaetes
taurinus.
40 1 E. pp. 209/210.
41 2 Op. cit. p. 209.
42 1 Op. cit. 1965. pp.
23/24.
43 1 Rucorvus
Leadbeatesi.
44 1 O narrador imita com este lapso, o modo de falar
inábil da criança.
45 1 Pettinen 1925-1927
—p. 256.
46 2 Op. cit.1964, p.36
e 1967, pp. 180, 197.
47 3 Op. cit. pp.
126-130.
48 1 Turtur
chalcopsilos.
49 2 Quelea quelea lathami.
50 3 Lamprotornis acuticaudus.
51 4 Camaroptera levicaudata
52 1 Op. cit. 1954 —p. 18.
53 1 Op. cit. n.° VI p. 97.
54 1 Também pode significar simplesmente: “E sentarem-se no
chão?.
55 1 E 1 pp. 191. ss.
56 1 Cieonia abdimii.
57 2 Strychnos Schumanni.
58 1 Caprimulgus
fossei.
59 1 Op. cit. p. 103.
60 2 Op. cit n.° VI. p.
97
61 1 Bol. Inst. Inv. Cientif. Angola —Luanda 1964.
62 2 E 3. pp. 39. ss.
63 3 Op. cit. pp.
190-195.
64 4 E 2. pp. 214, ss.
65 1 Imitação do andar.
66 1 Op. cit. 1967. pp. 195. ss.
67 1 A entalada.
68 1 Clarias capensis.
69 1 E, pp. 172. se
70 1 Desabafo de quem se allviou da carga.
71 1 Op. cit. 1965. p.
63.
72 1 Estermann, 1964,
pp. 60, ss..
73 1. Numida coronata.
74 1. E2 pp. 57, ss.
75 1 O rel fica em situação poder descer, embora a
explicação do facto não seja apresentada. Nalguns contos em que a situação;
análoga se repete éo personagem ardiloso da história quem retira a escada
anteriormente posta de encontro à árvore.
76 1 Op. cit. p. 60 (ou: Lang e Tastevin, 1937).
77 1 Varanus albigularis.
78 1 I.é. Já vieram os nossos.
79 1 Edição do Autor —Praia da Granja —Porugal —1968.
80 1 Hauenstein —1965. p. 43-44.
81 2 Op. cit. obs. linguistica no. 365 p. 281.
82 1. Pág. 63 e seguintes.
83 1 Subentende-se que Kaniminimi libertara Nangondwe de
uma armadilha de laço, e este livra presentemente Kaniminimi de seus apuruos,
fruto de suas aventuras com os monstros. A situação embaraçosa de Nangondwe enlaçado
nalguma armadilha se chama “pecado de armadilha? e aos presentes apuros de
Kaniminimi, em suas andanças de aventura, se chama “pecado de andanças pelo
mato?.
84 2 Haliaetus vocifer.
85 1 (O galo veio pois a tempo de ser admitido na
parentela, e a sua entrada na mesma, assim de modo destacado, tem relação com o
que depois vai suceder).
86 2 (Este pedaço de frase pinta-nos, em determinada casa,
os donos da mesma, colocados diante da sua obrigação de bem receber).
87 3 (Ou porque as conversas e festanças fàcilmente
transpõem os limites da casa e são cá fora conhecidas, ou porque o entrecho
subentendido do conto faz com que esta última conversa se passe diante de
testemunhas pertencentes à“parentela? acima instituida, o certo éque o
Crocodilo éaqui quem os interpela).
88 2 (Alusão àcrista).
89 3 Crocodilo e Galo tinham laços de família. Aos da casa
de Tyiwana, permitia livremente o Crocodilo que tirassem água do rio, pois que
para o galo a levavam também. Agora que mataram o Galo para oferta a visitas,
levanta-se inimizade entre o Crocodilo e os seres humanos.
90 4 (É a “gente? do crocodilo que se lança em chusma sobre
o Tyiwana. Ao monte de “gente? que cai sobre o incriminado chama o texto
“epunda?. literalmente, trouxa).
91 1 Varanus niloticus.
92 1 L e: monstro comerá o filho que vier.
93 1 Cabacinha mágica pertencente ao rapaz e pondo ao
dispor deste. o Papa-formigas, quando por ele solicitado.
94 1 Ximénia americana.
95 1 Rhinoceros bicornis bicornis.
96 2 Chrysochloris damarensis (?)
97 3 Pedetes caffer.
98 1 Acanthospermum hispidum.
99 2 Portugal em África No. 15 Lisboa 1946.
100 3 E 1 pp. 215 e seg.
101 1 Mas encontram-se ainda agora signiftcados que sugerem
para o radical —panga —a ideia de operar. Assim Okupangiya, consertar; okupanga
omphango. fazer omphango, sorte de pau aguçado ou de alavanca aguçada para escavar.
102 2 E1. p. 212.
103 3 Como Já o fizemos, continuaremos daqui em diante a
incluir o conto Donga, quando isso interesse ao estudo comparativo.
104 1 Op. cit. 1965 pp.
15 seg.
105 1 C op cit. pg. 65
seg.
106 2 Junta de Investigações do Ultramar —Lisboa. 1965 p. 5.
107 1 Os vocábulos entre aspus, são palavras portuguesas
bantuisadas ou palavras bantns aportuguesadas.
108 1 Do verbo okumwimba. Radical —mwimab. Ex:
(Talak'ovipala: wekuamba kemwimba). Prov. (Olha para as caras; aquele que
murmurou contra ti. nao custa a reconhecer).
109 1 Rhynchotragus damarensis.
110 1 Raphiceros campestris.
111 2 Taurotragus oryx.
112 3 Connochaetes taurinus.
113 1 Plural, por referir-se a ambos.
114 1 Nianga énão fazer o devido caso, não ligar a uma
pessoa, geralmente guardando sllêncio. Refere-se ao facto de ficarem lá dentro
mãe e filha, no caso do Kungungu. (Bucorvo).
115 2 Okuangulula —Fazer voltar para devolver.
116 1 O narrador imita com este lapso, o modo de falar
inábil da criança.
117 1 Corruptela por: “Ndyilandaula?.
118 1 Não éreflexo; o “li? refere-se a Ekihi.
119 1 Bantuização do português “servir?.
120 2 Strepsiceros strepsiceros Pallas.
121 1 Flcus gnaphalocarpa.
122 1 A entalada.
123 1 E actualmente a forma infantil de “Nelvaluka?.
124 2 Do Bundo. (Umbundu).
125 1 Clarias capensis.
126 1 Vigna unguiculata.
127 1 Desabafo de quem se allviou da carga.
128 1 Corythaixoides concolor.
129 2 Dendropicos fuscescens.
130 1 Okuenda —onkhunde-ongombe éseguir na rectaguarda de
alguém, mas fazendo por ocultar-se tomando os lados do caminho ou
aproveitando-se das voltas deste para se furtar àvista de quem vai adiante. Na
Bíblia em Nyaneka há um exemplo do emprego desta expressão a respeito de S.
Pedro que segue N. Senhor,preso.
131 1 i.e.
uvote-vote-mo.
132 2 A narradora, desta vez, como que corrige o termo
“papai?, acrescenta “Wa he?.
133 1 Okuyakula = receber agradecendo (neste caso).
134 1 de Okuluvelela: pedir de comer, visitar àhora do
comer.
135 1 Devido ao peso que transporta.
136 1 Do português “barraca? —cubata quadrangular com tecto
de duas águas
137 1 Do português dono —quer dizer aqui possuidora.
138 1 Nkhofi e ndumbu são sinónimos de onkhulika (Leaão).
139 1 Nkhofi e ndumbu são sinónimos de onkhulika (Leaão).
140 1 Okalukuhu —cabacinha de recolha dos tubérculos das oxálidas
ditas “onoheva?.
141 2 “Eheva? —mato de “onoheva?.
142 1 Subentende-se que Kaniminimi libertara Nangondwe de
uma armadilha de laço, e este livra presentemente
Kaniminimi de seus apuruos, fruto de suas aventuras com os
monstros. A situação embaraçosa de Nangondwe enlaçado nalguma armadilha se
chama “pecado de armadilha? e aos presentes apuros de Kaniminimi, em suas andanças
de aventura, se chama “pecado de andanças pelo mato?.
143 2 Haliaetus vocifer.
144 1 (O galo veio pois a tempo de ser admitido na
parentela, e a sua entrada na mesma, assim de modo destacado,
tem relação com o que depois vai suceder).
145 2 (Este pedaço de frase pinta-nos, em determinada casa,
os donos da mesma, colocados diante da sua
obrigação de bem receber).
146 3 (Ou porque as conversas e festanças fàcilmente
transpõem os limites da casa e são cá fora conhecidas, ou porque o entrecho
subentendido do conto faz com que esta última conversa se passe diante de
testemunhas pertencentes à“parentela? acima instituida, o certo éque o Crocodilo
éaqui quem os interpela).
147 1 “Levam água para eles?. Ao galo se referem aqui no
plural, sorte de plural de família, como fazem com os humanos também. O galo
não existe sòzinho... tem suas galinhas e sua prole.
148 1 Ximénia
americana.
149 4 In: Kwanyama Ambo
Folklore —University of California Press 1951.
DETALHES
Trabalho do assunto: Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de
Angola
Identificador / palavrachave:
Estermann, Carlos, 1896-1976; Cinquenta Contos Bantos do
Sudoeste de Angola
Título: Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola
Autor: Estermann, Carlos
Título da publicação: Cinquenta Contos Bantos Do Sudoeste
De Angola; Luanda
Páginas: 7-[NA ]
Ano de publicação: 1971
Local de publicação: Luanda
País de publicação: Luanda
Assunto da publicação: Literature
Tipo de fonte: Livro
Idioma de publicação: English
Tipo de documento: Prose, Book
Nota sobre a publicação: Copyright © 2017 ProQuest LLC. All Rights Reserved. Do not ex port or print from this
database without
checking the Copyright Conditions to see what is permitted.
Número de registro: BSF00130
ID do documento ProQuest: 2138582085
URL do documento:
https://www.proquest.com/pq1lit/books/cinquenta-contos-bantos-do-sudoeste-deangola/docview/2138582085/sem-2?accountid=35927
Copyright: Copyright ©
2019 by Alexander Street, a ProQuest Company.
Última atualização em: 2024-10-10
Base de dados: Black Short Fiction and Folklore
Copyright da base de dados 2025 ProQuest LLC. Todos os
direitos reservados.
Sem comentários:
Enviar um comentário