sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Cinquenta 50 Contos do Sudoeste de Angola

 

50 CONTOS BANTU DO SUDOESTE DE ANGOLA

Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola

Informações da publicação:: Estermann, Carlos.

TEXTO COMPLETO

Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola

MEMORIAS E TRABALHOS DO INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA DE ANGOLA

7

CINQUENTA CONTOS BANTOS DO SUDOESTE DE ANGOLA

— TEXTO BILINGUE COM INTRODUÇÃO E COMENTARIOS —

Por Pe.

 CARLOS ESTERMANN com a colaboração do Pe.

 ANTONIO JOAQUIM DA SILVA

LUANDA

INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA DE ANGOLA

— 1971 —

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índice

PREFACIO 7

INTRODUÇÃO 11

A

CONTOS DE ANIMAIS

I

A HIENA E O CHACAL

(quatro narrações)

1 a 4

33

1. Ehunyu na Kavandye

A Hiena e o Chacal 35

2. Votyimbungu na Kavandye

A Hiena e o Chacal 49

3. Ehunyu na Kavandye

A Hiena e o Chacal 51

4. Ongalanga na Kavandye

A Hiena e o Chacal 55

II

OUTROS ANIMAIS

(cinco narrações)

5 a 9

59

5. Onkhulika n'Okavandye

O Leão e o Chacalzinho 61

6. Ovo Mbambi na Ndimba

O Antilope Bâmbi e a Lebre 67

7. Otyindimba na Kangwe

A Lebre e o Leopardo 71

8. Ovo Mbeu na Ndyamba na Ngeve

O Sapo-Concho, o Elefante e o Hipopótamo 75

9. Ohamba Yovinyama n'Omona wae Omuwa Omufikwena

O Rei dos Animais e sua Filha Linda e Jovem 79

B

CONTOS EM QUE INTERVÊM MONSTROS ANTROPÓFAGOS

(catorze narrações)

10 a 23

95

10. Ekihi n'Omunthu

Um Monstro e uma Pessoa

97

11. Ekuti n'Ekihi

Uma Rola e um Monstro 99

12. Ekihi lyatyituka Otyihingi

O Monstro transformado em Cepo 101

13. Ekihi n'Otyitumpwa

O Monstro e a Moça Casadoira 105

14. Ekihi n'Omukai

O Monstro e a Mulher 109

15. Ekihi na Nehova

O Monstro e Nehova (1) 113

16. Ina a Mundyongo n'Ekihi

A Mãe de Mundyongo e o Monstro 117

17. Omona wa Hautyali n'Omakihi

O Filho de Hautyali e os Monstros 123

18. Ekisi n'ovo Nehova

O Monstro e Nehova (2) 127

19. Ononkhumbinkhumbi

As “Cegonhas? 131

20. Omukai n'Ekisi watyituka Omunthu

Uma Mulher e um Monstro transformado em Pessoa 135

21. Ouye woMakihi

A Tirania dos Monstros 139

22. Omukwendye Wakalisa

Um Rapaz Pastor

145

23. Ekisi na Nehova

Um Monstro e Nehova (3) 149

C

“ESTÓRIAS? DA VIDA QUOTIDIANA

(três narrações)

24 a 26

153

24. Ovakai vahombolelwe Ombanda

Um Homem com duas Mulheres 155

25. Omukai Omulemi

Uma Mulher Grávida 157

26. Omulume n'Omukai

Um Homem e uma Mulher 159

D

CONTOS CONTENDO ELEMENTOS DE MAGIA

(vinte e uma narrações)

27 a 47

163

27. Ovakainthu vekwana n'Okamukulukai

As quatro Raparigas e a Velhinha 165

28. Omumati n'Ondila

O Rapaz e o Pássaro 169

29. Omukai n'Omuloi watyituka Omulume

A Mulher e o Bagre que se mudou em Homem 171

30. Omukai Epongo

Uma Mulher Pobre 175

31. Okalya-Makunde na Kalya-Vanthu

O Papa-Feijões-Frades e o Papa-Gente 181

32. Omulume Wotyimpulu n'Ovakai Vevali

O Homem Ladrão com duas Mulheres 185

33. Omukai Omulemi

Uma Mulher Grávida (2) 189

34. Omukai wamena Omulungu ukoka lo Pohi

A Mulher de Beiços Compridos a arrastar pelo Chão 191

35. Omulume Wahombola Ombanda

Um Homem com duas Mulheres 195

36. Omulume Wanepa Ombanda

Um Homem com duas Mulheres 199

37. Omulume Omukongo n'Omona wae

Um Caçador e seu Filho 203

33. Ombwale n'Omona Womukainthu Epongo

O Velho e a Menina Pobre 207

39. Omulume n'Omona wae n'Otyindondi

Um Homem, seu Filho e o Macaquinho 213

40. Omulume n'Omukai n'Eila

Um Homem, sua Mulher e um Pássaro 217

41. Omulume Wahombola Ombanda

Um Homem com duas Mulheres 219

42. Omulume n'Omukai wae p'Enima Lyondyala

Um Homem e sua Mulher num Ano de Fome 221

 

 

 

 

Prefácio

Alguém que andou, por dever de ofício, muito ligado à edição dos três volumes da “Etnografia do Sudoeste de Angola?, perguntou-me, ao ter conhecimento de mais este trabalho, se ele constituia o quarto volume da obra.

Respondi-lhe que sim.

No entanto esta afirmação necessita de ser justificada, por este presente estudo apresentar apenas um desenvolvimento de um parágrafo do plano geral que articula a obra completa. Estou a referir-me ao capítulo da literatura oral de que cada volume oferece uma pequena antologia dos quatro géneros literários: conto, adivinha, provérbio e canto. Entre eles convinha dar realce ao conto popular, porque nele se reflectem melhor do que nos outros géneros, as diversas fases da vida material e mental dos povos do Sudoeste de Angola. Linguìsticamente, também tal espécie de literatura merece preferência, pois apresenta o falar genuíno, a verdadeira prosa desta gente, enquanto que as adivinhas e os provérbios se aproximam já muito da arte poética.

43. Omufiko n'ovaKwendye valiwa na Ina

Uma Moça Casadoira e seus Noivos acometidos pela Futura Sogra 235

44. Nehova

Nehova 239

45. Omulume n'Omukai n'Endila

Um Homem, sua Mulher e um grande Pássaro 243

46. Omuhikwena wakatiava ononkhwi

Uma Rapariga que foi buscar Lenha 247

47. Kaniminimi, Ombumba Yomakihi, na Nangondwe Yok' Omphanga Tyoulukuhu Yok'Eheva lyapaka

Kaniminimi, O Bando de Monstros e Nangondwe o da llha, o das Cabacinhas de recolha no Mato de

Oxálidas cheias de Tubérculos

251

E

CONTOS QUE ENCERRAM ELEMENTOS MITOLÓGICOS

(três narrações)

48 a 50

257

48. Ekihi n'Omukai Omunthimba

O Monstro e a Mulher Grávida 259

49. Nambalisita

Nambalisita 267

50. Nambalisita (2)

O “A-Mim-Me-Gerei? 275

ÍNDICE ANALíTICO ALFABÉTICO 287

BIBLIOGRAFIA 295

Ainda a respeito da “parcelaridade? do trabalho é necessário acrescentar que os cinquenta contos aqui publicados foram recolhidos ùnicamente entre os Bantos da região. E mesmo entre estes, forçoso foi pôr certos limites. Assim, ficou excluido o grupo étnico Herero e o grupo étnico dos Ambós figura apenas com duas narrativas. No próprio grupo Nhaneca-Humbe não foram abrangidas as etnias: Quipungo, Handa e Quilengues-Humbe.

O motivo principal destas restrições reside no modo da recolha. Com efeito dois terços das narrativas foram registadas no gravador e nesta tarefa a minha precária saúde não permitiu abraçar uma grande área e prolongar os trabalhos de campo por muito tempo. Tendo em conta todas estas limitações é perfeitamente aceitável considerar este volume como fazendo parte da “Etnografia do Sudoeste de Angola?

De resto, a conexão entre as duas partes da obra campleta torna-se mais que evidente à medida que se vai avançando na leitura deste último volume. Com efeito, no decorrer da redacção vi-me obrigado a resumir ou transcrever excertos de trechos dos dois primeiros volumes da “Etnografia? para os inserir nos comentários apensos aos iextos das narrativas. Nestes mesmos comentários, esbocei também um pequeno estudo comparativo com obras similares, referentes a algumas-poucas etnias de Angola. Neste ponto também houve que pôr limites, porque são raras as obras publicadas e destas só dispomos das da autoria de três escritores: Héli Chatelain, A. Hauenstein e Óscar Ribas.

O primeiro editou o seu estudo, a todos os títulos notável, há mais de três quartos de século e apesar de ser obra de pioneiro, não deixa de ser actual, a que ainda hoje se recorre com muito proveito.

O segundo autor mencionado é conterrâneo do primeiro e trabalha já há duas dezenas de anos numa missão fundada por aquele, podendo hoje apresentar uma obra etnográfica de vulto. Utilizei dele dois estudos.

Infelizmente não consegui adquirir o livro de Óscar Ribas. Foi-me cedido a título de empréstimo por um curto prazo.

Por isso não foi possível citar o autor com dados bibliográficos completos

Como se vê, incidem num campo bastante restrito as minhas reflexões sobre analogias fabulísticas em Angola e só uma ou outra vez atrevi-me a ultrapassar as suas balizas e fazer alusão a temas universais.

Na elaboração da introdução redigida depois dos comentários, inspirei-me, nas linhas gerais, na exposição magistral de dois coordenadores e editores de contos africanos: Harold von Sicard e Manuel Viegas Guerreiro

Mas quem merece uma menção honrosa especial é o Pe. António Joaquim da Silva, grande conhecedor do falar dos Nyanecas que, graças a um subsídio do Instituto de Investigação Científica de Angola, acaba de editar um volumoso dicionário deste idioma. Este meu colega nas lides missionárias, aceitou benevolentemente o duro trabalho de transcrever do gravador, grande parte das narrativas nele registadas, ao mesmo tempo que as vertia em português.

Escusado será dizer que esta segunda tarefa não ofereceu grandes dificuldades para ele. Em seguida, durante a composição do volume ele continuou a servir dedicadamente como consultor linguístico, ianto na parte Nhaneca como na Portuguesa. Não é pois mais que justiça, se o seu nome figura no frontispício do livro.

Aos auxiliares nativos devo, num certo sentido, a parte mais substancial da obra e por isso, os seus nomes não podiam ficar esquecidos. Aos que mais se distinguiram fez-se uma referência especial.

Também estou em dívida de gratidão para com dois membros do Instituto de Investigação de Angola, os Srs. Drs. A. A. da Rosa Pinto e J. Crawford Cabral, pelas indicações que me deram quanto àclassificação científica das espécies da fauna angolana, mencionadas no volume. Se apesar da sua preciosa colaboração, saiu errado um ou outro termo, não é decerto a eles que se deve atribuir tal inexactidão, mas sim ao signatário destas linhas.

Finalmente, manda a equidade mais elementar, expressar o meu reconhecimento ao Director do Instituto de Investigação Científica de Angola, Sr. Professor Virgílio Cannas Martins. Pois sem o subsidio mensal concedido desde que se colheram os primeiros elementos para o estudo, não teria sido possível levá-lo a cabo. Neste preito de gratidão é justo incluir o Dr. Carlos Lopes Cardoso, que naquela altura chefiava a Divisão de Etnologia e Etnografia do dito organismo.

Também não posso omitir a valiosa colaboração de quem copiou o manuscrito à máquina e elaborou o índice alfabético-analítico. Foi uma antiga aluna do Colégio Paula Frassinetti de Sá da Bandeira que, apesar de uma auséncia prolongada da sua terra natal, não se esqueceu da língua materna.

A Pauta musical de duas estrofes de dois contos, deve-se à gentileza e ao saber do Pe. Azevedo Moreira, reitor do Seminário do Jau.

Munhino (Sá da Bandeira), Janeiro de 1970.

 

Introducão

Para uma boa compreensão dos contos publicados neste volume é indispensável fazer anteceder a sua leitura de alguns esclarecimentos e reflexões. Neles abordaremos em duas partes, os seguintes pontos:

Iª parte —Divisão em cinco categorias, com um tentame de interpretação para cada uma.

IIª parte: 1. Recolha. 2. Narradores. 3. Línguas e Linguagem.

Começamos por afirmar que nos idiomas bantu do Sudoeste de Angola há um termo único para designar o conto popular, seja ele fábula, conto propriamente dito ou lenda. O radical deste vocábulo é Ñgano, modificando-se pela prefixação, consoante as diversas línguas e dialectos. Narrar um conto diz-se okuta olu —ou oñgano, o que literalmente traduzido significa: lançar (proferir) um conto. É curioso notar que os povos vizinhos, Bundos (Ovimbundu) e Ganguelas não usam este termo, que, no entanto aparece no Karanga da Rodésia. Quanto ao Kimbundu os utentes deste idioma distinguem semanticamente as três classes de contos, ora mencionadas, conforme já fez observar no século passado H. Chatelain e em nossos dias Óscar Ribas.

Além desta classificação, baseada na diferenciação feita por uma língua nativa, os recolectores e editores deste género literário têm proposto divisões em várias categorias, conforme o critério adoptado. Assim temos por exemplo:

H. Junod a apresentar-nos seis categorias entre os Thongas e Viegas Guerreiro dezoito entre os Macondes, dos quais publicou nada menos que noventa e três narrativas. Deve ser de longe, a colecção mais subdividida de todas até hoje publicadas. O critério por ele seguido, se bem que não exclusivamente, é o do conceito moral que forma o tema central da narração.

Para a coordenação do material por nós recolhido fomos guiados por directrizes algo diferentes e mais simples. As mesmas que usamos em publicações anteriores. Restringe-se ao número de cinco a nossa repartição. Ei-la: 1º — o conto de animais ou fábula pròpriamente dita. 2º — o conto cujos protagonistas são monstros ou papões. 3º — o conto cujo conteúdo se compõe de elementos da vida cotidiana com episódios algo fantasiados. 4º — o conto que contém elementos de magia. 5º — o conto que apresenta alguns aspectos de carácter mitológico.

Como se vê, o critério adoptado não é uniforme, tendo-se em vista mais a qualidade, digamos física, dos personagens, do que o papel que desempenham, nas duas primeiras categorias. Nas duas seguintes; prevaleceu a norma valorativa do conteúdo, usando-se para a quinta classe um critério combinado. Damos agora o número respectivo para cada categoria: Nove narrações para a primeira, quatorze para a segunda, três para a terceira, vinte e uma para a quarta e três para a quinta.

Exceptuando a quinta classe, a qual como já tivemos a ocasião de afirmar em escritos anteriores, é fracamente representada em toda a África Austral, os números indicados não representam de forma nenhuma um valor absoluto quanto à proporção. E isto é tanto mais verdade quando se tem em vista que no volume ficaram excluídas todas as produções literárias do género das etnias Handa, Quipungo e Quilengues-Humbe, como já foi dito. Mas ainda assim estamos em crer que as fábulas não igualam numèricamente os contos de monstros e de magia. Diga-se aqui de passagem que este género de narrativas —o das fábulas —não existe no tesoiro da literatura oral dos Hereros. É talvez por causa desta ausência que nos dois grupos étnicos considerados neste estudo, a representação deste género é relativamente parca. Com efeito, nos dois primeiros volumes da Etnografia ficou exposto que na composição étnica de todos os núcleos tribais do Sudoeste de Angola entraram elementos deste grupo de negros votados à pastorícia. Mas antes de prolongar e examinar de mais perto o porquê da desproporção ora aludida, convém apresentar as feições características de cada classe:

1. As quatro primeiras fábulas da nossa série têm por protagonistas o binómio inseparável da hiena e do chacal. O primeiro destes mamíferos é conhecido por três nomes entre os Nhanecas: Otyimbungu, engalanga e ehunyu. Em Cuanhama é sempre osimbungu. Segundo Monard, não existiria em Angola senão uma única espécie deste carnivoro. Contudo Newton da Silva estabeleceu prova verificada que no Sul da Provincia se encontram duas: a hyaena brunnea, mais rara, ao lado da crocuta mais abundante.

Não sabemos bem se os Bantu da região distinguem com exactidão as duas espécies. Quanto ao chacal há em toda a parte uma só designação: Okavandye ou Otyimbandye, cujo nome científico parece ser: Canis mesomelas.

Mas muito mais que a classificação científica destas duas espécies da fauna angolana, interessa-nos aqui a sua actuação no palco, segundo a fabulação humana. E não há dúvida que estes dois comparsas a “contracenar? apresentam as peças mais apreciadas, por novos e velhos, do repertório fabulístico desta gente. A hiena, de aspecto repelente e desajeitada na sua marcha, desempenha invariàvelmente o papel de um ser obtuso até à estupidez e o chacal, de porte grácil, dá provas sem conta da sua argúcia que não recua em servir-se da astúcia. —Seria forçar a nota o querer atribuir segundos sentidos aos narradores dos diversos episódios que compõem as narrativas, i.e. que eles teriam em vista querer ridicularizar uma ou outra pessoa entre os ouvintes, tida por menos inteligente, identificando-se ele e os seus amigos com o animal esperto. Pode afirmar-se que o contar histórias do “lobo e da raposa? É um divertimento igualitário. Aliás, nem na linguagem corrente é costume empregar a metáfora respectiva para designar uma pessoa esperta ou estúpida. O Pe. Silva que viveu em contacto estreito com a gente dos Gambos durante 25 anos, só se lembra ter ouvido dizer, uma vez a um rapaz que um outro era “raposa?.

No entanto convém aqui referir um caso em que a aludida tendência se verificou, embora de uma maneira muito particular. Trata-se de um núcleo de famílias Cuanhamas —uma centena —as quais pela força das circunstâncias se viram na obrigação de emigrar da Missão da Mupa para a do Cuchi, situada na terra dos Ganguelas, acontecimento que se deu em 1916. Ora contou-nos o seu missionário, depois da Missão da Mupa ter sido reaberta em 1922, que os cristãos cuanhamas ao narrarem no “exílio? os episódios da Hiena e do Chacal, atri-buiam-se o papel do segundo animal e aos Ganguelas o do primeiro. É um exemplo de etnocentrismo exagerado, mas explicável pela ambiência anormal em que esta gente vivia. Além disso, a sua mentalidade já estava orientada neste sentido desde os tempos ainda muito próximos das guerrilhas em que os seus conterrâneos mostravam uma incontestável superioridade.

Na galeria dos bichos espertos, mas sem serem matreiros, figuram também a lebre, o cágado ou Sapo-Concho das fábulas portuguesas. Atribui-se-lhes este predicado porque ambos, no seu caminhar ou correr “sabem? Fazer paragens para olhar e escutar, o que os leva a “reflectir?

O humilde sapo, com as suas intervenções altruísticas e desinteressadas, é merecedor de todos os louvores. O incidente do corvo, a superar a astúcia do chacal, referido no primeiro conto, pode-se considerar caso excepcional.

O leopardo, apesar da sua agilidade, não goza de fama de ser inteligente. O mesmo se pode dizer do bucorvo “perú do mato?. O elefante, se bem que contado entre os maiorais na comunidade dos bichos, não deixa de se apresentar um tanto ou quanto apalermado e até cobarde. A mesma característica vale, pelo menos em parte, quanto ao hipopótamo.

O leão, ainda que passe por ser o rei dos animais da floresta. o reconhecimento pelos súbditos de tal dignidade é mais teórico do que real. De facto, nos contos do Sudoeste, tanto nos publicados, como nos inéditos, ele, não raras vezes, desempenha papéis pouco conformes com o seu alto cargo. No número cinco deste volume veremos que ele se deixa ludibriar pelo chacal sem que tenha dado pela partida pregada. No caso de um casamento com uma rapariga a quem tinha tatuado, fica sem ela por sonolência. Em duas narrações cuanhamas já publicadas, o soberano da selva também não sai muito prestigiado. Na do Leão e o Fogo, ele patenteia estupidez, ao mesmo tempo que teimosia e na do Leão e o Chacal (história do bode e da cabra com dois cabritinhos), que constitui talvez a pérola de toda a nossa colecção, ele dá provas de flagrante injustiça, a ponto de perder o pleito na corte dos animais.

Ainda que o Bâmbi no único conto em que intervém directamente com mais dois antílopes apareça algo obtuso, ele e os seus aparentados dão melhor conta de si noutras narrações.

É de admirar que o macaco não figure no elenco dos animais fabulísticos da nossa colecção, senão num único caso, como animal servidor de um homem. Não se vê explicação fácil desta ausência, já que nas partes montanhosas da região existem duas espécies de símios.

A classificação dos bichos em espertos, menos espertos e estúpidos obedece mais ou menos aos mesmos cânones nos contos de outras etnias angolanas. Para a dos “Ambundos? temos o testemunho de H. Chatelain que afirma: “O elefante é notável tanto pela força física como pela sua grande sabedoria?. Repare-se aqui uma excepção à regra ora indicada. Para as outras espécies da fauna há porém plena concordância: “O leão é forte, mas sem nobreza moral. A hiena é o tipo perfeito da força bruta combinada com uma abismal estupidez. No leopardo aliam-se valentia física e falha de agudez de espírito. O chacal tem fama de ser muito esperto... e a lebre distingue-se pela prudência e agilidade. O bâmbi possui rapidez mas é isento de malícia e algo simplório?

A mesma escala de virtudes e defeitos se pode deduzir das sete fábulas de animais publicadas por Óscar Ribas no seu volume “Missosso?. Para os Bundos (Ovimbundu) podemos fazer a mesma observação, embora H. Hauenstein não tenha formado um quadro de conjunto das qualidades e ruindades.

A finalizar estas considerações sobre a fábula animalesca, surge naturalmente a pergunta: Como explicar a concordância em tantos elementos, nesta classe de literatura oral cujos “autores? se encontram tão dispersos e, até aos tempos modernos, falhos quase totalmente de qualquer intercâmbio? Com esta pergunta anda de parelhas uma outra: Como explanar a estreita afinidade linguística existente nos idiomas falados por toda esta gente? Sem dúvida por uma origem comum. Mas onde fixá-la no tempo e no espaço? Aqui entramos em pleno campo de hipóteses e não é agora o lugar de as apresentar e interpreter; basta ter levantado os problemas.

2. Os protagonistas da segunda classe são em toda a região designados com o mesmo vocábulo cuja raiz ou radical é Kisi (Kihi, Kishi). A semântica dos termos derivados deste radical está longe de ser constante ou uniforme nas diversas línguas e dialectos de Angola. Para elucidar o leitor citaremos dois exemplos. Em quicongo o termo nkisi ou munkisi (estatueta, “fétiche?) significa, segundo o Pe. van Wing: um objecto artificial considerado habitado ou influenciado por um espírito.

Em quioco (tyokwe), segundo Baumann, mukishi tem o sentido de máscara ou mascarado e pode também designar um defunto ou espírito de antepassado. Levaria longe demais querer aprofundar este tema linguístico para o que nos faltaria aliás a competência. Basta dizer que como Baumann, muitos outros autores acharam o mesmo significado, entre eles Mesquitela Lima na sua grande obra: Os Akixi (Mascarados do Nordeste de Angola), onde se pode ver uma lista de muitos autores.

Porém nos contos apresentados neste volume existe um sentido único para o vocábulo ekisi. O mesmo se pode afirmar para a grande etnia dos Bundos, onde o termo se encontra na forma duplicativa de: ekisiki?si.

Também entre os “Ambundos? o significado da palavra dikishi pouco ou nada difere. Não falamos nos Ganguelas, entre os quais não parece fazerem parte do seu fabulário protagonistas semelhantes. É de observar ainda que em língua Cuanhama o termo ekisi designa também um albino.

A grande dificuldade que se apresenta agora é definir exactamente o tal sentido, ou noutras palavras, fixar os traços caracterizantes destes seres pintados com as cores mais esquisitas pelos narradores de contos. E a primeira pergunta que surge a este respeito é a seguinte: Os oma - Kisi pertencem ou não àclasse dos seres humanos, são ou não são ovanthu? A resposta a dar não deixa de ser embaraçosa e ambígua. De facto, o seu aspecto somático não parece apresentar grande diferença com o humano: pigmentação abronzeada, cabelos muito compridos, abundante pelugem a cobrir todas as partes do corpo. Mas já não se podem considerar normais, particularidades como estas, referidas por Óscar Ribas, em dois contos da sua colecção: alguns makishi têm mais de uma cabeça! Com mais propriedade podiam ter dois ou três estômagos, porque a todos eles é atribuída uma voracidade descomuna.

Devoram pessoas e animais inteiros.

Por outro lado algumas narrativas dão a impressão de serem eles entes assexuais, enquanto noutras tomamos contacto com omakisi que contraem matrimónio com raparigas bantu. Algumas destas uniões, até são fecundas!

Num caso registado por H. Chatelain nascem três machos desta miscegenação e noutro relatado por Óscar Ribas, uma mulher dá à luz quatro filhos, sendo dois da raça do pai e os dois outros da raça da mãe!

Na nossa colecção há só um caso em que uma mulher bantu deu à luz três descendentes dum monstro, ao lado de outras uniões que ficaram estéreis. Não consta que um bantu tivesse desposado uma mulher kisi.

Depois destas explicações é perfeitamente compreensível o embaraço que possa haver ao escolher, no vocabulário das línguas europeias, um termo que corresponda ao significado do vocábulo bantu. Tem-se empregado vários: monstro, papão, lobisomem, gigante. A locução monstro antropófago tem a nossa preferência. H. Chatelain optou por deixar o termo intraduzido, circunscrevendo-o em várias anotações apensas às narrativas.

A propósito destas anotações desejamos aqui lembrar que discordamos em absoluto com uma equiparação de uma certa classe de makishi com os vátua, conforme afirma este autor na nota à história. nº  VIII, onde se lê: In this story the Ma-kishi are simply Ba-tua, stripped of all fabulous addition.

“Dizemos lembrar, porque já manifestamos o nosso parecer em outro escrito.

A nossa discordância é motivada pelo facto de não constar por documento ou informação séria alguma, que os tais Bátua (ou Vátua) são ou foram antropófagos. Esta classe de gente, assim chamada, divide-se em Pigmeus e Negros pré-bantu. Destes últimos existem ainda representantes no Sul de Angola. Mas apesar de os Bantu desta região os tratarem com grande desprezo, até irem ao ponto de lhes negar a dignidade humana —exprimindo-se hiperbòlicamente, é claro —nunca lhes assacam o labéu de comerem gente. De igual modo, especialistas na investigação da vida dos Pigmeus, como Mgr. Le Roy, Gusinde, Schebesta, não fazem a mínima alusão a que estes habitantes da floresta virgem, sejam dados ao canibalismo.

É pois lícito inferir que, por uma vez, H. Chatelain foi induzido em erro por um informador que por sua parte estava provàvelmente convencido de que falava verdade, quando não fazia senão repetir uma lenda corrente.

Pouco resta a acrescentar para completar o retrato moral de um ekisi: A sua voracidade denota falta de respeito absoluto pela vida humana. Para conseguir os seus fins, só sabe recorrer à mentira e à coacção e à força bruta, pois a sua inteligência é tão diminuta que pouco ou nada vale. Por isso mesmo os seus intentos saem muitas vezes frustados, porquanto as vítimas cobiçadas desfazem fàcilmente os planos facínoras, graças ao nobre dom do raciocínio.

Para rematar estas reflexões sobre a segunda classe de contos, vamos tentar justificar a existência de um número relativamente grande de narrações deste género. A fim de compreender tal fenómeno, é necessário não esquecer que o contar de fábulas em reuniões familiares nocturnas tem sobretudo em vista alegrar o espírito com histórias divertidas. Ora este jaez de criaturas os tentando deformidades e excentridades físicas aliadas a um espírito extremamente obtuso, oferece ampla e variada matéria para dar largas à veia cómica e satírica, ao mesmo tempo que se presta admiràvelmente para enaltecer a superioridade das faculdades humanas em seres normais.

3. Estão fracamente representadas na colecção as narrativas que apelidamos de estórias. Nas outras publicações, figuram só duas e possuimos ainda três ou quatro inéditas. Esta categoria conta relativamente um maior número de narrações no grupo Herero, talvez para compensar a falta de fábulas pròpriamente ditas. Por acaso as três estórias aqui reproduzidas relatam acontecimentos de carácter trágico e até tétrico. Isto dá a entender que a nota cómica das narrações contadas ao pé do fogo, admite intermitências menos amenas, conseguindo desta maneira espelhar a vida humana com todas as suas luzes e sombras. De resto, tal atitude está em conformidade com um grão de filosofia contida numa adivinha Cuanhama que reza assim: —Pergunta: Um poço, cavado de um lado em terreno arenoso e do outro em terra argilosa? —Resposta: A terra habitada: num sítio há mortes, no outro festas de dança. —Entre os “Missossos? de óscar Ribas há dez narrativas que se podem enquadrar nesta categoria. Nelas é frequente verificar referências a atitudes e comportamentos motivados por crenças e crendices.

4. Se agruparmos um certo número de narrativas numa categoria especial debaixo do rótulo: contendo elementos de magia, não é que nelas se verifique esta particularidade de uma maneira exclusiva. Pois a presença de tal poder extranatural e misterioso se patenteia igualmente em outras histórias. Nem isso é de admirar, porque a mentalidade desta gente encontra-se como que impregnada de crenças e práticas que se convencionou, com razão ou sem ela, classificar de mágicas. No entanto nas vinte e uma narrações reunidas sob esta epígrafe afigura-se-nos preponderante o elemento mágico.

Não é tarefa fácil querer delimitar com rigor o âmbito do campo da magia —repetimos este termo porque, para não se cair em confusões e interpretações menos exactas, evitamos aqui como nos outros escritos o emprego dos vocábulos feitiçaria e ocultismo. Particularmente nas crenças ditas primitivas ou pré-científicas tornar-se dificultoso e até melindroso estabelecer a linha divisória entre dados etnográficos que fazem parte da religião e os que podem ser classificados como mágicos. Também não achamos muito acertado o querer introduzir nesta matéria a divisão clássica de magia branca e negra. Mas em vez de continuar a expandir-nos em considerações desta ordem, mais vale recomendar a leitura meditada dos contos. Pois só ela nos permite entrarmos em contacto com a realidade das diversas motivações e práticas de carácter mágico. A fim de facilitar a penetração em matéria tão complexa, fizemos os comentários anexos mais explícitos, ao mesmo tempo que se aconselhou com maior insistência o recurso ao que está exposto sobre este assunto na “Etnografia?.

Quanto ao número, proporcionalmente o mais elevado, de narrativas desta categoria, estamos em frente do mesmo problema que na classe anterior. Na impossibilidade de fazer uma resenha completa de todos os contos, temos de admitir como provável que tal proporção corresponde, mais ou menos, à quantia real existente no tesouro “literário? dos dois grupos étnicos. Mas neste caso surge espontâneamente a pergunta: porque tanta insistência nos fenómenos mágicos e tão pouca nos que constituem indiscutìvelmente a sua vida religiosa? Reservamos a resposta a esta interrogação para o fim do exame em estudo.

O que é certo é que, se temos de conceder a existência de uma zona intermediária entre o mágico e o religioso, não é menos verdade que, fora desta faixa, se pode notar uma soma de dados pertencentes nìtidamente a um ou outro dos dois campos. Isto leva-nos a outra constatação: nas ocupações e preocupações do dia a dia destes povos é muitíssimo maior o número de manifestações que fazem parte da vida religiosa do que da magia. Não é aqui o lugar de especificar amiúde quais são os fenómenos que se devem considerar religiosos e portanto cultuais. Basta lembrar o facto verificável em toda a vasta área do bloco étnico dos Bantu e reconhecido unânimemente pelos etnólogos: o culto dos espíritos e tudo quanto está, directa ou indirectamente ligado a este culto, éque constitui a base principal da sua religião. Não dizemos única base, porque está igualmente bem estabelecido que estes povos professam ao

mesmo tempo, embora de uma maneira menos ostentativa e como num segundo plano, o monoteismo. Quando tecermos algumas considerações à cerca da quinta categoria, examinaremos de mais perto esta última modalidade cultual.

Por agora voltemos aos espíritos como eles vêem sendo venerados entre os Nyaneka-Humbe. Deste exame preferimos excluir os Ambos, por eles terem sofrido uma forte aculturação, no sentido de uma ocidentalização mais intensa. Para ilustrar o que acabamos de dizer, não achamos nada tão apropriado como citar um caso recente da nossa vida missionária. É um diálogo entre nós e uma catecúmena, meia “civilizada? nos últimos anos. Tem ela 51 anos de idade. Foi possível obter este dado biográfico com relativa precisão, porque ela sabe que nasceu no “ano dos ratos?, ou seja na altura duma invasão extraordinária destes roedores, que prejudicou grandemente a colheita em toda a área do grupo étnico (1918). Antes de reproduzir sucintamente a nossa conversa, convém esclarecer ainda que conhecemos esta mulher de vista há perto de trinta anos e que estivemos em contacto de ministério missionário com alguns seus próximos parentes.

À pergunta regulamentar: Tens espíritos? Responde prontamente a candidata ao baptismo: Não tenho, mas tive.

—Quantos? E contando pelos dedos —costume inveterado —declara: quatro. —Quais? Depois de um instante de reflexão: dois da “família? e dois do “Nano? (terra dos Bundos). Estes da família eram tias defuntas ou avós (incluindo irmãs de avós)? Um foi a “alma? da minha avó (mãe da mãe) e o outro a “alma? da minha tia, irmã mais nova da mãe. —Que “comeram? eles? (isto é qual é a rez que se lhes sacrificou)? O primeiro nada, porque sendo ainda pequena, não cheguei a fazer a cerimónia de iniciação. O segundo: de início um cabrito e mais tarde um boi. O terceiro, um cabrito e o quarto, ovos cms de galinha e carne de cabrito cozida com arroz.

Em seguida vem uma detalhada explicação do ritual de iniciação de cada classe, com os nomes, o sexo e a pertença étnica de todos os Kimbandas que presidiram ao cerimonial espírita. Para não alongar demais o diálogo, vamos às conclusões que interessam à exposição. A mulher em questão esteve pois possessa por quatro espíritos, prestando assim a homenagem mais perfeita, se bem que não desinteressada a cada um destes entes. Como ela há tantas outras, talvez cinquenta por cento de toda a população feminina pagã —o número de homens iniciados no espiritismo é muito mais reduzido —a render culto igual ao descrito. É pois fácil compreender que num raio de dez kms de território, mesmo pouco povoado, é raro o mês em que não se realizam uma ou duas cerimónias de iniciação.

Elas são sempre presididas e orientadas por espiritas “profissionais?, possessos por um ou mais espíritos, igual ou iguais ao ou aos do inicando. Além destes, tomam parte na “festa? um grande número-de já iniciados. Convém ainda evocar aqui as numerosas sessões de adivinhação que, pelo menos indirectamente constituem outros tantos actos de homenagem a um espirito. Já que ninguém pode ser adivinho, sem estar possesso por um antepassado.

Pelo que acabamos de expor, nota-se com evidência que, a vida cotidiana desta gente, está fortemente repassada de actos cultuais espiritas, ao mesmo rítmo que de doenças e mortes, já que são estas, que os levam a recorrer aos entes extra-terrestres. (Para mais pormenores: v. A Possessão espirita entre os Bantos)

Sendo assim, forçoso é concluir que a nossa colecção de contos e provàvelmente qualquer outra feita na mesma região, está longe de representar um espelho fiel da vida do dia a dia. De facto, nas narrativas de magia só três vezes se referem casos em que se recorre a uma “velha? em situações embaraçosas. Mas não se especifica a especialidade destas mulheres e o contexto sugere antes que se trata de indivíduos em possessão de poderes mágicos. Portanto de uma sorte de “mulheres de virtude? e não de “Kimbandas? que são como os ministros ou“sacerdotisas? do culto espirita. A única ocorrência bem clara da intervenção de uma “alma?, vem relatada no n.° 24. De uma maneira não menos inequívoca, estão relacionados com a religião tradicional os ferreiros, que intervêm em dois episódios parecidos, nos contos de monstros. Não é que esta particularidade se manifeste directamente em tais intervenções, mas pelo simples facto de serem homens que trabalham o ferro. Com efeito, julgam ser impossível exercer esta arte com proficiência, quando o artista não está em contacto íntimo com um antepassado que durante a sua vida praticou o mesmo ofício.

Concluindo estas considerações voltemos à pergunta feita no início: porque fenómenos que marcam com tanta intensidade a vida cotidiana desta gente, são tão parcamente utilizados na literatura fabulística? Émuito provávelque haja um motivo de carácter psicanalítico para tal comportamento que não somos capazes de detectar. Em vez dele indicamos um outro mais fàcilmente atingível. Entre todos os povos ditos primitivos ou com resíduos de “primitivismo?, são os espíritos maus que passam por ser os grandes e indispensáveis auxiliares nas práticas mágicas. Ora, segundo a mesma crença, estes seres maldosos “circulam? quase exclusivamente durante a noite.

Assim por exemplo, nas catequeses nocturnas dos arredores de Sá da Bandeira ou de Vila Arriaga, acontecia às vezes haver muito pouca frequência. O motivo alegado para a ausência de frequentadores habituais era quase sempre o mesmo: andam pela terra “omatyituka?, indivíduos que, com a ajuda de um espírito mau se transformam em feras.

Como os contos se proferem, de preferência depois da refeição da noite, momento em que a terra e a atmosfera se povoam periòdicamente, sobretudo quando não há luar, de espíritos inimigos, é natural que temas de carácter mágico fecundem mais fàcilmente a fantasia criadora dos narradores.

5. Para esta classe escrevemos um comentário bastante extenso, colocado a seguir às três narrações impressas (n.°48, 49, 50). Nele incluimos também uma versão que corre entre os Dongas, etnia ambó, situada ao Sul do Cuanhama e Além-fronteira. Ficaram incorporadas igualmente duas variantes de uma lenda dos Bundos que tem por protagonista um ser misterioso de nome Kalitangi, publicada por Hauenstein. Embora seja de características bastante diferentes, achamos interessante examinar algumas analogias que se podem detectar numa história que faz parte do volume de H. Chatelain.

Posteriormente, ao que escrevemos no tal comentário, foi-nos facultado o conhecimento, se bem que imperfeito, de uma variante da lenda Kalitangi, tal como ela se conta e canta, pois o conto é mais cantado e dançado do que narrado, na região do Bailundo. São consideráveis as divergências entre esta versão e as duas que correm na região de Caluquembe. E a mais notável é a que diz respeito à etimologia do nome do herói. O Kalitangi de Caluquembe é um super-homem que “embaraça a Deus?, porque ele é dotado, desde o nascimento, de poderes tão extraordinários que parecem igualáveis aos do próprio Deus. No caso da versão bailunda o nome é derivado dum verbo homógrafo, senão homónimo que no dicionário do Pe. Albino Alves não tem menos de treze significados.

Porém todos traduzem uma mesma ideia fundamental, com um sentido, ora mais concrete, ora mais figurativo. Na lenda o sentido indicado pelo narrador, um homem bailundo de 35 anos, confirmado pela monitora escolar Aldina Situkuli que a escreveu, sendo ela natural de Caconda —é tirado da forma reflexiva do verbo que é própriamente: desprender-se. Kalitangi pretende ter-se desprendido do Sol e este, por sua vez, desprendeu-se de Deus; (Kalitangi walitanga l'ekumbi. Ekumbi lyalitanga la Suku). O herói declara-se pois descendente de Deus por intermédio do Sol!

Contudo quando pela terra fora, ele proclama o seu nome, não menciona Deus e salta o astro intermediário, afirmando: Eu gerei-me a mim mesmo. (Ndalityita ame mwele).

Diante de tamanha jactância que lhes parece uma blasfémia, os animais da floresta fazem várias conjuras para matar o insolente. Mas Kalitangi sai sempre vencedor das competições, desarmando todas as ciladas. Paradoxalmente, cada vez que alcança uma vitória, exclama em tom triunfante: Não sucumbi, porque Deus me amparou! É de notar que na representação coreográfica, o narrador que, entre outros desempenha o papel do protagonista, Simula dar um passo em falso. endireitando-se num pronto, logo depois e proclama: Não caí, porque Deus me amparou.

Outro pormenor, e esse algo chocante, no comportamento moral de Kalitangi é o facto de ele ser polígamo. Porém o seu harém parece ser constituido por animais, pois uma das “mulheres?, segundo reza a história, entretem complacências amorosas com o espertalhão do cágado.

Seja como for desta miscelânea de feições constitutivas do retrato do personagem —umas dignificantes, outras aviltantes —o protagonista do conto bailundo, não desmerece de tomar lugar proeminente na galeria heróica dos super-homens, ao mesmo título que os seus congéneres retratados nos três contos do Sudoeste.

Além de dar testemunho da mentalidade mágica, ilustrada por uma série de façanhas espantosas, os textos de carácter mitológico comprovam a existência de uma crença monoteística. Já demos suficientes esclarecimentos a este respeito no comentário. No entanto torna-se conveniente reunir aqui todos os dados concernentes ao mesmo tema.

Nas duas narrativas cuanhamas —uma de origem e de língua desta etnia, a outra de proveniência e linguagem mais sincretista —o herói que declara ter-se gerado a si próprio é chamado para se apresentar diante de Deus. E embora a confrontação do protagonista com o Ente Supremo esteja longe de concordar com os nossos conceitos e fira a nossa sensibilidade, não deixa de ser significativo o facto de Deus intervir directamente para pedir contas a quem se arroga um poder igual ao Seu. No conto donga o próprio nome, Pamba-isita, patenteia a soberania divina, pois pronunciando o seu nome, o herói gaba-se de ter sido criado directamente por Deus, fora das leis habituais da natureza.

Coisa semelhante pode inferir-se do nome Kalitangi dado ao ser misterioso nas três lendas bundas, embora o étimo das duas primeiras divirja consideràvelmente do da terceira, conforme explicamos. Porém num e noutro caso, o Ente Supremo é antes subentendido do que directamente incluido no termo onomástico.

Na terceira versâo há ainda outros elementos de interesse, por exemplo, o facto de Kalitangi evocar o Ente Supremo cada vez que, com a sua ajuda, escapou de um perigo. Porém a particularidade mais curiosa é o herói afirmar a sua conexão íntima com Deus e o Sol, como se tivesse havido antes do desprendimento, uma espécie de trindade préexistente.

A presença do astro diurno neste contexto, lembra dados semelhantes já mencionados, no primeiro e segundo volumes da “Etnografia?. Pode ser útil reproduzi-los sucintamente neste lugar. No primeiro caso, trata-se de uma cerimónia que tem por fim “diquidar? um suposto facínora e o pormenor mais importante do ritual éo dar um tiro de espingarda, fazendo pontaria para o Sol. O motivo dado para tal procedimento estranho éeste: todos nós moramos no Sol, ou para empregar a terminologia do conto que estamos a analisar: todos nós nos encontramos de alguma maneira “prendidos? ao Sol.

No segundo volume tecemos umas considerações acerca do facto de os Nyaneka “colocarem muitas vezes, nas suas expressões:, o Sol em pé de igualdade com Deus?. E continuamos as citações: e reflexões: “Já Nogueira (o autor viveu entre os Humbe e Nyaneka de 1851-1862) tinha reparado em tal coisa e notou-a desta maneira: Os Bankumbi e os Ba-nhaneca dizem indistintamente quando alguém morre: foi o Sol que o chamou, ou foi Deus que o chamou. O Sol, ekumbi... é como a manifestação visivel desse Deus?

Ainda a respeito do mesmo assunto lemos num caderno redigido por alguns missionáries da Huila no princípio deste século: Kalunga est celui qui a tout créé, est plus vieux que tout ce qui existe... On le confond assez facilment avec le soleil.

Em suma: a história do Kalitangi bailundo acrescenta mais uns dados a outros muito dispersos e de interpretação extremamente difícil, ao tema das inter-relações entre Deus, o Sol e o Homem.

Já que estamos a considerar as referências ao monoteismo contidas nas narrativas mitológicas, vamos enumerar ainda as poucas menções relacionadas com o Ente Supremo, que ocorrem nas outras classes. Na fábula da Hiena e do Chacal, temos a expressão: Kavandye avetesa onGalanga pohi ya Huku, que éimpossível traduzir àletra, mas que tem o significado: o Chacal foi causa de a Hiena ter sido batida sem motivo algum, ou mais conforme o original: sem motivo que possa ser considerado como válido por Deus (n.° 4). Na história: O Sapo-Concho, o Elefante e o Hipopótamo, respondeu este ao Sapoconcho que lhe pedira água para beber, que este elemento era de Deus e por isso nem se vendia nem se comprava, pois a água pertence a toda a gente (n.° 8). No conto a seguir fala-se num caso de morte que dá sempre ocasião a consultas divinatórias para determinar quem foi o causador do desastre, quem foi que “comeu a alma? (ou a vida). A?;ui trata-se de uma morte acidental devida a uma imprudência. Ainda assim a parentela do morto, que éo Sapo-Concho vem exigir a indemnização de costume ao sogro, que éao mesmo tempo o rei dos animais. Mas este replica aos queixosos: Este “homem? morreu dele mesmo, foi a morte que lhe calhou, aquela que Deus lhe enviou. Finalmente no conto mágico n.° 41 relata-se a intervenção divina para salvar uma criança das mãos da madrasta, que costuma transformar-se em fera. Como se notou no pequeno comentário apenso, este facto está de acordo com a mentalidade bantu.

II. Vamos agora à segunda parte das observaçães.

1 —Conforme vem marcado no fim da transcrição dos contos publicados neste volume, a sua recolha operou-se por três modos diferentes. O primeiro consiste em fixar por escrito o que um narrador. É claro, é necessário fazer prèviamente uma escolha entre estes. Feita a selecção, convém não proceder de chofre, mas fazer contra a história para ver se ela vale a pena ser registada e também para fixar de memória os passos principals da mesma, a fim de verificar se o narrante éfiel ou não. Completados estes preparativos pode-se iniciar o ditado.

Éo método que estamos usando de preferência desde 1926 e cremos com bons resultados. Ficamos muitas vezes admirados de que homens e mulheres —e entre eles gente relativamente nova —quase todos analfabetos, foram capazes, depois de um pequeno ensaio, de se desempenharem cabalmente do papel que se lhes solicitou.

A nossa admiração provém do facto de esta maneira de contar se processar completamente fora da normal, a qual, se admite interrupções, essas, são ocasionadas pelos auditores e participantes e não por um homem a fazer riscos num papel, o que leva muito mais tempo do que as palavras a sairem pela boca fora. Escusado édizer que a transcrição fonética e a pontuação ficam por conta de quem fixa palavras e frases por letras.

Dissemos há pouco que este modo de recolha se nos afigura muito avantajoso e preferível. Aliás nos tempos antigos era quase o único praticável. Fazemos esta afirmação porque énossa opinião que ninguém será capaz de transcrever o texto de uma fábula conforme ela écontada na sua ambiência normal com as intervenções quase sempre ruidosas dos assistentes. E isso mesmo se porventura tivesse sido inventado um sistema estenográfico para as línguas bantu.

São só quatro os contos ditados, incorporados neste volume, pelos motivos já expostos.

O segundo método o de se servir de textos escritos por nativos. Éevidente que só se pode recorrer a este meio em terras em que uma ou mais línguas bantas fazem ou faziam parte do programa escolar. Na introdução ao seu volume von Sicard dá conta deste método com as seguintes declarações: Pedi a alunos das classes superiores do ensino primário, mas também a envangelistas, professores e professoras e seminaristas que escrevessem contos, tal e qual eles os tinham ouvido narrar às suas avós. Recomendei que dessem maior cuidado àtranscrição das partes cantadas.

É muito natural que manuscritos obtidos por esta forma precisassem de ser revistos e corrigidos. Quanto a nós é a primeira vez que publicamos narrações escritas por um auxiliary banto, o professor de posto, Carlos Mário, já mencionado. São nove as histórias que se ficam a dever ao seu saber e à sua boa vontade. Para sermos exactos

convém aqui notar esta particularidade: as narratives exaradas foram ditadas por sua mulher e por alguns vizinhos, enquanto que os contos do seu repertório, foram registados no gravador.

O emprego deste instrumento na recolha de textos falados veio abrir ao investigador da literatura oral, perspectivas maravilhosas: Graças a este sistema torna-se possível reproduzir narração com todas as tonallidades e inflexões de voz, captar e fazer ouvir um falar cheio de onomatopeias e de interjeições de uma gama variadíssima e fixar as melodias das partes musicadas.

Mas infelizmente o sistema não oferece só vantagens. Além de não ser um meio cómodo, mesmo quando se utilizam mini-rolos, para comunicar os textos ao público interessado, caso ele se encontre muito disperso, a própria gravação não está isenta de espinhos. Um que desejamos aqui apontar é resultado da nossa própria experiência.

Para recolha pela “fita magnética? escolhemos em geral pessoas conhecidas ou por elas trazidas ànossa presença.

Ora deu-se o caso, que narradoras dos arredores de Sá da Bandeira, com as quais mantinhamos contacto de ordem missionária havia uma série de anos, nos deram neste particular uma não pequena decepção. Como para a narração  ditada, fazíamos reproduzir a história antes de a gravar. Mas logo que a “máquina? começou a trabalhar, a atitude das narrantes já não era a mesma. Sem manifestarem sinais perceptíveis de nervosismo, deulhes para omitir ou interverter expressões ou episódios inteiros! E isto, para o declarar novamente, não obstante a nossa serenidade e bom humor. Pequena experiência que talvez possa servir a outros no sentido de andarem prevenidos. Rematando, dizemos que são trinta e sete os contos do nosso florilégio que foram recolhidos por este meio meeânico.

2 —Sâo dezoito os narradores que se prestaram a dar a sua colaboração neste volume, repartindo-se por sexo em seis homens e doze mulheres. Tal disproporção não éde estranhar, pois, admitindo o princípio que os contos são sabidos pelos representantes de ambos os sexos em números mais ou menos iguais, nos tempos que correm, as mulheres estão muito mais fàcilmente disponíveis do que os homens. Não era assim há cinquenta ou quarenta anos e, por exemplo, o reduzido número de narrativas cuanhamas que fomos recolhendo entre 1926 e 1932, deve-se inteiramente a representantes do sexo forte.

Voltando à presente colecção diremos que os contribuintes com maior quantidade de narrações são: Cristina e Rosália ambas com seis (faltando uma não utilizada), Carlos Mário, Maria Luísa e Josefina Tembo com cinco cada. No entanto todos os cinco contos somados da Cristina, atingem aproximadamente o número de páginas de um só dos de António Constantino Tyikwa. É a ele que cabe, de pleno direito o primeiro prémio. Não étanto pela extensão dos seus “nacos de prosa?, mas antes pela verdadeira mestria, graças a uma calma imperturbável, aliada a uma memória prodigiosa com que profere as histórias. Acresce ainda uma dicção perfeita do idioma. Foi uma sorte tê-lo encontrado, quase uma descoberta!

Ao lado deste contista insigne, desejamos lembrar aqui uma outra figura com grandes talentos, uma aleijadinha de nome Beatriz Tyilombo. Conheciamo-la em Vila Arriaga, onde entre 1942-1952, ela frequentava a catequese e foi baptizada. Devemos-lhe oito exemplares deste género literário, os quais ela ditou —intervindo grandes espaços de tempo neste trabalho —muito pausadamente, fazendo as interrupções necessárias, sem nunca perder o fio da narração. Infelizmente, quando procedemos ao recolhimento destes elementos por meio de gravação, não foi possível estabelecer contacto com ela. No entanto fazemos alusão a duas narrativas suas neste volume nos comentários aos n.°s 21 e 30. Duas outras, foram publicadas no 2.° volume da “Etnografia? e outras ficaram inditas.

Se esta mulher nos gratificou com oito contos, número máximo contribuido por uma só pessoa, esta totalidade parece muito modesta ao lado daquela obtida por H. Chatelain. Com efeito este autor não hesita em afirmar que “um rapaz, dos mais obtusos entre os indígenas? foi capaz de nos ditar, sem ser auxiliado, do livro da sua memória, mais de sessenta contos e fábulas, um “material? igual à da mais ampla colecção de contos africanos, publicados até agora.

É verdade que, por nossa parte, nunca tentámos “esgotar? o tesoiro fabulístico possuido por um indivíduo. A nossa pergunta. se sabiam muitas histórias, respondiam às vezes, como fez a Maria Luísa, supracitada: Sim, muitas, nunca mais acabam. Mas tínhamos aprendido, desde os primeiros anos de permanência em África, como se devem interpretar tais expressões hiperbólicas, porquanto, feita a verificação, a proclamada quantidade incontável não passava, às vezes, a dezena. Por outro lado, não fazemos ideia nenhuma dos números máximos atingidos por contistas populares da Europa. Seja como for, o rapaz de H. Chatelain, se foi pouco esperto, não deixou de ter uma excelente memória que registava e “gravava? com grande fidelidade. Haverá muitos como ele?

3. Nos dados com que se conclui o texto de cada narração vem indicada a língua ou o dialecto em que foi contada e fixada por escrito. Vê-se ali que só admitimos duas línguas: Nhaneca e Cuanhama, passando o Humbe a ser classificado como dialecto. Não ésem uma certa arbitrariedade que estabelecemos tal classificação, porque entre o falar dos Nyaneka e o dos Humbe existe uma diferença maior do que a divergência que interfere, por exemplo, entre o Português e o Espanhol —fazendo abstração da fonética. O motivo que nos levou a relegar o humbe para a categoria algo desprestigiada dos dialectos, obedece mais a considerações de ordem histórica e prática do que linguística. Histórica porque os missionários que iam estudar os idiomas nativos, publicando mais tarde gramática e dicionários, com o fito de editarem impressos de propaganda religiosa, estabeleceram a sua Missão principal na terra dos Nyaneka, na Huila. Poucos anos depois da fundação deste importante centro de evangelização, instalara uma tipografia, a fim de pôr em prática os seus intentos. Bastou este facto para dar ao falar dos Nyaneka uma preponderância sobre os outros. Por outro lado não convinha, por motivos práticos, multiplicar edições em diferentes idiomas numa região fracamente povoada. Assim o falar dos Humbe, como o dos Handa e Quipungu, muito afim do daqueles, não foi achado digno de merecer as honras e benefícios da invenção de Gutenberg.

Com maior razão podia chamar-se dialecto à língua sincretista falada nos arredores de Sá da Bandeira e outros centros urbanos do planalto, onde predomina o humbe, mas tendo agregado bastantes elementos do vocabulário e da gramática dos Nyaneka.

Além Cunene a situação é muito mais simples, com a primazia incontestada do cuanhama, do qual o falar dos Cuamátuis é um dialeeto. Diga-se de passagem que este último não figura nos contos aqui reunidos. Há muito que o antigo falar dos Vales e Cafimas foi absorvido pelo cuanhama.

Quanto à distribuição linguística das narrativas, pode-se dar o seguinte quadro: 32 em Nyaneka puro, 14 em Nyaneka alterado, 2 em Humbe puro e 2 em Cuanhama.

Não é de agora que se tem realçado a grande aptidão das línguas bantu, a sua expressividade perfeita para, por meio delas, reproduzir toda a gama da literatura oral. Quanto aos idiomas do Sudoeste de Angola merece ainda distinção especial a sua sonoridade e beleza eufónica.

No que diz respeito àriqueza do vocabulário e da larga potencialidade gramatical destes idiomas, permitimo-nos transcrever o que afirmamos há anos numa palestra: Depois de termos acentuado a eufonia, continuamos com estas

palavras: “O segundo elemento a considerar numa linguagem éo vocabulário. Este, está claro, éo espelho do grau de cultura de um povo. O que caracteriza as línguas do nosso grupo, como aliás as de outras regiões, é uma grande abundência e precisão de termos concretos e uma pobreza relativa de vocábulos abstractos. Assim, todos os movimentos do corpo ou partes de corpo possuem um termo próprio que dispensa qualquer complemento. Um simples verbo significa, por exemplo, abrir ou fechar os olhos, abanar a cabeça, estender as pernas, etc. Quanto a vocábulos abstractos há-os em número suficiente para exprimir todas as ideias básicas. Por exemplo os termos dos pecados capitais encontram-se todos convenientemente traduzidos, assim como os conceitos que exprimem a ideia de: beleza, bondade, malícia. esperteza, astúcia, curiosidade, familaridade, civilidade, preocupação, confusão, palermice, gabarolice, etc. Mas onde os idiomas bantos superem de uma certa maneira, muitas línguas, é na gramática; especialmente no que diz respeito às modalidades do verbo. Com efeito encontramos nele não só todos os tempos e modos existentes nas línguas clássicas, mas ainda um tempo narrativo que corresponde mais ou menos ao aoristo do grego. Acresce a isto uma surpreendente variedade de formas verbais. Exemplifiquemos e tomemos como paradigma a raiz verbal linga do falar dos Nhanecas que quer dizer: fazer. Temos as seguintes formas: causativa: lingisa, mandar fazer; reflexa: lilinga, fazer-se ou fazer mùtuamente; a intensiva ou repetitiva: lingaila, esforçar-se por fazer; a aplicativa: lingila, fazer por alguém, a favor de alguém; e finalmente a inversiva: lingulula, desfazer?

Querendo formular uma apreciação comparativa da riqueza das duas línguas, temos de concordar que o Nyaneka leva a palma ao Cuanhama. Esta afirmação pode estranhar e de facto parece algo paradoxal. Um povo progressista de índole aberta usar uma linguagem mais simplista do que um outro que se conserva tenazmente estacionário nos seus hábitos tradicionais! Mas um exame linguístico comparativo não deixa chegar a outra conclusão. O que escrevemos no primeiro volume da “Etnografia? a respeito dos diversos componentes originais daquele agregado étnico dá talvez a chave para a explicação do paradoxo.

Não há quem tenha publicado antologias de contos africanos sem ter insistido na violência que se pratica para com este produto quase espontâneo da literatura oral, quando se lhe coloca as algemas da língua escrita. Lembremos em poucas palavras o ambiente natural do conto que afinal se destina a ser contado. “Para narrar um conto destaca-se um individuo que, em geral fala em pé.

Pcuco a pouco ele vai-se animando, modula a voz segundo os vários actores que intervêm na recitação, intercala interjeições, ora lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula não só com os braços, mas conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo. O auditório toma parte viva, estando às vezes como que electrizado.

Manifesta de onde a onde ruidosamente aprovação ou desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage entendidamente às frases sarcásticas?. Semelhantes e quiçã mais expressivas reflexões sobre o mesmo tema lemos na obra de Viegas Guerreiro.

O que acabamos de dizer do género declamatório da narração sofre às vezes excepções nas partes cantadas.

Podem-se distinguir nelas duas modalidades: canto melopáico que acompanha num tom monocórdico toda a recitação e trechos verdadeiramente cantados com melodias mais variadas. Estes últimos revestem sempre um carácter poético. Para ambas as formas melodiadas, damos indicações, quer dentro do texto, quer nas anotações finais.

Para o canto ocupam o primeiro lugar os Humbe, seguidos dos Nyaneka e depois vêm, muito distantes, os Cuanhamas. Por sinal são de mulheres de origem humbe, os dois cantos anotados musicalmente, publicados no fim do volume. (Nºs 20 e 39).

Para concluir este parágrafo resta-nos dizer alguma coisa sobre os títulos, a introdução ou abertura e a conclusão dos contos.

Todos os narradores intitulam as suas histórias. Mas não se pode declarar que tais dizeres fornecem elementos esclarecedores sobre o conteúdo, o “enredo?, pois muitas vezes eles não são outra coisa, senão as primeiras palavras da narração, correspondendo aos nomes ou àcategoria dos protagonistas. Foi concerteza por este motivo que von Sicard declara ter rejeitado todos os títulos originais, substituindo-os por outros mais apropriados.

Quanto a nós, preferimos manter as epígrafes tradicionais, permitindo-nos contudo, em poucos casos, aerescentar mais uma palavra. Por exemplo no n.° 39 introduzimos o vocábulo: Otyindondi, macaco, porque éeste bicho que desempenha o papel principal em toda a história.

Já vimos que a introdução coincide muitas vezes com o título, o que a torna dispensável. Porém alguns narradores da área nhaneca empregam a fórmula estereotipada: Opopo lumwe ou opopo umwe, que corresponde mais ou menos àlocução introdutória das fábulas europeias: Era uma vez. De facto a locução Opopo tem um sentido local ou temporal. No entanto o Pe. Silva prefere traduzi-la por esta forma: É destes mesmos que se trata. Porque; explica ele, tanto o contista como os ouvintes imaginam que os personagens enunciados no título e citados na narrativa, estão ali presentes. Épois uma tradução interpretative que se pode permitir quem conhece profundamente a mentalidade desta gente.

Se a introdução éfrequentes vezes inexistente ou quando figura, uniforme, as conclusões são bastante variadas. As mais engraçadas são estas: Sambulikiti mu ove ou mu onwe, o que vertido em português significa: açaimo em bicho voraz para ti ou para vós! É uma forma muito original para convidar alguém a tomar a substituição como narrador!

Mas é o único meio de se libertar do cabrestilho incómodo. Uma outra expressão é mais branda e reza assim:

Oluñgano lwange... helengete... lwapwa. O meu conto... escapuliu-se... acabou —ou na forma negativa: não se escapuliu o meu contozinho? Não éagora a tua, ou a vossa vez? Proferindo estas últimas palavras o narrador fita um assistente ou um grupo deles. —Os Humbe contentam-se com concluir: Acabou o meu conto, e os Cuanhamas abstêm-se de qualquer introdução ou conclusão. E assim escapuliu-se também a nossa já longa introdução, mas não sem tomarmos a liberdade de enfiar o açaimo a um e outro leitor mais interessado, especialmente entre os Africanos.

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A: Contos De Animais

1: Ehunyu na Kavandye

Aveliholo oupanga, Ati:

 —Hunyu, tukale-kale atuho, tunyange - nyange atuho m'ohlka. Etyi twamavasa tyokulya atull atuho. Ou nga akanyanga, ou tyina hamwe ahanyangele atuli vala tyou wanyanga. Ou tylna hamwe ahanyangele atuli vala tyou wanyanga. “Masi? pen'ou un'onongombe ononyingi, uhanda ovanthita. Katupolo nkhele tyounthita? Tyetyi tyokunyanga m'ohika ... pamwe katuvasa-mo m'ohika. Hunyu wailnga omunthita; Kavandye walinga omunthita. Tyino vakalisa vakahonyena k'omalyo. Otyo valisa aveho. Etyi litaka tyiti: ou usinga mbae, ou usinga mbae, vakayevela. Apeho otyo valisa, apeho otyo valisa. Mu ou hono, otyivandye watyitisa ongombe. Etyi yatylta alipolo oluva lwongombe yatyo. Onthane atyinde atwala k'otyunda. Muhuka, etyl ahonyena na Hunyu. Hunyu wemupula ati: —Tava, iya, ove un'onohonde? Un'onohonde... walile-tyi? Ati

 —Tava - hó - ove k'ounthita utupu vali etyi ulya? Ati:

 —Ame ndyilya-tyi pahe? Ame, okulia kwange oko k'ounthita okuvasa eka andyill... Etyi nakapula okandimba andyill... Hatyo vala tyok'ounthita otyo? Okevandye ati:

 —Wó! Undamba. Ame ndyiti mbange, nga yatyita imwe, ame ndyili-ko tyok'onyima. Hunyu otyo atehela, otyo apaka m'omutima; otyo alisa, otyo alisa, otyo alisa. Hunyu hono walisa, lise, lise, lise... Tyino mbuenda n'ok'eumbo, pen'otyitane tyimwe otyipunde tyokusala-sala k'onyima. Hunyu ati:

 —Wó! Otyitane etyi tyokusa-sala k'onyima, etyi hatyotyo tyak'onyima etyi? Kavandye watile: “Omunthita ulya tyok'onyima...? Ame n'ame mandyili-po tyok'onyima. Hunyu walia-po otyitane etyi tyokusala-sala k'onyima. Lyé... lyé ohitu oyo, ei imwe etyi aponwa atulika k'omuti. Asingi onongombe mbae ombo. Akanyingiya. Etyi aeta onongombe, ava vono hambo avati:

 —Kamuavela omavele omunthita wekehimanene k'onongombe? Okumuavela omavele, Hunyu una hono kahande. Wekuta. Okuti p'okukakanda onongombe, p'okuyongola onongombe... okanthane kamwe okapunde kokusalasala k'onyima kake-po. Muhekulu wonongombe wati:

—Hó! Hunyu munthita! Iya, onthane imwe yokusala-sala k'onyima ilipi? Hunyu wati: —Iya ame halile? Iya, yokusala-sala k'onyima? Omunthita kali tyok'onyima?

—Hó! Ontwe twekupopila okutiwa kalise ine twatile kalialye-po tyok'onyima? Olye wekutolela-tyo?

—Ati: Ame ókavandye wati: “Omunthita tyino ulisa, tyok'onyima, tyina tyisala-sala k'onyima, ove utyilia-po?. Muhekulu wonongombe watuma ku kavandye. —Mulhanei! Kavandye weya.

 —Ove oñgeli, Kavandye?!

—Ati:

—Aú! Onthwe ankho tuli vala k'ohambo yetu oko. Pahe tweiva-ko ku onwe mwalaveleya. Pahe tweya vala okutavela, ei mwetuihanena.

—Ati: Hayoyo, iya, Hunyu? Kamulipulei na Kavandye?

—Kavandye, iya, have watile “tyiliwa tyok'onyima??

—Iya, pahe ove walile tyok'onyima?

—Ya, ame nalile otyinthane tyok'onyima!... Kavandye ati:

—Ha-ha!... Ame nekutolele okutiwa “omunthita ulya tyok' onyima?... Tyino ongombe yamatyita, ove ulya-po oluva lwatyo. Nanyo ove ulya-po onthane yok' onyima ya mwene?! Onthwe tuvanthita vala. Otyo mwene otyove. Vahekulu vonongombe vakwata Hunyu, vemuveta. Vati:  

—“Pita?! Kumalisa-lisa onongombe mbetu! Hunyu wapita.

—Y'ove, Kavandye, waile na pi? Ati:

—Ame naile n'oko nakavahile oumphela wa Hunyu walya onthane ya mwene yokusala-sala k'onyima. Pahe oyoyo nakatehelele. Ovo tupu vom'ohambo, omu, vahekulu vonongombe, avati:

 —Hé!... Hunyu wakalya onthane yok'onyima? Ngwe epanga lyove... Hamwe inwalia amuho “m'okonta? muhimama amuho k'ounthita. N'onthwe katukuhande vali. Enda. Kelitaindyilei mwene, oko mukataindya mwene kumwe vali. Onthwe katumuhande vali! Tyiti umwe: na tyivandye na Hunyu aveho vesala-po vala. Vetupu vali ounthita. Avelipulu mwene p'ouvali wavo:

—Ove Hunyu tulinga ngeli? Hunyu:

—Pahe otyo ha ku ove? Kavandye ati: “Bom?! Otyipuka etyi tulinga vala tyokunyanganyanga m'ohika. Pahe atyiti umwe: ou ukanyanga m'ohika, ou ukanyanga m'ohika. Otyo tuhonyena pano p'omanthia etu. Veliyapuka. Ou ukanyanga, ou ukanyanga. Kavandye waya n'oko k'omatapalo. Tyino ati figa... etemba lyaya n'oko lienda na ko. Wasoka-po imwe. Wakahateka, wapita k'omutwe wetemba. Waalangata m'eheke, m'eheke, atwele n'op'omaiho atyiho n'om'omulungu. Alangala-po m'etapalo. Etemba olyo liya. Umwe uli k'“ofrente? yonongombe, n'“no-caleiro? yatyo uombola. Ou wok' “ofrente? yonongombe wati:

—Onwe-onwe, talamekei onongombe! Kun'etyi tyili kuno! Wokuombola ati:

 —Otyityi?

—Otyipuka tyankhila pano. Endywei mutyitale. Wokuombola weya ati:

—Otyinyama patyi etyi? He he! Okavandye?! Tyankya... tyalinga-tyi? Ati: Tyankya. Pahe tyilingwa ngeli? Tyisei-po vala, tyihen' okuti tyiliwa... Mamutyitwala-pi? Ou wati:

—Ehe! Tyihaliwa hahitu? Ove, ombandwa yatyo, hamwe kaikalandehiwa? Otyivandye vetyipola-po opo, vetyitulika k'etemba k'onyima. Ou wokuombola uombola. Ekumbi ngwe pahe linyingila m'okawiwi. Etyi pahe linyingila kwanthlkovela, otyivandye otyo aenda n'okukumuna “onosaku? mbòvilya okumbutahela p'ohi; n' “ombosuka?, otyo atahela p'ohi. Etyi ati opo, otyivandye walomboka-po. Ava vaombola kavetyii vali. Vati vala:

—Otyivandye, twemutulika k'etemba. Otyivandye, etyi atuluka-po, wapola “onosaku? mbae ombu, otyo wakaholaika “mbosuka? m'omaleva. Okuya vali okuwana mbovilya, kembuvili, m' “okonta? aike. Wakahateka waya k'omanthia. Okuya, Hunyu oyou welinyongamena.

—Iya õngeli tava? Ati:

—Aú! M'ongongo mutupu.

—Iya, tulinga ñgeli? Ati:

—Katuivo vali hono. Iya, katuilala vala?

 —Endyu tuende, iya, ame ndyin'oku nanyanga, “masi? naponwa. Tukatyinde atuho. Aveya, avatetekela k'onosaku mbosuka?, avali. Lye, lye, etyi vekuta, aveya, avawanena onosaku mbovilya, avatutaila k'omaleva oko. Otyo vakala na tyo otyo. Avakoudoka k'omanthia avo oko. Valya lumwe ovilya. Valya. Valya Valya. Etyi vamana avahimbika:

—Ove Hunyu kunyange!

—Ame, mandyikanyanga. Tyino vati-ko figa k'etango, etemba olyeli; lyakondoka. Tyivandye ati:

—Etemba olyolyo oku napolele ovipuka. Utyii etyi ndyilinga? Ualangata m'eheke. Etyi ualangata m'eheke, etemba liya, avekuvasa, avekulondeka k'etemba. Ove k'etemba, otyo uenda n'okukumuna ovipuka p'ohi. Ove haulombokako. Pahe kalangale-po k'omeho yetemba. Nga vekuveta ngo, uhaplnduke-po. Hunyu weya, wahatekela k'omeho yetemba, walangala-po. Etemba etyi lyeya, wok' omeho:

—Pano pankhila ehunyu!...

—Ehunyu ñgo tupu nkhele?! Veya n'ocaleiro yatyo.

—Etei okalavasa! Avelivete, avelivete, avelivete... ali-hamapinduka-po. Otyo ñgo lilangi. “Ocaleiro? yatyo aiti:

—Ndyetei omutunga! Hono tuhelityindei vali ng'otyivandye. Hono litomwe n'omutunga. Avaeta omutunga. Tyino vahimbika okueta omutunga, Hunyu wapindusuka-po umwe, akahateka, aende nkolo. Okuya k'otyivandye.

—Wanyanga? Ati:

—Ehe; Kuna vahanda okunthoma n'omutunga... Elipulu na tyivandye:

—Oundamba patyi wove ou? Upondola ñgeno wavetwa, wavetwa, “masi? otyo uhatundu-po. Pahe ove uenda nkholo omutunga? Opo vakala opo, na tyivandye. Velihindila oumphuki, avati:

—Tuendei tukavake ononkhombo? Ehunyu ati:

 —Ehe; Ame oko ankho ndyilihila, kun'ondywo in' onombambelo mbomulela. Tyivandye ati:

—Iya, kuhongola tuende? Avaende. Okuya m'ondywo omu, ava-yeulula-po, avapolo-mo onombambelo ombu, mbuli p'eulu, opo mbakutilwe. Hunyu umbutulula-po; otyivandye otyo atambula, otyo akaholeka oko. Otyo atambula, otyo akaholeka oko. Ou hunyu om'okutulula. Ati:

 —Iya ove, tyivandye, iya ulinga-tyi-ale?

 —Iya, mulume, hikaholaika? N'oku-tala-tala kuna! Ove ulinyongamena? Uvaka ulinyongamena? Hunyu hatyo litulula vala? Onombambelo ononthano. Ombu onombali, tyivandye waholeka tyae, pamwe vali. Ombu ononthatu waholeka pamwe. Etyi hunyu alupuka vavyuka vaia pu mbu onontnatu. Ononkwavo otyivandye mbumwe waholeka p'onthele. Avantyindi-po ombu ononthatu aveya avaeta k'omanthia avo, oku vakala vali. Avahimblka okulya. Valya-po ombambelo ike. Otyivandye walya-mo vala katutu, ou hunyu omulela uunguiula vala unwa. Otyivandye ati:

—Ove, etyi uungulula ñgo omulela okunwa, ankho tyitiwa hamwe tuhupulwa, hamwe vamwene vetulandula, ove kumavahiwa unia omulela? Omulume ulya katutu... Ove ulya unene ñga? Kumehimama n'okuungauluka omulela? Hunyu walya omulela ó. Kaveimamene k'omuhaho, vamwene vana vonombambelo veya. Tyina veya vati:

—Tulipole ekondyo! Avelitala, na Hunyu na Tyivandye... —!!!... Olyatyi?! Avati: —Tulipolei vala ekondyo!

—Mutupula ekondyo onthwe twali ovanthita venyi, mwetutele-tele? Pahe twelikalela m'ohika yetu muno, mutulandula ñgo? Ekondyo olyatyi? Avati:

—Onombambelo mbetu mwavaka. Hunyu alomboka:

—Onongapi? Otyivandye:

—Etyi uti onongapi... ove wavaka onongapi? Pulei naina hunyu, mwene wati “onongapi? Ngoendela un' apa amwene ombambelo yavakwa. Ame havakele! Avati:

—Tuendei vala! Mwakwatwa. Tuendei! Avevesingi, avevesingi, avevesingi.. Etyi, vati p'okati, Avati:

—Hamankhanya a hunyu eli? Eli halyatyivandye? Otyivandye ati:

—Wó! Onwe, etyi mupula omankhanya... Katuenda-enda vali? Katuyeve vali? Okupulwa omankhanya etu... Enkhanya mwelivahile m'okati kondywo? Avati:

—Matuende n'onwe, mamukakala m'ondywo. Muhuka tutale oku mukanina, tutale ou wania omulela. Mwene ou wania omulela kemwimb'ale. Vohunyu na kavandye vakwatwa avayeililwa m'ondywo. M'ondywo yatyo omu valala. Etyi vati k'ounthiki, Tyivandye wapinduka-po, ahohiya-po p'otupya. Hunyu ulele. Tyivandye pahe ulisoka m'omutima, ati:

—Pahe, apa tukania, ngwe twalya omulela, Kamatuimbukwa, atuhovwa? Ou hunyu wañgañgauka vala. Tyivandye okutala m'ondywo yatyo omu vapakwa. pen'onyaa yomulela. Amoneka okupola onyaa yomulela, akapolo n'okuwoko okuwaveka m'omavango a hunyu... tomphe, tomphe, tomphe, tomphe. Otyivandye “elilimpalela? m'onguwo, alangala-po. Kwatya ñgo k'omuhuka, vamwene veumbo avati:

—Pindukei-po tutale! Muenda mukatalwe! Tyivandye walupusuka-po ati vala:

—Lupusuku! Etyi eya p'ondye, aungama, ati:

—Talei! Ame natyike nalya! Hunyu okulupuka... wati vala okupinduka-po... tyino elifikulula onguwo... m'omavango amuho omulela. Ati:

—Vakwe! Etyi tyandyenda ñgeli vali, onwe?! Nalele umwe n'okuunguluka, etyi apopile otyivandye!... Hunyu walupuka. Tyino wali p'ombundi vala, vemumon' ale.

—Ehe! Wavaka omulela ohunyu! Kamuvetei?! Hunyu venae, avavete... vete, vete, vete, vete, vete... Otyivandye avemuyeke aende. Hunyu avavete umwe, avakutu. Otyivandye wakakala oko. Wasoka-ko vali:

—Pahe mandyikala andyike? Una pahe ? Tyivandye wakaeta vali ononmbambelo onombali aholekele n'onombali vali ombu vahile-po. Wembutyinda, wembeeta. Ati:

—Naeta onombambelo ombu. Neya okuyovola Hunyu. Muyekei. Mbambelo imwe twalile tyili na e. Pahe naeta ononkhwavo ombu. Ei onkhwavo tukeinyangaile . Oyo, etyi vamona onombambelo.

 —Hé! onombambelo mbeya!. Kwakamba ike? E! Tuveyekei vakanyange-nyangee. Tyinyingi etyi tyeya-ko-ale. Ehunyu vemuyeka vakaya na tyivandye. Tyino vakati oko:

—Kutale etyi nati: “Ame ndyimulume?? Pahe heile okukukutulula-ko?

—Ati: Aú! Walinga tava, panga lyange! Avaende p'omanthia avo opo. Oku-himbika vali avati: Tukavake ononkhombo! Vaya m'eumbo lin' ononkhombo. Avaholama k'ondye. K'ondye oko, Tyivandye wemuhindila umwe: Tyiti:

 —Ove uheya ondyimbo yove, ame ndyiheya ondyimbo yange, tukausukile m'otyinyongo tyononkhombo. Hunyu uheya yae. Ou uheya yae. Avausukila m'otyinyongo tyononkhombo. Kavandye watotovekela hunyu:

 —Tyino tweya p'okulupuka, tyino twakawata ononkhombo, ove ulupukila k'oyange, ame ndyilupukila k'oyove. Otyipuka otyo ong' ombindyi, okuvevindika. Naina otyivandye walunguka. O “para? apitile k'ondyimbo yae onene, etyivile okukwata-ko n'ononkhombo. Ou hunyu, etyi veye p'okukwata ononkhombo, wakaya k'ondyimbo ya Tyivandye. Ou Tyivandye walupukila k'ondyimbo ya hunyu n'onkhombo yae akahateka. Ou hunyu p'ondyimbo ya Tyivandye kamahupu. Opo vala aika omutwe. Vamwene vononkhombo avapmduka-po. Umwe manyingila m'ononkhombo... okuti ñgo ñga... hunyu oyou.

—Etei vakwe! Etei eonga!... Okueta eonga, avatomo. Aú! Hunyu eliyavele... Aú! Avaosolola. OkuIhana ovakai:

—Endywei mutale, vakwe, wokuhena omwenyo, hunyu! Endywei hono mulitale! Ovakai avalupuka umwe:

 —Alilililililililili!... Mwalinga hono, tatekulu, mwetupola otyinkhapya; Alilililililililili!... Ckuihana n'ovok'omaumbo:

 —Endywei, endywei mutale ehunyu! Ou uya uveta-mo, ngwe lyankhy'ale. Ou uya uveta-mo. Olyo lyetumanena ononkhombo mbetu eli!... Ou otyivandye k'ondye oko otyo atehela. Okutehela... Hunyu vaipaa umwe. Tyivandye akaya. Hunyu avaipaa umwe. avakafifila. Tyivandye wakakala-kala aike.

—Aveliholo vali oupanga na Kwaila

—Kwaila, katunyanga-nyanga atuho Kwaila ati:

—E! Apeho vanyanga na Kwaila. Ou Kwaila ukavaka onohitu n'omayiyi, otyo aeta. Tyino aeta omayiyi, otyivandye ati:

—Omayiyi, tyino aliwa, atyatyulilwa k'ombanda yonkhanda. Otyivandye atyatyaulila k'ombanda yonkhanda. P'okulya ñgo na Kwaila, ou tyivandye ulasa vala ñgo n'elatka, ou kwaila, ou n'omulungu wae utiatia ñga okutyoka. Katyiavela okulya. Ou Kwaila wanumanà.

—Mandyipanga-panga ñga n'ondyala? Omayiyi apakwa k'onkhanda, ame otyo ndyietyoka vala ndyihekuta? Ou ulasa ukuta? Hono ou Kwaila wanumana, aende umwe, nkhele aile tya muhuka. Etyi eya, weya umwe n'onohitu ononene-nene. Wavasa ava vanyaneka onohitu mbafilulwa atyindi. Etyi eya ku Tyivandye, ati:

—Tava, naile oku, naile oku;.. p'eulu apa. Kun' onomphange mbange. Umwe waya m'otyivo. Wapakwa m'otyivo. Waipaelwa onongombe onombali. Pahe twaihanwa-ko. Tyatiwa: “Tukalye otyipito?. Tyati vala tyokulya oko tyikahi, tyokunwa oko tyikahi. Pahe oko matuende. Kavandye, okuiva otyipuka otyo, ati: —Ehe! Matukalya ohitu n'okunwa!... Iya pahe matulingi ñgeli, ame ndyihena omavava?!

—Kwatela vala m'ovikalo vyange. (Ou Kwaila upopya.) Kwatela vala m'ovikalo vyange... ame ndyikatuke n'ove, ndyikutwale-ko tukalye, atukondoka. Kavandye wakwatela m'ovikalo vya Kwaila wakatuka... Katuke, katuke, katuke.. Etyi ati umwe p'eulu. p'ohi n'eulu, Kwaila ahimbika okusanaina... okusanaina...

 —Tava Kwaila, uhasanaine, mandyitoko! Otyo asanaina.

—Tava Kwaila uhasanaine, mandyitoko! Aú!... Wakwatele-ko... Kuwoko kwike vala... Aú!... Asoponoka-ko... ati umwe: Kulungutu... Kulungutu... Kulungutu!... Tyatu!  Kwaila alikaavelà vala okuliseta aliya, alitala otyivandye. Otyivandye... wakukuta-mo kohale. Aú! Kwaila esala-po umwe aike, n'okutiyanga aike. Ohande ya Hunyu oyo aipaehile k'ovikombo, oyo yeile okukola otyivandye. Aú! Kwaila wesala umwe aike. Oluñgano lwange... luhelengete!... lwapwa!

 

1: A Hiena e o Chacal

Pactuaram amlzade. E dlz o Chacal:

—Hiena, fiquemos juntos, vamos caçando juntos por esse mato. Quando tivermos encontrado de comer, comemos juntos. Se um for à caça e acontecer que o outro não foi, comemos ambos daquele que caçou. Se acontecer que o primeiro não foi, comemos ambos daquele que caçou. “Mas?, há alguém que tem muitos bois e que quer pastores. Não tomamos nós por enquanto o partido da pastoricia? Porque isto de procurar no mato ... nada nele encontramos às vezes. A Hiena fez-se de pastor; o chacal fez-se igualmente pastor. Quando saem com o gado vão-se juntar nos pastos. Assim vão pastoreando juntos. Ao cair da tarde volta um com os seus bois, e volta outro com os seus, vão metê-los no curral. É esse o seu pastoreio, ésempre esse o seu pastorelo. Certo dia uma vaca das do chacal deu a sua cria. Assim que ela pariu, o chacal tirou para si as páreas. O vitelo carregou com ele e levou-o para o curral. No dia seguinte, ao encontrar-se com a Hiena, pergunta-lhe esta:

—Então ó companheiro, tu tens sinais de sangue? Tens sinais de sangue... que é que comeste? Resposta:

—Ora, companheiro, durante a pastorícia tu não apanhas nada? Diz a Hiena: —Que hei-de eu comer? Eu, a minha comida durante o pastoreio, é encontrar um pedaçco de goma resinosa, e eu como... se acerto uma porrinhada numa lebrezita, eu como... Arranjo eu alguma coisa mais durante o pasto? Replica o Chacal:

—Oh! És tolo. Eu quanto aos meus, se uma vaca deu cria, eu como “aquilo que vem atrás?. A Hiena foi ouvindo e foi guardando no coraçao; entretanto continuava a pastoricia, dia após dia. Pois um dia, a Hiena foi para o pasto e passou-o a guardar o gado. Quando as reses iam para casa, notava-se o fracalhote de um bezerro que ia sempre a ficar para trás. E diz a Hiena:

—Oh! Este bezerro que vai a ficar para trás, nao éele “aquilo que vem atrás?? O chacal afirmou: O pastor come “aquilo que vem atrás?... Pois também eu vou comer o que fica para trás. A hiena comeu o bezerro que se deixava ficar para trás. Comeu... comeu aquela carne... e quando se sentiu farta dependurou uma parte dela numa árvore. Depois tocou para casa os seus bois e meteu-os no curral. Vindo ela com os bois, alguém da gente dos sambos exclamou:

—Então nao dais um pouco de leite desnatado ao pastor que foi passar o dia com os bois? Ao dar-lhe o leite, afinal a hiena nao quer comer. Tem a barriga cheia. Assim que se apresentaram para a ordenha e enquanto deitam os olhos para os bois... não se encontra ali um bezerro mais fraco que costumava deixar-se ficar para trás. Pergunta então o dono do gado:

—Oh! O hiena meu pastor! Então o bezerro que costumava ficar para trás, onde está? Responde a hiena:

—Pois então eu não comi? Então não era o que ficava para trás? Não pertence ao pastor o que fica para trás?

—Oh! Nós dissemos-te que levasses o gado ao pasto ou dissemos nós, vai comer o que fica para trás? Quem éque te disse tal coisa?

—Responde: A mim foi o chacal que disse: O pastor quando anda com o gado, aquilo que vai atrás, aquilo que vai ficando para trás, tu come-lo. O dono do gado mandou chamar o chacal.

—Inde chamá-lo! O chacal apresentou-se.

—Entao como é isso chacal?! —Resposta:

—Nao há nada! Nós estamos ali nos nossos sambos. E ouvimos o vosso recado a chamar. Limitamo-nos a vir atender àquilo para que nos chamastes. Diz o dono:

—Nao ouviste, Hiena?! Entao nao o interrogas o chacal?

—Ó Chacal, entao tu nao disseste. “Come-se o que vem atrás??

—E tu comeste “o que vem atrás??

—Sim, eu comi o bezerrito da rectaguarda!...

—Haha... Eu disse-te que o pastor come aquilo que vem, atrás... Tendo parido alguma vaca, tu, comes as páreas. Afinal, tu vais comer o bezerro da rectaguarda, que te nao pertence?! NÓs só somos pastores! A questao é da tua responsabilidade. Os donos do gado agarraram a Hiene a bateram-lhe.

—Vai-te embora! Nao mais pastorearás o nosso gado! A Hiena foi-se embora. —O chacal, tu onde éque foste? Diz ele:

—Eu fui ali e deparei com umas questõezitas por causa da Hiena que comeu um vitelo alheio, que costumava ficar para trás. Foi só isso a que fui atender. Ora, tambéem os daquele “sambo?, os próprios donos do gado exclamaram:

—Ora esta!... A hiena foi comer o bezerro da rectaguarda? Todavia étua amiga... se calhar comestes ambos, pois passais o dia juntos, na pastorícia. Nós também nao te queremos mais. Vai embora! Ides ambos procurar onde entenderdes, noutra parte qualquer. Nós nao vos queremos mais! E acontece isto: Quer o Chacal, quer a Hiena, ficaram sem nada. Já nao sao mais pastores. E pegaram ambos a conversar:

—Que vamos fazer nós, ó hiena? E a Hiena:

—Pois, nao serás tu quem sabe? Responde o Chacal:

—Bom! Vamos ocupar-nos de ir apanhando qualquer coisa por esse mato. E será assim: Um sai por esse mato à procura e o outro sai também à procura. De volta, juntar-nos-emos ao pé da nossa lareira. Separaram-se. Um foi àcaça e outro foi à caça. O chacal foi para os lados das estradas carreteiras. Quando relanceava os olhos... eis um carro de bois que segue sua viagem. E ele pensou uma das suas. Deitou a correr e ultrapassou o carro. Rebolou-se e tornou-se a rebolar na terra, todo empoeirado até aos olhos, tudo até mesmo na boca. E deitouse na estrada carreteira. Lá vem agora o carro. Via-se um à frente dos bois, e o carreiro respectivo que os tocava. Exclama o da frente:

—Olá, ó companheiros, fazei parar os bois! Há aqui qualquer coisa! Quem ia a tocar os bois respondeu:

—O que há? —Há aqui uma “coisa? morta. Vinde vê-la. Veio o carreiro e disse: —Que bicho é este? Ah! E um chacal nao?! Morreu... —Que é que lhe deu? E diz mais: Morreu. Agora que é que se vai fazer? Deixai-o para ai, não é animal que se coma... Que ides fazer com ele? Diz um do lado:

—Oh, o que nao se come é a carne, não? Olha lá e a pele nao se vai talvez vender? Tiraram dali o chacal e dependuraram-no no carro, nas traseiras. O carreiro vai tocando o gado. Põe-se o sol e começa o escurecer. Posto deveras o sol... sobrevindo a escuridao, principia o chacal a empurrar os sacos de mantimento, fazendo-os cair; e os do açúcar lá os foi deitando abaixo. Feito isto, o chacal saltou do carro. Os que conduzem de nada sabem. Pensam simplesmente:

—O chacal, dependuramo-lo no carro. O chacal, descido do carro, tomou aqueles seus sacos e foi escondendo os do açúcar nas cavernas. Voltou outra vez pelos do mantimento e nao pode com eles pois está sòzinho. A correr, tomou a direcçao da lareira. Ao chegar, depara com a hiena cabisbaixa.

—Então como vai isso, companheira. Resposta:

—Nada! Para os lados da colina não há nada.

—E então como vamos fazer? Resposta:

—Sei lá o que vai ser hoje. Vamo-nos deitar com ela, não? E o chacal: Olha, vem dai comigo. Há algo que eu arranjei para ali, mas émuito para as minhas forças. Vamos carregar os dois. Chegaram ao local, começaram pelos sacos do açúcar e comeram. Come que come, come que come, e uma vez fartos, vêin deitar-se aos sacos de mantimentos e vão-nos transportando para as cavernas. De tal serviço se foram ocupando. Por fim retornaram ao fogo do seu lar. Comeram cereal a valer. Comeram deveras. Deveras. Deveras. Acabada a provisao tornaram eles outra vez:

—Tu, ó Hiena, vai ver se arranjas!

—Eu também vou. A certa altura, pela tardinha, eis o carro de bois. Volta do lugar para onde se dirigira. E o Chacal toma a palavra:

—O carro éo tal de onde tirei as coisas! Sabes como eu faço? Vais-te espojar na terra. Depois de te teres espojado, vem o carro, deparam contigo e deitam-te para cima dele. Tu, lá no carro, vais empurrando as coisas para o chao. Depois saltarás. Agora vai deitar-te no chao lá para diante do carro. Ainda que te batam, nao te levantes. Vai a hiena, corre para a frente do carro e deita-se. O carro vem e grita o da frente:

—Morreu aqui uma hiena!... —Ainda mais uma hiena?! Aproximaram-se e entre eles o carreiro.

—Trazei o chicote grosso! Deram-lhe, deram-lhe, deram-lhe...  e o animal sem se levantar. Continua deitado. Exclama entao o carreiro:

—Trazei cá o facalhao! Nao carreguemos desta vez com o bicho como fizemos com o chacal. Seja espetado com o facalhao. E trouxeram o facalhao. Quando vinham de lá com ele, a hiena levanta-se num pronto e deita a correr, fugindo. Até que chegou junto do chacal... —Arranjaste alguma coisa? Responde: Safa! Eles queriam-me espetar com urn facalhão... Vem a interpelaçao do chacal: Mas que parvoice a tua?! Tu podias apanhar e tornar a apanhar, mas sem sair do sítio. Agora tu pões-te a fugir dum facalhao? Por ali ficaram mais o chacal. Até que recomeçaram a combinaçao de partidas:

—Vamos roubar cabritos? Diz a hiena:

—Isso nao! Lá onde eu era pastor, há um aposento com recipientes de manteiga. E vem o chacal:

—Entao, põe-te a mostrar o caminho, nao? Lá vao eles. Chegados àtal cubata abriram-na e tiraram as vasilhas com manteiga, dependuradas e amarradas em cima. A hiena descia-as e o chacal recebia-as. O chacal vai-as recebendo e afasta-se a escondê-las. Vai-as recebendo e lá vai indo a escondê-las. A hiena essa ocupa-se a tirá-las. E pergunta:

—Entao tu, óchacal, que fazes tu afinal?

—O homem, pois eu nao vou esconder? E ir deitando os olhos! Tu olhas só para o chao? Quem rouba, deita os oihos só para o chao? E assim a hiena continua a tirar. Sao cinco vasilhas de manteiga. Duas delas, foi o chacal escondê-las de sua conta, em sítio àparte. As outras três, escondeu-as noutro iugar. Saida a hiena cá para fora, vao direitos às tais três. As outras escondeu-as o chacal mais para o lado. Carregaram com as três e trouxeram-nas para casa e lareira onde vivem então. Deitam-se a comer. Acabaram com uma vasilha de manteiga. O Chacal comeu pouco, mas a hiena, essa, derrete a manteiga e limita-se a bebê-la. Diz entao o chacal:

—Tu, que te pões a derreter a manteiga e a bebê-la, e se acontece de sermos apanhados, ou se os donos seguem o rasto, nao vais tu ser encontrada a esvasiar manteiga pelo ânus? Quem tem tino come pouco... Tu atiras-te a comer desta maneira? Nao vais passar o dia a desfazer-te em manteiga? A hiena comeu aquela manteiga. Mal tinham acabado a conversa, os donos das cabaças, ei-los que surgem. Chegados a eles, exclamam:

—Observemos o rasto! E olharam um para o outro. Hiena e Chacal... O rasto de quê? E eles insistem: sigamos só o rasto!

—Interrogais-nos acerca do rasto, a nós, que fomos vossos pastores e nos expulsastes? Agora que vivemos longe de vós, neste nosso mato, ainda vindes atrás de nós. Para que éo rasto? Responderam:

—As nossas cabaças de manteiga que roubastes. E a hiena sobressaltada:

—Quantas? Replica o chacal: E tu dizes “quantas?... quantas roubaste tu? Afinal interrogal a própria hiena que pergunta “quantas?! Se calhar viu algures qualquer cabaça roubada. Eu éque nao roubei! Ripostam eles:

 —Vamos, vamos! Estais presos. Vamos! E foram-nos tocando, tocando... Chegados a meio caminho, disseram: Estas patas nao sao desta Hiena? Esta aqui nao édo chacal? Objecta o chacal:

—Oh, vós que vos pondes a interrogar acerca de patas... afinal nós deixamos de andar? Deixamos de caçar? A interrogarem-nos por causa das nossas patas... Essa patada encontraste-la dentro de casa? Dizem eles:

—Vamos levar-vos, ides ficar fechados de noite num aposento. Amanhã observaremos onde fordes defecar, a ver quem deita manteiga para fora. Aquele que defeca manteiga nao custa a reconhecer. A hiena e o chacal são presos e fechados num aposento. Nesse aposento passam a noite. Alta noite, o chacal levantase e põe-se a atiçar o fogo. A hiena dorme. O chacal põe-se a pensar consigo e diz:

—Agora, onde formos defecar, pois que comemos manteiga, nao vamos nós ser descobertos e desancados? Ora a hiena dorme a sono solto. O chacal, olhando à roda, no aposento onde estão metidos, dá com uma corna de manteiga. E ei-lo que toma a corna de manteiga, tira manteiga com a mão e vai besuntando as faces anteriores das coxas da hiena... besunta, besunta, besunta, besunta... O chacal limpou-se à manta e deitou-se. No dia seguinte de manha vêm os donos da casa e dizem:

—Levantai-vos a ver! Para irdes ao mato e serdes observados! O chacal saiu num pronto, no gesto de:

—Catrapus! Chegado cá fora, põs-se de traseiro para o ar e disse:

—Olhai! Eu nada comi! A hiena ao sair... apenas ao levantar-se... ao começar a descobrir-se... toda a parte entre-coxas émanteiga. E exclama:

—Ora esta! Vede lá como é que isto me aconteceu?! Passei a noite a derreter deveras, assim como o chacal afirmou!... Saiu fora a hiena. Mal chegou àporta, logo repararam nela.

—Olha, olha! Quem roubou a manteiga foi a hiena?! Não lhe saltais em cima?! A hiena têm-na segura e cascam-lhe. Cascam, cascam, cascam, cascam, cascam: O chacal deixaram-no ir embora. A hiena bateram-lhe a valer e amarraram-na. O chacal lá foi passar a noite. Pôs-se a pensar e disse:

—Agora vou ficar sòzinho? Eles nao a vao iargar mais, nao éassim? O chacal foi buscar as duas cabaças que escondera e mais duas que haviam deixado ainda. Carregou com elas e apresentou-as. Disse assim:

—Eu vim trazer estas cabaças... Vim libertar a hiena. Deixai-a. Uma cabaça éverdade que a comemos. Agora vim trazer estas. Aquela que falta, nós iremos apanhando com que a pagar. Eles, uma vez que tinham ali as cabaças.

 —Ora! As cabaças vieram! Falta uma? Está bem! Deixemo-los que vao a agarrar coisas pelo mato. O mais importante já veio. Deixaram a hiena e ela foi-se mais o chacal. A certa altura, diz o chacal:

—Vês como eu tenho dito: Eu cá sou urn homem?! Não vim eu soltar-te?

—Diz a hiena: Ah! Companheiro e amigo, fizeste bom trabalho! E foram até a sua morada. Um dia voltam a dizer entre si: Vamos roubar cabritos! Foram-se a uma casa onde havia cabritos. Esconderam-se cá fora. Ali fora, o chacal aconselhou-lhe uma das suas. Diz ele:

—Tu cavas o teu túnel de entrada e eu cavo o meu, de modo a irmos dar lá dentro do curral dos cabritos. A hiena escava o seu, o outro escava o seu. E foram dar lá dentro no curral dos cabritos. Põe-se o chacal a cochichar para a hiena:

—Quando formos para sair, quando tivermos agarrado os cabritos, tu sais pelo meu e eu saio pelo teu. Isto écomo um obstáculo de feitiçaria que lhes pomos a eles. Afinal o chacal usa de esperteza. E para ele passar pelo buraco maior do companheiro e poder assim levar os cabritos. De seu lado, a hiena, quando se deitaram aos cabritos, dirigiu-se para o buraco do chacal. Enquanto que o chacal saiu pelo buraco de hiena com o seu cabrito e fugiu a correr. Quanto à hiena, não consegue entrar pelo buraco do chacal. Só ai consegue meter a cabeça. Os donos dos cabritos levantaram-se. Ia um a entrar no curral dos cabritos... relanceou o olhar... ei-la, a hiena.

—Trazei cá, companheiros! Trazei a azagaia!... Trazida a azagaia, cravaram-na. Pronto! A hiena gritou... Pronto! Acabaram com a hiena. Puseram-se então a chamar o mulherio da casa.

—Vinde vós cá ver, aqui sem vida, a hiena! Vinde vé-la desta feita. Sairam as mulheres de seus aposentos.

—Alililililililili!... Bom trabalho hoje, sim senhores, desembaracastes-nos de uma fera! Alilililililililili!... Chamaram entao as das outras casas:

—Vinde cá! Vinde ver a hiena! Vem esta e bate-lhe —que afinal já está morta. —Vem outra e bate-lhe. Foi esta, foi ela que deu cabo dos nossos cabritos!... Quanto ao chacal, cá de fora, vai escutando. E pelo que ouve... A hiena deram cabo dela. Foi-se embora o chacal. A hiena mataram-na sem mais e foram enterrá-la. O chacal passou a viver sòzinho.

—Ligou-se depois de amizades com o Corvo.

—O Corvo, vamos ambos àcaça de alguma coisa! Diz o Corvo:

—Está bem! Caçam sempre ambos, ele e o Corvo. Vai o corvo e rouba carne e ovos e vem trazer. Quando chega de trazer ovos, diz-lhe o Chacal:

—Os ovos, para se comerem, esborracham-se em cima de uma pedra. E o chacal esborracha-os em cima de uma pedra. Ao comerem-nos mais o Corvo, para o chacal aquilo ésó lamber com a lingua, enquanto o corvo com o seu bico limita-se a dar picadelas. Comer é que natilde;o pode. O corvo fica zangado.

—Vou entao continuar assim esfomeado. Vão os ovos para cima da pedra e eu limito-me a dar picadelas sem me fartar? Quem lambe, esse, enche a barriga, nao? Um dia, o Corvo sai zangado. e vai-se para longe, sem aparecer desde pela manha. Uma vez de volta, traz grandes pedaços de carne. E que encontrou gente que estendera carne encalada e earregou com ela. Dirigindo-se ao Chacal. diz-lhe:

—Companheiro, eu fui ali a um sitio. ali... nesse firmamento. Ali moram minhas irmãs. Uma delas tem a sua festa. Fizeram-lhe a festa da puberdade. Mataram-lhe dois bois. Agora estamos convidados. Dizem que “Vamos lá comer a festa?. E assim: quanto a comida, lá a temos; quanto a bebida, lá a temos tambem. Vamos entao. O chacal, ao ouvir uma coisa assim. diz:

—Essa agora! Vamos comer carne e vamos heber!... Então. como vamos nos proceder, não tendo eu asas?!

—Tu apenas te seguras nas minhas pernas... (E o Corvo quem fala...). Apenas te seguras nas minhas pernas ...e eu pego a voar contigo. levo-te para comermos e depois voltamos. Agarrou-se o chacal às pernas do Corvo. E o Corvo levantou voo... a subir, a subir, a subir... Chegado a grande altura, “entre o céu e a terra?, começa o Corvo a sacudir as pernas... a sacudir... a sacudir... —O Corvo camarada. não sacudas as pernas, que eu calo! Mas ele continua a sacudi-las. —O Corvo camarada, não sacudas as pernas, que eu calo! Nada feito! Agarrou-se... depois com uma só pata... Nada!... Escapou-se... e lá vai ele:

—Uma volta no ar!... Outra volta no ar!... Outra volta no ar!... Pumba! O Corvo fez uma manobra a ensaiar uma volta e pôs-se a olhar para o chacal. O chacal... já há muito que esticou. Pronto! E o Corvo ficou mesmo sem companheiro, governando-se sòzinho. A “alma? da Hiena a quem tinha feito morrer lá nos cabritos, foi essa que veio ser nociva ao Chacal. E pronto! O Corvo ficou mesmo sem companheiro.

O meu conto... escapuliu-se!... acabou!

Narrador: António Constantino Tyikwa, casado de 33 anos de idade, descendente de pai ngambwe (Gambos). Gravaçao: Missao da Quihita, Julho de 1963. Lingua: Nyaneka. Esta fábula com cinco episódios, é a narraçao mais bem estruturada, se é permitido empregar este termo, quando de conto popular se trata, da nossa coleção. A sua exposição segue perfeitamente os cânones tradicionais da narraçao fabulistica. Nao lhe falta como remate a respectiva liçao moral, em forma de uma sanção, motivada. bem caracterìsticamente, pela crença espirita e mágica.

 

2: Votyimbungu Na Kavandye

Vo Kavandye na Tyimbungu avaenda-enda. Etyi avati k'onthele k'enyana, avakoyo ongandu. Kavandye wati:

—Mekulu, tyinda otyikokwa-kokwa tyetu. Ongandu yatyo, yelikukutisa. Naina kavandye utyii okuti. ongandu in'omwenyo. Pahe Kavandye aende n'okuimba: Me tyimbungu watyinda ombandwa. Iende k'enyana ikemukwate.

—Wati-wi? Emupulu.

—Ame nati: Otyikokwa-kokwa tyetu... na yaye... tyiende k'enyana tyikaneñgene, Nga tyaneñgena, ha yomutete? Etyi vehika k'enyana, Kavandye atyipumphama p'ekomo. atyiti:

—Mekulu, enda, kayaveke! Ovanthu maveya... Tyimbungu etyi aya m'omeva, atiwa m'onongolo, Kavandye ati:

—Opo hapo-ko! Enda vali apa pena omeva omanyingi. Ati lumwe —fwaa ... m'eimo. Ati vali:

—Fwena p'eiva. Etyi aya p'eiva, ongandu aimulwisa. Ongandu ai k'hohi, tyimbungu ai k'ombanda; tyimbungu atyii k'ohi, ongandu aii k'ombanda. Kavandye etyi atala vepwilla, apolo omoko, ateta omutyila wotyimbungu, atete vali wongandu. Etyi veiva tyaihahia aveliyeke. Tyimbungu tyino atala omutyila wac, ati:

—Okavandye wateta ñga... Ati: Nkhwali katulimono!... Ongandu tyina ati ñgana... omutyila kutupu! ati:

—Okavandye, kalinga ñga!... Nkhwali katulimono!... Tyimbungu aya m'omukekete, alye ononkhekete. Tyina ati ñgana... Kavandye oyou! Ati:

—Uheye!... Kavandye, otyo apaka omutyila wotyimbungu k'onyima, apake omutyila wongandu k'omeho. Atyiti: —Wateta omutyila wange, Kavandye!!

—Nateta wongandu, kutale? Ati: Lya ononkhetete mukulukai! Akali. Aende kenyana okukanwa. Avasa ongandu yemukevela. Aiti:

—Ove wanthetela omutyila!! Ati: —Ahau! Ahololola omutyila wotyimbungu, ati: —Kutale? Nateta omutyila wotyimbungu ekuyeke. Ongandu aiti:

—Nwa ñgo omeva.

 

2: A Hiena E O Chacal

O Chacal e a Hiena andavam de passeio. Tendo vindo dar ao pé do rio, depararam com um crocodilo. Exclama o chacal:

—O avó, carrega com esse nosso bicho rastejador. Ora o crocodilo tinha-se fingidamente inteiriçado. Pelos vistos o Chacal percebera que o crocodilo estava vivo. O Chacal segue então caminho cantando: A mãe hiena leva um couro as costas. Pois que vá para o rio, para que ele lá a agarre.

—Que disseste? Pergunta-lhe.

—Eu disse: O nosso bicho rastejador... que vá indo... que vá para o rio, a fim de amolecer. Uma vez amolecido, não será então pertença do primeiro? Assim que chegaram ao rio, o chacal sentou-se na riba e exclama:

—O avó, anda, vai pôr de molho! Ainda aparece gente... Tendo-se metido a hiena na água. com ela pelos joelhos, diz o chacal:

—Aí nao! Vai para onde houver muita água. E a hiena, a direito pela água!... até àbarriga. Torna o chacal:

—Chega-te para o pego do rio! Assim que chegou à água funda, virou-se a ela o crocodilo. Ora o crocodilo por debaixo e a hiena por de cima; ora a hiena por baixo e o crocodilo pelo lado de cima. O chacal, logo que os viu cansados, sacou duma faca e cortou a cauda da hiena e a seguir cortou a do crocodile. Quando começaram a sentir dores, separaram-se. A hiena, olhando para a sua Cauda, exclamou:

—Foi o chacal que assim cortou... E acrescentou: Se calhar não nos encontramos mais!... O crocodilo, ao reparar de certo jeito... a cauda já não existe! —e diz:

—Isto foi obra do Chacal!... Se calhar não nos vemos mais!... A Hiena foi-se a um arbusto “Zizyphus jujuba? À procura de fruta para comer. Ao relancear os olhos... cá está o Chacal!

—E diz ela: Tu não venhas para mim!... E o chacal ia colocando escondida a cauda da hiena por de trás de si, enquanto apresentava por diante a do crocodilo. —E continua a hiena:

—Cortaste a minha cauda, Chacal!!

—Eu cortei a do crocodilo; Nao vês? E vai então a Hiena: Come da fruta minha velha. E ele foi comer. Dirigiu-se depois ao rio a beber. Ali encontra o crocodilo àsua espera e diz este:

—Tu cortaste-me a cauda!! Responde o chacal: Não, não! E mostrou a cauda da hiena, dizendo: —Nao vês? Eu cortei a cauda da hiena, para que ela te largasse. Responde o crocodilo: Continua então a beber água.

Narradora: Maria Rosa, viúva de 49 anos de idade, descendente de pais ngambwe (gambos). Gravaçao: Missao da Quihita Julho de 1963. Lingua: Nyaneka

3: Ehunyu No Kavandye

Opopo umwe. Otyimbungu na Kavandye. Ou Tyimbungu wavasa Tyivandye wavaleka ina omihoti. Ati:

 —Olye wahika, mutekula? Ati: Ame, mekulu. nahika! Ati (vali):

—Uhika ng'ou utiwa o Senenge. Ankho uhanda, kateleke ofufwa n'otyihima, oete emphuku lyatyo tutwale ku Senenge. Iya, Hunyu wakaeta emphuku lya ina, n'otyihima, n'otyifufwa, avatwala ku Senenge, k'omuti wofela. Tyino veya, Senenge wati:

—Sêe! Ou Kavandye ati: Vaketu! Twaeta omihoti vyoina a Tyimbungu, vyeya okuhikwa. Ng'oyo okuvandya!.. Senenge ati: Sêe! Atyiti:

—Vaketu! —Sêe! —Vaketu!... Hó! Hayoyo, mekulu, Hunyu? Katyatilwe: “Kakale ononthiki etyinana, iya, uye, uvipole?? Ou Kavandye wapita na Tyimbungu. Ngwe Kavandye kondoka okuya okulya-po ovihima ovyo n'otyifufwa tyatyo. Iya, Hunyu wakakala ononthiki etyinana. Weya k'omihoti vya ina. Ou Kavandye ati: —Aha! Enda-ko ove mwene ku Senege. Mokavasa vyahikw'ale, vyapw'ale. Hunyu, okuya ku Senenge, Senenge wahimbika: —Sêe! Tyimbungu ati:

—Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Hé? E! Tweya okupola omihoti vyo me: ng'oyo okuvandya. —Sêe! —Vaketu! —Sêe! —Vaketu! —Ho! Senenge mphe omihoti vya me. —Sêe! —Mandyiende! —Sêe! —K'onongombe mbange petupu ou mekembulupula. —Sêe! —Senenge, waseta! Mphe omihoti vya me! —Sêe! Sêe! Sêe! —Ho! Senenge, ulingila-tyi ñgana? Iya, Hunyu apolo onkhunye akapula mu Senenge, m'omuti. Iya, onkhunye, etyi yatunda m'omuti, aitila umwe:

—Topa! —m'omphomo ya Tyimbungu Tyimbungu ati:

 —Aye, tava! Tuhalwe m'ononkhunye. Tulwe m'onohoka! Ou Hunyu, tyino akwatela m'omumphapa ngetyi, mu Senenge, omu mwelihonyalna omakete akwanye k'omakutwi. Ati:

—Ehe! Tuhalwe n'onohoka! Ndyeke! Akahateka. Ati:

—Nkhwali ou matiwa otyivandye, himekemuvasa. Okuenda ku Tyivandye, una walinga vali, wavinda ina: —Ho!... (Olunuma olu womihoti welulimbwa ko, wateketa n'otylvlndo tya ina a Tyivandye). Ina a Tyivandye wefiwa!... Olye wavinda? Ati:

—Ame. —Iya, tyivindwa ñgeli? Ati:

—Taindya omakete omanene, otaindya ovityuma vyatyo, otyo upapela, otyo upapela n'omapango. Ng'ellyavela ñgo, ove papela vala, papela vala... okemutwala k'ondywo ill kokule. Iya, Tyimbungu wakwata-ko ina... papele, papele, papele... emutwala k'ondywo eli kokule. Wemulaa ononthiki epandu ati: “Omona wove, Tyimbungu, emutwaile-twaile okulya?. Otyimbungu watuma omona wae okutiwa: “Twaila nyokokulu okulya?. Omona, okutwala-ko, ati:

—Una, mekulu, kamali... Ou Tyimbungu, ati: —Hé! Wefiwa!... Hatyo ahamalila? Hatyetyi efiwa? Muhuka tyé, Tyimbungu ateleka. Omona atwala okulya. Ati:

—Mekulu kamali! Ati:

—Mukwe, wefiwa! Tyikahi n'okuvova pahe. Tyikahi pahe nawa. Wefiwa!... Aú! Ononthlki mbekeya-po epandu. M'oyapandu-vali, Tyimbungu okukatala ku ina... Tyimbungu, ina kemuvahile wavola, ondywo lywile omativa? Hakaluñgano kange? Helengete! Ha mu ove?

3: A Hiena E O Chacal

E desses mesmo que se trata: A Hiena e o Chacal. Esta, a hiena, deparou com o chacal que vestira a mãe com peles amaciadas. E exclamou:

—Quem preparou as peles, meu neto? Resposta: O avó, fui eu que as arranjei! E acrescentou:

—Quem assim as prepara chama-se o Range-Range. Se queres, vai cozinhar uma galinha e pirão e trazes a pele a preparar para a levarmos ao “Range-Range?. Foi então a Hiena buscar a pele pertença da mãe, e pirão, e uma galinha, tendo levado tudo ao “Range-Range?, a uma árvore que se friccionava sob a acção do vento. Ao chegarem, ouve-se o “Range-Range?:

—Chiê! E o chacal responde: Obrigado! Trouxemos-te os vestidos de peles da mãe da Hiena que são para preparar. Eis o que nos traz e nada mais!... “Range-Range? continua: Chiê! E o chacal: Obrigado! —Chiê! —Obrigado!... Ah! Ora, não é, ó avó, Hiena? Não disse ele: “Vais passar oito dias e oito noites e vireis depois buscar as peles? E o Chacal lá se foi mais a Hiena. Mas o Chacal voltou e veio comer aquele pirão e a galinha que o acompanhava. Pois a hiena foi passar oito dias e oito noites. E veio ao depois em busca das peles para a mãe. Mas o chacal objectou:

 —Não, isso não! Vais lá tu mesma ao “Range-Range?. Vais encontrá-las preparadas e prontas. Vem a hiena ter com o “Range-Range? e logo começa este: —Chiê! A hiena responde: —Obrigado. —Chiê! —Obrigado! —Chiê! —Obrigado! —Entao?!... Pois bem. Vim buscar as peles para a minha mae: eis o que me traz.

—Chiê! —Obrigado! —Chiê! —Obrigado! —Oh! O Range-Range, dá-me as peles para a minha mãe. —Chiê! —Tenho de me ir embora! —Chiê! —Olha que não tenho ninguém para tirar os bois do curral. —Chiê! —Range-Range, estás a demorar. Dá-me as peles para a minha mãe! —Chiê! Chiê! Chiê! —Oh! Range-Range, porque procedes assim? A Hiena saca então de um porrinho, e joga-o ao Range-Range. E o porrinho ao fazer ricochete na árvore, veio de lá mesmo:

—Pumba! —a bater na testa da hiena. Exclama esta:

—Assim não, companheiro! Não vamos ámocada! Peguemo-nos com as unhas! Esta, a hiena, ao querer agarrar-se à árvore em questão, a deivar-se ao Range-Range, onde se emaranhavam espinheiros, estes arranharam-na nas orelhas. Gritou esta:

—Nada! Não lutemos com as unhas! Larga-me! E largou dali a correr, dizendo: —Aquele que se chama Chacal, se calhar não vou apanhá-lo. Uma vez Junto do Chacal, já ele arranjou outra, enfeitou a cabeleira da mae.

—Oh!... (Já esquecera a zanga das peles e prendeu-se logo pela cabeleira da mae do Chacal). A mãe do chacal está bonita!... Quem lhe fez a cabeleira? Diz o chacal: Fui eu.

—Entao como é que se faz? E diz ele: Tu procuras uns espinhos que sejam grandes e arranjas os devidos pertences e vais pregando tudo, vais martelando com paus grossos. Mesmo que grite, tu martela sempre, martela sempre... e leva-la para um aposento afastado. Então a Hiena agarrou a mãe... toca a martelar, a martelar, a martelar... e levou-a para um aposento afastado. O Chacal havia-lhe marcado seis dias, dizendo: Olha, Hiena, “o teu filho que lhe vá levando de corner?... A Hiena mandou seu filho: Leva de comer à tua avó. O miúdo leva e vem dizer;

—A avó não quer comer... A hiena, essa, exclama:

 —Ah! Está bonita!... E por isso que não come, não? Nao é porque está bonita? No outro dia a hiena cozinhou. A criança leva o comer e vem dizer:

—A avó não come! E a Hiena: Olha, é que está bonita! Está agora a cabeleira a amaciar. Agora é que está bem. Ficou bonita. Pois sim! Chegou o prazo dos seis dias. No sétimo dia vai a hiena visitar sua mãe... E não aconteceu que a hiena foi encontrar sua mãe podre, num aposento cheio de vermes? A minha històriazinha, não? Ela escapuliu-se! Nao é agora a tua vez?

Narradora: Celina, casada, de 31 anos de idade, descendente de pais ngambwe(Gambos). Gravaçao: Missaao da quihita Julho de 1963. Lingua: Nyaneka. Os dois episóodios deste conto figuram também, o primeiro num conto cuanhama e o segundo numa narração humbe (nkumbi). Ambas são inéditas. A historieta macabra do penteado faz igualmente parte de uma narrativa Bunda (Mbundu), publicada por Hauenstein, mas nela o papel do Chacal édesemenhado pela Lebre. “Bolettm do Institute de Angola N.o 21/33 —Luanda 1965

4: Ongalanga Na Kavandye

Ovongalanga na Kavandye kumbi limwe, velihindila vakavake ononkhombo m'omaumbo. Etyi ongulohi yeya-po avelipake m'ondyila. Vehike vavasa otyinyongo tyononkhombo. Okutala, atyiho tyilele, Kavandye ati ku Ngalanga: —Nyingila-mo, ove mukulu una vali ononkhono ku ame, ukwate-mo onkhombo mandyikulekesa yokwanina vali. Ame pano pondye simbu ndyilava vahekulu, ankho vapahuka-po. Engalanga m' okwahanoñgonokele okuti Kavandye umulavisa okuhanda okumuipaesa, watavela okunyingila m'otyinyongo. Ngalanga akwate onkhombo onene yom'otylnyongo. Ou Kavandye n'okuywela ati:

—Oyo hayo! Kwata ina onene vali! Ngalanga eikwata. Kavandye ati vali p'eulu:

 —Oyo hayo! Vahekulu etyi vetyiiva avapahuka-po, avahateke n'ononkhunye okutala otyityi tyili k'otyinyongo. Kavandye, okwavahiwa kondye, ai nkholo. Ngalanga, ongo omo avahiwa. Vahekulu vononkhombo avakwate Engalanga; vete, vete onombolo omutwe auho. Ngalanga okuti opo ahupe, elinkhisa okamwenya-mwenya. Etyi esala-po aeke, ava m'okuti vaipaa, ou akahateka okukataindya Kavandye. Kavandye m'o-kuhinangela etyi avetesa mukwavo pohi ya Huku, okuti hamwe kumbi vekelimona, p'okuti opo vahalinge oundyale, Kavandye okumona Ngalanga uya, elilangalesa-po, k'omaiho ahininika ng'ou wankhia. Ngalanga afwene-ko ati:

—Uh! Ndenge yange! Wekuipaela! Hono ndyienda n'api? Pahuka-po ndyikutwale k'epata. Kavandye apahuke-po ati:

—Mukulu wange, hityivili okuenda, nkhwali monthindi p'otyipepe tyove. Ngalanga okuti ulavisiwa na Kavandye, ketyinoñgonokele, wapola kavandye okumutyinda k'otyipepe tyae. Etyi vati m'ondyila Kavandye uenda n'okuvalula onombolo mba Ngalanga avetelwe. Ngalanga eya m'okuti:

—Otyityi uvalula? Kavandye ati:

—Ndyivalula onongombe mba tate mbumonekela k'ehimba kuna. Iya. otyo vaenda otyo, ló vehika k'epata. Etyi vehika, Kavandye watila ovahikwena vavasa m'eumbo okuti:

—Ngalanga utupu etyi asovola, vehemutambaule vali p'omaumbo avo, etyi atopa unene. Ankho vahanda vatale k'omutwe wae onombolo ena mbo. Ovahikwena okutyimona, Ngalanga atewa-tewa p'okati k'“ovanthu?.Tya Ngalanga tyilipake m'ondyila yo k'ovavo.

4: A Hiena E O Chacal

Em certo tempo, a Hiena e o Chacal, combinaram um dia ir roubar cabritos numas casas. Ao cair da noite puseram-ae a caminho. Tendo chegado a uma habitação deram com o curral cheio de cabritos. Repararam que toda a gente estava a dormir. O chacal disse à Hiena:

—Salta para dentro! Tu és mais velha e tens mais força do que eu. Apanha o cabrito que eu te indicar, um dos gordos. Quanto a mim, fico cá fora a observar se os donos acordam ou não. A Hiena —não compreendendo que o Chacal estava a enganá-la, porque na verdade ele desejava que a matassem —prontificou-se a entrar no curral. Nele agarrou um grande cabrito. O Chacal gritou então em alta voz:

—Esse não mas o outro além que é maior! A hiena agarrou-o. Berrou o Chacal novamente:

—Esse não! Os donos ao ouvirem o barulho acordaram do sono, pegam em mocas e correm para o curral, a fim de ver o que havia. O Chacal estando fora do cercado, põe-se ao fresco. A Hiena, essa, encontram-na dentro do curral. Os donos das cabras agarram a hiena e dão-lhe uma valente tareia, cobrindo-lhe a cabeça de contusões. A Hiena não vê outro meio de escapar do que fingir-se morta. Depois de ter ficado só —porque os que lhe bateram julgam-na morta —vai à procura do Chacal. Este ao lembrar-se que, sem motivo causara pancadaria à companheira, com o propósito de evitar que se tornassem inimigos, deitou-se no chão com os olhos fechados a fazer de morto. No entretanto a hiena aproxima-se e exclama:

—Coitado, meu priminho! Deram cabo de ti! Para onde hei-de ir hoje? Acorda para eu te levar para casa. O Chacal acorda e diz:

—Minha boa prima, não posso andar, só se me levares aos ombros. A Hiena não repara que o Chacal estava a iludi-la. Assim pega no Chacal para o transportar aos ombros. Ao caminhar desta maneira, o Chacal põe-se a contar os inchaços que a hiena ostentava na cabeça. Pergunta esta:

—O que estás aí a contar? O chacal responde: —Conto os bois do meu pai que estão a aperecer além na outra banda. Assim vão andando até chegarem a casa. Ao entrar pelo cercado, o Chacal diz às raparigas que estavam em casa:

—A Hiena não presta para nada: Diz isto para elas não a receberem em casa, por ser tão estúpida. Elas só queriam contemplar as contusões que trazia na cabeça. Após o que, a escorraçaram do meio dos “homens?. A Hiena tomou o caminho para onde estavam os seus familiares.

Narrador: Carlos Mário, casado, de 35 anos de idade, descendente de pais Cuanhamas, professor. Escrito pelo mesmo, Missão do Munhino, 1968.  Língua: Nyaneka, com vocábulos do dialecto humbe (nkumbi). Os episódios deste conto são muito semelhantes à quarta historieta do conto no . 1. O último lembra o final da narrativa cuanhama, sob a mesma epigrafe, já publicada. Esta quarta variante do mesmo tema, ora transcrita, tornase algo arreliadora pela insistência.

 

 

 

 

A CONTOS DE ANIMAIS II

Outros animais (cinco narraçoes) 5 a 9 5:

5. Onkhulika N'okavandye

Otyimbandye ankho tyikala, n'onkhulika. Etyi onkhulika hono yankhya ondyala, aihande okukwata otyimbandye. Otyimbandye atyiti:

—Mekulu, otyityi tyina ulinga? Ati:

—Nankhya ondyala!... Ati: —Ankho wankhya ondyala, uhaminye, ame ndyikuihanene ovinyama ovinyingi. Otyimbandye atyilipilika n'okutunga otyunda otyinene, tyin'ovipandyi ovinene, atyipopila onkhulika atyiti:

—Pahe ove langala-po olinkhisa okamwenya-mwenya, otale m'eiho like, eli limwe ohininika. Onkhulika ailangala-po. Okambandye akaende p'omuti ng'oko kalonda akahimbika okuimba: “Ula-ule, mundanda! U! ula-ule, mundanda! U! Endywei mutale ondumbu yankhila pano. U! Yankhya okaiho keke. U! Yankhya okaiho keke. U! Okamwe katala ovawa. U! Okamwe katala ovawa. U! Kavendamena omalenga. U! Ula-ule, mundanda. U! Ula-ule, mundanda. U! Akuya otyunda tyovipundya 109 . Etyi vyeya, avitalama, aviti:

—Otyityi? Ati:

—Omukulukai wankhya. Onwe ka'elei opo. Onwe kamutyivili-ale okumutyinda. Ame ndyihanda ovinyama ovinene. Iya, aimbi vali: “Ula-ule!... etc., etc. Watala-ko ngo, ovihine 110 vyeya, omutanda wovihine, aviho vyelifwila-po. Ati:

—Onwe hanwe-ko. Onwe kalelei vala apa. Onwe muvokulila. Onwe, okukwata omukulukai?!... onwe kamumuvili-ale. Aviti:

 —E! Apaleka vali okuimba: “Ula-ule... etc., etc. Watala-ko ñgo, vyeya ovinyama aviho: n'onongrolo, n'onongunga 111 , n'onongelenge... 112 atyiho. tyeya atyiho; n'onondyamba mbeya. Atuluka, amoneka okuya, ati:

—Lyepei-ko! Avetavela. Ondyamba aiti:

—Otyityi? —Nekuihana ove, mukulu wotyilongo. Omukulukai wateka... Ati: Wateka?!... Ati: E! —Uli-pi? —Endywei ndyimutwale. Ulangi pana. Ati:

—Tate!... Pahe matyilingwa ñgeli?

—Ati: Haihanene umwe ove, mukulu? Evi, ovipuka evi, kavyatile, vati okulikemba okuti: “Matutyindi?. Andyiti: “Omukulukai kamamumuvili? Pahe hatile: Omukulu mwene etyiye? Ati:

—Omu! Okuenda-ko k'onkhulika okuitala. Tyino lhanda okuminya, Kavandye eiteyela —k'elho —okuti: Uhaminye, vafwenaine pu ove... eiteyela k'eiho. Avafwene aveho. Aveongo otyikundyi ngetyi, aviho avilisete. Aveya avahonyena-po ngetyi. Okwati:

—Amuho, umbililei-ko! Endywei! Evi, ovina vyatyo... onwe, kalelei vala ng'oko. (Tyetyi utyii-ale. Okuti apa ovakulu vaya nkholo apa, evi ovipundya mavilyatwa vala k'omakondyo). Hakumoneka okuya? Tyina ngo ondyamba yatile ngo ndyikwata ñgo ngetyi, onkhulika yanyunguluka-po-ale. Aviteke... Okututumuka ovipundya vyalyatwa, ovihine vyalyatwa, onongolo mbumwe mbaliwa... Kwate-kwate... onkhulika... kwate-kwate... Onondyamba mbakaulula umwe, mbakapita umwe. Evi, ovitutu vyatyo vyankhya umwe k'okulyatwa. Ha vihakapita umwe? Kavandye ati: Iya, kutehela Mekulu etyi napopile? Ohitu kayakakele ei? Iya, pahe etyi “mauli? ame, figeno pahe wekuta-tyi? Onkhulika aiti:

—Walinga, mona wange!... Aiti: —Tuyuve. Pola onkhiki tuyuve. Kavandye avati 113 : Yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve, yuve... Omala atyo, otyo, vapakela umwe opo. Omala aeho aveeongo onthunthu... Omala aeho aveeongo onthunthu... Omala aeho aveengo onthunthu. Omala aeho apakelwa umwe opo. Ohitu ityayo, omala etyao. Etyi vamana okuyuva, onkhulika aiti:

—Kavandye! Ati: E! —Utyii? Ati: E?... —Tyove omala; etyi. Ohitu hayove-ko. —Ohitu hayange?... Ati:

E! —Ame naihanene ovinyama... Ove, ohitu aihamalingi yange?!... —Ya. Ati:

 Otyili. Otyo atala. Kavandye otyo epumphi. Etyi ekumbi lyetaka, kavandye ati:

—Mekulu! Ati: E? Ati: Mandyiende k'eumbo. Ati: —Moende k'eumbo? Ati:

—Ya. —Iya, moende k'eumbo... omala... ove uheese-po. Ati: —Ewa! Kavandye apolo-ko okamuti apake-ko ela like. Atyindi p'otyipepe. Onkhulika aiti:

—Ove kavandye! Ati: —E?—Otyo motyindi nga tyina? Uhatie umwe mandyikupe ohitu. Omala oove umwe o! Ati:

—Vaketu! Ndyikaihana omukai wange eye tutyinde. Kavandye wakapita oko. Wakapopila omukai wae. —Tehela etyi tyalinga omukulukai ... Nemuihanena ovinyama ovinyingi-nyingi-nyingi... Waipaa, waipaa, waipaa... Pahe pano wampha omala. Tyatiwa óoange... Ohitu kamphele. Omukai ati:

—E?!... Ati:

—Ya. Ati vali: —Kevela... Ati:

—Uhalinge. Hamwe muhuka... hamwe mekupe... Ati:

—Asele! Lityitake umwe ekumbi, mandyikemuhongela-ko p'ohitu yae opo. Etyi ekumbi lyetaka, lyanyingila, kavandye wavala... n'omakumbi, n'onohanyl, n'ononthungululu, n'omikonkho, n'onongendyo... aviho! Wavala aviho. Oku atundilila, kuti vala: Lyai! Kuti vala: Mbolooo!... Ndeleee!... Mbolooo!... K'ounthiki kwanthikovela onkhulika wanthiakana ehunga limwe enene lyotupya. Welipulukwa n'okulya. Ketyii vali. Ou, etyi ehika popepi n'onkhulika, onongendyo wembukwata ñga “pala? mbahaywele. Otyo ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila, ayombaila... Etyi eya umwe popepi, eviyeke, aviti umwe: Mbwalaa!... Onkhulika, etyi yelityinda apa aikelimbutula umwe kuna... Ekeikwamena-po vali: Mbwaalaa!... Aikelimbutula. [Page 66] Ekeitaate, ekeitaate, ekeitaate... “te? umwe onkhulika yakapita lumwe kokule. Kavandye akawana omukai wae. Ati:

—Endyu tuende tukatyinde ohitu! Okuya okutyinda-po ohitu, onkhulika opo yakapita, yakalaveleya, ati:

—Kavandye, mphopile! Kavandye mphopile! Mona wange mphopile! Mphopile, naliwa! Ohitu veya okuityinda-po vokavandye, vapita. Aiho yapwa-po umwe. Tyino muhuka kutya, vati ñgo ngetyi... onkhulika oyei!... Aiti:

 —Mona wange, Kavandye! Ati:

—E? Ati: M'ongulo, ankho mandyipwila n'okukuihana!... Pen' otyinyama tyeile okunthyongela p'ohitu yange apa. Pahe, nakatalele-po ñgo... Petupu ñgo, n'o'koholo-ale! Ati: N'ame otyinyama tyatyo oku tyatundilila ku ame. Ame pahe, n'ame ankho ndyiivala: “Vakwe, pahe otyinyama etyi.... Omukulukai matyikemulinga ñgeli? Uli p'ohitu yae. Naina tyeile okukuhonga?

—Tyeile okunthyonga! Ohitu yange hepwilile-ale n'okuyuva?! Ankho nekupele-ale, ñgeno hahe, mona wange. Pahe tyitiwa: Ku ame kai-ko, ku ove kai-ko... Nanuminine... N'omala atyo... atyiho!... Enyama lyaly'ale, eli lumwe lyeile okunthyonga. Okaluñgano kange oko!

5. O Leao E O Chacalzinho

O Chacal morava junto com o Leão. Como certo dia o Leão tivesse fome, queria deitar-se ao Chacal. Diz-lhe o Chacal:

 —Ó avó, que é que vais tu fazer? Respondeu:

—Estou com fome!... Replica o Chacal: Se estás com fome, fica aí quieto, que eu te chamarei muita bicharia. E o Chacal atarefou-se a construir uma grande sebe, com enormes forqui-lhas e falou ao Leão dizendo-lhe:

—Agora tu deitas-te e finges-te morto, vais olhando por um olho e fechas o outro. O Leao deitou-se por terra. O Chacal dirigiu-se a uma árvore que ali havia perto, subiu a ela e começou a cantar: “A chamar, a chamar, ó multidão! A chamar, a chamar, ó multidao! Ai! Vinde ver o leão que morreu neste lugar! Ai! Morreu de um só olho! Ai! Morreu de um só olho! Ai! O outro olha os apetitosos. Ai! O outro olha os apetitosos. Ai! Está a espreitar os anafados! Ai! A chamar, a chamar, ó multidão! Ai! A chamar, a chamar, ómultidão! Ai! Apareceu um bando de “Punjas?. Chegaram, pararam e disseram:  

—Que há? Respondeu:

—Morreu a velhota. Ficai ai vós. Vós não podeis carregar com ela. Eu quero animais corpulentos. Então recomeçou a cantar: “A chamar, a chamar... etc. Ao deitar os olhos, eis que chegam as “hines?, um bando delas, todas ali estão. E diz o chacal:

—Vós também não. Limitai-vos a ficar aí. Vós sereis carpideiras. Transportardes vós a velhota?!... Vós não podeis com ela. Elas responderam: Está bem! E recomeçou a cantiga: “A chamar, a chamar... etc. Volta ele a olhar e ei-los, toda a espécie de animais: as zebras, os pofos. os guelengues... tudo, tudo veio; até os elefantes vieram. Ele desce, dirige-se a eles e diz:

—Sede benvindos! Todos responderam. E pergunta o Elefante:

—Que há?

—A ti é quem eu chamei, o maioral da terra. A velhota morreu... Exclama ele: Morreu?!... Responde o chacal: Sim!

—Onde está?

—Vinde que eu acompanho-vos. Jaz acolá por terra. E o elefante:

—Ena pai! Como há-de proceder-se agora?

—Resposta do chacal: Para isso te chamei eu a ti, o maioral! Estes aqui. “estas coisas?, não vieram com a deles. a iludir-se a si mesmos, afirmando: “Nós vamos transportar?. E disse eu: —Vós não podeis com a velhota. Não entendi eu pois: Esperemos que chegue o maioral?

—Observa o Elefante: E isso! Lá vão até ao Leão a observá-lo. Ele a querer mexer e o Chacal pisca-lhe um olho —quer dizer: Não te mexas, deixa-os chegar ao pé de ti... e pisca-lhe um olho. Aproximaram-se todos. Reuniu-os a ficaram todos de pé, fazendo roda. E eles vieram e assim se juntaram. Então exclamou:

—Assim, todos vós àr oda! Vinde! Estes, miúdos como são... bem, vós ficais aí e mais nada. (E que ele já sabe. Quando os grandalhões fugirem por aqui, estas punjas serão simplesmente calcadas pelas patas dos outros). Não começaram os tais a aproximar-se? Logo que o elefante armou, assim, o gesto de agarrar, o leão levantou-se num rompante. E aleijaram-se... (a fugir). Na fuga precipitada, foram calcadas as punjas, foram calcadas as “hines?, algumas zebras mortas a dente... agarra-que-agarra o tal leão... agarra-que-agarra... Os elefantes foram-se aos berros, foram-se decididamente para longe. Os animais pequenos, esses, morreram calcados pelos outros. Não é dizer que os grandalhões se rasparam? Comenta então o chacal: Pois, ouve cá, ó Avó, não aconteceu como eu disse? Não é abundante esta carne aqui? E tu então que me querias comer, que fartura terias tu alcançado? Responde o Leão:

—Fizeste bom trabalho, meu filho!... E acrescenta:

—“Vamos esfolar. Pega na faca para esfolarmos?. Ei-los, Chacal e companhetro, esfola-que-esfola... esfola-que-esfola... esfola-que-esfola... As tripas, vão-nas pondo ali à parte. Juntaram as tripas todas em monte... Juntaram as tripas todas em monte... Juntaram as tripas todas em monte... Puseram pois todas as tripas à parte. A carne a um lado e as tripas a outro. Assim que acabaram de esfolar, diz o Leão:

—Ó chacal! Responde este: —Que é? —Sabes uma coisa? Responde ele:

 —O quê?... —Tuas são as tripas; isto aqui. A carne não é tua.

—A carne nao é minha?!... E o Leão: Sim.

—Eu que atraí os animais... Olha lá tu, e a carne agora não vai ser minha?!... —Sim. Diz o chacal: E verdade. O leão fica a olhar. E o chacal continua assentado. Ao cair da tarde diz o chacal:

 —O avó! Resposta: —Que é? E o chacal:

—Eu vou para casa. Diz o leão: Vais para casa? Responde o chacal: Sim.

—Pois então, tu vais para casa... e as tripas... não as deixes ficar. Resposta:

 —Está bem! Pegou o chacal num pauzito e dependurou-lhe uma tripa. A seguir carregou ao ombro. Diz-lhe o leão:

—Olha cá, ó chacal! Diz este: Que é? —É dessa maneira que vais carregar? Não penses de modo algum que eu te dê carne. Essas tripas é que são para ti! Resposta: Obrigado! Eu vou chamar a minha mulher para fazermos o transporte. O chacal foi-se em determinada direcção. Foi conversar com sua mulher. —Ouve cá o que me fez a velhota. —Juntei-lhe muitos animais, muitos, muitos... E ela matou, matou e tornou a matar... Pois agora deu-me as tripas. E a dizer que essas éque sao minhas... Carne não me deu. Diz a mulher:

 —O quê?!... E o chacal: Sim. E acrescenta: Mas espera... Observa a mulher: Não faças nada. Talvez amanhã... Talvez te dê... Resposta: Isso nao. Deixa que o sol se ponha, que eu vou pregar-lhe um susto láa ao pé da sua carne. O sol foi-se inclinando e desapareceu, e o chacal vestiu-se... de sois, de luas, de estrelas, de chocalhos, de campainhas... tudo! Vestiu-se de tudo. De qualquer lugar que venha, o efeito é só: Luz brilhante! E só:

—Dlão!... Dlim!... Dlão!... De noite, pela escuridão, o Leão acendeu um lumarao de fogueira. Está a comer descansadamente. Esqueceu tudo. O chacal ao aproximar-se do leão, apanhou as sinetas nas mãos, para não fazerem barulho. E lá foi pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé... Chegado muito perto, largou-as e elas fizeram mesmo assim: Badalão! O leão, saindo aqui deste lado vai esbarrar-se acolá do outro... E o chacal tornou a segui-lo: Badala!... E vai outra vez esbarrar-se. E o chacal persegue-o, persegue-o, persegue-o... até que o leão foi deveras para bem longe. O chacal foi ter com a mulher E diz-lhe:

—Vem daí para levarmos a carne! Vindos a carregar a carne, o Leão largou a chamar, lá do lugar para onde fora, dizendo:

 —O chacal, socorro! O chacal, socorro! Socorro “meu filho’! Socorro, que sou devorado! A carne, os chacais levaram-na e foram-se embora. Não ficou mesmo nada. No outro dia ao amanhecer, ao deitarem os seus olhares... ei-lo, o Leão... E diz ele: —O “meu fillho?, óChacal! Responde:

—Que é? E diz ele: Ontem, estava cansado de chamar por ti!... Veio uma fera meter-me medo ali Junto à minha carne. Agora, ainda lá fui ver... E é que não há, nem um bocadinho! Diz o chacal: E eu também... a tal fera começou por vir pelos meus lados. E eu então comecei a dizer cá comigo: “Ora vejam, uma fera destas... que é que irá fazer à velhota? Está lá ao pé da carne. Afinal veio assustar-te?

—Veio assustar-me! A minha carne, não me cansei eu inùtilmente a esfolá-la?! Se eu tivesse dado, teria sido melhor, meu filho. Agora é assim: —eu estou sem ela, e tu sem ela estás... Eu recusei-a... Até as tripas... tudo!... Aquela grande fera devorou tudo, essa mesma que me veio amedrontar. Ei-la, a minha historiazinha!

6: Ovo Mbambi Na Ndimba

Opopo umwe. Ovo Mbambi na Ndimba velivasa m'ohika. Ndimba ati:

—Tava tukeliholamene. Mbambi ati: Tyikahi naua. Iya Ndimba ati: Tetekela-ko ove! Iya, Mbambi avunduluka-po. Ati: hombwa; wavasa okafo ng'opo avunda. Iya ati:

—Pahe endyu, upupule! Ndimba eya okuovola, waenda-po vala katutu, apononoka, ati: —Iya, have ou tava? Iya, Mbambi avunduluka-po. Ati:

—Pahe kuende, kaholame-ko ove!

—Ndimba ati: Etyo! Hombwa, hombwa, hombwa, wavasa okambumba. M'okambumba ng'omo welinyingilika. Iya omatwi ... k'okutwi kumwe apake-ko ombinga; okumwe ekuyeka vala ngotyo. Iya pahe ati:

—Endyu, utaindye! Iya Mbambi eya n'okuya okuovola, okuovola. Etyi ati-ko ngetyi welihaka k'okambumba ken'okutwi nthele imwe; k'okutwi kumwe kun'ombinga. Mbambi ati:

—Etyi hono ovipo namona! otyipuka patyi etyi namona? Ouye wange hono wahula! Iya, otyo vala Ndimba amwena-po. Iya Mbambi pahe ahimbika okuihena ovabichos kulu. Ovinyama aviho viye, vitale otyipuka etyi amona. Ati (n'okuimba): Onwe vonkhulika, endywei mutale. Kambandi kamena ombinga kutwi kumwe! Kamena ombinga kutwi kumwe! Onwe vongolo, endywei mutale! Kambandi kamena ombinga kutwi kumwe! Iya, ngotyo alhena ovinyama aviho, otyo viya, otyo viya. Otyinyama tyiya-ko, tyiti Vala:

—Etyi-katwetyimwene ale. Etyi hono otyipo tyove, etyi. Mbambi okutehela ovinyama ovinene, ovonkhulika, n'ovondyamba, vati vala: Otyipuka etyi katwetyimwene-ale, otyipo tyove. Ahau! Atyimuavela owoma omunene, ati:

—Hono mandyinkhi! Iya Mbeu ulwa n'okuya: Kalakaha! Kalakaha! Ndyamba ati: —Etyi pane tyienda n'api, etyi? Ndyamba ati: Onthwe vakulu katwetyimwene-ale, ove pahe motyimono etyi? Asi! Atokela-ko ku Mbeu n'okumulyata. Iya mané okumulyata, ahimbika okulitunga vali ngetyi ali ale. Ng'apa Ndyamba ati: Ndyikemulyata vali! Nkhulika ati:

—Muyeka vala! Iya onthwe pahe tuvakulu katwetyimwene ale; mwene eye vala hekulu, elitalele-ko k'otyipuka etyi tyamonwa, tyahamonekele ale, tyilinge tyovanthu aveho! Iya Mbeu hakwayekwa, afwenaina-po. Etyi eya-po akwata m'okutwi kwa Ndimba okukuyelulila p'eulu ati:

—Ove ulingwa Mbambi, watopa; ha Ndimba ou mweliholamena na e? Iya emuyelula-po; okumona. tyili Ondimba. Ovakulu vohika, ondyamba no vonkhulika avati: Ha! Naina Mbambi walinga omapita! Ove utyi okuti mweliholamenene na mukwenyi. Ove, otyo tyekuenda vali ñgeli?

—Onwe mulinga ovinyama ovikwavo, ovo Mphala na Mphulu, onwe mukwatei, mukutei! Tyino twati m'ondyila, tumulingei onkhuta yetu, tumulye-po. Iya avemukwate, avemupake m'omutengi. Ovinyama pahe vilwa n'okukondoka k'ovilongo vyavyo. Etyi vyati pokati, avati mukutululei, muetei kuno, natumulye! Ongo Mbambi ati:

—Votava yange, tehelelei, tyatiwa nkhutululei-mo! Iya vana n'okwaponwa, tyina vemukutulula, Mbambi akahateka n'om'ohika Iya tyina veya p'omphangu yovakulu apa vepumphi, maveya okulila Mbambi okupula:

—Iya onwe vokwatyindile “omunthu? una, ulipi? Ou twatile okuti mutyindei? Hamwe mwati okuti mukutululei? Avati: Onthwe katwetyitolele. Iya pahe? Onwe mamupingi-po. Avakwata ovo Mphulu na Mphala, ng'ovo valiwa-po p'omphangu ya Mbambi ou vayeka wakahateka-po. Iya pahe ng'ovo valiwa-po... Iya pahe oluñgano yovo Ndimba na Mbambi yapwa. Sambulikiti mu ove!

 

6: O Antilope Mbambi E A Lebre

O Bâmbi e a Lebre encontraram-se na floreata. A Lebre diz

—Compadre, vamos brincar às escondidas. Responde o Bâmbi: Está bem. Diz a Lebre: Começa tu! O Bâmbi dá uns saltos até encontrar uns arbustos. Nele se ocultou. Diz então:

—Vem agora descobrir-me. A Lebre segue o rasto, andando muito devagar, abaixa-se e exclama:

—Não és tu, compadre? O Bâmbi sai do esconderijo e diz:

—Vai agora tu esconder-te!

—Está bem, diz a Lebre. A Lebre dá uns saltos até encontrar um pequeno morro de salalé. Ali se meteu. Põe as orelhas desta maneira: Numa coloca um chifre; a outra fica sem acréscimo e diz:

—Vem então procurar-me! O Bâmbi põe-se a seguir o rasto. Andando assim dá contra o morro de salalé. Neste sobressaem; dum lado uma orelha simples e do outro uma orelha acrescentada de um chifre. Exclama o Bâmbi: Hoje eu vi coisa espantosa. Que coisa que eu vi! Hoje a minha vida chegou ao fim! A Lebre, essa, ficou sossegadinha. O Bâmbi lembra-se então de chamar os bichos mais velhos. Que todos os animais venham ver o que presenciou. Canta então e diz: Vós, os Leões vinde e vede! Ao pequeno morro cresceu um chifre numa das orelhas. Vós, Zebras vinde e vede! Ao pequeno morro cresceu um chifre numa das orelhas! Nasceu um chifre numa das orelhas! Assim foi chamando todos os animais. E todos vieram e verificaram. Cada bicho ao chegar e notar a coisa disse:

—Ainda nao vi tal. Isto é caso para te inspirar medo. A tua vida chegou ao fim. O Bâmbi ao ouvir os animais grandes, os leões e os elefantes a afirmar:

 —Nunca vimos coisa semelhante. E caso desastroso para ti, ficou repassado de medo e disse:

—Vou morrer hoje! Ouve-se então o Sapo-Concho que se aproxima, num passo arrastado: Raspa-que-raspa... exclama o elefante:

—Onde vai agora, este animalejo? Nós os velhos nunca vimos tal coisa, e tu agora vais observar melhor? Ora esta! Lança-se sobre o Sapo-Concho e esmaga-o. Mas este depois de ser calcado, retoma a sua forma habitual. Diz o elefante: Vou metê-lo novamente debaixo de minha pata. O Leão diz:

—Deixa-o em paz! Pois se nós os velhos ainda não vimos coisa semelhante, que venha ele pessoalmente e verifique! Que esta coisa que nos apareceu seja conhecida por toda a gente! O Sapo-Concho, sem ser mais molestado aproxima-se do morro. Ao chegar, puxa pela orelha da Lebre, levanta-a e diz: —Tu, Bâmbi, és muito estúpido. Não é a Lebre, com a qual jogavas às escondidas? Mostrou-a e todos viram que era a Lebre. Os antigos da floresta, o Elefante e o Leão disseram:

—E demais! Tu Bâmbi, fizeste muito mal. Tu sabias que jogavas às escondidas com a tua companheira, como é que arranjaste esta história?

—Vós animais amigos, “Impala? e “Guelengue? agarrai-o e amarrai-o. Que ele nos sirva de repasto na nossa caminhada! Vamos comê-lo! Agarraram-no e o ataram a uma vara colocada aos ombros. Os animais apressaram-se então a ir para as suas terras. Chegados a meio caminho disseram: Desamarrai-o e trazei-o cá para o comermos! Porém, o Bâmbi observou: Estais a ouvir companheiros; a ordem é de desamarrar! Estes, achando-se cansados, o desamarraram. O Bâmbi escapuliu-se para a floresta. Os que vinham com o Bâmbi, ao chegarem ao lugar onde estavam os grandes que queriam comê-lo, estes perguntaram então:

—Vós que recebestes ordens de transportar aquele “individuo?, onde o deixastes? Aquele que nós vos ordenamos para o transportar! Ou talvez julgastes que era para o desamarrar? Não demos tal ordem. E agora? Ficais vós a substituí-lo! Atiraram-se assim à“Impala? e ao “Guelengue? em substituição. Agarraram pois, o “Guelengue? e a “Impala?. Estes serviram de comida em vez do Bâmbi que tinha ficado livre e havia fugido. Aqueles é que foram devorados. Agora o meu conto da Lebre e do Bâmbi acabou. Açaime para si!

Dados biográficos e outros, como no no. 4. Gravação: Missão do Munhino, Outubro de 1963. Língua: Nyaneka. Um conto semelhante existe entre os Humbe. Porém o protagonista éo chacal que se esconde na terra, deixando apenas aparecer os dentes. O primeiro animal a pela maravilha de a terra ter “germinado dentes?, é a hiena. Esta, foi chamando os outros e ninguém sabe explicar o prodígio senão o Sapo-Concho. Esta narrativa foi publicada no segundo volume da “Etnografia? 40 . Ver também o conto muito semelhante no volume de H. Chatelain: “Jackal and Hare?

7: Otyindimba Na Kangwe

Opopo umwe. Ovotyindimba na Kangwe, vena ovoina ovakulukai. Ou Tyindimba ahimbika okuti:

—Tava, omakulukai a etupwilisa okunyanga. Pahe ankho tweeipaele aehena vali ovilinga n'onthwe. Okuveipaa lumwe. Tyingwe okupola-po ina n'okukemuipaa. Ina ya Tyindimba, ekemuholeka k'ondyimbo, avakala umwe opo. Tyindimba waipaa vala ohitu, ou tyingwe aipaa ina. Avateleka. Etyi vekuta, avati:

—Pahe tulile, ovomê. Eta olufwo olo. Alutetekela ku Tyingwe. Ati:

—Tulye otyovotyovo. Omutima ndukutu-ndukutu. Mutima! Ndiivale ku meyo! Mutitma! Ndiivale ku meyo! Olufwo aluyulu auvu-hi. Aluya ku Tyindimba.

—Tyindimba kulili?

—Tulye otyovotyovo. Omutima ndukutu-ndukutu. Mutima! Ndiivale ku meyo! Mutima! Ndiivale ku meyo! Olufwo, “ni? vala katokehilile-mo-ale. Ou ati: Kulili umwe nyoko? Ou ati: Mulume, okulila-lila otyovakai, hatyetu-ko ovalume. Pakela vala oko. Avati: Tuendei tukayeve. Okuyeva, okuyeva... aveya vali k'ongulohi. Okuhimbika vali, avali. Ou Tyindimba apaleka tupu:

—Tulile ovomê, tava. Aluya-ko ku Tyingwe. Ati:

 —Tulye otyovotyovo (ut supra). Aluya ku Tyindimba tupu. Ku Tyindimba oko, kalilile-ale. Atyiimbi: (ut supra). Asele! Ove tava kulili? Ati:

 —Okulila okwovakai. Hatyetu-ale onthwe valume. N'etyi tulila okwalinga vala. Muhuka etyi vati vakayeva, Tyingwe ati:

—Ndyihula oku. Etyi avasa umwe ina ya Tyindimba, ati umwe onkhunye: Topa! Omwalikai aikatandavela k'ondy mbo oko. Etyi vahimbika okuyeva, atundilila oko, ati akataindyile ina okakulya, ati:  

—Ame ndyikwata oku, ndyikataindya ovahikwena vange. Okuya ku ina... Meyé, ina a Kandimba! Meyé ina a Kandimba! Asele! Uhole okumutavela, hono —Aú! —m“okonda? wankhya. Meyé, ina a Kandimba! Meyé ina a Kandimba! Aú! Omwalikai... filu vala! Tyino eya, ina yatandavela. Okuya k'omukwavo oko. Hono weya waunga-unga. Iy'ove? Katuli? Avalyalya.

—Tulile pahe. Uma olufwo. Alutetekela ku Tyingwe oku lutetaikil'ale. Tyingwe ati:

—Tulye otyovotyovo (ulila... ut supra). Tyingwe alili umwe, ng'omo alilail'ale. Okuya ku Tyindimba. Ati:

—Tulye otyovotyovo (ut supra). Olufwo aluyulu. Ou ati. Mulume, pwaina ukembela ame. Watile tuipaei omalikai etupwilisa. Ove nyoko wekemuholeka? N'ame hono nemuipaa-vo. Iya pahe hono kwalilile? Kavaitile, avalti umwe, atyiti umwe: Ou uenda tyae, ou uenda tyae. M'olutongo... Omwove!

7: A Lebre E O Leopardo

Pois são os tais: Lebre e Leopardo têm suas mães já velhas. Vai a Lebre e diz:  —O companheiro, estas nossas velhas fatigam-nos a procurar-lhes de comer. E se nós as matássemos, a elas que nenhum serviço nos prestam já! Decidiram matá-las: O Leopardo tomou sua mãe e matou-a. A mãe da Lebre, foi ela escondê-la numa toca de papa-formigas e continuaram sua vida. A Lebre mata só um animal qualquer, enquanto que o Leopardo matara a sua própria mae. Fizeram o cozinhado. Uma vez satisfeitos, exclamaram:

—Pranteemos agora nossas mães. Chega cá esse copo. E ele foi primeiro para o Leopardo. Diz este: Comamos carninhas boas! Com o coração a bater, a bater. Ai coração! Que a minha mãe me ouça! Ai coração! Que a minha mãe me ouça! O copo encheu-se de lágrimas e ele despejou-o. Chega a vez da Lebre.

—Tu, ó Lebre, não choras? Começa esta então: Comamos carninhas boas! Com o coração bater, a bater. Ai coração! Que a minha mãe me ouça! Ai coração! Que a minha mãe me ouça! Mas o copo... nada, nem sinais de lágrimas lá deitou. Diz o outro: Não choras por tua mae? Resposta: O homem, isso de chorar é das mulheres, nao é connosco que somos homens. Põe-no para aí. Resolvem depois e dizem: Vamos caçar. Por lá andaram, por lá andaram na caça, voltando à noitinha. Atiraram-se outra vez a comer. Vai então a Lebre e diz outra vez:

—O companheiro, pranteemos nossas mães. Veio o copo para o Leopardo. Este começa dizendo:

—Comamos carninhas boas. (Ut supra). Tocou depois a vez à Lebre. Quanto à Lebre, nada de lágrimas. Canto: (Ut supra). Pois sim! O companheiro, tu não choras? Resposta: Chorar é para as mulheres. Não nos pertence a nós homens. Nisto de prantear, fazemos como toda a gente. No outro dia, enquanto iam à caça, diz o Leopardo:

—Eu fico por aqui. Tendo descoberto a mãe da Lebre jogou-lhe uma mocada: Pumba! E a velha foi-se estender ali para dentro da toca. Recomeçando a caça, vem à Lebre a lembrança de buscar de comer à mãe e exclama:

—Eu vou por aqui, vou dar uma volta à procura de moças. Até que chega junto à mae... Minha mae, ó Mae-da-Lebre! Minha mãe, ó Mae-da-Lebre! Nada! Costuma responder-lhe, mas desta feita —Silêncio! —porque está morta. Minha mãe, ó Mãe-da-Lebre! Minha mãe, ó Mãe-da-Lebre! Nada! A velhota... guarda silêncio. Aproxima-se mais a Lebre e a mãe está estendida. Dirige-se então para o companheiro. Mas hoje vem triste. Então olha lá! Não comemos? Comeram. —Pranteemos agora. Toma o copo. Este vai primeiro para o Leopardo por onde costuma começar. Pranteia o Leopardo:

—Comamos carninhas boas. (Chora... ut supra). E o Leopardo chorou a valer, como era seu hábito. Toca a vez à Lebre. Começa esta:

—Comamos carninhas boas (ut supra). Mas o copo encheu-se de lágrimas.

—Vai então o Leopardo: O homem, então tu intrujas-me. Disseste tu: Matemos as nossas velhotas que nos fatigam. Tu afinal vais esconder tua mãe? Pois eu hoje também a matei. E hoje então não choraste? E arrumaram a questão, de modo que: Foi um para um lado e outro para outro. Açaimo em bicho voraz... é para ti!

Narradora: Rosália, de 40 anos de idade, da etnia Muíla. Gravação: Missão do Munhino, Outubro de 1963. Língua: Nyaneka. O motivo de dois parceiros combinarem matar as mães e um deles faltar ao compromisso, ocorre também num conto bundo (Umbundu). O episódio transcrito por Hauenstein, no qual o cão desempenha o papel de animal astuto, parece algo truncado

8: Ovo Mbeu - Na Ndyamba - Na Ngeve

Opopo lumwe. Mbeu wayamena m'omuti. Muna m'omuti watyo, naina mun' elonga, ngwe keliete. Ndyamba, okuya, ati:

—Iya, ove wayamena omu, utala otyipuka etyi?

—Ati: —E. Mbeu atale p'eulu. Tyino akati ñga... elonga! Ati: Ehe! Mekulu, himetyivili okutyipola-mo. Ndyikevelela ou mandingila-ko, manthandulila-ko omuti watyo ou, ame ndyimufete. Ndyamba ati:

—Wo!... Pahe umpheta-tyi, ove Mbeu, apa ulifwe apa, okana okapii-pii. Ame mukulu. Pahe umpheta-tyi? Ati: —Mekulu, ame ndyikufeta otyipuka otyinene. —Kuti vala: “Ndingile-ko otyali?. Ove uti: “Ndyikufeta?... Mopolo-pi? Ati: Ame ndyikufeta otyipuka uhevili-ale. Iya, Ndyamba, okweiva-ko otyipuka otyo, wakwata vala omuti watyo eutandula p'okati. Mbeu, eye p'enyi... lase, lase, lase, lase... ouiki. Etyi alasa unene ouiki, n'ohunga. Atundu opo, aye ku Ngeve, m'enyana. —Iya, mekulu... Etavela, ati: —Lyepe-ko! Atyiti:

—Vaketu! —Uhanda-tyi? Ati:

 —Ndyihanda omeva... Ndyihanda omeva ndyikufete.

—A! Iya pahe omeva a Huku... alandwa vali? Omeva oovanthu aveho! Ati:

—Namphile oa Huku ñgo. M'“okonta? ove ukala-mo oove mwene. Mandyikufete!

—Pahe momphete-tyi tupu, Mbeu?

—Mandyikufete, otyipuka otyinene—nene-nene. N'ove kutyivili-ale. Ou Mbeu hakunwa omeva ó? Hakulondeka? Hakukapoha epanda? akutu m'otyikalo tya Ngeve, Ampholo vali epanda akakuta vali mu Ndyamba. Apopila umwe Ngeve, ati:

—Taa! Kwatesa! Nekukuta tupu apa m'otyikalo... ó“pala? mandyikakuta na muna nekufeta ongele yove. Akavasa Ndyamba, akutu m'otyikalo tya Ndyamba ati:

—Mekulu, nekukuta! Pahe nana ondyambi yove mandyikufete. Iya, Mbeu, hakukapita? Asele! Pahe, Ndyamba ainane... Katyitavela! Katyiya! Ou matiwa óNgeve anane... Naka-tutu-tutu-tutu-tutu-tutu... Ondyamba yepwila: Ongeve wepwila. Hawokulinana, okulinana, oklli-nana? Tyino atale-ko-ngo ñgana... (Ombeu utalela p'onthele...) Aú! Matiwa óNgeve uhanda umwe okupwa; oNdyamba omukulu, watutumba. Aú! Mbeu ahateka, atila lumwe: Nontho! —Epanda. Ahateka umwe ku Ngeve:

—Iya, Mekulu, ondyambi yove kweimwene? Ati: Tatiê! Mutekula wange umwe, wafeta umwe unene-ale umwe! Ina ñgeno heivilile-ale. Wayovoka umwe! Wayovoka umwe! Otyipuka wamphele otyinene. Iya, Mbeu akakalakaha vali, akahateka ku Ndyamba.

—Mekulu, iya, ofeto yove yeya. Ati:

—Ehe! Wafetele umwe, mutekula. N'ame okuityinda heivilile. Napandula lumwe. Nkhele etyi ankho wafeta otyinene vali: Hakaluñgano kange?... Helengete! Ha mu ove?..

8: O Sapo-Concho - O Elefante E O Hipopotamo

E desses mesmos que se trata. Encostara-se o Sapo-Concho a uma árvore. Ora nessa árvore havia afinal mel silvestre, e ele nao tinha visto isso. Chega o Elefante e diz:

—Então tu assim encostado à árvore estás a olhar para isto?

 —Resposta: Sim. Sapo-Concho lança para cima o olhar. Ao reparar em algo... é mel silvestre! E diz:

—Não há meio! Avô eu não consigo tirar isto. Estou à espera de quem me faça este serviço, de quem me rache esta árvore, que é para eu lhe pagar.

—Exclama o Elefante: —Oh! Que me vais pagar tu, ó Sapo-Concho, deste tamanho que tens, assim um catraio tão miúdo. A mim que sou grande... Que me vais tu pagar? Diz ele: Avô, eu pago-te com coisa grande. —Limita-te a dizer: “Fazes-me o favor?. Vens agora com essa: “Eu pago-te?. Onde o vais arranjar? Diz o Sapo-Concho: Eu pago-te coisa com que tu não podes. Então o Elefante, ao ouvir uma coisa dessas, pegou simplesmente na árvore e rachou-a ao meio. O Sapo-Concho, tendo-se metido por debaixo, lambeu, lambeu, lambeu, lambeu... beu... aquele mel. Como tinha lambido muito mel, ficou cheio de sede. Afastou-se dali e dirigiu-se ao Hipopótamo, ao rio.

—Com licença, avô... E o hipopótamo respondeu:

Boas—vindas. E o Sapo-Concho: Obrigado! Que queres tu? Diz ele:

 —Quero água... Quero água, que eu pago-te. —Ora! Então esta água que é de Deus... ainda se compra? A água é de toda a gente! Resposta: Embora seja de Deus. Visto que nela habitas ela é tua. E eu vou te pagar!

—Ora agora, que é que me vais tu pagar, Sapo-Concho?

—Vou te dar em pagamento uma coisa muito grande. Nem tu podes com ela. Foi o Sapo-Concho à água e bebeu. Seguiu depois seu caminho. Pôs-se então a torcer uma corda. E amarrou-a numa perna do Hipopótamo, o tal habitante da água. Pega na corda e vai amarrá-la depois ao Elefante Ao Hipopótamo disse assim:

—Olha! Segura bem! O ter-te eu amarrado aqui na tua perna é para eu a ir amarrar também àquilo com que te vou pagar a dívida. Encontra-se depois com o Elefante e amarra-o na sua perna dizendo:

—Avô, eu amarrei-te! Puxa agora a retribuição com que vou pagar-te. Entretanto pôs-se a andar o Sapo- -Concho, ora não? Não há meio! Pega o Elefante a puxar... Não é possivel! A coisa não vem! O outro, o tal Hipopótamo puxa. Sem resultado nenhum, nenhum, nenhum... O Elefante está cansado. O Hipopótamo também. Não estão eles ocupados no esforço de se puxarem um ao outro? E quando ele estava assim a olhar (é o Sapo-Concho que olha ali um pouco ao lado...). Pois sim! O tal Hipopótamo está mesmo a acabar de forças; enquanto que o Elefante forceja, ele que é“grande?. Pois sim! E ele corre e vai-se à corda: Zás! Cortando-a. Deita logo a correr para o Hipopótamo:

—Então, Avô, não viste a retribuição que te dei? Diz ele:

—Ena, pai! Sabes meu neto, que pagaste à grande! Uma coisa assim, não poderia eu com ela. Estás quite da dívida! Completamente pago! O que tu me deste era coisa grande! Vai-se então o Sapo-Concho, raspa—que-raspa, em corrida até ao Elefante.

—O avô, então, a tua retribuiçâo sempre chegou? Responde ele:

—Safa! Tu deste deveras um pagamento, meu neto. Nem fui capaz de carregar com ele. Estou-te realmente agradecido. O que tu me deste em pagamento era maior do que a divida. E não ée sta a minha històriazinha? Sumiu-se! Não é agora a tua a ocasião de falar?...

Narradora: Celina, casada, de 31 anos de idade, descendente de pais Ngambwe (Gambos). Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka.

 

9: Ohamba Yovinyama n'Omona wae Omuwa Omufikwena

Akuya ovalume vevali: Ou utiwa Okungungu, ou utiwa omBeu. Veya okumuhanda vemunepe. Watetekelele Mbeu.

—Iya... Ohamba aitavela:

—Lyepe-ko Mbeu!

—Uti; Mbe!

—Mweya na kuno?

—Tweya na kuno. Pahe tyino tweya vala okutaindya ovakainthu venyi valinge onomphunga mbetu. Okuvandya. Ohamba aitavela;

—Mbe! Onthwe tuvahiwa ngetyi mweya okutaindya onomphunga. Ovovo m'ovityivo. Okuvandya. Ohamba aimoneka okuihana ina.

—Iya, ove kuya pano? Ina aimoneka okuya, aiya okupum-phamena p'onthele p'ohamba!

—Omulume ou —Mbeu —weya okutaindya omona wetu. Iya ove ina yomona kupulu omona wove okutiwa wetavela? Ati:

—Iya, ove, etyi tyipopiwa, wetavela ine kwetavelele? Ati:

—Netavela. Mbeu: —Vaketu-ketu Mbeu walupuka, wapita, walekela. Tyino walekela, papinga vali Kungungu.

—Iya... Veumbo avetavela:

—Mbe! Mweya na kuno? Kungungu ati:

—Neya na kuno. Pahe tyino omu tukalela vala. Okusokavo kwatyo ovava vokutukunkhila. Pahe okuti tuendei k'ohamba. Twaendela vala ovana venyi vonoharaba. Okuvandya. Ohamba aitavela:

—E! Mba-mba! oyou mwemuvasa. Pahe matutehela etyi atola ina, n'omona watyo; Pahe ahimbika vali okukondola omulungu k'onyima:

 —Mukai, iya, hayou tupu omuenda omukwavo? Keile? Ina kalupukile vali p'ondye. Watolela vala m'otyivo.

 —Iya, pahe, kupulu omona watyo okuti wetavela? Ovoina weliomena p'okuti: “Apa ankho peile-ale omukwavo... Twetavela... Iya, pahe ou uya tupu!... Otyo ñgo tulonga... manepwa na vevali? Ovohe uungulula k'omona m'otyivo:

—Iya, pahe wetavela? Haywoyo? Omona ati:

—Tyu, netavela! —Haywoyo mukwe, Kungungu? Wetavelwa! Kungungu ati:

—Mbe! Kungungu vatomphaula na he yatyo opo. Omuniango vanianga 114 omphal, naina otyokweile-ale umwe wotete. Kungungu way'ale wapita. Iya, pahe ovohe n'ovoina velipula:

—Ove, ove! Ovalume vokweile vevali tupunga-po upi pahe? Ati:

—Kupulu omona? —Iya, ove mona, endyu utale pano, ndyikupule. Omona weya wapumphamena p'onthele yae, yohamba.

—Iya, hayo napopya, mukulukai? Hatile monepwa n'ovalume vevali? Kupungu-po ou wahanda? Ati:

—Ame pahe, otyo ndyityivilapi? Ame ovakwendye aveho nevehanda. “Masi? onwe ovotate na me, onwe mamumphopila-mo okuti: “Pola-po ou?. He eiangulula 115 vali ku ina:

—Kutehela etyi apopya omona? “Ame aveho ndyivehole?. Pahe onwe ovotate na me, onwe mamupungu-po ou mwahanda?. Ina ati:

—Pahe ukondola ku ame? Utumina omona ha he mwene? Ame vali mukai? Ove-vo mopungu-po ou mwahanda. Ekumbi alinyingila avalyalya. Ou he avakalangala-po na ina. Omona, wakalangala-po. Etyi valangala-po velipilulula, he wapinduka-po, ohamba, apolopo ombutesa yae k'omitwe, ahimbika okufenya. Wapuñginya ina:

—Ove, mukwe, kupahuka-po ndyikutolele?

—Untholela-tyi tupu k'omatumphoki kuno?

—Hayou, ankho twatompholele k'etango... yomona... Katuiungulula? Muhuka vana kamaveya? Matuveyumbaila kumwe omitwe? Muhuka etyi vekelivasa k'omeho, avakalwa. Tuitete, tupole-po etyi tupola-po n'etyi tusa-po. Ina wapinduka-po. Wapula vali ohamba: Iya, pati ñgeli p'ombutesa yove? Ati:

—Opapa. N'ame ankho nakwatela-po katutu. “Masi? omakaya atyo alinga ng'oti atunthile-po katutu, eli k'ohi. Pola otyiseko, utie-po vali: Tu! Tu! Ou apinduka-po, apolo otyiseko. Wahoka p'ombutesa afenye —omukai watyo ó. Omulume wahimbika okulikolomona apoplla omukai, ati:

—Utyii? K'omuhuka mandyitumu omona akaihane vomBeu na Kungungu, ndyivetume k'omakolo-kolo vakaete otyihambo tyange. Ou wetyieta liva kuno, oé manepe omona wange! Ina ati:

—E!... Otyo pahe, mwene oku ove. He walala na yo m'onthulo. K'omuhuka etyi kwatya, watuma okamphange komufikwena ó:

—Enda-ko k'okungungu, uti: Tate wati veye vetavele. “Masi? valale, veye k'omuhuka, k'omuhuka-huka. Kana kaya. Eya mu Kungungu.

—Iya... Kungungu lyalyepesa, ati:

—Mbe! Lyepe-ko ombwale! Iya, otyityi mweya onongulohi mbuno? Akati:

—Ame natuminwa na tate. Tyatiwa kapole... 116 Kaihane Kungungu. K'omuhuka elimeneke. Ati:

—E! Okulimeneka k'omuhuka? Ati:

—Ya! Kana oko kakondoka. Keya vali mu Mbeu:

—Iya... Natumwa na Tate... —Wó!... Otyityi, mukwe, uhikila okupopya, tuhenekutolese? Kun'atyi k'ohamba?

—Au! Tyatiwa: Kaihane Mbeu, velimeneke k'omuhuka, aveho na Kungungu, veye, nkhele kalinetunde-ale. Ati:

—E! Tweliva. Enda, ombwale. Okana akati:

—Mbe! Tulalei-po. Mbeu wetavela:

—Vaketu. Okana keya, kehikila oko k'otyunda okukayovaila ovipuka vyavo. Keya ku he. He wati:

—Wó! Wevevasa-po, ombwale? Okana akati:

—Ya, nevevasa-po. —Aveho? Ati:

—Ya! —Vati-wi. —Vati:

—Matuya. Okana kakanda - kanda, avalyalya ononkhange avakalangala-po. Ovohe valangala-po. Hono kaveitolele vali. K'omuhuka mavey'ale. K'omuhuka tyina kutya, veliuluka vey'ale k'omuhuka-huka. Ohamba veipindula-po. ati:

—Ame nemuihana. Mandyimutumu. Etyi mandyimutumu, ou waeta liwa kuno, otyipuka mandyimutumu, oe manepe omona wange. M'“okonta? mwalinga vevali, mandyilingi ng'ou wokumuhongaiya. Vetavela, avati:

—Hamba, kututumu, iya, tuende? Ohamba yati:

—Endei k'oMakolo-kolo, kapolei otyihambo tyange tyokuhakula, “masi? tyityindwa m'“osaku?, katyifikululwa. Uti hamwe muti p'okati amuti tutyitale. Tyityindwa vala ngotyo! Avati: E! Avahimbika okulongaila ovimuti vyavo. Vaya k'oMakolo-kolo, Valupuka. Tyina vati k'ondye yeumbo, ou Kungungu, wati:

—Ndyikahi n'okuihama p'eimo: mandyiyapuka. Mbeu esala po opo p'osaku yokukatyinda otyihambo. Kungungu opo walangalala. Mbeu wasoka yae m'omutima:

—Pahe matuende na Kungungu n'omavava ae okukatuka? Ame, n'ame ndyiendela p'ohi, okuvandauka... Mandyivasamo? Ou omukai... mandyimupewa ou? Mbeu wasoka-ko yae. Wanyingila m'“osaku? yokukatyinda otyihambo. Kungungu okutunda oko aile, k'ohika, tyino eya p'“osakus?... Mbeu ke-po!... —Hó! Mbeu wanthya-po, vakwe? Tyondumbano Kungungu wehikila okufwaula-po “osaku?. Ahimbika okukatuka kwae: Katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke... Tyokulipilika umwe, tyokuti umwe Mbeu hono mandyikemuvasa p'okati. Naina, Mbeu, wemutyinda. Tyino ati umwe k'oMakolo-kolo atyo, pahe eumbo limoneka, oKungungu okukatula “osaku?.

—Ah! Otyipuka etyi nahateka apa, wati hatyinene? N'ame ndyin'omavava, na Mbeu uenda okuvandauka, tulivasa okuenda? M'ondyila omo, hamwe netyiponya, hamwe ankho tyayapuka okukania-ko, hamwe tyili k'onyima. Nkhele n'ame ndyityipululukwe-vo. Nkhele natundile, kuna, okukatuka vala, nahakaufwile-ko, nahakanine-ko! Okuyapuka vala nawa-nawa, Kungungu ayapuka okukania-ko p'eimo lyae otyo... Tyino aya n'ok'ohika, Mbeu, muna m'“osaku?, hakulupuka? Ngwe Mbeu kaende n'ok'oMakolo-kolo m'eumbo? Vok'oMakolo-kolo avati:

—Lyepe-ko, Mbeu! —Mbe! —Iya tuhelimono na Mbeu!... Iya, hono tunkhya ine tupuluka? Ati:

—Au, mupuluka. Apumphama p'otyoto opo. Muhekulu weumbo weya. Avelitolesa.

—Mbeu, mweya na kuno?

—Iya, tweya na kuno. Pahe twatumwa vala n'onohamba. Tyatiwa: “Veye vetupole-mo ovihambo k'oMakolo-kolo?. Otyo tuvevali. Tun'endamba limwe. Lina nkhwali lyavela p'eimo, lienda vala n'okuyapauka.

—Hó!... Iya, ulipi?

—Uli k'ondye oko. —Wo! Kaveimanene-ale k'omuhaho, Kungungu oyo uya. Otyo ñgo, vahimbika okumutolesa:

—Kungungu, weya na kuno?

—A! Tweya na kuno. Twatumwa n'ovomBeu ava. Twatumwa ovihambo kuno n'onohamba. Pahe okuti m'omakati, vomBeu vetusa-po. Naina, vana veya vatetekela kuno. (Mbeu m'omutima, atyiti: Hun! Katui!...). Vamwene vokwelongela otyihambo otyo, vetyipakela m'“osaku? omu. Avatyindi aveho, avalupukila kumwe “te? k'ombundi yeumbo. Vohekulu veumbo avevehindikila k'ombundi yeumbo. Avati:

—Endei! “Masi?, tyino mwatyinda otyipuka otyo, muhakatiei, nga mwati p'okati, amufilaulula-mo. Mutyinda vala ngotyo “te? mutyitwala ku muhekulu. Mbeu ati:

—Nonthwe otyo twalawa.Tyatiwa muhetyifikululei. (Okupopila ondamba vatyo yokusala-sala...). Nga vati k'ombundi yeumbo, k'ondye, ou wahimbika ñgo n'okuti:

—Nkhele ndyityiende k'ohika!... (P'eimo lyae opo;) Ou, Mbeu, ham' okunyingila m'osaku, ng'omo vakakala aveho kumwe n'otyihambo? Kungungu, okutunda oko, etyi eya p'“osaku... Mbeu una wanyingila. Kungungu welipula:

—Wo! “Omunthu? ulinga ñgo ng'op 'onthiki yatyo pana? Wapita ñgo? Kungungu kapulile vali. Wahimbika okukwata “osaku? yotyihambo. Hakukatuka? Katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke, katuke... “Ni? vali okupululukwa vali m'eulu omo. Okukatuka vala. Tyokwalumbana lumwe. Tyokuti umwe: makanthetekela k'omukai. Tyino eya, ati p'onthele p'eumbo, ati:

—Ah! Otyipuka etyi nakatuka otyinene! Mbeu okuenda? M'onkhela, nakatukile, otyo ndyienda n'okutala-tala. Hono nakuluminya vala. Mbeu yatyo, otyo ñgo ekehika? Watula ñgo p'ombundi yeumbo (yohambo oyo) pahe; Tyino ati: Ndyiyapuke, ndyiende, n'ok'ohika yange oko... Mbeu m'“osaku?, katundu-mo? Ngwe kaende n'om'eumbo? Okuti ñga, ohamba!... Mbeu oyo p'ombundi!

—Lyepei! Hó! Mweya? Iya, mukwenyi?

—A-ha! Uli ñgo k'onyima oko. Ei hamdamb'ale?! Nkhele naendele n'okukevela vala umwe. P'okuenda otyo ñgo ale. Nkhele nakatetekelele kuna. Pahe kuno, otyo tupu. Wesala tupu... p'eimo lyatyo ñgo... —Wo! Uvel'ale p'eimo?! Ati: Uvela p'eimo... —Oh! Omunthu katolehiw' ale (ohamba mwene itola). Ndyikevele mukwenyl ndyitehelele oulongo wenyi mwaeta-ko k'oMakolo-kolo. Waihana omona wae.

—Iya, kuetela ovaenda ombulunga? Kungungu, na e kuna n'okuya. Emulyepesa ati:

—Lyepe-ko, Kungungu!

—Mbe!

—Iya, om'okuya omu?! Ati:

—Om'okuya omu. Iya, omBeu wandyenda ñgeli tupu ñga?... Mbeu opo watile:

 —E-he!... Ame ndyienda kumwe n'ove? Helihulila vala ousupi? kwange... “p'ousupi wange, ha-po p'oule wange?? Wanthombela ousupi? Ove un'omavava okwatop'ale unene-nene! Tyino wakanina-ko utenga ovilisombo avikalinga vikwana. Otyounongo wove otyo. Vanwa ombulunga vapewa n'omufikwena watyo. O ohamba ahimbika okuvetolesa:

—Mwanyanga-ko k'oMakolo-kolo?

—Twanyanga-ko. Pahe, tyino twakaya. Etyi twakati p'omakati apa, twayapuka k'onohika, vomBeu nanyo vana vapita. Twahatekele umwe, twahatekele umwe... Okwehika nanyo vana vekehika umwe k'oMakolo-kolo. Vana vetullilla k'omilungu k'oMakolo-kolo. Avetupe evi twaendela “masi? “kavifikululwa p'omakati?. Pahe twatunda-ko ñgo tupu. Etyi twati ñgo tulupuka m'omaumbo... p'omaimo ñgo, atyo ale apa. Okuyapukila ñgo k'onohika. Ava, vomBeu, na mbwandye, vana vahova-mo tupu veya ñgo. Pahe twahateka vala, twemuetela vala ovipuka vyenyi. Okuvandya. Ohamba:

—E! Mba-mba! Iya, ongotyo, mwaeta otyipuka tyange, Tatekulu, napandula. Pahe mandyimutolela ondaka yange. Okumuvetaila kumwe omitwe, tyihanga nga tyina nemuhongaiya. Pahe ame napandula-po omBeu wekwehikile liva k'oMakolo-kolo, wokwehika liwa tupu kuno. Hae manepe omona wange? Ove, Kungungu, kwesalelepo vala?... Kungungu, lina lyakumbulile? Omutwe kauli m'ovikalo? Lyahimbika okuenda kalekelele vali. Lyanyunguluka. OmBeu walala lumwe. Waipaelwa otyifufwa alangala-po. Avamoneka okusapela n'omphunga yae. K'omuhuka tyina kutya, welimeneka m'ondywo, m'ohamba, avelitolesa:

—Onthwe tukaundapa, ovilinga vyetu. K'onongulohi hamwe atuya vali. Oh:

—Mbe! “Bom?. Endei! Ovanthu katwalalele-ale ovilinga? Mbeu wapita k'ovilinga vyae oko. Undape, undape, undape, undape, undape... Etyi lyapeta weya vali. Wehikila ñgo p'otyoto pu Heivi. Opo apumphama. Vasapaila, vasapaila, vapumphama, vapumphama, vapumphama, otyo vatola, otyo vatola. Omphunga waeta otyihima, alyalya, avakalangala-po. K'omuhuka velimeneka m'ohamba.

—Ame... omukai nahanda okuilula. Ovilinga kuno vyandinga ovinyingi; tyokuenda-enda omaulu ñgana, ame netyisapo vali. Ohamba ati:

—“mBo?! Omukai wove hayó? Hangombe ndyihanda?! MBeu wapita, walekela, wekeiita ongombe yeya. Avalangala-po. K'omuhuka tyiuo kutya, omukai walongaila ovipuka "yae, vapita k'eumbo lya MBeu. Oko vakakala. Avakala umwe na e enima. Avalimi na e ovilya. Omukai hono wankhindika ohingo yae. Ankhindula, anyaneka. Akunkha-kunkha, anyungu. Ombiya yotete watil'ale p'otyitoto! Ombiya onkhwavo yok' onyima... omeva “para“ okutila vali m' ombiya kaehi.

—Mulume wange, sala-vo n'okukulunga m'ombiya yange omu, ndyihateke k'omeva, ombiya mailiongolola. Mbeu wati:

—Enda vala! Tyokukulung'ale tyina vali tyimwe? Omphuka kakwata omuyo... oti, op'ovanthu ovanyingi vekumona? N'apa tuli vali muno, om'ovanthu vevali, otyo hin'okukulungila —mo? Hateka k'omeva, onkhela mailifiti. Tembo a Mbeu wapita k'omeva. Tyino atunda-po, omulume Mbeu, uhimbika okukulunga m'ombiya. Tyino ayelula okuwoko “para? akulunge, m'ombiya kamavasa-mo. Ombiya onene. Ahimbika okulonda k'enthia. Tyino ayelula okuwoko, akwate oluvale, m'ombiya kamavasa-mo. Alonda k'ombanda yonthele yombiya... Wakulunga-mo vala tuvali... Mbeu wawila m'ombiya yonkhela. Omu aalangatela omu, m'omeva atokota... Omukai kuna watunda-ko. Tyino eya m'omulume... —Ove, iya, kunthulu-ko? Omulume wati vala: filu! Omukai watula ononthenda. Walumbanena m'ombiya yae omu, okuti mailiongolola. Tyino ati: ndyikulunge... Mbeu oyou m'onkhela!!... Walungwain'ale kohale. Ahimbika n'okutelaula-po eiyululila p'ohi. Ahateka okuenda n'ok'ovavo ya MBeu. Wevevasa, ati: —Endywei mukatale. Etyi namona oko, ame hinetyimone. Vavo aveho velikongaulula, vakwama omukai ou, okuya okutala. Okumuvasa, MBeu... ai! Ovikalo vili m'eulu!... —Iya, ove, omukai, etyi... omulume wove waenda ñgeli ñgana?! Ati:

 —Omulume wange, ame nemusa apa, andyiti: “Nkhulaungile m'ombiya. Ame nakatapa omeva?. Ati: “E?! Tyino ndyitunda vala k'omeva... omulume uli m'ombiya! Tyino ndyiti: ndyikulungepo... omo ekahi!... —Iya, pahe, vakwe tutyiteta p'ohitu patyi? Iya, naina, waipaa omulume have?! Wati: “Kulunga m'ombiya?!... Omukai aimulingi vali navi. Avalilalila, avakapaka Mbeu. Omukai, okusokolola, okuenda okukapopya k'ohamba ku he.

—Kuno ame veinkhila, okuti: “ove waipaa omulume wove, m' “okonta? wemukulungihila m'ombiya?. He ati:

—Veye kuno, ndyitehelele. Aveho velikongolola, veye k'ohamba.

—Popyei utale! Avati:

—Onthwe... omukwetu waipawa n'omona wove!... —Tyaenda ñgeli? Avati:

—Omukai wati: “Kulunga m'ombiya?! “Ame ndyikatape omeva?. Omukai tyino eya, omBeu m'ombiya kamavasa-mo, walonda k'ombiya, wawila m'ombiya! Ohamba yati:

—Otyo mwene ha Mbeu weliipaa? Iya, wakakulungila-tyi m'ombiya, omulume? Omukai wati:

—Iya, kuna otyo napopya okuti: “Onthwe tukala vevali m'ohika. Iya, “pala? okuti ame k'omeva, ame “pala? okukulunga m'ombiya... iya tyimwe tyapeseka! Iya, omulume mwene na e weliungulula okuti: mandyikulunga m'ombiya! Oyoyo —atile kamuitehelelei? Vavo vati: —“Bom?. Mamupopi onwe; onthwe matuitehela m'ohamba! Ohamba ati:

—Ame naimbuka omona wange mwaeta kuno. Ndyitupu vali etyi ndyipopya. Muno ame nemuimbuka. Oe mwene wankhya... mwene ononkhya mbae... ombu mbemueta Huku. Otyo tyekemutis'ale akakulunge m'ombiya. Ankho wetyipola pi? Ame naimbuka vala omona wange. Akale n'ouhepe. Mupondola okuenda. Ame oyoyo yange! Oyoyo! Okuvandya.

9: O Rei Dos Animais E Sua Filha Linda E Jovem

Apresentaram-se dois homens: Um de nome Bu corvo 43 , o outro Sapo-Concho. Vieram pretendê-la em casaniento. Em primeiro lugar chegou Sapo-Concho.

—Com licença... Responde o rei:

—Sê benvindo, Sapo-Concho!

 —Obrigado! Diz este.

—Então vieste até cá?

—Vim até aqui, é verdade. O assunto que me trouxe é procurar tua filha para ser minha escolhida. Eis o que tenho a expor. Resposta do rei: Obrigado! E o assunto que se nos depara: o de vires procurar tua escolhida. Está ali nos aposentos. Por mim nada mais. E o rei põe-se a chamar a mãe dela:

—Então não vens até aqui? A mãe aparece e aproxima-se, vindo sentar-se junto do rei.

—Este homem —Sapo-Concho —vem pretender a nossa filha. Portanto não é a ti, mãe da pequena, a quem pertence ir perguntar-lhe se ela aceita? Exclama ela: (dirigindo-se para dentro):

—Então tu, isto que aqui se está a dizer, aceita-lo ou não o aceitas? Resposta:

—Aceito. Exclamação de Sapo-Concho: Obrigado, muito obrigado! Sapo-Concho saiu e foi-se embora, tendo-se despedido. Depois de se haver despedido, apresenta-se outro, o Bucorvo.

 —Com licença... Respondem os de casa:

—Obrigados! Vieste visitar-nos? Responde o Bucorvo:

—Vim visi-tar-vos. Nós por aí vamos vivendo. O nosso pensamento são “estas que nos moam a farinha?. Resolvi assim vir a casa do rei. E a vossa real filha que aqui me traz. Eis o meu assunto. Resposta do rei:

—Pois bem! Obrigado! Ela ai está, encontraste-a. Vamos ouvir agora o que diz a mãe e o que diz a filha. E ele recomeça então a deitar falas lá para dentro:

—Mulher, não temos nós aqui mais esta visita? Ei-lo, não o vês? A mãe não voltou a sair cá fora. Limitou-se a falar lá de dentro.

—Então não perguntas àtua filha se aceita? A mãe está embaraçada, pensando: “Ainda mesmo agora veio outro...? Nós dissemos que sim... E agora aparece mais este!... E nós a darmos-lhe conselhos... vai ela casar com dois? Fala então o pai àfilha lá para dentro:

—Então tu aceitas? Não é esta a questão? Responde a rapariga:

—Obrigado, aceito!

—Não ouves a resposta, Bucorvo? Tu foste aceite! Responde o Bucorvo:

 —Obrigado! Bucorvo mete-se em conversa com o pai ali mesmo. A indelicadeza de trato a quem se apresenta éafinal por ter vindo já um em primeiro lugar. Bucorvo retirou-se, e foi-se embora. Põem-se agora, pai e mãe, a interrogar-se:

—Ouve cá, ótu! Dos dois homens que vieram, quem vamos nós escolher? Diz ela:

—Porque não interrogas a pequena?

—Pois bem, filha, vem cá a ver. que preciso de te interrogar. Velo a rapariga e sentou-se ao pé dele, do rei.

—Olha, minha velhinha, não étal como eu disse? Vais tu então casar-te com dois homens? Ou não escolhes tu aquele de quem gostas. Ela responde: Ora agora, como posso eu fazer tal coisa? Quanto a mim, de ambos os rapazes gosto. Mas vós, meu pai e minha mãe, éque me ides dizer assim: “Escolhe este?. O pai devolve à mãe a questão dizendo:

—Não ouves o que diz a nossa filha? “Eu por mim gosto de amboss?. Sereis vós portanto, pai e mãe, que me direis aquele que vós mesmos preferis?. Replica a mãe:

—Então tu devolves-me a questão? Quem manda na rapariga não éo pai? Eu, mulher, é quem manda? Tu é que tens de escolher a quem queres. Pôs-se o sol e eles comeram. O pai, foi deitar-se mais a sua mulher. Foi-se também deitar a rapariga. Depois de se deitado e virado para o outro lado, levantou-se o pai, o rei, tomou da cabeceira a sua caixa de rapé e pôs-se a sorver um pouco. Abanou a seguir a mãe:

—Olha cá, não acordas tu um pouco para eu te dizer uma coisa?

—Que é que me vais ainda dizer, agora no meio do sono?

—Então não é a conversa que tivemos à tarde... a respeito da rapariga... Não vamos combinar? Amanhã não aparecerão por ai? Havemos de pô-los às turras, um com o outro? Acabam Um dia por encontrar-se e pegar-se. Decidamos o assunto, tomando o que entendemos e rejeitando o que há a rejeitar. A mãe levantou-se. Dirigindo-se ao rei, perguntou-lhe:

—Como é que está ai essa tua tabaqueira? Diz ele: Está aqui. Eu também lhe peguei um bocadito. Mas o tabaco parece que endureceu um tanto, ficou lá no fundo. Toma o triturador e dá-lhe umas moedelas. Ela levantou-se e pegou no triturador. Escarafunchou a tabaqueira para cheirar

—quer dizer a mulher em questão. O homem começou por se despigarrear e falou à sua mulher, nestes termos:

—Sabes? Amanhã vou mandar o rapaz a chamar Sapo-Concho e Bucorvo para enviá-los ali ao Makolo-kolo a que me tragam a minha caixa de curandeiro. Quem a trouxer mais depressa équem casa com a minha filha! Replica a mãe: Sim!... Isso agora é lá contigo. O pai, passou a noite com a sua ferrada. No outro dia pela manhã, mandou o irmãozito da tal rapariga.

—Vai ao Bucorvo e dizes: O meu pai manda-me dizer que venham atender. Mas que passem esta noite e venham pela manhã, muito cedo. A criança foi. Chega ela a casa do Bucorvo.

—Com licença... Bucorvo deu as boas vindas:

—Obrigado! Sê benvindo, pequeno! Então porque vindes ainda noite escura? Diz o miúdo:

—Fui mandado por meu pai. Foi-me dito: Vai buscar... não... vai chamar Bucorvo. Que venha amanhã de manhã cedo. Resposta:

—Oh! Ir cedo amanhã de manhã? Diz o pequeno:

—Sim! E eis o miúdo de volta. Passou ainda por Sapo-Concho:

—Com licença... Fui mandado por meu Pai...

—Oh!... Porque é que entras no assunto sem mais, nem sequer nos cumprimentamos? Que é que vai por casa do rei?

—Nada! Só me foi dito: Vai chamar Sapo-Concho, para que amanhã de manhã cedo, venha ele mais o Bucorvo, mas que seja antes do sol nascer. Resposta: Está bem! Entendido. Podes ir, pequeno. E o miúdo responde: Obrigado! Até amanhá. Sapo-Concho respondeu:

—Obrigado! Volta o pequeno e fica-se pelo curral a arrumar uns apetrechos. Vem depois ter com o pai:

—Oh! Encontraste-os, moço?

—Responde o miúdo: Sim, encontrei-os.

—A ambos?

—Diz ele: Sim!

 —E que disseram?

—Disseram: —Lá estaremos. O rapazito ocupou-se da ordenha, comeram uma porção de milho torrado e foram para a cama. Os pais também se deitaram. Desta feita, não falaram mais do caso. Virão amanhã —entenderam. No dia seguinte pela manhã, foram surpreendidos por eles que vieram cedo, muito cedo. Vieram tirar o rei da cama. E diz este:

—Eu chamei-vos. Vou-vos mandar algures. Aquilo que eu vos encomendar, quem mo trouxer mais depressa, aquele objecto que eu mandar, será esse mesmo quem casará com a minha filha. E porque sois dois pretendentes, é como se estivesse eu a incitar-vos à bulha. Responderam dizendo:

—Não nos mandas então, ó rei, que é para seguirmos viagem? Diz o rei:

—Ide a Makolo-kolo, trazei-me de lá a minha caixa de curandeiro, mas a coisa carrega-se no saco e não se descobre. Nõ aconteça que a meio caminho vos venha a ideia de ver aquilo. Transporta-se assim como está. Responderam eles: Está bem! E ei-los que carregam os seus pertences de viagem. E para Makolo-kolo. Saem de casa. Chegados cá fora, fala Bucorvo, dizendo:

 —Eu estou mal da barriga: tenho de afastar-me. Ficou Sapo-Concho ao pé do saco em que devia trazer-se a caixa da medicina. Bucorvo continuava aninhado. SapoConcho ruminou a sua ideia:

—Ora agora vou-me eu daqui mais o Bucorvo, ele com as suas asas que dão para voar? E é comigo que só ando a pé, arrasta-que-arrasta... Posso competir com ele? E a mulher... irei assim apanhá-la? Sapo-Concho ruminou a sua. Meteuse dentro do saco destinado à caixa da medicina. Bucorvo, vindo do sítio para onde se afastara, ao chegar ao pé do saco... Sapo-Concho não está lá!

—Ora esta! Sapo-Concho deixou-me ficar? Com a pressa, Bucorvo pegou sem mais, no saco num rompante. E levantou voo no seu jeito. Ei-lo a voar, a voar, a voar, a voar, a voar... Como quem se deitou à tarefa, como quem diz a sério: Aquele Sapo-Concho, vou encontrá-lo a meio do caminho. Afinal, ele transporta Sapo-Concho consigo. Chegado precisamente ao tal Makolo-kolo, já a casa se divisava, foi Bucorvo a pousar o saco.

—Ah! O que eu corri nesta tirada, ainda julgas que não é muito? Entre mim que tenho asas e Sapo-Concho que anda aos arrastões, haverá parecença na caminhada? Ai pelo caminho, ou não dei por ele, ou talvez se tenha afastado a defecar, ou então estará ai para trás. E agora a minha altura de descansar. Desde tão longe que lhe peguei, sempre a voar, sem ter ido a urinar ou a defecar. Toca a afastar-se muito a preceito. Bucorvo afasta-se por causa daquela soltura que o apoquenta... Embrenhado ele no mato, não éagora a vez de Sapo-Concho sair do saco? E logo depois não vai o mesmo a Makolokolo, à casa indicada? Os de Makolokolo saudam-no:

—Sê benvindo, Sapo-Concho! —Obrigado! Ora, há tanto que não nos vemos, Sapo-Concho... Isto hoje é coisa má ou é coisa boa? Diz ele: Não temais; é coisa boa. Sentou-se junto à lareira. Aproxima-se o dono da casa e entabulam conversa.

—Vieste até cá, Sapo-Concho?

 —Sim, vim até cá. e que fomos mandados pelo rei. Foi-nos dito assim: “Eles que venham e que vão buscar a caixa da medicina a Makolo-kolo. Somos dois. Tenho comigo urn palerma. Pelos vistos anda mal da barriga e está sempre a afastar-se para o mato.

—Oh!... E então onde está?

 —Está ali para fora.

—Oh! Mal tinham acabado de assim falar, ei-lo o Bucorvo que chega. E recomeçaram a conversa de saudações:

—Bucorvo, vieste até cá?

—E verdade! Viemos, fomos enviados eu e Sapo-Concho. Fomos mandados pelo rei a buscar a caixa da medicina. Mas sucedeu que a meio caminho, SapoConcho deixou-me para trás. Afinal ele veio e antecedeu-me aqui em casa. (Sapo-Concho, lá por dentro, resmunga: Pois sim! Quero cá saber!...). Os donos da casa carregam-lhes a caixa, metendo-a dentro do saco. Transportam-na ambos e saem juntos, até àentrada da casa. A gente da casa, acompanha-os até àabertura da sebe, dizendo-lhes:

—Ide! Mas, com este objecto que levais, não vos passe pela cabeça, a meio caminho, de vos pordes a mexer dentro. Haveis de levá-lo como está, até o entregardes ao dono. Responde Sapo-Concho: A nós também nos recomendaram o mesmo. Disseram-nos: Nãn descubrais isso. (Fala assim ao companheiro palerma que se vai atrasando...). Chegados à abertura do cercado, já cá fora, recomeça o outro a dizer:

—Vou entretanto ai ao mato!... (E a tal soltura...). Então aproveita imediatamente, Sapo-Concho para se introduzir no saco, onde se instala junto com a caixa da medicina? Bucorvo, de volta e ao chegar ao pé do saco... Sapo-Concho enfiou-se dentro. Bucorvo interrogou-se a si próprio:

—Oh! O “individuo? torna a proceder como da outra vez? Raspou-se novamente? Bucorvo não procurou saber de mais! Deita-se ao saco da caixa de curandeiro. E põe-se a voar, não é assim? A voar, a voar, a voar, a voar, a voar, a voar, a voar, a voar... Sem urn descanso sequer naquela viagem aérea. Só a voar sem mais. Como quem tem pressa a valer. Como quem pensa: ele vai-me chegar primeiro àmulher. No fim da viagem, já mesmo ao pé da casa, diz consigo:

—Ah! Este meu voo foi coisa de respeito! Sapo-Concho a andar? O outro dia, eu voei e ao mesmo tempo fui deitando os olhares por aqui e por ali. Hoje corri a toda a brida; Sapo-Concho também desta feita lá chegou? (Isso sim!) Novamente pousou a carga à entrada da casa (do curral de gado). Mal entendeu ele: Deixa-me afastar e ir para aí ao mato a minhas necessidades... Sapo-Concho não se escapa de dentro do saco? E não se dirige logo de caminho para dentro de casa? Ia para entrar e eis o rei!... Sapoconcho já está na abertura do cercado!

—Boas vindas! Oh! Já viestes?! E o teu companheiro? —Nada de novo!

Está ainda aí para trás. E ele afinal não é um lorpa?! Todo o caminho outra coisa não fiz senão esperar. A ida foi também a mesma coisa. Fui eu ainda quem primeiro lá chegou. Agora aqui a mesma coisa. Lá ficou outra vez... com a tal soltura de ventre...

—Oh! Ele tem soltura de ventre?!

—Resposta: Tem soltura de ventre.

 —Oh! Não se atende a razões de um só (é o rei quem assim fala). Vou esperar pelo teu companheiro para saber dos remediozitos que de Makolo-kolo me trouxestes. E chamou pela sua filha.

 —Então não trazes cerveja às visitas? Bucorvo aparece por sua vez. O rei cumprimenta-o:

—Benvindo, Bucorvo!

—Obrigado!

—Então só agora?! Responde: Sim, só agora. E tu, SapoConcho, como éque por mim passaste outra vez?!... Replicou então Sapo-Concho:

 —Ora essa!... Eu tenho andar parecido com o teu? De pequeno não tenho eu apenas a fama? No meu arrastar... mas minhas curtas dimensões, não reside o meu comprimento? Tens-me em pouca conta por minha pequenez? Tu, senhor de umas asas e seres um tão grande palerma! Quando vais a defecar, armaste com paus de limpeza até número de quatro. E o que te pede a tua esperteza?! Bebem a cerveja que lhes oferece a rapariga em questão. O rei começou então os cumprimentos do estilo:

—Arranjastes vossas coisas no Makolo-kolo? Toma Bucorvo a palavra: Arranjamos. Bem, nós fomos. Chegados a meio caminho, afastamo-nos ai para o mato. Sapo-Concho afinal foi-se embora. Corremos a valer, corremos deveras... Vindos ao local, ele já estava lá mesmo em Makolo-kolo. Havia-se-nos antecipado, dando o recado em Makolo-kolo. E entregaram-nos aquilo a que iamos, mas, “que são coisas que não se descobrem no caminho?. Recomeçamos a nossa viagem de voita. Quando estavamos a sair do meio do casario... veio outra vez a costumada diarreia. Novamente nos afastamos para o mato. Aqui o Sapo-Concho, digo-o com juramento, tornou-se a raspar e veio àfrente. Quanto a nós limitamo-nos a correr, trouxemos-vos apenas os vossos pertences. Nada mais a acerscentar E o rei:

—Sim! Obrigado! Pois já que me trouxestes o que émeu, eu agradeço, eu estou agradecido. Mas tenho a dizervos o meu parecer. Pôr-vos um contra o outro, isso era como se vos acirrassemos. Por isso inclino-me a favor de Sapo-Concho que chegou mais depressa a Makolo-kolo e aqui também chegou. Não éele pois quem casa com a minha filha? Tu, Bucorvo não éverdade que ficaste de lado?... Bucorvo, teve ele alguma resposta a dar? Não lhe ficou antes a cabeça caída? Pôs-se a andar e nem se despediu. Virou as costas como num arremesso. Sapo-Concho ficou para dormir. Mataram-lhe uma galinha e deitou-se. E puseram-se a conversar, ele mais a noiva. De manhã, ao raiar do dia, madrugou a dirigir-se aos aposentos do rei, onde se cumprimentaram:

—Vamos ocupar-nos de nossos trabalhos. Pela tarde, nós por ai apareceremos outra vez. E o rei:

—Obrigado! Ide pois! Nós afinal não épor causa do trabalho que nos deitamos? Sapo-Concho saiu a seus trabalhos.

—Trabalhou, trabalhou, trabalhou, trabalhou, trabalhou... Ao declinar do sol, voltou a casa. Foi direito à lareira, junto ao sogro. Ali ficou assentado. Conversaram detidamente, passando o sen tempo sentados, dando e recebendo as informações do dia, um ao outro. A noiva trouxe o pirão, ele comeu, e foram-se deitar. Pela manhã, madrugaram a ir ter com o rei.

—Eu... queria pedir a mulher para levar. Os trabalhos, connosco aqui, multiplicam-se: isto assim de caminhadas a pé é coisa que quero pôr de parte. Diz o rei:

—Bom! Não tens tu aí a mulher?! O que eu quero não é receber o meu boi?! Sapo-Concho foi-se, tendo-se despedido, tratou de pedir o boi e apresentou-o. Deitaram-se. Ao raiar do dia seguinte, a mulher carregou com os seus pertences e seguiu para casa de SapoConcho. Ali ficaram a morar. Viveu com ela um ano inteiro. Com ela cultivou seus cereais. Um dia a mulher abafou uma porção de mantimentos para grelar e fermentar. Descobriu-o depois e estendeu-o. Após isso, moeu-o e aplicou-se a fazer cerveja. Já ela deitara a primeira panela no coador. A outra panela a seguir... ao tomar água para lhe deitar dentro. vê que é pouca.

—Ó homem, ficas-me tu por favor a mexer aí na minha panela enquanto eu corro por água, que a panela esturra-se. Sapo-Concho exclama:

—Vai à vontade! Então o mexer tem alguma importãncia? Não é infracção aos costumes... ou é coisa que se passe aos olhares de muita gente? Até aqui onde estamos, só entre duas pessoas e eu não hei-de mexer? Corre à buscar água que a cerveja estraga-se. A mulher de Sapo-Concho foi-se à água. Assim que se afastou, Sapo-Concho, o homem, deu-se ao trabalho de mexer na panela. Experimenta levantar um braço para mexer, mas não chega até acima da panela. A panela é grande. Subiu então ao calço da panela. Levanta um braço para pegar no pau de remexer, mas não chega acima da panela. Vai ele então para cima do bordo da panela... Apenas deu duas mexedelas... e SapoConcho cai dentro da panela da cerveja. Ali se virou e revirou, dentro daquela água quente... Ali se volteou ele, dentro da água quente. Surge a mulher que está de volta. Toma a direcção de onde estava o homem... —Então tu não me ajudas a pousar? Mas do homem não sai nem pio. A mulher pousou as cabaças. Foi depressa ver a sua panela, na ideia de que se queimava. Ao fazer o gesto de mexer... Sapo-Concho, ei-lo a ele dentro da cerveja!!... Já há muito que ele ali esturrou. Pega ela da panela a tirá-la do fogo e despeja-a no chão. Deita depois a correr a casa da familia de SapoConcho. Encontrou-os e disse-lhes:

—Vinde dai ver. Nunca os meus olhos toparam numa coisa assim. Todos os da familia se reunem e seguem atrás da mulher, para ver. Ao deparar com ele, com Sapo-Concho... ai! As pernas estão viradas para o ar!... —Então tu mulher, isto aqui... o teu homem como é que ele se encontra assim? Diz ela:

—O meu homem, eu deixei-o aqui, e disse: “Vai-me tu mexendo na panela. Eu vou buscar água?. Resposta dele: “Está bem?! Ao voltar eu da água... o meu homem está dentro da panela! Eu a começar a mexer... lá está ele!... —Então, companheiros, a quem havemos de deitar as culpas? Afinal não foste tu que mataste o homem?... Tu que disseste: “Mexe na panela!?... Aqueles dizeres mais apoquentaram a mulher. Celebraram os choros fúnebres e foram enterrar Sapo-Concho. A mulher, remoendo no caso, pôs pés a caminho a falar ao rei, seu pal.

—Cá por casa, baralharam as coisas contra mim, dizendo: “tu mataste o teu homem, porque o mandaste mexer na panela?. Diz o pai:

—Eles que venham cá para eu ouvir o pleito. Toda a gente se reuniu em casa do rei. —Exponde as vossas razões! E eles disseram:

—Quanto a nós... o nosso parente foi morto pela tua filha!... —Como se passou isso? E explicaram:

—A mulher disse: “mexe na panela?! “Entretanto vou à água?. Quando voltou a mulher, SapoConcho não chegara à panela, trepara para cima dela e caira dentro da panela! Responde o rei:

—Isso aí, não foi Sapo-Concho quem se matou? Pois para que é que ele foi mexer na panela, sendo homem? Observa a mulher:

—Pois eu lá em casa também disse que: Vivemos dois sòzinhos no meio do mato. Assim, para que seja eu a ir àágua, e eu também a mexer na panela... veio a estragar-se uma das coisas. Por isso o meu próprio homem deu cabo de si, ao resolver: “eu vou mexer na panela?. E o que eu digo —acrescentou —vós não ouvis? Os da família replicaram:

—Bom. Isso éo que tu dizes; nós vamos ouvir a decisão do rei! Diz então o rei: —Eu reconheço a minha filha que aqui trouxestes. Nada tenho mais a dizer. Aqui em minha casa, eu reconheço-a. Esse homem... morreu dele mesmo... foi a morte que lhe calhou... aquela que Deus lhe enviou. Foi isso o que o levou a ir mexer na panela. Donde lhe veio tal ideia? Eu limito-me a reconhecer a minha filha. Que ela fique com a sua viuvez. Vós podeis retirar-vos. Eis o meu dizer! E a minha narração também! Acabei.

 

Dados biográficos e outros como no nº 1. Nesta narração também, A. Constantino Tyikwa dá provas da sua grande mestria, focando diversos aspectos da vida familiar e social, conforme ela se desenrola no próprio ambiente. E caracteristico por exemplo, como ele sabe notar com realismo pitoresco as faltas contra a etiqueta em vigor nas visitas, cometidas pelo pequeno mensageiro do rei, por causa da sua inexperiência. —O “negócio? do casamento da filha está um tanto ou quanto idealizado. No entanto a liberdade na escolha, por parte da rapariga, ficou bem evidenciada. E curioso notar que Constantino não especifica a natureza animalesca deste rei monogámico e que não dispõe sequer de ministros. Esta imprecisão tem talvez por fim tornar mais humana a figura do rei dos animais. O desafio de corrida que constitui urn dos episódios do conto —um acidente em que um animal naturalmente veloz é vencido por um outro de passo lento, graças à sua manha ardilosa —ocorre também noutras narrações. Confinando-nos à área linguística especialmente considerada neste estudo, convém mencionar as seguintes: A Tartaruga e o Chacal —recolhida por Pettinen 45 . Duas registadas por Hauenstein: uma existente entre os Bundos e a outra entre os Hanyas. Nesta os protagonistas são os mesmos que no conto Nyaneka 46 . Aliás, não foi difícil a V. Guerreiro, que procedeu a estudos comparativos da literatura fabulística, não só de etnias africanas, mas também de povos dos outros continentes. provar, que o tema versado nestas narrativas é de ordem universal.

B Contos Em Que Intervem Monstros Antropófagos

10: Ekihi N'omunthu

Ou wati: Mandyikull. Wati:

 —Au! Ame hiliwa. Mandyi-kuavela ekuti. Ati:

—Ekuti himali. Himekuta. —Mandyikuavela ondyandya. Ati:

—Ondyandya himali. Himekuta.

—Mandyikuavela ondyundyu. Ati:

—Ondyundyu himali. Himekuta.

—Mandyikuavela otyitena. Ati:

—Otyitena himali. Himekuta. Mandyikuavela ombambi. Ati:

—Ombambi himali. Himekuta.

—Mandyikuavela otyihine. Ati:

 —Otyihine himali. Himekuta.

—Mandyikupe ondyamba. Ati:

Ondyamba himali. Himekuta. Ame ndyihanda ove, omunthu watyo. —Au! Ame mandyikekuavela umwe ongombe. Oyo mandyiya okukufetela.

10: Um Monstro E Uma Pessoa

Diz ele: Vou-te comer. E ela:

—Não! Eu não sou de comer.

Dar-te-ei uma rola. Ele:

Não comerei a rola. Não me fartarei.

—Vou dar-te um pardal. Ele:

Não comerei o pardal. Não me fartarei.

—Vou dar-te um “melro verde?. Ele:

Não comerei o “melro verde?. Não me fartarei.

—Dar-te-ei um passarinho das sebes. Ele:

Passarinho das sebas não como. Não me fartarei.

—Dar-te-ei um antílope “bambi?. Ele:

Não comerei “bambi?. Não fico farto.

 —Vou te dar um antilope “tyihine?. Ele:

Não tocarei em “tyihine?. Não fico satisfeito.

—Dar-te-el um elefante. Ele:

Eu não vou comer elefante. Não ficarei saciado. Eu quero-te a ti que és gente. —Não! Eu vou-te mesmo dar um boi. E com esse que virei pagar-te.

11: Ekuti N'Ekihi

Ekuti lya mwene lya Mukumbekumbe lya Kaundanganga. Oviila aviho andyitange andyimane.

 —Nthumbulile ou mundile. —Ondyandya... —Ondyandya ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga. Oviila aviho andyitange andyimane.

—Nthumbulile ou mundile. Ondyundyu... —Ondyundyu ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga. Oviila aviho andyitange andyimane.

 —Nthumbulile ou mundile. —Ombambi... —Ombambi ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga. Ovinyama aviho andyitange andyimane.

—Nthumbulile ou mundile. —Otyihine... —Otyihine tya mwene tya Mukum-be-kumbe tya Kaundanganga. Ovinyama aviho andyitange andyimane.

 —Nthumbulile ou mundile. —Otyipundya... —Otyipundya tya mwene tya Mu-kumbe-kumbe ya Kaundanganga. Ovi-nyama aviho andyitange andyimane.

—Nthumbulile ou mundile. —Ondyamba... —Ondyamba ya mwene ya Mukum-be-kumbe ya Kaundanganga, Ovinyama aviho andyitange andyimane.

—Nthumbulile ou mundile. —Iya!... Andyikupe ongombe!... —En!

11: Uma Rola E Um Monstro

Rola alheia de Mukumbe-kumbe, de Kaundanganga. Todas as aves eu nomeio até acabar.

 —Diz-me quem me arranjas para eu comer. —Um pardal... —Pardal alheio de Mukumbe-kumbe, de Kaundanganga. Todas as aves eu nomeio até acabar.

—Diz-me quem me arranjas para eu comer.

—Um melro verde... —Melro verde que tem seu dono, de Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Toda as aves eu nomeio até acabar.

—Diz-me quem me arranjas para eu comer. —Um “Bambi?. —“Bambi? com seu dono, de Mu-kumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animais nomeio eu até acabar.

—Diz-me quem me arranjas para comer. —Uma “Tyihine?. —“Tyihine? que tem seu dono, de Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animals nomeio eu até acabar.

 —Diz-me que me dás a comer. —Uma “Punja?.... —“Punja? de seu dono de Mukumbekumbe de Kaundanganga. Todos os animais nomeio até acabar.

—Diz-me quem me dás tu a comer. —Um elefante... —Elefante de seu próprio dono, de Mukumbe-kumbe de Kaundanganga. Todos os animais eu nomeio até acabá-los todos. —Diz-me tu quem éque arranjas para eu comer.

—Pois bem!... Dar-te-ei um boi!

—Está bem!

Narradoras: Teresinha Silvina e Josefina Tyimbaya, des-cendentes de pais Ngambwe (Gambos), da Quihita. Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Estes dois pequenos contos, são quase inteiramente cantados, isto é, a parte que contém as exigências do papão. As respostas, que se reduzem à enumeração de uma série de animais, propostos à sua voracidade, são simplesmente nomeadas. Nesta lembrança de animais, podem tomar parte todos os ouvintes que o queiram fazer. E fácil de ver que desta forma, a narrativa pode durar uma hora e mais e constituir um bom exercicio mnemotécnico de história natural. —(Hauenstein menciona um exercício similar entre Bundos) 52 . O facto de o boi ser colocado no grau mais alto na escala de valores animals e vir a ser devorado pelo monstro em substituição de um ser humano, mostra bem a grande estima que merece a esta gente o gado bovino.

12: Ekihi Lyatyituka Otyihingi

Ovo vaya k'onombe. Avavasa otyi-hingi m'ondyila. Avapunduka. Mutatu wapunduka. Mukwana wapunduka. Mutano, wok'onyima, p'okwapunduka, ati: —Tyimphundukila - tyi, valakana! K'onombe vakondoka. Ekihi velivasa lyatyituka omphunda. Pahe avaimbi: Epund'eli, epund'eli lya Naulumbu; linthyile ndyipite. Lya Naulumbu!... Aliti:

—Tu! Pita! Wanthukile keya, wandimbikila kandiate. Avaimbi:

—Epund'eli, epund'eli lya Naulumbu, linthyile ndyipite! Lya Naulumbu! Aliti:

Tu! Pita! Wanthukile keya, wandim-bikila kandiate. Akuya wokwelitukanene. Omphunda yeliilkula ombundi. Tyino omona wati ndyilupuke, omphunda aiiki-po. Omphunda yatyituka Ekihi. Ovakwavo vaya lumwe. Pahe Ekihi lyemupula okuti: —Upola-tyi: okuliwa n'okunepwa? —Ati:

Hahe ndyinepwe. Alimunepe umwe. Avatyiti um we ovana vetatu. Etyi vekula, Ekihi alikayeva. Otyimboto atyiya k'eumbo. Atyipula okuti:

—Nehova, kweliivalukile k'ovonyoko? Ati:

 —Neivaluka... Alinyini ovimbala vyae, alinyini ombiya n'ombwe, alinyini ovana vae. Pahe alimunyini mwene. Tyina otyimboto tyalupuka m'eumbo, Ekihi wahonyena na lyo. Alimupula okuti:

 —Wekuta-tyi? Ati:

—Onongonge. Atyihimbika okuimba. Ndyitwala Nehova ku ina! Nehova malili ku ina! Etyi Ekihi lyetyiiva, alikondoka okumupula:

 —Wekuta-tyi-ale? Atyiti:

 —Oumphuku m'omilola n'oungongololo m'omivanda. Ati:

—Ho-ho! Oyó otyimboto. Talei- -ko otyimboto tyok'omeva. Atyihimbika vali okuimba: Ndyitwala Nehova ku ina! Nehova malili ku ina! Etyi tyehika k'ovoina atyilinkhilimi-kila p'otyimbala. Ina atumu omona ati:

—Kapole otyimbala tuteleke-po. Tyin'omona etyikwata atyiti:

—Nkhilumuna nawa; pena Nehova. Alupuka umwe omonà, ati:

—Ove, Me, pana p'otyimbala pen'ou uivala: Nkhliumuna nawa; pena Nehova!!! Atumu vali umwe, omukulu watyo. Etyi akwata otyimbala, otyimboto atyiti:

—Nkhilumuna nawa: pena Nehova. Aende ku ina, ati:

—Me, p'otyimbala peivala: “Nkhilumuna nawa: pena Nehova?!! —Uhatumbule ou Nehova wankhia. Pahe ina mwene akatuka. Tyina etyikwata, atyiti ngo:

 —Nkhilumuna nawa; pena Nehova! Ina yatyo, etyi ankhilumuna-po, ati: Otyimboto tyilinga-tyi p'otyimbala tyange? Otyimboto atyiti: Muhandingei. Kom-belei-po. Etyi vakomba-po, atyihimbika okuhomboka, atyihandya ombwe; atyihomboka vali, atyihandya ongalo, atyihomboka vali atyihandya otyimbala, atyihomboka vali, atyihandya ombiya. Atyihandya omona, atyihandya omukwave, atyihandya omukwavo, atyihandya ina yatyo, pahe. Ina alolola. He ati:

—Pahe mofetwa-tyi? Atyiti:

—Nthwalei k'enyana k'ovana vange. Etyi vetyitwala-ko, pahe atyiti:

—Yalelei, ovana va tylmboto. Pahe aveho vayalela: Hã-hã! Hãhã!..

12: O Monstro transformado Em Cepo

Elas vão aos frutos da berquémia. E encontraram um cepo no meio do caminho. E tropeçaram nele. Tropeçou a terceira. Tropeçou a quarta. A quinta, que ia atrás, ao tropeçar exclama:

—Porque me fazes tropeçar, ó ferido “in pudendis?. E à fruta já não foram mais. Mas vieram encontrar o monstro transformado em monte. Então põem-se a cantar: Este monte, este monte de Naulumbu, que me deixe caminho para eu passar. O de Naulumbu! E ele responde: Apre! Vai-te! Querm me insultou não chega. Quern me disse insolências não me calca. E elas cantam:

—Este monte, este monte de Nau-lumbu, que me deixe caminho para eu passar. O de Naulumbu! E ele responde: Apre! Vai-te! Quem me insultou não se chega, quem me disse insolência não me calca. Chega então a que o havia injuriado. O monte abriu-se formando entrada. Na altura em que a rapariga ia para sair, o monte fechou-se. E o monte transformado em monstro. As outras foram-se embora. Pergunta-lhe então o mostrengo:

—Que escolhes: ser devorada ou casar. E ela diz:

—E melhor casar. E tomou-a mesmo por mulher. Até que chegaram a ter três filhos. Já crescidos estes, o mostrengo vai àc aça. Um dia vem um sapo e entra em casa. E interroga assim àrapariga:

—Nehova, tu não tens saudades da tua mãe? Diz ela: Tenho saudades... E o Sapo engole as suas cestas, e engole a panela e o cesto, e engole os seus filhos. Por último, engole-a a ela também. Uma vez fora de casa, o Sapo encontrou-se com o monstro. E este per-guntou-lhe:

—Porque tens tu a barriga tão cheia? Responde o Sapo:

—São caracóis. E o Sapo, pega a cantar: Eu levo Nehova a sua mãe! Nehova está a chorar por sua mãe! Tendo o monstro ouvido isto, voltou atrás e pergunta-lhe:

—Afinal porque tens tu a barriga tão cheia? E ele responde:

—Uns ratinhos nos córregos e, umas centopeias nos caminhos do gado. E o monstro: Há-ha! É isso sapo: Vinde ver o sapo da água. Este recomeça o seu cantar: Eu levo Nehova a sua mãe! Nehova está a chorar por sua mãe. Chegado ele à familia da rapariga, foi-se meter debaixo de uma cesta em-borcada. A mãe mandou uma das filhas dizendo

—Vai buscar a cesta para cozinharmos. —Pega a pequena na cesta e o Sapo exclama:

—Descobre com jeito: está aqui Nehova. E a rapariga fugiu cá para fora bradando:

—Ó Mãe, ali para o pé da cesta há alguém que está a dizer assim: “Descobre com jeito: está aqui Nehova!!! A mãe mandou uma outra, a mais velha. Logo que esta pegou na cesta diz o Sapo: —Descobre com jeito: está aqui Nehova. Vai ela ter com a mãe e diz:

—Ó Mãe, ao pé da cesta ouve-se dizer assim: “Descobre com jeito: está aqui Nehova?!!!

—Não a nomeies, a Nehova que faleceu. Levanta-se então a própria mãe. Assim que lhe pegou, volta o Sapo:

—Descobre com jeito: está aqui Nehova! A mãe, ao virar a cesta, exclamou: Que faz aqui o Sapo junto àminha cesta? Responde o Sapo: Não me façais mal. Varrei-me um largozinho de terreiro. Acabaram de varrer e ele começou a saltitar, vomitando o cesto, Voltou aos seus pulos e vomitou a peneira; tornou a pinchar e vomitou a cesta, deu mais salto e vomitou a panela. Vomitou depois uma criança, a seguir foi outra e ainda mais outra, vomitando por a pró-pria mãe. A mãe de Nehova prorrompeu em gritos de alegria. Exclama o pai:

—Que é que vais receber agora em pagamento? E o Sapo respondeu:

—Levai-me para ório, para os meus filhos. Uma vez que o levaram, exclama então: —Gritai de alegria, filhos do Sapo. E todos pegaram então a goelar:

—Hã-hã Hã-hã!...

Narradora: Maria Rosa, casada, de 49 anos de idade, filha de pais Ngambwe (Gambo). Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Ocorre nesta narrativa pela primeira vez o apelido de Nehova. E o nome feminino mais comum em todas as tribos, tanto no grupo étnico Nhyneka-Humbe como nas do Ambo. Etimològicamente o vocábulo deriva da raiz verbal —hova —com o significado: castrar. O sentido exacto deste antropónimo é pois: a (fulana) do boi castrado. Mas é bem de ver que o que evoca tal nome no espírito desta gente não é a operação, mas o seu resultado ou seja um nédio exemplar deste animal doméstico. E frequente nestas narrativas um monstro dar a escolher a uma rapariga entre ser devorada ou casar com ele. Aqui temos um exemplo dum destes matrimónios forçados. Muito mais raro éos contos referirem o facto de terem nascido filhos de tal miscegenação. Mas mesmo neste caso, que supõe anos de coabitação, a mulher consegue sempre libertar-se e levar os filhos para a sua parentela humana. (Ver caso semelhante: Héli Chatelain)

13: Ekihi N'Oty:tumpwa

Ekihi ankho lienda-enda, elivasa n'otyitumpwa, m'ofika. Aliti okuti:

 —N'okunepwa n'okuliwa upolapo-tyi? Ati:

—Ndyipola-po okunepwa. Aliti: En! Nekunepa. Ati:

 —Tyu! Avapumphama p'ohi 1. Aliti:

 —Nthwinye-po-vo onona. Alilangala-po p'ovikalo vyae. Otyi-tumphwa otyo atwinya. Atyiti:

 —Ankho nania entholo etutu —tu! —Oti, upahi; Ankho nania entholo enene —tou! —oti ulele.

 Ekihi alini enthoio aliti: tu! Otyi-tumphwa atyiti:

Upahi. Alini vali pahe entholo enene, aliti: tou! Otyitumphwa ati:

Walala... Emuyombolola k'ovikalo vyae. Onohuki mbekihi ankho ononde, embupandapanda, embupanda-panda, okupandapanda ovipanda, embuitaikila m'ovifwo p'onthele n'apa vekahi. Elilangeka p'ohi. Lina Ekihi ankho lin'okañgoma. Otyitumphwa apola-po okañgoma, aende na ko. Ekihi otyo lilele. Alilala... Alilala... Alilala... Etyi lyapahuka, aliti:

 —Mukwendye, nthyile! Mukwendye ndyeke! En?... Ndyikulya... Etyi lyatumphuluka n'ononyengo, onohuki ambukakuka n'otyikova k'omutwe. Alipapana ohonde. Alikafimbula m'ondyila omphai yotyitumphwa. Aliimbi: Mukwe, hotwala okañgoma! Mukwe, hotwala okañgoma! Komaklhi... okañgoma. Otyitumphwa otyo aya, na e aimbi: Hono ndyitwala! Hono ndyitwala, k'okamona kange keli m'onongongo! Ekihi aliimbi ñgo: Mukwe, hotwala okangoma! etc., etc., etc. Otyitumphwa na e aimbi: Hono ndyitwala, etc., etc. Ekihi otyo lienda, lilandula-ko. Otyo liimba ñgo. Otyitumphwa avasa otyimboto. Otyimboto atyiti:

—Otyityi? Ati: Ekihi lihanda okundia! Otyimboto atyiti:

 —Eta . Atyimunyini, atyinyini vali okañgoma. Ekihi lyeya. Otyo liimba ñgo: Mukwe, hotwala okañgoma, etc., etc., etc. Otyitumphwa kaimbi vali. Uli m'eimo lyotyimboto. Ekihi etyi lyeya umwe aliti:

—Tyimboto wekuta-tyi? Otyimboto atyiimbi: Nakalile - lile oungonge m'omilola, n'oungongolo m'omataka. Aliti:

—Hó-o! Talei otyimboto! Waimba mona womphange!. Otyimboto, atyiende n'ok'eumbo lyotyitumphwa. Etyi tyati “p'otyinthali?; omukai Oyou. (Omukai wavahiwa p'ondye). Omukai ati:

—Tala Otyimboto. Omulume ati: —tyili peli? Omukai ati: otyotyo; Mandyityiipaa! Omulume ati:

 —Uhetyiipae! Ngwe atyiti:

 —Kombei-po. Atyihandye okañgoma, atyihandye vali otyitumphwa tyatyo. Pahe ovoina avati:

—E! Oyou omona wetu wokwavombele! ... Lyepei, mona wange! Lyepei! Ovohe vatyo avati:

—Pahe Otyimboto etyi matyipewa-tyi? Tutyiavele onongombe. Otyimboto atyiti:

—Ame onongombe ndyitupu oku ndyitwala. Mphei vala omeva p'otyikola ndyiyoe, andyiende. Avekeavela omeva p'otyikola... yoe... yoe... yoe... atyiende.

13: O Monstro E A Moca casadoira

Andava um monstro em seu passeio e encontrou no mato uma moça casadoira. Disse ele assim:

—Entre casar e seres devorada que escolhes tu? E ela:

 —Escolho casar. E ele então: Está bem! És minha mulher. E ela:

—Obrigada! E constituiram lar.  Diz-lhe ela assim:

—Cata-me os piolhos. E deitou-se-lhe sobre as pernas (estando ela sentada). A moça ia catando. Ele fala-lhe dizendo:

—Se eu der uma ventosidade pequena, —traque! —Sabes que estou acordado. Se der uma ventosidade grande —pum! —sabes que estou a dormir. E o monstro largou uma ventosidade: traque: Vai a moça e diz: Ele está acordado. E largou depois outra ventosidade grande, fazendo: pum! Então diz a moça:

 —Ele pegou no sono!... E afastou-o com jeito de suas pernas. Os cabelos do monstro eram compridos e ela torceu os e retorceu-os, torceuos e retorceu-os, fazendo deles tranviliças, e amarou-os na ramagem do lugar onde se encontravam. E a ele deixou no chão. O tal monstro possuía uma pequena caixa de batuque. A moça tirou esse pequeno batuque e foi-se embora com ele. O monstro continuava a dormir. E dormiu... e dormiu... e dormiu... Quando por fim acordou, começa ele:

 —Ó rapaz, deixa-me! Ó rapaz, larga-me! Ai, ele é isso? Eu como-te!... Como se tivesse levantado com raiva, os cabelos despegaram-se da cabeça junto com a pele. O sangue começou a correr. Foi de seguida a farejar pelo caminho o rasto da moça. Cantava assim: Olá, ó tu, não leves o batuquezinho! Olá, ó tu, não leves o batuquezinho!... que édos monstros... o batuquezinho. Mas a moça andava sempre e cantava também: Desta feita eu levo... desta feita eu levo... para o meu filhinho, que está além nos outeiros! O monstro continua a cantar: Olá, ó tu, não leves o batuquezinho!... E a rapariga prossegue também na sua cantiga: Desta feita eu levo... Mas o monstro não pára, não deixa de persegui-la. E continua a cantar. Entretanto a moça encontra um Sapo. E diz o Sapo:

—Que há? Responde ela: E um monstro que me quer comer! Replica o Sapo:

—Anda cá que eu engulo-te. E engoliu-a e engoliu ao depois o pequeno batuque. Surge então o monstro, que continua com a sua cantiga: Olá, tu, não leves o batuquezinho... A moça deixou de cantar. Está metida na barriga do Sapo. Assim que o monstro chegou mesmo ao pé, observa:

—Ó Sapo, com que tens tu a barriga cheia? E o Sapo respondeu cantando: Fui comer caracoizinhos aos córregos e pequenas centopeias às baixas marginais. Exclama o monstro:

—Há-há! Vede este Sapo!... Cantaste muito bem, meu sobrinho!... E o Sapo lá se foi até casa da moça. Tendo chegado ao “quintal? surge-lhe uma mulher. (Uma mulher que foi encontrada cá fora). Diz a mulher assim:

—Olha um Sapo. Replica o homem:

—onde está ele? Torna a mulher:

—Está acolá. Vou matá-lo. E o homem, por sua vez:

 —Não o mates! Fala entã o Sapo e diz:

—Varrei-me um terreiro. E vomitou o pequeno batuque, para bolçar a seguir a própria moça. Grita então a mãe:

—Ah! Cá está ela, a nossa filha que se perdera!... Benvinda sejas, minha filha. Benvinda sejas! Ajunta então o pai:

—E o Sapo? Que é que ele vai receber? Dêmos-lhe bois. Resposta do Sapo: Eu, bois, nada vou fazer com eles. Dai-me só água num pedaço de cabaça para eu nadar e ir-me embora. Deram-lhe então água num pedaço de cabaça... e ele nadou... nadou... nadou ... e foi-se embora.

Narradora: Justina, casada, de 37 anos de idade, filha de pais Ngambwe (Gambos). Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963.

14: Ekihi N'omukai

Veli m'otyilongo, aveho vevali vala. Otyilongo atyiho tyapwa okuliwa. Pahe muhuka okuti n'omukai watyo n'ekihi lyatyo, n'onongombe mbomukai watyo ó. Pahe ekihi etyi lyaliwa n'ondyala, aliya k'omukai aliti:

—Mukai, yumbaila ondila! yumbaila ondila! Ati:

—Ame nahatiwa: yumbaila ondila, yumbaila ondila! Ovimbisi ndyinavyo ovya Tyikomba-tya- -Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Aliende. Muhuka etyi kwatya aliya vali.

—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila!

 —Ame nahatiwa: yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ovifufwa ndyinavyo ovya Tyokomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Muhuka, tye, allya vali, aliti:

—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila!

 —Ame, nahatiwa: Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ononkhombo ndyinambo omba Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Ekihi aliende. Muhuka, etyi kwa-tya, aliya vali. Aliti:

—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila andila! Ati:

—Ame, nahatiwa yumbaila ondila, yumbaila ondila! Onongi ndyinambo omba Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Alikalala. Muhuka aliya vali, aliti:

—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ati:

—Ame nahatiwa: Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onongombe ndyinambo omba Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Ekihi aliende. Pahe pahupa vala onthwei ike n'omukai. Etyi lyeya aliti:

—Mukai, yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Ati:

—Ame nahatiwa yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onthwei ei ndyinayo oya Tyikomba-tya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Ekihi “para? likwate onthwei yatyo oyo, kamalivete - ko, m'“okonta? etyi onthwei in'onombinga, ihanda okulitoma. Pahe lihanda okulya omukai watyo ó. Omukai ati:

—Ame nahatiwa: Yumbaila ondila! Yumbaila ondila! Onthwei ei ndyinayo oya Tyikombatya-Ngonga. Kwata! Nayumbaila ondila! We! Kwata! Nayumbaila ondila! We! Tyina Ekihi liti ñgo: ndyiutukile onthwei —onthwei alitomo, Ekihi alinkhi. Omukai óavakwata pahe okuyuva Ekihi olyo. Omulume watyo, ankho utiwa Tyikomba tya Ngonga, wavahiwa m'eyo lyok'onthele-nthele oko. Iya, ovanthu aveho, etyi valupuka-mo m'elmo lyeklhi olyo, n'onongombe mbatyo, n'ovanthu vatyo aveho avalupukamo. Omukai watyo alingi umwe Onkhaihamba. Kwapwa.

14: O Monstro E A Mulher 

São eles que habitam certa terra, só eles os dois. Toda a gente acabou por ser devorada. Um dia pela manhã só há a tal mulher e o monstro em questão, mais o gado dessa mulher. Ora, o monstro como estivesse cheio de fome, vem ter com a mulher e diz-lhe (cantando):

—Mulher, paga passagem! Paga passagem! E ela: A mim não se diz: Paga passagem! Paga passagem! Os gatos que eu possuo são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei passagem! Olé! E foi-se. No outro dia pela manhã, voltou.

—Mulher paga passagem, paga passagem!

—A mim não se diz: Paga passagem! Paga passagem! As galinhas que tenho são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei passagem! Olé! No dia seguinte de manhã vem outra vez e diz:

—Mulher, paga passagem! Paga passagem!

—A mim não se diz: Paga passagem! Paga passagem! Os cabritos que te-tya-Ononkhombo  não são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé Agarra! Já paguei passagem! Olé E o monstro afastou-se. No outro dia, pela manhã lá está ele outra vez. E diz:

—Mulher, paga passagem! Paga passagem! Responde ela: Não se me diz: a mim: Paga passagem! Paga passagem! As ovelhas que possuo, são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei passagem! Olé! E o monstro foi dormir. Volta ele no dia seguinte e diz:

 —Mulher paga pasagem! paga passagem! E ela: Não se me diz: Paga passagem! Paga passagem! Os bois que tenho, são de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Agarra! Já paguei passagem! E o monstro foi embora. Só restam, agora, um único touro e a mulher. E o monstro volta e diz: —Mulher, paga passagem! Paga passagem! Replica ela: Não se me diz: Paga passagem! Paga passagem! O touro, que tenho é de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei passagem! Olé! O monstro para agarrar esse dito touro não consegue, pela razão de que o touro tem chifres e quer escorná-lo. Ele quer então devorar a mulher em questão. Mas diz a mulher.

—A mim não se diz paga passagem! Paga passagem! Este touro que possuo é de Tyikomba-tya-Ngonga. Agarra! Já paguei passagem! Olé! Agarra! Já paguei passagem! Olé! Ao vir outra vez o monstro; com o gesto de vamos ao touro! —Este cravou-lhe os chifres e o monstro morreu. E a mulher deita-se então a esfolar aquele monstro. O homem dela, que se chamava Tyikomba tya Ngonga, foi encontrado num dos últimos dentes da queixada. Pois toda aquela gente, ao sair do ventre do referido monstro, com os bois que lá havia... e sairam todas as pessoas que lá estavam. Pois a mulher da história foi quem se tornou mesmo a rainha. Acabou!

Narradora: Rufina Susana; casada, de 19 anos de idade, neta de Ngambwe (Gambos). Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Nesta série de narrativas, temos aqui o primeiro exemplo do facto de as vitimas devoradas por um monstro, ficarem libertadas, graças a uma intervenção cirúrgica que se apresenta como a coisa mais simples e natural deste mundo. Não parece poder falar-se em ressurreição destes seres, pois a narrativa dá a entender que mesmo aqueles que foram tragados há dias ou meses, não perderam a vida. Por outro lado há casos em que o papão se queixa de uma digestão dificil depois de uma refeição canibalesca. Seja como for da falta de lógica nestes acidentes fortemente fantasiados, a recuperação de uma vida normal das vítimas por meio de uma operação, constitui o “Happy end? da maioria das narrativas de monstros publicadas neste volume.

15: Ekihi Na Nehova

Opopo umwe. Omakihi aavasa omukai un'omona. Aemuvake omona wae. Avahamali. Avemupaka vala opo. Okamboto okuya, akavasa omona ulila. Akati:

 —Ulila-tyi? Ati:

—Ndyihanda k'oMe. Omakihi ahanda okundia-po. Okamboto akati;

—Endyu kuno ndyikunyine-po, ndyikutwala k'onyoko. Okamboto akanyini omona. Akaimbila p'onthele yomakihi. Ati: Ndyitwala Nehova k'ovoina, Nehova malili otyiivaluko P'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! —Okamboto kati-wi, aka? Akati:

—Natyike naimba. —Hé! Ine wavaka-po omona wetu? —Au! (Okamboto akakwata ñgo k'okuimba). Ndyitwala Nehova k'ovoina, Nehova malili okaivaluko P'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! Au! Ekihi alikwata Okamboto. Aliti: —Mandyikuipaa. Wavaka-po omona wange! Ati:

—He!... Ngetyi mamundyipaa... nkhwatei umwe, amunthyindi, amundyumbu umwe k'ombanda yomeva. Ankho mwandyumba andyitikuka umwe ongali... ñga... m'eimo... Opo nankhya umwe. Ankho mundyumba apa, p'onthan-thalahi apa, himankhi, k'enyana lyeyula umwe! Ekihi alityindi otyimboto okumu-twala k'enyana. Etyi Ekihi avasa umwe enyana, alilitila umwe: —Too... pa umwe! —otyimboto atyitlkuka umwe. Ekihi aliutuka umwe likakwate. Una Otyimboto apinunuka umwe, akayoa, akayauka. I'Ekihi alii n'omeva. Ekwavo alilandula-ko. Kalityivili okuyoa. Una Tyimboto, ayauka umwe himba lina, Tyimboto, etyi ehika kuna, wehi-kila ñgo okuimba: Naeta Nehova k'ovoina. Nehova malili otyiivaluko. K'onthele yomapya k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! Omukai watyo, ina a Nehova, apolo okatemo, ati:

—Okamboto kandalula aka! A! Man-dyiketyoko! Katumbula omona wange wankhya? Akahomboka-po okamboto pu ou uhanda okuketyoka n'etemo, Ina a Nenova. Naeta Nehova k'ovoina Nehova malili okaivaluko k'onthele k'omapya, k'omaumbo. Tililililá! Tililililá! Tililililá! —Ho! Mandyikaihana ovanthu!... —Onwe, endywei mukanthehelese otyimboto tyikahi n'okundalula!... Tyi-tumbaula omona wange wokwankhy'ale, wokuhamoneka. Ava aveho umwe om'okuya. Naeta Nehova k'ovoina Nehova malili okaivaluko Nehova malili okaivaluko Tililililá! Tililililá! Tililililá! —Ehe! Mukwe! Okamboto uhekei-pae. Kana ekemutila umwe... tiaku! Tyina vati ñgo ñgana... Hamona wae umwe? Nehova? Havahapakulila Tyimboto onongombe ononyingi-nyingi okumufeta? Una ati

—Aha! Ame ndyitupu-ale oku ndy-imbutwala. N'okulya ame ndyitupu-ale eimo enene. Mandyiende. Nemuetela vala omona wenyi... Hakaluñgano Kange? Helengete!... Ha mu ove?

15: O Monstro E Nehova

E desses mesmos que se trata. São monstros e encontraram uma mulher e sua filha. E roubaram-lhe a criança. Mas não a comem. Guardam-na simplesmente. Vem um Sapo e encontra a criança a chorar. Pergunta:

 —Porque choras? Responde ela: Quero ir para minha mãe. Os monstros querem comer-me. Diz então o Sapo:

—Anda cá, que eu engulo-te e levo-te a casa de tua mãe. E o Sapo engoliu a criança. E foi-se a cantar passando pelos monstros. Levo Nehova para casa de sua mãe. Nehova que chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá!

—Que é que diz este sapozito? Responde ele:

—Não, eu não cantei nada. —Oh! Não terás tu roubado a nossa miúda? —Não! (E o Sapo pega outra vez a cantar). Levo Nehova para casa de sua mãe. Nehova que chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! Pois sim! Pegou um monstro no sapo e disse:

—Vou-te matar. Roubaste a minha miúda! Diz ele:

—Ai sim?... Já que me ides matar... agarrai-me bem e levaime e ide atirar-me à água. Se me atirardes e eu me virar de costas... assim... a mostrar a barriga... Se for assim, então eu morri. Se me atirardes aqui, num largo desguarnecido, não morro... Tem de ser em rio bem cheio!... E o monstro carregou com o Sapo e levou-o até ao rio. Assim que o monstro chegou mesmo ao rio, jogou o Sapo com força —Cachapum! —o Sapo virou-se realmente. E o monstro lançou-se à água a agarrá-lo. O Sapo, esse, virou- - se do outro lado, nadou e atravessou o rio. Então o monstro afogou-se. Seguiu-se mais um mas não sabia nadar. O Sapo, esse, atravessou o rio para o outro lado. Ao chegar o Sapo onde ia, apareceu ainda a cantar: Trago Nehova a casa de sua mãe. Nehova que chora de saudades. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! A mulher que ouvia, a mãe de Nehova, pegou numa pequena enxada e disse: Este sapozito magoa-me com o que diz! Está a pronunciar a minha filha defunta?!... E o sapozito saltou de ao pé daquela que o queria cortar à enxada, a mãe de Nehova. Trago Nehova a casa de sua mãe. Nehova que chora com uma “saudade-zinha?. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! —Oh! Eu vou chamar gente!... —Vinde cá vós “vinde-me ouvir? um sapo a dizer-me palavras que me magoam!... Está a pronunciar a minha filha que morreu, aquela que desapa-receu! E toda aquela gente se aproximou. Trago Nehova a casa de sua mãe. Nehova que chora com saudades. Ao pé dos campos e junto às casas. Olarilolé! Olarilolé! Olarilolá! —Não, não! Olha cá! Não mates o sapozito. E ele abriu-se mesmo... Zás! Ao deitaram os olhos, a ver... não é afinal a filha dela que está ali? Não é ela a Nehova? E não ofereceram logo eles ao Sapo muitas cabeças de gado para lhe pagar? Mas ele disse:

—Não, não! Eu nada vou fazer com esses bois. E quanto a comer, eu não tenho grande barriga para tal. Vou-me embora. Eu só vos trouxe a vossa filha... E não é esta a minha historiazinha? Escapuliu-se!... Tens tu a palavra, não é assim?

Dados biogrãficos e outros como no n° 3. Este conto é uma variante do nº 13.

16: Ina a Mundyongo N'Ekihi

 Kumbi limwe, ondyala yeya. Ai k'Ekihi ati:

—Ndise-po ongele, p'ovana vove apa, limwe ndyilye. Apa otyihipo tyiti tiaku oya ondi. Ekihi aliti:

—E?... Otyili? Ati: —E! — Otyili? — E! — Otyili? — E! Otyo emupula tutatu, ati:

—Koya-po! Akoyo-po limwe enene lyatyo p'oma-kwavo. Aende. Akaipaa. Ohitu yatyo ati umwe: ei imwe ulya, ei unyungula. Apange-mo umwe n'okulya ohitu oyo yononyungu “te? m'ohanyi ya Pepo Linene. Etyi ovilya vyapya eiyumbu-hi, ati: —Mpho! Aneheili vali ohitu yenthu ng'ame-vo! Ateya - teya ovilya vyae, atyopa-tyopa. Pahe ati:

—Ndyilinge liwa ovilya vyange, ndyiende. Kun'ongele yekihi. Hamwe liya lindia.  Keimanene-ale k'omuhabo... Ekihi uliiva. Liivala okuimba, aliti: Ame ndandaula Ina a Mundyongo. Nkhele alile omona wange p'ondyala. Ati: “Otyhipo nga tyati tiaku, oya ondi, oya ondi. Ati:

—Hee! Lyeya! Ndyilinga ñgeli pahe? Ndyiliwa ine ndyienda nkholo? Ati:

—Ndyienda nkholo! Omwenyo kaulipolwa. Hamwe Ndyikahupa. Akahateka, akahateka, akahateka... anyingila m'enkhondo. Tyifa ati ñgana... olyeli, lyeya. Alupuka-mo. Akahateka, akahateka... Avasa —ovakai veli p'otyipale, vatwa ovilya, ati: —Vakai vakwetu, mphopilei-vo! Avati: —Otyityi? Ati:

—Ekihi lihanda okundia. Ngwe liya. Aliti: Ndyilandaula Ina-a-Mundyongo, Walile omona wange p'ondyala. Ati: “Apa otyihipo tyiti tiaku oya ondi?; Ovakai avati:

 —Ehe! Tukatukile m'eumbo! Akahateka, akahateka... anyingila vali m'eumbo limwe. Avemupulu: —Mukai utila-tyi? Ati:

—Ekihi lihanda okundia! Ekihi, ngwe liya, aliti: Ndyilandaula Ina-a-Mundyongo. Walile omona wange p'ondyala. Ati. “Apa otyihipo tyiti tiaku oya ondi?. —Ondaka oyove, mukai! Ati: He!... Mu ndyala... k'enyama?... Akalinguluka okukahateka tupu. Akahateka, akahateka... Akanyingila m'eumbo lyonkhulungu. Etyi eya, onkhulungu ati:

—Otyityi? Ati: Ndyipopilwa-vo! Enyama lihanda okundia!... Ati: Mukai, pumphama p'ohi, tutul'ale. Muno weya om'eumbo lya himi yenyi. Ngwe kuna Ekihi lyatyo, kuna liya umwe. Onkhulungu ati:

—Lyepei! Aliti: Tyu! Ati:

—Tangei-mo! Ati:

 —Aha! Ndyilandula Ina-a-Mundyongo. Walile omona wange p'ondyala, ati: “Apa otyihipo tyiti tiaku, oya ondi?. Ati:

—Otyili wemuvasa. Pahe ulya omukai, utulila kumwe n'ame na e. Pahe pano, oumbulunga pano kwavahile-po; okambulunga katyo omlyeveyo. Ekihi aliti:

—E! Onkhulungu apolo omakala okwanyima elipe, elipe. elipe... Alinyini. Alipake apa lipakaila. Apolo omakala okun'otupya, eliavela. Alinyini. Alipake apa lipakaila. Eliavela ondyundo anthila nayo. Alinyini. Alipake apa lipakaila. Eliavela okamuyeveyo katyo. Alinyini. Alipake apa lipakaila. Pahe Onkhulungu elipopila, ati:

—Pahe, tyina walya omukai ou, ovandeka ku ame, uhatalame vali. Enda umwe. Otyo uenda n'okupopya okuti; “Hono nevelya! Hono nevelyai!?. Ekihi aliti:

—E! Etyi lyamana okuvenyina, alimoneka umwe okuenda, otyo lienda n'okupopya okuti:

—Hono nevelya! Hono nevelya! Tyino litehela m'eimo mamuihama. Naina ovanthu ovo anyina-nyina vataindya onomphangu. Pahe aliti:

—Hum-hum!... Otyityi etyi nalya matyindyiihama m'eimo? Ovanthu ava nalya vataindya onmphangu? Alinkhi ohunga, aliti:

—Ndyienda n'ok'onthene —ngongo namwene-mwene omeva. Aliende, aliende... Etyi lyeya, onyombo in'omeva; aliti:

—Omukulu katatame nyombo. Ndyikataindya okakola. Tyina akataindya okakola p'ononienge, tyino eya okutala m'onyombo... onyombo yakukuta. Atundu-po, ati:

—Ndyiende vali k'onthenangongo yok'onGandi namwenemwene omeva. Aende, aende, aende... Tyino eya wavasa omeva omu ekahi. Ataindya okakola, apolo-mo omeva, ati:

—Omukulu kanu vala eheliputyile m'omulungu. Aliti umwe: putyu, putyu, putyu... m'omulungu. Tyino alinthila kuna, tyino ñgo atala m'onyombo... omeva akukuta. Ati:

—Ndyiende k'onthena-ngongo imwe namwene tupu omeva. Alyende. Ou Onkhulungu uli m'eimo, otyo ayeveya. Una wapaka-paka nawa ovipuka vyae, uhimbika okuyeveya. Iya pahe, etyi ati p'okati p'okuenda k'onthena-ngongo onkhwavo, omuhi upitila m'omayulu... n'omutemo... n'om'omulungu. Au! Etyi lyati umwe p'okati, kalyehikile-ko vali. Alinkhi. Ou Onkhulungu, m'eimo, amoneka okupola omutunga, ati lumwe: Laaa!... k'omuongo! Avalupuka umwe otyikumba tyimwe otyinene. Ongombe: —Mbooo!... Otyikombo: —Meee!... Ongi: —Beee!... Ofufwa: —Kirikiki!... Omunthimba: —Mondiate p'onkhopa!... Omwali (olukembe): —Hiñgaaa!... Avatungu umwe epunda-umbo lyavo, opo umwe, limwe enene. Ina-a-Mundyongo alingi umwe Tembo yotyilongo. Ou Onkhulungu alingi Mwene wotyilongo. Otyo vati: Tyino wakatantha ongele yove, kuende, awike. Muenda vevali, hamwe vetatu. Kuna vekihi na Ina-a Mundyongo. Avemuvandeka ena lyae. Kwapwa!

16: A Mae De Mundyongo E O Monstro

Aconteceu uma vez que grassava a fome. Foi uma mulher ter com um monstro e disse:

—Concede-me a crédito, de entre estes teus filhos, um deles, para eu comer. Quando a fartura chegar, tu vens e comes-me. Diz o monstro:

—O qué? E verdade? Diz ela: Sim! — E verdade? — Sim! — E verdade? — Sim! Assim a interrogou por três vezes e acrescentou:

—Tira láa um. E ela tirou um, o maior de entre todos. E foi-se embora. Foi matar. Com a carne procedeu assim: uma parte comeu-a e da restante fez tiras. Ficou-se assim a comer aquela carne de tiras suas, atá à lua de Pepo Linene (Abril). Amadurecido o cereal deitou fora a carne, dizendo:

—Catixa! Eu não como mais carne de um pedaço de gente como eu! Foi colhendo o seu cereal e foi-o debulhando. Disse então consigo:

—Deixa-me fazer depressa a co-lheita, para me ir embora. Há aquela divida ao monstro. E capaz de vir comer-me. Palavras não eram ditas... e ela ouve o monstro. Ouve-se a cantar assim: Eu vou atràs de Ina-a-Munryongo. Já lá vai tempo que comeu o meu filho pela fome. E disse: Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e comes-me. E ela: Oh! Lá está ele! Como vou fazer eu agora? Vou ser comida ou vou fugir? E conclui:

—Vou fugir! A vida não se entrega. Talvez venha a escapar. E pega a correr, a correr, a correr... e mete-se num silvado. Ao lançar o olhar de certo jeito... ei-lo que veio. E ela sai dali. A correr, a correr... Encontra umas mulheres na eira, na moagem do cereal, e diz-lhes:

—O mulheres companheiras, ajudai-me! E responderam elas:

—Que há? Diz ela: E um monstro que quer devorar-me. Mas o monstro chega e diz: Eu vou atrás de Ina-a-Mundyongo, que comeu o meu filho pela fome. E disse: “Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e comes-me?. Objectam as mulheres:

 —Nada. nada! “Sai-nos daqui de casa?. E ela pegou a correr, a correr... e foi meter-se numa outra casa. Ali lhe perguntam:

 —O mulher, de que tens tu medo? Diz ela:

—E um monstro que quer devorar-me! E o monstro chega e diz: Eu vou atrás de Ina-a-Mundyongo. Que comeu o meu filho pela fome. E disse: “Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e comes-me?.

—O mulher, isso élá contigo! E ela: Ora!... Perdida na fome... entregue agora a uma fera?... Vira-se num repelão e pega outra vez a correr. A correr, a correr... indo entrar na casa de um ferreiro. Chegada ali, diz o ferreiro.

 —O que há? Resposta dela:

—Preciso de ajuda! Uma fera que me quer devorar!... E ele:

—O mulher, senta-te aí, fica connosco. Aqui onde entraste éem casa de teu tio materno. E o monstro lá vem, ele mesmo acolá. Diz-lhe o ferreiro:

 —Sê benvindo! E o monstro: Obrigado! E o ferreiro:

—Diz ao que vens! Começa ele: —Não é nada! Ando atrás de Ina-a-Mundyongo. Devorou-me o filho pela fome, dizendo: “Quando a fartura se espalhar na terra, tu vens e comes-me?. E o ferreiro:

—E verdade que a encontraste. Agora comes esta mulher e come-nos a nós junto com ela. Nesta altura em que vieste, não encontraste cervejinha; a cervejinha éesta: os foles. Responde o monstro:

—Está bem! Pega o ferreiro em carvões apaga dos e deu-lhe, deu-lhe, deu-lhe... E o monstro engoliu. E lá os meteu onde costumava. E tomou brasas acesas e deu-lhas. E engoliu-as. E meteu-as onde costumava. E deu-lhe o martelo com que batia o ferro. E ele engoliu. O monstro carregou onde costumava. E deu-lhe o folezito da forja. E engoliu. E meter tudo onde costumava meter. Fala-lhe então o ferreiro e diz-lhe —Agora, tendo comido esta mulher assim que me comeres, não permaneças aqui. Tu segues viagem. Entretanto vais prociamando: “Sempre os comi! Sempre consegui devorá-los!? E o monstro responde:

—Está bem! Assim que acabou de engoli-los e começou a afastar-se, ia ele dizendo: —Sempre os comi! Sempre consegui devorá-los! Principia a sentir dores na barriga. Afinal (no seu pensar) as pessoas que esteve a engolir estão a acomodar-se. A certa altura diz:

—Ess'agora!... Que comi eu e me está a dar dores de barriga? As pessoas que comi estão lá dentro a acomodar-se? Sentiu sede e disse:

—Vou atá aquele outeiro onde várias vezes vi água. Caminhou, caminhou... Chega, olha e... a cacimba tem água; e diz consigo: —Uma pessoa crescida não aplica a boca directamente àágua. Vou buscar um pedaço de cabaça. Entretanto vai buscar a cabacita ao pé duns caniços e, de volta, ao olhar para a cacimba... a cacimba está seca. Sai dali e diz:

—É melhor ir para o outeiro “de tal parte?, onde várias vezes vi água. Caminhou, caminhou, caminhou... Chega lá e vê que há água dentro. Procura um pedaço de cabaça e tira água, mas diz:

—Uma pessoa crescida não bebe sem ter bochechado. E assim precede: Bochacro, bochacro, bochacro... lá dentro da boca. Ao cuspir para acolá e ao volver novamente os olhos para a cacimba... a água desapareceu. E vai ele: —É melhor num tal outeiro onde também vi água. E pôs-se a caminho. O ferreiro que está dentro da barriga, dá entretanto aos foles. Ele foi dispondo a preceito os seus apetrechos e agora dá aos foles. Pois então o monstro, a meio caminho, na ida para o outro outeira, sai-lhe fumo pelas narinas... e a labareda... até pela boca. Nada! Chegou mesmo a meio da viagem, não a levou ao fim. E morreu. O ferreiro lá dentro da barriga. vê-se a puxar por um punhal e dá o golpe: Zás!... pelo lado das costas. E saiu de dentro uma multidão deveras grande. O boi —Mu!... O cabrito —Mé!... A ovelha —Bé-é-bé!... A galinha —Cá-cá-rá-cá!... A grávida: —Olha que me calcas no umbigo!... A lactante (o seu filho): —Num-há!... E deitaram-se logo a construir a sua terra, ali mesmo, uma grande terra. Ina-a-Mundyongo foi a esposa do dono da terra. E o ferreiro équem foi o dono da terra. E por isso que dizem: Quando vais cobrar uma dívida, não vais sòzinho. Ides dois, ou então três. Há-os (parecidos como caso do monstro e da Ina-a-Mundyongo. E acrescentam-vos “o filho dele?). “E como no caso da história: acrescentam-vos partida àdívida que não pagam?. Acabou!

Dados biográficos e outros como no n.° 13. A primeira vista parece haver nesta narrativa um caso de antropofagia, perpetrada pela prótagonista. Isto na hipótese de considerar os monstros como pertencentes de pleno direito à raça humana. Mas como a mentalidade da nossa aceita tal equiparação —pelo menos quanto à totalidade dos predicados corporais e espirituais do ser humano —não se pode falar aqui em canibalismo pròpriamente dito. No entanto a mulher não ficou completamente livre de escrúpulos e passada a fome daixou de comer daquelas tiras de carne seca proveniente dum filho do monstro. E sumamente interessante a maneira como ela apresenta o motivo desta resoluç ão. “Não como mais carne de um pedaço de gente como eu?. (Traduç ão do P.e Silva). No texto bantu o modo de dizer é ainda mais expressivo: ohitu yenthu ng'ame-vo. Toda a diferença de sentido reside na prefixação. Omu-nthu épessoa humana. Substituindo este omu por e, quer-se exprimir uma coisa enorme ou espantosa, fora da categoria a que devia pertencer. O facto de alguém perseguido por um monstro se refugiar na casa de um ferreiro, éocorrência frequente nestas narrativas. Ainda que nos pareça que no episódio transcrito se exagere bastante o lado cómico, ébom não esquecer que tais artistas ocupam um lugar àparte, entre os profissionais destas etnias. Com efeito o exercício desta arte exige uma íntima colaboração com um antepassado que em vida praticava o mesmo ofício. Impõe portanto uma iniciação espirita, conforme se explicou nos volumes da “Etnografia?. Este conto,é um dos raros da nossa colecção a apresentar uma conclusão em forma axiomática.

17: Omona Wa Hautyali N'omakihi

Omukongo utiwa Hautyali avai n'omona wae okukayeva. Okukayeva oko, okuenda vala n'ohunga m'ohika. Okunwapo p'etala lyovinyama. Nwe, nwe... omukulu ou eimo lyafula umwe aliho. P'okukatuka, katyitavela vali. Omona ati:

 —Tate, ove etyi wanwa ngetyi, okutatamena-po, ongo, k'eumbo lyetu, unwina vala p'olufwo apeho.  —Pahe matutyilingi ñgeli? Ati:

 —Mona wange, Katyisiliviya 119 . Tyilingwa ok'eumbo. Muno om'ohika, mutupu vali ovila. Tyino vati vatala - ko ovinyama vyeya-ko: Onombambi, omona atyilika. Akuya onomphundya, omona atyilika. Akuya onohoiongo 120 , omona atyilika. Akuya onongunga, omona atyilika. Etyi kweya ondyamba, kayapulile vali, okumulyata umwe m'eimo. Etala aliho aliyulu. Omona okumutyinda-po. Tyino ati-ko ngetyi, omunthu ukahi n'okuya, walemana okuwoko. Ati:

—He-he! Mukwe, otyityi tupu watyinda? Ati:

—Natyinda Tate Hautyali; Ati: Hum-hum; Hautyali mukwetu! ... Hum-hum; Hautyali mukwetu! ... K'ononkhombo... Hautyali muâwetu! K'onongombe... Hautyali mukwetu! Hum-hum! —Mukwe, omahonyi omukulu elieta kaelitwala. —Mpholele-ko vala omahuli. Omona okupola omahuli okumupa. Ati: Tyino waya opo, wahatie: Nahonyena n'owokuwoko kwike. Oyo kuenda! Tyino ati-ko ñga, owotyikalo tyike.

—Mukwe, nkhele etyi watyinda tupu otyityi? Ati: Natyinda Tate Hautyali. Ati:

 Hum-hum! Hautyali mukwetu! (ut supra). —Mpholele-ko vala okakuwoko oko. Omona okupayula. Ati: Ankho uhonyena oko n'omunthu, wahatie nahonyena n'owotyikalo tyike. Omona oyou... topa, topa... tyino ati ñga, oyou ulwa n'okuhomboka n'emphangoti lyae:

—Mukwe, nkhele tupu otyityi watyinda m'okati kouye? Ati: Natyinda Tate Hautyali. Hum-hum! Hautyali mukwetu! Hum-hum! Hautyali mukwetu! K'ononkhombo... Hautyali mukwetu! K'onongombe... Hautyali mukwetu! Hum-hum! —Mpholele-ko vala okwoko nthele imwe. Pahe ngetyi, otyityi? Omona okumupa vali. Ati: Ankho wakahonyena oko n'ovanthu, wahatie ame nahenyene n'owotyikalo tyike. Okuenda! Tyino ati m'otyiteta, weiho like oyou. Ati:

 —Mukwe, otyityi etyi watyinda? Ati: Natyinda Tate Hautyali. —Humhuh... (ut supra). —Mpholele-ko otyikalo. Omona okutyoka tupu otyikalo otyo. Ati:

Tyino wahonyena n'ovanthu, wahatie twahonyene n'oweiho like. Omona ati:

E! Okuenda. Pahe okuhonyena n'omukwendye wavala nawa-nawa.

—Mukwe, etyi watyinda otyityi? —Natyinda Tate Hautyali. —Hum-hum!... (ut supra). —Mpholele-ko katutu k'onthete oyo. Omona okutyoka onthete, okupola-pola-ko vala. Pahe ekihi limutalamena, okuhanda okumulya. Ohitu wamana. Okuyumba-hi omutwe o. Olyokukahateka. —Oku Tate... wankhya lumwe, natyindile umwe. Ame, omakihi anthyakana. Pahe naeta vala otyimbu. Sambwilikiti m'olutongo! Omwove.

17: O Filho Do Hautyali E Os Monstros

Um caçador chamado Hautyali que vai à caça com seu filho. Enquanto caçam vão aguentando sede por aquele mato. Chegam a um charco em que bebem os bichos. Beberam... e o pai sente a barriga toda a fermentar. Quer levantar-se da sua posição curvada e não há meio. Diz o rapaz:

—O pai, porque bebeste tu assim? aplicando a boca ao charco. quando lá em casa, só bebes sempre por um copo! —Como vamos fazer agora? Resposta: —Meu filho, isto não tem importância. Isso era se fosse em casa. Aqui no mato, não há mais regras proibitivas. Ao olhar em volta, eis que a bicharada se aproxima: Vêm “bambis? e o rapaz espanta-os. Vêm “punjas? e o rapaz corre com elas. Vêm cudos e o rapaz afugenta-os. Vêm “gungas? e o rapaz interpõe-se. Vem então um elefante e sem mais aquela, calcou-o precisamente na barriga. O charco encheu-se. O rapaz pegou no pai. A certa altura, surge alguém a aproximar-se e é aleijado de um braço. Chega e diz:

—Ora esta! Ouve cá, que levas tu aí? Diz ele:

—Levo meu Pai Hautyali!... Oh! o camarada Hautyali!... No pastoreio dos cabritos... lado a lado Hautyali! No dos bois... o companheiro Houtyali! Oh! —Olha rapaz, lágrimas de gente crescida vêm e não vão por si mesmas. —Dá-me daí o fígado. Ó rapaz tira o fígado e dá-Iho. E o monstro recomenda: Indo aí por diante, não digas: Encontrei-me com um maneta. E toca a andar. Ao relancear a vista, eis mais um de uma só perna.

—Ó moço, afinal que levas tu contigo? Resposta: Levo meu Pai Hautyali. Diz ele: Oh! O camarada Hautyali!... (ut supra).

 —Dá-me só um braçozito. O rapaz arranjou-Iho. E então o monstro: Se encontrares alguém para aí, não digas que estiveste com quem tem uma só perna. O moço prossegue viagem... topa, topa... e de repente, ei-lo mais um que manqueja com o seu bordão.

—Ouve cá, com que carregas tu por estes matos? Resposta: Levo meu Pai Hautyali. Oh! O camarada Hautyali!... Oh! O camarada Hautyali!... No pastoreio dos cabritos... lado a lado com Hautyali! No dos bois... o companheiro Hautyali! Oh!

—Tira-me daí o braço do outro lado. Uma coisa assim, para que serve? E o rapaz deu-Iho. Acrescenta o monstro: Se deparares com alguém aí para diante, não digas: eu estive com o de uma perna só! Toca a andar! Tendo entrado na mata fechada, aparece-Ihe um zarolho. E diz este:

—Rapaz, que levas tu? Diz ele: Levo meu Pai Hautyali. —Oh!... (ut supra).

—Tira-me daí uma perna. E o rapaz corta-a e dá-lhe a perna pretendida. Recomenda-lhe depols: Cruzando com alguém, não digas que esteve contigo um zarolho. E o rapaz! Está bem! Prossegue viagem. E agora a vez de deparar com um janota muito bem vestido.

—Olha cá, que trazes tu aí?

—Tenho comigo meu Pai Hautyali. —Oh!... (ut supra).

—Dá-me um pouco aí do peito. Pega o rapaz a cortar-lhe o peito e a dar-lho sem mais. Mas éque o monstro põe-se-lhe diante, quer devorá-lo. Carne já não há mais. Atira então ao chão com a cabeça. E toca a raspar-se.—Quanto a meu Pai —diz —ele morreu realmente e com ele carreguei eu. O caso é que os monstros mo tiraram àforça. Agora tenho só o aviso mortuário a fazer. Açaimo em bicho voraz! É para ti.

Dados biográficos e outros como no n° 7 Este remate de narração que vimos já no número ora mencionado, é pouco usual. Mas a metáfora não deixa de ser muito engraç ãda. O narrador ao terminar o recital, coloca-se na posiç ão de quem aplica um aç ãimo ao focinho de um animal. Este; sempre na linguagem figurativa, érepresentado por um dos ouvintes a quem élanç ãdo o repto de se livrar da mordaçã, declamando uma narrativa do seu reportório. Da primeira parte deste conto, existe uma narraç ão muito semelhante entre os Cuanhamas. A tradução portuguesa foi publicada no primeiro volume da “Etno-grafia?

18: Ekisi N'ovo Nehova

Ovana vononkhulu vakanyanga onon-kheketwa. Etyi vakanyanga ononkheke-twa, vahanga omuyo watelwa p'onthele yondila. Muna ohandyi yakwatwamo m'o-muyo watyo. Oyekisi. Umwe weiupa-mo, weipaka kofi yotyimbala oko takanyanga ononkheke-twa. Okuhuma-ko-lia oko, ekisi lyatyo olyo, lyatalama m'ondila okuvekevela. Okuya ekisi lyati:

—Ove wavaka-mo ohandyi ei, hekula ononkheketwa! Wahekula-ko, tandimbi tati:

Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Mukwavo vali, teya vali, tahekula:

Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Wokomima teya, ye wafalaila, oe ukwete-ko-ila ohandyi yatyo oyo. Uti:

Hekulu! Hekulu! Taheke okatutu: Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Uti:

Hekululu! Hekululu! Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Uti vali:

Hekulu! Hekululu! Vakweni tavai! Talili tandimbi: Heku! Ononkheketwa! Heku! Ononkheketwa! Ekisi okukati nâ... ohandyi oyei! Aliti:

Etyi wavaka-mo ohandyl ei, n'okuhombolwa n'okukal a tovandya-tyi? Hati:

 Hikahombolwa, ae hikaliwa. Ame anikavondoka, k'eumbo. Nga navondoka, onthwe tulihange p'otyiswa apa. Ove uye undyenge naua! Etyi nili nâ, nahoka. Hati:

Eh! Enda. Okumupa ohandyi yae. Okuya kuna watankhama. Ina wa-tongonona hati:

—Weya? Hati:

—Neya. Nati n'okuti, opo anikavondoka. Opo pakala. Omunyama watimbuka. Ekisi okuya p'otyilswa-ila opo. Neho-va kamoneka. Ekisi talindimbi, haliti:

Nehova ê! Nehova! Nehova ê! Pana twaambele ê! Nehova, p'okaitokwe ê! Nehova, okamunyama timbwe ê! Nehova, Nehova, Nehova ê Nehova kamoneka. Otyo talindimbi vali okuifana Nehova. Nehova kamoneka opo p'otyiswa apa vaambele. Talandula-ila m'ondila omu vaendele. Otyo talitopoka, talitopoka-ila okuvan-dya mokati k'otyilongo. Alindimbi vali etyi iyandimbile ale. Okupulukana-ko Nehova ulivite-ila ekisi, hati:

—Meme, ekisi olyolyo lyeya. Una ina okumupaka m'otyihete. Lyeya. Talindimbi vali n'okuifana Nehova. Lyali-ko okumuvandya, okumuvandya. Nehova kamoneka. Lyatankhama-ila akalimumwene vali. Lwo lwapwa olungano lwange olo.

18: O Monstro E Nehova

Umas raparigas foram colher frutos da “Ziziphus?. Ao dirigir-se para a recolha dos , toparam com uma armadilha perto do caminho. Nela tinha sido apanhada uma perdiz. A armadilha pertencia a um monstro. Uma das raparigas tirou a ave e meteu-a no fundo do cesto em que ia deitar os frutos. Ao virem da recolha, apareceulhes o monstro. Estava de pé no caminho àespera delas. Aproximan-do-se, ele disse à primeira:

—Tu que furtaste a perdiz, faze saltar os frutos! Ela põe-se a sacudir os frutos e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! Chega-se agora uma outra, sacode e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! Finalmente vem a que estava por trás, aquela que levava a perdiz. O monstro:

Faze saltar! Faze saltar! Ela porém sacode só levemente e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! O monstro insiste agora: Faze saltar! dize: Saltai. frutos! Saltai, frutos! Torna a insistir:

Faze saltar com foroa: Dize, saltai frutos, Saltai frutos! As tuas companheiras vão-se embora! Ela põe-se a chorar e canta: Saltai, frutos! Saltai, frutos! Nesta altura o monstro faz um gesto para o fundo do cesto e a perdiz lá se encontra. Pergunta então o monstro: Tu agora, como roubaste a perdiz, o que escolhes, entre casar comigo e ser devorada? Responde a moça:

Eu não casarei nem serei devorada. Vou primeiro a casa engordar um pouco. Quando estiver gordinha, nós havemos de nos encontrar novamente ao pé deste arbusto. Virás então para me comer. Conforme me encontro agora, estou magra. Diz ele: Bem! Podes ir. E deu-Ihe a perdiz. Depois de ter ido para casa, a rapa-riga fica por lá. A mãe pergunta-lhe:

—Afinal vieste? —Sim, vim, porque eu lhe disse:

—Ainda vou engordar. Passou-se bastante tempo, decorreu um ano. O monstro apresenta-se ao pé do arbusto. Nehova porém não aparece. O papão põe-se a chamar e a cantar: Nehova ê! Nehova! Nehova ê! Neste lugar que prometemos nos encontrar. Nehova, encontrar-nos secretamente! Nehova, passou-se um ano! Nehova, Nehova, Nehova ê! Mas Nehova não aparece para se apresentar ao pé do arbusto, conforme tinham combinado. Ele segue agora pelo caminho, onde andaram as raparigas. O monstro põe-se a correr e a procurar no meio da terra habitada. Canta novamente a chamar por Nehova! Ela escutando, reconhece a voz do papão. Diz:

—Mãe, vem aí o monstro. A mãe enfia a filha dentro dum grande cesto-celeiro. Aproxima-se agora o monstro. Torna a cantar chamando por Nehova. Procura-a e torna a procurá-la por toda a parte. Nehova não aparece. Ele fica-se por ali sem nunca mais ter enxergado Nehova.

Este meu conto terminou.

Narradora: Cristina, casada de 31 anos de idade, de origem Humbe, vivendo nos arredores de Sá da Bandeira. Gravação: Sá da Bandeira, Janeiro de 1964. Língua: Dialecto Humbe (Nkumbi) de mistura com Nhaneca.

19: Ononkhumbinkhumbi

Ovana vononkhulu vetatu vahuma—ila m'eumbo, avakaenda-enda kondye. Avakanyanga omaomi. Ina tati:

 —Etyi amwi m'ofika omo, nga mwahanga omaomi apya, kamukalye, omaomi amwe aelityitula omakisi. Okuya-ko vahanga omuomi waku-suka tyili. Vanyanga-ko. Ononkhulu ndatyo ndekula ovo vanyanga-ko. Ou olyae ou olyae. Okana okatutu aka kakanyangele-ko. Ou tatende, ou tatende. Mwandyaleka ovamati, omo hinga avatende; vese vevali ovawapele. Aveli-popaifa-ila. Ava havati:

—Atwi k'eumbo lyetu. Vasapaila-po manga. Okana koka-tutu hati:

—K'eumbo olyo kamukaya-ko, kuli navi. Omona umwe wonkhulu ati:

—Ame anii noho. Okulandula-ko, okulandula-ko. Hati:

—Tala, kondokeleni, mpha tulihanga lumwe, apa twelihangele. Ae! Ovana vanya tyili ovo. Vefika-ko. Okuya-ko oko, okana kokatutu kaken'okulala. Ye ovakwendye ovo ka-ven'okulala. Vahanda-ila okulya-ila ovana ava, ononkhulu ndavo. Tyapu okana-ila oko, etyi takeya okusapelefwa k'omukwendye womukulu wae:

—No nâ noho totala? Hati: Dueni, anitala.

— Kuno kulalwa! Hati: E! anilala. Weya vali. Etyi teya hati:

— Tusapele! Hati: Ndu. — No nâ noho totala? Hati: Aye, anilala. — Kuno akulalwa. —Temukandana. Ongula kwatya, okuya-ila okukaen-da-enda n'ovakulu vae kondye oko. Hati: Tala, hono ovakwendye veni ava, hono kavalele, ovifitu. Hamulala nâ, lumwe, hatulika. Onkhulu oyo okuhuma akoko nô, okuya k'omona ou nô, okumuti: mwata, mvata; Omankhole m'omutwe wae. —Otyityi totupopila nô ovakwendye vetu, onthwe tuvehole. Hatie, omona ou okuya m'ofika, okukapangela omainya ononkhumbi—nkhumbi okuninga omavava. Omukulu wae wopokati wemupaka omavava aese ononkhumbi-nkhumbi. Mukwavo ou we-muvetele, omavava otyilumbamba nthele . Ye vyae omavava ononkhumbin-khumbi noho Okuya okulala-po ila. Veindite ila okuti: K'omatiti, k'omatiti. Okuvanana k'ominwe-ila, okukatuka—po okuti: (tandimbi). Nkhumbinkhumbi yange, yelela tuende! Kakele tyilumbamba usalasala pofi. (bis). Tyilumbamba etyi tati noho, oku wila pofi, ye temukwata, ye nkhumbinkhumbi taiyelula. Etyi tavavandye noho emukwate nô nã, ye nkhumbinkhumbi taiyelula. (Tandimbi vali): Nkhuinbinkhumbi yange, yelela tuende.  Kakele tyilumbamba usalasala pofi. (bis). Okukatalama-ila m'eulu lyomukwa. Ye omakisi elikondoka-ila, epwila. Okuya m'omukwa omo nô omo, omona wati: M'omukwa kamuninwa. Omukulu hati: Ame aninina-mo. Ou hati: Kukanine-mo. Aupata! Otyo anina-mo. Etyi anina noho uti ntholo: Tu! Ye omukwa welipata. Etyi wapata-ila, ye okakulukandi tahumako keuya-ila okutiava. Etyi keya okakulukandi oko, kefikila okupuma. Etyi vemutia, avahimbika okundimba: Ove kakulukandi ove, pu, pu! Nkhele wapumain'ale, pu, pu! Ketupopie k'otyilongo, pu, pu! Toti omukwa walya ovawa, pu, pu! Walya Nehova ya Nyange, pu, pu! Na Kamia ka Ndyolondyondyo, Omuingona. Omukulukandi wapulukana. Okuya-ila m'eumbo omo, hati:

—Vakwe! Natia-ko okoku onondaka andipopi, ondovana ava vaya ale kohale Opo vahuma-ila opopo, okumuhuku-lila otylmphwena tyatokota k'omutwe. Taende talili-ila. Okuya-ko, havati:

—Puma-ila tupulukane! —Pu! Pu! (Ovana mokati vatavela n'okuimba). Ove kakulukandi ove, etc., etc. Okueta-ila ongombe ondaule, okuto-ma-ila. oluvinga m'omukwa omo. Omu-kwa waikuka. Ovana valupuka-mo, vaya—ila k'eumbo. Oiuñgano lwange olo lwapwa.

19: As “Cegonhas?

Três raparigas sairam de casa e andavam a passear. Procuravam “maboques? A mãe recomendara-lhes:

—Se encontrardes maboques maduros não os comais! Pois alguns maboques transformam-se em monstros. Ao chegarem a uma árvore, havia nela frutos muito maduros. As raparigas crescidas colheram cada uma o seu fruto. A mais pequena não colheu nenhum. (As outras), cada uma pôs-se a partir a casca. Dos frutos cujas cascas estavam a partir, saltaram rapazes. Um de cada fruto. Dois rapazes muito bonitos. Cumprimentaram-se. Os rapazes disseram:

—Vamos até nossa casa! Ficaram ainda a conversar e disse a pequenina:

—E melhor não irmos porque em vossa casa não se está bem! Uma das outras porém retorquiu:

—Eu vou com eles sem mais.

—Vão seguindo. A mais nova insiste ainda:

—E melhor regressardes para nos encontrarmos onde estávamos. Mas não! As duas outras não quiseram saber. Chegaram à tal casa. Porém de noite a rapariga pequena não quis dormir. Os rapazes também não dormiram. Pretendiam comer as suas noivas. Ora a pequena foi interpelada pelo rapaz de uma das suas irmãs:

—Ainda estás com os olhos abertos? Respondeu: —Ainda estou. — Aqui dorme-se! — Está bem, vou dormir. Veio novamente o rapaz e disse:

— Vamos conversar! E a rapariga: Está bem!

— Continuas ainda acordada?

— Não! Estou a dormir.

—Aqui deve-se dormir. Ralhou com ela. De manhã, cedo, ao sair para fora com suas irmãs a pequena disse:

—Quereis saber? Aqueles vossos rapazes, esta noite não dormiram. São bichos. Não passeis mais a noite assim. Podemos ser devoradas. Uma das irmãs aproximou-se da pequena e deu-lhe umas pancadas na cabeça. croque! croque! E disse:

 —Porque estás a falar mal dos nossos rapazes? Nós gostamos deles. Depois disso a irmã mais nova foi àfloresta. Ali pôs-se a arranjar asas com penas de cegonha. A irmã, a seguir àmais velha colocou dessas asas que eram exclusivamente de penas de cegonha. Aquela que lhe bateu, a pequena pôs asas de noitibó de um lado, enquanto que as dela eram inteiramente feitas de penas de “cegonha?. Quando as raparigas foram deitar-se novamente, ouviram coehichar aos rapazes: Vamos aos pratos! Vamos aos pratos! (Cheios de carne). Neste momento, a pequena puxou-lhes (às irmãs) pelos pés. E a ocasiãao de todas se levantarem. E a pequena entoou o seu canto: O minha “cegonha?, levanta voo, vamos! Mas o noitibó, esse, fica ai pelo chão. (bis) A do noitibó, ao levantar voo, cai ao chão. Um dos rapazes quer apanhá-la. Porém a pequena das asas de “cegonha? pega nela e levanta para cima. (Repete o canto): O minha “cegonha?, levanta voo, vamos! Mas o noitibó, esse, fica ai pelo chão. (bis) Finalmente todas poisaram cm cima de um embondeiro. Quanto aos rapazes, voltaram para trás, consados como estavam. A mais nova das raparigas avisou:

—Neste embondeiro não se pode defecar! A mais velha respondeu:

—Eu hei-de defecar na mesma. A outra: Não faças tal. senão a árvore fecha-se sobre nós. Depois de ela ter feito as suas necessidades, o embondeiro fechou-se. Sentiu-se uma velha que tinha vindo àlenha. Aproximou-se e começou a cortar ramos. Ao ouvir as pancadas, as raparigas puseram-se a cantar: O velhinha, traz, traz! Já há mementos que bates, traz, traz! Leva a noticia a casa, traz, traz! Diz que o embondeiiro engoliu gente boa, traz, traz!  Engoliu Nehova de Nyange, traz, traz! E Kamia de Ndyolondyondyo, filha predilecta. A velha escutou com atenção. Dirigiu-se a casa e disse:

—Amigos, lá onde fui à lenha, ouvi vozes. Vozes daquelas vossas filhas que se ausentaram há dias. Os da casa sairam e jogaram à cabeça da velha, papas a escaldar. Ela pegou a chorar. Quando chegaram à árvore, disse-ram-lhe os outros:

—Bate, para escutarmos.

—Ela bate e as raparigas puse-ram-se a cantar: Ó velhinha, traz, traz! etc., etc. Trouxeram então um boi preto que deu uma chifrada no embondeiro. E este abriu-se. As raparigas sairam para fora e foram para sua casa. O meu conto acabou. Dados biográficos e outros como no n.° anterior. A feição extremamente sincopada deste conto —ainda mais que nos outros —da mesma narradora, obriga a intercalar no texto português, locuções complementores para o tornar inteligivel. O tema de raparigas, amigas de monstros, terem sido salvas por uma irma mais nova e indesejável, também faz parte de um conto “Quimbundu?, publicado por H. Chatelain: The Girls and the Makishi. O mesmo papel éatribuido a um rapazito na narrativa em “Umbundu?: “Conto de raparigas que foram à pesca?, inserta na colecção de Hauenstein. No mesmo conto figura igualmente o episódio das asas de cegonha e de noitibó. Seja dito de passagem, não me parece que H. tenha acertado na identificaç ão da espécie ornitológica de uma das aves em causa. O terceiro episódio, o do embondeiro que encarcera no seu tronco gente malcriada, não podia dar-se na terra dos Bundos, por esta espécie botãnica (Adansonia digitata) não existir na parte mais elevada do planalto. —Em compensação, é acidente —o encarceramento e a libertação —que encontramos em outras narrativas deste nosso florilégio.

20: Omukai N'Ekisi Watyiluka

Omukai waya k'epia, wakalima. Oko wakahokela n'ekisi olyo, lili lumwe omunthu, munthu. Hati:

—Uh! Ov'olye wafa toti ove nawa yange Ndyundyu? Hati:

—Ame yatyo. Hati:

 —E! —Eta nkhele omona, nikekulele-ko! Hati: E! —Omukai ou uli-ila n'oku-lima. Etyi apetuka, hataifana-ila nawa yae (tandimbi): Nawa Ndyundyu, nawa Ndyundyu Ngetele omona wange! Ekumbi olyolyo lienda Ndyundyu. (bis). Omona wemueta. Tyapu wapita k'eumbo. Vakalala. Omumbai etyi lyatya, teya vali n'ekisi lyatyo. Haliti:

—Eta omona nikemulele! Hati: E!. —Uli n'okulima, uli n'oku-lima. Etyi apetuka, taifana tupu nawa; (tandimbl vali). Nawa Ndyundyu etc., etc. Wemueta. —Tyapu wapita k'eumbo. Omumbai tyé, weya vali lwatatu. Ekisi na lyo lyeya. Haliti:

—Eta omona nikemulele! Ati:

E! —Watyinda omona ou. Omukai otyo talimi, otyo talimi. Etyi apetuka, taifana nawa wae, (tandimbi): Nawa Ndyundyu, nawa Ndyundyu, etc., etc. Okuti endu! Ondyundyu yatyo hono, okamona wekelya-po. Etyi ekelya, omakipa atyo k'ongondi, hongolole, hongolole. Tyapu weandala. Ye tandimbi ati: Omona twalilelile, Ndyundyu! Vikipa twayukaila, Ndyundyu! Waya, Ndyundyu, waya, Ndyundyu. Ye omukai ou nae tandimbi: Nawa Ndyundyu, ngetele omona wange! etc., etc. Ekisi na lyo tandimbi vali: Omona twalilelile, Ndyundyu! etc., etc., etc. Omukai ati: Otyo otyityi hono anitie? —Okuya k'eumbo. Hati:

—Vakwe! Otyo nihole okukalima k'epia lyange oko. Nihokaikila-ko n'ekisi. Nemundimbukilila, nati hamwe onawa yange tatiwa Ndyundyu. Twalinga ononyuku onombali, otyo takalele omona. Etyi nemuifana takaeta. Hono etyi nati: Eta omona! Ye tandimbi “Omona twalilelile, ovikipa twayukaila, waya, Ndyundyu, waya Ndyundyu?. Ovanthu okukongolola n'omauta. Havati:

—Ove kala m'ondila, onthwe tukale m'ofika, tumulavekela! Hati:

E! —Otyo tandimbi; “Nawa Ndyundyu etc. ?. Ekisi na lyo talindimbi: “Omona twalilelile? etc. Ye kuna taliuya lyahimaina-ila omulikandi ou, na e limulye-po. Omukai talili-ila. Tandimbi n'okulila. Ekisi na lyo talindimbi n'okulila. Ye etyi alifiki-ila p'omukai ou, limulye, ovanthu okuliloya. Efitu olyo, lyekisi olyo lyankhla. Omukai ou tyapu wavonga-ila k'omona wae. Tyapu okuya-ila k'eumbo, okukaonga omutambo. Tyapu lwapwa!

MELODIA DE DUAS ESTROFES DO CONTO N.° 20 NAWA NDYUNDYU

20: Uma Mulher E Um Monstro Transfomado Em Pessoa

Uma mulher foi ao campo cultivar. Ali topou com um monstro que em tudo, tinha aparências de uma pessoa. Diz a mulher: —Quem é esta pessoa tão parecida com a minha cunhada Ndyundyu? Responde a outra:

—Sou eu mesma. Está bem! —Oferece-se então o monstro dizendo: —Entrega-me o teu filhinho para o guardar! —Está bem. —A mulher põe-se a sachar. No fim do trabalho chama pela cunhada e canta: Cunhada Ndyundyu, cunhada Ndyundyu! Traz-me o filhinho. O sol está a inclinar-se Ndyundyu. (bis) Trouxe a criança e a mulher foi para casa. De manhã cedo a mulher torna a ir ao campo para o cultivo. Lá encontra novamente o papão. Diz este:

—Entrega-me o teu filhinho para que eu o guarde!

—Está bem!

—A mulher passa o dia a sachar. Acabado o trabalho ela chama novamente pela cunhada e canta: Cunhada Ndyundyu etc., etc. Entregou-o e a mulher foi para casa. Ao tercelro dia ao vir novamente para o campo, o monstro também apareceu e torna a dizer:

—Entrega-me o teu filho, para o guardar.

—Está bem! —Levou a criança. A mulher passou o dia a cavar. Largado o trabalho, pela cunhada a cantar: Cunhada Ndyundyu, cunhada Ndyundyu, etc., etc. Fez assim para que lhe trouxesse o filhinho. Porém quem parecia ser Ndyundyu tinha devorado a criança. Depois de a comer ela enfiou os ossinhos num cordel, enfia-que-enfia. Em seguida colocou aquele cordel ao pescoço. Canta então a suposta cunhada: A criança devorámo-la, Ndyundyu! Os ossos pusemo-los direitinhos, Ndyundyu! A criança desapareceu, Ndyundyu! A mulher canta também: Cunhada Ndyundyu, traze-me o meu filhinho! etc., etc. Por sua vez o monstro repete a cantilena: A criança devoramo-la, Ndyundyu! etc., etc., etc. A mulher disse: Ora esta! Que hei-de fazer agora? Chegou a casa e disse:

—Ó amigos! Eu costumava ir trabalhar no campo. Todas as vezes encontrava lá um monstro. Ao vê-lo parecia-me ser a minha cunhada, de nome Ndyundyu. Passamos dois dias e ela (depois de me ter ficado com a criança durante o trabalho) trazia-ma sempre. Mas hoje quando lhe disse: Traze o meu filho, ela respondeu-me a cantar: “A criança comemo-la, os ossinhos endireitamo-los. Ela desapareceu, ela desapareceu?. Os homens então juntaram-se armados. Disseram à mulher:

—Tu ficas no caminho e nós na floresta à espreita! E ela: Está bem! —Vai cantando: “Cunhada Ndyundyu, etc.?. O monstro canta também: “A criança devoramo-la? etc. Ei-lo o monstro que apareceu. Aproxima-se da mulher para a comer. A mulher porém põe-se a cantar como dantes e o monstro responde ao canto também. Ambos choram. Mas quando ele se quer atirar à mulher para a devorar, os homens descarregam as suas armas sobre ele. Aquela fera, aquele monstro morreu. A mulher ficou desolada por causa do seu filho. Foi para casa e reuniu os parentes para as cerimónias fúnebres. Acabou o conto.

Narradora: Maria Luísa, de anos de idade, natural de Sá da Bandeira, de origem Humbe. Gravação: Sá da Bandeira, Janeiro de 1964. Lingua: Dialecto humbe (Nkhumbi), de mistura com Nyaneka.

MELODIA DE DUAS ESTROFES DO CONTO N.° 20 NAWA NDYUNDYU

21: Ouye w’oMakihi

Opopo umwe. P'ehimbwe lyatyo opo, omakihi amanene ovanthu m'otyilongo. Andipo mwesala vala omukai wike omulemi. Ankho utupu ombunga. M'okwavela ouoma, nokuti hamwe omakihi eya n' okumulya, akaholama m'ondyimbo. Etyi ehimbwe lyae lyeya-po lyokupululukwa, apululukwa okana kokamukwendye. Omukai omo apangela m'ondyimbo omo. Otyo okana kalwa n'okukula. Kumbi limwe okana etyi kanoñgonoka, akalupuka-mo m'ondyimbo, okuyotela omutenya pondye, n'okutalukilwa ouwa wouye. Mueli ina atila omona:

 —Mona wange, uhalupauke vali kondye, tyetyi kumbi uvasa-ko ovinyama “omakihi?, oliwa. Otyo twaholamena m'ondyimbo omu tukahi. Hatyauina twakalela muno! Okana kaketavelele ondaka ya ina. Otyo keyaya ñgo apeho kondye. Iya m'okweya pahe onondunge, kumbi limwe kapolesa-po okandyila konomphuku, ló kavasa ondyila imwe. Kalandula ló keya m'epata lyomakihi atyo ankho apopia ina. M'epata omu ankho mukala okana tupu velifwe nako. M'okwelivasa, ovipuka vyouna, vahimbika n'okunyana. Etyi etango lyapepela. okana akakondoka k'epata n'ohambu, tyetyi velivasa na mukwavo. Etyi okana kapita, ekihi aliti omona:

—Tyina mukweni muhuka eya, mukokela m'ondywo, omo munyanena. Tyino mwanyingila, ove uenda m'otyimbundu, okayoya-mo ondombe, otyo ulya. Ankho ati: —mphe!, ove uti:

—mwene kapole-mo. Iya tyino apetamena-mo okuyoya ondombe, ove umutahulila mo, otungu-ko k'otyimbundu. Tyina ame neya, tumuipae, atumuli-po p'ondalelo. Etyi kwatya, okana m'okuhetyii, akeya k'omukwavo vanyane, ngetyi valinga apeho. Okana hikê m'epata, mukwavo ati:

—Mukwetu, tuende m'ondywo, tukalye ondombe. Etyi vanyingila okana kekihi kaya m'otyimbundu akapole-mo ondombe yatyo. Okana okakwavo akati:

 —Mukwetu, mphe! —Oko akati:

 —Mwene kuende ukapole-mo. Okana aka m'okuhanda okukapola-mo, okakwavo akeketahulilamo, akatungu-ko ngetyi tyapopia ina. Okana kokwatungilwa m'otyimbundu, kavasiwa n'okankhiki, akelitete-mo m'o tyimbundu, akai nkholo. Ekihi etyi lyeya, alipuiu omona ankho alinga etyi tyatuminwe. Omona ati:

 —Netyilinga, ongo una walupuka-mo, wapita. Ina alila omona:  

—Muhuka mandyiholama m'otyivo konyima yomihingi. Andyitele eyo lyange p'ombundi. Tyino eya, ankho alyata-ko, katundu-ko vali. Etyi kwatya, okana keya vali okunyana ku mukwavo; katyinda ondyokolo p'omake. Etyi kehika, okana kekihi akatila mukwavo:

—Tukanyane m'otyivo! Okana kaanya-mo, tyetyi kelwete eyo p'ombundi. Etyi kafwena-ko, kapolo onkhunkho, kavete na yo k'eyo lyekihi. Eli alipindusuka-po n'okuliyavela. Okana kekihi akahande kakwate mukwavo. Ou akahateka k'ondyimbo yae. Ekihi aliti omona:

—Muhuka mandyipake-po ombila onene, opo ehetyivili okuenda k'eumbo. Tyina iloka, ove molihungilisa. Ombila m'okuloka, okana kekihi kahimbika okulinga ngetyi ina apopia. Ina apolo omona wae, emutolo etwe m'ombamba. Omona womunthu okutala nawa ku mukwavo, nae wahimbika okulihungilisa. Ekihi alipolo okana oko, okukelangeka-po, aliketolo omakala m'ombamba, opo ekihi lityivile okunoñgonoka omona walyo. Ovana m'okulele, ekihi alipake-po ombiya yomeva. Etyi ahiluka, alipolo omona wokwatolwa omakala m'ombamba. Ongo naina omona walyo mwene wapaka m'ombiya, tyetyi okana komunthu kana ankho kelisekuna omakala, akelipake etwe. Ongo okana kekihi akemupake omakala. Avapingahana omphangu. Ina etyi eya, katalele vali, wapola vala ou una omakala. Omona ati: —Mê, wamphisa! Ina ati:

—Nekutyitile-pi? Veye k'ongulohi, ina ati: —Tulye omona! Ati:

—Hipondola okutala k'otyitei, handyilya muhuka. Ekihi alili, alilaleka katutu kwomona. Kumuhuka okukalima, Ekihi aliti omona:

—Okamuhole kove okaka. Tyina wapahuka-po, tokotesa, naulye! Omona etyi apahuka-po, atale nawa ohitu yamukwavo, alupuka kondye aliti ekihi:

—Tyikihi, ove walya omona wove! Ekihi m'okwehetyivile nawa, ongapana tyatiwa: lima vali unene, alihandula ombundu onene vali. Aka okana nkhele apaleka otyivali:

—Tyilukihi, walya omona wove! Etyi ekihi lyetyiiva nawa, alii m'okuhatekesa okana aka. Akai nkholo, okukelipiana k'ondyimbo. Okana hikê ati ku ina:

—Mê, tuende, tuli m'otyinyama. Ina ati:

—Mona wange, hatyo napopile okuti nthiki imwe mondetela ovinyama?! Ina p'ehimbwe apa, n'okwakwatwa n'ouoma. ahatendela, atavela ondaka yomona. Avalupuka-mo nkholo m'ondyimbo. Etyi vati p'okati vavasa-po omunthili wovivela. Iya ina ati: —Katunyingaila-mo m'omuyeveyo wove? Ou ati:

—Ankho muna etyi tyimukwai, nyingilei liwa! Kapakalele ekihi lyeya n'okwanumana aliti: —Kwamwene ovanthu vakwata apa? Ou ati:

—Ndati. Ekihi aliti:

—Ankho uveholeka, mandyili-po ove. Ou ati:

—Ankho ame uhanda okulya, tetekela iya “ekina? lyange. Ekihi kalyelikwataile, lyapola omuyeveyo, alitahela mokati. Pahe alipolo hekulu, na e alitwala mokati. Omulume womuyeveyo, muna m'eimo lyekihi, wakatwala-ko k'ovilinga vyae. Etyi omutokoto walinga omunyinginyingi, alikwatwa n'ohunga onene. Ekihi n'ohunga ina, lyamonena kokulle etala lyomeva. Alihatekela-ko okukanwa. Liyê po p'omeva, etala alikukuta. Otyo lyakala-ñgo ngotyo otyitenya atyiho. Alimanuhuka okunkhia n'ohunga. Omulume ou apolo onkhiki, atande pokati eimo lyekihi. Alupuka-mo n'ava aveho ankho valilwe. Ongotyo ouye womakihi wapwile, otyilongo atyitungu otyivali.

21: A Tirania Dos Monstros

E destes mesmos que se trata. Naquele tempo aconteceu que os monstros dessem cabo dos habitantes de uma terra. Escapou sòmente uma mulher grávida. Não tinha parentes. Como receasse que os monstros viessem devorá-la. ela foi esconder-se na toca de um papa-formigas. Quando chegou a hora do parto, deu à luz um rapaz. Assim a mulher continuava a habitar na toca até o filho ter chegado à adolescência. Um dia o rapaz resolveu sair do buraco do formigueiro para ir aquecer-se ao sol e distrair-se olhando para as maravilhas do mundo. No entanto a mãe foi dizendo ao filho:

—Meu filho, não saias mais daqui, porque se um dia encontrares os bichos chamados “omakihi?, vais ser comido por eles. E por isso que vivemos aqui escondidos neste buraco. Não é por gosto que ficamos a viver assim. O rapaz porém não fez caso da advertência da mãe. saindo constantemente para fora.Tendo já adquirido mais conhecimentos, um dia deu-lhe para seguir umas pegadas de ratos. Encontrou depois um carreiro pelo qual foi andando até chegar àaldeia dos monstros de que tinha ouvido falar à mãe. Nesta aldeia havia também um rapaz da mesma idade. Ao encontrarem-se, como é natural entre crianças, puseram—se a brincar. Assim que entardeceu, o rapaz vultou a “casa?, muito satisfeito por ter achado um companheiro. Depois do “filho de gente? se ter afastado, a mãe do mostrengozito disse ao miúdo:

—Quando amanhã o teu camarada voltar, puxa-o para o interior da cubata, para brincardes lá dentro. Logo que ele tiver entrado, tu vais ao cesto celeiro, tiras dali amendoim e pões-te a comer. Quando o outro disser dá-me também, tu respondes:

—vai tu tirá-lo do cesto. Então logo que ele se debruçar sobre o cesto para tomar amendoim, tu empurras o rapaz para dentro e coses bem cosida a abertura. Logo que eu chegue, matámo-lo, para com ele nos satisfazermos ao jantar. Na manhã seguinte. o rapaz sem saber da combinação, veio novamente para se divertir com o outro, como na véspera. Depois de ter entrado no recinto o outro disse:

—Amigo, vamos ao quarto para comer-mos amendoim. Depois de entrado, o pequeno monstro foi ao celeiro e tirou amendoim. O outro rapaz pede:

—Dá-me também, amigo. —Respondeu este:

—vai tu mesmo tirar. O moço ao querer tirar a ginguba, o outro empurrou-o para dentro e coseu a abertura do cesto, conforme a ordem da mãe. O rapaz tendo ficado preso no cesto, puxou por uma navalha que trazia consigo e cortou a cosedura. Feito isso, pôs-se em fuga. Quando a velha veio, perguntou ao rapaz se havia feito o que ordenara. Ele respondeu:

 —Fiz tudo, mas o outro conseguiu sair e fugir. A mãe disse ao filho:

—Amanhã vou esconder-me na cubata, atrás dos paus da porta. Na entrada vou preparar uma armadilha com um dente meu. Se ele pisar em cima, não escapa mais. Depois do sol nascido, o rapaz “filho de gente? veio novamente para brincar com o outro. Trazia nas mãos uma pedra de picar as mós. Vindo como de costume, o filho do monstro disse ao companheiro:

—Vamo-nos divertir na cubata! O rapaz não quis entrar, porque viu o dente na entrada. Aproximou-se depois com a pedra de picar e bateu no dente do monstro. Este deu um salto e desatou a gritar. O filho do monstro quis agarrar o visitante, mas este correu para o seu buraco. O monstro tornou a recomendar ao filho:

—Amanhã vou fazer cair uma chuva forte, para que ele não possa correr para “casa?. Assim, quando estiver a chover, tu finges dormitar. Enquanto chovia o pequeno monstro procedeu como a mãe lhe tinha dito. Nessa altura a mãe pegou no filho e lhe a cara com cinza. O filho de gente, vendo como tinha ficado o outro, fingiu também que estava a dormir. O monstro pegou nele e marcou—lhe a testa com carvão, a fim de poder reconhecer o seu filho, sem o confundir com o outro. Quando os dois rapazes estavam a dormir, o monstro pôs uma panela de água ao lume. Logo que ferveu ele pegou no rapaz que tinha carvão na cara —e assim a própria mãe meteu o filho na panela, pois o filho de gente tinha limpado o carvão para pôr cinza. E ao filho do monstro aplicou carvão. E inverteu os lugares. A mãe ao vir à cubata não examinou as caras de perto, pegou só naquele que tinha carvão. O rapaz (ao ser metido na panela) gritou:

—Mãe, estás a queimar-me! Respondeu esta:

—Onde é que eu te gerei? A noite a mãe disse (para o suposto filho):

—Comamos o hóspede! Este retorquiu:

—Eu não posso olhar para a luz (do fogo), dói-me a vista. Vou comer amanhã. O monstro comeu e guardou o resto para o filho. De manhã, a mãe ao sair para o campo disse:

 —Aqui está o teu molho, filho. Assim que te levantares, aquece-o e come. O rapaz. depois de acordar, olhou bem para a carne do outro, saiu para fora e gritou para a velha:

—Estúpida, tu comeste o teu filho! Esta porém não entendeu. Parecia-lhe que alguém dissera: cava com força; e assim pôs-se a revolver a terra com ardor. O rapaz repetiu o mesmo grito:

—Monstro estúpido, tu comeste o teu filho. Ao perceber bem o que se disse, a velha correu em perseguição do rapaz. Mas este escapuliu-se e foi se esconder no buraco. Ao chegar disse à mãe:

—Mãe vamos embora, lá vem uma fera. Respondeu a mãe: Filho não to disse há muito, um belo dia havemos de cair nas garras das feras?! —Ela não contestou ao que dissera o rapaz. Ambos sairam apressadamente da toca do papa-formigas. Tendo corrido durante algum tempo, toparam com um ferreiro. Perguntou—lhe a mulher:

 —Não podemos entrar no teu fole? Este respondeu: Se estais perseguidos por alguém, entrai depressa! Pouco depois chegou o monstro. Cheio de fúria indagou: —Não viste ningném passar por aqui? Resposta do ferreiro:

—Não. Insiste o monstro:

—Se mentes, de-voro-te a ti.

—Se queres devorar-me a mim, começa por engolir este meu aparelho! O papão não se fez rogado, pegou no fole e empurrou-o para dentro da boca. Em seguida agarra também o dono e meteu-o para dentro. O homem do fole, lá dentro da barriga, continuou o seu trabalho. Quando o calor começou a apertar, o monstro ficou com uma sede enorme. Assim sequioso, o monstro reparou que ao longe havia uma lagoa. Correu para ela a fim de se dessedentar. Tendo chegado àbeira da água, a lagoa secou. Neste estado, ele passou o dia todo, até acabar por morrer de sede. O homem (dentro do monstro) pegou numa nava-lha, abriu o ventre do monstro e ele, mais os outros que tinham sido devorados. vieram para fora. Desta forma acabou o domínio dos monstros e aquela terra ficou novamente habitada.

Dados biográficos e outros como no Nº 4 O tema de seres humanos se abrigarem, às vezes durante muito tempo, na toca de um Papa-formigas (Orycteropus afer) ocorre igualmente na narrativa: “A Mulher e dois filhos? já publicada. Mas nesta trata-se de crianças expostas e abandonadas, por “não haver ninguém na família? que as pudesse amamentar, sendo ali “criadas pelo próprio Deus? . Mas, nem sempre tal buraco serve únicamente de resguardo de intempéries e perigos. Entre os Cuvales por exemplo, esta cavidade era ou é ainda destinada à sepultura de crianças recém-nascidas, tidas por anormais e de mau agoiro para gente e para o gado, conforme se expôs no III.° Vol. da “Etnografia? . Convém notar ainda, que é necessário dispor de fantasia fabulística, para fazer habitar uma mulher com um filho quase adulto na toca de um animal cujo tamanho não excede as dimensões de um suino meio crescido. Alguns episódios deste conto, inclusivamente o da troca dos filhos na refeição pretensamente canibalesca, se assemelham a acidentes relatados na narração: “The young Leopard and the young Goat?, publicada por H. Chatelain . Confusão idêntica, mas desta vez como no conto acima transcrito, entre filho de gente e filho de monstro, se apresenta em uma narrativa Humbe estampada no II.° Vol. da “Etnografia?

22: Omukwendye Wakalisa

Opopo umwe. P'okulisa omukwendye weya mei lyom ukuyu, omo avasa okaila kalya omakuyu. Omunthita okukemona wapola onkhondyi yae naekeyahe. P'okukeyaha otyo ekeponya-ponya. Etyi tyaenda n'ok'omutwe ati, (m'okuimba): Otyili tate watile: M'omufitufitu kamutelwa, Muna okaila kakola, K'oundyengele k'etako, K'oulungu k'outati. Apaleka omuhongo wavali, aponyo ñgo otyivali. Otyo aimba otyiimbo tyae. Etyi apaleka mutatu, pahe ekeyahe, ati: Mandyikekayoka pana pamoneka tyina okutwima. Etyi ati-po p'otupya, wavasa-po ekihi. Pana nanyo op'eumbo lyatyo. Ekihi aliti omunthita

—Mutekula, eta okaila kove, ndyikuyokele-ko! —Omunthita ati:

Maikulu, mphe okahumba kove, ndyihikeko! Ekihi alipolo otyihumba, alityiavela omunthita. Ou ati (m'okuimba): Mbwilindi, mbwilindi! kaila kange lungwina! Lungwina, tulonge ekihi! Etyi ekihi lyelihaika, alipulu omona:

—Otyityi otyo uimba? Omunthita ati:

—Ndyiimba ondyongo twalongehilwe n'ovotate. Apaleka otyivali, otyo ahika vala otyihumba tyae. Etyi omunthita ehungi k'okuenda ati:

—Maikulu, mphe pahe okaila kange, ame nahanda okuenda. Ekihi aliti:

—Mutekula, kulwete ekala eli? Hakaila kove kalungwina? —Pwaina, ekihi likemba, okaila p'otupya kakeilepo ale, lyekelya-po, omona m'okwatalukwa n'okuhika otyihumba. Ekihi ankho apake-po ombiya onene yohitu. n'omakwavo akayeva eye alye. Omunthita n'onyengo yokaila kae kaliwa, apoio otyikunknuiu ati:

—m'ombiya omu! EKihi ati: Mutekula, wahayumbe—mo! —Katyapwile ale k'omuhaho, omunthita apake ekihi oluhimo k'omulungu n'ok'ombunda. Eli alinkhi. Nkhie. omunthita ayaula ohitu m'ombiya yomakihi, ai. Etyi omakihi omakwavo eya, aenda n'okuimba okuti: K'ononkhwi tyelityava! K'ononthe tyeliwangula! Mowangala, mbwangala! Ahike p'eumbo, okutala mukwavo vasile-po okuteleka, wankhia, iya m'okwehetyii, limwe aliti:

—Wakolwa n'ohitu; Omakwavo ati: Ndati, hahe vala twailukile, atuende vali otyilombo tyimwe. Omakihi ailuka, okukahula vali matunda amwe.

22: Um Rapaz Pastor

E do mesmo que se trata. Um rapaz foi ao pasto. Ao pastorear, passou por baixo de uma figueira brava. Encontrou aí uma ave que estava a comer figos. Depois de a ter visto, o pastor pega no arco para a frechar. Ao atirar para ela, errou-a várias vezes. Continuando assim a atirar, o rapaz põs-se a cantar: Na verdade, o meu pai costumava dizer: No meio das moitas não se armam laços, há lá um passarinho muito especial, traz um farrapinho na cauda e tiras de pano no bico. Atirou mais duas flechas errando novamente. Passou a cantar mais uma vez a sua cantilena. Tornando a experimentar, sempre picou a ave. Disse então: Vou assá-la ali onde está a levantar-se uma coisa cinzenta. Ao chegar perto de uma fogueira deu com um monstro. Afinal era ali a casa dele. O monstro disse ao pastor:

 —Meu netinho, dá-me o teu pássaro para o assar! O pastor respondeu: Avôzinho, entrega-me a tua viola para eu tocar um pouco. O monstro pegou na viola e entre-gou-a ao pastor. Este pôs-se a cantar: Terlim, terlim, terlim Passarinho meu esturra! Esturra, para dar uma lição ao monstro! Quando este deu pela alusão, perguntou ao rapaz:

—O que estás ai a cantar? Respondeu o rapaz:

—Canto uma cantiga que os meus pais me ensinaram. E ele continuou a tocar a viola. Querendo ir-se embora, o rapaz disse:

—Avôzinho, entrega - me agora o meu pássaro, eu quero ir para casa. Resposta do monstro: Não vês este pedaço de carvão? E a tua ave que ficou queimada. —Mas na verdade o monstro mentiu. Pois a ave não fci posta ao fogo e o papão a tinha devorado, quando ao tocar a viola, o rapaz se distraira. Entretanto o monstro pôs ao lume uma grande panela de carne, para ele e os outros que andavam à caça, virem comer. O pastor cheio de ira por o seu pássaro ter sido devorado, agarrou uma lagartixa e disse:

—Vou lançá la àtua panela' O Monstro protestou: Não faças isso! —Mal tinha acabado de falar, o rapaz colocou ao monstro uma ventosa na boca e outra no ánus. Este morreu. Morto o papão, o moço tirou carne da panela dos monstros e foi se. Os outros, ao regressar da caça, vinham a cantar assim: Trouxemos lenha abundante! Lenha seca e partida! Mbwangala, mbwangala! Uma vez juntos à casa, quando viram o companheiro morto, aquele que tinha ficado em casa para cozinhar, e sem saber o que se tinha passado, um deles exclamou:

 —Faleceu por ter comido carne em excesso; Os outros contestaram: Não é isso. Mas é melhor nós deixarmos esta terra e irmos construir outro acampamento. Sairam dali e embrenharam-se noutras florestas.

Narrador: Francisco, de 22 anos de idade, filho de pais Muilas. Escrito por Carlos Mário. Missão do Munhino, Janeiro de 1968. Língua: Nyaneka

23: Ekisi No Nehova

Ekisi lalya omukulukadi; omunyeumbo waye Hengobe, okana kavo Nehova. Ekisi esi lalya-po ina, lo leuya vali talipula:

—Hengobe okwaya peni? Okakadona takati:

—Akahambula omakuva n'omaonga. Talipula:

—Omakuva n'omaonga taaningi sike? Ko: Otaatu ekisi lalya meme. —Ekisi lalya nyoko opei lili? —Ame kandisi nganga ove lie omukweni eli m'osana. Taliti: —Nehova yeulule-nge, tuye tulipopife! —Oñu yovañu itaiyeululwa nena. Lapanuna oñu, lo taliti:

—Pe-nge osikuvila! Ko: —Ahauwe! —Sapu handikuli-po! Talipewa eheke adise, talidili-po. Taliti:

—Tuye m'eumbo! —Vo tavai m'eumbo. Takateleke ombelela. Lo taliti: Ombiya yovañu itaitulwa? Lo taliitula, lo  talili-po ombelela aise. Laya m'okatala lakaomba. Taliti:

—Nehova, ila utale-nge ena dange, oikoko n'onyengele. Kakufa po imwe! Lo: —Kokota; —Takakokota, tali nde takakungu. Hengobe esi ea, wahanga okana inakauhala-po nawa. Tati: —Oike waninga? —Ondalifwa oikoko k'ekisi lali omu. Omumati, edina laye Neñhete, omumwaina waye mongula esi kwasa tati:

—Ame haifyalamo, ndidipae ekisi hulimonifa oihuna ondenge yange. Ye taupike eonga laye k'emanya, atale-ko konima okutilyana se-se. Talondo m'okahavava omu hamukala ekisi. Ekisi leuya p'oñu. Talipula Hengobe nganga omu eli, taliti:

 —Hengobe openi aya? Ko takati: Nditwile oulia va tate ñe vakakonga. Taliti: Nehova yeulule-nge! Nehova tamwena. nde elituka. Taliti: Nehova, ame totuku? Takayolo ongadya. Lo lapanuna ombwidi yoñu. Ko takatale omukulu atila, alonda k'okahavava. Esi katala nokutia omukulu okwatila, takati:

—Ombelela omo ili m'ombiya-mo. Lo tali ombelela aise yali-mo. Laya m'okatala omu lakala sito. Neñhete elihuhwaela. —Taliti:

—Osike tasiningile-nge omeva? Ko: Okangwa, twatulikile k'omeva ehuhwa. Ekisi esi lafinwa ena, tali engobe. Hengobe esi euya vali okwahanga okana keli ngasi oñhela. Ye tati: —Meñ'ove Neñhete, oike waefa okana takalifwa ena? —Eima eli laile apa olinene, italidulika nande okudipa! Hengobe tati:

 —Nena ame handifyala-mo. —Lo leuya talipula: —Hengobe omo eli? Ko takelituku —Ahala okulia okana, tekatata m'omukala. Lo lasakena na Hengobe. Taliyolo, taliti:

—Hengobe, kaume kange, wauhala? —Ye takufa eonga, telikutula omunino, telitwala k'oluvanda. Neñhete esi taende m'oluvanda, okuliwete lili m'oluvanda, tafaduka-po; okusi lo lina omwenyo. Okakadona takatu, ko takai k'ekisi takelidenge k'omayo. Lo lapenduka, lo talikali-po. Hengobe esi euya, kwahanga okana m'eumbo kake-mo. Ye tasikula omadi oku yayuka, atale apa kwali ekisi. Kalipo vali. Telikala m'omadi. Okwahanga omakisi eli avali tasasele eñangu. Ye tapuia: —Inamumona ekisi laenda apa lina ombaba k'omusila? —Omakisi taemupwilikine. Ye tati:

—Handimudipa! Tongeni apa paya ekisi. —Opo layuka-ko! Ye telisikula. Okwahanga omakisi mahapu. Tatale-mo... omo eli. Ye tati:

—Makisi ileni muñuke omani, ndi- ou ena embaba k'omusila. Omakisi aese taañuka, taati: —Ame hina ombaba k'omusila! Lo lahuninwa lakuta unene, sasi lalya okana. Taliti: —Itaidulu okuñuka omani, sasi ndimufimba. Hengobe tati:

——Lo lañuka, lo lesipun- dula-ko (k'omani). Ye Hengobe telidipa vali, tatande- -mo okana kaye.

23: Um Monsiro E Nehova  

Um monstro devorou uma velha; o seu marido chamava se Hengobe e a filha deles Nehova. O monstro depois de ter comido a mãe, apresentou-se novamente e perguntou: —Para onde foi Hengobe? —A filha respondeu:

Foi forjar machadinhos e zagaias. —Para que servem esses machadinhos e zagaias? Ela: Para matar o monstro, aquele que devorou a minha mãe.

—Para onde foi o monstro que comeu a tua mãe?

—Não sei se és tu ou outro que se encontra na savana. Ele: Nehova abre-me a entrada da cerca para eu conversar um pouco contigo!

—A entrada de gente não se abie hoje. O monstro então abre a entrada à força e diz:

—Dá-me farinha molhada! Ela: —Não dou.. —Sendo assim vou devorar-te a ti! Recebe então uma grande porção de areia. Come-a toda e diz:

 —Vamos para dentro da cerca! A rapariga põe-se a cozinhar carne O monstro pergunta: Não se destapa esta panela de gente? Ele tira a tampa e come a carne toda. Feito isto vai des-cansar debaixo do estrado e diz:

—Nehova vem catar-me as pulgas e os lagartos grandes e pequenos. Tira um para ti e trinca-o! A rapariga trinca e come mas, logo depois, vomita. Hengobe ao chegar à casa, nota que a filha está incomodada. Pergunta:

—que aconteceu? —Um monstro que entrou aqui dentro obrigou-me a engolir um lagarto. rio. No dia seguinte o irmão de Nehova chamado Neñhete diz:

—Eu hoje não saio daqui para ver se mato o monstro que fez diabruras àminha irmã. Vai afiar a zagaia na pedra. Ao levantar a cara vê uma coisa avermelhada diante de si. Sobe para cima de uma velha cubata, ao pé da qual, o monstro costuma descansar. Este apresenta-se então à entrada do cerco e pergunta se Hengobe está ou encontrando se ausente, para onde foi. Nehova respondeu: Estou a pisar o grão de meu pai que foi à caç.a. Diz o monstro:

—Abre-me a entrada! A rapariga fica na mesma e profere um insulto obsceno dirigido ao monstro. Este:

—E a mim que insultas? A rapariga dá uma gargalhada. O monstro força então a entrada. Nehova procura o irmão e repara que ele se tinha refugiado em cima de uma cubata velha. Tendo assim verificado que o irmão se esquivara, ela disse ao monstro:

—Há carne nessa panela. Ele come-a toda e retira-se para debaixo do estrado onde costumava descansar. Neñhete cheio de medo, larga urina.

—O monstro exclama:

—Que é isto que está a pingar água? Responde Nehova: E água para as galinhas que pusemos ali num caco. O monstro depois de tor exigido que Nehova lhe catasse novamente as puìgas, foi devorar bois. Quando Hengobe regressa a casa encontra a filha no mesmo estado que no dia anterior; Pergunta então:

—Ó rapaz, porque toleraste que a pequena fosse obrigada a comer pulgas? —Aquilo que esteve cá em casa, pai, é um monstrengo muito grande que não se pode matar assim tão fàcilmente. Hengobe responde:

 —Hoje sou eu quem vai ficar de guarda. —O monstro torna a apresen-tar-se e a perguntar:

—Hengobe está? A rapariga insulta-o novamente. O monstro quer então devorá-la e perse-gue-a pelo corredor no meio da paliçada. Nesta altura dá com Hengobe. Mas o monstro põe-se a rir e cumprimenta-o:

—Amigo Hengobe, passaste bem a tarde? —Este toma a zagaia e trespassa-lhe a garganta. Depois pega nele e leva-o para o caminho da entrada do cerco. Neñhete ao passar por lá e julgando que o monstro estava vivo, foge pressuroso. No entretanto Nehova que estava ocupada a pilar, larga o trabalho pain ir dar umas pancadas nos dentes do monstro. Mas este ressuscita e a rapa riga é devorada. Quando Hengobe volta, dá pela falta da filha. Segue então as pègadas do monstro. Finalmente encontra dois deles na “chana? que estavam a apanhar “sardinhas? com as mãos. Pergunta-lhes:

—Não vistes um monstro que traz uma concha na cauda? —Estes limitaram-se a escutar. Diz ele:

—Falai, senão eu mato-vos! Dizei para onde foi o tal monstro! —Foi para aquela banda. O homem vai seguindo e encontra um grupo deles. Olhando de perto, repara que o tal estava no meio deles. Acrescenta então:

—Monstros vinde cá e saltai sobre este pau com galhos (uma espécie de escada) para ver quern de vós traz conchinhas na cauda. Todos os monstros saltam e dizem:

—Eu não tenho concha na cauda! Aproxima-se então o tal (ou a tal) em último lugar. Está muito cheia, porque devorou a pequena; Diz ela: Eu não posso saltar porque estou grávida. Hengobe insiste:

—Faze um esforço! —Saltou. Hengobe atira com ele ou ela ao chão e mata-o pela segunda vez. Finalmente abre-lhe a barriga e liberta a filha.

Narrador: Pedro, casado, natural do Cuanhama. Ditado algures no Cuanhama em 1927. Língua: Cuanhama. Este conto é tipicamente Cuanhama, não tanto nas linhas gerais, mas na caracterização dos personagens que manifestam valentia verdadeira ou presunçosa, ao mesmo tempo que ironia, ora fina ora mais cáustica. O tema de afiar zagaias e uma interrogação sobre o motivo desta acção faz parte de um diálogo, entre um rapaz e um monstro, mas com maior desenvolvimento, dum conto publicado por Hauenstein: “Le petit Garçon et le Géant?

C Estorias Da Vida Quotidiana

24. Ovakai vahombolelwe ombanda

Ovakai ava vahombolelwe ombanda. Tyapu umwe wakana, wafila-po omona. Etyi afila-po omona, wafala n'omumbanda watyo. Se walupula onongombe, waya wakanthita. Etyi akanthita, ye ina yatyo tateleka, okulya; teleke, teleke, ye tape omona, ati:

—Tambula okulya, ulye! —Omona etyi takwata m'okulya, alye, ye wapita k'okalundu, wakapola omutwe wa ina. Otyo tandimbi tati: Tala omutwe, tala omutwe! Tala omutwe wanyoko, kauvindwa! (bis) Tyapu okulya, kena okulya vail. Ye teutwala omutwe ou, ye tali-po okulya oko. Namumbai, namumbai haityo nô. Hono mualolu se hayongola omona wae okuti: Omona wange ou tahoko nâ, otyityi? —Ati:

Ai, walye. Okulya tali tupu. Etyi atyimuhokefa nâ, ame hityindi. Okupula omona tupu, ati: Ungwe, etyi tyikuhokefa tupu otyityi? Ati:

Tate, ngotyo walupula onongombe okukanthita, meme hateleka okulya. Ye tyapu tamphe. Takapola omutwe wa meme k'okalundu hati: “Tala omutwe wanyoko, kauvindwa! “Ame okutala k'omutwe wa meme, tyapu hin'okulya vali. Hati:

Nohono nô, ngotyo walupula onongombe, holamena nô okutala. Hakulupula onongombe ondo? Ye kuna hatakondoka-ko, hataholama m'ongumbu? —Etyi aholama m'ongumbu, ye tateleka okulya omukai ou, tape omona. Te tai k'okalundu, takapola omutwe. Hati n'okundimba:

Tala omutwe, tala omutwe! Tala omutwe wanyoko, kauvindwa! (bis) —Omona m'okulya tupu, wayeka-mo, ye tandimbi: Tala omutwe, tala omutwe! Tala omutwe wa meme, kauvindwa! (bis) Se hakuya? Ye etyi atia omukolo wa se, ye tatopoka vali atwale omutwe ou k'okalundu. —Ondele ya ina nkhwali yakwatefa. Hati:

—Namumbai, namumbai okuninga omona wange okumuhonga-honga! Se kuna hateuya? Hawahangwa, wakakatelwa n'okuvoko k'omutwe wae? Ha kumuveta, nkhwali hakumuveta p'omuenyo? Tyapu haankhia? Hakumutwala k'okalundu? Tyapu wafifilwa. Lwapwa!

24: Um Homem com duas Mulheres

Duas mulheres eram casadas com um homem. Uma morreu e deixou um filho. Este filho ficou a viver com a segunda mulher. O pai fez sair o gado e foi pastorear. Enquanto o pai está nos pastos, a mulher faz comida. Depois dá-a à criança e diz:

—Toma lá e come! —Quando o miúdo se dispõe a comer, a mulher vai à campa da outra, tira a cabeça da mãe do rapazito e diz cantando:

Olha, cá está a cabeça da tua mãe, com o penteado desfeito, desfeito! (bis) O miúdo já não come. A mulher leva a cabeça para a campa e depois vem comer. Assim procede esta mulher dias seguidos. Em certa altura, o pai repara que o filho está a ficar magro e diz:

Porque é que o meu filho está a emagrecer tanto? Resposta da mulher: Não sei. Comer come; ignoro o que o faz emagrecer. O pai pergunta também ao filho: o filho, porque estás a ficar tão magro? Ele responde:

Pai, assim que sais com o gado para o pasto, a madrasta faz comida e dá-me de comer. Mas, no mesmo instante vai ao cemitério buscar a cabeça da mãe e diz: “Olha para a cabeça da tua mãe! E claro que, depois de ter visto a cabeça da mãe, já não me apetece comer. E acrescentou: Hoje depois do gado ter saído esconde-te a espreitar. O pai fez sair o gado. Logo a seguir volta do pasto e esconde-se atrás do cercado. Estando assim escondido, a mulher faz comida e dá-a ao miúdo. Vai ao cemitério, tira a cabeça e diz, cantando:

Olha, cá está a cabeça da tua mãe, com o penteado desfeito, desfeito! (bis) A criança deixa a comida e põe-se a cantar também: Cá está a cabeça da minha mãe, com o penteado desfeito, desfeito! (bis) O pai aproxima-se. Ela, ao ouvir a tosse do homem, põe-se a correr para levar a cabeça à campa. Parece que a alma da mãe vem agora em auxílio. O homem fala:

—Todos os dias estás a meter medo ao meu filho! O pai chega-se então e ela é apanhada em flagrante. Uma vez presa pela cabeça, toca a bater-lhe, a bater-lhe em sítio vital. Ela morreu. Levaram-na para o cemitério e deitaram-lhe terra por cima do corpo. Acabou o conto!

Dados biográficos e outros como no N°20.

25: Omukai omulemi

Omukai omulemi weya k'ovoina ivi okupila. Omukai ou ankho una omona uhetavela etyi ina apopia. Kumbi limwe ina wakalima, n'omona ai nae. P'okulima omona weya m'etemo lya ina. Omona utiwa Masangu. Ina nokuti:

—Masangu kala okoko! —Omona waanya. Iya ina m'okuenda okulima, m'otyiponyo atyoko omona p'omunyino n'etemo. Iya pane ina, etyi ankhia ouoma, apolo otyimuti, atopekenya natyo ovinthoka vivali vyomona wae. Emupolo okuveleka m'omuongo. Etyi atalatalako, omona katutila vali. Elipake m'ondyila yo k'eumbo. Etyi ehika k'eumbo, wavasa ina ivi. Ou ati: Masangu, ama-ko! —Ina ati: Una uvela omutwe. Uvela otyindongo tyo k'omuenyo wovava. Ina ivi emuyeke. Etyi se eya na e apaleka okukukwinya omona okuti:

—Masangu, ama-ko! Ina ati ñgo nkhele: —Masangu uvela omutwe. Kavele ekolokolo lya luvanda, otyindongo tyo k'omuenyo wovava? Ina ivi etyi ankhia onyengo, omona p'okumupola m'omuongo waina, omutwe wahomboka-ko k'omapepe. Omulume okutala omona wankhia. Ina aihena wavo. Omukai ou avemuloya. Ankhi, ngetyi aipa omona wae. Lwapwa.

25: Uma mulher gravida

Uma mulher grávida vem visitar a sogra. Esta mulher tern uma filha muito desobediente. Um dia a mãe foi trabalhar no campo. A filha também foi. Quando a mãe começou a sachar a rapariga foi-se colocar perto dela. Esta filha chamava-se Massango. A mãe disse: Massango vai ficar mais além! Mas a filha não quis obedecer. Assim aconteceu que a mãe, continuando o seu trabalho de enxada feriu, inadvertidamente a filha no pescoço. Neste momento, a mãe cheia de medo, pegou numa estaca para fixar a cabeça ao tronco. Embrulhou o corpo num pano, a fim de o transportar às costas. Ao olhar de mais perto, viu que a pequena estava sem vida. Pôs-se a caminho para casa. Tenho chegado a casa, encontrou lá a sogra. Disse esta: Massango, vem cá! Respondeu a nora:

 —Ela tem dores de cabeça. O seu mal foi um barranco no caminho da entrada da cerca; por causa dos bredos pôs a vida em perigo. A sogra (não entendendo bem) ficou calada. Quando chegou o pai, quis igualmente saudar a filha, chamando por ela: Massango, vem cá! A mãe respondeu novamente:

 Massango tem dores de cabeça; o mal dela foi um barranco no caminho da entrada da casa; por causa dos bredos “levou a vida para a água?. A sogra irritada, tirou a criança das costas da mãe. Ao fazer assim, a cabeça separou-se dos ombros e caiu ao chão. O homem, vendo que a filha estava morta e sabendo que a mulher não tinha parentes próximos, deu-lhe um tiro. Assim morreu, por ter sido a causa do falecimento da filha. Terminou o conto!

Narradora: Matilde Kalefandu de 55 anos de idade, de origem Muila. Escrito por Carlos Mário, Missão do Munhino, Janeiro de 1968. Língua: Nyaneka com três vocábulos em “Umbundu?. A segunda parte da resposta enigmática que a nora dá à sogra, depois de regressada do campo com a filha às costas, levou-nos a inquirir se as palavras proferidas de facto não tinham sentido, como parecia e afirmava quem fixou a narrativa por escrito. Mas, já que nessa frase ocorre o vocábulo ovava, (água), muito conhecido e pertencente à língua Bunda (Umbundu), fomos naturalmente induzidos a interrogar a Monitora escolar desta missão à qual já nos referimos. Afinal, o mesmo conto existe igualmente naquela etnia e o acontecimento trágico nele contido é narrado com muito maior precisão. Uma pequena rapariga que acompanha a mãe ao campo, é muito gulosa de uma erva chamada Ondongo ou Otyindongo, com que se faz um esparregado de excelente qualidade. Por isso, ela está a apanhar o tal legume espontâneo com grande ardor, sem se afastar de ao pé da mãe. Esta, entretida a sachar, repreende-a várias vezes, mas em vão. A filha “mete-se mesmo entre as pernas da mãe? e dá-se então a fatalidade, tanto mais fàcilmente que a mulher não pode reparar na filha nesta posição. A locução “deitar a vida na água? É proverbial para dizer: “não ligar importância à vida?. A pena capital, executada de uma maneira instantânea, parece-nos suplício muito cruel e injusto, mas é bom não esquecer que o que se considera nestes casos entre os bantu, não é tanto a culpabilidade do “criminoso?, mas o facto material da perda de uma vida, atribuída a quem esteve relacionado com esta circunstância. Também é estranho ser o pai a atribuir-se o papel de carrasco justiceiro, pois se a ordem legal matrilinear estava ainda em vigor nestas etnias, tal função competia ao tio materno, isto é, ao irmão uterino mais velho da mãe. Proceder diferente, deve-se com certeza imputar à infiltração de elementos de cultura portuguesa, ocidental. O mesmo fenómeno é também referido no conto que se transcreve a seguir. Mas nele a interpretação é diferente. Como esta narração é de origem Cuvale, isto é, de uma etnia do grupo herero, entra naturalmente em jogo a preponderância do poder do pai, sobre o do tio materno, que se verifica neste grupo. Temos aqui dois casos que são um exemplo do intrincado problema da complementariedade entre o poder destes dois representantes dos clãs familiares.

26: Omulume n'Omukai

Opopo umwe. Omulume wali n'omukai, ou ateke. Ou ankho wali n'omona omuhikwena, esala na he, ina m'okwakana. Omulume etyi apanga m'oumbumba, ati k'omona:

—Mona wange, mandyitaindya vali omukai umwe! Omona ati:

—Otyili tate, taindya vali omukai umwe; iya ankho wemutaindya, tuhakale nae m'eumbo lyetu, onthwe matukakala m'eumbo lyae. Omulume etyi amona omukai ahandele, atila pahe k'omona n'omukai:

—Ame mandyii k'ovilongo kokule. Ove mona musala pano p'eumbo n'omutekwa-ho. Omona n'omutekwa-he kavelivilile no m'okulitumina m'eumbo, tyetyi omona ulwete vala okuti ou ha ina wokwemutyitile. Omutekwa-he etyi atala okuti omona wahanda okupomba unene, asoko okutyinda ovihemba vyokuipaa omona. Omona m'okwalunga, m'eumbo ailuka-mo akakala m'eumbo lyavakwavo. Omona m'okwailuka, omutekwa-he katyemupele vali ehimbwe tyokulinga etyi ahandele. Iya omukai ou ahinangela okuheya onyombo, emuyondye naekemuhihile-mo. Kumbi limwe omukai ai k'eumbo lyovomonthele yae oku ankho kukala omona. Etyi emuvasa ati:

—Kalundungu, endyu unthyindikile k'onyombo tukatape omeva! Omona okutehela, wetyinoñgonoka ati:

—Ame himaende vali. Omukai ou okukuluminya omona ou, ló atavela, aval. Vehike k'onyombo, ou akwate omona emuyumbe-mo m'onyombo aheya, ahihi-la-ko, ai k'epata lyae. Etyi pakala okahimbwe, he yomona eya. Etyi ehika. apulu okuti:

—Kalundungu uli-pi? Omukai ati:

- Katwi... Umphula-mphula omona wove m'“ekonda? lyatyi? Hamwe uhanda okunepa omona wove?!

- Omulume okutehela etyi tyipopia omukai, atyimupe okulunga, aí m'okupulapula m'omaumbo ku vakwavo. P'okukondoka k'eumbo, m'ondyila, weiva okaila kati (okuimba): He ya Kalundungu, lila, lila! Ombunda veipaka m'eungl, Otyipanda k'evongelo lyondyila. He ya Kalundungu otyo alandula okaila aka kemutolela. Akemuete apa papakwa omona wae. Ehike p'elangalo lyomona wae, ou m'elangalo ati ku he:

—Ame Kalundungu. —Okutumbula enyina lyae lyonohande, opo he etyivile okumunoñgonoka. Pahe ati:

—Tate, tate weya? Ame Namunyonga, ndyili m'ovivelevele, Namunyonga wokuenda ku tate! Tate, tate nkhele ndyili m'ovipatipati, Namunyonga wokuenda ku tate! Etyi aputika, ankhindumuka-po pohi n'okuhumbakana he. Etyi vehika k'eumbo, omulume apolo outa, aipaa omukai. Akala vala n'omona wae.

26: Um Homem e uma Mulher

Um homem vivia com uma mulher. Morreu esta. Havia tido uma filha que ficou com o pai, depois da morte da mãe. O homem, passado algum tempo de viuvez, disse à filha:

—Vou procurar outra mulher! A filha respondeu:

—Está bem, pai, procura outra mulher. Mas, quando a tiveres encontrado, não vamos viver com ela em nossa casa, ficaremos antes em casa dela. O homem depois de ter casado com a mulher a seu gosto, disse à filha e à mulher:

—Eu vou ausentar-me para terras longinquas. Tu filha, ficas em casa com a tua madrasta. A filha e a madrasta não se davam e não se entendiam nas lidas da casa, pois a rapariga estava sempre a recordar-se que a outra não era a mulher a quem devia a vida. A madrasta, como sentiu que a enteada estava a querer impor-se a ela, pensou em procurar drogas para a matar. Esta, como era esperta, decidiu mudar para a casa de uns parentes. Saída a rapariga de casa, a madrasta não teve mais ocasião de conseguir o seu intento. Lembrou-se então de abrir um poço para ver se podia, ardilosamente, fazê-la cair nele e cobri-la com terra. Um dia, esta mulher foi a casa de gente vizinha onde morava a rapariga. Ao dar com ela disse:

—Kalundungu, vem acompanhar-me até ao poço, vamos à água! A rapariga ao ouvir isso desconfiou e disse:

—Não vou. Mas a madrasta insistiu tanto, que a enteada acabou por concordar. Chegadas ao poço, a mulher pegou na rapariga e empurrou-a para dentro dele. Em seguida cavou terra, cobriu-a e foi para casa. Passado algum tempo, o pai da rapariga regressou da viagem. Chegado a casa, ele perguntou: —Onde está Kalundungu?

A mulher respondeu: Sei lá eu? Por que me perguntas por tua filha, por acaso queres casar com tua filha?

O homem depois de ter ouvido a resposta da mulher, ficou desconfiado e foi inquirindo nas casas dos vizinhos. Ao voltar a casa, ouviu a voz de um passarinho que cantou: Pai de Kalundungu, chora, chora! O corpo da filha repousa num buraco. O cinto enterraram-no à beira do caminho. O pai de Kalundungu seguiu o passarinho que lhe tinha falado. Este levou-o até ao sítio onde estava enterrada a filha. Chegado à campa da filha, ela que estava no túmulo, dirigiu a fala ao seu pai: Eu sou Kalundungu. E disse mesmo o seu nome para que o pai a pudesse reconhecer. Acrescentou:

—Pai, vieste? Eu sou Namunyonga estou enterrada até altura dos peitos! Namunyonga quer chegar até ao pai! Ainda estou presa pelas costelas, Namunyonga quer chegar até ao pai! Depois de ter acabado de falar com o pai, ela saiu do fundo do poço e abraçou o pai. Chegados a casa, o homem pegou na espingarda e matou a tal mulher. Ficou então a viver sòmente com a filha.

Narradora: Balbina, de 24 anos de idade, de origem Humbe, vivendo maritalmente com um homem Cuvale. Escrito por Carlos Mário. Missão do Munhino. Janeiro de 1968. Lingua: Nyaneka com vocábulos humbe (Nkhumbi). Segundo informaçções de quem escreveu a narrativa, esta é de origem Cuvale e foi o homem quem a contou à sua mulher. Há nela dois factos insólitos que, mesmo entre os membros da referida etnia não deixam de o ser. São os seguintes:

1.° O homem aceitar ir habitar em casa da mulher que acaba de procurar. Ora em todos os povos bantu do sudoeste de Angola, o matrimónio é sempre “virilocal?.

 2.° A afirmação de, após ter dado cabo da mulher criminosa, o homem querer viver sozinho com a filha. Aceitando a resolução como válida para poucos meses é possivel. De outra forma não.

 A explicação deste proceder, contrário a todas as regras tradicionais, é que, nos contos acontecem muitas vezes coisas extraordinárias.

 

D: Contos Contendo Elementos De Magia

27. Ovakainthu Vekwana N'okamukulukai

Ovakainthu vekwana vakatiava ononkhwi. Umwe avombo. Akatumbukila k'eumbo lyomukulukai. Akala-ko omanima etatu. Ati:

—Ndyeivaluka, ndyihanda okwenda k'eumbo. Omukulukal apopya omona wae utiwa Tyimuku, ati:

—Mutwala k'eumbo lyavo. Ati: E! Ankho vena olunthwi k'onyima yondywo, ankho lwauvuka. Aende - po, aimbi, ati: Olunthwi lwekula outeke, Tyisandyi wekula ondila. Lutwala ku Mbombo, Ku Mbombo kulele ise; Lutwala ku Mbombo, Ku Mbombo kulele ina; Lutwala ku Mbombo. Wepwila okuivaluka. Olutanga aluyovo, alutandavela. Avaende k'omafo atyo. Ou ull k'efo, omukainthu uli k'efo. Aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.; Alukatuka na vo m'eulu, omukainthu na Tyimuku. Aluenda na vo. Etyi vati p'omutwe-kati avatulu. Avapululukwa m'okahi. Aluuvuka. Etyi vati k'omapeto, ekumbi lyapeuka, aende, aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.; Aluyovo, alutandavela, alutalala. Avaende-ko k'omafo. Alukatuka na vo m'eulu. Aluhiki p'eumbo lyomukainthu. Ovoina avalyepesa:

—Lyepei. lyepel! Mona wange wavombele! Avapolo onongombe ekwí avemupe, avapaleka vali onongombe ekwí avemupe. Mbulinga omakwi evali. Aende p'olunthwi aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc.. Olutanga lwatandavela, ng'opo apaka onongombe mbae: K'efo like onongombe onombali, k'efo like onongombe ononthatu, aeho omafo atyo onombali —ononthatu. Na e mwene avelama k'efo, aimbi; Olunthwi lwekula outeke, etc., etc., etc., etc.. Etyi ati p'omutwe-kati apululukwa ñgo apa vapululukilwa p'omuti, oko vatalamene p'okuenda. Akalisa onongombe, embunwisa omeva. Olunthwi aluuvuka. Etyi eya aimbi: Olunthwi lwekula outeke, etc., etc., etc., etc.. Olunthwi alutandavela, onongombe ambuvelama k'omafo, na e mwene. Alukatuka  umwe aluhiki k'eumbo. Omukulukai alyepesa, ati:

—Otyo wapewa etyi? Omukwendye ati: Ya! Nafetwa umwe omakwi a onongombe, etyi nemutwaila k'ovoina.

27: As quatro Raparigas e a Velhinha

Quatro meninas foram à lenha. Uma delas perdeu-se. E foi dar a casa de uma velha. Ali permaneceu três anos. Disse por fim: —Tenho saudades, quero ir para casa. A velha fala a seu filho de nome Tyimuku, nestes termos:

—Leva-a a casa da família. Resposta dele: Está bem! Tinham uma aboboreira por detrás da casa e encontrava-se murcha. Foi ao pé dela e cantou assim: A aboboreira cresceu de noite, A perdiz cresceu a caminhar. A aboboreira transporta até Mbombo, até Mbombo onde dorme o pai. Ela leva até Mbombo, até Mbombo onde dorme a mãe. Ela leva até Mbombo. A filha deles está morta de saudades. A aboboreira deu rebentos e esten-deu-se. Eles montaram em cima de suas folhas. Ele em cima de uma folha; a rapariga em cima de outra. Então ele pôs-se a cantar: A aboboreira cresceu de noite A aboboreira levantou voo com ambos pelos ares: a rapariga e mais o Tyimuku. E seguiu com eles. Por altura do melo-dia pousaram. Descansaram a uma sombra. E a aboboreira murchou. Chegados à tarde, com o sol já inclinado vai ele e canta: A aboboreira cresceu de noite. E deu rebentos, estendeu-se e en-cheu-se de verdura. Subiram então para as folhas. Ela levou-os pelos ares. Chegou por fim a casa da rapariga. A mãe faz ouvir as suas boas vindas: —Benvinda, benvinda! Minha filha que te havias perdido! —Pegaram lá em casa numa dezena de bois, deram- -nos ao rapaz, e repetiram nova dezena de bois, tornando a dar-lha. Todos juntos eram duas dezenas. Ele dirigiu-se à aboboreira e cantou então: A aboboreira cresceu de noite. A aboboreira estendeu suas hastes, de modo que ele coloca nela os seus bois: Numa folha dois bois, noutra folha três bois e assim em todas as folhas, ora dois ora três. Ele próprio se pôs também a cavalo numa folha e cantou: A aboboreira cresceu de noite. Com o sol a pino, ao meio-dia, descansou outra vez junto da árvore em que haviam descansado, onde haviam parado à ida. Levou os seus bois ao pasto e conduziu-os a beber. Murchara entretanto a aboboreira. Vindo ao pé dela, cantou: A aboboreira cresceu de noite, A aboboreira estendeu as suas hastes e os bois instalaram-se em cima de suas folhas, assim como ele próprio. Ele-vou-se pelos ares até que chegou a casa. A velha deu as boas-vindas, exclamando: —Foi isto o que recebeste? E diz o rapaz: Sim! Pagaram-me precisamente estas dezenas de bois, por a ter levado a casa da sua mãe.

Dados biográficos e outros como no N° 13.

28: Omumati n'ondila

Omumati wahepulilwa na ina: Ho-tela-ko omuyo! Tyapu ye katavelele. Wakatela-ko; wakwata endila. Endila etyi lyemumona, taliti:

Ovoso vali n'okupopia, ovonyoko vali n'okulonga vati: K'okatunda ka Mbangula, Ondila yokuya k'otyiko, Kakutelwatelwa muyo, Kakundikilwa vinkhisi, Kuna omandila manene Kuna omakusuka omaiso, Kuna omayela omipolo. Ngupe-mo, kalume! —Tyapu weliupa-mo, welitula p'ofi. Endila lyapaleka okupopia: vali; taliti: K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. Aliti:

Tyindenge-aila, kalume! Omumati welityinda, okulitwala k'eumbo. Etyi elitwala k'eumbo, elitula pofi. Alipaleka okupopia aliti K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. —Tandenge-aila, kalume! Etyi elitanda aliti vali: K'okatunda ka Mbangula, etc., etc., etc., etc.. —Mphake-po-aila, kalume! —Fingenge-aila, kalume! —Ngupe-po, lyenge-aila, kalume! Etyi lyapwa okumulia, yelitunga vali m'eimo. Tyapu m'okuhuma-mo, lyemutandula pokati.

28: O Rapaz e o Pássaro

Um rapaz foi muitas vezes admoestado pela mãe desta forma: Não armes laços! Ele porém não quis saber, foi armar e apanhou um grande pássaro. Ao ver o rapaz, este disse (cantando): O teu pai costumava dizer, A tua mãe dava-te avisos neste sentido: Na pequena floresta de Mbangula, No caminho que leva aos barrancos Não se devem armar laços, Nem espetar pausitos, Há lá grandes aves, Aves de olhos encarnados, E de bicos amarelos. Tira-me do laço, rapagão! Tirou-o e pô-lo no chão. O passarão tornou a falar: Na pequena floresta de Mbangula, E acrescentou: Leva-me para casa, rapazola! O rapaz carregou com ele, levou-o para casa e pô-lo no chão. Voltou a falar o pássaro: Na pequena floresta de Mbangula, —Abre-me a barriga, moço! Depois de o ter feito a ave cantou novamente: Na pequena floresta de Mbangula, —Põe-me a assar, rapaz! —Deita-me sal, rapagão! —Tira-me do lume e come-me, moço! Depois de o ter comido, a ave tomou novamente forma de pássaro vivo e ao sair para fora, rebentou o corpo ao rapaz.

Narradora: Uma de três raparigas Humbes, de 16-18 anos de idade. Ditado: Na Missão do Chiulu, Junho de 1944. Língua: Dialecto Nkhumbi.

29: Omukai n'omuloi watyituka Omulume

Ovo umwe. Efwa umwe enene. Pahe vefwa vatyo aveho umwe vafwa. Omukulukai ou kafwile. Etyi eya p'okuyauka, kwapwa, akwata omuloi umwe omunene. Omuloi watyo eutyindi eutwala k'eumbo. Tyino ati ndyipole onkhiki, ndyiutandule, auti:

—Uhanthandule! Mphake-po ombandwa, omphikila m'“onomanta?, ove k'ombundi oiki-po, “masi? ulupuka-mo. Omukulukai óm'ondywo alupukamo, p'ombundi aiki-po. Tyino eya, omuloi ówatyituka omulume. Omulume óapopila omukulukai ati:

—Tyino wanwa wapyaluka, wahatie: “etyi naile k'onohi, nakwatele omuloi, omuloi watyo watyituka omulume?. Omukulukai ati:

E! Pahe k'omuhuka etyi kwatya, omukulukai watyo wakatyinga. wanwa unene, apyaluka, ati:

 —Omuloi ónakwatele watyituka omulume! Omulume ou (nthaina, etyi apopya-popya ngotyo k'ovakwavo, vana avemulingi omukwele okutiwa: wanepwa n'omuioi!), omulume etyi etyiiva, anumana. K'ounthiki etyi lyetaka, omukai etyi ulele, omulume watyo apinduka-po, apumphama p'ohi, ahimbika okuimba ovipuka vyae. Watetekela ovifufwa, ati:

Vifufwa aviho vya Tyongolola Viende ongali! Omutenya utwala! Vimbisi aviho vya Tyongolola, viende ongali! Omutenya utwala! Ovimbwa aviho vya Tyongolola viende ongali! Omutenya utwala! Nonkhombo ambuho mba Tyongolola, mbeende ongali! Omutenya utwala! Onongi ambuho mba Tyongolola mbeende ongali! Omutenya utwala! Onongombe ambuho mba Tyongolola mbeende ongali! Omutenya utwala! Ovanthita aveho va Tyongolola vaende ongali! Omutenya utwala! Name mwene, na Tyongolola, ndyiende ongali! Omutenya utwala! Aviho avikawila m'omeva. Na Tyongolola yatyo na e atyikawila m'omeva. Pahe k'omuhuka, etyi kwatya, okamukulukai katyo, okupinduka-po, akeho kaliwa n'onona. Okakulukai oko... Avati:

—Etyi waliwa n'onona ngetyi, otyityi, iya?!... Y'omulume wove? Ati:

—Omulume wange... ankho nafwile omuloi; pahe omuloi autyituka omulume. Pahe, etyi netyipopya m'ovanthu, una wapita vali, wakondoka umwe m'omeva. Kwapwa!

29: A Mulher E O Bagre Que Se Mudou Em Homem

Pois eram esses mesmos. Uma pesca grande a valer. E todos os dessa pesca. apanharam peixe. Mas a nossa velha não pescou. Quando estava para sair da água, pronto! —agarrou um enorme bagre. Ela carregou com esse bagre e levou-o para casa. Quando se dispunha a pegar na faca e abri-lo, o bagre falou, dizendo:

—Não me abras! Estende-me um leito de pele seca e cobres-me com mantas, entretanto fechas a porta, mas tu vais lá para fora. Aquela velha saiu do aposento e fechou a porta. Ao voltar, vê que o bagre se transformou em homem. Esse homem dirigiu-se à velha dizendo:

—Quando beberes e te embebedares não digas: “Daquela vez que fui à pesca, agarrei um bagre e esse bagre mudou-se em homem?. Responde a velha: Está bem! Ora no outro dia pela manhã, a velha foi dar voltas à cata de bebida, bebeu muito e embebedou-se, dizendo:

—Aquele bagre que eu agarrei, transformou-se em homem! O dito homem (pois ao falar deste modo com as outras, elas punham-se a troçar dela, dizendo-lhe: Casaste-te com um bagrè!), o homem, sabendo disso, zangou-se. De noite, a horas avançadas, quando dormia a mulher, o homem em questão levantou-se, sentou-se no chão e começou a cantar nomeando os seus pertences. Em primeiro lugar as galinhas: Vós, ó galinhas todas de Tyongolola Voltai para trás! A penúria os leva. Vós, os gatos todos de Tyongolola, voltai para trás! A penúria os leva! Vós todos, ó cães de Tyongolola, voltai para trás! A penúria os leva! Vós todos, ó cabritos de Tyongolola, voltai para trás! A penúria os leva! Que todas as ovelhas de Tyongolola, voltem para trás! A penúria as leva! Que todos os bois de Tyongolola, voltem para trás! A penúria as leva! Que todos os pastores de Tyongolola, voltem para trás! A penúria os leva! E que eu próprio, que eu Tyongolola, volte para trás! A penúria é quem me leva! E tudo aquilo se foi sumir na água. E o próprio Tyongolola ele também foi desaparecer na água. No outro dia, pela manhã, a dita velhota, ao levantar-se, estava toda mordida de piolhos. A velhota em questão... E disseram-lhe:

—Tu que estás assim mordida de piolhos, que te sucedeu, então?!... E o teu homem? Resposta dela:

—O meu homem... eu pesquei um bagre; e esse bagre mudou-se em homem. Mas, como eu revelei o facto, ele foi-se outra vez, voltou outra vez para a água. Acabou!

Dados biográficos e outros como no N.° 7.

30: Omukai Epongo

Opopo umwe. Omukai epongo wehena eumbo apa akala, ankho ukala mei lyomuti. Omukai ou m'oluhepo luna olunene, kumbi limwe weya m'okukambelwa n'ovilungo. Iya nthiki imwe ahinangela okutunga otyongo. Etyi amana okutunga otyongo otyo, ai m'ondongi okukafwa onohi. a na alinge ondalelo yae yok'ongulohi. Iya, etyi ehika m'ondongi, ahimbika okufwa. Efwa olyo lyakala ehimbwe ngesa otyitenya atyiho; otyo nkhele n'okahi na kamwe ehenekwate. Etyi eya m'okuhanda okuliyengwa, ngapa ati uyindya otyindyalala m'omeva, aye k'eumbo, utehela k'ondindi otyindyalala kuivala okupuma. Ati: Iya! Ohi yange. Ohi oyo ankho omuloi umwe omunene weya-mo. Iya p'okuipola-mo m'otyindyalala, auti:

—Nkhwate nawa! Omukai weupola-mo nawa, ngetyi mwene uhanda. Ehike p'okapata kae, pei lyomuti wae, p'okuhanda okutula, ohi aipaleka okuti: Nthule nawa!

—Omukai ngotyo ñgo alinga p'okutetekela. Eya p'okuitetela-po na apake-po ongolovia yae. ohi aiti otyivali: —Nthete nawa! P'okuya okuilya haityo ñgo aiti: —Ndye nawa! Iya, p'ehimbwe opo, ohi ailityitula omunthu, aitila omukai:

—Pahe ove molingi omukai wange, mandyikunepe-po! Wehetyipopile munthu. Iya tyina nekunepa, mandyikutwala m'epata lyange, epata limwe enene. Omu ndyina olumono olunene: K'onongombe, k'onongi, k'onofufwa na vimwe vali. Natyimwe tyakamba-mo. Ongo ndyikutolela nokuti: Kumbi ndyikutuma tyimwe, wahandalule okuti: “Otyihi napolele m'omeva, pahe tyinthumaina unene!? Ankho otyo upopia ngotyo, oluhepo lwove malukukondokela, okala ngetyi wall ale. Iya omukai ou atavela okunepwa n'ohl oyo akwatele m'omeva, elityitula pahe omnthu. Etyi otyinepo tyalingwa, omukai ou watala-ko vala etyi omuti wae apa ankho akala wanyima-po. Pena pahe epata enene, ngetyi tyapopile ohi. Omukai ankho wokwahepa, pahe walinga omunañgana; olumono lwemulingila olunyingi. Nava ankho vehemuhanda, pahe vahimbika okuya k'epata lyae. Omukai ou wakala himbwe n'okwa-nepwa n'ohi afwile m'omeva. Kumbi limwe omulume atumu tyimwe omukai. Ou m'okwehetyiliyile okutumwa ati n'efeno:

 —Tyinthuma unene, ngoti hatyihi nakwatele m'omeva! Ankho walimbwa ondaka yemupopile omulume. Iya olumono luna alumutundu liwa, ngetyi tyapopile ohi. Omulume etyi eya m'okunumanena ngetyi apenywa n'omukai, atila omukai:

—Pahe otyo mokala ngotyo, tyetyi natile okuti: “Kumbi ndyikutuma wahañgoñge?! Ove pahe wetyilingila wina. —Ame pahe mandyi oku wampholele. Haipo opo omulume atyitukilila ohi ngetyi yali ale potyalutete. Ati:

 —Pahe sala-po n'oluhepo lwove, ame napita! Ohi aihimbika okukulunguta pohi nokuti (m'okuimba): Aviho, aviho vya Tyongolola, Viende ongali! Omutenya utwa! Iya k'otyilie, etyi atyihimblka okukulunguta, okumulandula: k'onongombe, k'onofufwa, atyiho tyae. Omukai ou m'okulivela vali etyi alinga, no m'okutala oluhepo lwemukondokela otyivali; otyo alandula-mo m'ohl nokuti hamwe imulingile onkhenda. Ngwe ohi aiti:

—Pita! Ohi oyo otyo ikulunguta n'ovyayo aviho ló m'eiva omu yamakwatelwe. Etyi kaimoneka vali, omukai ou akondoka pei lyomuti wae, apa ankho akala ale. Omukai ou wakala omanima omanyingi; otyo ñgo ahinangela k'ohi yae yemupeie eputuko enene. Etyi tyeya okumulinga navi k'omutima, apaleka okutunga otyindyalala otyikwavo nakahetekele-mo tyivali m'eiva lyatyo, atale ankho nkhele ulihaka-ko k'ohi yae. Omo ehimama otyitenya atyiho m'omeva n'okukuakua. Ongo atyiho welipwillsa vala. Ohi yae keikwataile vali. Atyimupe okukondoka p'okamuti kae, n'okwelivelavela unene, etyi ehetavelele ondaka yohi. Ngopo akala n'oluhepo lwae n'ondyala yae Ió pahe tyemutwala k'ononkhia.

30: Uma Mulher Pobre

É desta que se trata. Havia uma mulher pobre que não tinha onde morar. Por isso vivia por baixo de uma árvore. Sofrendo assim de grande pobreza aconteceu faltar-lhe o conduto. Um dia resolveu fazer uma nassa. Acabada a nassa vai ao rio para apanhar peixes, a fim de os preparar para o jantar. Depois de ter chegado ao rio, pôs-se a pescar. Esta pesca foi muito demorada e, apesar de ter passado o dia todo nesta faina, não conseguiu obter um só peixe. Quando já estava para desanimar e levantar a nassa para voltar à árvore, notou que no fundo da nassa estava alguma coisa a agitar-se. Óptimo, disse ela. Cá está um peixe. Ora este peixe era um grande bagre. Quando estava a sacar o peixe da nassa, este falou e disse:

—Pega com jeito! Tirou-o para fora com cuidado, conforme a recomendação. Chegada à cubatazita, debaixo da árvore, ao querer colocar o peixe no chão, este repetiu:

—Trata-me com jeito! —Assim fez a mulher como da primeira vez. Ao dispor-se a cortá-lo para o meter na panela em vista da refeição, o peixe falou novamente:

—Corta-me com precaução! Quando chegou o momento de comer, ele tornou a recomendar:

—Come-me com cuidado! No mesmo instante o peixe transformou-se em homem que disse à mulher:

—Tu agora passas a ser minha esposa, vou casar contigo. Não o digas a ninguém! Uma vez casados vou-te levar para os meus aposentos que são muito espaçosos. Ali guardo os meus bens, muito numerosos: bois, cabritos, galinhas e outros. Não há falta de coisa alguma. Agora vou recomendar-te uma coisa: Quando eu te mandar fazer algum trabalho, não me vás repreender e dizer: “O peixe que tirei da água, revelou-se um grande mandão?! Se falares desta forma, toda a tua miséria cairá novamente sobre ti. Ficarás como dantes. A mulher consentiu no casamento com este peixe que apanhou dentro da água, o qual se transformou agora num homem. Depois da cerimónia do casamento, a mulher observou que a árvore debaixo da qual morava foi desaparecendo e no mesmo lugar surgiu então um conjunto de muitas cubatas, conforme o peixe tinha predito. A mulher, de pobre que era, passou a ser uma grande senhora que possuia muitos bens. E aquela gente que não gostava dela, começou a vir visitá-la a sua casa. Assim viveu a mulher durante muito tempo em companhia do peixe que pescara. Um dia o homem deu uma ordem à mulher. Esta, como não estava acostumada a receber ordens, disse com desprezo:

—Este diabo dá muitas ordens e não se lembra ser o peixe que eu apanhei na água! Tinha-se esquecido da recomendação feita pelo homem. Nesse momento toda a riqueza desapareceu, conforme tinha declarado o peixe. Pois o homem irou-se, por ter sido aviltado pela mulher e veio a dizer-lhe:

—Agora passas a viver assim! Eu bem te tinha prevenido que não resmungasses, quando eu te desse uma ordem. Tu agora procedeste assim, sabendo o que fazias.

—Eu neste momento, volto para o lugar donde me tiraste. Neste instante o homem transformou-se num peixe, como tinha sido anteriormente. Disse à mulher:

—Fica-te por aqui, com a tua miséria, eu vou-me embora! O peixe pôs-se a mexer e a cantar: Tudo quanto pertence a Tyongolola que retroceda! A penúria fica a apertar! De facto assim que o peixe começou a agitar-se. todos os bens: bois, ove-lhas, galinhas, casas, tudo se sumiu. A mulher ficou muito arrependida do que fez, quando viu que as misérias de outrora surgiam novamente. Por isso ela foi atrás do peixe para ver se se amerceava dela. Foi em vão. O peixe exclamou:

—Vai-te embora! Ele continuou a movimentar-se e levou os seus haveres para o fundo da água, donde tinha sido tirado. Como o peixe nunca mais apareceu, a mulher voltou para baixo da árvore onde vivera anteriormente. Passou esta mulher assim, muitos anos, a lembrar-se do peixe que lhe tinha trazido grande fortuna. Esta coisa acabou por lhe fazer mal ao coração. Por isso fez novamente uma nassa, para experimentar mais uma vez no pego a ver se encontrava o seu peixe. Passou um dia inteiro na água a tentar e a lamentar-se. Porém nada conseguiu, senão apanhar uma grande estafadela. Não foi capaz de caçar o peixe. Assim resolveu voltar para a árvore, estando sempre muito arrependida por ter desobedecido ao peixe. E ali viveu na sua penúria até encontrar a morte.

Narradora: Josefina Tembo, casada de 30 anos de idade, de origem Humbe. Escrito pelo marido, Carlos Mário, na Missão do Munhino, em Janeiro de 1968. Lingua: Nyaneka. Das duas narrações ora transcritas existem mais duas versões de que temos conhecimento; uma já publicada no III Vol. da “Etnografia? 69 . Foi-nos contada por uma mulher da etnia Cuvale. Nela porém, o personagem principal não é um peixe transformado, mas um osso, um ser desanimado portanto, exigindo por isso uma força mágica maior para se transformar num ser humano. Não se diz de que animal provém o osso achado pela mulher, mas com toda a certeza, ele deve ser de um boi, dada a estima extraordinária de que gozam estes seres entre os Cuvales. A outra variante conservou-se inédita, apesar de ser a mais bem articulada das quatro. Facto que não é para admirar porque a “contista? possui um talento extraordinário para reproduzir as narrativas constantes do reportório de sua mãe. Aliás algumas já foram publicadas. A rapariga que foi aluna de catequese em Vila Arriaga, onde foi baptizada. chama-se Beatriz Tyilombo e é filha de pais Gambos (Ngambwe). Indicamos agora as principais divergêncies com as outras versões. A mulher que pesca o bagre é sarnenta e as companheiras não querem que ela as acompanhe à pesca. Porém, as outras nada apanharam depois de um dia inteiro de trabalho fatigante e ela levou para casa um bagre de dimensões fora do vulgar. Ao virem para casa aquelas expulsaram a sarnenta do conjunto das habitações, não sem terem construído, muito à pressa, uma pequena choça para ela. Foi nesta, que o bagre se transformou em homem e contraiu matrimónio com a mulher. O homem porém, não dormiu durante a primeira noite, mas mandou vir um “quissânji? e se pôs a cantar, chamando pelos seus numerosos bens. Estes são os mesmos que nas outras versões, aparecem acrescentados de escravos e de peças de vestuário feminino para a mulher. Em seguida é notado que o marido mandou amanhar um grande campo “pelos rapazes?, não querendo que a mulher tocasse na enxada. Também é dado relevo, ao facto de os criados fabricarem manteiga. Este produto, como se sabe, quase não faz parte da culinária destas etnias mas constitui elemento precioso na cosmética feminina. Em todo o caso, na versão de Beatriz encontra-se bem vincada a dupla base da vida económica desta gente: a agricultura e a criação de gado. A leviandade e culpabilidade da mulher em revelar o segredo do casamento mágico e o castigo imediato —tema universal —também são postos em destaque de forma muito mais expressiva do que nas outras versões. O respectivo canto de execração e retrocessão de todas as riquezas, corresponde harmoniosamente à bênção e ao chamamento das mesmas na primeira fase da narração. E de notar que o nome do peixe-homem Tyongolola, o mesmo em três versões, parece fazer alusão a este último acto do personagem mágico. Com efeito, o termo significa “ajuntador?. O homem, desapontado, corta com a mulher, juntando toda a sua riqueza e abalando com ela. Por causa deste antropónimo e doutros motivos que seria longo demais expor aqui, temos a convicção de que o conto é de origem Gambos (Ngambwe).

31: Okalya-Makunde Na Kalya-Vanthu

Kalya-makunde waenda, waenda, wavasa p'ofika ñgana. Wati:

—Mandyitungila apa. Wapita. Tyino Kalya-vanthu eya apa pahava mukwavo, opo eya na e okuhava. Etyi avasa-po, ati:

—Mandyitungila apa. Tyina muhuka kutya Kalya-makunde eya, anthindi-po omunthinda, ati:

—Ndyinthinde-po. Kalya-vanthu tyino eya, ati:

—Ofika inthyole ngatyi! M'ongulo napopile vala okuti “mandyitungu apa? ... hono paheywa omunthinda? —Amoneka okuheya, heye, heye, heye, heye, heye, heye... omunthinda aupu. Tyino Kalya-makunde liya, ati:

—Hó! Vakwe! M'ongulo nahaheyele... m'ongulo nanthindile... hono omunthinda wapwa?!... Kalya-makunde ahimbika okupakamo ovimuti okutunga, tunge, tunge, tunge' tunge, tunge... Ahonyeka. Kalya-vanthu tyino eya, ati:

—M'ongulo, vakwe! naheyele vala omunthinda... Hono omomu muna ovimuti?!... Ofika inthyole ngatyi! Ahimbika okuvetela, ataleka, ati: —Muhuka ndyiyambela. Kalya-makunde tyino eya, ati:

—Ofika inthyole ngatyi! —Akaeta eholi, ayambeka. Kalya-vanthu, tyino eya, ati:

—Hó! Talei; M'ongulo natile “mandyiya oku-yambela!... Ofika inthyole ei, yandyambelela-po. Pahe tate! mandyitungu umwe okamutala. —Kalya-vanthu atungu omu-tala, tunge, tunge, tunge, tunge... omutala ó!... amane. Tyino atunda —ko, Kalya —makunde upinga-po, ati:

—Muhuka mandyiiluka. Naina ofika yanthungila-ko okamutala. Aende. Kalya-vanthu, tyino eya, ati:

——Mandyiiluka. Naya! Pahe ombila yaloka. Kalya-makunde watetekela-mo m'ondywo. Tyino eya ngetyi, weya n'okatupya kae, n'embumba lyae lyomakunde, n'okambiya, n'onthenda yae yomeva. Watula! Wanthiakana otupya. Otyo yakwakwata... otyo yakwakwata... otyo yakwakwata... Otyo epumphi. Ombila iloka. Tyino atehela... ou uivala... tyapi, tyapi, tyapi, tyapi, tyapi, tyapi... Kalya-vanthu uya, watyinda otyivimbi tyae potyipepe tyomunthu wankhya. Uya m'ondywo yae. Tyino Kalya-makunde atalela m'omamphana ngetyi... Kalya-vanthu weya n'otyivimbi tyae p'otyipepe! Ati:

—Ehe! Akati lumwe, m'embumba lyae lyomakunde... tyoya! N'okambiya kae p'otupya eketelula-po, akapump-hama na ko m'embumba lyae lyomakunde, ng'omo akapumphama. Kalya-vanthu etyi eya, ati:

—Ehe! Ofika inthyole ngatyi! Vakwe! Ofika yanthiakanena-mo otupya!... Wapola otyivimbi tyae otyo. Watentheka k'ombanda yomakunde oko, omu muna omukwavo. Ati:

—Me, iya... Tyino ati kalya-makunde, m'“ekonta? m'embumba kafwile-mo, ngwe p'ekolo lyae pena okambiya komakunde makakwakwata, wapya p'onthete... wati ñga okuminya k'omapepe. Ou Kalya-vanthu utema p'otupya. Wati ngetyi okuminya... Kalya-vanthu ati ñga okuleuka, ati:

—Wo! Hono ndyiti otyivimbi tyitutila, ine ndyiti-wi?!... Otyo atema, otyo atema... Omukwavo wom'okati wapya n'omuku wokambiya, ati vali ñga okutuvyuka. Kalya-vanthu ati:

—Mphu; Ovoho nevelile-lile n'ovonyoko; ove hono... ove motutila?! Kalya-makunde muna m'okati wapya umwe. Atumphuluka, ati umwe... tu... mphuluku! —Otyivimbi eya etyiyumbu omukwavo p'omateketela. Atyiti pahe na Kalya-makunde, atyiti na Kalya-vanthu, aveho valupusuka. Kalya —vanthu, tyino Kalyamakunde umukwai, ati:

—Otyivimbi tyatutila! Akahateka, akahateka, akahateka, akahateka... Kalya-vanthu kelle-ile umwe vali, ati:

—Otyivimbi tyange tyatutila, ankho otyo tyindandula. Ondywo ailikala. Tyiti lumwe: Kalya- -makuhde keile vali, embumba lyae lye-salamo; Kalya-vanthu keile vali, otyivimbi tyae tyesala-mo. Aveho, tyati lumwe: Kalya-makunde waya nkholo Kalya-vanthu; ou Kalya —vanthu yatyo asoko okuti otyivimbi tyange tyatutila. Ondywo yatyo ailikala, ei vatungile.

31: O Papa-Feijões-Frades E O Papa-gente

Papa-Feijões-Frades passeou e encontrou na mata um lugar jeitoso. Diz ele:

—Vou construir casa neste lugar. Afastou-se. Chegado o Papa-Gente aonde o outro escolheu, também ele veio a procurar lugar. Chegando ali, disse:

—Vou construir casa neste lugar. No outro dia pela manhã, Papa-Feijões-Frades veio, riscou no chão o sulco e disse:

—Deixa-me marcar! Quando volta Papa-Gente, diz:

—Como o sítio gosta de mim! Eu ontem apenas disse “vou construir aqui?... e hoje está marcado o sulco? —E ei-lo que escava, escava-que-escava, escava-que-escava, escava-que-escava... até que o sulco acabou. Vindo ali o Papa-Feijões-Frades, exclama: Oh! Ora esta! Ontem não escavei... eu ontem só risquei... e hoje todo o sulco está pronto?!... E o Papa-Feijões-Frades começou a espetar os paus da estacaria da casa, espeta um, espeta outro, mais estes, mais aqueles... Até que deu a volta. Papa-gente chegado ao locai, diz:

—Ontem, ora esta! Eu só escavei o sulco... hoje está lá cravada a estacaria!?... Como este mato gosta de mim! —E ei-lo que ata as estacas umas as outras e põe a armação do tecto, dizendo: Amanhã vou cobrir com capim. Vem o Papa-Feijões-Frades e diz:

—Como este sítio do mato gosta de mim! E vai buscar o capim e põe por cima. Chega o Papa-Gente e exclama: Oh! Ora vede! Eu ontem disse “virei cobrir com capim?!... Este sitio do mato gosta de mim. Ele mesmo me cobriu a casa. Ena! Agora vou mesmo construir uma estante de arrumação. Papa-Gente construiu a estante de arrumação, pau sobre pau, pau sobre pau... ei-la a estante!... acabou-a. Sai ele do local e sucede-lhe o Papa-Feijões-Frades que diz:

—Amanhã vou mudar. Afinal este sitio do mato construiu-me por si uma estante de arrumação. Vai-se este embora. Volta ai Papa-Gente e exclama: Vou mudar. Vamos a isto! Está agora a chover. O Papa-Feijões-Frades é o primeiro a entrar no aposento. Aparece ele, traz o seu lumezito, o seu “celeiro? de feijões-frades, a panelinha e sua cabaça de água. Descarregou tudo. Acendeu o fogo. Vai fervendo panela... vai fervendo... vai fervendo... E ele sentado. A chuva cai. Ouve qualquer coisa... alguém que se sente... chapinha-que-chapinha, chapinha-que-chapinha. E Papa-Gente quem vem, transportando ao seu ombro um cadáver de um qualquer que morreu. Vem para sua casa. Espreitando o Papa-Feijões-Frades pelas frinchas... ei-lo o Papa-Gente com o seu cadáver ao ombro! E diz ele:

—Safa! E vai-se mesmo para o seu celeiro de feijões-frades... escapa-te! Até a sua panelita, tirou-a do fogo e foi sentar-se com ela dentro do celeiro dos feijões-frades e aí ficou sentado. O Papa-Gente chega e diz:

—Ora esta! Como este sitio do mato gosta de mim; Olhai para isto! Este sitio do mato preparou-me fogo!... Tirou do ombro aquele seu cadáver. Pô-lo ali em cima dos feijões-frades, onde o outro se encontra escondido. E depois diz:

—Pois, “minha mãe? Ora o Papa-Feijões-Frades ao agitar-se, porque não está à vontade no celeiro, e ainda tem junto ao peito a panelita dos feijões-frades que está a ferver, começou a queimar-se... e fez assim a mexer para cima os ombros. Entretanto o Papa-Gente está a activar o fogo. O outro a mexer de certa maneira... Papa-Gente vira-se para trás e exclama:

—Oh! Vou desta vez dizer que o cadáver ressuscita, ou quê?! E atiça o fogo e torna a atiçar... O outro lá de dentro está a queimar-se com os vapores da panelinha, e fez assim um jeito a endireitar-se. Exclama o Papa-Gente:

—Some-te! Comi-os, os da família de teu pai e da tua mãe; e tu hoje... tu vais ressuscitar?! Papa-Feijões-Frades, lá dentro está queimado deveras. E endireitou-se com violência fazendo (com os ombros)... pumba... catrapuz! Vindo a atirar com o cadáver por sobre as espáduas do comparsa. Pois sucede então que quer o Papa-Feijões-Frades, quer o Papa-Gente, saem ambos de rompante. O Papa-Gente, ao ver o Papa-Feijões-Frades que o segue, pensa: —E o cadáver ressuscitado! E corre-que-corre, corre-que-corre... O Papa-Gente não apareceu ali mais pensando: —O “meu cadáver ressuscitou, era ele que me seguia?. E a casa ficou abandonada. De modo que: O Papa-Feijões-Frades não voltou e ficou o seu celeiro abandonado; o Papa-Gente não apareceu mais e o cadáver lá ficou. E que ambos, afinal: O Papa-Feijões-Frades fugiu do Papa-Gente; e o tal Papa-Gente pensou que o “meu? cadáver ressuscitou. E a casa em questão ficou abandonada, a que eles tinham construído.

Dados biográficos e outros como no N.° 2. Este conto não passa de uma farsa, dando-nos a entender que mesmo no dominio da magia é permitido dar largas à veia cómica. Na ordem de cultura material, ele apresenta as fases principais da construção de uma cubata. Hauenstein refere uma historieta semelhante, mas com muito menos episódios. “A Cabana Isolada?

32: Omulume Wotyimpulu N'ova-Kai Vevali

Opopo lumwe. Omulume utiwa Nai-lenge wanepa ovakai vevali. Pahe uhanda-po vala onthawa yatyo. Ou tembo yeumbo kemuhole vali. Ongo oe vena na e otupya. Oyou okukavaka onongombe mbavo k'ehimba oko m'“okonta? otyimphulu “pala? ovakai vae, okueta. Ovanthu vokumuhatekesa: taate, taate, taate. Omukai ówa Nailenge, omulume okuimba okuti: Nailenge ê. Nailenge ê! Handikane, handikane, omukai wange! Veta okalafa k'omeva! Handikane. handikane! Omukai wange! N'ononkhombo tyipite, handikane, omukai wange! N'onongombe tyihalavele! Handikane, omukai wange! Omukai ou etyi elipola omuhoti, wa Nailenge, tembo yeumbo, okuveta k'o-ndongi: tiapa. Omulume okupita-po liwa, ondongi okuyula. Vahekulu vonongombe, ovanthu ovo, apa vapitila okulandula onongombe petupu vali. Okukondoka. Okuya okuipaa ongombe oyo, upa-ko unene onthawa yatyo, ou tembo yeumbo o uhape n'ountheva vala. Muhuka, muhuka, muhuka, muhuka ... Mueli tupu ohaityo, okukapola ono-ngombe. Tya-tya-tya-tya-tya... haityo —okuhatekeswa, okuhatekeswa. —Nailenge ê! Nailenge ê! Handikane! Handikane, omukai wange! Veta okalafa k'omeva. Handikane. handikane omukai wange! N'ononkhombo tyipite. Handikane, omukai wange! N'onongombe tyihalavele, handikane omukai wange. Omukai ó, etyi hono anumana, tyino omulume ahatekeswa, oko k'onongombe mbae ombo. ati: Ame hono hikalyalya vali omala ó, uti un'ale etyi ampha? Omulume watyo, okuhimbika vali okuimba: Nailenge ê! Nailenge ê! Omukai watyo wati:

—Onwe mulyale ononthumba n'omalenga. tavelei-vo k'evelo! Tavelei-vo k'evelo, ku mwambo! Otyo lumwe aya, ahaleuka-ko. N'o-nkhenda... otyo vala aya. Nailenge ê! Nailenge ê! etc. etc. etc. Omukai ati: Onwe mulyale... Okuya umwe ovanthu ovo ina yakukuta, itupu omeva, m', “okonda? omukai hono kavetela-ko omuhoti. Muna onkhunye! Muna ombonde! Muna eonga! Omulume okunkhya lumwe. Omukai wa Nailenge, okupola onombiya mbae. Omukwavo okukaihana ombunga veye vatyinde ononyungu ombo mbuli m'ovimbundu n'om' ondywo yae omo m' “okonda? kahandwa vali. Sambwillkiti! M'olutongo omule. Omuove

32: O Homem Ladrao Com Duas Mulheres

E desses que se trata. Um homem que se chama Nailenge e era casado com duas mulheres. Ora ele inclina-se só para a concubina. A primeira mulher já não gosta dela. Afinal é entre si e ela que existe pacto de poder mágico. Lá vai ele pois à ladroeira dos bois, para o outro lado do rio, porque é ladrão, e quer trazê-los a suas mulheres. Surge gente que o persegue: cerca daqui, cerca dali. A dita mulher, de Nailenge, ouve o homem que clama dizendo: Sou o Nailenge! Sou o Nailenge! Estou perdido! Estou perdido! Ó minha esposa! Bate na água com a pele com que te cobres por de trás. Estou perdido! Estou perdido, minha esposa. Que passem os cabritos, estou perdido, minha esposa! Que os bois se despachem! Estou perdido, ó minha esposa! A mulher, sacando de si a pele trazeira, a tal do Nailenge, a dona de casa, bate com ela no rio: Zás! O homem atravessa ràpidamente e o rio enche-se. Os donos do gado, os perseguidores, já não encontram passagem para a perseguição do gado. Voltou a casa. Ao matar um dos bois, dá o melhor à concubina; à dona de casa só umas dobradazitas e uns miúdos. Assim vai acontecendo por vezes seguidas... Um certo dia, vai como de costume roubar bois. Alaridos e mais alaridos... e a habitual corrida em perseguição. O homem grita por socorro: Sou o Nailenge! Sou o Nailenge! Estou perdido! Estou perdido, minha mulher! Bate na água com a tua pele de trás. Estou perdido! Estou perdido, minha mulher! Que passem os cabritos. Estou perdido, minha mulher. Que os bois se despachem, estou perdido, minha mulher! Mas a mulher, que desta vez está zangada, enquanto o homem é perseguido, lá no meio dos “seus? bois exclama:

—Não, desta vez não comerei mais essas miudezas. Ele afinal dá-me alguma coisa? E o homem recomeça o seu chamamento: Sou o Nailenge! Sou o Nailenge! Por sua vez a mulher replica: —Vós que comeis os bons pedaços e gorduras, acudi à passagem! Acudi à passagem, valei à encrenca! E segue seu caminho, sem olhar para trás. Nada de apiedar-se... anda para diante. (E o homem canta novamente, mas desta vez a chorar...) Sou o Nailenge! Sou o Nailenge! etc. etc. etc. etc. etc. E a mulher: Vós, que comeis... etc. Chegados os persseguldores ao rio, este encontra-se seco, sem água, porque desta feita a mulher não bateu com a pele. Mocada daqui! Outra dacolá! Azagaia que se crava! E o homem morreu. A mulher de Nailenge, sai de casa com as suas panelas. E a outra vai chamar os parentes para carregarem as tiras de carne seca que está nos cestões e no aposento dela, pois não tem mais marido. Enfio-te o açaimo! Como em bicho voraz. É a tua vez agora.

Dados biográficos e outros como no N.° 7. Seria necessárto uma longa exposição para dar uma ideia, muito imperfeita que seja, do que se entende por pacto de poder mágico. Tentamos explanar esta matéria algo misteriosa no capítulo das crenças e práticas religiosas dos três volumes da “Etnografia?, dando maior desenvolvimento ao tema no segundo tomo. Aqui, basta repetir que tais poderes implicam sempre uma aliança com um espírito de um antepassado, de parentesco mais ou menos afastado. Também pode ser o espírito de um descendente, de parentesco muito próximo —e parece ser este o caso mais frequente —cuja morte foi provocada por quem ambicionou adquirir tal potência. E claro, falando assim, exprimimo-nos segundo a crença dos Bantu, não querendo emitir uma opinião sobre a realidade dos factos. E bem caracteristica a expressão: Vena nae otupya que à letra significa: Tem com ela fogo, vive com ela em comunhão de fogo. Fogo, é o termo que melhor lhes parece substanciar este poder extranatural. Tal locução emprega-se sobretudo entre Nyanekas e Cuvales. Convém ainda observar que geralmente é só com a primeira mulher que um homem se liga por um pacto mágico.

33: Omukai Omulemi

Opopo umwe. Omukai omulemi, weya okupila k'ovoina ivi. Omukai ou ehike m'ondaatembo yae, wavasa-mo ovonawa yae. Ava kumbi limwe avati:

—Tuende, tukanyange omahipwa! Etyi vati k'omuti watyo, ovonawa yae avalondo okunyanga omahipwa ana. omaua atyo. Ongo mukwavo avemutila:

—Ove tyetyi umulemi uhalonde, hamwe kumbi ukutula, ueta omona uhena ovikalo! Omukai ou, etyi kapondola ngotyo okulonda, atila vonawa yae:

—Ndyumbilei! Ava avati:

—Ankho uhanda, n'ove londa! Ovonawa yae otyo-ñgo vakoya oma-kuyu avo vahanda. Omukai apaleka okuti:

—Ndyumbilei! Avati-ñgo: Twati ale nokuti, n'ove ankho uhanda, londa! Omukai okutala vakwavo valya otyiwa, nae alonda akakoye omakuyu ae ahanda. Vamane okunyanga, aveho avahe-mbuluka-ko, avai aveho k'eumbo. Omukai ou ehimbwe lyae liye-po, apululukwa omona, tyili wehena ovikalo. Okuti opo tyihemulingise ohonyi, okana ekekeyumba p'otyinkhondo. Etyi pakala ononthiki, okana akatundu-mo m'enkhondo, okuenda k'ombala, kakapewe ovikalo. M'ondyila okana kaenda n'okukulunguta, otyo, takati: Kulunguta, etako ndyivela! Kulunguta, omaulu ndyiteka. Okana otyo kaenda ngotyo, lo keya okuhika m'ombala yohamba. Ohamba imone okana oko, aitumu omululikwa, aye akawane okana kana, kehena vikalo; kaetesa okankhenda mokati k'ombala. Etyi omululikwa akawana okana, ou okuketala, watoya. Ekeyumbe otyivali pohi. Ohamba n'okankhenda okanene aiti:

—Wahaipae! Linga okankhenda, mundetele vala kuno! Etyi ekeeta, ohamba ekepake ovikalo. Ati:

—Pahe enda ku nyoko! Okana akelivande m'ondyila yeumbo. Kehike akati ku ina: —Mphe omeva, ndyinwe-po! Ina amoneka okupola otyitalameno, aavela omona. Ou etyi apaka k'omulungu, okutehela tyanika, ati ku ina:

—Wanthyitile ndyihena ovikalo, okuti ndyikukundisa, wandyumbile m'enkhondo, ngo omo wanthya. Pahe namona ou wampha ovikalo, neya ku ove, umpha ndyinwe omahu?! Ina okutala tyili omona wae mwene, atyimupe okulila. Apolo ongombe yokukoha omona, yotyilivetelo tyavo kumwe. Avaende-ko nkhele ehimbwe.

33: Uma Mnlher Gravida

Uma vez, uma mulher grávida foi de visita à casa da sogra. Depois de chegada, encontrou lá a sogra e também as cunhadas. Um dia, estas disseram:

—Vamos apanhar figos bravos! Chegadas ao pé da árvore, as cunhadas subiram até àponta para colher os figos melhores. Ao fazerem assim, disseram à visitante:

—Tu como estás grávida, é melhor não subires, senão, quando deres à luz. nasce uma criança sem pernas. Como esta mulher não subiu, ela disse às cunhadas:

—Deitai-me figos para baixo! Estas rseponderam:

—Se queres figos sobe também! As cunhadas continuavam a apanhar os figos de que mais gostavam. A outra mulher repetiu o pedido:

 

—Deitai-me também figos! As outras responderam: Já te dissemos, se quiseres figos, sobe igualmente. Como esta mulher estava a ver que as outras comlam frutos saborosos, ela também subiu, para escolher os figos que preferia. Depois de acabar, todas desceram para baixo e foram para casa. Chegou então o tempo para a dita mulher dar à luz um filho, que de facto não tinha pernas. Não querendo passar por vergonhas, resolveu lançar a criança numa moita de espinhos. Passados muitos dias, a criança saiu das espinheiras, para ir à residência do régulo a fim de receber pernas. Movia-se rolando e cantava: Rolando assim, dói-me o trazeiro! Girando desta maneira, partem-se-me as pernas. A criança foi avançando desta forma até chegar à residência do soba. Este ao ver a criança, mandou chamar um oficial para ir ao encontro dessa criança sem pernas, que estava a inspirar dó aos habitantes da casa do Soba. O oficial ao encontrar a criança, ao vê-la, deitou-a duas vezes ao chão. O régulo, encheu-se de misericór-dia e disse:

—Não a mates! Tem piedade e traz-ma cá. Depois de a ter trazido, o Soba colocou-lhe pernas e disse:

—Vai agora para a tua mão O rapaz pôs-se a caminhar até chegar a casa. Ao chegar a casa, ele disse à mãe:

—Dá-me água para beber! A mãe pegou num penico e deu-o ao filho. Este ao querer levar à boca, sentiu que aquilo cheirava mal. Disse à mãe:

—Tu geraste-me sem pernas e julgaste que era uma vergonha para ti e por isso lançaste-me nos espinheiros, onde me abandonaste. Agora encontrei quem me desse pernas, cheguei ao pé de ti e tu me deste urina?! A mãe quando reparou que era o próprio filho, desatou a chorar. Matou um boi para lavar (purificar) o filho e também para ambos ficarem màgicamente associados. Assim viveram ainda muitos anos.

Dados biográficos e outros como no N.° 4.

34: Omukai Womena Omulungu Ukoka Pohi

Opopo umwe. Ovahikwena vaya m'okunyanga ovinyango m'ohika. Omo vavasiwa n'ombila. Etyi vehena apa vayama, avanyingila m'etoto lyomukwa vavasa. Nyingile, ou umwe atila vakwavo:

—M'omuti omo tukahi kamuninwa ntholo. Ankho pu onwe umwe utyilinga, tupeseka, tyetyi omuti mauliiki, atuhetyivili okulupuka-mo otyivali. P'ovahikwena apa umwe utiwa Nehova, etyi ayembwa unene, anina-mo m'omuti omu. Iya kapakalele ale, omukwa auliiki. Mueli apapiti ongendi. Etyi omutenya watokota unene, ongendi oyo ai mei lyomuti ou okukapululukwa. N'eponwa lina ongendi ei ailiyake m'ehina lyomukwa. Etyi pakala vala katutu, m'omukwa mwejvala okuti:

—Nga waya k'eumbo ukati: Navasa omukwa uti Nehova n'ava aveho ankho ven'ae, valiwa n'omukwa. Ongendi etyi yapopia etyi yamona m'ondyila, ovohe yovana avakongoloka. Okuya p'omukwa ou, vatehele etyi tyitunda-mo, navetyivile okupola-rno ovana ava. Vahetekela atyiho, ongo naina veli-pwilisa vala. Etyi tyihena vali ounongo, vaihena ekuti, aveliti, lipole-mo ovana ava. Kuti ati: —Ame otyo hityivili! Avaihena otyivali Ekwele. Kwele ati:

—Ame hame muita, tyetyi ame ndyii vala okulya ovinyango vyohika n'okulava onondyale mbetu. Ankho muhanda, ihanei pahe tyimbangula, mutala vala etyi malingi. Etyi MBangula eya, aiti:

- MBangula, Mbangula p'onombela, p'okulya kamuti Mbangula! Pahe Ombangula aimoneka okutontha n'omulungu omukwa, ló ou wapatuka. Ovana avamoneka okupatusuka-mo, aveya kondye. Valupuke-mo m'omukwa, omuhikwena wokwaanyene etyi tyapopile vakwavo, walupuka-mo n'omulungu wahongoloka, ukoka ló pohi. Etyi ovoina vemunona, avemutela m'ohika m'ekandu lyelungu eli ena. Omona ou etyi etupu-vo ou ñgeno umutambula m'epata lyae, ai vala n'onohika okuliendesa, okuti hamwe uvasa omunankhenda umupole omulungu ou. Omona m'okuenda n'omapata aeho, ankho uimba okuti: Olye ulya Nailungu yakolela? Olye ulya Nailungu yakolela? Aveho vetyiiva vaya nkholo n'okutia: Onthwe katuli Nailungu yakolela! Omona otyo apanga na tyo. Mueli etyi ehika k'epata limwe, wahetekela okuimba ngetyi alinga ale apeho: Olye ulya Nailungu yakolela? M'epata omu mwavasiwa omulume ekihi atavela okuti: (okuimba): Ame ndyilya Nailungu yakolela! Omuhikwena ou afwene-ko. Etyi eya, omulume ou emupulu oñgeli tyaenda. Ou amoneka okupopia atyiho. Omulume ou etyi aeta onkhenda, ati:

 —Ame pahe mandyikupolo omulungu ou. Andipo molingi omukai wange. Ankho wanya, elungu eli malikukondokela otyivali. Omukai ou okuti opo elungu eli limutunde. atavela okunepwa n'ekihi eli. Etyi pakala ehimbwe, omukai alingi otyiivaluko tyombunga, asoko okukapila. Okuti ekihi lyalunga na e, ongo kapondola okuenda tyetyi wapewa onkhano yelungu eli limukondokele. Ai k'omukwavo okukapula etyi malingi, opo etyivile okutunda p'ekihi eli. Omukai ou emupopile okuti:

—Opo okuti omulungu on uhekuko-  moti ngetyi: Tyina wamona okuti wove watunda-mo, ove upola omulungu watyo, outeleka nawa, k'ongulohi omuavela okulya ondalelo. Omukai ou otyo alinga ngotyo. K'ongu'ohi etyi omulume eya, omukai emuavela okulya. Omulume akwate-ko okulya. Okutala etyi tyapepa, ati:

—Omwai hono wapepa nawa. Etyi amana okulya, ai m'oula alangala-po. Etyi kwatya, omulume ai okukatala ovipako vyeumbo omu vyalele. Etyi kamoneka. omukai om'okuhi-nangela, okupola atyiho tyae, ahene k'ombunga. Omulume eya, omukai umonekela kokule ale, ati:

—Mukai, kondoka, nkhele uhaye! Endyu upole elungu lyove! n'okuhateka ati:

—Hiya vali. Elungu halyo walile mongulo m'omwai! Omulume walwile-ko, ongo ulipwilisa vala. Omulume ou akakala umwe n'elungu eli. Ou omukai ai k'ovavo. Etyi ehika-ko. avemulingi otyipito otyinene.

34: A Mulher Dos Beicos Compridos A Arrastar Pelo Chao

E desta mesma que se trata. Umas raparigas foram colher frutos na floresta. Sobreveio chuva. Como não tinham onde se abrigar, entraram na cavidade de um embondeiro que ali estava. Tendo entrado, uma delas disse para as outras: —Dentro desta árvore, não se pode soltar ventosidades. Se uma assim fizer. estamos perdidas, porque a árvore fecha-se sobre si mesma e não podemos sair mais para fora. Uma destas raparigas, de nome Nehova, como estava muito apertada, largou um estrépito. Logo a seguir o embondeiro fechou-se. Nesta altura, passou por ali um viajante. Como havia muito calor, o vian-dante veio parar debaixo da árvore a repousar um pouco. Estando muito cansado ele encostou-se ao tronco do embondeiro. Passados poucos momentos ouvi-ram-se de dentro do embondeiro estas palavras:

—Quando chegares a casa, vai lá dizer: Fiquei ao pé de um embondeirc que falou assim: Nehova e todas as suas companheiras foram engolidas por um embondeiro. O caminhante foi relatar o que lhe acontecera na viagem, os pais das raparigas juntaram-se para irem todos ao embondeiro a fim de escutar a voz que de dentro se fazia ouvir e ver se era possivel libertar as filhas. Tentáram tudo para o conseguir, mas todos os esforços foram baldados. Como não viram mais que fazer, chamaram uma rola e disseram-lhe: Tira as nossas filhas da árvore! A rola respondeu:

—Eu não posso! Foram também chamar a ave zombadora. Esta disse:

—Não peçais a mim, porque eu só sei comer frutos silvestres e espiar os gaviões, os nossos inimigos. Se quiserdes, ide chamar o Pica-pau, para ver o que ele vai fazer. Foram chamar o Pica-pau. Tendo chegado o Pica-pau, disse: Pica-pau, Pica-pau! Mas só nas desgraças. Para comer não chamais, Pica-pau!

Então o Pica-pau, pôs-se a partir aos bocados, com o bico, o tronco do embondeiro até ele se abrir novamente. As raparigas apareceram; sairam para fora pela abertura. Saidas da árvore, a rapariga que não tinha feito caso da recomendação das outras, surgiu com os lábios deformados a arrastar pelo chão. A mãe e a família ao vê-la neste estado, afugentaram-na para o mato por causa do beiço que trazia. A rapariga, pois que não tinha quem a queria recebei em casa, meteu-se pelo mato fora a ver se talvez encontrava quem lhe cortasse o tal beiço.  Ao passar perto das habitações, ela punha-se a cantar: Quem pode curar a do mau beiço? Quem pode curar a do mau beiço? Todos os que ouviram a cantilena fugiram dizendo: Nós não sabemos curar a do beiço deformado! A rapariga foi ficando com a sua excrescência. Entretanto ao chegar um dia, ao pé de uma habitação. pôs-se a cantar como costumava fazê-lo: Quem pode curar a do beiço? Naquela casa habitava um papão que responded: Eu éque posso curar a do mau beiço! A rapariga aproximou-se. Depois chegou ao pé dele; este perguntou-lhe como tinha acontecido aquilo. A moça contou tudo conforme se passara. O homem moveu-se de misericórdia e disse:

—Eu vou agora cortar-te este beiço. Mas tu, por tua parte, vais ser minha mulher. Porém se fugires. este enorme beiço há-de aparecer novamente. A rapariga para se ver livre da beiçana consentiu no casamento com o monstro. Passado algum tempo, a mulher teve saudades das pessoas de familia e pensou em ir visitá-las. No entanto, o monstro na sua esperteza, estava convicto de que a mulher não podia ausentar-se por causa da praga a respeito do grande beiço que ia nascer novamente. Por isso a mulher foi primeiro consultar sobre como havia de proceder para se separar do monstro. Uma mulher disse-lhe o seguinte Para que o beiço não apareça mais fazes assim: Quando vires que o teu homem se ausentou, tu cortas o beiço para o cozinhar bem, e de noite lho serves para conduto do jantar. Assim a mulher procedeu. A noite quando o homem chegou, ela serviu-lhe a refeição. E ele pôs-se a comer. Ao reparar que a comida era saborosa disse:

—O conduto hoje está gostosissimo. Depois da refeição ele foi deitar-se. De manhã cedo, o homem saiu para ir ver o gado no curral onde ficam fechados durante a noite. Como ele se demorou muito, a mulher resolveu carregar com todos os seus pertences e fugir para casa dos seus parentes. Quando o homem regressou. a mulher já ia muito longe. E o homem chama por ela:

 —Mulher não te vás embora, volta primeiro para levares o teu beiço! A mulher continuando a correr responde:

—Não regresso. Qtianto ao beiço, tu comeste-lo ontem ao jantar. O homem foi insistindo, mas em vão. Ficou com ele o beiço e a mulher chegou a casa dos parentes onde lhe fizeram uma grande festa.

Dados biográficos e outros como no Nº 20. O tema de recorrer a aves para valorem aos homens nos apertos da vida, seja como mensageiros, seja intervindo mais directamente, é relativamente frequente. Num conto Cuanhama, já publicado, também é o Pica-pau quem liberta uma rapariga —mais uma Nehova desobediente —que a terra tinha tragado. Antes de “deitar bico à obra?, a ave apostrofa os pedintes com a mesma chalaça: —Quando estais a comer não pronunciais o nome de Pica-pau, nos trabalhos é que vos lembrais de chamar pelo Pica-pau! Na mesma narrativa se alude também a chagas repugnantes de que Nehova ficou coberta depois de sair da terra. Para se ver livre delas, ela dirige-se igualmente a um monstro. Este porém, recusa-se a curá-la.

35: Omulume Wahombola Ombanda

Omulume etyi ahombola ombanda, una omona womumati n'omutembo watyo. Omumbanda watyo kena tya. Tyapu omulume tai m'ofika okukayeva ononkhanga. Taeta k'eumbo. Tembo yeumbo una imwe, ou omumbanda una imwe. Ou omumbanda okupewa ken'okuteleka. Tembo yeumbo tateleka. Tyapu omulume okuikwata, teiteleka, ye teltuvikila m'okahumbi. Tyapu etyi omumbai kwatya, omulume tal vali m'ofika takayeva vali. Ou waanyene okuteleka onkhanga yomulume, omumbanda watyo, ha okuya n'okuilyamo? Etyi eilya-mo, omulume kuna ha teya! Etyi eya ha kukatala m'okambiya kae aka atelekele! Hati:

—Ungwe, olye walya-mo onkhanga yange? Omukai hati:

—Nopo nkhwali omona ou womukai wove! Nopo nkhwali ae weilya-mo. Omulume ha okukwata omona, takule. takule. Otyo ukayeva ngotyo. Hono mwalolu hakuti: Otyipuka etyi luse, luse aniveta omona wange, hono ani k'omukulukandi umwe, niketyipulukane nawa vali. Okuya k'omukulukandi ou, hati:

—Ungwe otyityi tyekueta? Omulume hati:

—Etyi tyangeta kuno, tyetyi omumbai naveta omona wange, omumbai naveta omona wange. Ame anitele ononkhanga. Tyapu anipe vange. Omumbanda watyo kahande okuteleka, omutembo watyo una uteleka. Omumbanda watyo teindili-mo. Ame aniuya okukwata omona okumutakula. Omukulukandi hati:

 —Utyindi ale? Tambula onkhondyi ei, okalumbile-ko olufipa. Tyapu amui k'omulonga. K'omulonga omunene oko, totetekela okupaka kombanda yomeva omona wove. Nga wemupaka-ko ngotyo e eilya, tai ale n'omeva; ngotyo keilile, kena okuya n'omeva. Hati:

—É! Hakuhuma-ko! Ha okuya k'eumbo! Etyi eya hati:

—Vakwe! Hono tuendeni k'omulonga! Ha kuya k'omulonga. Omona ha e watetekela okulonda-ko k'onkhondyi oko! Tandimbi tati: Ame nalya onkhanga ya tate! Kalunga watunga ovingelengele! Ove lufipa timbuka! Tyalala, niende n'omeva! Otyo tai, ye tandimbi vali... Tyapu omona wayauka. O'ufipa olo alukondoka vali komima, lweya okuwana ina yatyo, ou watyita omona ou. Ina yatyo tyapu oko alonda, otyo tandimbi: Ame nalya onkhanga yomulume wange! Kalunga watunga ovingelengele! Ove lufipa timbuka! Tyalala niende n'omeva. Otyo tai, ye tandimbi... Tyapu wayauka. Olufipa alukondoka vali. Okuya okuwana oyou walya onkhanga yatyo, takapaulifa omona luse, luse! Hono mwalolu hakulonda k'onkhondyi yatyo oko! Hatyo taende tandimbi: Ame nalya onkhanga yomulume wange!... ... ... ... ... ... ... ... Otyo tai. Omeva ati m'omipindi (otyo tandimbi). Etyi tati-ila pokati, okuti komeso kahanga-ko, komima kahanga-ko, wanyingila-ila onthwitwi. Tyapu wankhya. Omulume hati:

—Tala! Salavandi! Tyetyi omumbai naveta omona wange! Kukaete ohasa ku ame. Otyo netyiningile no. Tyapu lwapwa.

35: Um Homem Com Duas Mulheres

Um homem depois de casar com duas mulheres, tem um filho da primeira. Da segunda não teve. O homem vai para a floresta caçar capotas  Traz para casa. A primeira mulher recebe uma, a segunda mulher também. A segunda ao receber, não a cozinha. A primeira cozinha a dela. Por isso o homem pega nela, cozinha-a e guarda-a numa panelinha. No dia seguinte ao amanhecer o homem vai novamente à floresta para caçar. A segunda mulher, que tinha recusado cozinhar a galinha, vem agora para a tirar da panela e a comer. Quando tinha acabado de comer surge o homem. Olha para dentro da panela da galinha cozida. E diz:

—Quem é que tirou daqui a minha capota para a comer? A mulher responde: —Não terá sido o filho da tua mulher? Com certeza foi ele quem a comeu. O homem pega no filho e castiga-o duramente. Assim o homem ia caçando. Mas um dia ele diz: Esta coisa de bater constantemente ao meu filho não está bem. Hoje vou consultar uma velha para ficar elucidado. Ao chegar ao pé da velha, pergunta-lhe esta:

—Amigo! Que é que te traz por cá? O homem responde:

—O que me traz cá é o seguinte: Eu todos os dias castigo o meu filho, castigo o meu filho. Costumo apanhar galinhas na armadilha. Depois dou às minhas mulheres. A segunda mulher não quer cozinhá-la. A primeira mulher é que a cozinha. Mas a segunda mulher come-a e eu venho, pego no filho para lhe bater. A velhinha diz:

—Sabes o que vais fazer? Toma este arco e põe-lhe uma corda, depois ides ao rio grande (Cunene). Chegados ao rio grande, começas por colocar em cima do arco, o teu filho. Se for ele a ter comido a galinha, morrerá afogado Se não a tiver comido, não morre. Ele diz:

—Está bem! Sai dali e vem para casa. Depois de ter chegado diz:

 —Amigos, hoje vamos todos ao rio! E foram. Junto ao rio, o filho é quem monta primeiro naquele arco, ele canta o seguinte: Fui eu quem comeu a galinha do pai! Deus é quem fez a massa das águas! O corda rebenta! E zás! Que a água me leve! Desliza então e é levado até àoutra margem. A corda volta atrás, vem para buscar a mãe; aquela que gerou o rapaz. Ela coloca-se em cima do arco e canta: Fui eu quem comeu a galinha do meu marido! Deus fez grandes águas! Tu corda, rompe, Zás! Que a água me leve! Assim vai indo e cantando... E atravessou o rio. A corda voltou atrás, para vir buscar aquela que tinha comido a galinha e sido a causa dos maus tratos. dados à criança. E então ela também se coloca em cima da corda e ao ser levada, canta: Fui eu quem comeu a galinha do meu homem! ... ... ... ... ... Assim foi. A água chega-lhe agora aos joelhos. —Ela canta sempre. Mas ao ver-se no meio do rio, não sabe mais como fazer. Para a frente não pode ir, para trás também não. Assim, mergulha na água e morre. O homem diz:

—Olha! Bern feito! Porque constantemente eu castigava o meu filho. Esta mulher foi a minha desgraça. Pois eu procedia por ignorância. Acabou.

Dados biográficos e outros como no Nº 20. E característico nesta narrativa o recurso, para prova de culpabilidade, a uma espécie de ordálio, ordálio todo ele mágico, como se vê. A propósito deste acidente, convém lembrar, que em todas as etnias do Sudoeste de Angola não se emprega um meio mais realístico, a chamada prova de veneno, mencionada pelos etnólogos como existente em numerosos povos do bloco étnico Bantu. Como é sabido, na sua aplicação, administra-se ao réu uma dose de veneno. extraido de uma planta tóxica. Se vomitar a droga, há prova evidente da inocência do incriminado.

36: Omulume Wanepa Ombanda

Opopo umwe. Omulume wanepa ombanda. Omulume ou ankho wakula otyimbundu tyomalondo. Omalondo a etyi eya m'okupya, onthawa yatyo eya okuepola-mo m'otyimbundu, okukalila m'ohika. Ovipeta vyatyo otyo evikondola, okuviyumba otylvali m'otyimbundu. Mweli omulume wakatala-mo m'otyimbundu, okuti hamwe uvasa-mo limwe lyaunduvala. Ou ukeliti-ko, otyimbundu tyiti: Etelela! Omalondo apwa-mo! Omulume eya okupula ovakai:

—Omalondo navimbikile m'otyimbundu aya-pi? Ovakai. tyiti ou uti, ame hame nalya, ou uti ame hame nalya. Omunthawa watyo m'okwavela ouoma okuti weya okuvetwa, alundila omutembo watyo okuti oe walya omalondo m'otyimbundu. Omulume n'onyengo ina akwata-ko okukapula ló aipâ. Etyi ankhya, emulingila elangalo popepi n'ovitunge vyae. P'okuti omulume opo atale nawa ankho tyili una wokwankhya, oe ankho alya omalondo, aholeka vali amwe, pamwe vali. Onthawa etyi eya m'okunoñgonokapo, ai otyivali okukevaka. Otyo ekelila k'elargalo lyomukwavo. Tyina eya p'elangalo, uya n'okatemo, emuheyulula-po. Apolo ekolutwe wae elipake k'omutwe wae. Ahimbika pahe n'okutyatyula omaiondo atyo; alya n'okututulila k'elangalo. Otyo apahula-po omuye nokuti: Vitititi vyetu, Namuntholingo! Vinwanwa n'omeva etu, Namuntholingo! Otyo ati vali:

—Mukwetu, pindukapo, tulye omalondo! Tyina pahe amana okulya, elihukulula otyipeta tyomutwe wamukwavo, etyipake k'omutwe wae, ai k'eumbo. Apeho, apeho otyo alinga. Mweli otyipeta otyo apakapaka k'o mutwe wae atyimuanyena. Etyi ehika k'eumbo, p'okuti opo omulume ehemumone n'atyo k'omutwe, wapola otyinkhwani tyae, ngotyo ahika k'omutwe. Iya otyipeta otyo wakala natyo ononthiki. Tyina otyo tyikula. Etyi pahe katyitavela vali okuholeka. Tyina tyeya okumukama. Etyi tyemuihamena, aulula. Omulume okuya, omukai una ekola lyenkhipa lyomutwe womunthu. Omulume n'okwapalala unene, apulu omukai:

—Iya otyipuka etyi wetyienda ñgeli? Ine ove ankho ulya omalondo m'otyimbundu, pahe otendeleya mukwenyi? M'okuenda k'onkhanga n'ongoi, omulume okutala-ko, otyipeta tyina pahe tyikula n'otyipala atyiho, lo tyeya okumuhitika k'omulungu, atyimupe ononkhya. Omulume anoñgonoka nawa okuti, naina omukai aipâ, ankho utupu tyituli natyimwe. Walaviswa vala n'omukai una ongangala. Ai m'okulivela, akala omanima omanyingi n'okulila omukai wae.

36: Um Homem Com Duas Mulheres

E destes mesmos que se trata. Um homem casara com duas mulheres. Este homem tinha enchido um cesto-celeiro de “maboques? meio maduros. Depois de amadurecidos, a segunda mulher veio tirá-los do cesto para os comer no mato. As cascas meteu-as novamente no cesto. Um dia, o homem foi ver se por acaso já havia no cesto um fruto amadurecido. Ao olhar para dentro do cesto, este parecia dizer-lhe: Não há mais! Traze outros. O homem veio perguntar as mulheres:

—Os maboques que guardei no cesto foram levados para onde? Uma respondeu: —

Não fui eti quem os comeu, a outra também afirmou: Não fui eu quem os comeu. A segunda, com medo de ser castigada, caluniou a primeira, dizendo:

- Foi ela quem comeu os “maboques? que estavam no cesto. O homem, cheio de raiva, deitou-se àmulher e acabou por matá-la. Depois de morta, arranjou-lhe uma campa perto das cubatas dela. Passado algum tempo, o homem queria certificar-se melhor, se de facto fora a falecida quem tinha comido os “maboques?. Para tal guardou novamente alguns frutos. A segunda mulher, depois de o ter observado, foi novamente furtá-los, para ir comê-los sobre a campa da outra. Chegada ao túmulo, ela pegou numa enxada para desenterrar parte do cadá ver e arrancar o osso frontal que colocou sobre a sua cabeça. Em seguida começou a partir as cascas dos “maboques? e foi comendo. Ao mesmo tempo deu-lhe para dançar sobre a campa saudando a falecida com estas palavras: (canta) Os nossos restos Namuntholingo! Esses que bebíamos com a nossa água, Namuntholingo! Disse ainda: Companheira, levantate, vamos comer os “maboques?! Depois de lhes fazer boca, ela tira o pedaço do crâneo da outra, que trazia enfiado na própria cabeça. Feito isto vai para casa. Dias seguldos assim procedeu. Uma vez, porém, ela não conseguiu tirar o fragmento que costumava colocar na sua cabeça. Quando chegou a casa, para evitar que o homem visse o pedaço de crâneo, serviu-se do pano trazeiro e cobriu com ele a cabeça. Aquela caveira, assim a trouxe durante muitos dias. Mas o osso la crescendo e já não foi possível escondê-lo. Com o tempo acabou quase por sufocá-la. Como lhe doía muito, ela desatou a gemer com força. Quando o homem chegou, reparou que a mulher tinha na cabeça um pedaço dum crâneo humano. Ficou muito admirado e perguntou à mulher:

—Como arranjaste isto? Ou foste tu quem comeu os “maboques? que estavam no cesto e caluniaste a outra? Depois de ambos terem altercado durante muito tempo, o homem reparou que aquele caco Já estava muito grande cobrindo-lhe toda a cara, até à boca, causando-lhe a morte. O homem veio então a perceber que finalmente, a mulher que matara, nâo tinha culpa nenhuma. Foi enganado por aquela malandra. Ficou muito arrependido e passou anos a chorar a sua primeira mulher.

Dados biográficos e outros como no Nº 30. Observação: Okuenda k'onkhanga n'ongoi é uma locução proverbial. A proposição completa seria: A galinha presa no laço, quanto mais força faz para se libertar, mais fortemente aperta o laço. —Sentido: Teimar sem resultado.

37: Omulume Omukongo N'omona Wae

Omulume n'omona vahanga omuti. Omuti una otyiyala. Omulume hati:

—Anikalonda-ko, nikatale-ko! Okuya —ko, wahanga —ko omayaki onkhombe. Okuhuma-ko katyitavela vali. Onkhombe yetyitia, haiti: (m'okuimba): Ove-lye wapulungundya, Ove-lye wapulungundya, K'omai onkhongolo yange? Pulu! Ove-lye wapulungundya, Ove-lye wapulungundya. K'omai onkhongolo yange? Ou omulume watyo hati: (m'okuimba): Ame nipulungundya k'omai onkhongolo yove! Ame nipulungundya k'omai onkhongolo yove! Hati:

—Mona wange, onkhombe oyo ill popepi. Topoka uende k'eumbo, ukaete ohala yonomi n'omuti wondyendye! Omona okutopoka, tandimbi: Tate wanthuma ohala yonomi. Tate wanthuma ohala yonomi, N'omuti wondyendye. (bis) Onkhombe ili popepi, haiti: Ove-lye wapulungundya! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Ou omulume hati: Ame nipulungundya k'omai ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Etyi yeya, yemuhanga, okumuupa omaiso. Wakunkhunukila pofi, wawa. Omona tatopoka-ila, hati: Tate wanthuma ohala ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Wefika k'eumbo. Weviupa-ko, taaluka-ila, tati: Tate wanthuma ohala ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Okufika ku se, wemuhanga wawa, wankhya. Okumuveleka. Etyi tati noho lwapopo, ye ekisi tahokeka nalyo. —Epyo-ko tate! —Tyetu! —Olye waveleka? Tati:

—Otate Hautyali. —Ekisi haliti: (m'okuimba) K'onongi Hautyali mukwetu! K'ononkhombo Hautyali mukwetu! K'onongi Hautyali mukwetu! K'onongombe, mhe! Hautyali mukwetu! Mhe! Hautyali mukwetu! Mhe Hautyali mukwetu! Omahondi omukulu elieta, kaelitwaia! Ngupile-po-vo okakuvoko kamwe. Wemutetela-ko. Lyamim'ale nkholonkholo. Pakale, otyotyo elietela vali. Tandimbi vali:

—Epyo-ko tate! Hati:

—Tyetu!

— Olye waveleka? Hati:

 Otate Hautyali! Mhe; Hautyali mukwetu! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Omahondi omukulu elieta kaelitwala. Ngupile-po okakulu kamwe! —Wemutetelako. Otyo elieta vali.

—Epyo-ko tate; Hati:

- Tyetu!

— Olye waveleka? Hati:

Otate Hautyali —Nthetele ombunda oyo! —Nkholonkholo lyamima. Otyo elietela vali.

—Epyo-ko tate!

— Olye waveleka? Hati:

—Tate Hautyali! Talindimbi vali haliti: Mhe! Hautyali mukwetu! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... —Omahondi omukulu elieta kaelitwala. Ngupile —po —vo onthulo yatyo! Hinati ale opo, lyawa-ko vali. Wemuupila-ko-ila omutwe watyo. Ekisi pahe lyekuta. Ou wapita-ila, otyo talili. Wefika k'eumbo omutambo vala waongwa-ila ou. Oluñgano olo lwapwa!

37: Um Cacador e Seu Filho

Um homem e seu filho. chegaram ao pé de uma árvore. Nela havia um ninho. O homem disse:

—Vou subir para ver o que há! Tendo alcançado o ninho viu que nele havia ovos de Aguia-de-cauda-curta. Ao tentar descer, não o conseguiu. A águia observou a cena e pôs-se a cantar: Quem és tu que estás a fazer entrechocar os meus ovos da cor do arco-íris? Choque! Quem és tu que estás a fazer entrechocar os meus ovos da cor do arco-íris? O homem cantou por sua vez: Sou eu quem está a fazer entrechocar os teus ovos da cor do arco-íris! Sou eu quem está a fazer entrechocar os teus ovos da cor do arco-íris! E acrescentou: Meu filho! A águia está perto. Corre depressa a casa, a fim de trazeres um penacho de asas de mosca e um pauzito curativo de Ondyendye! E o rapaz desata a correr cantando: O meu pai mandou-me por um penacho de asas de mosca! O pai mandou-me buscar um penacho de mosca e um pauzito de ondyendye! A águia já vem muito perto a cantar: Quem és tu que estás a fazer entrechocar ... ... ... ... ... ... ... O homem diz: Sou eu quem está a fazer entrechocar, ... ... ... ... ... ... ... A águia ao topar com ele, arranca-lhe os olhos. O homem deu um trambolhão e caiu da árvore. Entretanto o filho estava ainda a correr e a cantar: O meu pai mandou-me por um penacho ... ... ... ... ... ... ... Chega a casa, toma as coisas e regressa sempre a cantar: O meu pai mandou-me por um penacho ... ... ... ... ... ... ... Ao chegar ao pé do pai, encontrou-o prostrado e sem vida. Carregou com ele às costas. Mal tinha caminhado, dá com um papa-gente:

—Bom dia amigo!

—Obrigado!

—Quem levas às costas?

 —Levo meu pai Hautyali!

—O monstro diz:

Hautyali é verdade? Põe-se a chorar e a cantar: Humhum! Hautyali meu amigo! Humhum! Ao pastorear os cabritos sempre ao lado do amigo Hautyali! As ovelhas sempre ao seu lado! Humhum! Os bois sempre em sua companhia! Humhum! Hautyali meu amigo! Humhum! Hautyali meu amigo! As lágrimas de uma pessoa de respeito não se choram de graça! Tira-me um dos braços. Engole-o com sofreguidão. Passados minutos o papa-gente aproxima-se novamente:

—Bom dia amigo!

— Obrigado!

— Quem levas às costas?

— Meu pai Hautyali! Humhum! Hautyali meu amigo! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... As lágrimas somam aos olhos e não voltam sem mais nada. Corta-me uma das pernas! —Cortou-lha. Pouco depois apresenta-se outra vez. —Bom dia! —Obrigado! —Quem levas às costas? —Meu pai Hautyali! —Corta-me a parte traseira! —Engole - a num pronto. Aparece novamente.

— Bom dia amigo!

— Quem levas às costas?

— Meu pai Hautyali! O monstro canta novamente: Humhum Hautyali. meu amigo! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... As lágrimas de um velho, não vão por si mesmas. Tira-me dali aquele peito! Mal o rapaz dá uns passos, ei-lo outra vez. Deu-lhe também a cabeça. O monstro fica agora farto. O rapaz segue caminho e chora. Finalmente chega a casa onde se realizam as cerimónias fúnebres. Este meu conto terminou.

Dados biográficos e outros como no Nº 19. Etnogràficamente é muito instrutiva a intervenção da águia-de-cauda curta no singelo entrecho deste conto. E ave de má catadura que se vinga cruelmente do atrevimento de um homem que invadiu os seus dominios. O nome científico desta espécie ornitológica éTerathopius ecaudatus. O primeiro destes dois termos é grego e significa “prestigioso?. Não sabemos o que levou o cientista classificador a escolher esta designação. O que é certo, é que, concernente aos povos do Sudoeste de Angola, tal prestígio étido por nefasto, significando um verdadeiro terror, sobretudo para mulheres com crianças pequenas. De facto, como tivemos ocasião de expor na “Etnografia?, em toda a vasta área desta região, atribui-se a esta ave o poder maléfico de, pelo menos indirectamente, ser causadora de certas doenças que afligem as crianças. Do Cuanhama e da Oncócua até as terras dos Cuvales e dos Quipungos ouvia-se e ouve-se ainda hoje, falar muitas vezes na “doença do pássaro?, no “mal da ave do céu?. A cura da enfermidade exige uma complicada terapêutica mágica. No entanto, para que não se diga que a regra geral não sofre nenhuma excepção, na narrativa seguinte, temos um episódio em que a tal águia é a única mensageira a transmitir uma comunicação que permite salvar um homem. E de notar que os ovos desta ave, que atingem quase o tamanho dos de uma galinha, apresentam um colorido levemente variegado, o que permite chamar-lhes, sem grande exagero, ovos da cor do arco-iris. A segunda parte do conto é quase idêntica ao episódio final da narrativa nº 17. Mas, nesta a sequência macabra do drama é exposta com ordenamento mais cuidado. Nos escritos anteriores traduzimos o termo bant “onkhombe? inexactamente por...

38: Ombwale N'omona Womukainthu Epongo

Ombwale... opopo lumwe, oluñgano lwondyimbilile... omona un' “opapai? yae yombwale yepongo. Otyo vakaka onombi. Onombi ombo mbutupu etyi mbuvelinga. N'oumukoko, n'outyinthiki, n'ovi “porcaria? aviho vala. vakala n'okukoya-koya, m'“okonta? omapongo. Pahe avapake opo, Eila alinina-ko. Okunina-ko ngotyo. Etyi anina-ko, omona o wasukula-ko... Katyitavela. Apaleka vali, muhuka tye. “Papai? yae ati:

—Mwalikai. onombi ombu umbuka-ka-pi ngetyi mbupepa? Ati:

—Tate, eila linina-nina-ko! Ati:

—Ehe, mona wange, hahe ndyikelikwate na liheye okuninanina vali popepi. Etyi omona akaka, otyo aenda onkhunde —ongombe n'okatana kae, ombwale oyo. Eila aliti: mphululutyutyu!... Unalyo okulikwata m'otyikalo. Eila linae p'eulu. Omona ou okulila —Tate, tate, liyeka likutwala k'o-vai-vai. Mukwe. liliyeke! Mukwe, liliyeke! Linia-nie ongundi omulela. Omona okuhateka vali, otyo aya. Otyimbala tyonombi etyiyumbu-hi pahe umwe. Wanumana. Okutala he uenda n'eila. —Tate, tate, liyeka likutwala k'o-vai-vai! Mukwe, liliyeke! Mukwe, liliyeke! Linina-nie ongundi omulela! Eila olyo olyokunana umwe ombwale, alikeitila m'eiva umwe... huta umwe! —m'okati keiva liivala m'okati k'ekongola. Omona pahe otyo eliseta-seta vala. Utala-ko ñgo... okakulukai! Okakulukai akati:

—Mukwe, iya, otyityi k'onthele yomeva tupu? Ine un'etyi unthyandela? Ati:

 Au, “vavó?. Otate watyindwa n'eila, lyeya okumuyumba m'omeva omu. Ati: Uma okakola aka kelondo ufole-fole-mo vala m'eiva omu. Ati:

—Ehe! Pahe “vavó? okakola aka kamana eongwe-eiva eli lyomeva aliho?! Ati: Hetekela-ko vala! Omona. okutila-tila oku, okutila-tila oku, utala-ko ñgo... omutwe wa “papai?... wa, he... Omona owokuti:

—Ehe! Tate oyou! He okulupuka-mo, okuti:

—Mona wange, una-vo umwe omphuka n'ame umwe k'omutima wove vala, kupondola okukondoka-ko vala. Pahe ngetyi weile okuhulila kuno, pwaina otyill lumwe! Tyino akati ñgana... n'ohamba ankho watokehilwa-mo. Ohamba oyo aiti: —Ame ndyinepa umwe omona ou, tyetyi petupu ou wandandulile wok'otyilongo tyetu. Okunepa umwe. Nepé omona ó, na heivi ou, avakala-kala, avakala-kala, avakala-kala. Ohamba oyo aikapopisa nthele imwe onondaka k'otyilongo tyimwe. Avai n'omunthu wae utiwa oKalei. Etyi vati ende-ende, valiwa n'ondyala. Okuhika m'ohika omu, vavasa omumbe. Ati:

—Kalei, londa k'omumbe na upole-ko onombe! —Au! Onombe ombu... (Kalei ati) Ehe! Omiti vya kuno vilonda onohamba, kavilondo ovinkhungulu. Ohamba okulonda-ko, Kalei okukondoka k'eumbo. Okuhika k'eumbo, Kalei okuenda umwe oko... Ati:

—Ohamba wati: “Ove, kapopise-ko onomphela. Ame nesala kuno?. Pwaina ukemba vala; uhanda omukai, otembo yohamba. Hakukala umwe oko? Tyino vatala-ko ñgo, ohamba hakuihana ondyundyu?—Ndyundyu, ankho ndyikutuma k'eumbo ukati-wi? —Ndyikati vala: “Ehe-ehe-ehe-ehe...? Okuihana ekwele. —Nkhwele, ankho ndyikutuma-vo k'eumbo, uti-wi? —Ndyikati vala: “Kweee!... Kweee!...... —Ai! “Não vale a pena!? Asele! Okuenda umwe oko. Okuihana onkhombe. —Ankho, onkhombe, ndyikutuma-vo k'eumbo, ukati-wi? —Ndyikati: —Kó-kó-kó-kó! Enda tú! — Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Kalei watyaela-tyi elombe? Enda tú! Hamba yenyi k'eulu lyomumbe! Enda tú! — Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Ati:

Iya!... Hateka lumwe, Tatekulu! Okuhateka umwe, onkhombe oyo umwe, yavasa umwe ovanthu aveho m'eumbo vetai, vapopisa onomphela ku Kalei. Tyino yeya, avati umwe:

—Tehelei otylila etyi tylimba! Tyino tyeya p'eumbo atyiti:

—Kó-kó-kó-kó! Enda tú! Kalei watyaela-tyi elombe! Enda tú! Hamba yenyi k'eulu lyomumbe! Enda tú!... Ovanthu ovo aveho ankho vapopisa onondaka okuhomboka okuti:

—Otyiila patyi ipopya ngotyo?.... Tyino yeya okuliseta n'eumbo... Okuilandula... Okuilandula... Vavasa ohamba alho yaninwa k'ombanda yomumbe n'omatwi oviila. Okuipola-po... kaveile umwe okuipaa?

38: O Velho e a Menina Pobre

Um velho... pois é isso mesmo, um conto com partes cantadas... uma menina que tem seu pai velho e pobre. A menina vai colhendo bredos. E os bredos não lhes fazem mal. Umas folhinhas destas, outras daquelas, todas as reles folhinhas que encontravam, as vai ela apanhando, pois são pobres. Põem-nas depois em certo lugar. Vem uma ave defecar por cima. A deitar excrementos para ali. Tendo a ave defecado, vai a menina e lava... Não há meio. E tornou a repetir a lavagem no dia seguinte pela mannã. Exclama o seu pai:

— Ó minha mulherzinha, onde é que andas tu a apanhar estes bredos saborosos? Diz ela: Ô pai, é uma ave que lhes larga excrementos! —Ele:

—Não, minha filha, é melhor eu ir agarrá-la para que não venha mais excrementar perto de nós. Indo a pequena aos bredos, ele seguiu por detrás e aos lados à socapa. armado de sua catana, o tal velho. Eis que a ave se debate. (O velho) agarrou segurando-a numa perna. A ave toma-o pelos ares. A pequena a chorar. —O pai, ó pai, larga-a que ela leva-te à Ventura! Vê lá, deixa-a! Vê lá, deixa-a! Que ela defeque seus excrementos de gordura. A menina a esforçar-se mais na corrida, mas ele vai. Pega ela na cesta dos bredos e joga-a ao chão. Está irada. Ao ver seu pai levado pela ave. —O pai, ó pai, larga-a que ela leva-te à Ventura! Vê lá, deixa-a! Vê lá, deixa-a! Que ela defeque seus excrementos de gordura. Mas aquela ave arrebata consigo o velho e vai largá-lo com violência numa lagoa... Cachapum! no meio da lagoa de que se fala, em sítio ermo. A menina põe-se por ali a andar àroda. E ao deitar os olhos... surge-lhe uma velhinha. Começa a dizer a velhinha:

—Olha cá, que fazes mais tu aqui ao pé da água? Ou procuras-me tu para alguma coisa? Diz a criança: Não é nada, minha avó. E o meu pai que foi levado por uma ave e ela veio lançá-lo ai na água. Diz a velhinha: Pega só nesta casca de “maboque? para ires tirando água de dentro dessa lagoa. E a menina: Ora essa! Minha avó, então esta casquinha pode esgotar uma enorme lagoa como esta?! Resposta: Experimenta só! E a menina a deitar água para ali, a deitar água para ali, até que lançando o olhar... eis a cabeça do pai... do seu pai... Exclama a criança:

—Ah! O pai, cá está ele. E o pai saiu dizendo:

—Minha filha, tens um crédito grande para comigu, por causa de teu bom coração, não podes voltar sem nada. Pois que me seguiste até aqui, deste verdadeiras provas disso! Ao relancear o olhar... aparece também um rei que all havia sido lançado. E esse rei declara:

—Eu vou-me mesmo casar com esta menina, porque ninguém da minha terra veio atrás de mim. E casaram-se de facto. Tendo casado com aquela menina, ele mais seu sogro, foram vivendo, vivendo, por longo tempo. Esse rei saiu de casa a julgar umas questões em determinada terra. Fez-se acompanhar por um seu ministro de nome Kalei. Depois de muito terem andado, sentiram fome. Metendo-se por aquele mato, encontraram uma berquémia. Diz o rei: O Kalei, sobe à berquémia e colhe de seus frutos! Não! Estes frutos de berquémia... (é Kalei quem fala). Não, não! às árvores desta terra só a elas trepam os reis, não sobe a elas gente miserável. Tendo subido o rei, o Kalei voltou para casa. Chegado a casa, Kalei dirige-se a determinado lugar. E afirma:

—O rei disse assim: Vai tu resolver os julgamentos. Eu fico-me por aqui. Afinal é pura intrujice; o que ele quer é a mulher do rei. O rei teve de ficar ali retido. Num momento em que relanceava o olhar, põs-se o rei a chamar o passarinho verde. —Passarinho verde, se eu te mandar a casa, que vais tu lá dizer? —Eu vou só fazer assim: Ehe-ehe- -ehe-ehe...? Chama então a ave zombadora. Ave zombadora, se eu te mandar a ti a casa, que dizes? —Eu vou só fazer assim: Coé... Coé —Não! Não vale a pena! Pois sim! Toma outro partido. Chama ele a águia-de-cauda curta. —E se eu, óáguia, te mandar a ti a casa, que vais tu dizer? —Eu vou dizer assim: Có-có-có-có! Vai por diante! Có-có-có- Vai por diante! Porque é que Kalel tem o rei sequestrado? Vai por diante! O vosso rei está em cima da berquémia! Vai por diante! Có-có-có-có! Vai por diante! Responde o rei: Pois bem!... Corre a valer. Obrigado! E ela a correr deveras, essa mesma águia, indo precisamente encontrar em casa muita gente em pé, a pedir a Kalei o julgamento de suas questões. Chegado à ave, exclamam então: —Ouvi o que está a cantar esta ave! Chegada a ave, exclamam entwo: Có-có-có-có! Vai por diante! Porque é que Kalei tem o rei sequestrado! Vai por diante! O vosso rei está em cima da berquémia! Vai por diante! Toda aquela gente que expunha suas questões prorrompeu na exclamação: —Que ave é esta que assim fala?!... E quando ela veio dar a volta à casa... trataram de segui-la... de segui-la ... Encontraram o rei em cima da berquémia todo ele cheio de sujidades das aves. Desceram-no... e vieram executar Kalei, o criminoso.

Dados biográficos e outros como no N.° 7. Apesar da narradora ser Mwila e viver na área da sua etnia, a origem do conto deve ser diferente. De facto a “berquémia? (Berchemia discolor) não se dá na parte mais elevada do planalto. A partir dos Gambos, mais que se avança para o Sul, com maior frequência se encontra esta bela árvore frutífera. Abunda também na região chamada “Serra-abaixo?, na terra dos Quilengues e Cuvales. O nome Kalei não é antropónimo, mas designa um dos dignitários dos sobas entre os Nyaneka-Humbe. Segundo o P.°" Lang, na corte do régulo da Huila, ele ocupava o terceiro lugar na escala hierárquica dos ministros. Diz este autor: “Le Kalei est le gardien du roi; il l'accompagne partout, ne doit jamais l'abandonner et, comme le premier conseiller, est autorisé à lui faire des remontrances? 76 . Por isso, no caso do nosso conto, maior é o crime de infidelidade e usurpação, cometido por quem devia ser o confidente do seu amo.

39: Omulume - N'omona Wae - N'Otyindondi

Omulume ou una omona womulume. Omulume ou wapulila m'otyindondi. Otyindondi otyo tyaika okupelwa p'elonga. Omulume watongona nokuti: Tala, otyindondi otyo hamutyipela-pela pofi; nga nina apa naya. tyipeleni noho p'elonga. Omulume ou waya ouenda. Etyi aya ouenda, omona wae ati:

—Nendukwa-ila okupela-pela otyindondi etyi p'elonga. Otyipuka otyifitu! Ame hono anityipela pofi. Ina hati: Ai! Kuketyipele pofi! Omona wapatana. Otyindondi otyo haetyipela pofi. Otyindondi etyi nke tyalya, tyapu tyahena. Otyindondi katylmoneka. Se okuya, hati: Otyindondi tyayapi? Ina hati: Omona nkhwall wekapela pofi. Hati: Hatyo napopile ale? Katukeni! Muende! Omona hati:

—Meme, katupondola okuya atuse okutankhama m'ofika, ye anikekulikife m'ofika; ame netyipele-pele pofi. Fala noho n'omulume wove, ame hekulu nikelikupule m'ofika. Wapita omupeto. Okuya m'ofika, omona ou wahonga omuti, wapangela okañgoma. Weya okuvaka okambandwa m'eumbo. Wekapangela k'okañgoma oko. Tahikila-ila omupeto. Ina undite okañgoma akati:

—Tiki, tiki, tiki, tiki, tikilingindi! —Tiki, tiki, tiki, tiki, tikilingindi! Wapita-ila. wahanga-ila ovindondi. Tahiki ongoma tandimbi: Sando, okandondi katate, kena omityila vivali! Sando, okandondi katate, kena omityila vivali! Ovindondi haviti: Tala oku; Kuli omutyila wike, Kakuli mityila vivali! Tala oku; Kuli omutyila wike, Kakuli mityila vivali! Avitiapula-ila, avilikaifa-ila omona okuti:

—Tala oku, kull omutyila wike, kakuli mityila vivali! Okandondi katyo oko, hinga kena omityila vivali. Wapita, otyo noho taende. Wakaoyela ngok'oTyipungu oko. Wevihanga ovimphunda. Otyo tahiki okangoma kae: Sando, Okandondi katate, ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Viatiapula... Tahimaina-ko noho n'ovilongo vyatyu vise. Wevihanga tupu. Tahiki okangoma kae: Tiki, tiki,... Wevifila-po wapita. Kake-po okandondi katyo. Kaya noho n'ovilongo. Wapita, wakoya-ila Otyipungu, wapita- -ila k'Onano oko. Wevihanga ovimphunda! Tyimwe tyinene otyunda tyatyo. Tiki, tiki, tikilingindi... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Otyo viatiapula, vyasukwa-ila. Oko yatyo oko wekehanga! Katankhama omityila kevifatela. Okutiapula kelihaika okuti pamwe anikwatwa. Vikwavo evi, ovyo avitiapula noho. Ye tahiki okangoma kae. Tiki, tiki, tikilingindi... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Nkhele ahika okangoma oko, nkhele kandyaleka oko. Nthiê noho nâ ukakwete! Ye tahuma-ko-ila. Talala-ila taende, Otyo noho taende. Weya-ila, wahanga ovose na ina. Komapeto veundite okangoma: Tiki, tiki, tikilingindi... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Ina hati: Hum! Okangoma aka nekatiele ale, papa pailile omona wange. Pahapa okoko nô tupu. Otyityi ale etyi? Ulihauka noho, okapuka akati:

—Keu, keu, keu, keu! Okandondi kandimbuka-ila m'eumbo lyavo. Okuya-ila hati: —Tate, tambula okandondi kove. Papwa, hikapapa vali pofi. Ina watongonona hati: —Ame name, omona wange, ngeno waliwa n'ovifitu, ame name hin'okukala vali m'eumbo muno. Pahapa ame anii n'omona wange. Velihenga-ila n'omulume wae. Lwapwa-ila oluñgano iwange olo

[Page [NA]] MELODIN DE DUAS ESTROFES DO CONTO Nº 39 SANDU OKANDONDI KATATE

39: Um Homem - Seu Filho e o Macaquinho

Um homem tem um filho. Este homem está associado a um macaco, por via de um poder mágico. Tal macaco habituou-se a receber a comida num prato. O homem disse aos da casa: Ao macaco não se serve comida no chão. Se eu me ausentar, é preciso dar-lhe sempre de comer num prato. Depois do homem ter ido de viagem, o seu filho disse:

—Estou farto de dar comida ao macaco num prato. Afinal esta “coisa? não passa de um bicho! Hoje vou pôr-lha no chão. A mãe disse: Não!- Não lhe deites a comida no chão! O rapaz teimou e lançou a comida ao chão. O macaco, depois de ter comido, fugiu. O macaco desapareceu. O pai regressou. Não encontrou o macaquinho. Perguntou:

—Para onde foi o macaquinho? A mulher respondeu: O filho deu-lhe comida no chão. —Ai sim! Não foi isso que eu disse? Ponde-vos a mexer e ide-vos daqui para fora! O filho porém observou:

—Mãe, não podemos ir os dois viver no mato, não devo expor-te a seres devorada na selva. Tanto mais que fui eu quem lhe deitou comida no chão. Fica cá com teu marido, enquanto eu vou embrenhar-me no mato, a procurar o animal. Saiu de casa pela noite. Já dentro da selva, o rapaz fez uma pequena caixa de batuque com um bloco de madeira. Voltou a casa para surripiar uma pequena pele curtida que aplicou à caixa. Durante a noite pôs-se a tocar o batuquezinho: A mãe ouviu o som do batuque que fazia assim: Tique, tique, tique, tique, tiquelinguinde! Tique, tique, tique, tique, tiquelinguinde! O rapaz prosseguiu viagem e encontrou um bando de macacos. Pôs-se a tocar o tambor e canta: O meu xará, macaquinho do meu pai! Tu que tens duas caudas! O meu xará, macaquinho do meu pai! Tu que tens duas caudas! Os macacos respondem: Olha para cá, aqui há só uma cauda! Não há duas caudas, não! Olha para cá, aqui há só uma cauda! Não há duas caudas, não! Eles puseram-se a dançar e mostraram ao rapaz as caudas dizendo: Olha para cá, aqui há só uma cauda! Não há duas caudas, não! E que o tal macaquinho tinha duas caudas. Dali o rapaz foi para mais longe, sempre andando. Percorreu a terra do Quipungo e encontrou ali grandes bandos. Assim foi tocando o seu batuquezinho a cantar: O meu xará, macaquinho do meu pai! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... E todos dançaram ao som do batuque. Foi atravessando muitas terras, tendo encontrado grandes bandos destes animais. E sempre lhes tocava o batuque: Tique, tique... Separou-se deles para ir mais longe ainda. O macaquito não se encontrou. Deve ter ido para outras terras. O rapaz, tendo procurado em toda a região do Quipungo, meteu-se a caminho até atingir a terra dos Bundos. Deu ali com uma enorme macacaria. Foi-lhes tocando o batuque: Tique, tique, tiquelinguinde... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Todos se puseram a dançar e encheram-se de alegria. Finalmente o desejado macaquinho estava ali! Tinha-se sentado com as caudas metidas por baixo do trazeiro. Desconfiou e não quis dançar com medo de ser agarrado. Os outros é que estavam a saltitar e o rapaz a fazer ressoar o seu batuque. Tique, tique, tiquelinguinde... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Num momento dado, o macaquinho deu um salto. O rapaz deitou-lhe a mão e agarrou-o. O rapaz retirou-se depois daquela terra. Pernoitou e andou uns dias. Chegou enfim a casa e encontrou o pai e a mãe. Antes, ao cair da noite, ele tinha tocado o pequeno batuque que eles ouviram: Tique, tique, tiquelinguinde... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... A mãe dissera: Hum! Este pequeno tambor eu já o ouvi, quando o meu filho partiu. Que novidades trará? De repente o bichinho começou a berrar: Queo! Queo! Queo! —O macaquito reconheceu a casa. O rapaz apresentou-se então e disse:

—Pai, aqui tens o teu macaquito. Acabou a questão. Não lhe darei mais comida no chão. Mas a mãe declarou:

—Eu assim... faltou pouco para o meu filho ter sido devorado pelas feras, não continuarei a ficar nesta casa. Eu agora vou-me embora com o meu filho. Ela e o homem separaram-se.

Terminou o meu conto.

Dados biográficos e outros como no Nº 19. Esta narradora, tem o costume de empregar a torto e a direito, a forma intensiva do verbo, constituida pela partícula “ila? acrescentada aos tempos normais do verbo. A locução: okupula m'otyindondi, que traduzimos —estar associado a um macaco por virtude de um poder mágico, necessita umas palavras de explicação. Quem detém o poder mágico é evidentemente um ser humano, que o adquiriu por meio de uma espécie de sacrifício ritual, tirando a vida a um próximo parente, recorrendo para tal, não a processos de ordem física, mas mágica. Feito isto. “a alma? do “sacrificado? se transforma em tyilulu —termo que se pode traduzir mais ou menos exactamente, por espírito mau, o qual fica agora ao serviço de quem se submeteu às exigências do dito ritual, por uma espécie de possessão. Por sua vez, o tal espírito poderá dispor de um ou mais animais seus servidores. Proceder a esta “operação? É que os Humbes, Ambos e outros povos do Sul chamam oku-pula (com u longo). Os Nyaneka, ao mesmo tempo que os Dimbas e Cuvales, empregam o termo oku-tambula etambu, podendo-se verter esta última expressão por receber um poder mágico. São vários os animais que passam por terem sido escolhidos para auxiliares de “Tchilulos?: uma ave crepuscular, de nome ekowe, a lebre, o varano, uma cobra muito venenosa (entre os Donguenas) e nos Cuvales o próprio leão. Nas nossas investigações nunca tínhamos ouvido mencionar o macaco, como entrando nesta categoria. Mas não admira ele figurar no elenco. Ê quase certo que ele é tido por desempenhar um papel semelhante ao da lebre, para quem detém o “poder da abundância de mantimento? e que é ir roubar, sem ser visto, cereais nos campos dos vizinhos. Nesta matéria —e mais que em outras —permitimo-nos indicar ao interessado o que escrévemos a este respeito na “Etnografia?. [Page [NA]] MELODIN DE DUAS ESTROFES DO CONTO Nº 39 SANDU OKANDONDI KATATE

40: Omulume N'Omukai N'eila

Opopo umwe. Omulume n'omukai ankho vatekula eila m'eumbo lyavo. Apeho, apeho eila eli veliavela okulya p'elonga, tyetyi kalihande okulila p'ovilindo. Tyino tyamana okulya p'elonga lyatyo, otyiila tyiinina-po omulela. Kumbi limwe ovohe vaya vakapila. P'eumbo vasa-po vala ovana. Ovohe etyi vakapila, ovana n'avo aveya okupilwa na vakwavo. Etyi veya p'okulya, omalonga kaatuukile mu vo aveho. Avapolo elonga lyeila, ongo avelipakela p'otyilindo. Etyi eila leya m'okunumana, alihali, ongo lyahimbika n'okulila. Etyi ovohe vehika k'eumbo eila okuvemona aliti: Omphungu muekela p'ohi. Omutyokolo om'ombiya itokota! Hekulu akwate eila, alondo ku lyo. Omona ati: Tate liyeka! Ongo oe ati:

 Hiliyeke liniania ongundi omulela. Alikatuka nae. Omona ati ñgo:

 —Tate liyeka! Likutwala k'Onkhumbi, k'ovaye! Ongo ati: Hiliyeke liniania ongundi omulela! Eila atila hekulu:

—Tuende, ukatale k'omaila omanene, omanthendepuku! Alii umwe nae ló k'eiva limwe enene, omu mukala omaila atyo omanyingi. Eila alimutula kombanda yonkhanda onene ili m'elva lyatyo. Onkhanda oyo aihimbika okusenguluka, lo hekulu yeila anyingfila k'ohi yomeva, ngo-ko ankhila. Ahamoneka vali k'ombunga yae.

40: Um Homem Sua Mulher E Um Passaro

E destes mesmos que se trata. Um homem e sua mulher domesticaram um pássaro. Desde sempre davam ao pássaro de comer num prato, porque ele não gostava de comer numa panelinha. Depois de comer no prato, o pássaro largava manteiga. Um dia o marido e a mulher foram dar um passeio, deixando os filhos em casa. Nesta ocasião os filhos receberam a visita de hóspedes. Quando chegou a altura da refeição, os pratos não eram suficientes para toda a gente. Por isso serviram-se também do prato do pássaro e deitaram-lhe a comida numa panelinha. Ao chegar à panelinha, o pássaro ficou zangado, não comeu e pôs-se a chorar. Quando os pais voltaram a casa, o pássaro ao vê-los disse: Os bredos deitaste-los no chão, e a comida para os bicos compridos, numa panela escaldante! O dono do pássaro pega então na ave e monta nela. Um dos filhos disse: Pai, deixa-a! Mas este replicou: Não a largo, porque ela nos fornece boa manteiga. O pássaro levantou voo com ele. O filho insistiu:

 —Pai, larga-o! Ele vai levar-te para o Humbe, para o meio dos mortos. Respondeu este: Não o largo, ele costuma defécar boa manteiga! O pássaro por sua vez animou o seu dono:

—Vamos, verás aves enormes, caçadoras de ratazanas! Levou-o assim, até um extenso lago, onde se encontravam aquelas aves, em grandes bandos. Poisou-o sobre um grande rochedo que havia naquele lago. Mas o rochedo começou a derreter-se, até o dono do pássaro ficar tragado pela água. Nela faleceu e nurica mais foi visto pelos seus familiares.

Dados biográficos e outros como no Nº 30. Como é fácil notar, este conto compõe-se, em grande parte, de elementos contidos em duas narrações já transcritas.

41: Omulume Wahombola Ombanda

Omulume wahombola ombanda; tyapu tembo yeumbo wakana-po. Etyi akana-po pafala omumbanda watyo. Omumbanda watyo oe wafala n'omona wa mukwavo ou wokwakana-po. Ose yatyo, ngotyo kwatya, takanthita onongombe. Etyi takanthita, ou omumbanda watyo tatyitukila omona okumulya. Kalunga nkhwali lyemuyelula, okumulondeka k'omuti, k'eulu. Etyi ahuma-ko oko otyo tandimbi okuti: Naulula ê! Naulula ê! Lume lyange lyakayeva! Tate wamona ondumbu, Wati ukai! Etyi alitoko ye se kuna teuya. Hono mwalolu se walupula onongombe. Etyi alupula onongombe, wendihingila nô lwakoko, ye taholama m'ongumbu. Ye omukai hatyituka —ila, n' okutyitukila omona. Kalunga nkhwali ha lyayelula omona, okumutwala k'omuti. Ye hatyo tandimbi-ila okuti: Naulula ê! Naulula ê! Lume lyange lyakayeva! Tate wamona ondumbu, wati ukai!  Omulume hakutala nawa omukai! Hakupola outa. hakumuloya! Tyapwa. Ha lwapwa?

41: Um Homem Casou Com Duas Mulheres

Um homem casou com duas mulheres. A primeira morreu. A segunda ficou com o filho da falecida. O pai, ao romper do dia costuma levar o gado ao pasto. Uma vez o homem no pasto, a mulher transforma-se em fera para “comer? a criança. No entanto, Deus arrebata-o e coloca-o em cima de uma árvore. Tendo descido da árvore, o rapazito entoa esta canção: Clamo por socorro! Clamo por socorro! “Meu homem? foi à caça. Meu pai juntou-se a um leão. Julgando que era mulher. Ao entardecer o pai volta a casa, e no outro dia ele dá novamente saida ao gado. Depois de o deixar sair, ele vai esconder-se atrás do cercado. A mulher transforma-se outra vez em fera para dar cabo da criança. Mas Deus com certeza pega nela e coloca-a em cima de uma árvore. O filinho repete o seu canto: Clamo por socorro! Clamo por socorro! “Meu homem? foi àcaça! Meu pai juntou-se a um leão, Julgando que era mulher. O homem observa entâo a mulher. Pega na espingarda e dá-lhe um tiro. Acabou-se! Não terminou o contozito?

Dados biográficos e outros como no Nº 20. Nesta narrativa fazemos conhecimentos com mais um fenómeno mágico, os “Omatyituka?, palavra que não se pode traduzir, senão por: seres humanos transformados em feras. Não é que este termo não se empregue também em linguagem profana para significar um objecto que mudou completamente de aspecto ou de natureza. Mas quando se fala em Omatyituka (subst. plur. de Etyituka, derivado do verbo oku-tyituka que por sua vez é a forma intransitiva e intensiva de oku-tyita gerar, criar) já se sabe que se quer infligir este labeu a um ser humano. São considerados possuir tal poder homens ligados a um “Tyilulu? e os que se supõe possuir a faculdade nefasta de ouanga. O facto de a criança ser salva da fera humana pelo próprio Deus, não tem nada de estranho para a mentalidade banta. Portanto não seria acertado querer ver neste pormenor qualquer influência do cristianismo. Era e é ainda muito frequente velhos gentios daclararem, depois de esgotados todos os meios da terapêutica espírita e natural: “Agora é só Deus que nos pode valer?, maneira de falar que se condensa às vezes num provérbio. Quanto à forma da narrativa convém observar que a contadora usa fàcilmente uma dicção “sincopada?, o que a torna obscura. Também se permite empregar vocábulos de outras línguas e dispensar-se das regras gramaticais.

42: Omulume N'omukai Wae P'enima Lyondyala

P'enima lyondyala vetupu etyi valya. Natyike... natyike. Aveho m'otyilongo vapwa okunkhya. Naumwe vali ukahi-mo. Vahupa-mo vala vevali: ou un'omukai wae, ou un'omukai wae. Vatungila pamwe. Omukwavo muhuka tyé, ovana valele n'ondyala, vetupu etyi mavali. Omukai ati:

—Matunkhi-ale k'ondyala!... Omulume walele n'okulisoka. Etyi kwatya wamaneka, “masi? kakatukile k'omuhuka, wakatukile k'etango, aende. Etyi ati p'okati ekumbi lyanyingila, alangala-po. Etyi elinyinga, ahimbika okuteleka okakulya kae. Etyi tyikahi pahe ng'op'okati kovinthiki. Tyino atalele apa akatapelele omeva patundilila omatemba ehen'etyi atyinda. Ahimbika okulipula-pula m'omutima wae:

—Omatemba a. atundilila oko nakatapelele omeva, aenda ñgeli? Etyi omatemba apita, tyondyala, ahimbika okutala apa patundilila omatemba. Tyino eya okutala-po... om'ondywo vala, muna vala ovikulya. Tyati: ohinde omo ikahi, ovikulya vyovindele omo vikahi... n'“omaloso?, n'“onomasa?, n'onombolo?... aviho vyanyanekwa vala. Omulume ou ahimbika okulipula:

—Ndyilinga ñgeli? Ndyinyingile?... Omutima wankhya ondyala auti:

—Nyingila! Anyingila. Ahimbika okutaindya ono “saku? m'ondywo yatyo omu. Muna vala “onosaku? mbuhena tyimwe. Ahimbika okupola “onosaku? ombu. Alongela ohinde, alongela “omaloso?, apake-mo “onomasa?, apake-mo “onombolo?. Akutu osaku yae, alupuka. Etyi alupuka, aende p'otupya twae. Oko asa-po vala ombululu ngetyi pali-ale. Ak'apumphama p'otupya twae opo. Pakala katutu, omatemba oko aile ó, akondoka vali, anyingila. Otyo atala. Ahamaende nkholo tyondyala. Otyo atala vala, Omatemba óanyingila m'okati apeliyeila. Otyo atala. Etyi kuhungi k'okutya, onofufwa ambupopya, omulume elihindaika n'osaku yae, okukondoka k'eumbo, k'ovakai. Etyi eya k'ovakai, ati: —Vakai, yakulei! — Mulume wange, waeta-tyi? Ati:

- Nakataindyile tyokulya. Iya, have wetakelelwe pano n'okuti ovana valele n'ondyala? Wetyilimbwa? Omukai wayakula. — Tatekulu Osaku watwala m'otyivo. K'omuhuka etyi kwatya vahimbika okueta ovikulya avateleka. Okukataindya omupika umwe vail. Watundilila vala m'onohika omu.

—Ove uenda-pi? Ati:

- Ame ndyitupu oku ndyienda na ko. Ndyitaindya vala omaumbo. Naliwa vala n'ondyala n'ohunga. —Iya, endyu muno! Omu muna etyi tyokunwa n'etyi tyokulya. “Masi? molingi omuundapi wetu wovilinga. Ovilinga vyatyo vyove ovyokutelekela tyokulya. Omulume wanyingila, wapewa okulya —tyatiwa:

—Kateleke! —Ali; ahimbika ohutelekela vali ovana vom'eumbo, n'omulume n'omukai. Omulume omukwavo, ou vakala nae m'otyilongo, vatungila kumwe na e... pen'ovana vae ovatutu veya okunyana k'ovakwavo. M'okunyana vatala ovikulya maviliwa. Vana vakahateka, vaya ku he na ina. —Tate!... Twaile m'eumbo omu Mun'ovikulya!... Ina wati:

- Ovikulya patyi, mukwe. m'ouye muno muhamoneka ovikulya?!... —Ovikulya twavasa: Ohinde itai... muna vimwe viliwa vali ovingonga ñgana... muna ovikwavo vali vilinga ng'onombolo... Ina ati:

—Wó!... (Oina utola) “Bom?! Vana vange, kalei p'ohi ndyipopile ho nga eya. He weya. Ati: —Mulume wange, kukatala-ko m'eumbo omu? Matiwa mun'ovikulya; onthwe twalala ñgana n'ondyala... Omulume ou walupuka, waya m'eumbo omu. ati: —Iya... Veumbo avetavela, avati:

—Lyepe-ko! Ati: —Mbe! — Muluvailila? Ati: Tuluvailila. Pahe okuluvailila vala. Okuvandya. Muna m'eumbo avetavela: —Vaketu! Muna tupumphi vala. Pahe ngetyi mweile okuluvailila. Okuvandya. Etavela:

—Mbe! —Muhekulu weumbo, kwavela omulume wokweya apa? Kumuavela okulya? Avemuavela okulya. Ali.... lye, lye, lye, lye, lye.... Kasoko vali tyokutyindila omukai. Walya vala tyom'eimo lyae. Ahimbika:

—“mBo?! Onthwe tuenda vala. Ôyotulalel-po! Veumbo avetavela:

—Mbe! Lalei-po! Muhelipundaukei. Akaya k'omukai wae: —Mukai, etyi namona m'eumbo omu... Aú! Hinetyimone-ale. Muna tulala n'ondyala; m'eumbo omu muna okulya. Tyati vala: Ohinde onosaku... onombolo onosaku... “oloso? onosaku... “omasa? onosaku... Omukai ati: Huum! Iya, hatyo otyo tupopy'ale? Pahe ovalume ovakwenyi kavaenda-enda m'otyilongo okutaindya tyokulya? Ove ulihimama vala, uliyeka vala m'ongolo! Avahimbika okulangala-po. Etyi vati k'ounthiki, omukai wati:

 

—Ove utyii. mulume wange? Muhuka, limeneka kuna waile k'eumbo. Kapule-vo tava yove. Uti: “Oko wakapolele ovipuka evi vyokulya, m'otyilongo muno omu muhena tyokulya... opi?? Utehelela ouye, ekuungulule. N'ove opo upola-po ounongo. Uhapange n'oundamba. Onofufwa mbapopya. Tyino kwaandyuluka, omulume welimeneka ombimba. Waya m'eumbo omu.

—Okameniei, tava!

—Mbe! Lyepe-ko, tava! Ati:

—Vaketu! —Mwelimeneka?! Ati:

—Twelimeneka. Ove nkhele tweile apa okuluvelela k'onongulohi, omitima vyakalele vala maviñgwala-ñgwala. Tweya okupula vali omapunga. Hamwe onwe mutunoñgonokesa-vo onondunge. M'eumbo lyetu, onthwe pahe tuenda umwe, n'ovana vetu. Tupula-vo ku ove: oku wakapolele etyi tyokulya? Ati: Mulume mukwetu, lipulukwa. Ame ndyili p'onthele yove. Tyino ndyin'apa nakapolele tyokulya, hikuholeka. Pahe, kalale ononthiki onombali. Mu tatu, ove endyu kuno, n'omukai wove, ndyikutwale oku navahile tyokulya. Omulume wakalala ononthiki onombali. Mu tatu, welimeneka, n'ovana vae, n'omukal. Iya... Mbe! Lyepe-ko!

—Vaketu!

— Ati: Tweya! Opopo vala opo twapopile, opopo vala twaendele. Okuvandya. —Mbe! Au! Iya, hakulongaila vala? Hakuvandya?

—Mbe! Omukai ati:

—Tyu! Avahimbika okulongela ousaku wavo. Avaende. Etyi vati m'ohika, ati:

—Mulume omukwetu. Kuna nati vala tuende; “para? tulupuke m'ovakai. Kuno matuhlmama pano “té ? p'etango, onongombe mbuya k'oviunda, ndyikutwale apa pena tyokulya. Uhalumbane! Etyi etango lyeya p'okunyingiya onongombe, ati:

—Tava, katuenda? Avaende: ende, ende, ende, ende, ende, ende... Etyi veya apa p'ohika yatyo, avapumphama p'ohi. —Tava, iya, matupumphama pano?... Kamatuende? Wati: Tava! Pano twapumphama pano, opo tuvasa tyokulya. Uhalumbane. Avahimbika okukala p'ohi. Ekumbi n'okunyingila. Okawiwi tyina kawila p'ohi, omatemba ahimbika okulupuka p'ondywo yatyo opo. Ou wokweya vali k'onyima wahimbika okutila vali ouoma, okuhanda okuenda nkholo. Omukwavo un'ae m'onongundwa. —Tava!... Iya, ove uenda vali nkholo?! Etyi twaendela, ove uenda vali nkholo?! Ati: Iya, omatemba a maeya kamaetuipa? —Ove waenda vala tyokulya, ove utila vali ouoma okuipawa? Wahandele okuipawa n'ondyala... Etyi tyokulya, otyo watila ouoma? —Emukwata umwe m'onongundwa. Omatemba óaaende. K'onyima yatyo pahe, ahimbika vali okumupopila:

—Tava, ove uhakale-kale ñga n'ouoma. Utyii? Opo patunda omatemba opo, opo pena tyokulya. Pahe, endyu tuende. “Masi? nga tweya m'ondywo yatyo, okulongela n'okukuluminya. Tyitei etyi wavasa-mo, otyo ulongela, m'osaku yove. Atulupuka. Tuhapange n'okulongela, té vahekulu vetuvasa-mo atuipawa. Ati: En! Vanyingila —mo. Tyino vanyingila, omukwavo ahimbika vala okulongela ohinde n'ovipuka vyae alongelele p'otete, m'osaku yae, aiyula. Ou wokweya k'onyima. tyiti vala; Alongela ohinde apakela opo, alongela onombolo aongiyila opo, “ni? okupaka-vo m'onosaku: ulongela vala ononthunthu, ahamalongel'ale m'onosaku. Omukwavo walongela m'osaku yae, akutu, alupuka. Una, m'“ohora? weya m'okukongaulula ovipuka vyae ovyo... Wakaeta-tyi... Wakaeta-tyi... nakaetele-tyi... akaetele-tyi ...“para? okupaka m'onosaku... Ana omatemba kaeile? Tyino ati ndyihimbike okulupuka, omatemba ana eya. Avemuhupulila —mo, vamwene voainda [Page 228] ndywo yatyo oyo. Ovilulu. Avihimbika okumukwata:

 —Omunthu watundila pi, wok'ouye omukulu? —Omunthu ou, ha wok'ouye omukulu ou? —Omunthu ou, owok'ouye omukulu! Tuipaei! Vaeta omitunga, vaipaa. Au!... Omukwavo, ou wok'ondye watalaile n'okutxwi, watalaile n'okutiwi... Kakumoneka. Ati:

—Ehe! Etyi omatemba anyingila, omukwetu waipawa. A me ndyienda k'eumbo. Atyinda osaku yae. Ha: mbandaula- -mbandaula, mbandaula - mbandaula, mbandaula-mbandaula? Eya k'eumbo, k'omukai wae. —Lyepe-ko. mulume wange! Ati: Vaketu! (Una wasoya vala). —Iya, ove wasoya vala? Iya, mukwenyi ulipi? —Mukwetu, mukwe, katyipopiw'ale. Mukwetu wamona navi. N'okuya kuno kahande vali. Pahe wati:

—ondaka andaa —wati: “Kaihane omukai wange, veye vakale-mo aveho kumwe. Otyo uvetekulila, otyo uveavela okulya. Tyino ven'etyi vasuka na tyo, vatume kuno, otyo ndyivetuma-tuma. Ame kuno olumono lwalinga olunyingi. Ame himatundu vali. Tyino nakala andyiveihana?. Vapopya n'omukai wae mwene. Avalangala-po. K'omuhuka, tyino kutya, vatuma omupika wavo:  

—Kaihane vom'eumbo omu. Wekeveihana; n'omukai watyo, n'ovana vatyo. Aveya.

—Iya...

—Mbe! Lyepei!

—Tyu! —Mwalangalele?

—Twalangalele. Pahe twatala-po vala k'onongulohi... Tyatiwa k'omuhuka veye vetavele. Pahe tweya okutavela. Ng'oyo okuvandya! Avetavela:

—Mbe! Mweya okutavela... Ovalume twaile na-vo okukataindya tyokulya... Kuna, ovikulya vyatyo twevivahile umwe. Una wakalinga vali ng'oti omulume. Una waundapa vali unene. Una etyi amona katyihungamwa, katyihu ku mbundi. Wanthuma ovipuka evi, n'onohinde, n'onombolo, n'onoloso. Wati: “Twaila omukai wange. “Masi? k'eumbo ahakale-ko. N'ovana aveho vailuke-ko (Veye m'eumbo lyange, ndyitekule ame. Iya, mun'etyi mwahanda tyokulya, otyo munthuma otyo ndyikapola). Kuno ndyili vala m'emono?. Omukai, tyondyala, ou weutiapa-po, ati:

—E! Omulume waya k'otyokulya, kametutumaisa tyokulya? Omukai ou, kwapwa, avanyingila m'ondywo omu mun'omukwavo. Vahateleka vali... Omupika opo ekahi wokuteleka! Ha tapitalala?! Kavaninine vala? N'ovana aveho tyanina vala. Vetupu vali etyi vasuka na tyo. Ku vo kavasukile vali. Palale ononthiki onombali, ou wokwaipaelwe, omulume wokwesalele, kuna wapopila vali, watyituka vali ovilulu ovikwavo vyom'ondywo-yatyo muna. —Iya, ove wankhile ñgeli-ale? Ati: Ame nankhile... Ankho omukwetu watile: “Endyu tukavake?. Pahe andyiti: tuende. Tyondyala, andyiti: tuende, tukavake. Iya, okuya muno okuvaka, ame nalinga eimo evi, nesaililwe vali. Omukwetu una wapita, ame nesalele muno. Mukwetu wapita ame nesala. Etyi nesala, hatyo mwambasa muno amundyipaa? Ovilulu vati:

—Wó! Pahe molingi ñgeli? —Ndyilinga ñgeli?!... Ame pahe nalinga wok'ouye omupe. Ndyiwamuno umwe. Evi ovilulu vyemutolela, vyati:

—Walinga umwe wok'ouye omupe; Iya, “masi?, etyi waendele muno, utupu oku watundililile? Ati:

—Ndyin'oku natundililile. Etyi un'oku watundililile, pahe wanyingila muno, matuhimbika ovilinga vyetu, onthwe ovilulu? N'onthwe twankhile ñgo, ngetyi ove wankhya. “Masi? pahe katuli vali k'ouye omukulu. Tuli k'ouye omupe wetu wovilulu. “Masi? tuundapa ovilinga vyetu. Pahe matuhimbika omalinga etu n'ove. Walinga umwe omukwetu. Avahimbika okulongela omatemba avo. Avalongela avaende, okukatuta vali kumwe, oku vaundap'ale. Etyi vakondoka oko, aveya vali m'ondywo yavo omu. Avahimbika okumupula; —Iya, kamatuende oko watundilile, uhongole-ko? Avahimbika: Tuende! Omatemba alongelwa, avapandeka, avaende. Ende, ende, ende, ende, ende, ende, ende... vehika p'eumbo lyatyo opo patundilile omulume watyo ó, Ati:

 —Opapa. —Opapa —E! —Iya, tulinga ñgeli? —Iya hapo matupandulila-mo? Kamatukevela ñgeno k'etango, “té ? k'ounthiki, atuipaa k'ounthiki? Avafwenaina k'eumbo. Veya umwe etango lihungi k'okunyingila. Avevelyepesa —ovoyatyo ovilulu. —Lyepei vomatemba! Avetavela. —Oko muenda na ko oko? —Oko tuenda na ko oko. Pahe tuenda n'ok'onKhumbi oko. Okuti ovanthu valalela p'onthele p'ovanthu. Pahe óowetu. Okuvandya. Vom'eumbo, avetavela:

—Mbe! Avapandaulula onongombe mbavo. Vahekulu vom'eumbo otyo vatala. Avati:

—Katulaleka mu onwe onongombe mbetu omu? Avati: —Oviunda ovyevi. Onyingi yeya... Onongombe ambunyingila. Avaende p'omatemba avo opo. Avalyalya. Etyi vamana okulya:

—Twende, tukelitakelese na muhekulu wom'eumbo. Peya vevali okulitakelesa na muhekulu weumbo. Vemuvasa p'otyoto upumphi. —Okuluvelela! Muhekulu weumbo etavela:

—Mbe! Mwatundilila k'otupya? Avetavela:

—Mbe! Pahe ankho twatundilila k'otupya okuti vala tulitakelese na muhekulu wom'eumbo. Muhuka hamwe tulimeneka okupandeka onongombe mbetu... tulimeneka atuende. Muhekulu weumbo:

—Mbe! Muhekulu weumbo uhetyii vali okutiwa p'ovipuka apa pen'ou twakahile kuna. M'omutima wae ketyii. Naina k'ounthiki mavemuipaa. Etyi vati k'ounthiki avalangala-po. M'okati k'ovinthiki, aveho vali m'omatemba, aveho, vaundumuka n'okuipaela ovanthu vom'eumbo. Na muhekulu weumbo, n'ovakai vatyo, n'ovana, atyiho avaipaa. Avakalangala-po. K'omuhuka etyi kwatya, okutala-mo pahe m'onondywo. Okuikaula m'onondywo, okumbuhanyauna, okutala etyi tyikahi-mo, atyiho. Aviho vyali-mo vevimana-mo okuvipola-mo. Otyo valongela k'omatemba avo. Avahimbika okuenda, okukondoka oku vatundililile. Opo vahulilile vala opo. Aluho vaveta omatutu, okuti tuenda k'onKhumbi, ankho omatutu vala okuvekembela-po. Avahimbika okupandeka onongombe mbavo tyikondoke k'ondywo yavo oko vatundililile. N'ovipuka aviho vyavakailwe m'ondywo yavo, aviho vevivasa m'onondywo mbatyo omu, avevikondaula k'ondywo yavo oku vatunda. Ongotyo vala oluñgano lwange. Okuvandya!

42: Um Homem e Sua Mulher Num Ano De Fome

Era em ano de fome e não tinham que comer. Nada... mesmo nada. Toda a gente naquela terra acabara morrendo. Não há ali mais ninguém. Escaparam só dois: um homem mais a sua mulher e um outro também com sua mulher. Eram vizinhos. Um deles, um dia pela manhã, tendo-se seus filhos deitado sem comer e não tendo nada que provar, disse-lhe a mulher:

—Vamos certamente morrer de fome! O homem passou a noite a matutar. Ao amanhecer preparou-se, mas não partiu pela manhã, partiu àtarde e foi-se. Chegado a meio do caminho, pôs-se o sol e ele deitou-se. Depois de se ter mexido na cama, começou a cozinhar a sua comidita. Era então por volta da mela-noite. Ao relancear os olhos para o sítio onde havia ido à água, vê que de lá saem carros de bois, vazios. Começa ele a interrogar-se a si próprio no seu íntimo: “Estes carros de bois, que surgem de onde fui buscar água, como é que vieram dar all?? Mal os carros se foram, ele, com as preocupações da fome, foi-se também a observar donde tinham saído tais carros. Assim que chegou e deitou os olhos... é tudo um armazém onde só há comidas. Quer dizer: a farinha ai se encontra, ai estão as comidas dos brancos... até o arroz e as massas e os pães... tudo ali está espalhado. Principia o homem a interrogar-se:

—Como é que eu vou fazer? Devo entrar?... O estômago esfomeado respondeu:

—Entra! E entrou. E começou a procurar sacos ali naquele armazém. São muitos por ali, os sacos vazios. Pega primeiro nesses sacos. Depois carrega farinha, e carrega arroz, e deita lá dentro massas, assim como pães. Amarrou o seu saco e saiu. Uma vez cá fora, foi para ao pé da sua fogueira. Entretanto deixara lá a porta aberta como estava antes. Foi-se pois sentar junto à sua fogueira. Passado pouco tempo, regressaram os carros de onde tinham ido e entraram. E ele a ver. Mas não fugiu, devido à fome que tinha. Ficou só a ver. Aqueles carros entraram para dentro e tudo se fechou. E ele a olhar. Ao aproximar-se o alvorecer, cantaram os galos. O homem lá se foi encaminhando com seu saco, de volta para casa, para sua mulher. Chegou ao pé dela e diz:

 —Toma lá mulher!

—Ó meu marido, que é que trouxeste? Responde ele:

- Fui buscar de comer. Então não estiveste tu a dizer aqui ao serão que os filhos passaram a noite com fome? Já te esqueceste disso? A mulher agradeceu: Obrigada! Levou o saco para a arrecadação da casa. No dia seguinte pela manhã, começaram a trazer de comer e a cozinhar. Puseram-se em busca e depararam com um escravo que vinha de qualquer sítio, desses matos. —Onde vais tu? E diz ele: Não vou para parte nenhuma. Ando só àprocura de onde ficar. Estou chelo de fome e de sede. —Então anda cá! Há aqui de beber e de comer. Mas ficas como nosso homem de serviço. O teu serviço écozinhar-nos as refeições. O homem entrou, recebeu a ração —pois foi-lhe dito: Vai cozinhar —e comeu; depois recomeçou a cozinhar para as crianças da casa, para o homem e para a mulher. O outro individuo, seu companheiro naquela terra, seu vizinho de habitação... tem em casa filhos pequenos que vieram brincar com as outras crianças. Enquanto brincam, olham e vêem o que se come. Largam de corrida e vão até casa de seus pais. —Olha!... Nós fomos ali àquela casa. Há lá de comer!... Replica a mãe: De comer o quê, pequeno, nesta terra onde não aparece de comer?!... —Encontramos comida: Há lá farinha... há lá umas coisas que também se comem, assim brancas... e ainda há umas outras que parecem pães... Diz a mãe: Oh!... (E a mãe quem fala). Bom! Meus filhos, ficai quietos que eu falarei ao vosso pai quando chegar. Vem o pai. E ela diz-lhe:

—O homem, não vais tu ver ali na quela casa? Diz-se que há lá de comer: nós vamos assim para a cama c om fome... Sai o homem, foi-se até àoutra casa e cumprimentou: —Com licença... Responderam os de dentro: Sê benvindo! E ele: Obrigado!

— Vens saudar-nos pela noitinha? E ele: Venho saudar-vos. E é isso o que fazemos. Nada mais. Os da casa responderam. Obrigado! Nós para aqui estamos e nada mais. Temos agora a novidade da tua visita. Nada mais de novidades. E ele responde: Obrigado!

—O homem tu não dás nada a este visitante que chegou? Não lhe dás de comer? Deram-lhe de comer. E ele... comeu, comeu, comeu... Já não pensa mais em levar àmulher. Comeu ocupado só de sua barriga. Diz ele a certa altura:

—Bom! Nós vamos indo. Boa noite! E os da casa correspondem:

 —Obrigados! Boa noite! Cautela, não tropeces. Lá foi ele para sua mulher.

—mulher, aquilo que eu vi naquela casa... Não! Ainda não vi coisa assim. Deitamo-nos aqui com fome e naquela casa há de comer. E só isto: Farinha aos sacos... pães aos sacos... arroz aos sacos... massa aos sacos!... Replica a mulher: Pois é! Então não é isso que tenho dito? Não vão os outros homens por essa terra fora à procura de comer? Tu passas o dia metido contigo, ficas para aí encolhido!... E foram-se deitando. Alta noite, diz a mulher:

—Sabes uma coisa, homem? Amanhã, madruga e vai à quela casa onde foste. Vai perguntar ao teu companheiro. Dizlhe assim: “Onde foste tu buscar estes víveres, aqui nesta terra, onde não há de comer??

—Escutas o que vai pelo mundo. Que ele te explique. Também tu ficarás a saber que fazer. Não te fiques na tua palermice. Ouviram-se os galos. Tendo aclarado um pouco, o homem levantou-se, ainda pela aurora. Dirigiu-se àtal casa.

—Bom dia companheiro!

—Obrigado! Benvindo, camarada! E diz ele:

—Obrigado! —Então tão cedo?! Responde: Assim cedo, é verdade. Desde que cá vim àcata de comer ànoitinha, o coração passou a noite a cismar. Venho novamente, em busca de informações. Talvez nos possais ensinar como proceder. Em nossa casa, nós estamos agora às portas da morte, assim como nossos filhos. Por isso te vimos perguntar: Onde éque arranjaste de comer? E o outro: Olha, companheiro, tem calma. Eu moro ao pé de ti. Se me aconteceu arranjar onde buscar de comer, eu não to oculto. Agora, tu vais deixar passar duas noites. Ao terceiro dia, tu vens cá, mais a tua mulher, para eu te levar onde encontrei de comer. Foi-se o homem e deixou passar duas noites. Ao terceiro dia, madrugou ele, mais os seus filhos e a mulher. Com licença... —Obrigado! Sê benvindo!

—Obrigado!

—Então cá estais? Diz ele: Cá estamos! Ê so o que combinámos, é só isso a que viemos. E tudo o que tenho a dizer.

—Obrigado! Nada a objectar! Não temos nós apenas a preparar viagem? Nada mais. não é assim?

—Obrigado! E acrescenta a mulher: Obrigada! Começaram eles a preparar os seus saquinhos. Por fim partiram. Quando já em plena mata, diz o condutor:

 —Olha cá, homem. Eu acclá disse só: Vamos! —era para sairmos de ao pé das mulheres. Agora aqui vamos passar o dia até o sol se inclinar. lá pela hora do reentrar do gadc, eu te levarei aonde há comida. Deixa-te de pressas! Chegada a hora do reentrar do gado, diz então:

—A caminho, camarada, não? E foram. Andaram, andaram, andaram... Chegados ao local devido, acocoraram-se no chão. —O camarada, então nós vamo-nos sentar aqui?... Não seguimos? E o outro: Ô companheiro! Aqui onde nos sentamos, éaqui que encontramos de comer. Não estejas com pressas. Eis que se acomodam sentando-se. Entretanto pôs-se o sol. Quando o escurecer cobriu o local, começaram a sair carros de bois de qualquer arrecadação daquele sítio. O mais novato de entre os dois pegou a ter medo, a ponto de querer fugir. O outro segurao pela cinta. —Companheiro!... Pois então tu foges?! Daquilo que nós buscamos é que tu foges?! Resposta: E estes carros que surgem, não nos vão matar?

—Tu vieste só por causa de comida e agora tens medo de ser morto? Faltou pouco para seres morto pela fome... E de comer que tu ainda tens medo?

—E segurou-o bem preso pela cinta. Os tais carros passaram. Passado aquilo, começou então a falar-lhe assim:

—Companheiro, não te atemorizes dessa maneira. Sabes? Ali donde saíram aqueles carros. É lá mesmo que há comida. Agora vcm daí. vamos. Mas, quando chegarmos lá dentro, é carregarmos depressa. Conforme o que encontrares, assim carregas no teu saco. E saímos. Não nos arrastemos a carregar, até que os donos nos encontrem e nos matem. Diz o outro: Está bem! Entraram. Havendo entrado, começou o primeiro a carregar a farinha e as suas coisas que já carregara da primeira vez, metendo-as no saco e este encheu-se. O outro, novato, fica-se só nisto: Carrega a farinha e vai pousá-la; carrega os pães e vai juntá-los mais ali; nem ao menos mete aquilo em sacos: limita-se a juntar as coisas em montes, em vez de as carregar nos sacos. O primeiro carregou no seu saco, amarrou-o e saiu. O outro, chegada a altura de reunir aquelas suas coisas, foi por isto... foi por aquilo... foi buscar mais isto... lá vai mais em busca daquilo... A fim de carregar nos sacos... Ora não aconteceu que os carros vieram? Quando ele se dispunha a sair, os carros chegaram. Apanharam-no lá dentro os donos daquele armazém. Seres maldosos! E eis que se deitam a ele:

—De onde veio este indivíduo, pertencente ao “mundo antigo?? —Este indivíduo, então não é ele do “mundo antigo?? —Este individuo édo “mundo antigo?! Matemo-lo! Trouxeram punhais, mataram-no. Nada!... o outro, o de cá de fora, olhou a ver o que vinha, olhou a ver o que vinha... Nada aparece. E diz com ele:

—Não há dúvida! Visto que os carros entraram, o companheiro foi morto. Eu vou para casa. Carregou com o seu saco. E não vai ele, caminho fora: torce-que-torce, torce-que-torce, torce-que-torce? Até que chegou a casa, junto da sua mulher. —Ó meu homem, sê benvindo! E ele responde: Obrigado! (Mostra-se abatido).

—Então tu estás assim abatido? E que é do teu companheiro?

 —O meu companheiro, isso nem se conta. O meu companheiro está muito rico. Ele nem quer voltar mais aqui. Ele disse —é o recado que me encomendou —disse:

“Vai chamar a minha mulher para que venham e fiquem todos juntos em tua casa e tu vais tratando deles, tu vais-lhes dando de comer. Quando precisarem de alguma coisa, que mandem cá buscar, eu lhes irei remetendo. Eu aqui, tornou-se-me muito grande a riqueza. Não abandonarei mais o lugar. Depois de ter ficado, chamá-los-ei?. Conversou assim com a sua própria mulher. E deitaram-se. Na manhã do dia seguinte, mandaram o escravo:

—Vai chamar a gente daquela casa. Foi chamá-los, tanto à mulher como às crianças. E eles vieram.

 —Com licença... —Obrigado! Sêde benvindos!

—Obrigada!

—Passaste bem a noite?

—Sim, passamos. Estivemos à espera ontem à noitinha... E diz-se agora de manhã que viéssemos atender. Viemos pois atender àchamada. Eis o que temos a expor!

—Obrigados! Viestes atender à chamada... O homem com quem fui em busca de comida... nós lá encontrámos comida a valer. Ora ele parece que ainda foi mais homem do que eu. Aquele homem produziu muito mais. O que ele por lá encontrou não é coisa a que se chegue, nem que caiba por porta de entrada. Confiou-me estas coisas: farinha, pães e arroz. Disse: “Leva à minha mulher, mas que não fique em casa dela. Que se mude mais os filhos. (Que venham para minha casa, para eu tratar de vós. Se desejardes então algo de comer, mandais-me a mim e eu vou trazendo de lá). Eu por cá estou em posse de grande riqueza?. A mulher, devido à fome, acedeu pressurosa, dizendo:

—Sim! O homem foi-se para onde há comida. Não nos vai ele então mandar de comer? Sem mais considerações, foi a mulher viver para a casa onde já vivia a outra. E sem ter mais de cozinhar!... Lá está o escravo para a cozinha! Não éa tranquilidade perfeita?! Não épura engorda? E os seus filhos todos engordam. Não têm mais precisão de nada. Para eles nada mais necessitam. Volvidas duas noites, o que havia sido morto, o homem que por lá havia ficado, passou a ajudá-los, transformou- -se num dos espíritos maus daquela habitação.

—Então como é que tu morreste? Diz ele:

—Eu morri... Foi o companheiro que disse: “Vamos roubar?! E eu respondi: Vamos. Devido àfome éque eu disse, vamos roubar. Ora, vindo eu aqui dentro a roubar, armei em ventre difícil de contentar, fiquei para trás. companheiro foi-se e eu fiquei cá dentro. Foi-se o companheiro e fiquei eu. Porque fiquei é que me encontrastes aqui dentro e me matastes. Exclamam os espíritos maus:

—Oh! E agora como vais fazer tu?

—Como vou fazer?!... Eu pertenço agora a um mundo diferente. Sou mesmo cá de dentro. Os espíritos maus, vão-se para ele e dizem:

—Tu pertences mesmo a um mundo novo. Mas éque, vindo tu ter aqui dentro, não vieste de lugar nenhum? Diz ele:

—De alguma parte vim eu! Pois se de alguma parte vieste, agora entraste aqui e vamos começar a nossa função, nós, seres maldosos. Nós também morremos, como tu morreste. Mas agora já não pertencemos à vida de outrora. Temos a nossa vida nova de seres malígnos. Ocupamo-nos da nossa função. Vamos começar contigo as nossas operações. Agora és um dos nossos. E ei-los que carregam os seus carros. Carregaram e foram a fazer transporte para certo lugar, onde andavam ocupados. Tendo voltado dali, vieram uma vez mais aonde éo seu aposento. Pegam pois a perguntar-lhe:  

—Então não vamos nós agora àterra donde vieste, para tu nos servires de guia? E tomaram a iniciativa: Vamos! São carregados os carros, jungido o gado, e partem. Andam, andam, andam, andam, andam, andam... e chegam finalmente àtal casa donde havia saído aquele mesmo indivíduo. Exclama ele: —E aqui. —E aqui?

—Sim!

—Então como vamos nós proceder?

—Ora, não vamos nós descansar o nosso gado? E não vamos esperar que o sol se ponha e se faça noite, e assim matarmos durante a noite? E foram-se aproximando de casa. Chegaram exactamente quando o sol estava para se pôr. Deram-lhes as boas vindas —aos tais seres maldosos.

—Sede benvindos, gente dos carros. E eles responderam.

—Ides para esses lados?

—Vamos para estes lados. Estamos em viagem para o Humbe. Êclaro que gente deve dormir ao pé de gente. E esta a nossa resposta. Nada mais. Os da casa agradeceram: Obrigados! Tiraram entretanto os bois de seus jugos. A gente da casa vai observando. Dizem os viajantes:

—Não podemos meter os nossos bois no vosso curral? Respondem (de casa): Ei-los os currais. O número dos nossos bois está completo...O gado entrou. Eles dirigiram-se para os seus carros. Tomaram as suas refeições. Assim que acabaram de comer (disseram):

—Vamos lá dar as boas noites ao dono da casa. Apareceram dois deles a dar as boas noites ao dono da casa. Encontraram-no sentado à lareira.

—Boas noites! O dono da casa respondeu:

—Obrigado! Saistes de ao pé do vosso fogo? Eles responderam: Obrigados! Viemos agora de ao pé do nosso fogo, apenas para darmos as boas noites ao dono da casa. Amanhã talvez madruguemos a cangar os nossos bois... madruguemos e nos vamos embora. Diz o dono da casa: Obrigado! O dono da casa não sabe que entre aqueles individuos se encontra o que lá foi deixar. No seu intimo ele ignora. Afinal eles vão matá-lo durante a noite. Assim que se fez noite, deitaram-se. Pelo meio da noite, todos os que estavam nos carros, todos saíram à uma e foram matar a gente daquela casa. Quer o dono da casa, quer aquelas mulheres, quer as crianças, mataram tudo. E foram-se deitar. No outro dia pela manhã, foram revistar as dependências. Abriram-nas, desfizeram-nas, a ver tudo o que nelas se achava. Tudo o que lá havia, tudo tiraram. E iam carregando em seus carros. E começaram a viagem de regresso, voltando para o lugar donde vieram. Não seguiram para mais parte nenhuma. Enquanto mentiam a dizer: Vamos para o Humbe —era só mentira a intrujá—los. Começam pois a jungir o seu gado de volta àhabitação de onde haviam partido. E todas aquelas coisas que tinham sido furtadas em casa deles, tudo ali encontraram e fizeram-nas voltar para a morada de onde eles tinham vindo. E só assim a minha história. Acabei!

Dados biográficòs e outros como no Nº 1. Esta magnifica narrativa dava para uma longa série de reflexões. Aqui ficam algumas que nos parecem ser de maior interesse para uma boa compreensão do conto. Não ésem motivo especial, que o narrador relaciona uma grande fome —terrível flagelo outrora periódico, no Sul de Angola —com os carros “boers? e um armazém de géneros alimentícios. De facto estes transportes de tracção animal, se não conseguiram eliminar as consequências desastrosas de colheitas falhadas, sempre contribuiram para diminuir o número dos casos fatais. Mas foi com a introdução dos transportes motorizados que a fome deixou pràticamente de existir, transformando-se ùnicamente numa carestia de víveres. Porém a es'a, é hoje fácil fazer face, graças a muitas oportunidades de angariar meios de vida. Já tomamos contacto com os “Chilulos?, mas aqui nos é apresentado um número não especificado destes seres ou espiritos maldosos, ao mesmo tempo que se nos descreve a transformação de um ser humano normal num destes inimigos do bem. Até este ponto estamos dentro das normas das crenças desta gente. Agora quanto à posse de um sem número de mercadorias e meios de transportes adequados à época, são elementos que pertencem ao domínio da imaginação fabulística. Foi muito curiosa a reacção de António Tyikwa, quando, passado bastante tempo depois da gravação dos contos, se lhe perguntou, se foi ele quem neles introduziu os elementos de cultura europeia. Protestou vivamente; que nada tinha alterado nas narrativas que ouvira contar ao seu avô. Não possuimos dados suficientes para confirmar ou infirmar tal asserção. Porém uma coisa é certa, os carros “boers? foram introduzidos no Sul de Angola por um grupo de “Afrikanders? que, fugidos dos ingleses vieram, depois de longas migrações por terras inóspitas, instalar-se no saudável planalto da Humpata, em 1880. Serão necessários mais dois ou três anos até este meio de locomoção se generalizar. Mas por outro lado, é verdade, que os habitantes da região da Quihita foram dos primeiros a contemplar este então assombroso espectáculo. visto a sua terra se encontrar no percurso do Cunene à Humpata. Convém aqui lembrar, que a odisseia dos “boers? foi evocada com cores vivas por J. M. Eça de Queirós no seu livro recente: “A Seara dos Tempos 79 ?.

43: Omufiko N'ovakwendye Valiwa Ina

Omufikwena wavandywa n'ovakwendye vevali. Umwe etyi aya-ko katavelele, omukwao vali etyi aya-ko, e atavelwako. Ina yomufiko ou hinga ulya ovanthu. Otyo omufiko apopila omukwndye okuti: Meme ulya ovanthu. Omukwendye wati:

—N'ame ani-ko, ninde-ko, nikahetekele-ko! Etyi aya-ko watavelwa. Etyi atavelwa, hati:

—Etyi nekutavela nâ, meme tamana ovanthu. M'okukanda onongombe, omo tatyokele ovakwendye vange k'omahinga. Okuya-ko, omukwendye kwatiwa nokuti:

—Endu ukande! Hati:

—Nga tokanda onongombe ndanyoko ivi toti (m'okundimba): Toti nanthele, nanthele! Toti nambinga, nambinga! Tatyukauka opo ina hemutyoko. Ongombe yapwa. Akuya vali onkhwavo. Omufiko hati:

—Nga tokanda ongombe yanyoko ivi, Toti nanthele, nanthele! Toti nambinga, nambinga! Ononthane ndapwa ondo. Hati:

—Tala, hono etyi ahahetekela-ko k'onongombe oko, kekundipaele, hono katulala vali, tuende! Okuya-ila. Etyi vati noho pokati, ye omumati watyo ou, wapula-vo, wapulila m'onombwa ndofika. Etyi vati nô pokati opo, ye omphepo yaina uindi, hati:

—Vandya omuti, londa, meme oyo teya. Hati: Piô, piô nombwa ndange! Piô, piô nombwa ndange! Endweni mutale okanyama kandya! Endweni, mutale okanyama kandya! (bis) Onombwa ndofika ondo ndeya. Okakulukandi oko hakati:

—Eyô lyange eli lyanyena omuti wakukuta! Kaimbwe ou utalala! Hweu! Omuti wawa-po. Onombwa ondo ndakawila k'okakulukandi oko. Sinyaune, sinyaune, sinyaune, sinyaune! Ye vapita. Etyi avati vali pokati akoko, okamphepo keya. Omona hati:

—Meme weya, vandya omuti! Okulonda keulu lyomuti hati: Piô piô nombwa ndange! Onombwa ndeya-po, ndemusinyau-na —po. Onombwa ndeya okusinyauna-po okakulukandi ok o. Sinyaune, sinyaune. sinyaune! Ye tavai m'eumbo. Vakahanga-mo ina yomukwendye. —Mona wange weya! Hati:

Neya. Etyi tyili komima oku tyatokota.

—Onwe muende m'elimba, nimuikile-mo. Okuvaikila-mo. Ye okakulukandi n'ako kawa-po-ila. Keya k'omuali mukwavo watyita omukwendye. Vakahokekela kokulike. Ye muali mukwavo, ou watyita omukwendye wapaka-po ombiya yomeva. Okuvahanga-ila. Okulwa-ila, ou uli kofi, ou uli kombanda, ou uli kofi ou uli kombanda. Okumukupula m'omulungu, okumumima-po; Wamima mukwavo oyou ina yomukwendye. Okumima, ye tatuvika k'ombumbo otyituviko tyotyimphumphu. Mphiê! Okumuhandyela m'ohumbi yomeva afuluka. Oulu nthenene! Lwapwa.

43: Uma Moca Casadoira E Seus Noivos Acometidos Pela Fatura Sogra

Uma moça é pretendida por dois rapazes. Um deles depois de feito o pedido, não foi aceite. O outro tendo-se apresentado, agradou à rapariga. Ora a mãe da rapariga “comia gente?. A moça avisou o rapaz e disse:

—Minha mãe come gente. O rapaz respondeu:

—Apesar disso vou ter com ela para tentar a sorte. Tendo comparecido foi aceite. A rapariga tornou a dizer:

—Aceitei-te, mas pensa bem, a mãe matou já muita gente. É no momento da ordenha das vacas que ela fere os meus rapazes na nuca. Ao chegar a casa, foi dito ao rapaz:

—Vem cá e ordenha! A rapariga recomendou:

—Quando ordenhares as vacas da sogra fazes assim, (cantando): Vais (ràpidamente) de um lado e doutro! De uma banda e doutra! Ao mesmo tempo o rapaz olhava também, desconfiadamente, para trás, para a sogra não o ferir. Uma vaca ficou pronta. Chegou a vez de outra. A noiva cantou novamente: Ao ordenhar a vaca da sogra: Vais (ràpidamente) de um lado ao outro! De uma banda àoutra! As vacas estão todas prontas. A rapariga declarou:

—Como ela hoje não tentou ferir-te no curral, não pernoitamos mais em casa, antes vamo-nos embora. Partiram. Chegados a meio caminho. —(E preciso notar) que o rapaz também possuia poder mágico. Graças a ele, tinha às suas ordens os “cães do mato? (leões). Chegados pois a meio caminho, a rapariga sentiu o “vento? da mãe e disse ao noivo:

—Procura uma árvore e sobe, a mãe está a vir: O rapaz pôs-se a cantar: Pió, pió, meus cães! Pió, pió, meus cães! Vinde e vede a fera que me atacou! Vinde e vede a fera que me atacou! (bis) Os cães chegaram. Mas a velha falou assim: —O meu dente morde numa árvore seca, quanto mais numa verde! Catrapuz! A árvore caiu. Então os cães atiraram-se à velha. Dilaceraram aqui, dilaceraram ali, dilaceraram acolá. Os dois namorados seguem viagem. Tendo andado um pedaço, o tal vento fez-se sentir novamente. A rapariga avisou:

—A mãe está a vir, procura uma árvore! Depois de ter subido, o rapaz chamou pelos cães: Pió, piómeus cães! Os cães vieram. Dilaceraram e tornaram a dilacerar. Os cães vieram dilacerar a velha. Dilaceraram aqui, dilaceraram ali, dilaceraram acolá! A seguir os noivos entraram em casa e encontraram a mãe do rapaz.

—Meu filho, chegaste?

—Sim, cheguei. Mas atrás de mim vem um grande perigo. A mãe respondeu.

- Ide para a cubata—armazém, na qual vou fechar-vos. E ali os encerrou. Apareceu então a velha e chegou-se ao pé da outra, daquela que gerou o rapaz. Juntaram-se as duas. A mãe do noivo põs ao fogo uma panela com água. Investiram-se uma à outra. Bateram-se com força e rolaram pelo chão. qual de cima, qual de baixo. A mãe do rapaz lançou a outra para sua boca e engoliu-a. Depois de a ter engolido, tapou o ânus com um carolo. Um arranque! E vomitou-a para dentro da panela com água a ferver. As pernas esqueléticas da velha deram um esticão e ela morreu.

Terminou o conto.

Dados biográficos e outros como no Nº . 19.

44: Nehova

Omukulukandi wali nomona wae omulike omualikandi, emima lyae Nehova.

Tyapu omona watyo waya m'otyilongro. Tyapu wamona-ko omulume wae. Tyapu omulume watyo wati:

—Tuende tukatale nyoko!

Tyapu omualikandi watyo wati:

—Meme otyifitu, nga hatui-ko, tekekulya.

Tyapu omulume wati:

—Tuende noho!

Tyapu omualikandi wati:

—Tuende, mukwe, tuende, ye tekekulya!

Tyapu vefika. Ina tyapu waasukwa unene. Ye ina wahangwa ovisa. Etyi kwatya, ina wati okuti:

—Telekeni, mulyeni! Ame opo hanikavindwa!

Tyapu vaya m'“ombalaka? valye. Ina wapopile onyiki okuti:

—ONehova nga waya, endu utyihepule-nge.

Tyapu ina wakavindwa, n'omona wapita tupu n'omulume wae.

Tyapu onyiki m'otylkola yahunda-mo yemumumata p'otyikofi. Tyapu ku ou wahangwa temuvindi wati

kuti: —Ndyeke!

Ati: —mukwetu toi-pi?

—Hanikatala Nehova k'eumbo.

Tyapu watopoka. Etyi waya m'eumbo, wahanga Nehova ke-po.

Walipika okankhava kae. Tyapu wati kuti: —Kankhava kange mutende-mamanya, kaimbila muti utalala!

Nehova wati: Omphepo ya meme oyo, tulonde!

Tyapu valonda. Ye ina uli pepi. Ina etyi eya watikuti:

—Kankhava kange mutende-mamanya, kaimbila muti utalala! —Tahimbika okuka omuti apa valondele. Tyapu wawa.

Vo vaifana ovimbwa. Ovimbwa vyemulya. Tyapu ovana vapita k'onthele k'eumbo. Okakulukandi takati:

—Nilimangamanga n'oukipa wange; nipinduka vali n'ounyai wange n'okamutwe kange!

Ovana vefika p'onthele yeumbo. Tyapu ina watopokela-mo. Tyapu wahanga ina yomulume. Tyapu wemumima.

Tyapu m'eimo wahunda-mo vail; tyapu wemumima vali, Ina ya Nehova.

Omulume ati: —Katiaveni ovikumi!

Vevitiava, vapaka-po otupya. Tyapu omo emuhanene m'otupya. Tyapu m'otupya omu mwahunda

onkhangaluvi onene. Tyapu yapita k'evanda.

Omualikandi wati kuti:

—Meme inanthia!

Omulume wati: —Wanthia.

Omualikandi wati kuti:

—Onkhangaluvi yae kweimwene? Ati vali: Hokayeulula-ko!

Tyapu omulume oko apita. Tyapu wamona epuka alikulunguta, taliuya ku e. Tyapu lyamyanga otyimbwa tyae.

Tyanthia. Otyo ati kuti:

—Tyalia ombwa, pamwe tyipaka-ko omukongo.

Tyapu waifana ina. Tyapu ina wati:

—Opo anikaeta ohiva yange.

Tyapu wati kuti:

Katyikeya, katyikeya!

Tyapu epuka lyaningila pofi. Nehova wati:

—Meme wanthia-ila.

44: Nehova

Uma velha tinha uma filha única, essa menina chamava-se Nehova. Esta filha foi para outra terra onde casou com um rapaz. Um dia este disse:

—Vamos fazer uma visita à tua mãe! Mas a mulher respondeu:

—A minha mãe éuma fera. Se formos vê-la, ela vai comer-te (matar). Porém o homem retorquiu:

—Vamos lá! A mulher respondeu:

—Vamos então filho! No entanto ela há-de devorar-te. Chegaram à casa da mãe. Esta ficou muito satisfeita. Deu-se o caso de ela estar com o penteado desfeito. Ao outro dia a mãe disse:

—Cozinhai e comei, eaquanto eu vou àcabeleireira. Assim foram para a cubata grande e comeram. Entretanto a mãe disse a uma abelha:

 —Logo que a minha filha se puser a caminho, tu vens avisar-me. Enquanto a mãe foi arranjar o penteado a filha partiu com o marido. Então a abelha saiu de uma cabaça e mordeu a velha na nuca.  Ela disse à cabeleireira: —Pára com isso! Esta disse: —Amiga, para onde queres tu, ir? —Vou ver se Nehova está em casa. Pôs-se a correr. Ao entrar na casa reparou que Nehova já não estava. Então pôs-se a afiar o seu machadinho e cantou: —O meu machadinho até corta pedras, quanto mais um pau verde! Nehova, na fuga exclamou: Estou a sentir o cheiro da minha mãe! Subamos a esta árvore! Subiram. A mãe estava a chegar. Estando já ao pé, pô-se novamente a cantar: —O meu machadinho até corta pedras, quanto mais um pau verde! Começou então a cortar a árvore à qual os dois tinham subido. Esta caiu. Neste transe a filha e o genro chamaram os cães. Estes dilaceraram a velha e os dois chegaram ilesos perto de sua casa. A velha disse para si mesma: —Vou consertar os meus ossinhos, a fim de me pôr novamente em condições de andar com os meus farrapinhos e a minha cabecinha. A filha e o genro chegaram ao pé da casa. Mas a mãe correndo entrou antes. Encontrou-se all com a mãe do rapaz. Esta devorou a outra. No entanto a devorada saiu novamente da barriga. Tornou a engoli-la, à mãe de Nehova. O homem disse às suas mulheres, isto é; à mãe e à mulher: Ide apanhar lenha! Foram e fizeram fogo. Nele a mãe do rapaz lançou a outra pelo orificio anal. Do fogo saiu então uma grande borboleta. Esta tomou rumo da baixa, de ao pé do rio (Cunene). A mulher disse: —A mãe ainda não morreu! O marido contestou: —Morreu. A mulher respondeu: —Não viste a sua borboleta? E acrescentou: —Não vás abrir a porta (que conduz ao interior da cerca). Mas o homem lá foi abri-la. Reparou então que estava ali um monstro que, rolando avançava para ele. Esmagou—lhe o cão que morreu. Disse então o homem: —Esta coisa deu cabo do cão e com certeza não há-de poupar o caçador. Chamou agora a mãe. Esta respondeu: —Deixa-me ir buscar o meu amuleto. Então ela ameaçou o monstro: —Tu não avanças mais, tu não avanças mais. Neste instante o monstro desapareceu por debaixo da terra. Exclamou então Nehova: —Agora é que a mãe morreu deveras.

Dados biográficos e outros como no Nº 28. E manifesta a semelhança entre as duas narrações transcritas. Afigura-se-nos que elas fazem parte do tesouro fabulístico dos Humbes, de que a segunda versão representa a original, não passando a primeira de uma nova edição, contendo no entanto alguns trechos originais. Quanto ao tema versado, encontramo-nos ainda em plena ambiência mágica e por isso à margem do comportamento moral que éregra observar em circunstâncias normais.

45: Omulume N'Omukai N'Endila

Omulume una omukai wae k'eumbo. Kumbi limwe wati:

—Anikatela omiyo vyange m'ofika! Etyi aya-ko, wahanga-mo ohandyi. oyo yatanga okutiwa:

—Mphulule-vo onkhali yohlka, ame nikupulule onkhali yotyilongo. Tyapu weiyeka. Tyapu waya k'eumbo. Etyi efika-ko wetyisipulila omukai okuti nahanga ohandyi yati okuti: Mphulule-vo onkhali yohika, ame nikupulule onkhali yotyilongo. Omukai wanyumana. Etyi anyumana, tyapu valala. Etyi valala tyapu kwatya. Ongula omulume wakatala k'omiyo vyae oku akatelatela. Tyapu etyi aaluka, wahanga omukai waya k'ovoina. Vese n'ovana, n'ovityuma vyae waya n'avyo. Etyi ati m'ondila, wahanga-mo endila. Endila nkhe lyemumona haliti:

—Umbila, umbila! Ye omukai tandimbi:

—Kambala kami koka, ndiendelela-ko! Kakwavo vali koka, ndiendelela-ko!

—Umbila, umbila!

—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila!

—Kakwavo vali koka, ndiendelela-ko!

—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila!

—Kamona kami koka, ndiendele-la-ko!

—Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila! Mukwavo vali yu, ndiendelela-ko! Ove hatyinyama mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila! Ame “ondonu?

 yu, ndiendelela-ko! Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila! Tyapu otyindila tyemulya. Omulume etyi eya k'eumbo, hati:

 —Uh! Omukai wange un'ononyengo onombi. Pahe wapita n'ovana. Walongela ononkhondyi, n'oviti vyae vise. Tyapu okulandula omukai. Etyi ati apa pefikilile ale omukai, wahanga nô endila olyo lyatandavela. N'okufika nô, ye endila aliti:

 —Umbila, umbila! Omulume tandimbi: Kahondyi kami koka, ndiendelela-ko! Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila! Katana kami koka, ndiendelelela-ko! Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila!

—Umbila, umbila! Kahunya kami koka, ndiendelela-ko! Ove hatyinyama, mitise, naumbila etandandila! Etyi amana, tyapu walonda k'omuti. Etyi alonda k'omuti ye taifana ohandye:

—Handyi, handyi! Otyipuka wampholile otyotyino! Ye handyi kuna wetyitia ye tatopoka hati:

—Tweya, onthwe ovohandyi vokamupindi okakusu, twalile omakisi ombanda, pahapa twapilukila omboloka. Tyapu vetikwete. Papulule, papulule omaiso otyindila otyo tyokuti: Umbila, ye omulume ou tapolo omwele, okulitanda okupola-mo omuki wae. N'ovana vanyungulukila na ina. Tyapwa!

45: Um Homem Sua Mulher E Um Grande Passaro

Um homem vivia em casa com a sua mulher. Um dia ele disse:

—Vou armar as minhas armadilhas no mato! Indo depois vê-las encontrou presa uma perdiz. Esta falou:

—Ajuda-me a sair desta vida desgraçada a que estamos sujeitas no mato e eu vou ajudar te nos infortúnios da terra (habitada). Deixou-a livre e foi para casa. Tendo chegado a casa, contou o sucedido à mulher: Apanhei uma perdiz que me disse: Livra-me das desgraças da floresta e eu te valerei nas desventuras da terra (habitada). A mulher ficou zangada. Ambos foram deitar-se. Passada a noite, amanheceu. Então o homem foi novamente examinar as armadilhas. Regressado a casa reparou que a mulher tinha ido para a mãe, levando os filhos e todos os seus pertences. Ao caminhar ela encontrou um pássaro-monstro. O pássaro, ao vê-la disse:

—Deita para cá (a paga da passagem). A mulher pôs-se a cantar:

—Este meu cestinho leva-o, que eu possa passar! Este outro também toma-o, que me abra a passagem!

—Deita para cá, deita para cá! O besta deixa-me ir, já paguei passagem!

—Deita para cá, deita para cá! Toma mais esta, que sirva de passagem! O besta deixa-me passar, pois já paguei a passagem!

—Deita para cá, deita para cá! Toma agora o meu filhinho, que dê passagem! O besta, deixa-me passar! Já paguei passagem!

—Deita para cá, deita para cá! Agarra também mais este, que me abra o caminho! Maldita besta deixa-me passar, já dei pela passagem!

—Deita para cá, deita para cá! Agora entrego me a mim mesma! Maldita besta, deixa-me passar! Já paguei passagem!

—Deita para cá, deita para cá! Assim o monstro devorou-a. Quando o homem chegou a casa disse:

—Hum! A minha mulher tem maus figados, para ir-se embora e mais os filhos. O homem carregou com os arcos e todos os cacetes e foi atrás da mulher. Quando chegou ao lugar onde tinha parado a mulher, deu sòmente com aquele pássaro. Estava a atravancar o caminho. Ao aproximar-se disse-lhe o pássaro:

—Deita para cá, deita para cá! O homem pôs-se a cantar: O meu arquinho que seja o pagamento! Maldita besta, deixa-me passar, Já entraguei a passagem!

—Deita para cá, deita para cá! A minha catana seja outro pagamento! Maldita besta já paguei, deixa-me passar!

—Deita para cá, deita para cá! O meu cacete pequeno, sirva então ele de pagamento! Maldita besta, deixa-me passar, éque já paguei! Depois de ter entregado tudo, subiu a uma árvore. Chegado ao cimo chamou pela perdiz:

—Perdiz, perdiz! Aquela coisa de que me falaste, aconteceu agora! Ao longe a perdiz ouviu os gritos. Correu então e declarou:

—Cá chegamos, nó as perdizes das perninhas vermelhas. Já demos cabo dos monstrous de lado de cima. Agora virámo-nos para os de baixo. Nesta altura as perdizes as perdizes atiraram-se ao passarão e picaram-no com força. Vazaram os olhos àquela passarão que dizia: Deita para cá, deita para cá! E ele acabou por morrer. Depois de morto o homem pegou numa faca, abriu-lhe a barriga e tirou para fora sua mulher e os filhos que tinham abandonado a casa com a mãe.

Acabou!

Dados biográficos e outros como no Nº. 20. Esta narração podia ter sido englobada na série dos Monstros. Preferimos porém inseri-la nesta. por casua do curioso mágico entre o caçador e a perdiz. Tanto mais que num conto registado por Hauenstein entre os Bundos, ocorre um motivo análogo. Uma perdiz apanhada no laço faz ideêntica declaração ao caçador: “Não me mates. mas libertame deixando-me ir para o mato!... Eu, um dia, sal-ver-te-ei na aldeia?. No entanto existe uma pequena variante na narrativa bunda. Quem foi libertada pela perdiz das garras do leão, não foi o cacçador, mas sua mulher, a qual até essa data, tinha tornado ao pobre marido a vida muito negra. Entre os bundos de Caconda, corre ainda outra variante do mesmo tema. Nela o pomo de discórdia entre o homem, agricultor e caçador e sua mulher, encarregada de um campo de trigo, é a negligência desta. Não culdava da seara do marido, como era o seu dever. Apesar de ter sido admoestada e ameaçada de castigo, recaía na mesma falta e um dia deixou a um pássaro comer uma grande porção do precioso cereal. Procedeu assim porque a ave pedira com insistência, acrescentando esta promessa: “Se tu me valeres nesta aflição da fome, também te hei-de valer em qualquer desgraça?. O marido porém passou das palavras aos factos e puniu duramente a desobediente. Em seguida ela aproveitou a saida do homem para a caça e abandonou a casa, levando também os cinco filhos. Porém no caminho deparou-se-lhe uma grande cobra que impedia a passagem. A partir desta altura, estabelece-se um verdadeiro paralelismo entre esta narração e o conto por nós gravado: nas exigências da cobra —que afinal éo marido transformado em réptil —na maneira de as satisfazer para obter a passagem livre. O próprio vocabulário e a melodia do canto oferece grandes semelhanças. Finalmente a mulher, tendo trepado a uma árvore, antes de entregar o último filho, lembrou-se de chamar pela ave que, dando valentes picadelas na cabeça do monstro, a salva de ser devorada. Em seguida o filho pegou na navalha que trazia consigo para abrir a barriga da cobra morta. Sairam dela todos os seres tragados pelo monstro. Termina o conto com esta curiosa nota de aculturação: “Todos os Entes humanos, ao aparecer novamente à luz do sol, transformaram-se em Brancos. (Resmno do conto escrito por Aldina Situkuli). A observação feita, concernente à linguagem usada por esta narradora (V. No . 41), vale aqui ainda com maior pertinência. De facto podem discernir-se neste conto vocábulos de, pelo menos, quatro linguas ou dialectos diferentes. E nas formas gramaticais reina o mesmo sincretismo. Aliás, o extraordinário linguista que foi H. Chatelain já tinha notado um fenómeno semelhante nos contos em quimbundo. Neles os monstros falam, às vezes, uma língua mal conhecida pelos narradores, ou. como o autor se exprime: usam um dialecto de uma tribo afastada, de cuja fala têm algum conhecimento, não deixando o citado autor de indicar alguns exemplos do curioso fenómeno inguístico.

46: Omnhikwena Wakatiava Ononkhwi

Opopo umwe. Omuhikwena wakatiava ononkhwi. Omuhikwena hikê m'ohika, ahimbika n'okunyingailila Omankhondo, okutaindya ovikwi. Etyi ati-ko ngana, welihaka k'okamuti kavyuka nawa nawa, kanyolwa. Omuhikwena atyimupe okuketalamena nawa, okuketala. Atyimupe okupula okuti:

—Pahe omunthu watyo wokwanyola okapuk'aka olye ou? Naina omunthu watyo wokwanyola onkhulika. Naina una waholamena ng'-opo, okutala olye uya-po. Omuhikwena etyi akala-po himbwe, himbwe, muhekulu yokamuti aka kamoneka. Omuhikwena ati (m'okuimba): Olye wanyolanyola okamuti aka? Naunyole. Ng'ove nkhofi! Nkhofi, nkhofi ndumbu naunyole! Ng'okafitu kaly'ovanthu naunyole! Iya Nkhulika eya ati:

—Ove otyityi weya okulinga apa? Omuhikwena ati: Ame namona okamuti aka kanyolwa. Mba mba-vo! Ndekese-vo, olye wekanyola. Nkhulika ati: Ame. Iya pahe ove uhanda-tyi?

—Ame ndyihanda ndyinyolwe ng'-okamuti aka, n'ame ndyinge-vo ng'oka-muti aka! Nkhulika ati: Pahe mandyikulingi, mandyikunyolo. Tyino moende k'ombunga yove, nawike utyitolela, wehelilekese ku munthu nawike! Iya Nkhulika akwate omuhikwena. Lase, lase m'olutu, emunyolo umwe naua, naua. Etyi apwa ati:

—Kuende? Omuhikwena akondoka k'eumbo. Etyi aveluka, ai k'otyipito, oku aihenenwa na vakwavo. Iya vakwavo etyi vemumona etyi ehiwa, avati:

—Iya mukwetu, wekulinga ngetyi olye? Omuhikwena ati:

 —Ame pena ou wanyola. Ongo wati, ame ankho ndyityipopia, mandyipâ. Hipondola okumupopia. Vakwavo ha kumukuluminya? Omuhikwena ha kutyitola, ati:

—Nanyolwa na Nkhulika. Iya vakwavo avati:

—Tuhindikilevo, n'onthwe tukanyolwe!. Omuhikwena ha kuvehindikila, ha okuya-po, okutalama p'okamuti katyo, ha kuhimbika n'okuimba? Naina Nkhulika eli vala opo n'okutala nawa, nawa etyi tyikahi-po. Omuhikwena apaleka okulmba: Olye wanyolanyola okamuti aka?... Nkhulika eya ati:

—Ame nekutolela-tyi? Omuhikwena ati: Ame ovakwetu ava vamona k'otyipito oku tweile. Ovo pahe vati: N'onthwe tutwale-ko! Tukalingwevo, ngatyi n'ove walingwa! Iya Nkhulika ati: Ewa, mandyimunyolo, ongo muhetyitolelei munthu nawike! Ove, vakwenyi ava tyino vapwa okunyolwa, anthipo ove wokwevehongolela kuno, ongo natile wehetyitolele nawike, ove kumaende! Molingi omukai wange, mandyikunepe. Iya Nkhulika ati: Onwe kuendei! Ovahikwena ava ha kutunda-ko n'okuhateka, vavela vali ouoma n'otyipuka etyi valinga, tyetyi katyivehambukisilwe vali, tyetyi mukwavo wesala-ko. Iya Nkhulika okutyinda-ko omuhikwena ou wahongolele vakwavo. Ha kumueta apa vakala? Okumueta p'epata lyae. Ha muhikwena ou wakala na Nkhulika, wanepwa umwe na Nkhulika. Mueli, Nkhulika walala, iya ati:

—Mukai wange, nthunye po onona! Iya pahe Nkhulika alala umwe k'ovikalo vyomukai ou. Ahimbika okutunya onona m'omutwe womulume. Ou naina otumphoki twemuendela, alala otumphoki. M'okwalala omuhikwena emuyomboloka, emuhene aí k'eumbo lyavo. Nkhulika etyi apahuka-po, okuliti-ko, omukai ankho umutunya onona kepo vali. wapita, wakahateka k'eumbo. Iya Nkhulika wesala-po, ahalandula vali omukai. Ou omukai ayovoka umwe ngotyo, okutunda p'omankhanya a Nkhulika. Ai k'ombunga. Nkhulika esala m'ohika yae. Sambwuilikiti. Oluñgano lwomuhlkwena wononkhwi.

46: Uma Rapariga Que Foi Buscar Lenha

E desta mesma que se fala. Uma rapariga foi busear lenha. Tendo chegado ao meio da floresta, ela embrenhou-se numa moita à procura de lenha. Ali deu com uma pequena árvore muito direitinha que ostentava desenhos na casca. A rapariga ficou com vontade de examinar a árvore de perto, ao mesmo tempo teve a curiosidade de perguntar:

—Quem foi que gravou estes desenhos na árvore? Afinal este “alguém? era o leão. Ele porém tinha-se escondido lá perto, para ver quem por ali aparecia. Depois da rapariga ter ficado ao pé da árvore muito tempo, surgiu então o “dono? desta. A rapariga pôs-se a cantar: Quem éque gravou riscos nesta arvorezinha? O desenhador és tu Leão! Tu Leão, animal fulvo és quem gravaste desta forma! Fera devoradora de gente a fazer riscos deste jeito! O Leão aproximou-se e disse:

—Que vieste aqui fazer? Respondeu a moça: Deparei com esta arvorezinha gravada. Por favor indica-me quem fez os desenhos! Resposta do Leão: Fui eu. Que queres tu afinal? Disse a rapariga: Eu também gostava de ter desenhos (no meu corpo) como esta arvorezinha, que se me faça como a esta arvorezinha! Resposta do Leão: Vou te fazer o mesmo. Vou ornar o teu corpo com desenhos. No entanto, quando fores para tua família, não podes mostrar-te a ninguém, não podes revelar o que se faz! Então o Leão pega na rapariga e pôs-se a lamber, a lamber-lhe o corpo. Depois de acabado, perguntou-lhe:

—Não te vais embora? A moça voltou para casa. Quando a tatuagem tinha cicatrizado, a rapariga foi a uma festa para a qual tinha sido convidada pelas outras. Estas ao verem-na tão bonita, perguntaram:

—Amiga, quem te fez assim? Ela respondeu: Foi alguém que me fez riscos. Ele ameaçou-me dizendo, se eu o declarar, mata-me. Por isso não posso dizer quem foi. Mas as companheiras insistiram tanto que ela acabou por confessar:

 —Foi o Leã o que me fez a tatuagem. As outras disseram então: Leva-nos também para lá, a fim de ficarmos tatuadas como tu. A rapariga levou-as. Chegaram e quedaram-se diante da arvorezinha e puseram-se a cantar: Ora o Leão encontrava-se lá perto a observar a cena. A rapariga repetiu então o canto: Quem éque gravou desenhos nesta arvorezinha?... O Leão chegou-se e disse:

—Que te recomendei eu? A rapariga declarou: Estas minhas companheiras viram-me numa festa onde tinhamos ido. Disseram: Leva-nos a nós também, que se nos faça, como a ti! O Leão respondeu: Estã bem! Vou pôr-vos risquinhos, mas não o digais a ninguém! Porém tu, logo que as outras estiverem prontas, tu que as conduziste até cá, apesar de eu ter dito de não declarares nada, tu não voltas com elas! Ficas a ser minha mulher; vou casar contigo. Disse ainda o Leão: Vós outras ide! As raparigas foram a correr, pois encheram-se agora de medo por causa do que tinha acontecido. Ficaram desde então sem alegria, por a outra ter sido detida. Então o Leão levou a moça, aquela que tinha trazido as restantes. Conduziu-a para as suas moradas e instalou-a no seu lar. E a rapariga coabitou com o Leão, foi mesmo desposada por ele. Uma vez o Leão, estando deitado disse para a mulher:

—Vem catar-me os piolhos! Assim, o Leão estendeu-se sobre as pernas da mulher que se pôs a apanhar os piolhos nos cabelos do marido. Este pegou no sono. Quando ele estava assim a dormir, a moça afastou-se cautelosamente. Fugiu e foi para casa. O Leão depois de acordar, reparou que a mulher que estava a catar-lhe os piolhos desaparecera, tinha—se ido embora para casa a correr. O Leão ficou sõzinho e não foi atrás da mulher. Desta forma a rapariga viu-se livre das garras do Leão. Foi para sua familia. E o Leão continuou a viver na sua floresta. Açalmo para ti!

Terminou o conto da rapariga da lenha.

Dados biográficos e outros como no Nº 30. Para compreensão do motivo central desta narração, importa saber que são poucas as etnias do Sudoeste de Angola que praticam a tatuagem feminina, a saber: as Quilengues-Humbes, Handas e Quipungas do grupo étnico NhanecaHumbe. Como a narradora passou a sua infância e adolescência em Vila Arriaga, équase certo que o conto é de origem quilengues, embora ela já não se lembre a quem o tinha ouvido narrar. De facto os arredores desta vila são uma verdadeira encruzilhada de povos. No fim do século passado aquela terra constituia o ponto de junção entre Nhanecas e Cuvales, sendo muito pouco povoada, dadas as relações nada amistosas que entre eles existiam. Confinava pelo Norte com os Quilengues-Humbes. Mais tarde vieram ali flxar-se Mbális (Quimbares) e emigrados do Sul, particularmente por altura da grande fome de 1915: Cuamátuis, Donguenas, Humbes e Dimbas. Quanto à forma dos desenhos escarificados, parece-nos não poder fazer melhor do que transcrever o que notamos a este respeito no segundo volume da “Etnografia?. O desenho básico é um quadrilátero mais ou menos regular, de uns 10 cm de lado em média e tendo por centro o umbigo. Cada um dos lados é formado por duas linhas de cicatrizes em relevo. Termlnada a figura base, marcam uma vertical a nascer ao meio do lado superior do quadrilátero, a não ser que prefiram sobrepor ao quadrado um pequeno triângulo de cuja ponta sairá depois o braço vertical. Este é mais ou menos largo, conforme for formado por duas ou por três fiadas de cicatrizes e encontra-se invariàvelmente encimado por um desenho triangular que lembra a forma do machadinho ritual dito Ekuva. Daí o nome por que designam esta parte da tatuagem. Ao dizermos que o fecho terminal do braço é invariàvelmente de forma triangular, precisemos que algumas mulheres ostentam uma ekuva dupla. A altura total do desenho, desde a base do quadrilátero até à ponta de ekuva, atinge entre os 20 e 25 cm.

47: Kaniminimi - Ombumba Yomakihi - Na Nangondwe Yok'Omphanga Tyoulukahu Yok'Eheva Lyapaka

Vetatu vatyo velihole oupanga. Okaniminimi avasa ombumba yomakihi ahika onthanango. Kaniminimi uhika onthanango yomalohi. Mbumba yomakihi ati:

 —Tukumane! Kaniminimi etavela. Avakumana. Kaniminimi wesala n'onthanango yonthane. Mbumba yomakihi yesala n'onthanango yomalohi. Kaniminimi ati:

—Nga naya kokule, mbasei: Mbumba yomakihi aapumphamena k'onkhanda, onthanango aiunguluka. Aati:

—Otyityi etulingile omaeñgeñge? Aanumana. “Matumulandula?. Okumuvasa, uli k'ombanda yonkhanda; m'ombwelo mun'ononkhapi. Avemupulu:

—Otyityi wetukembela? Ati: Nalumbanena ovimbwa vyange evi. A ati:

 —Tukumane ñgo. Avakumana. Kaniminimi esala n'ononiuwa mbokutekulwa n'ovanthu. Kaniminimi ati:

—Ovimbwa vyange evi vipolei-po, ame napita. Viyandyane, atyiti: ou upola-po vyae; ou upola-po vyae. Avivekwata okuvenyaa: nyaa-nyaa, nyaa-nyaa, nyaa-nyaa... Avai-po nkholo, olunuma alulingi olunyingi. Avemulandula ñgo. Avemuvasa m'etaka. Avati:

—Otyityi wetulingile? Ati:

—Hanongombe mbange ombu cnongolo?

—Tukumanei ñgo! Tyolunuma avetyiyeka-po. Kavetyiyeka-po? Kaniminimi asinga onongombe. Mbumba yomakihi esala n'onongolo. Kaniminimi ati:

—Nga naya kokule, mbusingei-po: ou upola-po ongombe, ou upola-po on-gombe. Wevekemba ñgo. Mbumba yomakihi okuenda, n'onongolo ambui nkholo. Olunuma aluyawisa - ko. Avemulandula. Vemuvasa, avemukutu. Vemuvetele omphango vemuipae. K'omuhuka etyi kwatya wakutwa. Nangondwe yok'Omphanga weya. Ati:

—Lyepe-ko, tava! —Otyityi-ale otyo tava? Walinga-tyi? Ati:

—Tyatiwa nakemba... Avati: —Katwekukwatele?!... Nangondwe watundilila-pi? Ati:

—Nakalile omakihi k'ombanda, ndyienda ñgo n'ok'ombwelo.

—Napopaila pano... otyityi mwakuhukila omipindi? Ombumba yomakihi okutyiiva, aaenda nkholo. Kaniminimi wahupa. Nangondwe ati:

—Kutale otyipuka nekuhukulula, wetyimona?

—Aha! Hetyimwene. —Hatyetyi naetele nkhwali onkhali ya ngoi, kumbi ndyikupole onkhali ya fika. Pahe hekukutulile k'onkhali wakwatelwe? Usoka ñgeli, pahe? —Au, ndyitupu etyi ndyipopya. Ati:

—Ehe! N'ame mBeu n'ove Kaniminimi, tuendei k'Ongandu k'enyana, tukalinge otyipito tukalye. Hakuya? Ngandu ati: Tukataindye omunankhono wokukwata onohi. Tuholovonei.

—Iya, m'eanda lyetu, onkhwalukuwo. Oe m'eimo lyetu wokukwata onohi. Onkhwalukuwo ahimbika okunyingila ononthwitwi. Ndwi... omuloi! Ndwi... omuloi! Ndwi... omuloi! Avalingi umwe otyipito tyokulya n'ononkhela mbanyungwa. Otyipito umwe tyombunga ike, eimo lyavo umwe. Avamane okulya, avanyane.

—Pahe tumbunga!... Tyapwa aveliyandyana. Aveya ovanthu pahe. Ekwandambolo weya. Opo ckahi. Utunda-ko k'eumbo, k'ovanthu. —Iya, ove?

—Eh! Ame opo, ndyikahi pano. Amuipula-pula ovo, vok'etunda. Pahe, heile okulinga otyipito?

—Kwapwa! Pahe twahonya! Atuho tumbunga: Ou uhanda akalalela k'omukwavo; ou uhanda akalalela k'omukwavo; ou uhanda akalalela k'omukwavo. Wati:

—Mba! Pahe kaveile okutapa omeva? Ovaenda kaveile? —Ngetyi mweya apa... Ovokaniminimi vapita aveho na Nangondwe yok'omphanga. Ati: —Twaya lumwe. Otyipito tyenyi. Avati:

—En... Onthwe... omphuka twemutelekelele ovaenda. E... kwandambolo ... —Mwemutelekelele ovaenda?!... Avati:

—En... Ati:

—Wo! Otyityl mwalingile ngotyo? (Upulwa ngotyo, ovana va Tyiwana). Ati:

—Hetyiivile. Kaihanei Tyiwana! Muhuka etyi kwatya, m'onthiki ya vali, Tyiwana weya. (Upula Ongandu):

—Ove Nkhwandambolo... oñgeli? —Ekwandambolo... iya, vana kavetyipopile okuti ekwandambolo... vemutelekela ovaenda? Ati:

—Onwe ekwandambolo mulya? (Upulwa óTyiwana na Ngandu). Ati:

—En, twemulya. —Mwalinga omapita. P'okati ketu ankho ombunga. Onthwe etyi mutekula Ekwandambolo, atuti umwe: Tatekulu! Ongetyi mutapa muno omeva. Atyiti, vatwaile Ekwandambolo, vakalye na Nkhwandambolo omeva, vevetapela. Vemutwaile m'“okonta? katyindi nthenda k'omutwe. Onwe, etyi mwemulya ngetyi, mwalinga omapita. (He! Kutiwa nae... hepunda? Hakumukwata?). P'okati ketu matulilya-lya umwe. Matuliti umwe:

—Onwe mulyalya ono-fufwa ombuto ya Nkhwandambolo. Onthwe matulyalya umwe ovanthu. M'“okonta: Katulii vali. Tyilingwe umwe p'ehanyikilo Iyetu; katulimona-mona umwe vali!... Waile umwe n'omeva omunthu, Ongandu, n'ovana vange va Ngandu, mavakwata. Tyati lumwe n'onyoka, tyati umwe n'oluhenge okumona-mo ovanthu, mavakwata. Onwe onofufwa kalyei-lyei umwe. Ohasa yenyi tweliavela umwe, twelitetulila. Twamana!

47: Kaniminimi - O Bando De Monstros E Nangondwe O Da Ilha - O Das Cabacinhas De Recolha No Mato De OxaLias Cheias De Tuberculos

Estes três personagens pactuaram amizade. O Kaniminimi encontrou um bando de monstros que preparavam uma veste de pele macia. Kaniminimi estava a amolaxar uma lmitação feita de cera de abelhas silvestres. Disseram os do bando de monstros:

—Vamos trocar! Kaniminimi aceitou. E trocaram. Ficou Kaniminimi com a pele amaciada de bezerro. O bando de monstros tomou a imitação de cera de abelhas silvestres. —Observa Kaniminimi:

—Quando eu for longe, vinde ter comigo! Os monstros do bando foram —se sentar sobre a rocha (ao sol) e a lmitação de cera derreteu. Exclamaram então:

—Porque éque ele nos prega partidas destas? E ficaram fulos. “Vamos atrás dele?. Ao depararem com ele, está em cima de uma rocha tendo por debaixo umas panteras. Perguntaram-lhe pois:

 —Por que é que nos mentistes? E ele: E que eu estava com pressa de vir a estes meus cães. E eles responderam por seu turno:

—Façamos nova troca. Fizeram a troca. Kaniminimi ficou com verdadeiros cães domésticos. Observa Kaniminimi:

—Estes meus cães, tomai-os convosco, depois de eu ter partido. Que eles se espalhem e depois: Vem um e toma os dele e vem outro e toma os dele. E as panteras agarraram-nos e esgadanharam-nos: esgadanha-que-esgadanha, esgadanha-que-esgadanha... Os monstros puseram-se em fuga. E a sua cólera tornou se enorme. Continuaram pois a persegui-lo. Encontraram-no nos terrenos de ao pé do rio. E disseram:

—Que é que tu nos fizeste? Resposta dele: Então não foi por causa destes meus bois listrados?

—Façamos troca outra vez. A zanga deixaram-na de parte. Pois não a deixaram eles? Kaniminimi vai a tocar os bois. O bando de monstros ficou com as zebras. Dissera-lhes Kaniminimi

—Quando eu já estiver longe, tocai-os. Toma cada um o seu boi, cada um o seu boi. Tornou a intrujá-los. Aproximandose o bando dos monstros, sucede também que as zebras deitam a fugir. A sua cólera aumenta ainda mais. Põem-se no seu encalço. Encontram-no e amarram-no. Resolveram aplicar-lhe pena de morte. No dia seguinte pela manhã estava ele amarrado. Chega Nangondwe-da-Ilha. Diz-lhe o preso:

—Benvindo, ó companheiro!  

—Ó camarada, mas que vem a ser isso? Que fizeste tu? Diz ele:

—Entendem que menti... E os do bando:

—Pois não te prendemos?! ... Nangondwe, donde vens tu? Resposta:

—Fui comer monstros ali para cima, agora continuo ali para baixo.

—Eu já aqui tinha dito... porque tendes as pernas vermelhas? (fala Kaniminimi a meter medo aos monstros). Os monstros do bando, ouvindo tal, desataram a fugir. Kaniminimi escapou. Observa-lhe Nangondwe:

—Não vês como eu te salvei? Percebeste isto?

—Não, não! Não percebi.

—Então não éporque eu “me havia metido talvez em pecado de armadilha para um dia te tirar a ti de “pecado (de andanças pelo) mato? E não te livrei eu agora do crime por que tinhas sido preso? Que pensas a este respeito?

—Não, eu não tenho nada a dizer. —Continua Nangondwe:

 

—Pois bem! Eu Sapo-Concho e tu Kaniminimi, vamos ter com o Crocodilo ao rio, vamos fazer uma festa com banquete. E vieram. Fala o crocodilo:

 —Vamos procurar um valente que nos agarre peixes. Escolhamos. —Pois no nosso clã é a águia pescadora. E ela na nossa parentela, quem agarra peixes. E a águia gritadeira 84 começa a dar mergulhos. Um mergulho... e um bagre! Um mergulho... e um bagre! Um mergulho... e um bagre E fizeram realmente um banquete festivo, sem que faltasse a cerveja. Realmente uma festa de uma só família, da sua própria parentela. Levaram ao fim a comedoria e puseram-se a dançar.

—Agora somos família!... Por fim separaram-se. Começou então a afluir gente. Veio o galo. Lá está ele. Vem de uma casa onde vive com seus donos.

—Então o que há contigo?

—Nada! Eu por mim cá estou. Interrogai esses que moram lá em cima na floresta. Então eu não vim tomar parte na festa?

—Acabou-se. Presentemente estamos ligados! Todos uma só família: Um que o deseja vai pernoitar a casa de um outro; cada um que pretenda vai a casa de um outro; qualquer um que o deseje vai a casa de um outro. Responde o galo:

 —Obrigado! Junta-se então gente que vem àágua. Trata-se de hóspedes que surgiram algures lá em casa.

—Uma vez que viestes visitar-nos 86 ... Entretanto Kaniminimi e Nangondwe da-Ilha vão-se embora. Dizem àdespedida:

—Nós retiramo-nos. A festa agora évossa. (Surgem novamente os donos da casa visitada). Falam os outros para as visitas:

—Bem... Nós cá... foi isto que cozinhamos para as visitas. Foi... um galo ...—Vós cozinhaste-lo para as visitas? E eles:

—Sim. Diz então (o Crocodilo) —Oh! Porque é que procedeste de tal sorte? (Quem assim éincrepado édos filhos de Tyiwana). E acrescenta (o crocodilo): Não entendo isto. Ide chamar Tyiwana. Na manhã do dia seguinte, no segundo dia portanto, Tyiwana aparece. (Quem pergunta é o Crocodilo):

—Ouve cá, essa questão do galo... como foi? —O galo... pois então eles não disseram já que o galo... fizeram dele um cozinhado para as visitas? —Vós comeis galo? (O Tyiwana é que é interrogado pelo crocodilo). E diz o Tyiwana: Sim, comemo-lo.

—Vós procedeste mal. Entre nós havia laços de família. Do mesmo modo que em vossa casa cuidais do galo, dissemos realmente connosco: Obrigados! Seja-vos permitido vir aqui à água... E portanto: já que levam água para o galo... pois que aproveitem também com o galo da água que vêm buscar. Levamlhe a água, porque ele não pode carregar cabaças à cabeça. Agora porém que o comestes, cometestes uma acção criminosa. (Ai! Deitam-se a ele todos a fazer monte. Claro que o agarram). Continua o crocodilo:

—Doravante vamo-nos comer uns aos outros. Entre nós e vós, será pois assim: Vós comereis as galinhas, que são a origem do galo: nós, pela nossa parte, devoraremos os homens. E porque não mais nos conhecemos. Seja assim tal e qual, a partir desta nossa deterioração de relações. Não nos poderemos ver mais!... Levada que seja pela água uma pessoa, o Crocodilo e os meus filhos, os do Crocodilo, hão-de agarrá-la. Até mesmo a serpente, e ainda o lagarto aquático apanhando gente, agarrá-la-ão. Quanto a vós, ide saciar-vos com as galinhas. Assim decidimos entre nós o castigo que à vossa falta se segue, assim estabelecemos a sentença.

Acabamos! (o conto).

Narrador: Fernando Ndalu, casado de 35 anos de idade, da etnia Gambos (Ngambwe) Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka. Esta narração devia ter sido inserida na série das dos animals, apesar de nela intervirem também monstros e se fazer alusão a um pacto mágico. De facto, por mais fabuloso que possa parecer o protagonista, ele não é outro, senão o Sapo-Concho, animal esperto e manhoso, muito do nosso conhecimento. Os seus dois comparsas Nangondwe yo K'Omphanga e Tyoulukuhu yo K'Eheva, são a Perdiz e o Leão. Quanto à“forma literária? a narrativa émuito elíptica e por isso pertence àquelas que pressupõem muitos conhecimentos nos ouvintes, sem os quais elas se tornam quase ininteligíveis. Daí a necessidade de intercalar notas explicativas, tanto no texto banto, como na tradução portuguesa. E nesta, como énatural, em número muito maior. (Todas essas anotações são da autoria do P.e Silva). Também épermitido ver nesta maneira de falar, como um embrião de uma lingua secreta, uma espécie de criptolalia.

E: Contos Que Encerram Elementos Mitologicos (três narrações)

48. Ekihi N'omukai Omunthimba

Omukai wankhya ondyala. (Op'ondyala). Akapola “olata? yotyipoke, ike k'ekihi. Omukai ati:

—Tyino namakutula oyo ondyambi yove! (k'ekihi). Ekihi lyati:

—E! Etyi omukai eya p'okukutula, omona wati:

—Me, nthambule-ko! Onkhondyi yange... Ina emutambula-ko. Ati:

—Me, nthambule-ko! (Ohihipo yae yotyihambo...) Ina emutambula-ko. Ati:

—Me, nthambule-ko! Ame... kala nawa... neya! Ame Mphang'Olutyito. Nelityita. Hatyitilwe. Omona eya. Ekihi lyeya aliti:

—Neya k'otyipuka tyetu napopile. Omukai wati:

—Otyipuka napopile... Ame, omona wange naeta, etyi tyityatyo vali. Kwelikalela. Naeta omona ou upopya.

—Matulingi ñgeli? Omukai wati:

—“Bom?! Pahe tyino ame mandyiende k'epya. Mandyikasa-ko omphumba yange. Ove omu ulifika m'omphumba yatyo. Ame mandyimutumu okuti: “keipole?! Ekihi alilifika m'omphumba. Omona weya watumwa na ina watyinda onkhondyi yae. Ati:

—Ehe! Tate! M'ovihingi... kun'onomphumba... muyahailwa. Hamwe pen'evi vyekuholamena-mo. Omona apolo onkhondyi yae. Tyino ahanda okuyaha, ekihi lyati:

—He! Mukwe, mondyahe! Ame ndyikahi-mo, mutekula, Ati:

—Ove ulinga-tyi m'omphumba ya me? Aliti:

—Aha! Ankho nelifika-mo vala omutenya. Omona wapola-po omphumba atwala ku ina. Ekihi lyeya. Lyeya ku ina aliti:

—Omona kamatuvili ou. Matumulingi ñgeli-ale? Ati:

—“Bom?! Pahe tyino mandyimutumu k'omeva, akatape omeva. Ove ukemuholamena k'okanyombo oko tutapa omeva. Ina watuma omona okutapa omeva. Tyino eya k'okanyombo, ati:

—Ehe! M'omaholi muyahailwa. Hamwe pen'evi vyekuholamena-mo! Tyino omona ahanda okuyaha, ekihi aliti:

—Mukwe, mondyahe! Ame ndyikahi-mo, mutekula! Ati:

—Ame nekuvahile-ale k'epya, k'onguwo ya me... Ove pahe kuno uhanda-tyi tupu? Aliti:

—Aha! Mutekula, ankho naombela-po vala omutenya! —E! Omona watundilila-ko. Tyino akaya k'eumbo ekihi lyekemupinga p'eumbo. —Omona kamatumuvili ou. Lyakaya pu ina. Ina lyemulya-po —ekihi. Okulya-po ina, tyino omona eya, ina ke-po; waliwa-ko. Omona wati ñgana:

—Epuka lina linthyupaula kuna, ngoendela olyo lyalya-po me. Omona waihanwa k'ohamba imwe, atyitiwa: “Eye kuno, ndyin' oyo neivila—ko kuno okutiwa weya n'ovipuka vyae?. Tyino omona aya k'ohamba, ohamba aiti:

—Oveyatyo Mphang'Olutyito, weya n'ovipuka vyove? Ati:

—Ya. Ame Mphang'Olutyito. Nelityita. Hatyitilwe.

—Endyu tuende, tuka “pasiale? apa nkhele, tukaenda-ende k'onyima oku. Tyino akaenda-enda, ohamba yatyituka otyipembe tyondombe. Omona ahamaheye-po p'ondombe opo. Ati:

—Ove ulinga n'oukulu? Otyityi? Omona apinunuka okutyituka omumbyu wokwapya, ohamba tyino ahanda okutokola... Waikila po kuno omuti wokwapya? Omona wati:

—Uhandye! Ame, etyi walingile pana, hekulile! Watundila-po. Waya m'eumbo. Ohamba yati:

—“Bom?! Pahe tyino mandyiipaela omuenda. Yemuipaela ongombe, aiti:

—Nahanda ongombe ei... tyino muhuka kutya... pena vala omankhipa, ohitu aiho walya. Omona wati:

—E! Okutala, m'eimo lyomona, kapondola okulya ongombe aiho ya mundindi. Omona waikula onkhuku yondyimbo. Yati: heye, heye, heye, heye, heye, heye... —Omona wapola-ko onomphati ononkhwana, alya-ko. Ohitu yatyo, ei yapwila m'ondyimbo, m'elungi. Afifila-po, anthiakana-ko otupya k'ombanda yondyimbo yatyo. Tyino kutya, ohamba iya, pena vala omankhipa apopile, ohitu petupu vali. Ati:

—“Bom?! Nthaina himemuvili-ale. Mandyimulingi ñgeli? Ongulohi tyino litaka, aiti: —“Bom?! Utyii? Mandyipolo-ko otyimbundu tyange, etyi tyohulo k'onomphandyi... etyihonyaika n'oluheke, ati: —K'omuhuka tyino kutya, nahanda vala muna vala ohuwe, oluheke mutupu... tyakoywa umwe ngetyi ankho tyikahi. Omona ati:

—E! K'ongulohi tyino litaka, waikula onkhuku yonohinyinyiki. Ombu mbalala n'okukoya, n'okukoya, n'okukoya... Tyino kutya, otyimbundu atyiho tyeyula ohuwe, ngetyi tyakalele-ale. Muhuka tyino ohamba iya aiti:

—Ongetyi?! E! Naina himemuviliale. “Bom!? Pahe tyino, mandyikuavela otyipuka tyimwe. Ankho wetyilinga, mandyikuavela nyoko. Tyino wetyimana umwe, nyoko ndyikupae. Ati:

—E! Tyino litaka aiti:

—Omukwa ou, k'omuhuka tyino kutya, moutyoko vala like n'onkhava, omukwa autokela p'ohi. Ngwe omukwa omunene. Omona waikula etiko-tiko lyokutika omiti. Olyo lyalala n'okutika omuti ó: tike, tike, tike, tike... Tyino k'omuhuka kutya, atyoka like n'onkhava, omuti waalangata. Ngwe omukwa omunene!... Ohamba ati:

—Hó! Etyi walinga netyimona. Nthaina ove ove Mphang'Olutyito, Kwatyitilw'ale. Ove mwene welityita. Kwatyitilw'ale. K'omuhuka tyino kutya, wapopya okuti:

—Enda k'onyima oko! Kapole-ko onthenda ina nyoko. Omona wakapola onthenda ina. Weityatula p'ohi... Ina oyou apa!... Emupungila ononthane omakunyi evali onondema, n'onthwei yambo, n'ononthane omakunyi evali onondume. Akalinga omakunyi ekwana, tyihupe tya kwana onthwei yambo. Omona wapita. Pen'omukwavo wati:

—Ehe! Mukwetu wakaetele-ko ina... ame ndyihekemupola-ko? N'ame mandyikapola-ko me yange! Wapita. Tyino eya ati:

 —Neya okupola me!... Ngetyi alingile mukwetu. Ohamba yemutavela aiti:

—Iya, ankho weya okupola nyoko, iya, kuende k'ononthenda omu muna nyoko? Weya okupola-po onthenda. Okuityatyula p'ohi, mwatundilila onyoka imwe ondande, onene. Aihimbika okumutaata. Avelite, avelite, avelite... Avasa otyindimba. —Mphopile! Ati:

—Pumphama p'ohi. Wankhile, kunkhi vali —Otyindimba otyo. Tyino atala-ko yeya, ati:

—Ehe! Etyi kamatutyivili. Enda. Atyiti: Otyindimba tyienda, ou omunthu uenda. Tyimuta ñgo. Avasa otyimbambi. —Wankhile, kunkhi vali! Tyina atala yeya, aiti:

 —Kamatutyivili. Enda! Avasa oholongo. —Wankhile, kunkhi vali! —Etyi naina kamatutyivili. Tyina ñgo ahakavasa ondyamba, ati:

—Pumphama p'ohi. Onthwe tuvakulu va tyilongo. Okutala-ko oyo iya tupu. Ondyamba aiti:

—Enda, enda. Naina kamatutyivili. Wavasa mBeu, ati:

—Wankhile, kunkhi vali. MBeu wapola omakala, awavaika m'otyipala, ati:

—Tyina ñgo emeya, atyiti: n'omuti ou, na una, na una, na una —Tyina ñgo emeya —uliseta n'omuti watyo. Tyino weliseta n'omuti, nga wavasa enthika lyatyo oilomboka. Oliseta n'omukwavo, nga wavasa enthika oilomboka. Oliseta n'omukwavo; nga wavasa enthika oilomboka. Otyo alinga okuliseta n'omiti, otyo eilomboka, otyo eilomboka, otyo eilomboka... “te? ilikutila m'omiti aviho, aipuko. Tyino elipwa-ko aiho, okuliwingaila m'omiti, pahe mBeu wapopya okuti:

—Enda n'oko uenda na ko! Etyi akaya oko aya na ko, etyi yawinguluka m'omiti omu, kayemumwene vali. Wapita umwe. Pahe ótyati vala: K'otyilongo atundile kekui vali. Kwapwa!

48: O Monstro E A Mulher Gravida

E uma mulher que está com fome. (Estamos em tempo de fome). Foi ela buscar uma lata de feijões, uma só, a casa do monstro. Afirmação da mulher:

—Quando eu tiver dado à luz, será essa a tua recompensa (falando ao monstro). Responde o monstro:

—Está bem! Vinda a altura do parto da mulher, exclama a criança (no ventre):

—O mãe, toma! E o meu arco... A mãe segurou. Ele acrescenta:

—O mãe, toma! (Era o saco dele de quimbanda)... A mãe recebeu. Ele continua:

—O mãe, toma! Eu... põe-te a jeito... eu vim! Eu sou o Autor da geração. Gerei-me eu mesmo. Não fui gerado. E a criança saiu. Vem o monstro e diz:

—Eu venho àquilo de que falei. Diz a mulher:

—Aquilo que eu disse... Eu afinal, o filho que dei à luz, é coisa diferente do costume. E coisa àparte. Eu dei àluz um filho que fala.

—E que éque lhe vamos fazer? Responde a mulher:

—Bom! Eu agora vou até ao campo. Vou lá deixar o meu cobertor. Tu vais te cobrir com esse cobertor. Eu vou mandá-lo lá, dizendo-lhe: “vai buscá-lo?! Cobriu-se o monstro com o cobertor. Veio o rapaz mandado por sua mãe e traz consigo o seu arco. E exclama:

—Nada! Pai da vida! Nos tocos... há cobertores... atiram-se-lhes flechas. Se calhar há por lá coisas que te esperam em esconderijo. O rapaz põe em posição o seu arco. Ao querer lançar a seta, exclama o monstro:

—Atenção! O rapaz, tu frechas-me! Sou eu quem aqui está dentro, meu netinho! Diz o rapaz: —Que é que fazes tu no cobertor da minha mãe? Resposta:

—Nada! Tinha-me coberto apenas, por causa do sol. Pegou o rapaz no cobertor e levou-o àmãe. Volta o monstro. Veio ter com a mulher e diz-lhe:

—Nós não podemos com o rapaz. Que é que lhe havemos de fazer? Diz ela:

—Bom! Eu vou agora mandá-lo àágua, digo-lhe que vá buscar água. Tu fazes-lhe uma espera junto à cacimbazita de que tiramos água. A mãe mandou que o filho fosse buscar água. Ao chegar à cacimbazita, diz ele:

—Nada! Dão-se frechadas na erva. Há talvez por aí coisas que te armam esconderijo! Quando o rapaz se dispunha a desferir a seta, exclama o monstro:

 —O rapaz, tu frechas-me? Sou eu quem aqui está metido, meu netinho! Diz o rapaz: Eu já te encontrei no campo, no cobertor de minha mãe... Que queres tu agora aqui também? Responde o monstro:

—Nada! Meu netinho! Eu apenas me defendia do calor do sol! —Está bem! Saiu dali o rapaz. Enquanto ia para casa, tomou-lhe o monstro a dianteira. —Este rapaz, não o conseguimos vencer. Foi ter com a mãe. E comeu-a —o tal monstro. Tendo comido a mãe, ao chegar o rapaz, a mãe não aparece. Foi devorada. O rapaz disse assim:

—Aquele mostrengo que acolá me perseguiu, foi ele se calhar que comeu minha mãe. Foi o rapaz chamado a casa de um rei, nestes termos: “Que venha cá, ouvi dizer que ele nasceu com certos instrumentos seus?. Assim que o rapaz se apresentou ao rei, este perguntou-lhe:

—Es tu o “Autor da tua geração?, que nasceste com teus próprios instrumentos? Responde o rapaz:

—Sim. Sou eu o “Autor da minha geração?. Gerei-me a mim mesmo. Não fui gerado.

—Vem daí comigo, vamos dar um passeio, aqui ao lado, vamos aqui para a rectaguarda da casa. Enquanto ia a passear, transformou se o rei numa plantação de amendoim. Mas o rapaz não colheu daquele amendoim. Diz o rei:

—Tu procedes como gente crescida? Que vem a ser isto? E lá vem ele. Afastou-se do lugar. Vai o rapaz e transforma-se num arbusto de fruta madura e quando o rei se preparava para colher fruta... —Tu plantaste aqui um arbusto de fruta madura? Replica o rapaz:

—Não me comas! Eu não te comi, quando tu “fizeste ali aquilo?. Sai dali o rapaz e vem para casa. Diz então o rei:

—Bom! Agora vou matar qualquer coisa para a visita. Matou-lhe um boi e disse:

—Eu quero que este boi... amanhã de manhã... haja dele só ossos e toda a carne a tenhas comido. Responde o rapaz:

—Está bem! Vê (o rei) que em sua barriga de criança não pode meter um boi inteiro. O rapaz abriu a cabacinha mágica do papaformigas 93. E começa o bicho: a cavar, a cavar, a cavar... O rapaz tirou quatro costelas e comeu-as. A carne foi toda para dentro do buraco escavado. Tapou com terra e acendeu um fogo por cima do buraco. Raiou o dia e vem o rei, mas só há osso como ele disse, carne não há nenhuma. Pensa então o rei:

—Bom! Afinal eu não posso vencê-lo. Que éque lhe vou fazer? Assim que se fez tarde, diz o rei:

—Bom! Sabes uma coisa? Vou tomar o meu cestão de celeiro, o da ponta firmada em forquilihas... e ele misturou o conteúdo com areia, dizendo:

—Amanhã pela manhã, eu quero que aqui haja só massango, nada de areia... tudo escolhido exactamente como dantes. Diz o rapaz:

—Está bem! A noitinha, abriu ele a cabacinha mágica das formigas pretas pequenas. Estas passaram a noite a apanhar, a apanhar, a apanhar... Manhã feita, está o cestão inteiramente cheio de massango, como dantes se encontrava. Veio pela manhã o rei e disse:

—Afinal éassim?! Está boa! Portanto eu não posso com ele. Bom! Eu agora vou te marcar certa coisa. Se a fizeres, eu dar-te-ei tua mãe. Se realmente a acabares, eu dou-te tua mãe. Resposta do rapaz:

—Está bem! Ao entardecer, diz o rei:

—Este embondeiro, amanhã pela manhã, vais cortá-lo com um só golpe de machado e o embondeiro cai por terra. O embondeiro todavia era enorme. O rapaz abriu a cabacinha mágica do caruncho que corroi as árvores. E ele passou toda a noite a furar aquela árvore: fura-que-fura, fura-que-fura... Ao chegar pela manhã deu o rapaz um golpe de machado e a árvore rolou pelo chão. E o embondeiro era grande... Exclama o rei:

—Oh! O que tu fazes já eu vi. Afinal és mesmo o Autor da tua geração. Não foste gerado. Tu mesmo éque te geraste. Tu não foste gerado. No outro dia pela manhã, falou o rei dizendo:

—Vai ali atrás. Vai buscar a cabaça que contém tua mãe. Foi o rapaz buscar a cabaça onde, estava a mãe. Jogou-a ao chão rebentando-a... E a mãe, ei-la!... Distribuiu-lhe o rei, vinte vitelas, com o seu touro e mais vinte bezerros. Eram quatro dezenas de reses, tendo por cima da quarta dezena, o touro respectivo. Foi-se embora o rapaz. Mas há um outro rapaz, que diz consigo:

—Nada! Então aquele foi buscar a mãe... e eu não vou buscá-la? Eu também vou buscar a minha mãe! Partiu e ao chegar, disse:

—Vim buscar minha mãe!... Assim como também fez o outro. Respondelhe o rei, dizendo:

—Pois, se vieste buscar tua mãe, não vais então ali às cabaças onde tua mãe se encontra? Veio ele tirar a eabaça. Ao rebentála no chão, saiu-lhe de dentro uma cobra muito comprida, uma grande cobra. E começou ela a persegui-lo. Um atrás do outro, um atrás do outro, um atrás do outro... Até que encontraram uma lebre.

—Ajuda-me! Diz a lebre: Senta-te aí no chão. Morreste, já não morres mais! (Falava assim a lebre). Mas ao relancear os olhos, ei-la a serpente, e a lebre exclama:

—Não, não! Com isto não podemos. Vai te! E então vai-se a lebre e vai-se o rapaz. Mas ela continua a persegui-lo. Encontra o rapaz uma cabra do mato.

—Morreste, já não morres mais! Mas ao vê-la que se aproxima, exclama:

—Não podemos com isto. Vai-te! O rapaz encontrou um cudo.

—Morreste, já não morres mais! —Afinal com isto, não podemos. Ao vir a deparar com um elefante, diz este:

—Senta-te aí no chão. Nós somos os senhores da terra. Mas ao deitar os olhos, ei-la ainda que vem. Exclama o elefante:

—Vai-te, vai-te. Afinal não podemos com isto. Encontrou o Sapo-Concho que lhe diz:

—Morreste, já não morres mais! O Sapo-Concho pegou em carvões e enfarruscou a cara, dizendo depois: Quando ela por aí aparecer, faz-se assim. entre esta árvore e aquela e aquela e mais aquela —quando ela por aí aparecer —tu dás uma volta à árvore. Dás a volta à árvore e ao encontrares-lhe o corpo saltas por cima dela. E vais dar a volta à outra árvore, mas ao encontrares-lhe o corpo, saltas por cima dela. E assim à outra árvore, mas ao encontrares-lhe o corpo saltas por cima dela. E ele assim fez volteando a árvore e saltando por cima da cobra, por cima da cobra, por cima da cobra... até que ela se enrodilhou nessas árvores todas, a todo o seu comprimento. Quando em todo o seu comprimento se havia ela enrodilhado nas árvores. então falou o Sapo-Concho dizendo:

—Vai para onde queres ir! Seguiu ele em determinada direcção e quando a serpente se acabou de desenrodilhar, já não lhe pôs mais a vista em cima. Ele tinha desaparecido. Agora o que lhe sucedeu foi isto: ele esqueceu-se da terra donde tinha vindo. Acabou.

Narrador: Valentim, casado, de 28 anos de idade da etnia dos Gambos (Ngamboe). Gravação: Missão da Quihita, Julho de 1963. Língua: Nyaneka

 

49: Nambalisita

Se ya ina ya Nambalisita okwali hatele omiyo. Efiku limwe takwata edila, telitwala k'eumbo, telipe omwalikadi, nde teliduda, telipake po. Talombwele ounona tati:

—Inamutula-ko nande, osesi nganga mwatula-ko, otalidi-mo, k'efimbo inalipia. Ovakuluñu tavakanwa omalodu, ounona vo tavatula-ko, tavati:

- Tutale nganga talidi-mo sili m'omeva mapiu. Esi vatula-ko, lo lañuka-mo. Ndele vo tavelitata omutenya ause. Esi etango latoka tavafe elamuo vanangale-mo. Lo edila talidi-ko, taliti:

—Tukasikinina ounona va mbangu tavafi outalala!... Nde okalume takahale okulikwata, esi levatuvika, nde taliñukapo. Ndele esi kwasa vo veliwete vali, nde tavelitata. Esi etango lafika pokati k'omutwe, tavamono eumbo. Edila tali m'eumbo. Omweneumbo taufana ounona ava tati:

—Ileni, okakadona aka takaningi omualikadi wange, omuaina handimudipa, oso ehemusunife k'osilongo. Esi emudipa, emupaka m'osihuhwilo. Okakadona kaninga omufimba, ko kadala ei, takelidipa. Takadala vali likwao, kelidipa vali. Efiku limwe telikwayula k'osifidi, nde tati:

—Osifidi esi sakwayula-nge ame ndina omutima mui! Osifidi tasiti: Haikulombwele: Ngenge wadala vali ei inolidipa, lipaka k'osimato sokaanda. Ye esi adala vali ei okwaninga ngasi alombwelwa. Ei esi laninga-ko omafiku, ye eudite latopa, taliti:

—Ndadia-mo, ame Nambalisita, hisitilwe k'omuñu, ame mwene ndelisita... Esi adia po tai ku ina tati:

—Ove auke weile-ko oku? Ye tati:

—Tweile na sokulu, nde okwadipawa. Nambalisita takalifa, esi adia-ko talili. Ye se temupula:

—Oike tolili? —Ye tati:

- Vakwetu tavayolo-nge: Omona wasike wohamba ehena engobe! Engobe edipewa. Nde takalifa vali. Okwadia-ko talili vali tati:

—Ovakwetu tavayolo-nge, esi ndihena eñhambe. Eñhambe edipewa-yo. Ndele talili vali epewe-yo ovapika. Nde takalifa, tamono osipeke satilyana, talombwele ina tati:

 —Tuye k'osipeke 148 tukatole emeke. Ina tati:

—Ame hitola emeke, ndimualikadi wohamba!... Ye tati:

—Tuye ngaho! Vaya, nde inaveuya vali. Nambalisita tatumu osikondobolo tati: —Ngenge ndekutuma ku tate tokatia ngahelipi? Osikondobolo tasiti:

 —Haikatia: Kukulusu! Ye tati

—Ulaí-ne kusi okutonga. Ye tatumu omupia waye, temupula tati:

—Ngenge ndekutuma ku tate, tokatia ngali? Ye tati:

—Haikatia; Fimbo tamunu omalodu, Nambalisita unya aya na ina. Ye tadi-ko-ne n'ovañu vahapu. Nde se tevahange m'ondyila. Nambalisita tati:

—Tate suna! Inaihala okukudipa. Nde ye inaitavela. Nde tati-ne: Tsoke! (taimbi): “Ndaumba oita ya tate Nangolo?. Okwevadipa avese. Se tahupu-po aeke. Nde tati vali:

—Inaihala okukudipa! Ye inaitavela. Nde temudipa. Vo tavai na ina. Tavahange endyila mbali. Nambalisita tapula ina tati:

—Otoi m'ondyila ei ina omatudi “tyanu, tyanu?! Ile otoi mu ai ina omadi “tyololo, tyololo?? Ye tati: Handi mu ai yomadi, ndimwalikadi wohamba! Nambalisita okwaya mu ai ina omatudi. Ina takahanga ekisi, taliti:

—Kakulukadi yambela ondyila! Ye tati: Hina esi ndiyambela ondyila! Engobe dange dayambela ondyila. Nde taliti: Okakulukadi yambela ondyila! Tati:

—Eñhambe dange dayambela ondyila. Lo taliti vali: Yambela ondyila! Ye tati:

- Ndayambela ondyila ovapika vange. Lo taliti vali: Yambela ondyila! —Ame mwene ndayambela ondyila. Nde avese valika-po. Tapadi odi yakalombwele Nambalisita n'okutia: Kunya onyoko valika-po. Nambalisita tadi-ko, aaluka. Ye okwakufa osipeta seuni, ye tesikupula m'edimo lekisi. Nde ovañu avese vadiamo vali. Vo tavai fiyololo tavakafika k'osilongo oko kwadile ina ya Nambalisita. Ndele okwahanga-po omufitu unene. Sekulu ou ahangwa-po tati:

—Omufitu ou ihaukewa. Nambalisita tati: Ame haikeuka! Nde take omufitu, teumane-po. Mongula esi kwasa, vahanga omufitu wafita vali. Nde teuke-po, nde takahondama, okuudite enima taliti:

 —Kokolo, kahwa enda-po apa wakelwe! Nambalisita telikwata nde tasakala omundilo nde teliyofa. Ongula okwahanga vali omufitu wafita, ye teuke vali, okwelihondamena vali, teliyofa vali. Omufitu wapwa-po nde tai k'eumbo. Ye taufanwa ku Kalunga tati: Omuñu wasike eli oku tati ye mwene elisita, ovañu avese ame ndevasita. Nde Nambalisita tati:

—Ame mwene ndelisita. Nde takongo omanda, n'ondyaba, takongo vali eñwi, n'eñhuyu, n'omaluviluvi. Ye tafikama tai ku Kalunga —Tuye m'osunda sengobe dange! Oñwedi ya Kalunga taldi-mo, yo taitua k'omanda. Kalunga tati: Tuye m'epia lange! Katale apa lifike, tati londa k'okamutala aka! Nambalisita takufa okamuia kaye ekapa Kalunga, kadyale m'ofingo. Kalunga tati: Kamutala kange twala kombada! Ye Nambalisita tati: Okamuia kange lisilila! Nde Kalunga tapondwa. Kalunga tati:

—Okamutala kange kaaluka-ne! Vo tavadi-ko-ne. Kalunga atelekela Nambalisita osifima. Takudi odi yokapuka talombwele Nambalisita taiti: Osifima esi sitoka inosilia, lia esi silaula! Kalunga emupaka m'onduda ihena osivelo. Nambalisita tapula ovamati vaye:

—Olyelye esimona nale esi? Oñhuyu taiti: Ame ndesimona nale! Nde taihupu omututu wakambaduka m'epia. Vo tavatutile m'onduda omatanga... Kalunga onduda teihwike. Omatanga tatopa-ne. Nde Kalunga tati:

—Nambalisita apia! Ye tati: Ame inohwika - nge; wahwika-ngo omatanga. Vo tavai. Tavahange omufitu. Ye tapula ovamati vaye:

—Olyelye esimona nale esi? —Ondyaba taiti:

—Ame ndesimona omukwanangangala! —Nde hwanu! hwanu! Tavai-ne. Tavahange ehenene liadi esosolo 149 . Ye tapula ovamati:

—Olyelye esimona nale esi? Oñwi taiti:

—Ame ndesimona! —Nde tune! Tune! Tavaende k'omatutumbo. Vo tavai, tavahange omulonga. Nambalisita tapula ovamati:

—Olyelye esimona nale esi? Eluviluvi taliti:

—Ame ndesimona nale, omukwanangangala tesiningi. —Nde tunge! Tunge! Vo tavaende kombada yomulonga, tavai k'osilongo savo.

49: Nambalisita

O pai da mãe de Nambalisita costumava armar laços. Um dia apanha um grande pássaro. Leva-o para casa e entrega-o àmulher. Esta tendo-o depenado, mete-o numa panela para o cozer. Recomenda aos filhos:

—Não tireis a panela do fogo, porque se a tirardes, a ave, enquanto não estiver cozida, sai do pote. Ora os pais foram beber cerveja em casa duns vizinhos. Os filhos tiram então a panela do lume dizendo:

—Vamos a ver se a ave sai deveras da água a ferver! Assim que levantaram a tampa, a ave saltou fora. As crianças correm então atrás dela todo o dia. Ao entardecer, puseram-se a cavar uma cova para nela passarem a noite. Neste instante aparece a ave e diz:

—Vou cobrir os miúdos para que não sofram de frio!... O rapaz, nessa altura tenta apanhá-la, mas ela dá um pulo e foge. Ao romper do dia ela aparece de novo e os pequenos tornam a persegui-la. Quando o sol se pôs a prumo, encontraram uma habitação. A ave entra nela. O dono da casa chama os dois jovens e diz:

—Vinde cá. A rapariga vai ser minha mulher. Quanto ao rapaz vou matálo para que não fuja com a irmã para a terra! Depois de o ter morto, enterra-o no urinol. A rapariga fica grávida e dá àluz um ovo. Mas ela parte o. Pare novamente um ovo e despedaça-o igualmente. Passado algum tempo, ela dá com a perna contra um toco e exclama zangada:

—Este toco magoou-me, a mim que tenho maus fígados. Mas o toco põe-se a falar para ela: Quero dizer-te uma coisa: Se tornas a parir um ovo, não o partas mais, mas coloca o antes em cima do tampo do cesto-celeiro! Ela, depois de ter posto novamente um ovo, procede conforme a recomendação feita. Passados dias o ovo estalou e uma voz se faz ouvir: —Eu saí do ovo, eu sou Nambalisita: O A-mim-me-gerei; não fui gerado por ninguém, eu mesmo me gerei... Pouco depois ele chega-se ao pé da mãe e pergunta:

—Tu vieste sozinha para esta terra? —Não! Vim com teu tio, mas mataram-no. O rapaz vai apascentar o gado. Ao regressar a casa ele pôe-se a chorar. O pai pergunta-lhe:

—Porque estás a chorar? Responde o filho: Os meus companheiros fazem pouco de mim, dizendo: Que filho de soba éeste, que não tem bóis? Dão-se lhe bois. Ele torna a ir ao, pasto. Ao voltar a casa, chora como dantes e diz:

—Os companheiros mofam de mim por não possuir cavalos. Entregam-se-lhe cavalos. Chora ainda para que lhe entreguem escravos. Recebe-os. Vai agora novamente ao pastoreio. Ali encontra uma ximénia com frutos maduros; avisa a mãe e diz:

—Vamos apanhar frutos! Esta replica:

—Eu não vou a esses frutos, eu sou mulher de soba. Nambalisita insiste: Vamos mãe! Foram e não voltaram mais a casa. Nambalisita chama agora um galo e pergunta-lhe:

—Se eu te mandar a casa o que vais lá dizer? O galo responde: Direi: Cocorocó. O rapaz diz: Es tolo, não sabes falar. Chama então um servente e pergunta-lhe:

—Se eu te enviar a dar um recado ao pai, o que vais dizer? Eu direi: enquanto fostes beber cerveja, Nambalisita e a mãe foram-se embora para outra terra. O rapaz vai caminhando seguido de muita gente. O pai por sua vez tendo-os (mulher e filho) perseguido, alcança-os finalmente. Nambalisita diz-lhe:

—Pai, regressa, eu não quero matar te! Este porém recusa. Nambalisita dá então um grito e canta: “Declaro guerra a meu pai Nangolo? Investe contra eles e mata-os todos excepto o pai. O rapaz torna a dizer-lhe:

—Não quero matar-te! Este, não faz caso e o filho mata-o. Prossegue então caminho com sua mãe. Chegam a um cruzamento de carreiros. O rapaz pergunta à mãe:

—Queres ir pelo caminho dos excrementos: esmaga aqui, esmaga acolá; ou queres ir pelo que desliza como manteiga; sempre a direito, sempre a direito. A mãe responde: Vou pelo da manteiga, sou mulher de soba! Nambalisita toma o dos excrementos. Poueo depois a mãe dá com um monstro. Este interpela-a: —Velhinha, paga passagem! Responde ela: Não tenho com que pagar senão os bois. O monstro (não se contentando) insiste ainda:

—Paga passagem!

—Os meus cavalos pagam passagem. O monstro torna a exigir:

—Paga passagem!

—Os meus serventes sirvam de pagamento. O monstro continua a teimar:

—Paga passagem!

—A minha pessoa seja oferecida em pagamento. Todos foram devorados. Dali sai então uma mosca que vai avisar Nambalisita: Lá no outro caminho, a tua mãe foi devorada por um monstro. Vai ele imediatamente ao lugar do desastre. Pega num pedaço de casca de maboque e lança-o com força contra a barriga do monstro. Todos os seres devorados saem da prisão da barriga. Em seguida põem-se a caminho até chegarem à terra donde tinha vindo a mãe de Nambalisita. Nesta viagem encontram uma floresta muito densa. O guarda que lá estava diz:

—E proibido derrubar esta floresta. Nambalisita responde: Mas eu vou derrubá-la! E põe-se a derrubar as árvores até acabar com todas. De manhã cedo, olhando para a floresta, vê que toda ela estava reconstituida. Torna a cortar as árvores. Acabada a tarefa, esconde-se para observar o que sucederia: Passados momentos ouve um fantasma que diz: Lalará! Arbustozinho põe-te novamente no sítio donde foste cortado! Nambalisita agarra-o, e acende fogo para o queimar. De manhã o mato apresenta-se de novo cheio de árvores. Ele torna a cortá-las e põe-se novamente a observar e em seguida destroi totalmente pelo fogo o tai fantasma. Removido definitivamente o obstáculo da floresta, Nambalisita chega finalmente a casa. Passado algum tempo, éNambalisita intimado para se apresentar a Deus que pergunta: Quem éesse homem que anda por aí a dizer que se gerou a si mesmo? Pois se todos os homens fui eu quem os criou! Nambalisita respondeu:

—Eu gereime a mim mesmo. Vai ele então à procura de um rinoceronte 95 , de um elefante, convoca também toupeiras, lebres saltadoras e aranhas. Assim acompanhado parte para o encontro com Deus. Este começa por dizer:

 —Vamos ver os meus bois!  O touro sai do curral e o rinoceronte mata-o com uma chifrada. Deus convida-o em seguida:

—Vamos àminha lavra, para veres a sua extensão. Diz ainda: Sobe a este estrado! Nambalisita tira do pescoço o pequeno colar-amuleto e passa-o para o pescoço de Deus. Deus exclama:

—Estradozinho leva-o para cima! (Para o matar). Nambalisita por sua vez brada:

—Amuleto meu esgana-o! E Deus está a ficar estrangulado. Por isso ordena agora:

—Estradozinho desce para baixo! Ambos saem então deste sítio. Entretanto Deus tinha mandado preparar pirão. Aparece uma mosca a avisar Nambalisita:

 —Não comas do pirão branco, mas sòmente do escuro! Em seguida Deus fecha Nambalisita numa cubata sem porta. Pergunta ele agora aos seus rapazes:

—Quem é que viu já, coisa semelhante? —A lebre saltadora reaponde:

—Eu já me vi nestes apuros. Cava então um túnel que dá saída pelo lado do campo. Lembram-se depois de encher a cubata de abóboras... Mas Deus deita fogo à cubata. As abóboras rebentam com estrondo e Deus exclama:

—Desta vez Nambalisita morre Queimado! Este porém responde:

—Não queimaste a mim, queimaste mas é as tuas abóboras! Nambalisita e deus separam-se então. No caminho Nambalisita e o seu séquito encontram um mato muito fechado. Pergunta ele aos “rapazes?:

—Quem é que já viu coisa semelhante? Responde o elefante: Eu jé vi esta coisa, sou pessoa de grande experiência.

—E derruba-que-deriuba até o mato desaparecer. Vã andando e a certa altura vêemse metidos num terreno cheio de abrolhos. Nambalisita pergunta:

—Quem de vós já vin coisa semelhante? A touperia responde: Eu. E vai fazendo monticulos sobre os quais todos passam. Surge então na sua frente um grande rio. Pergunta Nambalisita:

—Quem é que já viu coisa semelhante? Responde a aranha: Eu, que sou pessoa de recursos.

—E vai pondo teias aqui, teias acolá, até todos passarem e irem para a sua terra.

Dados biográficos e outros como no Nº  23. E a primeira vez que esta lenda por nós colhida. se publica na integra. Anteriormente tínhamos inserido um resumo da mesma e alguns excertos em dois estudos: Manifestação tardia do Monoteismo na Evolução da Humanidade? 99 e Etnografia do Sudoeste de Angola 100 . Uma versão com alguns episódios bastante diferentes, para não dizer estranhos, foi recolhida entre os Cuanhamas de além-fronteiras em 1948 e publicada pelo etnólogo norte-americano, E. M. Loeb. Nela o adversário principal de Nambalisita é designado por Omupangeli Wounyuni que Loeb, equipara e com razão a Kalunga, o “deus supremo? dos Cuanhamas?. No entanto, no decorrer da narração este substantivo determinante éomitido, ficando sí o determinado Omupangeli, que em si não significa cutra coisa senão governante, chefe. Desta forma fica algo equivocada e paradoxal a conclusão da história em que Nambalisita, mediante um “ar impestado?, que fez surgir. dá cabo do seu adversário, instalando-se ele no seu trono'.

50: Nambalisia [II]

Opopo lumwe. Omukai wakutula eyiyi. Kutule eyiyi olyo akatolela ina, ati:

—Elo, nakutula eyiyi! Ina ati:

—Eyiyi olyo kelipake k'omutwe wokambundu. Iya, omukai ou okupo'a eyiyi clipake k'omutwe wokambundu. Etyi lyakala-po ononthiki, eyiyi olyo alitutana, aliti umwe: Tuta! Amutundu omona, ati: Ame Nambalisita! Nelityita, anahatyitilwe na munthu. Anehena mukulu, anehena ndenge. Iya, okupula ina:

 —Omphange yange ulipi? Ati: Una waya k'omulonga, vena Namatako na vakwavo vali, vakafwa onohi. Ati: n'ame oko mandyiende. Iya okumutala omona ou omunthu un'ononkhono ononyingi. Ovimbwa vyae ovinyama aviho vyohika. Iya, okulipaka m'ondyila. Etyi ati k'ondongi, wevevasa ovahikwena vafwa onohi. Iya evekukwinya ati: Okunyangei! Ava vamwe avetavela. Iya omupika ou Namatako, ati:

—Pahe havilulu vala ovyo vikahi n'okutukukwinya? Iya okuya n'okaluhonge okuhimbika okuveta m'omona. Iya vakwavo avati:

—Muhemuvetei vali. Tyipondola hamwe omphange yetu. Iya ongontyo vemuyeka. Ati: Pahe tuendei, ame neya okumu landula. Matuende k'eumbo Oku mwaihenwa. Yauke m'omeva, ovahikwena aveya avateleka okulya. Teleke okulya, avati:

—Tuendei pahe. Okuliyumba m'ondyila, avati: Tukwata k'ondyila ya matwi —miankhu, miankhu; ine tukwata k'ondyila ya mulela —ndyololo-ndyololo? Iya Namatako etyi omupik'ale uhamono omulela nga vakwavo, ati:

—Tukwatei oku kun'omulela. Iya okuya k'ondyila yomulela, naina oko aveya vavasa ombala yomakihi. Iy'o makihi aati:

—Lalelei apa, muheliyumbei vali m'ondyila k'ounthiki. Lalei! Aeveavela ondywo omu vakalala. Iy'omona ati:

—Ndati! Ame hilala m'ondywo, ame mandyilala vala pano p'ondye. Iya, ovinyama vyae okuviihena. Aviya avikala p'onthele yae. Ovahikwena avanyingila m'ondywo. Iy'omakihi k'ounthiki m'okwatala okuti ovana velele avahande okuliyomba na veye okuveipaela-mo na valye. Iy'omona ati:

—Ndati! Tyina otyityi muhanda okulinga? Omakihi om'okumoneka okukondoka. Iya, lale ngotyo ló kwatya. K'omuhuka omakihi ati:

—Ove ulinga Nambalisita. Enda na mukwenyi. endei mukalise onongombe. Iya, omona om'okulupula onongombe avai na vakwavo k,onongombe. Ovahikwena atyitiwa:

—Salei apa n'okutwa, mulinge ohinde na mupole-ko onkhuta yenyi yokuenda. Naina ohinde oyo, itwa ovahikwena, omakihi vahandele na vatwe ohinde oyo ilinge onkhuta yavo yokuvelya. Iya kuna k'onongombe, omona kakalele. Otyo akoya omainya, okukoya omainya, okukoya omainya oviila. Iya otyo eepaka nawa. Ava velí p'otyini n'okutwa. Iya, omona kuna, k'onongombe elivake-ko. Eya wavasa onomphange veli k'otyini n'okutwa. Iya, omuhikwena wike okumupaka einya yonkhumbinkhumbi, k'omutwe. Omuhikwena einya: omuhikwena einya... Iya una Namatako, na emuhitise etyi emuvetaile, emupake einya lyolumbamba m'omutwe. Iya ati: Tuendei!

—Ahimbika okuimba, ati: Nonkhumbi-nkhumbi mbange, yelela, tuendei! Kakele kolumbamba. sala sala p'ohi! Iya. aveho naina avakatuka, avahimbika okukatuka n'okuenda n'op'eulu. Omakihi avati:

—Ngeno twevelile-ale: Ngeno twe velile-ale!  Ou Namatako tyetyi ena einya lyolumbamba, uti vala akatuka atokela p'ohi. Omakihi aveya-po. Tyino vahandele okumukwata, akatuka vali. Ongotyo ló omona emulingila okankhenda, eya vali emupake einya lyonkhumbi-nkhumbi m'omutwe. Otyo pahe akatuka nawa. Otyo ñgo vaenda n'okuimba: Nonkhumbi-nkhumbi... (ut supra). Iya, avaende m'ondyila. Omukwendye ati:

—Namatako walya tupu unene ngotyo onohi: Iya, m'omuti matukalapela kamunininwa! Iya Namatako una ketyitele ondila. Hike m'omukwa, omu valapela. Namatako una okuyeka-ko. Iya, omukwa auikuka, auveikila-mo m'okati. Iya, mavalingi-tyi vali? Omukwa wevelya; veli m'okati komukwa. Omona ati:

—Namatako, haityo nekutolele? Muna m'omuti kamunininwa. Pahe oñgeli ngetyi? Iya, omona natyimwe va'i apondola okulinga. Pakala ononthiki n'ononthiki, peya okamwalikai, keya okutiava ononkhwí. Omwalikai weya m'ombwelo yomukwa watyo omu, n'onkhava: Pú! Pú! Iya ovana ovo m'okati avahimbika n'okuimba: Ove kakulukai ove! Pú! Pú! Nkhele wapumaine-ale! Pú! Pú! Uketuhepule k'eumbo! Pú! Pú! Uti: Omukwa walya ovawa. Pú! Pú! Walùa Nehova ya Nyange Omuin gona. Omwalikai ati: Hum; Pahe otyityi tyiimbila vali m'omukwa omu? Ati: Ndati! Mandyivete-mo vali. Omwalikai okuveta-mo vali m'omuti. Ungwe ovana vahimbika vali n'okuimba: Ove kakulukai ove! Pú! Pú! Nkhele wapumainc-ale! Pú! Pú! Uketuhepule k'eumbo! Pú! Pú! Uti: Omukwa walya ovawa. Pú! Pú! Walya Nehova ya Nyange Omuingona! Omwalikai ati: Nanyo m'omukwa omu mun'ovanthu. Okutunda opo n'okukahateka, okuenda k'eumbo, okukapoya k'ovoina a Nambalisita. Okutehela. Ame nakatiavele ononkhwi m'omukwa. M'omukwa okupuma-mo, muna mamupopi okuti: Ng'ove, kakulukai, nkhele wapumaine-ale, Kahepule k'eumbo. Uti: Omukwa walya ovawa. Walya Nehova ya Nyange na Kamya ka Ndyolondyondyo omuingona. Tyetyi avahiwa vekahi n'okunyunga ononkhela. Ina yatyo ya Nambalisita hakupola otyimphwena? Hakutyiyululila omwalikai m'otyipala. Omwalikai okukelipukumuna. Ati:

—Tuendei vala. N'onwe mwene vahekulu mukelitehelelei-ko. Ovanthu avemukwame. Omwalikai eya n'onkhava yae apumu m'omuti. M'omukwa amuhimbika okuimba: Ove kakulukai... Avati: Naina otyili. Pahe omwalikai wati:

 —Endei k'eumbo, kapolei ongombe yombulu onthikovei. Oyo muenda mukase pola, na iye kuno, ivehitululile-mo m'omuti omu vekahi. Iya, avakaeta ongombe oyo. Ongombe etyi yeya ailisete n'omukwa. Etyi yavandala lwike vala —mboo!... —omukwa auliikula, avatundu-mo. Vehike nawa k'eumbo, omona okutyihipulula okuti:

—Ove oñgeli mwaenda-enda ngetyi? Ati: Onthwe ongotyo twaenda enda. Nevevasa k'ondongi, avanthelekela okulya. Andyiti: hihande. Pahe andyiti:

—Tuendei k'eumbo. Okuya k'eumbo, avati: Tuenda k'ondyila yo matwi ine ya ndyololo-ndyololo. Kuna naina oko twavasa otyipundo tyomakihi. Iya vana omakihi aevepaka m'ondywo na tulangale-po. Vana naina vahanda okuveipaa. Pahe ame okuvekoyaila omainya, andyivepake m'omitwe. Pahe ongetyi twakatuka. Okuya okutolela ou Namatako okuti: M'omuti kamuninwa, una walingila wina. Omuti hakutuyeilila-mo. Pahe ngetyi mweya okutupola-mo, ngetyi tweya ñgana. Ewa! Ina wati:

—Ove ulinga Nambalisita, kuende. Tava yove Huku, wekuihena. Oko uende. Na muende mukelikukwinye na e. Ati: Etyo! Okutyinda ovinyama n'oviti vyae elipake m'ondyila. Iya, Huku una okumulavisa. Apake-ko elunga lyomeva na atale oñgeli meya okuyauka. Iya, etyi ehika p'elunga opo, ati:  

—Pahe onwe mulinga ovinyama vyange, onombwa mbange, olye upondola okutuyaula m'omeva omu, na tuende? Ove Ndyamba, utyivila otyo? Ndyamba ati:

—Ahau! — Ove Nkhulika, utyivila otyo? Nkhulika ati:

—Ahau! —Olye utyivila? Euvi ati:

—Ame ndyityivila. Ati: Nanyo amuho londei k'omwongo wEuvi, Euvi na lituyaule. Iy'aveho avalondo k'omwongo wEuvi. Euvi n'ekuti:

—Tanthu-tanthu... avayauka omulonga. avekehulila himba lina. Iya Huku apake-ko vali tyimwe otyinene, apake-ko ohika yomiti vimwe ominene-nene. Omukwendye Nambalisita apulu ati:

—Kauvi, utyivila etyi? Ati:

—Ahaú! Ame hityivili. —Iy'ove Ndyamba? Ondyamba ati:

—Ame ndyityivila. —Amuho londei ku Ndyamba na tuendei. Avalondo aveho k'Ondyamba. Londé, Ndyamba ahimbika okuteya-teya omiti ovyo? Avai. Iya, vehike kuna, velivasa, avelikukwinya, velikwatesa ko. Ati:

—Weya, tava? Ati: —Neya. Ati:

-Tuende ukatale okamuti kange keli pana. Ong'oko uenda kuna ukeketale. Nambalisita ati:

—Tuende. Hiké p'okamuti opo, ukwata.  

—Ove pahe londa k'okamuti kange aka. Ou ati: Ndati, Tyina ndyilonda k'okamuti kove aka. Ove n'Ove usala n'ohiva yange ei p'omunyino. Iya, omukwendye ou alondo k'oka muti oko. Huku ati: Kamuti kange, twala! Ou na e ati: Hiva yange, leka-ko! Tyina ou wati: Kamuti kange, twala, okanmti kekula, kaya vali n'op'eulu. Ou na e ati: N'ove hiva yange, leka-ko, ohiva na yo aileke. Ina etyi yaleka, Ou ati:

—Leta. Ou na e ati: Muyeka. Ou na e ng'opo atuluka, ohiva yae eipolo-ko. Ati:

 —Tuende tukatale ongombe yange ili kuna, onkhambe yange. Ati: E! Okuya okuhika k'ongombe, ati:

—Hetekela vala okulonda na utale! Ati: Tyino ame ndyilonda k'ongombe yove oku, ohiva yange p'omunyino wove kaikamba-po-ale! Opo lumwe una yokuipaka. Ou ati: Ngombe yange, twala! Ou ati:

- Hiva yange, leka-ko! —Ngombe yange, twala! —Hiva yange, leka-ko! Otyili tyino ohiva yaleka, ou akondoka. Iya pahe, mané ngotyo, okutuluka k'ongombe oko, avelikukwinya. Ati: Naina n'ove un'ononkhono, tulit'we nawa atuho. Iya, ngotyo okaluñgano ka Nambalisita kapwa. Ou okukondoka k'eumbo lyae.

Sambwllikiti pahe omwonwe.

50: “A-mim-me-gerei?

Pois é ele mesmo. Uma mulher deu à luz um ovo. Posto cá fora o ovo, foi falar dele à sua mãe e disse-lhe: Olha que eu dei à luz um ovo. E a mãe: Esse ovo. vai pô-lo em cima do cocuruto de um cestão. Pois aquela mulher pegou no ovo e põ-lo no cocuruto do cestão do mantimento. Passados dias, o ovo rebentou fazendo assim: Bum! Saiu de dentro um rapaz que exclamou: Eu sou o “A-mim-me-gerei?! Gerei me eu, não fui gerado por ninguém. Nem tenho irmão mais velho, nem mais novo. Pôs-se então a interrogar a mãe:

—Onde está a minha irmã? E esta:

—Ela foi ao rio, está com ela Namatako e mais umas outras. foram à pesca. Diz ele: Eu também lá vou. E é que a vê-lo, um rapaz assim é pessoa de muito poder. Como seus cães, traz consigo toda a bicharia do mato. Ei-lo a caminho. Chegado ao rio. encontrou as raparigas na pesca. Cumprimenta-as dizendo:

—Boas tardes! Algumas responderam. Mas uma escrava de nome Namatako, declarou:

—Ora isto não são cumprimentos de gente reles? E ei-la que se aproxima com uma vergasta e bate no rapaz. Observam as outras:

—Não lhe batas mais. Quem sabe se não será nosso irmão. Por isso o deixou ela. Diz o rapaz:

—Vamos lá, eu vim procurar-vos. Vamos para casa, pois lá vos chamam. Tendo saído da água vêem as raparigas fazer seu cozinhado. Terminada a cozinha disseram:

—Vamos agora. Ao tomar seu caminho, exclamam:

—Vamos pelo caminho dos excrementos, esmaga aqui, esmaga acolá; ou tomamos o que desliza como manteiga a direito, sempre a direito? Namatako que era escrava e não lobrigava manteiga como as outras, adiantou:

—Vamos pelo caminho que tem manteiga. Vieram pois pelo tal “caminho de manteiga? onde afinal deparam com uma grande aldeia de monstros-papões. Dizem então estes:

—Passai aqui a noite, não vos metais mais por esses caminhos pela noite. Dormi! E ofereceram-lhes aposento onde fossem dormir. Ora o rapaz observou:

 —Não! Eu não durmo em quarto, eu durmo só aqui fora. Chamou então a sua matilha de bichos. Estes vieram e dispuseram-se ao pé dele. As raparigas foram-se para dentro do quarto. Ora os papões de noite, notando que as raparigas já dormem, querem vir àsorrelfa, para matá-las e comêlas. Mas diz o rapaz:

—Não! Que é isso que pretendeis fazer? E ei-los os monstros que retrocedem. Assim dormiram até pela manhã Pela manhã, dizem os papões:

—Tu que és Nambalisita. Vai com outro pastor e ide levar os bois ao pasto. O rapaz tira então os bois do cur ral e vai com mais companheiros para a pastoricia. As raparigas dizem-lhes assim:

—Ficai por aqui a pisar grão para fazerdes farinha e terdes assim vosso farnel de viagem. Mas afinal aquela farinha que elas moem, querem os monstros que elas a moam, mas para ser acompanhamento deles mesmos para as comerem. Mas é que lã entre os bois, o rapaz não ficou inactivo. Ia colhendo penas, colhendo penas, colhendo penas de aves. E guardava-as. Elas vão pisando no almofariz. Entretanto o rapaz esgueirou-se de ao pé dos bois. Deparam-se-lhe as irmãs ocupadas no almofariz. Dirige-se ele a uma rapariga e põe-lhe uma pena de cegonha em cima da cabeça. A esta rapariga uma pena; àquela uma pena... Quanto àNamatako por questão de castigá-la por lhe ter batido, põs-lhe uma pena de noitibó, em cima da cabeça. E gritou:

—Vamos!

—Pega então ele a cantar assim: Ó minhas cegonhas, é levantar voo, vamos! Quanto à do noitibó, vai ficando ai no chão! Todas pois levantaram voo, começando a voar e a elevar-se nos ares. Exclamam os monstros:

—Deviamos tê-las comido! Deviamos tê-las comido! A Namatako, visto que tem uma pena de noitibó, esvoaça a levantar e pousa outra vez. Os papões acorrem. Ao pretenderem agarrá-ia, ela torna a levantar voo. E assim foi acontecendo até que o rapaz teve dó dela e retrocedeu a impor-lhe uma pena de cegonha na cabeça. Foi então que voou a valer. O rapaz continua a entoar seu cãntico. O minhas cegonhas... (ut supra). Prosseguem caminho. Observa o rapaz: A Namatako comeu também muito peixe. Ora na árvore em que vamos pousar, não se defeca! Mas Namatako não lhe deu ouvidos. Chegados a um embondeiro ali pousaram. O Namatako, essa, não suportou, largou a evacuaço. Então o embondeiro abriu se e fechou-os lá dentro. Que é que eles vão fazer agora? O embondeiro engoliu-os, encontram-se lá dentro. Observa o rapaz:

—O Namatako, não to disse eu? Aqui nesta árvore não se defeca. Que éisto agora? Ora o rapaz nada mais pode fazer. Passaram-se dias e dias e, aproxima-se uma velha que anda à lenha. A velha chega até debaixo do embondeiro referido, com seu machado: Pa! Pa! Os jovens lá dentro começam a cantar: Ó velhinha, ó velhinha! Pá! Pá! Desde que para ai bates! Pá! Pá! Vai dar a notícia a ! Pá! Pá! Dize: O embondeiro comeu gente preciosa! Pá! Pá! Devorou Nehova de Nhangue, a propria filha. Resmunga a velha: Oh! Que é que canta ali dentro do embondeiro? E acrescenta: Não! Vou bater uma vez mais. E a velha voltou a bater na árvore. Ora, os jovens recomeçam o seu cãntico: Ó velhinha, ó velhinha! Pá! Pá! Desde que para ai bates! Pá! Pá! Vai dar a noticia a casa! Pá! Pá! Dize: O embondeiro comeu gente preciosa. Pá! Pá! Devorou Nehova de Nhangue, a própria filha. Conclui a velha: Afinal aqui dentro do embondeiro há gente. Sai dali a correr e vai para casa anunciar à mãe de Nambalisita. Eis o que ouvem: —Fui por aí à lenha até a um embondeiro. Ao bater neste, ouve-se falar lá dentro assim: Então tu, velhinha, há tanto aí a bater, vai levar a notícia a casa. Dize: O embondeiro comeu gente preciosa. Comeu Nehova de Nhangue e Câmia de Ndjolondjondjo, a própria filha. Ora, a mãe estava a preparar . Por isso, a mãe de Nambalisita, pegou nas papas que tinha em mãos e despejou-as na cara da velha. Esta afastou-se a limpar a cara. E diz:

—Vamos. Vós próprias ide lá escutar. Assim foi seguida daquela gente. Aproxima-se a velha com seu machado e bate na árvore. E o cântico recomeça dentro do embondeiro: Ó velhinha, ... ... ... ... ... ... Exclamam: Afinal éverdade. Ensina então a velhinha:

—Ide a casa, ide buscar um boi mocho de cor preta. Ide buscá-lo que é para ele vir cá e libertá-los da árvore em que se encontram. Pois foram então buscar o boi. Vem de lá o boi e começa por dar uma volta ao embondeiro. Soltou um único mugido —mú!... e o embondeiro abre-se saindo de lá os jovens. Tendo chegado a casa a salvamento, conta o rapaz o sucedido, pois lhe perguntam:

—Como é que tu seguiste um caminho destes? Responde: Nós andamos desta maneira: Encontrei-as junto ao rio e cozinharam-me de comer. E eu para elas: Não quero. E acrescentei: Vamos para casa. A querer vir para casa, elas interrogaram-se:

—Vamos pelo caminho dos excrementos ou pelo que corta a direito? Ora viemos nós afinal a encontrar uma aldeia de monstros. Ora esses papões puseram-nas mini quarto que passássemos a noite, Mas o que eles querem é matá-las. Pus-me eu a colher-lhes penas de ave e coloquei-lhas nas cabeças. Foi assim que levantamos voo. Ora a dizer à Namatako: naquela árvore não se defeca e ela fez de propósito. Assim a árvore nos engoliu. E sucedeu então que viestes tirar-nos de lá e assim aqui chegamos. Bem! Diz a mãe:

—Tu que és Nambalisita, vai, pois tou companheiro, Deus, chamou te. Diz que vás? E para vos cumprimentardes. Resposta:

—Está bem! Carregou então com sua. matilha e seus paus e pôs-se a caminho. Ora Deus arma-lhe uma cilada. Interpôs um mar de água para ver como poderia atravessá-lo. Assim que chegou àquela massa líquida exclamou:

—Então vós que sois a minha matilha de animais, vós os meus cães, qual de vós pode fazer-nos atravessar esta água, para seguirmo. s viagem? Tu, Elefante podes fazê-lo? E o Elefante respondeu:

—Eu não! —Tu, ó Leão, tu és capaz de tal? Responde o Leão, dizendo:

—Eu. não! —Quem é então capaz? Diz a aranha:

—Sou eu capaz disso. E o rapaz: Então subi todos para as costas da Aranha, para ela nos atravessar. Pois todos se puseram às costas da Aranha. E lá vai a Aranha. Aguentaaguenta... e atravessaram aquela massa de água até à outra margem. Surgiu então outra coisa enorme posta por Deus e foi ela uma mata de árvores grandes, muito grandes. Pergunta o rapaz, Nambalisita assim:

—Aranha, podes veneer isto? Diz ela:

—Não, eu não posso. —E tu, Elefante? Responde este:

—Sim, eu posso.

—Trepai todos para o Elefante e vamos. Todos foram para cima do Elefante. Postos em cima dele, começa o Elefante a partir todas aquclas árvores. Assim prosseguiram caminho. Chegados do outro lado. encontra-ram-se, cumprimentaram-se e apertaram as mãos. Diz Deus:

—Vicste. companheiro? Responde:

—Vim. E Deus:

—Vem dai a ver uma àrvorezita que tenho acolá. Vai até lá vê-la. Diz Nambalisita:

—Vamos. Chega ao pé da árvore e toca-lhe.—Sobe agora a essa minha àrvorezita. E o outro: Não. Subindo eu à tua à rvorezita, também tu ficas com este meu amuleto ao pescoço. Subiu então o rapaz àquela pequena árvore. E “Deus? exclama: O àrvorezita, vai com ele (mata o)! E o rapaz:

—Amuleto meu, esgana-o! Enquanto um diz: Minha árvore, vai com ele, a àrvorezita cresce e vai subindo no ar. Mas o rapaz também diz: Tu também, amuleto meu, esgana-o, e o amuleto vai esganando. E como esganasse, diz Deus:

—Volta com ele. E o rapaz: Larga-o. O rapaz desceu ali da árvore. E foi retirar o seu amuleto. Diz então “Deus?: Vamos ali ver um meu boi, que me serve de cavalo. Resposta: Está bem! Chegados ao pé do boi, observa:

—Experimenta montar nele a ver! Mas disse: Enquanto eu monto no teu boi, o meu amuleto não sai do teu pescoço!

—E imediatamente o colocou. Diz “Deus?: Vai com ele, meu boi! Resposta do rapaz: Amuleto meu, esgana-o! —Vai com ele, meu boi! —Amuleto meu, esgana-o! E assim, pois que o amuleto esganava, o rapaz voltou. Acabado isto, desceu do tal boi e cumprimentaram-se. Exclama “Deus?: Também tu tens realmente força, nós equivalemo-nos. Desta maneira acabou o meu conto do Nambalisita. O rapaz voltou para sua casa. E o açaimo agora enfia-se em vós (em um de vós).

Dados biográficos e outros como no Nº 4. Podia tecer se uma longa série de considerações sobre estas três lendas que fundamentalmente versam o mesmo tema. Nas três é apresentado o mesmo protagonista, uma espécie de Super-homem (não no sentido Nietzscheano, é claro) que teve um nascimento fora das lcis naturais. No primeiro caso o ser estranho é dotado de linguagem humana, mesmo antes de nascer, nos dois outros, ele põe-se a falar, logo depois de ter saido dum ovo. E as primeiras palavras são para declarar o seu nome que manifesta alto e bom som, pelo seu significado, a maneira extra-naturai do nascimento. Vale a pena examinar de mais perto os dois vocábulos. Segundo o P.e Silva, de acordo com o sentido actual dos seus componentes o termo composto Mphang'Olutyito significa pròpriamente: geração permanente 101 . Porém pelo contexto vê-se que o sentido deste nome não pode ser outro senão o indicado. Nambalisita em lingua Cuanhama significa à letra: “Fulano gerou-se a si mesmo?. Como na segunda versão do conto em epigrafe figuram muitos elementos de uma narrativa simllar que corre entre os Dongas —etnia Ambó ao Sul da fronteira —convém aqui acrescentar o nome que nela se dá o herói a si mesmo. Isto é tanto mais importante que o último se apresenta bastante diferente dos dois analisados. O termo é: MpambaIsita. Ora o primeiro dos dois vocábulos significa Deus, o Ente Supremo, não só em língua Donga, mas também no falar das restantes etnias Ambós. E verdade, este nome é mais empregado em poesia do que em prosa, conforme se explica na Etnografia 102 . O termo Isita é o mesmo que nas outras línguas e provém do radical s ita ou tyita com o sentido geral de criar, gerar. Por conseguinte Mpamba-Isita quer dizer: Deus criou ou gerou directamente, sem que fosse necessário uma gestação normal. Na lenda Nhaneca, o tal Ente émuitas vezes chamado Omona e embora este termo Banto não especifique o sexo, não há. dúvida nenhuma de que se trata de um rapaz. Se fosse necessária uma prova desta asserção, bastaria o gesto da entrega de um arco frecheiro àmãe antes de nascer. Por isso não éde admirar que na segunda versão de Nambalisita se use correntemente o termo Omukwendye, rapaz. No entanto as variantes Cuanhama e Donga preferem empregar o nome próprio, com que o rapaz se crismou a si mesmo. E de observar ainda que parece inferir-se das quatro narrativas 103 que nenhum dos protagonistas passou pela fase de infância da vida, tendo chegado instantâneamente àadolescência. Também não consta que um deles tenha em segulda contraído matrimónio. Por outro lado, dos “rapazes? da primeira e segunda lenda não se afirma que tenham tido irmâos ou irmãs, enquanto se declara expressamente que os da terceira e quarta viviam com irmãs, com uma só o Nambalisita e com três o Mpamba-Isita. O facto de os primeiros serem filhos únicos é com certeza mais consentâneo com a sua categoria de Seres extraordinários. No que diz respeito às grandes aventuras em que os quatro heróis dão mostras da sua superioridade, há umas que são comuns a todos eles: aquelas em que têm de enfrentar monstros. E de esperar de antemão eles sairem vitoriosos das contendas, visto os simples mortais conseguirem igual resultado, mesmo sem disfrutarem dos grandes poderes mágicos, com que os outros nasceram. Nesta série de feitos aventurosos é curioso encontrarem-se episódios que figuram noutros contos como o de pedir passagem a um monstro, inserto na lenda de Nambalisita (cuanhama) igual à ocorrência relatada no conto nº 44 e o incidente das penas de cegonha e de noitibó. em que fica no mesmo pé o herói Nambalisita e a pequena rapariga da narração nº. 19. No entanto a parte mais original e cheia de interesse para o investigador das ideias mitológicas e religiosas éaquela em que se relata que o herói é chamado a apresentar-se ao Deus Supremo. E de notar que é só nas duas lendas de Nambalisita "se narra tal ocorrência. Em ambas o motivo desta ordem ou convite —não se vê bem como se há de definir —é o tal ser ter ido espalhar pela terra fora que ele próprio se gerou, não devendo a ninguém a sua presença no mundo. Mas o epiteto que se lhe atribui na segunda versão caracteriza bem o ambiente moral em que se realizará o encontro. Este não éoutro senão: tava, companheiro; termo que não deixa de implicar um certo grau de igualdade e até fami'iaridade, embora não exclua, nes'e caso, atitude de rivalidade agressiva. Na verdade, no conto cuanhama trata-se a Deus com mais respeito, mas a sequência dos episódios mostra que isto não passa de uma pura conveniência oral. Nos vários episódios da luta contenciosa com Deus, os dois adversários mantêm-se quase em pé de igualdade, pois Nambalisita, além dos seus dotes pessoais de valentia e astúcia, dispõe também de grandes poderes mágicos. Seja como for do desfecho desta singular confrontação, de Nambalisita diz-se que ele, abandonando a luta regressou para a sua terra ou sua casa e nada mais consia do resto da sua vida. Contudo, Deus, esse continua a estar presente, senão tanto por manifestações culturais, mas no fundo da consciência de todos os antigos Bantos do Sudoeste de Angola. Resta dizer uma palavra sobre a introdução algo enigmática e misteriosa da lenda cuanhama. Por mais voltas que se queira dar, não se consegue achar-lhe um sentido razoáve, a-não ser talvez o de nos apresentar a mãe do herói... e indicar o motivo por que ela e mais o irmâo abandonaram a casa paterna. Este não éoutro senão o comportamento estranho e cheio de manigãncias mágicas do passarão que o pai tinha apanhado numa armadilha. Indirectamente, pelo menos, a mesma ave ocasiona a perdição do rapaz e favorece o matrimónio da irmã com um dos maiorais da terra. Neste trecho do conto há ainda outro facto insólito e que se relata sem comentário: o enterro do desgraçado rapaz no urinol da cerca. Para se poder avaliar melhor toda a indecência que encerra tal procedimento, convém lembrar aqui que entre os Cuanhamas —os quais não possuem cemitérios —cada habitante das cubatas, divididas em várias secções de um “eumbo? tem o seu de sepultura destinado polo costume tradicional. O do “dono da casa?, éno curral dos bois do rapaz solteiro, no dos vitelos, uma mulher dentro da pequena divisão onde se situam as suas cubatas, uma rapariga, no lugar dos almofarizes de farinação. Por aqui se pode ver que o tio materno e chefe do c ãfamiliar de Nambalisita sofreu, depois da morte a maior das injúrias. Porquê? Não há explicação a dar, pois estamos em plena atmosfera misteriosa. Consideremos agora lendas que apresentam analogias em duas etnias de Angola —os Vimbundos e os Ambundos —Não é que as não haja também noutros povos, mas dessas não temos conhecimento e mesmo se isto fosse o caso. não as poderiamos inserir nestas considerações por excederem o âmbito deste nosso trabalho. Entre os Vimbundos corre a fama de um ser fabuloso, extraordinário de nome Kalitangi. Hauenstein que publicou duas pequenas narrativas sobre este herói, não indica o significado do apelido por julgá-lo evidente para quem conheça o falar desta gente ou então ele acha suficiente a explicação que o herói dá do seu nome e da sua actividade: Eu sou Kalitangi que embaraça a “Deus?. De facto no seu Dicionário etimológico, Bundo-Português o P.° Albino Alves refere estes significados para o verbo tanga —oku —embaraçar, enlear, atrapalhar. Aqui temos pois o nome relacionado, não com o nascimento, mas com um poder tão extraordinário que parece igualável ao de Deus. Quanto ao nascimento, Kalitangi emparceira-se com o herói da lenda Nhaneca. Com efeito, segundo uma das variantes da narrativa, Kalitangi aparece neste mundo em forma de um caçador armado e na outra ele despacha o armamento antes de sair ele próprio do ventre da mãe. Onde porém há uma diferença enorme entre os dois heróis, é no indivíduo de quem surgiram para a vida terrestre. O Mpang'Olutyito nasce de uma mãe humana, enquanto que Kalitangi é parido por uma cabra! E verdade que se declara que este animal estava relacionado com um “bode emissário possuindo uma alma do mundo dos mortos?. Hauenstein tem que confessar que “não conseguimos receber uma explicação inteiramente satisfatória desta lenda?. Mais tarde voltou ele ao assunto num trabalho que infelizmente não possuimos e no qual ele põe o comportamento deste Ser fabuloso em relação com o culto dos antepassados. Para terminar esta nótula sobre Kalitangi diremos que ele também não entra em confrontações directas com Deus contentando-se com operar alguns prodigios para desarmar as ciladas que seus adversários lhe armaram 104 Embora de um caráeter bastante diferente, não deixa de pertencer a esta mesma categoria de narrativas a terceira das publicadas por Héli Chatelain. Apelida-se o herói: Na Nzuá dia Kimanaueze, que o editor contràriamence ao seu costume, não traduz. Mas, aqui interessa-nos sobretudo conhecer, ainda que de uma maneira bastante sucinta as aventuras deveras anormais deste filho de soba que teve nascimento natural. O pior é que a mãe durante a gravidez, so se podia alimentar de peixe que o marido mandava pescar no rio Lucala. Daí resulta um conflito com o “génio do rio?, que pretende ter direitos sobre o futuro filho. Este, depois de ter chegado àadolescência, de acordo com o pai, recusa tornar-se amigo do “génio?, entregandose-lhe. Resolve empreender uma grande viagem na qual não atravessava nenhum rio. Para isso o pai eutrega-lhe dois escravos, dois bois-cavalos, duas cabras e duas porcas. Na Nzuá põe-se a caminho. Um dia, no meio de uma grande clareira os animais do mato pedem-lhe uma coisa impossivel de satisfazer. Para se vingarem vão-lhe comer os escravos, os bois, as cabras e as porcas. Em seguida vários bichos, a começar pelos mais ferozes, se aproximam dele, conferindo-lhe grandes poderes mágicos, mais especialmente o de se poder transformar em cada um deles, quando isso lhe aprouver. Assim vai vencendo todos os obstáculos que se lhe opõem na caminhada. Finalmente resolve ir a Luanda. Na fase última dessa viagem pelo ar, ele toma as aparências de um passarinho muito bonito e poisa no pátio do Governador-Geral. A filha do Governador apanha o passarinho e mete-o numa gaiola. Lá o nosso Na Nzuá toma várias vezes a forma de uma formiga e de um rapaz, conforme as conveniências do momento. Ao fim e ao cabo a filha do governador reconhece-o e apaixona-se por ele. Passado pouco tempo contraem matrimónio. Para lhe conferir um alto cargo, o Governador-Geral pede-lhe que vá a Portugal e lhe traga uma filha que andava por lá perdida. Na Nzuá aceita. Transformando-se num falcão e numa águia, ele lá chega, encontra a filha, agarra nela e apresenta-a ao pai. Este entrega-Ihe o governo da Provincia 105 ! Não será fácil encontrar narrativa popular angolana em que se deparem contrastes tão pronunciados como nesta. A magia ligada à vida particular do primeiro Magistrado da Província! Um grau de aculturação quase inconcebivel. Por mais fantasiado que nos possa parecer o irmanar de tais elementos, lá no fundo jaz a ideia de que um poder extranatural, fora do comum, pode ser equiparado ádignidade do mais alto cargo administrativo. Para avaliar melhor esta ordem de conceitos, lembremo-nos que a história foi contada ao douto liingxiista há mais de setenta anos por Jeremias Alvares da Costa, sobrinho dum grande soba da região de Malanje. Para rematar este comentário que já vai longo, acrescentaremos umas reflexões sobre narrativas com elementos análogos existentes fora de Angola. Na verdade este trabalho já está feito e bem feito como se pode ver numa comunicação apresentada pelo sábio etnólogo sueco von Sicard, no Congresso Internacional de Etnografia de Santo Tirso (1963). O seu titulo é: La Naissance miraculeuse dans les contes Bantu. Comparando um grande número de etnias, o autor chegou a conclusões como estas:...; Le futur héros parle déjà dans le sein de sa mére, ou bien immédiatement après la naissance... et il est né avec des armes dans la main et quelquefois accompagné d'un chien... Peu de jours après (la naissance) le garçon est adulte et il va combattre le dragon... Il tue le monstre et délivre tous les êtres avalés, ou bien, englouti lui-même il éventre le monstre du dedans... Il y a un nombre de variantes rapprochant le conte du mythe...

 

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Bibliografia

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CHATELAIN, H. —Folk-Tales of Angola —Fifty Tales with Kimbundu Text, literal english Translation, Introdution and

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ESTERMANN, P.e

 CARLOS. —Manifestação Tardia do Monoteismo na Evolução da Humanidade? Portugal em Africa,

Lisboa, 1946.

—Os “Vátua?. Mensário Administrativo —Luanda, 1951 n.o

 49/50.

—Etnografia do Sudoeste de Angola.

I. Vol. —Os povos Não-Bantos e o Grupo Etnico dos Ambós —Lisboa, Junta de Investlgações do Ultramar, 1956 —2.a

edição, 1960.

II. Vol. —Grupo Étnico Nhaneca-Humbe —idem ibidem. 1957 —2.a

 edição, 1960.

III. Vol. —O Grupo Étnico dos Hereros —idem lbidem, 1961.

—O Sentido da Justiça como Reflexo de alguns Contos colhidos entre os Bantos do Sudoeste de Angola —Boletim do Instituto de Angola, Luanda, 1961.

—Caracteristicas da Literatura oral dos Bantos do Sudoeste de Angola —Primeiro Encontro de Escritores de Angola

—Sá da Bandeira. 1963.

—A Mulher e dois Filhos —Instituto de Investigação Científica de Angola —Luanda, 1964.

—Les Bantous du Sud-Ouest de I'Angola —Anthropos —St. Augustin, 1964, Vol. 59.

—A Possessão Esplrita entre os Bantos (Factos e Reflexões) —Estudos Gerals Universitários de Angola —Sá da

Bandeira —1968.

GUERREIRO, M. VIEGAS —Os Macondes de Moçambique, IV vol. Sabedoria, Língua, Literature: e Jogos —Junta de

Investigações do Ultramar, 1966.

HAUENSTEIN, A. —Mitos, Contos, Provérbios e Fábulas dos Vimbundus e dos Quiocos de Angola, (in: Boletim do Instituio de Angola N.o 2l/23, 1965).

—Les Hanyas —Description d'un groupe ethnique bantou de l'Angola —Wiesbaden, 1967.

JUNOD, H. Ph. —Moeurs et Coutumes des Bantous. 2 Vols. Paris, 1937.

LANG et TASTEVIN —La Tribu des Va-Nyaneka —Corbeil. 1937.

LIMA, MESQUITELA —Os Akixi (Mascarados do Nordeste de Angola), Lisboa, 1967.

LOEB, E. M. —Kuanyama Ambo Folklore in: Anthropological Records; Berkeley e Los Angeles, 1951.

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NOGUEIRA, A. F. —A Raça Negra —Lisboa, 1880.

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RIBAS, ÓSCAR —“Missosso? —Luanda, 1962.

V. SICARD, H. —La Naissance miraculeuse dans les Contes bantu —Congresso Internacional de Etnografla de Santo

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—Ngano dze Cikaranga —Karanga Marchen —Uppsala, 1965.

SILVA. NEWTON da —A Caça e a Protecção da Fauna em Angola —Lisboa, 1968.

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SILVA Pe. ANTÓNIO JOAQUIM —Diclonário Português —Nhaneca —Lisboa, 1966.

NOTES

1 1 “Etnografia do Sudoeste de Angola? I Vol. Os Povos Não Bantos e o Grupo Étnico dos Ambós, Lisboa 1956. 2.a edição 1960. II Vol., Grupo Étnico Nhaneca-Humbe. Lisboa 1957. 2.a edição 1960. III Vol. O Grupo Étnico Herere. Lisboa 1961. No curso deste volume citaremos a obra pela sigla E 1, E 2 e E 3 , referente ao I, II e III volumes. Não havendo indicação em contrário, a paginação é a da I edição.

2 1 Folk-Tales of Angola —Fifty Tales with Ki-mbundu text, literal english translation, Introduction and Notes —Boston e Nova-Iorque 1894.

3 2 Mitos, Contos, Provérbios e Fábulas dos Vimbundus e dos Quiocos de Angola (in: Bol. do Inst. de Angola, n.° 21/23 1965; pp. 13-56) e “Las Hanyas? —Description d'un groupe etnique bantou de l'Angola. —Wiesbaden, 1957. pp. 187 a 198.

4 3 “Missosso? —Luanda, 1962.

5 4 Ngano dze Cikaranga —Karangamarchen —Uppsala 1965.

6 5 Os Macondes de Moçambique, IV Vol. —Sabedoria, Língua, Literatura e Jogos. —Lisboa 1966.

Observação: Como so pode verificar, não éuniforme a grafia de alguns fonemas. Assim. breve escreve-se às vezes com y e a semi-voga! w com u.

7 1 Op. cit. p. 20 e segs.

8 2 Moeurs et coutumes des Bantous —Paris, 1936. II Vol. pg. 189.

9 1 A bert Monard —Contribution àla Mammologie d'Angola, etc. —Arquivo do Museu Bocage —Lisboa. 1936 p. 229.

10 2 S. Newton da Silva —A Caça e a Protecção da Fauna em Angola —Lisboa, 1958.

11 1 Lepus saxatilis.

12 2 Testudo —?

13 1 Corvus scapulatus.

14 2 Bacorvus caffer.

15 3 E 1 p. 203 e 206-208.

16 4 Sylvicapra grimmia.

17 1 Op. cit. p. 22.

18 2 Op. cit. 1956 p. 21-47 e 1967 p. 188 e seg.

19 3 V. E. Anderson —Messianic Movements in the Lower Congo —Uppsala, 1958 —p. 20.

20 4 Lunda —Berllm, 1935 p. 108.

21 5 Lisboa, 1967 p. 18 e sg.

22 1 Op. cit. p. 99.

23 1 Op. cit. p. 281.

24 2 O Sentido de Justiça, etc., in Bol. do Instituto de Angola —1961 —pág. 10

25 3 (Cf.) o nosso pequeno trabalho: Os “Vatwa? (Mensário administrativo —N.o 49-50 —Lunada. 1951. V. cap. 2, 3, 4, 5 da l.a parte de E 1 2.a edição.

26 1 A Possessão Espírita Entre Os Bantos (Factos e Reflexões) —Sá da Bandeira, 1968.

27 1 E 1 p. 230.

28 2 Raça Negra —Lisboa. 1880 —pág. 291.

29 1 E 2 p. 235.

30 1 Op. cit. p. XIII.

31 1 Op. cit. p. 18.

32 1 Primeiro encontro de Eseritores de Angola —Sá da Bandeira, 1963 p. 297.

33 2 Nos povos aquém-Cunene émais frequente ficarem os narradores sentades.

34 3 Op. cit. p. 59 e seg.

35 1 Op. cit. p. XIV.

36 1 Porque se nos virmos ajustaremos contas.

37 1 Estermann, 1963, pp. 298 ss.

38 1 Aegoceros melampus.

39 2 Connochaetes taurinus.

40 1 E. pp. 209/210.

41 2 Op. cit. p. 209.

42 1 Op. cit. 1965. pp. 23/24.

43 1 Rucorvus Leadbeatesi.

44 1 O narrador imita com este lapso, o modo de falar inábil da criança.

45 1 Pettinen 1925-1927 —p. 256.

46 2 Op. cit.1964, p.36 e 1967, pp. 180, 197.

47 3 Op. cit. pp. 126-130.

48 1 Turtur chalcopsilos.

49 2 Quelea quelea lathami.

50 3 Lamprotornis acuticaudus.

51 4 Camaroptera levicaudata

52 1 Op. cit. 1954 —p. 18.

53 1 Op. cit. n.° VI p. 97.

54 1 Também pode significar simplesmente: “E sentarem-se no chão?.

55 1 E 1 pp. 191. ss.

56 1 Cieonia abdimii.

57 2 Strychnos Schumanni.

58 1 Caprimulgus fossei.

59 1 Op. cit. p. 103.

60 2 Op. cit n.° VI. p. 97

61 1 Bol. Inst. Inv. Cientif. Angola —Luanda 1964.

62 2 E 3. pp. 39. ss.

63 3 Op. cit. pp. 190-195.

64 4 E 2. pp. 214, ss.

65 1 Imitação do andar.

66 1 Op. cit. 1967. pp. 195. ss.

67 1 A entalada.

68 1 Clarias capensis.

69 1 E, pp. 172. se

70 1 Desabafo de quem se allviou da carga.

71 1 Op. cit. 1965. p. 63.

72 1 Estermann, 1964, pp. 60, ss..

73 1. Numida coronata.

74 1. E2 pp. 57, ss.

75 1 O rel fica em situação poder descer, embora a explicação do facto não seja apresentada. Nalguns contos em que a situação; análoga se repete éo personagem ardiloso da história quem retira a escada anteriormente posta de encontro à árvore.

76 1 Op. cit. p. 60 (ou: Lang e Tastevin, 1937).

77 1 Varanus albigularis.

78 1 I.é. Já vieram os nossos.

79 1 Edição do Autor —Praia da Granja —Porugal —1968.

80 1 Hauenstein —1965. p. 43-44.

81 2 Op. cit. obs. linguistica no. 365 p. 281.

82 1. Pág. 63 e seguintes.

83 1 Subentende-se que Kaniminimi libertara Nangondwe de uma armadilha de laço, e este livra presentemente Kaniminimi de seus apuruos, fruto de suas aventuras com os monstros. A situação embaraçosa de Nangondwe enlaçado nalguma armadilha se chama “pecado de armadilha? e aos presentes apuros de Kaniminimi, em suas andanças de aventura, se chama “pecado de andanças pelo mato?.

84 2 Haliaetus vocifer.

85 1 (O galo veio pois a tempo de ser admitido na parentela, e a sua entrada na mesma, assim de modo destacado, tem relação com o que depois vai suceder).

86 2 (Este pedaço de frase pinta-nos, em determinada casa, os donos da mesma, colocados diante da sua obrigação de bem receber).

87 3 (Ou porque as conversas e festanças fàcilmente transpõem os limites da casa e são cá fora conhecidas, ou porque o entrecho subentendido do conto faz com que esta última conversa se passe diante de testemunhas pertencentes à“parentela? acima instituida, o certo éque o Crocodilo éaqui quem os interpela).

88 2 (Alusão àcrista).

89 3 Crocodilo e Galo tinham laços de família. Aos da casa de Tyiwana, permitia livremente o Crocodilo que tirassem água do rio, pois que para o galo a levavam também. Agora que mataram o Galo para oferta a visitas, levanta-se inimizade entre o Crocodilo e os seres humanos.

90 4 (É a “gente? do crocodilo que se lança em chusma sobre o Tyiwana. Ao monte de “gente? que cai sobre o incriminado chama o texto “epunda?. literalmente, trouxa).

91 1 Varanus niloticus.

92 1 L e: monstro comerá o filho que vier.

93 1 Cabacinha mágica pertencente ao rapaz e pondo ao dispor deste. o Papa-formigas, quando por ele solicitado.

94 1 Ximénia americana.

95 1 Rhinoceros bicornis bicornis.

96 2 Chrysochloris damarensis (?)

97 3 Pedetes caffer.

98 1 Acanthospermum hispidum.

99 2 Portugal em África No. 15 Lisboa 1946.

100 3 E 1 pp. 215 e seg.

101 1 Mas encontram-se ainda agora signiftcados que sugerem para o radical —panga —a ideia de operar. Assim Okupangiya, consertar; okupanga omphango. fazer omphango, sorte de pau aguçado ou de alavanca aguçada para escavar.

102 2 E1. p. 212.

103 3 Como Já o fizemos, continuaremos daqui em diante a incluir o conto Donga, quando isso interesse ao estudo comparativo.

104 1 Op. cit. 1965 pp. 15 seg.

105 1 C op cit. pg. 65 seg.

106 2 Junta de Investigações do Ultramar —Lisboa. 1965 p. 5.

107 1 Os vocábulos entre aspus, são palavras portuguesas bantuisadas ou palavras bantns aportuguesadas.

108 1 Do verbo okumwimba. Radical —mwimab. Ex: (Talak'ovipala: wekuamba kemwimba). Prov. (Olha para as caras; aquele que murmurou contra ti. nao custa a reconhecer).

109 1 Rhynchotragus damarensis.

110 1 Raphiceros campestris.

111 2 Taurotragus oryx.

112 3 Connochaetes taurinus.

113 1 Plural, por referir-se a ambos.

114 1 Nianga énão fazer o devido caso, não ligar a uma pessoa, geralmente guardando sllêncio. Refere-se ao facto de ficarem lá dentro mãe e filha, no caso do Kungungu. (Bucorvo).

115 2 Okuangulula —Fazer voltar para devolver.

116 1 O narrador imita com este lapso, o modo de falar inábil da criança.

117 1 Corruptela por: “Ndyilandaula?.

118 1 Não éreflexo; o “li? refere-se a Ekihi.

119 1 Bantuização do português “servir?.

120 2 Strepsiceros strepsiceros Pallas.

121 1 Flcus gnaphalocarpa.

122 1 A entalada.

123 1 E actualmente a forma infantil de “Nelvaluka?.

124 2 Do Bundo. (Umbundu).

125 1 Clarias capensis.

126 1 Vigna unguiculata.

127 1 Desabafo de quem se allviou da carga.

128 1 Corythaixoides concolor.

129 2 Dendropicos fuscescens.

130 1 Okuenda —onkhunde-ongombe éseguir na rectaguarda de alguém, mas fazendo por ocultar-se tomando os lados do caminho ou aproveitando-se das voltas deste para se furtar àvista de quem vai adiante. Na Bíblia em Nyaneka há um exemplo do emprego desta expressão a respeito de S. Pedro que segue N. Senhor,preso.

131 1 i.e. uvote-vote-mo.

132 2 A narradora, desta vez, como que corrige o termo “papai?, acrescenta “Wa he?.

133 1 Okuyakula = receber agradecendo (neste caso).

134 1 de Okuluvelela: pedir de comer, visitar àhora do comer.

135 1 Devido ao peso que transporta.

136 1 Do português “barraca? —cubata quadrangular com tecto de duas águas

137 1 Do português dono —quer dizer aqui possuidora.

138 1 Nkhofi e ndumbu são sinónimos de onkhulika (Leaão).

139 1 Nkhofi e ndumbu são sinónimos de onkhulika (Leaão).

140 1 Okalukuhu —cabacinha de recolha dos tubérculos das oxálidas ditas “onoheva?.

141 2 “Eheva? —mato de “onoheva?.

142 1 Subentende-se que Kaniminimi libertara Nangondwe de uma armadilha de laço, e este livra presentemente

Kaniminimi de seus apuruos, fruto de suas aventuras com os monstros. A situação embaraçosa de Nangondwe enlaçado nalguma armadilha se chama “pecado de armadilha? e aos presentes apuros de Kaniminimi, em suas andanças de aventura, se chama “pecado de andanças pelo mato?.

143 2 Haliaetus vocifer.

144 1 (O galo veio pois a tempo de ser admitido na parentela, e a sua entrada na mesma, assim de modo destacado,

tem relação com o que depois vai suceder).

145 2 (Este pedaço de frase pinta-nos, em determinada casa, os donos da mesma, colocados diante da sua

obrigação de bem receber).

146 3 (Ou porque as conversas e festanças fàcilmente transpõem os limites da casa e são cá fora conhecidas, ou porque o entrecho subentendido do conto faz com que esta última conversa se passe diante de testemunhas pertencentes à“parentela? acima instituida, o certo éque o Crocodilo éaqui quem os interpela).

147 1 “Levam água para eles?. Ao galo se referem aqui no plural, sorte de plural de família, como fazem com os humanos também. O galo não existe sòzinho... tem suas galinhas e sua prole.

148 1 Ximénia americana.

149 4 In: Kwanyama Ambo Folklore —University of California Press 1951.

DETALHES

Trabalho do assunto: Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola

Identificador / palavrachave:

Estermann, Carlos, 1896-1976; Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola

Título: Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola

Autor: Estermann, Carlos

Título da publicação: Cinquenta Contos Bantos Do Sudoeste De Angola; Luanda

Páginas: 7-[NA ]

Ano de publicação: 1971

Local de publicação: Luanda

País de publicação: Luanda

Assunto da publicação: Literature

Tipo de fonte: Livro

Idioma de publicação: English

Tipo de documento: Prose, Book

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Última atualização em: 2024-10-10

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Cinquenta 50 Contos do Sudoeste de Angola

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